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Não temos medo?

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Janet Leigh em Psico de Alfred Hitchoock

Não temos medo? Claro que temos medo! Devemos ter medo! Uma criança sem medo é um perigo para si-própria. O medo faz parte do seu desenvolvimento. Se não temos medo estamos, também, a ser um perigo para nós-próprios. Temos que ter a coragem de ter medo!

Medo dos atentados de terroristas islâmicos, mas também medo da vigarice intelectual que faz discriminação entre atentados. Um atentado na Europa, mesmo que faça muito menos vítimas, tem uma importância muitíssimo maior que um atentado na Síria, no Iraque, no Burkina-Fasso, na República Centro-Africana. Mesmo na Europa, um atentado em Bruxelas tem mais favor noticioso que um atentado em Moscovo. Também devemos ter medo desse desequilíbrio informativo, porque esse medo nos dá a lucidez de ver o que é uma boa demonstração de como funcionam as centrais que controlam a comunicação social o que se agrava nas centenas de artigos sobre o terrorismo islâmico, inquinados na sua esmagadora maioria por uma xenofobia evidente ou disfarçada, entrincheirada em factos e evidências, misturando em doses cada vez mais letais medo com segurança e prevenção o que acaba sempre em ataques às liberdades individuais, procurando tornar aceitáveis, mesmo desejáveis as suas restrições, como Macron está a tentar impor em França.

O nosso medo é outro, tem que necessariamente se demarcar do que essa gente espalha para abrir caminho a um fascismo de novo tipo, mesmo que provisoriamente tenha fachada democrática. Medo do terrorismo islâmico, medo do terrorismo sionista, medo de qualquer terrorismo venha de onde vier, medo da manipulação política, leia-se o discurso de Passos Coelho no Pontal, e mediática de que o mais acabado exemplo é o Observador e o seu pelotão de comentadores. Faz-nos medo para perdermos o medo.

Todos os atentados terroristas provocam vitimas inocentes mas nós, todos nós potenciais vitimas inocentes, temos uma percentagem de culpa nesses atentados por termos ficado passivos, complacentes ou dado apoio por omissão a políticas que andaram a usar o monstro nos seus fins estratégicos.

Que fizemos para denunciar os talibãs no Afeganistão, então chamados de combatentes da liberdade? Que fizemos quando se desmembrou a Jugoslávia e surgiram os primeiros terroristas, como hoje os conhecemos, na Bósnia e depois no Kosovo? Onde estávamos quando da invasão do Iraque com todo o rol de mentiras que a justificaram? Que dissemos à guerra na Síria levado a cabo pela Al-Qaeda e o Estado Islâmico? E aos batalhões do mesmo Estado Islâmico que estão no terreno na Ucrânia ao lado dos eufemisticamente apelidados de nacionalistas ou ultra-nacionalistas que são de facto assumidamente nazis? Saddam Hussein era um sanguinário ditador? Era, mas só o descobrimos após e Bush assim o assinalar isto depois de, por interposto Rumsfeld, lhe ter oferecido umas esporas em ouro? Bashar alAssad é um ditador? É, mas até é um democrata se comparado com o rei da Arábia Saudita ou os emires dos países do Golfo. Combate a Al-Qaeda e o Estado Islâmico que esses estados apoiam com armas e bagagens, com a complacência activa e cínica do ocidente, em particular os EUA e a Grã-Bretanha, apesar dos povos dos seus países e dos países seus aliados na NATO, serem vitimas colaterais de insensatas jogadas políticas ao serviço de grandes interesses económicos.

Hoje o mundo, não só o mundo ocidental, até ameaçado por um terrorismo que se tornou imprevisível, usa armas que fazem parte do nosso quotidiano. Temos medo e a sorte de não termos estado em Manchester, Bruxelas, Berlim ou Barcelona. Não sermos uma das vitimas inocentes de um desses ataques que não foram a tempo detectados pelos serviços de segurança. Vitimas inocentes como as que todos os dias morrem no Médio-Oriente, em África, na Ásia que não morrem ou quase não morrem nos media. Essa dissemelhança também nos deve fazer medo.

