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ARTE?

KoonsJeff Koons, um dos mais artistas contemporâneos com maior cotação no mercado das artes, ofereceu à cidade de Paris a maqueta de uma escultura(?), obra original e monumental, para ser realizada com dez metros de altura em bronze, aço e alumínio, custo estimado três milhões de euros, de uma mão empunhando um ramo de túlipas. A única originalidade, as túlipas repetem as muitas que tem plantado em várias exposições, é a mãozinha, um bom exemplo de como Koons é um artista medíocre. Qualquer aluno do primeiro ano de escultura numa qualquer escola de artes deveria ser chumbado se produzisse aquela coisa que é validada por ser desenhada pelo “artista” norte-americano que só o é e tem a cotação por ser suportado pelo negócio que contamina as artes contemporâneas, organizado pelos vendedores das multinacionais do hiperluxo, por uma “crítica” de arte que não existe enquanto crítica, fabrica bulas de marketing publicitário que avaliza as escolhas dos curadores, esse baixo clero das artes do nosso tempo. É uma, mais uma, demonstração do que José Luís Porfírio, com a lucidez e o conhecimento que o caraterizam, enuncia: Cada vez mais o valor venal de um objecto artístico é considerado o seu único valor objectivo, ou mesmo, sem confusões o seu único valor, numa tempo em que os “curadores” não devem pensar porque estão sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só, mercadoria e o público se alicia com mentiras, ou melhor (pior) não verdades.

Em França, várias personalidades do universo intelectual contestam que a cidade se deixe aprisionar pela teia de interesses espúrios que têm um único objectivo, contribuir para solidificar a cotação especulativa dos objectos produzidos pelo atelier de Koons que se tornou “num emblema de uma arte industrial, espectacular e especulativa”. Um alarme tardio sobre no que se tornou o “Paradigma da Arte Contemporânea”, para aceitar as teses de Nathalie Heinich, reunidas num livro que tem esse título.

A questão já tem uns anos, tem sido objecto de várias e bem fundamentados teses, das mais pertinentes as de Fredric Jameson nos seus vários ensaios sobre o pós-modernismo. Uma prática artística que não coloca questões porque não tem nada para dizer e se dedica a explorar os limites das transgressões numa sociedade débil, entediada pelo seu próprio tédio e onde tudo se aceita e está cinicamente perdoado, desde que tenha valor de mercado. Mesmo as mais aparentemente contundentes não passam de encenações para consumir um tempo desgastado de uma sociedade de inutilidades retóricas que se acumulam sem sentido para se esquecerem no momento seguinte.

Em Viena, em 1970, vários artistas organizam performances em que mijaram e defecaram em público. Piero Manzoni fabricou e vendeu numa exposição quarente e oito caixas de conserva em que se dizia no rótulo conter a merda do artista. No museu de Anvers, Wim Delvoye expôs uma máquina em que literalmente se reproduzia o ciclo alimentar, da ingestão à excreção dos excrementos que recuperava e vendia com um preço por quilograma. Performances recuperadas por cantores punk. Em São Francisco, Nöh Mercy vai para o palco grávida, simula o parto, num grande banho de sangue falso, dá à luz um osso de vaca. Em Los Angeles, num concerto dos Vox Pop. uma mulher nua corre entre os tocadores e cantores, retira um tampax da vagina, atira-o para a multidão. Alguns flagelam-se brutalmente com navalhas e lâminas, numa auto-humilhação que atingiu o seu máximo com o artista norte-americano Paul McCarthy, horrorizando mas não escandalizando o público. Todas as fronteiras são violadas sem quebrar a imobilidade do nosso tempo como Leo Ferré proclamava “Escuta, escuta…no silêncio do mar, há como um balanço maldito que acerta as horas/ na areia que ascende um pouco, como as velhas putas que refazem a sua pele, desfazem as rugas // A imobilidade…A imobilidade perverte o século”.

