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IMPERIALISMO&IMPERIALISMOS,SA

Este é um tempo em que o entretenimento fútil, disfarçado de política cultural, explora política, económica e socialmente as pessoas, meros números num processo de penetração sistemática e de dominação da vida cultural, com o grande objectivo de reordenar valores para promover a confusão ideológica e a desorientação política, para que as massas populares exploradas pelo imperialismo económico se conformem aos seus interesses perdendo a sua identidade.

Birth of an American Boy IV,  (2001), de Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008), água-tinta aguarelada

Nos tempos actuais há uma evidente preponderância do capitalismo neoliberal cujo foco principal é a financeirização da economia e a adopção de políticas que visam reduzir os custos do factor trabalho, sejam quais forem as consequências sociais e económicas dessas políticas que precarizam o trabalho, atacam os direitos dos trabalhadores, fragmentam e proletarizam a força de trabalho, ainda que muitos não reconheçam a proletarização a que estão sujeitos.

«a indústria cultural como um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias, com uma estratégia de controlo social modelando as consciências das massas populares»

Para impor e consolidar essa nova ordem, que se começa a definir a partir dos finais dos anos 60, é tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como o controle dos meios de comunicação social que preparam e justificam as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, e a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas com dois grandes objectivos: um económico, pela captura pelos mercados dos bens culturais e pela concentração das indústrias culturais e criativas; outro político-social impondo a hegemonia da cultura anglo-saxónica pela exportação massiva dos seus produtos de entretenimento, tratando a cultura como uma campanha publicitária. Uma situação em que Adorno surge como um quase profeta quando, em 1944, com Horkheimer1, define a indústria cultural como um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias, com uma estratégia de controlo social modelando as consciências das massas populares.

Essa tendência torna-se mais evidente quando o Estado-nação vai progressivamente renunciando à sua soberania e se alarga a superfície global onde se dissolve o território, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Acelera-se com o fim da equivalência do dólar-ouro e a primeira grande crise do petróleo em 1973, impõe-se nos anos 80 com as novas tecnologias.

«Composição Suprematista: Aeroplano em Voo» (1915, datado no reverso como de 1914), óleo sobre tela, 58.1×48.3 cm, de Kazimir Malevitch (1879-1935). Colecção do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque, EUA 

As Novas Tecnologias e o Neo-Feudalismo

Em nome da racionalização e da modernização da produção regressa-se ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial e, nas última décadas, com formas que configuram um neofeudalismo, onde se acentua a extrema desigualdade, a precariedade generalizada, o crescente poder dos monopólios e mudanças ao nível do estado cada vez menos ao serviço dos cidadãos e cada vez mais submetido aos ditames das grandes empresas.

É uma nova ordem política,económica e social que se impõe com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos, mega pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento e da especulação financeira. Uma nova ordem fanática e totalitária com resultados devastadores. É o fenómeno da globalização que decorre da expansão global do capitalismo neoliberal, em que se vende a ideia que a liberdade do mercado seria mais igualitária quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.

«A acelerada financeirização da economia apurou o toque de Midas que transforma em mercadoria todos os bens, materiais e imateriais, em que tocam. Paralelamente há uma situação de crise permanente e senil em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares ou euros para salvar o sistema financeiro e os privados, socializando os prejuízos, privatizando os lucros»

Com o surgimento das novas tecnologias a grande alteração é o aparecimento no mercado de várias gigantes tecnológicas como a Alphabet (a empresa-mãe da Google), a Apple, a Facebook, a Microsoft, a Amazon, que circulam pelo mundo real e virtual a velocidades antes desconhecidas e têm um valor em bolsa maior que o PIB dos países do mundo com excepção de alguns – mas não de todos – do G-20. Os seus proprietários são bilionários que exploram em seu proveito e a baixo custo a investigação científica universitária que por golpes de marketing publicitam como investimento seu, beneficiam de isenções e benefícios fiscais de países carentes de criação de emprego, usam mão-de-obra barata com contratos de trabalho em que a incerteza é a única certeza, instalam fundações em que os fins humanitários são um processo de se eximirem aos impostos e de apropriarem-se de novos nichos de mercado, como a saúde e o ambiente. Recolhem abusivamente dados pessoais de milhares de milhões de pessoas2 que transaccionam com as secretas dos estados ditos democráticos, que vendem a outras empresas. Subsidiam ONG para controlarem os activismos desencadeados por justas iras, casos mais notórios o anti-racismo e o feminismo, a par das revoluções coloridas que concorrem sempre para regimes para-fascistas ou similares. A escala económica e o impacto desses supergigantes da tecnologia são maiores do que os da maioria dos chamados estados soberanos e com eles negoceiam com um estatuto semelhante aos dos antigos senhores feudais. É uma «forma hiper-moderna de feudalismo»3.

A auto-canibalização do capitalismo actual, recuperando formas contemporâneas de feudalização, produz novos senhores e servos, vastas fortunas e extrema desigualdade que proliferam sob o guarda-chuva do anonimato do Estado-empresa mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada. A acelerada financeirização da economia apurou o toque de Midas que transforma em mercadoria todos os bens, materiais e imateriais, em que tocam. Paralelamente há uma situação de crise permanente e senil em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares ou euros para salvar o sistema financeiro e os privados, socializando os prejuízos, privatizando os lucros. Sem resolver o seu estado de permanente e em cada vez mais graves apuros, o capitalismo neoliberal refugia-se em alquimias de ouroboros para ir de ressurreição em ressurreição, com sinais vitais cada vez mais débeis.

Nos anos 80 começa a alteração profunda no sistema económico internacional, com a expansão do sistema capitalista neoliberal e uma nova ordem internacional unipolar possibilitada pela implosão da União Soviética e dos países de Leste. É um novo contexto histórico em que, a partir da perestroika, se afundou o sistema soviético e as democracias ditas liberais começaram a ser corroídas4. Há o ressurgimento da extrema-direita herdeira do fascismo, que nunca deixou de estar presente depois da sua derrota em 1945, agora com as máscaras dos populismos que lhe conferem uma aparência de nova. Acelera-se a reescrita da história para a inscrever numa narrativa pré-determinada em que todos os sucessos do modelo soviético são rasurados. A maior evidência dessa reescrita é a da Segunda Guerra Mundial, em que o decisivo contributo da União Soviética é banalizado e menorizado comparativamente ao das potências ocidentais que muito tergiversaram em relação aos países do eixo nazi-fascista e só se empenharam com determinação quando o avanço do Exército Vermelho era uma evidência.

«Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder e o crescimento da direita e da extrema-direita tem a sua raiz nessa intensificação das desigualdades que explora canalizando descontentamentos e raivas cegas, atacando o sistema para que o sistema se perpetue com maior brutalidade»

Com a financeirização da economia as desigualdades aumentaram brutalmente. Desde 1980 os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder e o crescimento da direita e da extrema-direita tem a sua raiz nessa intensificação das desigualdades que explora canalizando descontentamentos e raivas cegas, atacando o sistema para que o sistema se perpetue com maior brutalidade. As oligarquias dos bilionários da especulação financeira, da banca ao imobiliário, das novas tecnologias aos crimes ambientais cujo combate é para eles um negócio, que financiam activismos para anular a luta de classes, que dominam a comunicação social corporativa, a de antanho e a das cada vez mais presentes redes sociais, são os grandes beneficiários dessa suja exploração das desigualdades pelos neo-fascistas. Procura-se que a esquerda se ausente. A que considera contingente a realidade histórica do capitalismo é impedida de se expressar e é combatida a todos os níveis. A esquerda cosmopolita, pontualmente acarinhada, enfraquece-se nos labirintos das lutas ditas fracturantes que a direita inscreve num sofisticado projecto político em que baralha as liberdades individuais e de escolha com a liberdade do mercado. Ambas são igualmente ameaçadas pelo fascismo em ascensão.