Como nos deve fazer medo que, por cálculo político e inconfessáveis interesses económicos, se mantenham óptimas relações diplomáticas, lembre-se, entre outras a última viagem de Trump à Arábia Saudita, com o Kuwait, o Qatar, o Barhein, os Emiratos Árabes Unidos e sobretudo a Arábia Saudita, países amigos que são por demais conhecidos como financiadores não só dos grupos terroristas como das mesquitas salafitas, localizadas pela Europa, onde se faz propaganda da sharia. Dirão que se está a atacar o multiculturalismo, a não respeitar as diferenças culturais. Na realidade é o inverso. É não aceitar que rasteiramente se confunda e venda a ideia que uma religião, um seu culto particular, seja condição natural para ser veículo do terrorismo. O que se condena é a sharia como se condena o nazismo sem cair nas armadilhas não inócuas de se reduzirem as vitimas do holocausto aos judeus, de se valorizarem atentados terroristas como o de Barcelona e quase se rasurar o de Samsara, ou pensar que o atentado neo-nazi em Charlottesville foi consequência de uma disputa política entre duas facções radicalizadas, como o fez Trump. O automóvel em Barcelona é o mesmo de Charlottesville, igual aos armadilhados que têm explodido um pouco por todos os continentes. As facas usadas em Londres, são iguais às de Sourgout e Turku. Procuram atingir o maior número de vítimas inocentes com a garantia que uma comunicação social de jornalistas e comentadores necrófagos irá propalar o medo, misturado em doses bem calculadas com os mantras do je suis, não temos medo, etc,. sobrepondo-o à segurança e prevenção que, perante os factos se mostraram insuficientes, para fazerem uma cruzada, melhor ou pior disfarçada, contra as liberdades. Os fascismos convergem mesmo quando e se as suas direcções parecem opostas. Ver, ouvir, ler as notícias, as opiniões e os comentários e dos leitores a essas torrentes, é assustador. Disso também devemos ter medo, o medo saudável das crianças que lhes garante a sobrevivência e lhe dá consciência para enfrentar os perigos.

Temos medo e devemos ter medo para o usar para analisar lucidamente os labirintos deste nosso perigoso mundo. Não nos refugiarmos em respostas fáceis e slogans de momento, separar o trigo do joio, condenar o terrorismo e condenar quem o incentivou e depois escondeu a mão que continua a dar vigorosos apertos de mão e a colocar assinaturas firmando negócios multimilionários com quem directamente manipula esse teatro de horrores.

Temos medo, por isso nunca mais estaremos ausentes das frente de luta pela paz e cooperação entre os povos de todo o mundo, a forma mais eficaz de lutar contra os que financiam as bombas, os que as armadilham, os que as rebentam, o que as utilizam para nos cercarem dizendo que nos querem salvar, fazendo respiração boca a boca com o Grande Irmão de Orwell.

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A cacofonia anti-Trump. Uma carta ao meu amigo Zé Teófilo

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Meu caro Zé

Andas muito activo na cacofonia anti -Trump, com galerias de fotos que enfim…umas acertam outras não. São os teus ódios de estimação com uma base errática de análise política. Trump é um protofascista, xenófobo, racista e sexista? É claro que é! Mas atiras ao lado quando te fixas nesses alvos e não olhas para os que são mais importantes. Já lá vamos de forma simplificada, embora te aconselhe a leres o texto do Pacheco Pereira, um homem que mesmo que não se concorde sabe pensar! Primeiro umas notas que considero importantes sobre o que tens escrito. Desde o principio da campanha eleitoral nos EUA, um circo longo que começa nas primárias, não vi um único texto teu, provavelmente porque estava distraído, sobre os golpes baixos da Clinton e da camarilha do jornalismo mercenário que a apoiava a mando de Wall Street e da alta finança, contra Bernie Sanders denegrindo-o desde o primeiro momento em que surgiu como alternativa. Nem um só texto sobre o papel da Hillary Clinton primeiro  como apoiante da invasão do Iraque, da agressão à Jugoslávia (um parenteses Milosevic o Carniceiro dos Balcãs foi absolvido por unanimidade pelo TPI dez anos depois de morrer nos cárceres desse mesmo TPI) e depois como secretária de Estado que comandou o ataque à Líbia, com os resultados que estão à vista e a frase grandiloquente embrulhada num rasgado sorriso “Viemos, Vimos e Matamos” celebrando a morte de Khadafi. Nem sobre o ataque à Síria, tentando repetir o “êxito” líbio, armando, treinando e financiando a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, no que foi travado pela intervenção da Rússia. Nem sobre  o seu apoio ao golpe de estado para-fascista na Ucrânia, com a actívissima sua colaboradora Vitória “Que se Foda a Europa” Nuland. Ucrânia onde combatem ao lado das milícias fascistas batalhões do Estado Islâmico. Nem um só texto sobre de denúncia às golpadas da sra Clinton que nos debates com Sanders sabia previamente as perguntas que lhe iam ser feitas e as que iriam ser feitas a Sanders ou as manobras miseráveis a seu favor da cambada que comandava a Convenção Democrática que a escolheu como candidata à corrida presidencial que foram tão escandalosas que os obrigaram a demitir-se deixando a máquina a funcionar, para mal do pobre Sanders que se contentou com essa demissão.

