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Refugiados, Europa, EUA, NATO, Teoria do Caos

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OS REFUGIADOS E A UNIÃO EUROPEIA

A crise desencadeada na Europa pelas sucessivas vagas de refugiados, provocada pelo caos político e económico que foi instalado no norte de África, na África subsahariana e no Médio Oriente é gravíssima. É um drama humanitário brutal, com uma dimensão inusitada, de enormes consequências ainda não totalmente mensuráveis.

Todos os dias notícias e imagens registam episódios alarmantes desse exodo que parece não ter fim. A Europa, a União Europeia começou por não se aperceber da real dimensão da crise dos refugiados. Com o aumento do afluxo diário de homens , mulheres e crianças, com a evidência dos perigos e das mortes provocadas pelas precárias condições que enfrentam os que fogem às guerras e à desordem instalada pela guerra nos seus países de origem, a coesão e solidariedade europeias estalaram o verniz que escondia o que, de facto, não existia na Europa Connosco já bem vísivel nas políticas de austeridade impostas pela Alemanha por interposta Comissão Europeia e suas extensões. Julgavam mal e, vamos dar-lhes o benefício da dúvida, ingenuamente os europeístas mais convictos que os países da UE partilhariam auas responsabilidades a que a pertença ao espaço comunitário automaticamente obrigaria. Toda a história, sobretudo a mais recente, demonstra que essa partilha de responsabilidades no espaço comunitário é uma quase ficção, digna de romances policiais. As disputas económico-financeiras entre os países comunitários, nos mais diversos níveis, são o palco onde essa solidariedade é traída e assassinada com requintes de tragédias shakespereanas.

Em relação à vaga de refugiados acabou por se estabelecer um regime de quotas que só abrange 66 mil desses refugiados, adiando-se para um futuro próximo o destino de outros tantos que, teoricamente serão sujeitos às mesmas regras de proporcionalidade. A aprovação dessa medida vinculativa para os 28 ignorou a oposição às quotas propostas por Bruxelas dos que votaram contra: Eslováquia, Roménia, República Checa e Hungria, a Finlândia absteve-se. No passo seguinte Robert Fisco, primeiro-ministro eslovaco, disse logo que não aceita qualquer imposição da UE relativamente ao acolhimento de refugiados e que irá violar as regras europeias. Disse o que outros pensam e irão certamente fazer, apesar das ameaças, muito pouco diplomáticas do ministro do Interior alemão de cortar fundos comunitários aos países que não acolhessem refugiados. Sanção aos que recusassem aceitar os fugitivos, ao arrepio da súbita generosidade de Ângela Merkel, que abre o coração aos refugiados com a mesma facilidade com que o fechou a cadeado aos gregos. Mistérios pouco misteriosos para quem estiver atento às declarações da confederação patronal germânica. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Órban nunca escondeu ou disfarçou a sua convicção que os refugiados são uma ameaça para a Europa e sempre agiu em conformidade. O partido de Órban integra o Partido Popular Europeu, a que pertencem a CDU de Angela Merkel, o PSD e o CDS, eles que se entendam como se têm entendido em relação às políticas de austeridade. Os já referidos europeístas gostariam que dentro do PPE se demarcassem os campos em relação a essa questão. Um modo de salvar a face democrática na defesa dos chamados valores da civilização ocidental. Um processo também de distrair o mundo sobre as reais razões que provocaram esta crise dos refugiados, de não assumir as responsabilidades sobre o desencadear desta crise, de ocultar as políticas que conduziram a esta crise, em que a Europa comunitária é sujeito activo e passivo.