Série «Cárceres Imaginários», Gravura XIV (1745), desenho de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778) impresso por Francesco Piranesi (1758/9-1810). Água-forte sobre papel «vergé». Colecção do Museu de Design do Smithsonian, Nova Iorque, EUA

O Totalitarismo Invertido

O outro grande traço que caracteriza o sistema é a concentração dos grupos de comunicação social, os clássicos e os novos, através da internet e das redes sociais, e dos que produzem objectos culturais nos centros oligárquicos. Um sistema que se apura para que os cidadãos sejam totalmente impotentes e a alienação global seja uma alienação consentida.

É o que Sheldon Wollin classifica de «totalitarismo invertido»5 que não tem rosto, é anónimo, corporizado por dirigentes políticos que são marcas comerciais dos Estados completamente enfeudados às grandes empresas, em que há uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores das esquerdas tradicionais revisionistas e de direita que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico.

«as elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projectos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos. Com doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema»

SHELDON WOLLIN

«O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da media corporativa faz um trabalho muito eficaz» escreve Wollin, esclarecendo que «as elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projectos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos. Com doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema (…) Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado (…) mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro, a economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade (…) Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como somos tolerados como cidadãos, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.» Já Orwell tinha avisado que «para sermos corrompidos pelo totalitarismo não temos de viver num país totalitário»6.

Nesse quadro os partidos políticos são prolongamentos do aparelho de Estado representando interesses económicos que lhes dão apoio variável. A sua actividade política reduz-se praticamente à conquista do voto o que representa um retrocesso político-ideológico que se esgota nos momentos eleitorais e deixa o campo aberto para o surgimento dessas novas-velhas forças políticas ao serviço do capitalismo pós-democrático. Neste contexto há que afirmar o que é ser de esquerda. É ter a certeza e a convicção de que nenhuma realidade, por mais consistente e hegemónica que se apresente, como o é o capitalismo actual, deve ser considerada definitiva. É insistir no carácter contingente da realidade histórica do capitalismo e não dar por eterno o princípio da dominação capitalista. É perceber que não foi só o comunismo que procurou produzir o homem novo mas esse também é o objectivo do neoliberalismo, que o procura construir pela aniquilação do sujeito moderno crítico e marxista, substituindo-o por um sujeito autista, consumidor indiferente à dimensão essencialmente política da existência, um indivíduo que se refere exclusivamente ao aspecto solipsista dos objectos que se realizam como mercadoria subjectiva da cultura de massas. Para se consolidar e se impor consistentemente como poder dominante o sistema procura apropriar-se dos valores culturais/ideológicos da resistência revolucionária para inocular um sentimento de generalizada impotência nas sociedades. É o triunfo do imperialismo cultural que desempenha papel nuclear no actual estado de sítio.

«Coca-Cola», de Andy Warhol, reprodução de serigrafia 

O Imperialismo Cultural

Desde há décadas que são muitos os sintomas de desordem mental e cultural, com a fragilização de qualquer pensamento crítico varrido pelos turbilhões das amálgamas informativas e culturais que são servidas em doses massivas para desfiar até tornar inúteis os fios de Ariadne que poderiam sinalizar o caminho para sair desses labirintos onde se desagregaram todos os projectos humanistas do iluminismo, cujo ponto máximo é o marxismo, guilhotinando-os na fúria bárbara dessa nova ordem política, económica, social em que o imperialismo cultural é um pilar.

«Há um caminho árduo a empreender pela libertação das grilhetas do imperialismo cultural recuperando o carácter transformador das artes, da cultura, inscrevendo-o no processo mais geral de lutas pela libertação de todas as formas de exploração do trabalho humano»

Imperialismo cultural que destrói a educação, esse grande projecto iluminista pulverizado nas sabedorias dos algoritmos dos sites da Wikipédia, Facebook, Instagram, Twitter, etc., etc., que se colocam acima da inteligência e do conhecimento das pessoas, esmagando a sua capacidade de julgamento. Que avilta as artes e a cultura num repetitivo e fastidioso discurso tão mais «inteligente» quanto mais a indigência rebenta pelas costuras. Em que a arte contemporânea revela toda a decadência das artes numa sociedade em que quase deixa de haver lugar para a criação artística a não ser como forma de ganhar dinheiro, um caminho que Warhol, sem ironias nem sentimentalismos, percorreu com inquietante êxito. onde se assassina a febre modernista de pesquisa, de romper com a tradição de ousar tudo, de perseguir o objectivo de tornar o acto de criação um acto consciente de crítica radical do espírito burguês, do seu racionalismo estreito, de desprezo pelo seu culto pelo dinheiro. Tudo se normaliza num espectáculo contínuo e generalizado de mundanidades porque o mercado só conhece a hierarquia cultural do que é vendável. É o triunfo do comerciante da canção de Brecht «não sei o que é o arroz, nunca vi o arroz, do arroz só sei o preço». Um estado de sítio em que o sobrou para as artes foi regressar ao dadaísmo, não como protesto desesperado contra um mundo insuportável, sem dignidade e sem dignidade para oferecer mas para uso publicitário, porque o destino histórico dos formalismos termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma. É a porta grande por onde entra o conceptualismo, moda corrente porque é fácil, porque até pessoas sem conhecimentos o conseguem fazer, em que a única exigência é ter ideias a que não se exige sequer que sejam boas ou brilhantes, é a porta grande por onde entram as artes performativas, em que predomina a falta de rigor que abre as comportas para o desaguar da multitude dos artistas emergentes que proliferam como cogumelos à procura de um lugar ao sol7, o que é permitido pelo vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência que são os valores dessa arte falsa, fraudulenta.

Este é um tempo em que o entretenimento fútil, disfarçado de política cultural, explora política, económica e socialmente as pessoas, meros números num processo de penetração sistemática e de dominação da vida cultural, com o grande objectivo de reordenar valores para promover a confusão ideológica e a desorientação política, para que as massas populares exploradas pelo imperialismo económico se conformem aos seus interesses perdendo a sua identidade.

As ferramentas do imperialismo cultural são variegadas, não todas imediata e facilmente identificáveis mas todas concorrendo para o grande objectivo de controlar totalmente a cultura para iludir o grande fosso entre a brutalidade da exploração capitalista e as promessas ilusórias de prosperidade plantadas pelo mercado em roda livre, fragorosamente desmentidas pela realidade do aumento da miséria e da violência.

Para cumprir com êxito o seu projecto, o imperialismo cultural não descura nenhuma das novas realidades e utiliza habilmente as hierarquias neofeudais da sociedade contemporânea estabelecendo uma vasta rede de executores e propagandistas, que são o novo baixo clero da cultura, encarregue das manipulações da produção, programação e gestão cultural8. Um vasto e diversificado grupo de intermediários culturais que estão sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só mercadoria e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades que fabricam emoções de fachada numa cultura de ilusão que vitamina o empobrecimento intelectual e moral dos indivíduos.

O imperialismo cultural é um dos pilares da nova ordem do capitalismo neo-liberal actuando activamente para a despolitização dos cidadãos enredados num bullying cultural de uma cultura inculta em que tudo é entretenimento desligado de qualquer questão substantiva no que é o lastro que camufla as inconsequências das posições políticas espectacularizando-as e esteticizando-as9 para que o sistema antidemocrático prossiga o seu caminho sem grandes escolhos nem mares encapelados.