Também não vi uma só palavra de crítica e condenação a Madeleine Albright, uma grande apoiante “feminista” de Clinton que disse que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras!” , referia-se ás que apoiavam Sanders contra Clinton e que no programa 60 Minutes do canal CBS respondeu à jornalista que a questionou sobre a Guerra no Iraque: “Ouvimos que meio milhão de crianças morreu. Quer dizer, isso é maior do que o número de crianças que morreu em Hiroshima. E, enfim, será que o custo de uma guerra como essa compensa?.” respondendo prontamente: “Acho que é uma escolha muito difícil, mas o custo – nós consideramos que vale a pena arcar com ele.” Nós quem? Todos aqueles, a comunicação social estipendiada e a rapaziada que anda pela internet que se a frase tivessse sido dita, nem era preciso tanto só uns 10% daquela ignominia, por Putin ou pelo presidente do Irão em relação à guerra em curso contra o estado Islâmico na Síria e no Iraque teria caído o carmo e a trindade contra aqueles monstros frios e bárbaros.  Nem é preciso referir a diferença de tratamento mediático que se faz sobre as batalhas em curso em Mossul e Alepo, em que os civis de uma são usados como escudos humanos pelo EI e da outra como vítimas do exército sírio e dos russos! A falta de vergonha e decência é total e absoluta e os que não denunciam essa dualidade seus cúmplices. Mas claro, as clintons e as allbrights e já agora os obamas é que são os simbolos da democracia e do mundo livre.

Como tu são muitos os que centram a campanha anti-Trump no seu machismo, sexismo, xenofobia, misogenia, um erro só explicável por estrabismo político. Clinton era o paradigma da globalização Wall Street. Hillary Clinton era a candidata do complexo militar-industrial, do capital financeiro internacional. Cientes que ela iria colocar em prática os diktats de Wall Street apoiaram-na com entusiasmo. Derramaram meios financeiros brutais, puseram em marcha a comunicação social ao serviço da plutocracia. Gente que são o 1% dos que beneficiam dos contratos de armamento, dos acordos comerciais em curso. Contra isto os norte-americanos votaram em Sanders e Trump, lixando-se contra todos as sombras negras que envolvem Trump. Sanders foi trucidado, Trump venceu prometendo voltar a tornar a América grande. A abissal e incontornável diferença entre eles é que Trump tem a mesma raiz de Clinton. A árvore é a mesma, a poda é que é diferente. Os americanos votaram em Trump que não é Hitler. A história não se repete. E deve-se lembrar que o muro que prometeu construir a separar o México dos EUA começou a ser construído por Bill Clinton, se pensarmos num muro total podes verificar que mais de um terço já existe. Trump é perigoso? Claro que é mas não é nem mais nem menos perigoso do que Hillary Clinton. A sua vitória tem que ser vista como consequência do brutal declínio moral e intelectual do sistema político norte-americano que também contamina os sistema políticos europeus. Isto é que são os aspectos fundamentais e não o foco nas lutas ditas fracturantes que são importantes mas são adjacentes e parcelares da grande luta que tem que ser empreendida contra o sistema. Nos EUA, Sanders  à sua maneira e os outros candidatos de que ninguém fala, Jill Stein e Gary Johnson fizeram-no. O primeiro foi passado a ferro com os golpes mais sujos pelo sistema e na prática demitiu-se na Convenção dos Democratas, dos outros ninguém quase ninguém ouviu falar, o sistema silencia-os ab initio.

Há uma enorme dúvida: o que irá acontecer na casa Branca? Tudo o mundo se interroga e está em suspenso.

Por cá, a eleição de Trump pondo de lado as diatribes cacofónicas sobre a sua misogenia, racismo e xenofobia, tem efeitos curiosos. A direita que se demarcava, por causa desses traços de Trump, recicla-se a alta velocidade porque sempre defenderam, de forma clara ou surda, a destruição da legislação social, dos direitos sociais, a proibição do aborto, a igualdade de género, os direitos da comunidade LGBT e porque, lá bem no fundo, gostam dos tiques  autoritários de Trump. Lá chegará a altura de o defender abertamente, basta ler o Observador, esse farol da direita portuguesa, e atentar na evolução das notícias e comentários sobre as eleições nos EUA desde o principio.  Nas esquerdas pálidas e rasteiras fez com que muitos direitolas travestidos de esquerdinhas tirassem a cabeça de fora. É ler Rui Tavares, esse idiota útil, a defender com unhas e dentes a Nato e as suas políticas agressivas, no meio de delírios bálticos, o acordo de livre comércio  TTIP, a visão da Merkel e a consequente hegemonia alemã na EU. Um bródio.

Termino citando o lúcido artigo que Pacheco Pereira que subscrevo por inteiro:  A vontade de mudar, o elemento mais decisivo nestas eleições, foi parar às piores das mãos, mas foram as únicas que lhes apareceram. Quando Bernie Sanders, outro “antiquado”, cuja candidatura “falava” para estas mesmas pessoas, foi afastado – conhece-se hoje o papel de um conjunto de manobras dos amigos de Hillary Clinton no Partido Democrático –, ficou apenas Trump. E, como já disse, não tenho a mínima simpatia por Trump, a mínima. Mas tenho uma imensa simpatia pela vontade de mudar, que tanta falta faz nos dias de hoje nas democracias esgotadas na América e na Europa.»

Meu caro Zé Teófilo, um pouco mais de distanciamento e discernimento político nas análises o que fará baixar radicalmente o volume dos sound-bytes.

Se calhar irei publicar esta “carta” na praça do Bocage.

Amigos como sempre.