A imobilidade que faz assistir às mais parvoides exibições que se vendem como arte. São acondicionadas por farfalhadas como a que, ainda recentemente a pretexto de uma exposição da dupla portuguesa Von Calhau, numa exposição que ainda está em exibição em Londres na galeria Kunstraum, subsidiada pela Fundação Gulbenkian, Instituto Camões e embaixada de Portugal em Londres, o programador independente João Laia, com largo currículo de exposições, a doutorar-se em curadoria, escreveu: “Com recurso a esses diferentes meios, e explorando constantemente a miscigenação de referências e elementos das mais diferentes extrações, os Von Calhau! têm vindo a construir um imaginário e uma cosmogonia muito próprios, esotéricos e sincréticos, a partir dos quais interrogam a nossa condição no mundo, ao mesmo tempo que averiguam o sentido da colaboração inerente a tudo aquilo que fazem”.

Alguém ou o próprio consegue decifrar este pedaço de prosa? Em anexo um video de uma “obra” dos Von Calhau como auxiliar descodificação.

Assim vai, para nossa danação, a arte contemporânea.

Resta-nos acreditar em Leo Ferré, no final do já citado poema-canção Il n’y a Plus Rien: (…) não morreremos em vão/ viveremos para sempre// E os micróbios da parvoíce que insistem / em nos legar / enchendo as vossas estrumeiras / dos vossos livros empilhados nas vossas bibliotecas/ dos vossos documentos públicos/ dos vossos regulamentos da administração penitenciária/ dos vossos decretos/ das vossas orações, mesmo / de todos os micróbios jurídicos/ Estejam tranquilos/ Nós já temos as máquinas para os triturarem// NÓS TEREMOS TUDO// nos próximos dez mil anos.(*)

(*) tradução livre da minha responsabilidade

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Esbofetear a Literatura e a Cultura

bobdylan

 

Por estes dias Bob Dylan por interposta Patti Smith recebe o Nobel da Literatura que a Academia decidiu conceder com o argumento de “ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana”, o que a secretária permanente da academia explicou, considerando Dylan ser merecedor do prémio por “ser um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”.

São curiosas justificações que nada justificam. Se Dylan criou novas expressões poéticas na tradição da canção americana o que dizer de um Leonard Cohen, de uma Laurie Anderson, de uma Meredith Monk. Argumento mais ridículo é considera-lo “um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”. Um só verso de T.S.Elliot, para referir outro nobelizado, tem mais espessura e inteligência que toda a obra de Dylan, a que já produziu e a que eventualmente venha a produzir. Seria extraordinário que a coroa de louros do Nobel produzisse tal metamorfose e transfiguração. O que o Nobel vai injectar em Dylan é um doping de marketing.  O prémio da Academia Sueca é um selo que faz vender e muito mais vai fazer vender quem já se movia no mundo comercial como peixe na água, como se pode aferir pelas vendas alcançadas por um dos seus últimos discos em que recorre ao reportório de Sinatra mesmo que seja uma demonstração das suas limitações enquanto cantor.

A atribuição do prémio a Dylan produziu enormes ondas de choque no universo da cultura, normalmente associada a um conceito restritivo e elitista que tem sido abalado, desde a emergência da cultura pop por uma hibridização entre géneros que não cessam de se cruzar de forma incongruente mas que, há que reconhecê-lo, muitas vezes de forma sedutora para criar um imaginário universalizado a destruir fronteiras entre as camadas sedimentares das culturas, Cultura Erudita/Humanística, a Cultura Popular, Cultura de Massas, etc. alienando as políticas de democratização da cultura. Um dos que mais se fez ouvir foi Vargas Llosa, outro Nobel da Literatura, numa denúncia vigorosa de que agora “vale tudo” na banalização de uma cultura em que se apagaram os parâmetros selectivos, interrogando se “no próximo ano vão dar o Nobel da Literatura a um futebolista”. O que não é inesperado de quem escreveu o ensaio A Civilização do Espectáculo, em linha com muitas obras teóricas que têm colocado em causa o estado actual da cultura contaminada pelas mundanidades e pelos populismos.