Um dos grandes e dos mais inquietantes êxitos do imperialismo cultural é a captura de intelectuais de esquerda, rendidos e deslumbrados com a velocidade de translação das modas e a artificialidade mundana dos eventos culturais, ficando incapazes de qualquer capacidade crítica contribuindo activamente para que este estado de sítio estenda os seus tentáculos. Nem percebem que a sua militância política é inútil se a deixam ser contaminada pela pandemia dos vírus do imperialismo cultural que é um dos mais bem municiados e activos artilheiros contra qualquer tentativa de renascimento político revolucionário.

Há um caminho árduo a empreender pela libertação das grilhetas do imperialismo cultural recuperando o carácter transformador das artes, da cultura, inscrevendo-o no processo mais geral de lutas pela libertação de todas as formas de exploração do trabalho humano.

Homem, Leonardo da Vinci CréditosLeonardo da Vinci /

Bibliografia:

BAUDRILLARD, Jean; Simulacros e Simulação, Relógio d’Água, 1990.

BENHAMOU, François; L’ Economie du Star-System, Éditions Odile Jacob, 2002.

BENJAMIN, Walter; As Passagens de Paris, in Obras Escolhidas de Walter Benjamin, Assírio & Alvim, 2019.

BOURDIEU, Pierre; A Distinção. Uma Crítica Social da Faculdade do Juízo, Edições 70, 2010.

DEBORD, Guy; A Sociedade do Espectáculo, Antígona Editores Refractários, 2012.

HEDGES, Chris; La Mort de L’Élite Progressiste, Lux Edition, 2013.

HORKHEIMER, Mark; ADORNO, Theodor W.; Dialéctica do Esclarecimento, Jorge Zahar, 1985.

JAMESON, Fredric; Postmodernism, or the Late Cultural Logic of Late Capitalism, Verso Books, 1992.

LANIER, Jaron; Gadget. Você Não É um Aplicativo: Um manifesto sobre como a tecnologia interage com a nossa cultura, Editora Saraiva, 2010

MOROZOV, Evgeny; Capitalismo Big Tech: ¿Welfare o neofeudalismo digital?, Enclave de Libros Ediciones, 2018

ORWELL, Georges; Why I Write, Penguin Books, reedição 2004.

WOLLIN, Sheldon S.; Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarism, Princeton University Press, 2008.

  • N. da R.: Para a referência completa desta e de outras obras, consultar a bibliografia no final do artigo.
  • 1.Ver Adorno, Horkheimer (1985).
  • 2.Ver Lanier (2010).
  • 3.Ver Morozov (2018).
  • 4.Ver Hedges (2013).
  • 5.Ver Wollin (2008).
  • 6.Ver Orwell (2004).
  • 7.Ver Benhamou (2002).
  • 8.Ver Bourdieu (2010).
  • 9.Ver Jameson (1992), Debord (2012), Braudillard (1990) e Benjamin (2019)

(publicado em AbrilAbril, https://www.abrilabril.pt )

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"Star-System", Artes, Artes Perféricas, Artes performativas, Avelina Lésper, Capitalismo Neoliberal, Crítica de Arte, Cultura, Cultura Mediática, Curadores, Dadaísmo, Estética, Geral, Gestão Cultural, Ideologia de Direita, Kitsch, Marcel Duchamp, Mercado da Arte, Pós-Modernismo, Performance, Política Cultural, Wahrol

As Bananas e as suas cascas

Instalação «Comediante», de Maurizio Castellan, na exposição de arte contemporânea Art Basel, em Miami Beach, EUA, 5-8 de Dezembro de 2019. Antes de a banana colada à parede ter sido comida numa «performance artística» por David Datuna já tinha sido vendida a um coleccionador francês por 120 mil dólares.Créditos/ Lesalonbeige

Um artista, Maurizio Castellan, cola numa parede uma banana com fita adesiva prateada, em três versões, duas provas de artista e uma final, depois de um ano a “trabalhar nessa ideia”. Um trabalho muitíssimo árduo como se presume, em que acabou por escolher três bananas entre as centenas que andam pelos mercados. Aos compradores, entre eles um museu, a “ obra” foi vendida por 120 mil dólares. O curador da galeria explica que é necessário ir substituindo a banana todas as semanas, “como uma flor”.

A “obra” ganhou visibilidade com uma imagem que corre mundo sem assombrar ninguém nesta sociedade entediada com o seu próprio tédio que, quanto muito, a olha com um sorriso amarelento. Um performer completou o quadro comendo a banana explicando que “comeu a obra e o seu conceito” (…) não sou uma pessoa normal sou um artista, um performer, não estou comendo uma banana, estou comendo arte”. Tamanha empáfia é típica dessa gente que, por todo o mundo, plantam tretas que se espalham cancerosamente procurando ser levados a sério no que, diga-se pelo estado de inacção desta sociedade oca, conseguem algum êxito ou, pelo menos, não ser contestados por maiores dislates que digam. É ler as bulas que acompanham esses eventos ditos artísticos para se sair derrotado pela cerrada obscuridade de uma amálgama de conceitos superlativamente adjectivados, tão mais sofisticadamente inteligentes quanto mais mediocremente indigentes são as obras, qualquer que seja o género em que se inscrevem.

Anda o mundo, todo o mundo infestado de performer’s, que fazem parte do grande circo da estupidez sustentado pelo baixo clero destes tempos pós-modernos — curadores, comissários, produtores, gestores culturais, especialistas, muitos deles doutorados nessas malas-artes — que, com estas ou outras bananas, fazem parte da epifania colectiva destes tempos de danação em que quase deixa de haver lugar para a criação artística excepto a não ser como forma de ganhar dinheiro, um caminho que Warhol, sem ironias nem sentimentalismos, percorreu com inquietante êxito.

Aliás, foi Warhol quem começou por consagrar a banana na capa de um disco dos Velvet Underground, a que se seguiu a casca de banana no chão de Jeanne Silverthorne (EUA – 2007)

e o furgão com uma tonelada de bananas de Paul Nazareth (Art Basel-2011)

nstalação «Mercado de Bananas/Mercado de Arte», de Paulo Nazareth, na secção «Posições da Arte», destinada a artistas emergentes, na feira Art Basel, em Miami Beach, EUA, em 2011. Feria de Arte Basel, Miami 2011 Paulo Nazareth es un artista que estuvo presente en la feria de arte de Basel en el año 2011, dentro de la seccion “Art Positions” destinada a galerias y artistas emergentes, y donde Paulo presento la obra “Banana Market/Art Market (mercado de bananas/mercado de arte) consistente en una vieja furgoneta Volkswagen llena de bananas. 

A metafísica das bananas inscreve-se no estado de sítio em que o que sobrou para as artes, para todas as disciplinas artísticas nestes tempos pós-modernos, foi regressar ao dadaísmo, não como protesto desesperado contra um mundo insuportável, sem dignidade e sem dignidade para oferecer mas para uso publicitário, porque o destino histórico dos formalismos termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma. É a porta grande por onde entra o conceptualismo, moda corrente porque é fácil, porque até pessoas sem conhecimentos o conseguem fazer, em que a única exigência é ter ideias a que não se exige sequer que sejam boas ou brilhantes, que desaguam na grande falsidade das artes performativas, a face mais evidente da grande fraude em que mergulhou a arte contemporânea. Existem, como é de regra, excepções que cumprem o desígnio expresso por Burckhardt “talvez hoje existam grandes homens para coisas que não existem”.(1) Homens que provam a sua genialidade em obras fragmentadas, de afirmação individual o que também é uma contradição central no quadro social globalizado, desperdiçando muito do seu talento numa arte comercial que lhes é imposta e, reconheça-se, a que dificilmente se poderiam subtrair.