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Eleições nos EUA

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Fotografia de Robert Frank, City Fathers,Hoboken, New Jersey in /The Americans

Democracia.Democracias

Democracia é, etimologicamente, o “poder do povo”. Significa literalmente que o povo pode escolher os seus líderes em condições de igualdade e liberdade. Abraham Lincoln proclamava que a democracia se fundava no exercício do voto, era «o governo do povo, pelo povo e para o povo». Um idealismo que outro fundador do conceito moderno de democracia, Jean-Jacques Rousseau, contestava pondo em causa a democracia ficar reduzida ao cumprimento do formalismo eleitoral. Defendia que a democracia não é compatível com minorias muito ricas e maiorias na pobreza. Criticava o parlamentarismo inglês do séc. XVIII: «os ingleses acham-se livres porque votam de tantos em tantos anos para eleger os seus representantes, mas esquecem-se de que no dia seguinte a terem votado, são tão escravos como no dia anterior à votação». Para Rousseau, um opressor não pode representar o oprimido. Um patrão não representa um empregado. Uma questão central no conceito de democracia.

Lénine foi mais incisivo: democracia para quem? Um governo «dos ricos, pelos ricos e para os ricos» não se chama democracia, mas plutocracia.

Debate que continua actual. Sem sequer colocar a questão que, depois de exercer o direito de voto, os cidadãos ficam afastados do exercício do poder político até novas eleições, que entre promessas eleitorais e governação as diferenças podem ser abissais, verifica-se que os sistemas eleitorais, uns mais que outros, distorcem deliberadamente o “poder do povo”. Mesmo nos países em que os votos, pelo sistema proporcional, são próximos da vontade um deputado de um partido maior é eleito com menos votos que um deputado de um partido menor. Comparando sistemas eleitorais as aberrações são muitas. Na Grécia o partido que tiver mais votos, mesmo um só voto, tem um bónus de 50 deputados que escolhe a seu bel-prazer. Nas últimas eleições no Reino Unido os resultados são surpreendentes comparando os deputados eleitos e os que realmente seriam eleitos se o voto fosse proporcional: Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209; Partido Trabalhista 232 / 203; Partido Liberal 8 / 48; UKIP 1 / 78. O Parlamento do Reino Unido está bem longe de representar a vontade do povo. Continuar a ler

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Terrorismos

 

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Há uma visão do terrorismo pequena, que vive de sobressalto em sobressalto a cada atentado. Condena-se o terrorismo, glorifica-se a dignidade dos que sobrevivem, socorrem e perseguem os terroristas, glorificação variável em função da geografia em que acontecem, com a mesma facilidade com que se menorizam ou mesmo esquecem as suas raízes. As vidas são de primeira, de segunda ou mesmo terceira categoria conforme os lugares em que as bombas rebentam e as ceifam. Os mais recentes acontecimentos são disso uma demonstração brutal. A distância mediática entre Bruxelas e Lahore ultrapassa em muito a sua distância real. Põe em evidência a farsa das teorias da aldeia global e como funciona em benefício do pensamento único.

Ler vários textos opinativos no último Expresso é um retrato implacável de uma comunicação social medíocre, de dois pesos e duas medidas, bem representativa da cobertura jornalística e os comentários produzida ao longo dos anos, desde que o terrorismo entrou no quotidiano de muitos países com a sua barbárie brutal.

Há que condenar sem qualquer hesitação o terrorismo seja feito por quem for, aconteça onde acontecer. Essa não é a orientação dos media internacionais e muito menos dos nacionais. Estão mais empenhados em defender, com graduações diversas, as estratégias geopolíticas dos EUA e seus aliados europeus, desviando o olhar dos seus efeitos devastadores para se focarem pontualmente nos atentados em si, menorizando uns em favor de outros.

A listagem dos mais graves atentados terroristas depois do primeiro mais visível e simbólico de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, é eloquente. Veja-se a cobertura mediática dos ataques terroristas mais violentos nos últimos anos, do Boko Haram na Nigéria, 310 vítimas em Agosto de 2007, 178 em Janeiro de 2012, 188 em Abril e 143 em Setembro de 2013, 219 em Março de 2014, 780 vitimas em Julho de 2009 e 700 em Janeiro de 2015, no Iraque 188 em Março de 2004, 182 em Setembro de 2005, 153 em Março, 193 em Abril e 192 em Julho, 502 em Agosto. de 2007, 155 em Outubro de 2009. E de outros que aconteceram no Uganda, na India, no Paquistão, no Quénia, no Iémen, na Indonésia, na Somália, todos com número de vítimas superior à centena, sendo que alguns desses países sofreram vários os atentados.