No olho do furacão desencadeado pela atribuição do Nobel a Dylan têm ficado submersos outros argumentos pertinentes embora quase seja obrigatório referir o sofisma de alguns recordarem que na antiga Grécia a poesia estar sempre ligada á música. Safo ou Homero, os trovadores franceses e ingleses, as Cantigas de Santa Maria da corte de Afonso, o Sábio ou de Dom Diniz, não podem ser usados para caucionar a eleição da Academia Sueca. Ao entrar por esse campo, dentro das fronteiras definidas nesse território, Dylan é um pigmeu, tanto poética como musicalmente, se for comparado com um Georges Brassens, um Leo Ferré, mesmo um José Afonso. Ouvindo qualquer desses cantautores, como agora são chamados, a distância para o norte-americano é abismal. E se Brassens raramente musicou poemas que não os seus Ferré, com bastante talento e sem escorregar para algum cabotinismo que inquina parte da sua obra, escreveu excelente música para poemas de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. Estão mortos, a Academia não atribui prémios a artistas entretanto desaparecidos. Argumentário falhado se formos ouvir um Chico Buarque ou um Caetano Veloso que, como escreveu Helder Macedo, “transformaram a poesia impossível no tempo da ditadura na canção possível durante a ditadura”. Sublinhe-se mais uma vez com um saber musical e poético de que Dylan é incapaz. Estão vivos, continuam a escrever canções numa língua que é das mais faladas no mundo, o que seria uma eventual pecha dos franceses. São de um país, o Brasil, onde o Nobel nunca desembarcou apesar dos grandes escritores que cintilam no seu firmamento e no firmamento universal.

Estranho? Nem tanto. O prémio Nobel da Literatura, como outros nóbeis, é também um prémio político. Obama está no panteão dos nóbeis da Paz para o confirmar. Na literatura, só assim se percebe porque foram nobelizados Soljenitsyne, Cholokov, Alexievich ou, sobretudo Churchill “pela sua brilhante oratória na defesa dos Direitos Humanos”, ele que era de facto um brilhante orador, a denúncia incendiária que fez do nazismo prova-o, mas teve posições dúbias em relação ao genocídio dos índios, desprezava não pelas melhores razões Gandhi, a componente rácica não era alheia a esse desprezo, foi um dos principais co-autores do brutal e desnecessário bombardeamento de Dresden, registado para a posteridade em Matadouro 5, por Kurt Vonnegut e que agora está a ser detergentada pela química dos restos do Muro de Berlim. Enfim, era a Academia Sueca a contribuir decisivamente para cumprir o desejo de Churchill “a história será gentil para mim, já que pretendo escrevê-la”.

Nesse patamar político há que situar o Prémio Nobel da Literatura 2016, escolhendo um suposto activista da contracultura, subvertida pela sua obra politicamente correcta, a fazer cócegas inconsequentes ao establishment, que engorda com essa marginalidade bem-comportada, a envernizar a liberalidade de uma sociedade sem dignidade e sem dignidade para oferecer.

É nesse patamar político que o prémio da Academia contribui para a manutenção do imperialismo cultural anglo-saxónico, que se ancorou no século XX, quando as nações perdem centralidade e capacidade de comandar o processo cultural. Quando a superfície global vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Quando miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a definir mais nitidamente a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar-ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços-nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana têm hoje um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, estamos a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge impondo-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras e agora entra com grande estrondo nos salões em que se decidem a atribuição do Nobel da Literatura, tomados de assalto pela banalização dos critérios intelectuais, pelas modas da cultura massificada e alienada, pelo vazio da era do vazio.

Inscreve-se o prémio da Academia Sueca a Bob Dylan na exportação de formas culturais que têm o objectivo de despolitizar, trivializar, alienar a humanidade aplainando o humano individual num processo de globalização e internacionalização que tende a destruir todas as formas de solidariedade, comunidade, valores sociais. É uma nova tirania exercida através de uma cultura em que subverte a cultura erudita e popular numa formatação pop e na instituição do star-system em que o que se exige dos receptores é o menor esforço, em que a procura e o do prazer da descoberta são praticamente anulados para que a inteligência morra, depois de um longo estado de coma agónica entre no grau zero.