É a multiplicação sem precedentes das artes performativas, sobretudo na música, nas artes visuais mas também na literatura, em que os sujeitos da acção, os artistas performativos exploram a hibridização entre géneros artísticos, abolindo hierarquias entre os materiais e as formas da pintura, escultura, música, teatro, cinema desvalorizadas pelos novos suportes, instalações, happenings, vídeos, concertos performativos, performances, etc., plantando obstinadamente um kitsch impossível de avaliação estética. O que Hermann Broch vitupera sem contemplações “ quem quer que seja que produza kitsch não pode ser avaliado por critérios estéticos, é um depravado do ponto de vista ético”.(2)

Também nos devemos interrogar porque é que esse plâncton de artistas performativos que alimenta essas artes sem arte, não aprende a filmar, a representar, a cantar, a compor, enfim a aprender aquelas coisas básicas que são o mínimo dos mínimos exigível para tão rarefeitas ideias, sem um grão de inovação e descoberta. Tudo requentado e ruminante na esteira de Marcel Duchamp, desossado do seu propósito de destruir a aura da arte, apropriado por um mundo sobrepovoado de artistas que como assinala Avelina Lésper “deixam de ser imprescindíveis porque qualquer obra substitui-se por outra qualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade (…) a carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus”. Luciano Trigo entre muitos outros, foca a mesma questão por outro ângulo: (3) «Por que ninguém fala hoje em Picasso e tanta gente ainda se inspira em Duchamp? A resposta é simples: a arte de Picasso exige talento, técnica, reflexão sobre a vida e a História, enquanto Duchamp, por genial que tenha sido em seu momento, traz uma mensagem muito mais fácil de ser assimilada e copiada: qualquer um pode ser artista.»

A dura realidade é que desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda o estado actual das artes não tem comprometido nem a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana, como Mário Perniola extensamente teorizou no magnifico ensaio A Arte e a sua Sombra.(4) Essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado das artes, actualmente um nicho do mercado de artigos de luxo, e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. O debate estético e cultural está praticamente reduzido a zero, submetido à ditadura dos intermediários culturais, sejam curadores, directores de museus, marchands, programadores, gestores culturais, comissários, críticos de arte, editores, produtores. Aliás, o trânsito entre eles é intenso e não sai dos carris.

Analisar esta situação exclusivamente pelos parâmetros estéticos dá uma ideia deformada do que é e para que servem essas artes vertiginosamente inscritas num bullying cultural que é outra das imagens de marca do nosso tempo. Quando se analisam os mapas de eventos culturais inscritos num espaço territorial, seja um país ou um continente, o que se verifica é que há uma proliferação de bananas coladas nas programações culturais, sejam promovidas por entidades ou instituições públicas ou privadas, alinhadas com a esquerda ou com a direita. O bananal é igualmente assaltado por uns ou por outros numa distribuição equitativa que até poderia provocar estranheza a quem não tiver a consciência clara que as obras de cultura, os produtos culturais não surgem do nada, de uma qualquer inspiração metafísica, não são um absoluto independente da produção e da reprodução social da vida. Há que perceber claramente que as ideias dominantes são as das classes dominantes porque é dominante a sua posição na esfera económica que se apropria dos principais aparelhos e instituições, meios e instrumentos de produção, difusão e recepção culturais, pelo que todas as bananas de todas essas artes são o produto e a imagem, realizados no quadro da autonomia relativa que as artes sempre tiveram, do capitalismo neoliberal da democracia pós-democrática. Uma arte contemporânea em que a forma é substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada em marca garante do valor da mercadoria artística. Uma esquerda sem essa percepção rende-se. Deixa-se corroer pela onda cultural, muitas vezes atemorizada de ficar à margem das modas quando deveria resistir à normalidade da anormalidade dessa cultura inculta, promotora da iliteracia cultural dominante que Byung-Chul Han expõe com brutalidade: ”hoje, a própria a percepção assume a forma de Binge Watching, (assistir a algo compulsivamente, descontroladamente) de visionamento bulímico. Oferecem-se continuamente aos consumidores o que se adapta por completo ao seu gosto— quer dizer, do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa. O Binge Watching pode ser entendido como o modo actual de percepção generalizado “(5).

Há que perceber claramente que para essa ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais – rádio, televisão, jornais — e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas e esse é o pântano em que evoluem e levedam as artes performativas.

Há ainda que perceber que estas actividades culturais e artísticas fazem parte do objectivo mais ambicioso do neoliberalismo de produzir um homem novo, não o que o comunismo procurou realizar, mas um outro construído pela aniquilação do sujeito moderno crítico e marxista, substituindo-o por um sujeito autista, consumidor indiferente à dimensão essencialmente política da existência, um indivíduo que se refere exclusivamente ao aspecto solipsista dos objectos que se realizam como mercadoria subjectiva da cultura de massas, uma cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana no que é um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. A esquerda cosmopolita ao não perceber essa realidade e a ela não resistir, por ignorância ou oportunismo, condena-se a escorregar nas cascas de banana que os outros comeram. Está colonizada, por vezes sem disso ter consciência, pelo pensamento de direita.

(1) Burckhardt, Jacob, Considerations sur L’Histoire, Allia, 2001

(2) Broch, Hermann, Quelques Remarques à Propos du Kitsch, Allia 2001

(3) Trigo, Luciano, A Grande Feira do Vale-Tudo na arte Contemporânea, Civilização Brasileira, 2009

(4) Perniola, Mário, A Arte e a sua Sombra, Assírio & Alvim, 2006

(5) Byung-Chul, Han, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água, 2018

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ARTE?

KoonsJeff Koons, um dos mais artistas contemporâneos com maior cotação no mercado das artes, ofereceu à cidade de Paris a maqueta de uma escultura(?), obra original e monumental, para ser realizada com dez metros de altura em bronze, aço e alumínio, custo estimado três milhões de euros, de uma mão empunhando um ramo de túlipas. A única originalidade, as túlipas repetem as muitas que tem plantado em várias exposições, é a mãozinha, um bom exemplo de como Koons é um artista medíocre. Qualquer aluno do primeiro ano de escultura numa qualquer escola de artes deveria ser chumbado se produzisse aquela coisa que é validada por ser desenhada pelo “artista” norte-americano que só o é e tem a cotação por ser suportado pelo negócio que contamina as artes contemporâneas, organizado pelos vendedores das multinacionais do hiperluxo, por uma “crítica” de arte que não existe enquanto crítica, fabrica bulas de marketing publicitário que avaliza as escolhas dos curadores, esse baixo clero das artes do nosso tempo. É uma, mais uma, demonstração do que José Luís Porfírio, com a lucidez e o conhecimento que o caraterizam, enuncia: Cada vez mais o valor venal de um objecto artístico é considerado o seu único valor objectivo, ou mesmo, sem confusões o seu único valor, numa tempo em que os “curadores” não devem pensar porque estão sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só, mercadoria e o público se alicia com mentiras, ou melhor (pior) não verdades.

Em França, várias personalidades do universo intelectual contestam que a cidade se deixe aprisionar pela teia de interesses espúrios que têm um único objectivo, contribuir para solidificar a cotação especulativa dos objectos produzidos pelo atelier de Koons que se tornou “num emblema de uma arte industrial, espectacular e especulativa”. Um alarme tardio sobre no que se tornou o “Paradigma da Arte Contemporânea”, para aceitar as teses de Nathalie Heinich, reunidas num livro que tem esse título.