Compare-se essa cobertura mediática e os comentários que produziram nos media com os sucedidos em Espanha, em Madrid em Março de 2004, 191 vítimas, em França com o massacre na redacção do Charlie Hebdo em Janeiro e as 120 vítimas dos ataques armados em Novembro de 2015. Ficaria tudo dito ou quase se não se referissem os atentados perpetrados na Rússia com 334 vitimas no ataque aos terroristas ao fim de três dias de sequestro de 1100 reféns numa escola em Beslan, na Ossétia do Norte, em Setembro de 2004, as 170 vítimas em 2002, na tomada de reféns num cinema em Moscovo ou um atentado bombista no metropolitano. A imprensa ocidental tratou benevolamente os terroristas como nacionalistas, uns padecedores da desaparecida União Soviética e do actual governo da Rússia. Nunca referem que são os os mesmos que agora engrossam as fileiras do Estado Islâmico (EI), alguns com cargos importantes e que também estão na Ucrânia com os seus companheiros de armas nazi-fascistas. Os mesmos que têm por seus antecessores os talibãs, esses combatentes pela liberdade no Afeganistão, treinados, municiados e financiados pelos EUA seus aliados e o Paquistão, que derrubaram um governo que tinha proibido o uso da burka, que tinha dado às mulheres afegãs o direito de vestirem o que quisessem, de casar com quem queriam, de estudar e participar na vida pública e política, de iniciar uma reforma agrária que queria erradicar a plantação de plantas opiáceas. Crimes contra os valores tradicionais na região e, pelas alianças espúrias que apoiaram os mujahedin, os guerreiros de deus que derrubaram esse novo poder afegão, também contra alguns valores da civilização ocidental que estavam a ser implementados.

A duplicidade, a hipocrisia atinge o quase inimaginável quando, de algum modo se justifica a bomba que fez explodir um avião de passageiros russo sobre o Sinai, 235 mortos, como uma vingança do EI contra a intervenção da aviação russa na Síria que, em alguns meses,  obteve mais resultados na luta contra o EI e os vários braços armados da Al-Qaeda do que cinco anos de intervenção da coligação liderada pelos EUA que o cientista político Robert Pape, também na última edição do Expresso, diz, contra todas as evidências, sem se rir, com grande descaro e sem que a jornalista se sobressalte, ser a responsável pela perca pelo EI de 40% das áreas povoadas na Síria e no Iraque. Diz isto quando o exército sírio apoiado pela aviação russa tem feito recuar significativamente o EI e a Al-Nustra, cortando as suas linhas de abastecimento e de financiamento e quando acaba de recuperar a cidade de Palmira, o que deveria envergonhar o Ocidente, como escreveu Robert Fisk no The Independent, prevendo esse desfecho, sobre o que já escreveu.

Essa doblez, esse cinismo não conhece fronteiras. Atinge o seu alfa e ómega se compararmos como foram noticiados e comentados os ataques terroristas nos aeroportos de Domodedovo, Moscovo 2011 e Zaveventem, Bruxelas, ocorrido na semana passada. A diferença entre o número de páginas, tempos de noticiários radiofónicos e televisivos, espaços na internet e redes sociais é abissal. Mas o que mais indigna e é inquietantemente grave é a diferença de tratamento entre os terroristas suicidas nas duas ocorrências que, note-se, tiveram um número de vítimas idêntico. Enquanto os que fizeram o atentado em Bruxelas são universalmente tratados como as bestas criminosas que são e nunca como combatentes do Estado Islâmico, as duas mulheres suicidas do atentado em Moscovo são nalguns casos, como no Huffington Post, que se distingue pelas posições de direita, umas quase heroínas lutando pela independência das suas regiões de origem no Cáucaso. Se isso até pode não causar admiração vindo de quem vem, já se pode estranhar como o atentado foi noticiado por imprensa que empunha as bandeiras da independência, do rigor informativo, de serem de referência, até mais à esquerda como o The Guardian ou o Liberation que as tratam como viúvas negras vingadoras dos supostos lutadores pelos direitos humanos nas suas regiões que teriam morrido nessa nobre luta contra o Kremlin. Os outros media afinaram pelo mesmo diapasão. Uma ignóbil manipulação que só se compreende pela submissão mercenária desses media ao pensamento dominante e ao imperialismo euro-atlântico.

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Tão viscosa, viciosa e dúplice maneira de tratar dois atentados terroristas em tudo semelhantes, não alvoroçou nem perturbou os monteiros e os tavares agora tão lépidos a condenar a intervenção do deputado Miguel Tiago que, admitamos com alguma ligeireza, começou por apontar o dedo “às políticas de direita, o capitalismo e o imperialismo” antes de condenar o terrorismo na sua cega barbárie. Ligeireza porque deveria sem peias, nem outros mas, ter condenado o terrorismo venha de onde vier, seja utilizado por quem for mesmo que a razão lhe assista e assiste. Num caso destes, em que a intervenção tem o tempo contado, a explicativa pode ser maliciosamente confundida com uma justificativa. Os considerandos, perante actos deste jaez que procuram pela instalação do medo e do terror de forma cega, deveriam ter sido secundarizados porque nunca teriam tempo para ser fundamentados.