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A TEORIA DO CAOS

Não é de estranhar que no meio da lava noticiosa que se derrama sobre o mundo, pouco ou mesmo nada se refira sobre o que provocou esta hetacombe. Mesmo as notícias da actualidade sobre a Síria, um dos maiores contribuintes para a onda de fugitivos, mascaram a realidade. Se desde o principio o objectivo de derrubar Assad, em nome dos direitos humanos e da democracia, era de uma hipocrisia extrema e escondia o verdadeiro objectivo de os EUA redesenharem o mapa do Médio Oriente para o submeterem totalmente aos seus interesses geo-estratégicos e conómicos. Assad é um ditador, a Síria não é uma democracia como o Ocidente a entende, mas Assad é, se comparado com aliados árabes dos EUA, quase um democrata. Por esse caminho, estamos conversados. A guerra civil instalada na Síria pela mão dos EUA, NATO e seus aliados árabes e turcos foi montada com exércitos mercenários que rapidamente se passaram com armas e bagagens para a Al-Qaeda e para o Estado Islâmico. Nos últimos dias os soldados treinados, financiados e municiados pelos EUA, para engrossarem as fileiras de um suposto exército de libertação da Síria afecto à oposição “moderada” ao regime de Assad, mal passaram a fronteira turca-síria foram, versão oficial estadodinense “capturados” pela frente Al-Nostra, a Al-Qaeda síria, o que é contrariado por uma mensagem no twitter de um homem forte dessa Frente, Abou Fahd al-Tunis: “o novo grupo da Divisão 30 que entrou na Síria ontem (dia 21) emtregou todas as suas armas à Frente Al-Nostra. Entregaram uma grande quantidade de munições, armas e pick-ups artilhadas.” Todos os antecedentes tornam a versão oficial rísivel e dão razão a Putin e às suas propostas de combate ao Estado Islâmico, a que os EUA fazem orelhas moucas.

Esse é mais um episódio de uma estratégia que vem de longe e que teve os seus últimos desenvolvimentos no Afeganistão, Balcãs, Iraque, Líbia, Síria, Iemen, Ucrania, para referir os teatros de guerra mais sangrentos. Estratégia que se desenhou há dezenas de anos. As estratégias são desenhadas a longo prazo os desnvolvimentos táticos é que são diversos. É a Teoria do Caos imposta pelos neo-conservadores, os neo-cons, que se instalaram no poder nos anos Reagan e Georges W. Bush. Tem sido, com geometrias variáveis, posta em prática pelos sucessivos inquilinos da Casa Branca, uma demonstração das virtualidades da bipolarização, da transmissão de poderes entre os partidos ditos do arco governativo como se pode apreciar em todo o mundo.

A Teoria do Caos que tem por mentor intelectual Leo Strauss. Foi iniciada nos anos 90 a seguir ao desmembramento da União Soviética., a sua teorização é muito anterior e surge em paralelo com a entrada em cena dos neoscons. O acento tónico é colocado na política externa dos EUA para manter a supremacia mundial como superpotência. Vem de mais longe, já em 1979 Irving Kristol, um intelectual e jornalista ex-trotskista, foi o primeiro a afirmar-se como neoconservador e explicou ao que vinha numa artigo com o sugestivo título “Confessions of a True, Self-Confessed ‘Neoconservative”, nas entrelinhas podia-se advinhar o que aí viria.

O grande teórico dessa política pós-moderna neoconservadora é Leo Straass que tem uma enorme influência nesse poderoso grupo da inteligentsia norte-americana. Encapota-se e é apresentado como um demoliberal, um defensor da democracia liberal. Uma leitura, mesmo rápida, do seu livro mais famoso e mais difundido, Direito Natural e História (Edições 70/2009), revela que ele considera que as massas não são capazes de aceitar a verdade, nem de ser livres e que entregar esses valores ao vulgo é quase como atirar pérolas a porcos. Que a condição natural humana não é a liberdade mas a subordinação, o serem conduzidos por políticos sábios. O direito natural é o direito das mentes superiores e esclarecidas governarem os inferiores, dos empreendedores sobre os empregados, mesmo dos maridos sobre as esposas. Leo Strauss, democrata? Com uma enviesada concepção de democracia. Mas não ficam por aqui os teoremas de Strauss. Como admirador de Maquiavel, vai além de Maquiavel. Os meios justificam os fins mas é imperioso o mais completo segredo para proteger as élites de possíveis dúvidas e/ou represálias. As mentiras são necessárias sempre que os resultados as justifiquem. Claro que Leo Strauss não nega as mentiras que explicaram a invasão do Iraque. Achou correcto que a administração Bush as utilizasse para mudar o regime iraquiano. Christopher Hitchens, um seguidor de Strauss, na primeira linha dos defensores da invasão do Iraque, escreveu um artigo com um título que não deixa lugar a dúvidas  Machiavelli in Mesopotamia. Leo Strauss um demoliberal? Uma maquiavélica mentira.