A questão já tem uns anos, tem sido objecto de várias e bem fundamentados teses, das mais pertinentes as de Fredric Jameson nos seus vários ensaios sobre o pós-modernismo. Uma prática artística que não coloca questões porque não tem nada para dizer e se dedica a explorar os limites das transgressões numa sociedade débil, entediada pelo seu próprio tédio e onde tudo se aceita e está cinicamente perdoado, desde que tenha valor de mercado. Mesmo as mais aparentemente contundentes não passam de encenações para consumir um tempo desgastado de uma sociedade de inutilidades retóricas que se acumulam sem sentido para se esquecerem no momento seguinte.

Em Viena, em 1970, vários artistas organizam performances em que mijaram e defecaram em público. Piero Manzoni fabricou e vendeu numa exposição quarente e oito caixas de conserva em que se dizia no rótulo conter a merda do artista. No museu de Anvers, Wim Delvoye expôs uma máquina em que literalmente se reproduzia o ciclo alimentar, da ingestão à excreção dos excrementos que recuperava e vendia com um preço por quilograma. Performances recuperadas por cantores punk. Em São Francisco, Nöh Mercy vai para o palco grávida, simula o parto, num grande banho de sangue falso, dá à luz um osso de vaca. Em Los Angeles, num concerto dos Vox Pop. uma mulher nua corre entre os tocadores e cantores, retira um tampax da vagina, atira-o para a multidão. Alguns flagelam-se brutalmente com navalhas e lâminas, numa auto-humilhação que atingiu o seu máximo com o artista norte-americano Paul McCarthy, horrorizando mas não escandalizando o público. Todas as fronteiras são violadas sem quebrar a imobilidade do nosso tempo como Leo Ferré proclamava “Escuta, escuta…no silêncio do mar, há como um balanço maldito que acerta as horas/ na areia que ascende um pouco, como as velhas putas que refazem a sua pele, desfazem as rugas // A imobilidade…A imobilidade perverte o século”.

A imobilidade que faz assistir às mais parvoides exibições que se vendem como arte. São acondicionadas por farfalhadas como a que, ainda recentemente a pretexto de uma exposição da dupla portuguesa Von Calhau, numa exposição que ainda está em exibição em Londres na galeria Kunstraum, subsidiada pela Fundação Gulbenkian, Instituto Camões e embaixada de Portugal em Londres, o programador independente João Laia, com largo currículo de exposições, a doutorar-se em curadoria, escreveu: “Com recurso a esses diferentes meios, e explorando constantemente a miscigenação de referências e elementos das mais diferentes extrações, os Von Calhau! têm vindo a construir um imaginário e uma cosmogonia muito próprios, esotéricos e sincréticos, a partir dos quais interrogam a nossa condição no mundo, ao mesmo tempo que averiguam o sentido da colaboração inerente a tudo aquilo que fazem”.

Alguém ou o próprio consegue decifrar este pedaço de prosa? Em anexo um video de uma “obra” dos Von Calhau como auxiliar descodificação.

Assim vai, para nossa danação, a arte contemporânea.

Resta-nos acreditar em Leo Ferré, no final do já citado poema-canção Il n’y a Plus Rien: (…) não morreremos em vão/ viveremos para sempre// E os micróbios da parvoíce que insistem / em nos legar / enchendo as vossas estrumeiras / dos vossos livros empilhados nas vossas bibliotecas/ dos vossos documentos públicos/ dos vossos regulamentos da administração penitenciária/ dos vossos decretos/ das vossas orações, mesmo / de todos os micróbios jurídicos/ Estejam tranquilos/ Nós já temos as máquinas para os triturarem// NÓS TEREMOS TUDO// nos próximos dez mil anos.(*)

(*) tradução livre da minha responsabilidade

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Esbofetear a Literatura e a Cultura

bobdylan

 

Por estes dias Bob Dylan por interposta Patti Smith recebe o Nobel da Literatura que a Academia decidiu conceder com o argumento de “ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana”, o que a secretária permanente da academia explicou, considerando Dylan ser merecedor do prémio por “ser um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”.

São curiosas justificações que nada justificam. Se Dylan criou novas expressões poéticas na tradição da canção americana o que dizer de um Leonard Cohen, de uma Laurie Anderson, de uma Meredith Monk. Argumento mais ridículo é considera-lo “um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”. Um só verso de T.S.Elliot, para referir outro nobelizado, tem mais espessura e inteligência que toda a obra de Dylan, a que já produziu e a que eventualmente venha a produzir. Seria extraordinário que a coroa de louros do Nobel produzisse tal metamorfose e transfiguração. O que o Nobel vai injectar em Dylan é um doping de marketing.  O prémio da Academia Sueca é um selo que faz vender e muito mais vai fazer vender quem já se movia no mundo comercial como peixe na água, como se pode aferir pelas vendas alcançadas por um dos seus últimos discos em que recorre ao reportório de Sinatra mesmo que seja uma demonstração das suas limitações enquanto cantor.

A atribuição do prémio a Dylan produziu enormes ondas de choque no universo da cultura, normalmente associada a um conceito restritivo e elitista que tem sido abalado, desde a emergência da cultura pop por uma hibridização entre géneros que não cessam de se cruzar de forma incongruente mas que, há que reconhecê-lo, muitas vezes de forma sedutora para criar um imaginário universalizado a destruir fronteiras entre as camadas sedimentares das culturas, Cultura Erudita/Humanística, a Cultura Popular, Cultura de Massas, etc. alienando as políticas de democratização da cultura. Um dos que mais se fez ouvir foi Vargas Llosa, outro Nobel da Literatura, numa denúncia vigorosa de que agora “vale tudo” na banalização de uma cultura em que se apagaram os parâmetros selectivos, interrogando se “no próximo ano vão dar o Nobel da Literatura a um futebolista”. O que não é inesperado de quem escreveu o ensaio A Civilização do Espectáculo, em linha com muitas obras teóricas que têm colocado em causa o estado actual da cultura contaminada pelas mundanidades e pelos populismos.

No olho do furacão desencadeado pela atribuição do Nobel a Dylan têm ficado submersos outros argumentos pertinentes embora quase seja obrigatório referir o sofisma de alguns recordarem que na antiga Grécia a poesia estar sempre ligada á música. Safo ou Homero, os trovadores franceses e ingleses, as Cantigas de Santa Maria da corte de Afonso, o Sábio ou de Dom Diniz, não podem ser usados para caucionar a eleição da Academia Sueca. Ao entrar por esse campo, dentro das fronteiras definidas nesse território, Dylan é um pigmeu, tanto poética como musicalmente, se for comparado com um Georges Brassens, um Leo Ferré, mesmo um José Afonso. Ouvindo qualquer desses cantautores, como agora são chamados, a distância para o norte-americano é abismal. E se Brassens raramente musicou poemas que não os seus Ferré, com bastante talento e sem escorregar para algum cabotinismo que inquina parte da sua obra, escreveu excelente música para poemas de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. Estão mortos, a Academia não atribui prémios a artistas entretanto desaparecidos. Argumentário falhado se formos ouvir um Chico Buarque ou um Caetano Veloso que, como escreveu Helder Macedo, “transformaram a poesia impossível no tempo da ditadura na canção possível durante a ditadura”. Sublinhe-se mais uma vez com um saber musical e poético de que Dylan é incapaz. Estão vivos, continuam a escrever canções numa língua que é das mais faladas no mundo, o que seria uma eventual pecha dos franceses. São de um país, o Brasil, onde o Nobel nunca desembarcou apesar dos grandes escritores que cintilam no seu firmamento e no firmamento universal.