Os monteiros e os tavares e outros idiotas que se julgam inteligentes e poluem os espaços mediáticos, percebem pouco do que está a acontecer e porque está a acontecer. São obtusos perante a história próxima que desagua nos cenários de guerra e terror actuais. A sua miopia nada inocente apaga a realidade para defenderem não os valores da liberdade e da civilização, mas de uma certa liberdade e de uma certa civilização que espalha a bestialidade, e dela acaba por ser tornar vitima, para garantir a sua sobrevivência ameaçada como está pela decadência. As chacinas provocadas pelos atentados terroristas desde que não aconteçam nos países ocidentais praticamente não existe, é quase natural. Pouco lhes importa que o número de vitimas dos atentados no Médio-Oriente, em África ou na Ásia sejam mais numerosos e atinjam mais pessoas inocentes do que na Europa, exceptuando a Rússia. Que, apesar de tudo, a Europa ainda é um lugar mais seguro que os outros países. Subliminarmente são o prolongamento do pensamento da expansão colonial que se fez na base de exterminar todas as bestas, todos os que se opunham à missão civilizadora do homem branco e assim justificava o saque que praticavam. São a expressão de um pensamento pós-colonial.

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O que hoje se configura tem contornos e fronteiras diferentes. Mas devemos recordar Hanna Arendt quando considerou que “os terríveis massacres” e os “assassínios selváticos” perpetrados pelos imperialistas europeus “são os responsáveis pela introdução triunfante de tais meios de pacificação em políticas estrangeiras comuns e respeitáveis, dando origem aos totalitarismos e aos seus genocídios”. O Estado Islâmico e de outro modo a Al-Qaeda e as suas variantes, têm uma mentalidade totalitária com raiz no Islão radical.

Quando Nixon, depois de desindexar o dólar do ouro, negociou com a Arábia Saudita, na altura de longe o maior produtor de petróleo e o fiel da balança do mercado petrolífero, o dólar como moeda única na transacção do ouro negro, deu o primeiro passo na direcção actual. A Arábia Saudita, garante dos petrodólares e do seu futuro, ficou com a liberdade e a possibilidade de instalar e multiplicar as mesquitas que divulgavam e divulgam o wahabismo, o fundamentalismo islâmico. É nessas mesquitas que se radicalizam, em todo o mundo, os muçulmanos o que ainda é mais fácil e rápido quando na Europa as populações árabes e magrebinas, de primeira ou segunda geração, são fortemente atingidas pelo desemprego, que se vai agravar com a crise dos refugiados É esse o caldo de cultura que políticas geoestratégicas desvairadas dos EUA e dos seus aliados, em que as invasões do Afeganistão e do Iraque decididas por Bush, as Primaveras Árabes um caminho directo para o Inferno, a invenção de uma oposição moderada síria para derrubar um ditador que é quase um democrata quando comparado com o rei e os dignatários sauditas e os emires do Qatar ou do Bahrein, que lançaram o caos e a desordem, possibilitando a instalação de um Estado que ocupa um território extenso, tem estruturas administrativas e militares, meios financeiros obtidos por generosas dádivas sauditas e qatares e as angariados pelo roubo do petróleo e bens patrimoniais que contrabandeiam através da Turquia, um membro da NATO, enquanto exportam o fundamentalismo e o terror para todo o mundo.

O estarem actualmente em recuo no Iraque e na Síria, sublinhe-se o papel importante e decisivo da Rússia e dos curdos, sistematicamente bombardeados pela Turquia, amplifica o seu desespero na luta pela sobrevivência, continuando respaldados sobretudo pela Arábia Saudita e pelo jogo duplo da Turquia que chantageia com êxito uma Europa desorientada.

Fingir ou ocultar os problemas dessas geoestratégias, como fazem os monteiros e os tavares deste e do outro mundo, que Miguel Tiago enunciou correndo todos os riscos da simplificação, é condenar-nos todos a ficar reféns da barbárie. Do terror fundamentalista na Europa, em África, na Ásia no Médio-Oriente, porque o que está a acontecer não é uma guerra entre civilizações, nem uma guerra religiosa. A história está cheia de processos de miscigenações e aculturações que desmentem essa visão.. Quem pensa assim está a alimentar a xenofobia e o ódio. A não ter qualquer horizonte de futuro, continuando com os pés enterrados no pântano a que nos conduziram essas políticas. É não ver que tudo isto acontece por objectivos pré-estabelecidos, mesmo quando salta fora dos eixos e do controle de quem os traçou.

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Os Ovos da Serpente

 

OVO da SerpenteA política cega dos Estados Unidos e da NATO no Médio-Oriente continua em ritmo acelerado, contra todas as evidências. As mentiras multiplicam-se para justificar a intervenção na Síria, feita pelo modelo que teve e tem as consequências catastróficas que se conhecem em outros países da mesma área geográfica.