É nesse caldo de cultura, nessa escola intelectual de Leo Strauss, que se formam os neoconservadores e parte substancial da administração norte americana, democrata ou republicana. É aí que se encontram as raízes das teorias de Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem (Gradiva/1999) Um dos seus mais destacdos representantes é Paul Wolfowitz, embaixador dos EUA na Indonésia na altura da invasão de Timor que aprovou os massacres em Dili, poderoso Secretário da Defesa do governo de Georfes W. Bush, mais tarde governador do Banco Mundial. Um defensor acérrimo da supremacia militar norte-americana, opõe-se decidamente a todas as potências rivais, nomeadamente a aliada União Europeia.

Aqui entra Teoria do Caos. Em que é que a União Europeia pode comstituir um perigo para a supremacia dos EUA? Firme aliado e seguidor das políticas atlantistas, a UE inventa uma moeda, o euro, que vai concorrer com o dolar. Faça-se uma rápida e sintética revisão histórica. No fim da Segunda Guerra Mundial , na  Conferência de Bretton-Woods, julho de 1944, foi imposto o padrão dolar-ouro. Nessa conferência foram criados o  Banco Mundial, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o GATT( Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras). Os objectivos eram estimular o desenvolvimento capitalista, bem como a reconstrução e estabilidade económica global. Nos anos 60 a economia dos EUA tem sinais de crise. A Guerra Fria, o desenvolvimento económico de outros países, nomeadamente do Japão e da Alemanha, o crescente endividamento começam a preocupar a administração dos EUA. Sinais que se foram agravando ao longo da década. Nos finais dos anos 60, a libra esterlina, ainda usada, embora residualmente, como moeda nas trocas internacionais sofre um forte ataque especulativo, deprecia-se e desaparece de cena. Estão criadas todas as condições para Richard Nixon, presidente dos Estados Unidos em 15 de agosto de 1971, acabar com a paridade dólar-ouro, decisão ratificada, oytra coisa não seria de esperar, pelo FMI em 1973. Dali por diante, a moeda norte-americana seria apenas uma “fiat currency” ou seja, o ouro não seria mais o garante do valor do dólar, seria , foi substituído pela palavra do governo americano, respaldada no seu tesouro nacional. Essa manobra possibilitou uma outra de ordem contabilistica que, de uma assentada, reduziu em 35% a dívida dos EUA. O dolar, depois os petrodolares, estavam com o campo livre e aberto para todas as manobras financeiras, a maior das quais a de obrigarem indirectamente os países do mundo inteiro a financiarem o seu endividamento crescente, que atinge hoje números astronómicos: 60 biliões de dolares, um quarto da dívida mundial.

O euro surge como uma ameaça para o império do dolar. Ameaça agora agravada pelo progressivo abandono do dolar como moeda de troca no comércio internacional. Dos dois maiores pilares em que assenta a política de supremacia mundial dos EUA, o poder militar e a moeda, um está em risco, em rico muito sério de um dia vermos a nota verde com o valor das notas do jogo do monopólio.

Para continuar a manter essa supremacia mundial, Strauss e os seus seguidores neocons, estabelecem que a forma mais eficaz dos EUA defenderem os seus interesses, garantindo o acesso regular às matérias primas, à definição do seu preço de mercado e ao domínio dos mercados mundiais é pelo cerco a esses países ou blocos de países, instalando o caos nas suas fronteiras.