Estranho? Nem tanto. O prémio Nobel da Literatura, como outros nóbeis, é também um prémio político. Obama está no panteão dos nóbeis da Paz para o confirmar. Na literatura, só assim se percebe porque foram nobelizados Soljenitsyne, Cholokov, Alexievich ou, sobretudo Churchill “pela sua brilhante oratória na defesa dos Direitos Humanos”, ele que era de facto um brilhante orador, a denúncia incendiária que fez do nazismo prova-o, mas teve posições dúbias em relação ao genocídio dos índios, desprezava não pelas melhores razões Gandhi, a componente rácica não era alheia a esse desprezo, foi um dos principais co-autores do brutal e desnecessário bombardeamento de Dresden, registado para a posteridade em Matadouro 5, por Kurt Vonnegut e que agora está a ser detergentada pela química dos restos do Muro de Berlim. Enfim, era a Academia Sueca a contribuir decisivamente para cumprir o desejo de Churchill “a história será gentil para mim, já que pretendo escrevê-la”.

Nesse patamar político há que situar o Prémio Nobel da Literatura 2016, escolhendo um suposto activista da contracultura, subvertida pela sua obra politicamente correcta, a fazer cócegas inconsequentes ao establishment, que engorda com essa marginalidade bem-comportada, a envernizar a liberalidade de uma sociedade sem dignidade e sem dignidade para oferecer.

É nesse patamar político que o prémio da Academia contribui para a manutenção do imperialismo cultural anglo-saxónico, que se ancorou no século XX, quando as nações perdem centralidade e capacidade de comandar o processo cultural. Quando a superfície global vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Quando miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a definir mais nitidamente a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar-ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços-nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana têm hoje um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, estamos a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge impondo-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras e agora entra com grande estrondo nos salões em que se decidem a atribuição do Nobel da Literatura, tomados de assalto pela banalização dos critérios intelectuais, pelas modas da cultura massificada e alienada, pelo vazio da era do vazio.

Inscreve-se o prémio da Academia Sueca a Bob Dylan na exportação de formas culturais que têm o objectivo de despolitizar, trivializar, alienar a humanidade aplainando o humano individual num processo de globalização e internacionalização que tende a destruir todas as formas de solidariedade, comunidade, valores sociais. É uma nova tirania exercida através de uma cultura em que subverte a cultura erudita e popular numa formatação pop e na instituição do star-system em que o que se exige dos receptores é o menor esforço, em que a procura e o do prazer da descoberta são praticamente anulados para que a inteligência morra, depois de um longo estado de coma agónica entre no grau zero.

Eleger Bob Dylan como Prémio Nobel da Literatura enquadra-se nos objectivos maiores do imperialismo político e económico, na sua componente cultural. É a legitimação do triunfo da cultura pop, do populismo das redes sociais, da banalização do pensamento reduzido ao teclar de um tweet, do trabalho sem fadiga de demagogicamente banalizar a criatividade, um vírus canceroso que tem vindo a corromper as artes na grande tarefa de destruição da exigência de esforço que as artes comportam para nos tornarem humanos.

(publicado em AbrilAbril; 12 Dezembro)

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Arte e artistas nos labirintos da pós-modernidade

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O Atelier do Pintor, Rogério Ribeiro

 

Na actualidade, no mundo das artes verifica-se uma regressão no estatuto social dos artistas. Depois da Revolução Francesa, quando a burguesia alcançou o poder político na sequência do poder económico que vinha consolidando desde o fim da Idade Média, os artistas foram-se libertando, de um sistema em que estavam completamente dependentes das encomendas  da nobreza, da aristocracia, do clero. Processo que já se tinha iniciado no liberalismo da monarquia inglesa. Essa grande transformação inicia-se nas artes visuais com o aparecimento dos museus, mais tarde dos salões e galerias de arte, na música e teatro com os empresários de salas de espectáculos e  espectáculos, alguns eles mesmos músicos como Haendel, na literatura com os editores independentes e a introdução dos suplementos literários nos jornais quando passaram a ser vendidos por número avulso. Suplementos literários que começaram a publicar romances em folhetim, prática em que distinguiram Alexandre Dumas, Eugène Sue, Lamartine.

Os artistas respondiam a encomendas em paralelo com o que realizavam para o mercado, para compradores que lhes eram desconhecidos. Walter Benjamin considera que o artista que melhor percebeu esse novo estatuto social foi Baudelaire que sabia qual era a real situação do novo homem de letras  “que se dirige ao mercado dizendo a si-mesmo que vai ver o que se passa, mas na verdade já anda à procura de comprador.”

A evolução foi muito rápida com alguns episódios dolorosos de artistas que morreram na miséria antes de ter o merecido reconhecimento. Hoje, no pós-modernismo, que Francis Jameson classifica como a lógica cultural do capitalismo terminal, atingiu-se um estádio em que “a sociedade  não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.” (Gianni Vattimo).  Nesse  quadro, os contextos da arte são cada vez mais influenciados pelo mercado, em que surgem massivamente compradores e coleccionadores, novos artistas, novos eventos como feiras de arte, bienais, grandes exposições colectivas. Os períodos de grande euforia económica foram propiciadores de contextos que estruturaram aquilo que hoje se pode denominar um mundo de arte globalizado, com uma economia poderosa, em que a especificidade da criação artística e da reflexão por ela suscitada se dissolve nos momentos de apresentação e de representação social dos eventos desse mesmo mundo. Um mundo em que os intermediários culturais proliferam e têm influência crescente. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, a correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam.” É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, que manipula os valores do mercado. Uma espécie de clérigos pós-modernos que dominam o mercado da arte mantendo os seus aspectos formais mas, na realidade, subvertendo-os eficazmente, tornando os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento  com que se ilude esta realidade.

publicado em http://www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Outubro2016/jornal-out-2016.pdf

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As Artes num Impasse

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O último fim de semana em Serralves, O Museu Performance, foi a demonstração cabal de como uma superlativamente intitulada arte é o apogeu da farsa em que está mergulhada muita arte contemporânea, travestindo-se de modernaça mas que é substantivamente conservadora e reaccionária.

Houve de tudo. Vídeos medíocres, música de quem não sabe sequer o que é uma nota, representações que qualquer actor de um sofrível teatro amador faz melhor, uma suposta cantora lírica que nem para cantar a tomar banho serve, um gajo que decide tomar enfrentar uma mangueira de bombeiros, porque sim estava calor mas aquilo era um desperdício de água, uma trupe anarco-queer que diz ir enfrentar o futuro mas fica pela rasteira representação kitsch e mais umas quejandas actuações-efeito que condensam, como os slogans, a vontade que temos de não pensar, a propensão para nos quedarmos no terreno pantanoso da idiotia esplendorosa de alguma arte actual. Nos antípodas do que Manuel Gusmão, com a clareza habitual, expôs num texto em que defendia que as artes nos fazem humanos.

Também nos devemos interrogar porque é que aquela gente não aprende a filmar, a representar, a cantar, a compor, enfim a aprender aquelas coisas básicas que se deve exigir a quem diz querer transgredir os cânones. O mínimo dos mínimos para tão rarefeitas ideias, sem um grão de inovação e descoberta. Tudo requentado e ruminante.

O que se assistiu, o que foi dado ver é de uma banalidade confrangedora. Bolas de sabão que nem chegam a ter dimensão ou cor por logo rebentarem. Rebentam em silêncio contando com a cumplicidade dos assistentes atónitos, paralisados por aquele abundante desvalimento mental que acaba por alastrar e contaminar.