Kerry insiste numa solução que não terá outro resultado a não ser tornar a Síria num novo Iraque ou pior numa nova Líbia. Espera que em eleições Bashar Al-Assad seja substituído por quem? Por dirigentes da Al-Nusra, o braço da Al-Qaeda na Síria? Por homens do ISIS disfarçados de democratas rendidos aos valores ocidentais? Cala-se, como se cala a Europa, com as cumplicidades entre os terroristas, gerados pelos ovos da serpente que andaram a plantar no Médio-Oriente e no norte de África, e os seus aliados sauditas, bem mais ditadores que Assad, do Qatar, dos Emiratos e desse país, exemplar membro da NATO, que é a Turquia. Fazem descobertas espantosas como a do chamado Exército Livre da Síria ter nas suas fileiras 70 000 soldados, como afirmou Cameron numa tirada de fazer inveja aos Monty Python. Apoiam uma cimeira organizada pela Arábia Saudita para promover a unidade do Médio-Oriente e onde estão representados todos os que opõem a Assad, incluindo todos os grupos terroristas excepto, alguém acredita nisto? o Estado Islâmico, o seu aliado preferencial. Sobre o assunto leiam o artigo de Robert Fisk no Independent. Sabem, como toda a gente sabe e como os Serviços Secretos da Alemanha esclarecem num detalhado relatório, leiam-no que é bastante esclarecedor, o que acontece no terreno e quem manobra nos bastidores com a cumplicidade dos EUA, da Europa, da NATO. A ler os bem documentados post’s, aqui e aqui, de José Goulão no seu blogue Mundo Cão e ouvir o general Pezarat Correia na televisão, fora dos horários ditos nobres como convém.

Depois dos atentados em Paris, a coligação liderada pelos EUA, decidiu bombardear o Estado Islâmico na Síria, violando o espaço aéreo desse país. O inefável Cameron em nome dos valores da democracia, incluiu nos objectivos da forca aérea britânica o exército sírio. A hipocrisia e o cinismo dessa gente não conhece fronteiras. Os resultados desse empenho contra o terrorismo, que ajudaram activamente a fomentar e de que agora são por vezes vítimas, começam a ser visíveis. Em vez de bombardear o Estado Islâmico, os aviões norte-americanos bombardearam forças do exército sírio, com a agravante de estarem a violar o espaço aéreo desse país. Desmentem o facto, com a mesma veemência com que mentem desde sempre, lembram-se de Colin Powell no Conselho de Segurança da ONU a desdobrar mapas das armas de destruição maciça no Iraque? Bombardeiam quem no terreno luta contra o Estado Islâmico seguindo as práticas da Turquia, um país da NATO, onde se treinam e armam os terroristas por onde circula o petróleo roubado no Iraque e na Síria pelo Estado Islâmico e que é a sua principal fonte de financiamento, Turquia que bombardeia sistematicamente a outra força no terreno, os curdos, que combate o Estado Islâmico.

Afinal que política é esta? Que gente é esta que, por tudo e por nada, invoca os valores da civilização ocidental?

Entretanto os ovos da serpente que andaram a plantar começam a abrir-se em plena Europa. Olhem-se os últimos resultados eleitorais em França, mas também no reforço das direitas mais radicais noutros países da União Europeia. Olhe-se para a Ucrânia onde partidos nazi-fascistas já estão no poder e onde batalhões do Estado Islâmico combatem ao lado do exército ucraniano e das milícias fascistas.

Os resultados dessas políticas criminosas, com os resultados que se conhecem, estão à vista de todos. Com o apoio da comunicação social mercenária, todos os dias nos são vendidas mentiras que as justificam, enquanto nuvens bem negras se acumulam no horizonte e os atentados terroristas estão ao pé da nossa porta. Há que dizer um vigoroso NÃO a essa gente sem escrúpulos, nem honra que quer governar o mundo.

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Beethoven, Erza Pound, KLM, Ucrânia, Valentina Lidsitsa

A Cultura e o Mundo Livre

Valentina Lisitsa é uma pianista ucraniana que se tem manifestado na sua página do Facebook contra o governo de fantoches e seus aliados nazi-fascistas de Kiev. O que tem feito de modo que até se pode dizer cordato como se pode ler

A pior coisa que pode acontecer num país é uma guerra fraticida, as pessoas vêem os outros, os seus vizinhos como inimigos que devem ser eliminados… Ano após ano, vemos as mesmas pessoas enriquecidas no poder, a miséria e a pobreza por todo o lado, dezenas de milhares de pessoas mortas, mais de um milhão de refugiados.

O mundo livre, os defensores dos valores da civilizaçlão ocidental, não perdoam, são implacáveis contra quem afronta as suas políticas. Valentina já teve vários concertos cancelados no Canadá e nos Estados Unidos da América por causa das suas posições não alinhadas com o governo de Kiev. Agora foi a KLM que, para satisfazer um seu passageiro que se diz frequente e usa um pseudónimo, baniu a pianista da listas musicais que oferece aos seus clientes. O comentário do viajante é elucidativo.

Estaria muito feliz em não pensar nem por um instante nas marionetas de Putin e Lisitsa e o seu ódio e, de súbito, na última hora de um voo transcontinental da KLM, tenha uma desagradável surpresa. Podem imaginar qual. Estou convicto que a companhia aérea holandesa irá reconsiderar a decisão de incluir uma pianista xenófoba no seu programa de recreação. Sou um viajante regular da KLM e a KLM terá em breve notícias minhas.

Meu dito, meu feito a KLM já apagou Valentina Lisitsa.