Eleger Bob Dylan como Prémio Nobel da Literatura enquadra-se nos objectivos maiores do imperialismo político e económico, na sua componente cultural. É a legitimação do triunfo da cultura pop, do populismo das redes sociais, da banalização do pensamento reduzido ao teclar de um tweet, do trabalho sem fadiga de demagogicamente banalizar a criatividade, um vírus canceroso que tem vindo a corromper as artes na grande tarefa de destruição da exigência de esforço que as artes comportam para nos tornarem humanos.

(publicado em AbrilAbril; 12 Dezembro)

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Arte e artistas nos labirintos da pós-modernidade

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O Atelier do Pintor, Rogério Ribeiro

 

Na actualidade, no mundo das artes verifica-se uma regressão no estatuto social dos artistas. Depois da Revolução Francesa, quando a burguesia alcançou o poder político na sequência do poder económico que vinha consolidando desde o fim da Idade Média, os artistas foram-se libertando, de um sistema em que estavam completamente dependentes das encomendas  da nobreza, da aristocracia, do clero. Processo que já se tinha iniciado no liberalismo da monarquia inglesa. Essa grande transformação inicia-se nas artes visuais com o aparecimento dos museus, mais tarde dos salões e galerias de arte, na música e teatro com os empresários de salas de espectáculos e  espectáculos, alguns eles mesmos músicos como Haendel, na literatura com os editores independentes e a introdução dos suplementos literários nos jornais quando passaram a ser vendidos por número avulso. Suplementos literários que começaram a publicar romances em folhetim, prática em que distinguiram Alexandre Dumas, Eugène Sue, Lamartine.

Os artistas respondiam a encomendas em paralelo com o que realizavam para o mercado, para compradores que lhes eram desconhecidos. Walter Benjamin considera que o artista que melhor percebeu esse novo estatuto social foi Baudelaire que sabia qual era a real situação do novo homem de letras  “que se dirige ao mercado dizendo a si-mesmo que vai ver o que se passa, mas na verdade já anda à procura de comprador.”

A evolução foi muito rápida com alguns episódios dolorosos de artistas que morreram na miséria antes de ter o merecido reconhecimento. Hoje, no pós-modernismo, que Francis Jameson classifica como a lógica cultural do capitalismo terminal, atingiu-se um estádio em que “a sociedade  não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.” (Gianni Vattimo).  Nesse  quadro, os contextos da arte são cada vez mais influenciados pelo mercado, em que surgem massivamente compradores e coleccionadores, novos artistas, novos eventos como feiras de arte, bienais, grandes exposições colectivas. Os períodos de grande euforia económica foram propiciadores de contextos que estruturaram aquilo que hoje se pode denominar um mundo de arte globalizado, com uma economia poderosa, em que a especificidade da criação artística e da reflexão por ela suscitada se dissolve nos momentos de apresentação e de representação social dos eventos desse mesmo mundo. Um mundo em que os intermediários culturais proliferam e têm influência crescente. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, a correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam.” É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, que manipula os valores do mercado. Uma espécie de clérigos pós-modernos que dominam o mercado da arte mantendo os seus aspectos formais mas, na realidade, subvertendo-os eficazmente, tornando os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento  com que se ilude esta realidade.

publicado em http://www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Outubro2016/jornal-out-2016.pdf

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As Artes num Impasse

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O último fim de semana em Serralves, O Museu Performance, foi a demonstração cabal de como uma superlativamente intitulada arte é o apogeu da farsa em que está mergulhada muita arte contemporânea, travestindo-se de modernaça mas que é substantivamente conservadora e reaccionária.

Houve de tudo. Vídeos medíocres, música de quem não sabe sequer o que é uma nota, representações que qualquer actor de um sofrível teatro amador faz melhor, uma suposta cantora lírica que nem para cantar a tomar banho serve, um gajo que decide tomar enfrentar uma mangueira de bombeiros, porque sim estava calor mas aquilo era um desperdício de água, uma trupe anarco-queer que diz ir enfrentar o futuro mas fica pela rasteira representação kitsch e mais umas quejandas actuações-efeito que condensam, como os slogans, a vontade que temos de não pensar, a propensão para nos quedarmos no terreno pantanoso da idiotia esplendorosa de alguma arte actual. Nos antípodas do que Manuel Gusmão, com a clareza habitual, expôs num texto em que defendia que as artes nos fazem humanos.

