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A Intelligentsia nos seus labirintos

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O Grito, Munch (fragmento)

 

A  intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho sul-americano, mas não deixa de ser uma curiosa posição que merece alguma reflexão quando, muitos até com boas intenções melhor dizendo ilusões democráticas, objectivamente escoram uma oligarquia, agora corporizada por Hillary Clinton e antes por Obama. O cerne da questão é a decadência dos EUA. Trump é tão neoliberal como os Clintons’s, os Obama’s, os Bush’s. Os confrontos a que estamos a assistir pouco tem a ver com democracias e muito com uma guerra entre interesses divergentes de grupos de plutocratas. Trump e os seus sequazes reconhecem a decadência dos EUA, consideram-na uma consequência das políticas dos oligarcas que se acantonaram atrás da Sra. Clinton,nas últimas eleições. Para uns e outros os mecanismos democráticos são uma ferramenta para defenderem os seus interesses. A intelligentsia norte-americana e  as outras em muitas partes do mundo, principalmente na Europa, estiveram até agora caladas perante todos os desmandos “democráticos”. É de perguntar onde estiveram durante os oito anos de mandato de Obama, quando a divida pública dos EUA passou de 11 para 20 milhões de milhões de dólares (aumento de 1 250 mil milhões por ano, 3 mil milhões /dia!) procurando fazê-la pagar à força ou com persuasão, que não deixa de ser violenta, ao mundo onde se impunha unipolarmente. Dívida que aumentou exponencialmente por essa administração ter uma política que defendeu os interesses da finança e do grande capital, pelos custos das guerras que fomentou. Onde estava essa gente quando, durante os oito anos de administração Obama as desigualdades aumentaram, os salários reais baixaram, mais de 90% do aumento da riqueza nacional foram enfiados nos bolsos dos 1% mais ricos. Quando os serviços públicos e sociais se degradaram. Quando mais de 46 milhões de cidadãos – a maioria negros e hispânicos, a situação dessas minorias e a violência que sofrem agravou-se – estão abaixo do limite de pobreza. Quando o desemprego é de 21%  com os critérios dos anos 80 (Paul Craig Roberts). A população prisional atingiu os 2 milhões. O Obamacare é um seguro médico pago pelo Estado aos privados, redigido per representantes das seguradoras e farmacêuticas, com uma franquia de 6 500 dólares por família em 2015. Onde estavam? Que protestos fizeram? Todos mudos e quedos como sempre estiveram surdos às bombas que esse Nobel  da Paz despejou pelo mundo ao ritmo de 3 bombas/hora, número revelado nno jornal bi-mensal do Foreign Affairs, do CRF (Council on Foreign Relations), http://blogs.cfr.org/zenko/2017/01/05/bombs-dropped-in-2016/ que é considerado pelo Departamento de Estado como uma espécie de “how-to”, um guia para a condução da política externa. Quando com Obama, os EUA e aliados lançaram 100 000 bombas e mísseis, em sete países, contra  70 000 em cinco países pelo Bush da invasão do Iraque. Os gastos militares superaram em mais 18,7 mil milhões os de George W Bush. Quando as forças militares dos EUA estão presentes em 138 países, em comparação com os 60 quando tomou posse. A utilização de drones aumentou 10 vezes, atingindo toda a espécie de alvos e vítimas civis e Obama,  informe do New York Times, https://www.nytimes.com/2014/06/26/world/use-of-drones-for-killings-risks-a-war-without-end-panel-concludes-in-report.html?_r=0 seleccionava pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis disparados de drones. Um senador republicano, Lindsey Graham, estimou, sem qualquer desmentido, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. “Por vezes atingem-se pessoas inocentes e odeio isso”, disse o nobelizado com o cinismo que o caracteriza, “mas removemos alguns altos membros da Al Qaeda”. Quando foram recrutadas e treinadas forças mercenárias para combaterem na Líbia e Síria, pagaram-se a esquadrões da morte para abaterem no Iraque alvos políticos incómodos. O total de mortes infligidas em guerras, directas ou por procuração, terá atingido 2 milhões de pessoas. Onde estavam quando os bombardeamentos são mais intensos que os anteriores, contabilizando-se 65 730 ataques de bombas e mísseis nos últimos dois anos e meio. Com Obama ampliou-se o apoio às agressões de Israel ao povo palestiniano, os crimes da Arábia Saudita contra o povo do Iémen, financiou-se e armou-se o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, John Kerry dixit em entrevista de fim de mandato. Obama também aconselhou e financiou e golpes de estado das Honduras à Ucrânia. Nomeou para a CIA, chefias militares e para o governo conhecidos falcões como a secretária de Estado Hillary Clinton, a embaixadora na ONU Samantha Power a secretária de Estados para os Assuntos Europeus e Euroasiáticos Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland. http://www.bbc.com/news/world-europe-26079957

Tudo isto tem coerência interna: a General Dynamics, grande fabricante de armamento pesado, submarinos, navios de guerra, financiou a carreira política de Barack Obama, desde que concorreu às primárias em 2008, quando demagogicamente fazia promessas parecidas com as de Jesse Jackson uns anos antes, antecipando algumas que vieram a ser feitas por Bernie Sanders, deixando a sua opositora Hillary Clinton boquiaberta de espanto, derrotada pela lábia desse grande vigarista que tinha garantido os apoios financeiros do complexo-militar e industrial que deviam rir a bom rir das suas tiradas Yes You Can’t, conhecendo o seu verdadeiro significado.