O maravilhoso mundo livre que segue os preceitos de Goebels. Só que não puxa da pistola quando houve falar de cultura, puxa pela carteira.

Ainda proclamam alto e bom som que a cultura é um território politicamente neutro.

Fui ouvir a Sonata nº 17, op. 31 nº2 de Beethoven, conhecida por Tempestade por Valentina Lisitsa (*) bem, na linha da interpretação superlativa de Richter um soviético/ucraniano, e reler um poema de Erza Pound, um apoiante declarado do fascismo, que é um dos grandes poetas nossos contemporâneos.

(*) qualquer coisa explode no segundo movimento o que não retira concentração à pianista

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Al Qaeda, Bush, Estado Islâmico, fascismo, Hitler, ii guerra Mundial, NATO, Nazismo, Rockfeller, Rothschild, Stepan Bandera, Ucrânia, União Soviética

comemorar os 70 anos da derrota do nazi-fascismo

Berlim

Há 70 anos o IV Reich foi derrotado. A aventura nazi-fascista inicialmente apoiada pelo grande capital, chegava ao fim às mãos e ás armas da União Soviética, aliada das potencias ocidentais, Reino Unido, Estados Unidos da América e França, cujos interesses económicos começaram a partir de certa altura a serem ameaçados pelos interesses económicos apoiantes do Eixo. Isto apesar de grandes magnatas norte-americanos como Rockfeller, Rothschild ou Prescott Bush, avô dos Bush que esteve implicado num golpe fascista nos EUA, terem sido grandes financiadores de Hitler e várias empresas norte-americanas terem participações significativas nas maiores empresas alemãs que beneficiavam largamente com o trabalho escravo recrutado nos campos de concentração. Sinais claros do prestígio que Hitler e o partido Nazi tinham nos meios do grande capital.

Num outro plano, a II Guerra Mundial foi também o palco para resolver a crise de 1929. Foi a II Guerra Mundial que possibilitou que a crise financeira de 1929 se resolvesse. O New Deal de Roosevelt, iniciado em 1932, no pico da crise, introduziu uma forte intervenção do Estado na economia. Procurando regular os mercados e o funcionamento da Bolsa, impedindo investimentos especulativos e de alto risco. Impulsionando uma forte política de investimento na construção civil com um programa intenso de obras públicas, a New Deal começou em força, foi perdendo fulgor e estava a avançar muito devagar. Um novo pico dessa crise foi atingido em 1932. A guerra resolveu os problemas dessa crise capitalista. Obrigou os governos a fazer encomendas gigantescas de aço, máquinas, peças, artefactos que mobilizaram toda a indústria. O problema do desemprego, há que o dizer com toda a brutalidade, resolveu-se com a mobilização de milhões de desempregados e com os milhões de seres humanos mortos nos campos de batalha e fora deles com a fome e a destruição que uma guerra provoca.

Há 70 anos o nazi-fascismo foi derrotado, hoje na Rússia comemoraram-se esses 70 anos, lembrando bem o papel central, decisivo da União Soviética na derrota da barbárie nazi. Para vergonha universal quase todos os países ocidentais não se fizeram representar nessas comemorações a pretexto da situação na Ucrânia. Mais uma vez demonstraram a sua natureza. São hoje tão complacentes com o regime terrorista ucraniano como o foram inicialmente com os nazis Aceitam, sem qualquer reticência que o governo que está no poder na Ucrânia tenha entre os seus ministros e quadros superiores, nazis assumidos. Não se envergonham por ontem, na presença do secretário geral da ONU e outros dignitários ocidentais, o Presidente da República da Ucrânia tenha comemorado o fim da II Guerra Mundial, celebrando simultaneamente o sanguinário bandoleiro, Stepan Bandera, um dois mais brutais colaboradores dos alemães, em todos os territórios ocupados pelo IV Reich. Chefe e guia de um bando de facínoras responsável pela morte de centenas de milhares de russos, polacos e ucranianos, fossem ou não fossem judeus.

O ocidente, ausente das comemorações na Rússia como “castigo” pela situação de guerra na Ucrânia, esteve presente e apoia activamente a Ucrânia/Kiev, onde batalhões de nazis do Sector Direita, que os media ocidentais apelidam com ternura de ultranacionalistas, têm no terreno, a lutar a seu lado, batalhões do Estado Islâmico, seus aliados e aliados da NATO que cada vez se compromete mais naquela frente de batalha que abriram com um golpe de estado financiado pelos EUA, como proclamou Victoria “Que Se Foda a Europa” Nuland.

Nada trava essa gente sem princípios que diz combater o terrorismo, corporizado pela Al Qaeda e pelo Estado Islâmico e é seu aliado no Iemen, na Síria, na Ucrânia.

Ao comemorar os 70 anos do fim da II Guerra Mundial, da derrota do nazi-fascismo, devemos erguer a nossa voz, fazer ouvir a nossa indignação pelo ressurgimento dessa besta apocalíptica em todo o mundo com o apoio, umas vezes oculto outras vezes descarado, das forças do império e do seu braço armado a NATO.

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