Também nos devemos interrogar porque é que aquela gente não aprende a filmar, a representar, a cantar, a compor, enfim a aprender aquelas coisas básicas que se deve exigir a quem diz querer transgredir os cânones. O mínimo dos mínimos para tão rarefeitas ideias, sem um grão de inovação e descoberta. Tudo requentado e ruminante.

O que se assistiu, o que foi dado ver é de uma banalidade confrangedora. Bolas de sabão que nem chegam a ter dimensão ou cor por logo rebentarem. Rebentam em silêncio contando com a cumplicidade dos assistentes atónitos, paralisados por aquele abundante desvalimento mental que acaba por alastrar e contaminar.

Claro que há uma conversa de treta que envolve todas aquelas performances e que nem sequer são embrulhadas em papel de estanho a imitar papel de prata. Nada de novo. A normalidade do estado da arte em que quanto mais indigentes são as obras mais «inteligentes» são os textos que as apresentam ou justificam. Os estupendos curadores, do alto da sua empáfia, proclamam que naqueles dois dias, os espaços iam perder a sua aparência usual para serem «ocupados por trabalhos que apelam a outros sentidos, revelando arquitecturas invisíveis e abalando o normal fluxo do tempo da visita do museu» para que o museu deixe de ser espaço de mera contemplação para ser «um lugar onde coisas acontecem, espaço em estado de fluxo permanente, um museu em permanente performance».

Nem percebem que com aquele tipo de actividades degradam o conceito de arte e prolongam o conceito de museu como um espaço onde se penduram quadros, encerram esculturas, recepcionam instalações e performances. Onde os espectadores entram para se encontrarem com os paradoxos das experiências artísticas. Um «cubo branco», leia-se O’Doherty, onde o espectador se isola, para ver os objectos classificados como arte num meio em que o tempo histórico não se rege por instrumentos de medida. Espaços comparáveis às igrejas medievais, espaços sagrados intocáveis, onde o comportamento dos visitantes é igual ao dos fiéis: de adoração, sacralidade e intemporalidade. Onde se codificam preconceitos e reforça a imagem de uma classe média e média-alta. Onde a estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, financeiro e intelectual. Local onde o artista é um individuo comercial, disfarçado. O que se assistiu foi à traficância do trabalho criativo a que a arte se deve obrigar. Tudo foi tão óbvio, tão simplória e mediocremente criativo que só pelo receio de ser tomado por ignorante é que aquilo não foi varrido a sonoras e saudáveis gargalhadas. Alinhando com a predominância do títulos em inglês, coleccionaram-se Bullshit.

Tudo em linha com a situação actual em que as imagens, artísticas ou documentais, estão dotadas de fortíssimo impacto emocional, interagem com as da moda, do cinema, da televisão, da internet, do grafismo, da publicidade do design, dando lugar a um imaginário social caracterizado pela provocação. A resultante é uma procura de novidade e do efeito, perseguida por si-próprias, o que implica uma rápida usura e obsolescência que obriga a que tudo seja continuamente substituído por algo dotado com maior força de impacto ou capaz de despertar a atenção. Nesse embaraço a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado. Uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido.

O outro lado da questão é a posição dominante que os intermediários culturais têm no mundo das artes actual. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, «correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam». É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, manipula os valores do mercado, passa diplomas e hierarquiza os artistas. Uma espécie de baixo clero pós-moderno que torna a arte e os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro que exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento com que se ilude essa realidade.

Porque a dura realidade é que desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda o estado actual das artes não tem comprometido nem a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana, como Mario Perniola extensamente teorizou no magnifico ensaio A Arte e a sua Sombra. Essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. O debate estético e cultural está praticamente reduzido a zero, submetido à ditadura dos intermediários culturais, sejam curadores, directores de museus ou marchands. Aliás o trânsito é intenso e não sai dos carris.

O que se torna alarmante é que o vazio criativo dessas práticas ditas artísticas onde vale tudo, tem um aliado objectivo nos que contestam alacre e imbecilmente toda a arte contemporânea, há um vídeo particularmente asqueroso a correr na internet, concorrendo ambos, por caminhos aparentemente opostos, para o descrédito das artes. Um impasse que é urgente e necessário ultrapassar rapidamente.