Intelligentsia que não mexeu uma palha quando Obama desalojou violentamente os Occupy Wall Street, http://www.weeklystandard.com/obama-on-occupy-wall-street-we-are-on-their-side/article/598251 fazendo um discurso em defesa dos especuladores bolsistas, sustentando-os com milhares de milhões de dólares.

As políticas de Obama e a cumplicidade silenciosa da intelligentsia são um triunfo da pós-verdade, o conceito escolhido pelos Oxford Dictionaries, um canone dos dicionários, para palavra do ano 2016, como o “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais factos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A pós-verdade em que cimenta a gigantesca fraude Obama, como se pode ler e ouvir no seu discurso de despedida. A colossal vigarice que é Obama, bem retratada por José Goulão no AbrilAbril. http://www.abrilabril.pt/o-polimento-da-tragedia-obama

Agora, com a eleição de Trump, não menos perigoso que Obama, saltam para o terreiro enterrando os pés no pântano de uma democracia esclerosada, expressão política muito clara do fracasso e da crise estrutural do modelo neoliberal nos Estados Unidos, em que quem se senta na Sala Oval, chame-se Bush ou Clinton, Obama ou Trump, prossegue políticas na defesa dos interesses imperiais dos EUA, seja sob a bandeira do excepcionalismo teológico dos Estados Unidos da América em que Obama acredita”com toda a fibra do meu ser”, ou do demagógico “Make America Great Again” de Trump.

Quais as razões por só agora as mulheres organizarem a Marcha das Mulheres contra Trump, bem oleada com milhares de dólares por esse filantropo que é Georges Soros, http://www.ceticismopolitico.com/bilionario-soros-esta-ligado-a-mais-de-50-grupos-que-participaram-da-marcha-das-mulheres-em-washington/ e nunca o terem feito contra, pelo menos contra algumas, das políticas da administração Obama? Porquê é que ninguém esfrega na cara de Madeleine Allbright a justificação do assassínio de 500 000 mil crianças, meio milhão de crianças no Iraque, mais do que as que morreram em Hiroshisma, como efeito colateral, o preço certo a pagar disse ela, https://youtu.be/RZLGQ83KoOo quando com grande descaro declara que se vai inscrever como muçulmana, em denúncia dos propósitos xenófobos de Trump?   Porquê só agora milhares de escritores, reunidos no Writers Resist, manifestam a sua indignação porque desejam ”superar o discurso político directo, em favor de um enfoque inspirado no futuro e nós, como escritores, podemos ser uma força unificadora para a protecção da democracia”(…) “instamos organizadores e oradores locais a evitarem utilizar nomes de políticos ou a adoptar linguagem “anti” como foco no evento do Writers Resist. É importante assegurar que organizações sem fins lucrativos, que estão proibidas de fazer campanhas políticas, se sentirão confiantes em participar e patrocinar estes eventos”. Nada disseram quando Obama alterou a lei para possibilitar que os grandes consórcios financiassem sem limites e sem escrutínio as campanhas políticas, distorcendo ainda mais claramente a democracia que assim ficou ainda mais dependente das cornucópias de dólares que impossibilitam de facto candidaturas, como a dos Verdes ou dos Libertários, que reduzem o debate de ideias aos rodeos das primárias e das finais ente Democratas e Republicanos, diferentes na forma, iguais nos objectivos. Ou será por esses milhares de escritores terem ficado confortáveis numa falsa ignorância fabricada pelos discursos indirectos, fingindo que não os conseguem decifrar mesmo quando as realidades se perfilam para não deixar uma brecha de dúvida?

Não se quer, nem é desejável, que se meta no mesmo saco de lixo o ogre Trump e o contrabandista Obama. Cada um no seu saco mas ambos atirados para o mesmo aterro sanitário. Isso é o que deveria ser feito por essa intelligentsia, tanto nos EUA como na Europa.