Wolfowitz, apurou essa teoria, defende que a defesa supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Um aliado para trazer pela trela. É pela mão de Wolfowitz que se tramam as invasões do Afeganistão e Iraque, sempre com a NATO implicada, com ou sem apoio legitimado pela ONU. Vale tudo mesmo as cenas patéticas de Colin Powell a ver se endrominava o Conselho de Segurança com mapas falsificados. Nada, nem nenhum vício lógico, trava essa gente. Depois dele todos os outros, de Condoleza Rice a John Kerry passando por Hilary Clinton, têm semeado o caos nos Balcãs, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen, na Ucrânia.

Quem ainda possa pensar que a Teoria do Caos de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz, são delírios conspirativos na base de um quadro mental que só consegue olhar com desconfiança para os beneméritos democratas norteamericanos, devia por um minuto desligar a cabeça para a reactivar emergindo da ganga propagandistica amestrada e difundida pelas inúmeras agências dos EUA, o seu braço armado NATO, os seus aliados que prestam um inestimável serviço aos desígnios estratégicos do império.

A hetacombe que desaba na Europa, com toda a tragédia humana que provoca, o caos que se vive na Europa que está e atravessa as suas fronteiras associado a um perigosíssimo recrusdecismento da xenofobia e do terrorismo nazi-fascista é real. Vê-se á vista desarmada e só quem é ignorante ou ingénuo ou se quer fazer passar por ignorante ou ingénuo é que não vê que os resultados beneficiam o complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.

A Teoria do Caos não é um mito. Existe, está escrita e teoricamente desenvolvida para quem a quiser ler. Alguns dos seus escaninhos mais tenebrosos até já foram parcialmente revelados em artigos publicados no New York Times e no Washington Post, na base de alguns documentos desclassificados. Uma conspiração secreta ameaça o mundo. Os sinais são cada vez mais evidentes.

Uma terceira guerra mundial está em marcha por interpostos países. Até o Papa Francisco já denunciou, na Semana Santa, que se está a viver uma Terceira Guerra Mundial em pedaços.

Não denunciar este estado de coisas, pensar que são delírios conspirativos, é caminhar num barranco de cegos. Ser cúmplice mesmo que com alma sangrando ao ver fotos de crianças mortas nesta fuga desesperada.

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A Europa Connosco em 7 pontos

ruinas gregas

1. Angela Merkel e Wolfang  Schaulbe têm um número treinado, bem afinado conhecido há séculos. O do pide bom e do pide mau, com a experiência gestapo. Está em cartaz há vários anos na Europa Connosco. Torturam os povos europeus por interpostos governantes submissos. Sujeitam os recalcitrantes para tudo andar pelos carris das suas ordens.
2. Hollande, Renzi acreditam na primavera merkelliana. Opõem-se até cederem e cedem sempre. Na última representação do teatro de sombras que são as reuniões dos governantes europeus, ficaram muitos satisfeitos por evitar o grexit. A que custos para os gregos e para quê? Salvar o euro que não a Grécia. Remendar os buracos do pano de cena que oculta o palco onde, em sessões contínuas, está em cartaz a comédia-dramática Os Últimos Dias da Europa.
3. Pedro, o Super-Homem de plástico, teve uma ideia e salvou a Europa. Primeira nota, o Pedro também tem ideias, o que o deve deixar exausto, pior do que estar exposto a kriponita. Segunda nota ter ideias para ajudar ao saque e ao esbulho não honra ninguém, mesmo um Passos Coelho.
4.  Marisa Matias tinha a mão no tapete, mas não o puxou com a ilusão que o Syriza e o seu querido Tsipras conseguiriam que a sua (má) proposta fosse aceite pela Alemanha e seus submissos pares europeus. Nada melhor do que ter fé! Depois de Fátima há que acreditar em milagres mesmo contra todas as evidências! E agora, Marisa?
5. A mulher de Alexis Tsipras vai pedir o divórcio? Divorciado do povo grego e de todas as esperanças que andou a espalhar pela Europa já ele está. Merkel e Schaulbe estriparam-nas a sangue frio. Esquecem-se, Tsipras também, que há sempre alguém que resiste.
6. 6. Nas estratégias militares às vitórias de Pirro adicionou-se um novo paradigma: as derrotas de Pirro.
7. No horizonte da Europa anuncia-se um futuro radioso. Depois da derrota do III Reich, o triunfo do IV Reich. Em marcha a transferência efectiva de Bruxelas para Berlim. Os países que não se declararem aliados serão submetidos e transformados em protetorados. A Grécia foi o primeiro. Outros se seguirão. A Solução Final avança!

