Costumes, Media, Política

Ana Gomes e a idoneidade

As recentes afirmações da eurodeputada Ana Gomes sobre a idoneidade de Paulo Portas constituem um dos mais vergonhosos momentos da política portuguesa dos últimos anos.

É certo que Ana Gomes, ela própria um caso sério de (falta) de idoneidade, em especial depois destas declarações, faz já parte daquela galeria de inimputáveis do regime, liderada pelo impagável Alberto João Jardim, mas nem isso lhe dá o direito de lançar as mais absurdas suspeitas sobre quem quer que seja, em particular sobre quem não foi pronunciado ou condenado por nenhum crime. Nesta altura deveria dizer que não simpatizo especialmente com Paulo Portas, mas, na verdade, nem sequer é isso que está em causa. O que importa aqui é assumir uma posição de princípio sobre a relevância, ou não, de aspectos da vida privada dos governantes ou dos indigitados governantes para as actividades desenvolvidas no âmbito de uma esfera pública que resulta das actividades inerentes aos cargos políticos.

O que Ana Gomes fez, mais do que lançar uma suspeita, sejamos claros, sobre a suposta homossexualidade de Portas (ou pior, sabe-se lá…), foi lançar-lhe um sério aviso que, na prática, é uma ameaça. A única dúvida é saber se Ana Gomes é, de facto, uma franco atiradora isolada ou se as suas declarações resultam de uma estratégia elaborada a outros níveis. Seja como for, Ana Gomes é a personagem ideal para lançar estas ameaças sem ser levada a sério pela generalidade da opinião pública, ainda que tais ameaças sejam, de facto, para levar a sério pelos visados.

As declarações de Ana Gomes apenas têm paralelo no “Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave“, da autoria do falecido deputado socialista Carlos Candal, que, enquanto candidato por Aveiro à Assembleia da República, nas legislativas de 1995, enfrentou Paulo Portas nesse mesmo círculo eleitoral. Candal, porém, apenas insinua, levemente, mas com ligeireza, a suposta homossexualidade de Portas e fá-lo num documento de combate político em que ressalta uma extensa cultura política e conhecimento da realidade local de Aveiro, em oposição ao desconhecimento de Portas do que por ali se passava. Continuar a ler

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