Claro que há uma conversa de treta que envolve todas aquelas performances e que nem sequer são embrulhadas em papel de estanho a imitar papel de prata. Nada de novo. A normalidade do estado da arte em que quanto mais indigentes são as obras mais «inteligentes» são os textos que as apresentam ou justificam. Os estupendos curadores, do alto da sua empáfia, proclamam que naqueles dois dias, os espaços iam perder a sua aparência usual para serem «ocupados por trabalhos que apelam a outros sentidos, revelando arquitecturas invisíveis e abalando o normal fluxo do tempo da visita do museu» para que o museu deixe de ser espaço de mera contemplação para ser «um lugar onde coisas acontecem, espaço em estado de fluxo permanente, um museu em permanente performance».

Nem percebem que com aquele tipo de actividades degradam o conceito de arte e prolongam o conceito de museu como um espaço onde se penduram quadros, encerram esculturas, recepcionam instalações e performances. Onde os espectadores entram para se encontrarem com os paradoxos das experiências artísticas. Um «cubo branco», leia-se O’Doherty, onde o espectador se isola, para ver os objectos classificados como arte num meio em que o tempo histórico não se rege por instrumentos de medida. Espaços comparáveis às igrejas medievais, espaços sagrados intocáveis, onde o comportamento dos visitantes é igual ao dos fiéis: de adoração, sacralidade e intemporalidade. Onde se codificam preconceitos e reforça a imagem de uma classe média e média-alta. Onde a estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, financeiro e intelectual. Local onde o artista é um individuo comercial, disfarçado. O que se assistiu foi à traficância do trabalho criativo a que a arte se deve obrigar. Tudo foi tão óbvio, tão simplória e mediocremente criativo que só pelo receio de ser tomado por ignorante é que aquilo não foi varrido a sonoras e saudáveis gargalhadas. Alinhando com a predominância do títulos em inglês, coleccionaram-se Bullshit.

Tudo em linha com a situação actual em que as imagens, artísticas ou documentais, estão dotadas de fortíssimo impacto emocional, interagem com as da moda, do cinema, da televisão, da internet, do grafismo, da publicidade do design, dando lugar a um imaginário social caracterizado pela provocação. A resultante é uma procura de novidade e do efeito, perseguida por si-próprias, o que implica uma rápida usura e obsolescência que obriga a que tudo seja continuamente substituído por algo dotado com maior força de impacto ou capaz de despertar a atenção. Nesse embaraço a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado. Uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido.

O outro lado da questão é a posição dominante que os intermediários culturais têm no mundo das artes actual. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, «correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam». É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, manipula os valores do mercado, passa diplomas e hierarquiza os artistas. Uma espécie de baixo clero pós-moderno que torna a arte e os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro que exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento com que se ilude essa realidade.

Porque a dura realidade é que desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda o estado actual das artes não tem comprometido nem a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana, como Mario Perniola extensamente teorizou no magnifico ensaio A Arte e a sua Sombra. Essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. O debate estético e cultural está praticamente reduzido a zero, submetido à ditadura dos intermediários culturais, sejam curadores, directores de museus ou marchands. Aliás o trânsito é intenso e não sai dos carris.

O que se torna alarmante é que o vazio criativo dessas práticas ditas artísticas onde vale tudo, tem um aliado objectivo nos que contestam alacre e imbecilmente toda a arte contemporânea, há um vídeo particularmente asqueroso a correr na internet, concorrendo ambos, por caminhos aparentemente opostos, para o descrédito das artes. Um impasse que é urgente e necessário ultrapassar rapidamente.

(publicado em Abril Abril 24/09/2016)

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Um mundo sobrepovoado de génios

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Este ano, as mortes de David Bowie e Prince inundaram os media e as redes sociais de textos laudatórios do trabalho desses dois cantores fazendo suspender o tempo para dar espaço ao cortejo de homenagens. Rapidamente ascenderam ao Olimpo dos génios, ao Panteão dos imortais. Poderia, deveria assombrar a facilidade com que se catapultam artistas mesmo daquele gabarito, mais Bowie que Prince o que para o caso pouco interessa, para um excessivo, um adjectivo suave, endeusamento. Começam a escassear os bons artistas, agora só deuses, génios, não por acaso todos ou quase todos da galáxia anglo-saxónica. É a economia do sistema das estrelas que invadiu todas as áreas da cultura, das chamadas indústrias culturais e criativas. Cinema, pintura, teatro, música, literatura, artes performativas, mas também outras como o desporto, a cozinha, a moda, etc., foram tomadas de assalto pelas super-estrelas. Uma marca das sociedades no nosso tempo.  Um fenómeno que merece alguma reflexão.

A questão nuclear é que no mundo globalizado, os mercados das indústrias culturais e criativas fabricam produtos a ritmos acelerados com a manufactura de pseudo-acontecimentos alinhados pelos mecanismos publicitários em que a afirmação enfática da marca é bastante para nomear uma realidade incomparável. Onde a procura de originalidade se transforma na confissão parcial de não-originalidade, mascarada pela erupção constante de novidades que, invariavelmente, acabam por se revelar requentadas.

A urgência de amortizar os custos, materiais e imateriais, da criação de estrelas e super-estrelas não dá espaço nem tempo para uma verdadeira inovação. Nem isso interessa quando o foco está no sucesso do sobe e desce dos top-ten e seus reflexos na cotação dos mercados. Sucessos anunciados no bater dos tambores de uma comunicação social estipendiada que se repercute nas redes sociais cercando e anulando mesmo as vozes críticas mais lúcidas. Aliás, essas desmistificações, por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames tecendo um cintilante e artificial mundo das estrelas e super-estrelas que sobrepovoam o universo de génios construídos com as estruturas aramadas de grandes campanhas promocionais. Vale tudo desde a invenção de qualidades em produtos sem qualidades ou de qualidade duvidosa à exploração dos aspectos da vida intima, de preferência sórdidos. É a cultura burguesa no seu máximo esplendor. A sublime inutilidade em que, nos melhores dos casos mas não por acaso, mesmo quando há algum interesse estético ou algum interesse artístico se cumpre o destino histórico dos formalismos que termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma.

O extenso noticiário apologético provocado pelas mortes de David Bowie e Prince é bem esclarecedor do estado actual da arte. A par de um até pacóvio embasbacamento com a sua obra, sublinhava-se o seu tom por vezes  provocatório em relação a uma sociedade, procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Tudo isso faz parte do imaginário do pensamento dominante de um mundo de conformismo cúmplice com as piores baixezas. Um mundo em que o sentir pós-moderno parece ter ficado paralisado pela discrepância entre um conhecimento lúcido e penetrante e uma imoralidade deliberada, sem freio e sem pudor.

Gianni Vattimo sublinha a importância de um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento “das exigências de uma sociedade que não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.”

Uma situação grave e complexa que configura a actual vitória ideológica da direita que é necessário combater em todos os terrenos. Um deles entrar por esse panteão de génios de pacotilha e, com a vergasta do Jesus no Evangelho Segundo S. Mateus de Pasolini, correr com os vendilhões do templo.

 

in Jornal A Voz do Operário,

n.º 3034, pág. 15, Junho 2016, Lisboa.

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"Star-System", Copmunicação Social, Edgar Silva, Eleições presidenciais 2016, Geral, Henrique Neto, Jornalismo, Maio 68, Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Marisa Matias, Sociedade Pós-Moderna, Tino de Rans

Quem ganhou as eleições?

 

TVQuem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”. Continuar a ler

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"Star-System", BANCOS, capitalismo, Comunicação Social, Mercado

Especialistas na venda de banha da cobra

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O título deste post poderia ser o mesmo do último post do Paulo Anjos, porque o assunto é o mesmo: o pensamento único, desprovido de contraditório, que inunda a comunicação social em Portugal, ditando opiniões sob a forma de verdades únicas e indiscutíveis.