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Internacional, Política

Também na Alemanha

BundestagUma das consequências das recentes eleições alemãs foi o completo desaparecimento do FDP, Partido Liberal Democrático, do Parlamento federal. Os liberais democráticos são uma provecta entidade política que participou em praticamente todos (*) os governos alemães após a II Guerra Mundial, coligando-se ora à esquerda ora à direita.

Atente-se em como o facto terá reflexo directo na taxa de desemprego alemã. Cada um dos 93 deputados federais do FDP no anterior Bundestag tinha um orçamento que lhe servia para dar emprego a três ou quatro colaboradores; a que se acrescenta um outro conjunto de colaboradores, estes sediados nos respectivos distritos eleitorais. Estima-se que cerca de seiscentas pessoas venham a perder os seus postos de trabalho em virtude de o FDP ter sido “expulso” do parlamento federal alemão.

Partido recordista em participações no Governo, o FDP deixará ainda de receber uma subvenção estimada em cerca de três milhões de euros.

Pelo que aqui se regista, bem se percebe que até numa democracia tida por austera e disciplinada, como a alemã, há que pagar os custos do sistema partidário. Ter pessoal de apoio e pagar-lhe. Haja eficácia na governação que os cidadãos o aceitarão sem grandes discussões.

(*) Com a CDU/CSU (1949–1956, 1961–1966, 1982–1998 e 2005-2013) ou o SPD (1969–1982).

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Internacional, Política

A Nova Alemanha

Longe vão os tempos em que os dirigentes alemães primavam pela discrição com que lideravam um país que cumpria pena por ter provocado um conflito mundial de que resultaram milhões de mortos, uma destruição inaudita e um novo mapa da Europa. Esses tempos fazem parte do passado e os actuais governantes alemães assumem sem complexos o poder político que o peso da sua economia lhes confere. A Europa, a olhar para a história, assusta-se com o renascer germânico. Alemanha que seria também mais sensata se recordasse a essa mesma história, a mais recente e a mais longínqua.

Com o fim da guerra fria e a reunificação alemã, a França e o Reino Unido deixaram de ser as maiores potências do lado ocidental do continente. Pequenos e médios poderes tiveram que começar a conviver com o crescente poderio do gigante alemão, inicialmente só na economia, mas mais recentemente também na política. Como não lembrar agora o quão premonitório foi, em 1992, o papel decisivo desempenhado pela Alemanha no desmembramento definitivo da antiga Jugoslávia, forçando a então CEE a reconhecer a separação croata?

Generosamente imbuídos no sonho europeu do tempo das “vacas gordas”, a maioria dos poderes nacionais da comunidade europeia apoiaram, quase sem hesitações, a unificação alemã e financiaram-na. Foi, diga-se, uma tarefa hercúlea, aquela a que a Republica Federal Alemã (RFA) deitou então mãos ao absorver a esfacelada RDA. Mas foi uma tarefa em que não esteve só e em que foi generosamente apoiada pelos fundos europeus. Contaram com a simpatia e o apoio dos outros povos europeus, que fizeram vista grossa à memória de episódios históricos não muito longínquos como a guerra franco-prussiana (1870-71) ou os dois conflitos mundiais da primeira metade do seculo XX.