(publicado em Abril Abril 24/09/2016)

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Um mundo sobrepovoado de génios

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Este ano, as mortes de David Bowie e Prince inundaram os media e as redes sociais de textos laudatórios do trabalho desses dois cantores fazendo suspender o tempo para dar espaço ao cortejo de homenagens. Rapidamente ascenderam ao Olimpo dos génios, ao Panteão dos imortais. Poderia, deveria assombrar a facilidade com que se catapultam artistas mesmo daquele gabarito, mais Bowie que Prince o que para o caso pouco interessa, para um excessivo, um adjectivo suave, endeusamento. Começam a escassear os bons artistas, agora só deuses, génios, não por acaso todos ou quase todos da galáxia anglo-saxónica. É a economia do sistema das estrelas que invadiu todas as áreas da cultura, das chamadas indústrias culturais e criativas. Cinema, pintura, teatro, música, literatura, artes performativas, mas também outras como o desporto, a cozinha, a moda, etc., foram tomadas de assalto pelas super-estrelas. Uma marca das sociedades no nosso tempo.  Um fenómeno que merece alguma reflexão.

A questão nuclear é que no mundo globalizado, os mercados das indústrias culturais e criativas fabricam produtos a ritmos acelerados com a manufactura de pseudo-acontecimentos alinhados pelos mecanismos publicitários em que a afirmação enfática da marca é bastante para nomear uma realidade incomparável. Onde a procura de originalidade se transforma na confissão parcial de não-originalidade, mascarada pela erupção constante de novidades que, invariavelmente, acabam por se revelar requentadas.

A urgência de amortizar os custos, materiais e imateriais, da criação de estrelas e super-estrelas não dá espaço nem tempo para uma verdadeira inovação. Nem isso interessa quando o foco está no sucesso do sobe e desce dos top-ten e seus reflexos na cotação dos mercados. Sucessos anunciados no bater dos tambores de uma comunicação social estipendiada que se repercute nas redes sociais cercando e anulando mesmo as vozes críticas mais lúcidas. Aliás, essas desmistificações, por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames tecendo um cintilante e artificial mundo das estrelas e super-estrelas que sobrepovoam o universo de génios construídos com as estruturas aramadas de grandes campanhas promocionais. Vale tudo desde a invenção de qualidades em produtos sem qualidades ou de qualidade duvidosa à exploração dos aspectos da vida intima, de preferência sórdidos. É a cultura burguesa no seu máximo esplendor. A sublime inutilidade em que, nos melhores dos casos mas não por acaso, mesmo quando há algum interesse estético ou algum interesse artístico se cumpre o destino histórico dos formalismos que termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma.

O extenso noticiário apologético provocado pelas mortes de David Bowie e Prince é bem esclarecedor do estado actual da arte. A par de um até pacóvio embasbacamento com a sua obra, sublinhava-se o seu tom por vezes  provocatório em relação a uma sociedade, procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Tudo isso faz parte do imaginário do pensamento dominante de um mundo de conformismo cúmplice com as piores baixezas. Um mundo em que o sentir pós-moderno parece ter ficado paralisado pela discrepância entre um conhecimento lúcido e penetrante e uma imoralidade deliberada, sem freio e sem pudor.

Gianni Vattimo sublinha a importância de um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento “das exigências de uma sociedade que não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.”

Uma situação grave e complexa que configura a actual vitória ideológica da direita que é necessário combater em todos os terrenos. Um deles entrar por esse panteão de génios de pacotilha e, com a vergasta do Jesus no Evangelho Segundo S. Mateus de Pasolini, correr com os vendilhões do templo.

 

in Jornal A Voz do Operário,

n.º 3034, pág. 15, Junho 2016, Lisboa.

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"Star-System", Copmunicação Social, Edgar Silva, Eleições presidenciais 2016, Geral, Henrique Neto, Jornalismo, Maio 68, Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Marisa Matias, Sociedade Pós-Moderna, Tino de Rans

Quem ganhou as eleições?

 

TVQuem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”. Continuar a ler

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