A propósito de projectos lei do PS, do PCP e do BE que visam acabar com a penhora de habitações próprias e o despejo de famílias por dívidas, a Antena 1 decidiu ouvir a opinião do «fiscalista» Tiago Caiado Guerreiro.

Os referidos projectos coincidem na proibição de penhoras de casas e despejos de famílias por dívidas fiscais, divergindo no facto dos projectos do PCP e do BE alargarem esta impossibilidade de penhora e despejo em casos de dívida à banca.

Ora, vale a pena ouvir a opinião do especialista e, claro está, perante tal opinião remetermo-nos à nossa condição de ouvintes não especialistas em matérias desta natureza.

Para este ilustre fiscalista, a medida de impedir penhoras e despejos por dívidas fiscais é muito positiva, porque defende os direitos humanos, relembrando-nos que o direito à habitação está consagrado na Carta Universal dos Direitos Humanos e que, em Portugal, com o único objectivo de se obter receita fiscal atropelaram-se todos os direitos, valeu tudo para obter receitas fiscais, destruir famílias inteiras, destruir empresas, em suma, esta medida é um primeiro passo no sentido de criar uma relação equilibrada entre cidadãos e o Estado.

Já sobre as propostas de PCP e do BE, visando alargar este impedimento de penhoras e despejos por dívidas à banca, o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro afirma que «metermo-nos nas relações privadas dá origem a um desequilíbrio das próprias relações», mais ninguém teria empréstimo bancário e casa própria, os bancos deixariam de conceder crédito, uma medida «louca de esquerda» que parece defender as pessoas, mas não defende ninguém, pura e simplesmente destrói o mercado.

Eu, que não sou fiscalista, limitando-me à condição de mero ouvinte gostaria de perguntar ao especialista ouvido pela Antena 1: então se for o Estado a penhorar uma casa e a despejar uma família como consequência de uma dívida fiscal estamos perante um atropelo aos mais elementares direitos humanos, mas se a mesma família for alvo da mesma execução por uma dívida à banca é o normal funcionamento do mercado, é resultado do equilíbrio das relações privadas onde o Estado não deve meter a colher?

Para o Estado o direito à habitação é um direito humano, para a banca o direito à habitação são desculpas de mau pagador? É isso?

Aqui, como noutras ocasiões, em nome do sacrossanto mercado e do seu regular funcionamento, em nome do lucro e da segurança do banqueiro lá se vai toda a indignação e defesa encarniçada dos direitos humanos.

Para Tiago Caiado Guerreiro, como para a maioria dos opinadores da moda, o direito ao lucro, o direito à livre iniciativa, o direito à especulação a agiotagem, sobrepõem-se aos direitos humanos.

Para estes especialistas, as relações privadas são equilibradas, aliás, como facilmente se comprova se observarmos a relação entre o cliente e o banco, entre o patrão e o trabalhador… Tudo equilibradíssimo, como pode alguém ousar interferir na ordem natural das coisas?

Tiago Caiado Guerreiro tem direito a ter e dar a conhecer sua opinião e pensamento, a defender as suas concepções políticas e ideológicas, mas que um canal público de rádio, obrigado à prestação de serviço público, me venda essa opinião sob a capa de uma suposta neutralidade ideológica de um especialista, já considero totalmente desonesto e inadmissível.

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"Star-System", Artes, Arturo Benedetti Michelangeli, Beethoven, Cultura, Dino Lipati, Emil Gillels, Geral, Glinka, Grandes Pianistas, Nina Dorliac, Sviastoslav Richter

Música para um dia de Inverno luminoso

uma canção de Glinka por Nina Dorliac

Sviastoslav Richter, quando ainda era um desconhecido no ocidente, começou a acompanhar a soprano Nina Dorliac. Casaram e quando Richter morreu, Nina só lhe sobreviveu uns meses. Os recitais protagonizados pelos dois foram inúmeros. Poucos ficaram registados discograficamnte e são praticamente impossíveis de encontrar, havendo um com canções de Debussy que é notável. A razão da falta de registos discográficos também se deve a muitos desses recitais terem sido realizados sobretudo por toda a União Soviética, de Moscovo a Vladivostok, com Richter a tocar em pianos improváveis, com nomes saborosos como Outubro Vermelho, mas de qualidade duvidosa, o que nunca o fez recusar um concerto. Este genial pianista, com Benedetti e Lipati, atrevo-me a classificá-los como os mais marcantes dos últimos séculos desde que o piano começou a ocupar um lugar central na música, com interpretações que serão dificilmente superáveis, não tinha nenhum dos tiques de vedetismo que muitos outros pianistas também notáveis, exibiam exuberantemente. Se repararem nos videos que estão no You Tube, em Richter não há gestos teatrais, piscadelas cénicas. ausência de pautas para exibição desnecessária de memória. Richter repudiava esses exibicionismos. afirmava que eram sequelas do romantismo que punham a tónica nessa espectacularidade em vez de se concentrarem no rigor pela música escrita.. E todo o mundo musical conhecia que ele quando ouvia outro instrumentista não precisava de pautas para apontar notas falhadas ou truncadas. Quem assistiu aos seus recitais a solo, como os que fez numa digressão em Portugal já com uma idade assinalável mas senhor de todos os seus imensos recursos, não pode deixar de notar que a sua preocupação era com a música. Uma luz a incidir sobre a pauta, o pianista quase na obscuridade. As luzes só se acendiam quando agradecia os aplausos sem excessos. No entanto, poucos como ele olhavam para a floresta da pauta para que todas as árvores fossem presentes, para que a unidade e o esplendor da floresta ficasse sublinhado. Outra das características é que são poucas, quase nenhumas, as suas gravações em estúdio, refira-se as 5 sonatas para cello e piano de Beethoven que gravou com Rostropovitch, porque considerava que era o calor humano de tocar em público, o risco que qualquer acyor corre quando esté em palco. que valorizava as interpretações e não o andar a apagar e colar notas para corrigir falhas, como outros seus pares faziam. Clausulava mesmo nos contratos que fez com várias editoras, nunca foi artista exclusivo de nenhuma nem realizou nenhuma integral das composições para piano de algum compositor, que se no futuro gravasse essa música com uma interpretação que considerasse muitissimo melhor, a gravação existente sairia do mercado. A sua genialidade e rigor eram de tal ordem que uma vez quando lhe perguntaram porque não tocava uma certa obra de Debussy, disse que não o fazia nem faria porque nunca a conseguiria tocar melhor que Benedetti. Humildade raríssima num universo povoado de super vedetas. Só comparável com Emil Gillels, outro enorme pianista, o primeiro pianista soviético a tocar no ocidente e a tocar de tal maneira que ganhou um concurso em que o segundo classificado foi o já referido Arturo Benedetti Michelangeli, o que deixou meio mundo boquiaberto porque pensavam que a grande escola musical russa tinha sido destruída pelo poder soviético. O assombro foi tal que os críticos musicais inquiriram Gillels sobre o que consideravam um fenómeno, uma raridade, um caso único. Ficaram ainda mais espantados quando Gillels, também com enorme humildade lhes disse que se achavam que ele era um pianista excepcional esperassem até ouvir Richter. No mundo actual invadido pela fabricação constelações de estrelas em todas as profissões dos cozinheiros, perdão chefs, aos costureiros, desculpem fashion directors, essa turbamulta de famosos que invadem o quotidiano e o alimentam de mundanidades ocas, é bom recordar estes génios que desprezavam o “Star-System”, uma das rodas dentadas essenciais do mercado neo liberal, do pós-modernismo do capitalismo terminal.

Ouçam Nina Dorliac e Sviastoslav Richter, descubram esta soprano quase desconhecida.

 

 

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