Com uma parte muito significativa da Europa em crise e afundada na recessão, a Alemanha emerge como o país vencedor da década do euro. Sendo já de per si um mercado de importante dimensão (82 milhões de habitantes e um PIB per capita de 44.555 dólares), a  União Europeia sucessivamente ampliada transformou-se numa extensão desse mercado, consumindo os produtos e as mercadorias produzidos pela eficaz indústria alemã. Mérito alemão? Certamente. Mas não só.

As recentes declarações da chanceler alemã, a democrata cristã Angela Merkel e do social-democrata, também alemão, Martin Schulz, Presidente do Parlamento Europeu, mostram o quanto se transferem para o espaço público opiniões que antes os altos responsáveis apenas segredavam nos bastidores da política. E mostram a displicência com que se permitem tratar um país, em situação difícil, mas parceiro numa mesma comunidade de Estados.

As declarações da chanceler alemã são desfasadas no tempo e pouco inteligentes. Não foi a aplicação dos fundos europeus efectuada na Madeira (como noutras regiões europeias) ao longo de décadas o resultado de opções políticas europeias? Que incentivaram as infra-estruturas, nomeadamente rodoviárias, agora consideradas erradas mas aprovadas pelos mesmos que continuam a decidir os destinos nos dias que correm?

Quanto a M. Schulz, mais analítico e prospectivo, resolve de uma assentada classificar a opção angolana de Portugal com o recurso à novela do ex-colonizador, ignorando que as relações entre povos transcendem questões políticas. Que lição quis ele dar aos portugueses? Que estamos condenados a “comer da mão” dos grandes da Europa? Claro que imagem do Portugal bom aluno da troika fica manchada com estas aventuras africanas em demanda de capitais, aparentemente mal vistas pelo directório europeu. Mas o bom aluno é pobre e os seus vizinhos europeus não facilitam a vida.

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economia, Internacional, Política

Negócios da grécia

Da Grécia contaram-se e contam-se as mais mirabolantes histórias para demonstrar como os trabalhadores eram uns privilegiados, os serviços públicos e as empresas estatais primavam pela má gestão e por dar benefícios extraordinários aos seus funcionários. Todos se lembram dos celebrados 15 meses de ordenado, que supostamente os assalariados gregos recebiam e que afinal mais não era que o subsídio de férias ser cumprido em duas faias iguais. Histórias não faltaram na comunicação social para demonstração urbi et orbi de que o povo grego era preguiçoso e andava a viver à tripa forra, era o grande culpado do défice público que colocara a Grécia á beira da bancarrota. Esse jornalismo estipendiado e mercenário existe para prestar serviço ao poder do capital. Aliás deve-se consultar quem são os accionistas da comunicação social para percebermos o que é a liberdade de imprensa e para que servem os critérios jornalísticos. As montagens noticiosas constroem imagens falsas para fazer uma barragem de fumo sobre a realidade. Se a queremos conhecer, ainda que parcialmente, temos que respigar por todo o lado para construir um puzzle que nos aproxime dela.

Em relação à Grécia o que é actualmente relevante, demonstrador do enorme cinismo dos que lêm impões pacotes de austeridade sobre pacote de austeridade, é que, submetida a um apertado controlo da troika, com a imposição de um brutal empobrecimento e de perdas de direitos  que atingem o povo grego sem dó nem piedade, continuem a ser feitas despesas que agravam  o endividamento enormemente. Num país a sofrer uma crise tão desmesurada, é autorizada a compra, aos EUA, de 400 tanques Abrams e de três fragatas à França , para grande raiva da Alemanha que, depois de vender dois submarinos (nos últimos anos tem vendido mais uns tantos) se vê preterida neste negócio da grécia. Continuar a ler

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