“A acção de todos deverá ser totalmente impessoal– de facto não deverá orientar-se por quaisquer pessoas que sejam, mas por regras que definem os procedimentos a seguir,”(Zigmunt Baumann). Príncipio esquecido por essa gente que anda aos baldões das emoções. Orientam-se erráticamente, nessa deriva a razão torna-se coisa descartável. É o que está agora a acontecer sepultando bem enterrado o que Martha Gelhorn disse num Congresso de Intelectuais em Nova Iorque em 1932 contra o ascenso do nazi-fascismo na Europa e também nos EUA, recordem-se os apoios que lhe davam Lindberg, Allen Dulles, John Rockfeller, Prescott Bush, John Kennedy (pai), as grandes corporações financeiras e industriais, http://www.rationalrevolution.net/war/american_supporters_of_the_europ.htm. Congresso que juntou, de viva voz ou por comunicações enviadas,  os maiores intelectuais da época, de Steinbeck a Thomas Mann, de Einstein a Upton Sinclair: “Um escritor deve ser agora um homem de acção… Um homem que deu um ano de vida a greves siderúrgicas, ou aos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu ou desperdiçou tempo. É um homem que sabe a que pertence. Se sobrevive a tal acção, o que diria posteriormente acerca da mesma é a verdade, necessária e real, e perdurará”. (Martha Gelhorn). Até agora onde tem estado, por onde têm andado esses milhares de escritores? No conforto dos seus lares, das suas tertúlias, das bolsas concedidas por fundações que também financiam acções menos louváveis.

Escrevem, filmam, realizam obras de arte onde se apagou a política, a vida das pessoas, as vidas dolorosas dos explorados e oprimidos. Em linha são celebrados por uma crítica que os aplaude, suporta, divulga. Óscar Lopes, com a clarivência e o conhecimento que tinha, anotava que a classe operária, os dramas dos explorados tinha sido rasurado das artes desde meados do séc. XX. Essa a regra, as excepções quase passam despercebidas, são mesmo invectivadas, acusadas de contaminarem a arte pela política. É um fenómeno universal que Terry Eagleton, afirma em Depois da Teoria,” hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas” (…) “pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em condições de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental”. Um dos últimos, não estava sózinho mas estava pouco acompanhado,  foi Harold Pinter, nas suas peças teatrais e no discurso que fez na aceitação do Prémio Nobel, em 2005. http://cultura.elpais.com/cultura/2005/12/07/actualidad/1133910005_850215.html. Hoje não se encontram, ou raríssima se encontram um Alves Redol, Carlos Oliveira, José Cardoso Pires, José Saramago, para nos fixar em território nacional. Não se escrevem As Vinhas da Ira(Steinbeck), Jean Christophe(Roman Rolland) Manhatan Transfer(John dos Passos), Oliver Twist(Charles Dickens), Germinal (Zola), A Profissão da Sra Warren(Bernard Shaw), Mãe Coragem e os seus Dois Filhos (Berthold Brecht), O Triunfo dos Porcos(Georges Orwell), referências rápidas a que se poderiam agregar muitas mais. Raríssimos os filmes sobre temas sociais e políticos como os de Kean Loach, Recursos Humanos(Laurence Cantet), Blue Collar (Paul Schrader), para nos circunscrever aos tempos mais próximos e não enumerar os neo-realistas italianos, franceses, russos.

Ninguém, quase mesmo quase ninguém fala dos pobres, dos sonhos utópicos, da imoralidade do capitalismo, ataca a classe dominante, a corrupção que espalha. Foi todo um trabalho feito nos anos da guerra fria pela CIA, leia-se Who Paid de Paper, The CIA and the Cultural Cold War, de Frances Stonor Saunders. Trabalho bem sucedido dessas tarântulas tecendo as teias onde a cultura e as artes se debatem no caldo de cultura pós-moderna em que “a ideia moderna da racionalidade global da vida social e pessoal acabou por se desintegrar em mini-racionalidades ao serviço de uma global inabarcável e incontrolável irracionalidade”(Lyotard). Para sobreviverem e viverem comodamente, dissociam-se da política, dos dramas sociais, das guerras para encobrirem, o caos, o abismo, o sem fundo de que falava Castoriadis, para onde se é atirado sem remissão. Trabalho que teve tanto êxito, olhe-se para os paradigmas culturais do pós-modernismo, que só tem paralelo com o  controlo dos meios de comunicação social enquanto  em nome da racionalização e da modernização da produção, se regressa ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma guerra em que os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos impondo uma nova ordem fanática e totalitária. Nova ordem são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia, a sua bitola é o seu do valor de mercadoria artística.

É nessa nova ordem que se inscrevem os Writters Resist, em que mesmo os que se aproximam de uma ideia de esquerda europeia estão contaminados e enquadrados pela ideologia de direita dominante. Alarmam-se com Trump mas nunca se alarmaram com Obama ou os seus antecessores. Têm razão numa coisa: estamos mais perto de uma nova versão do fascismo, como se vê no alastramento da mancha de óleo da direita e extrema direita na Europa e nas Américas. Um clima de guerra real que se avoluma-se no horizonte a par da guerra ideológica. Têm agora um sobressalto. Um alarme tardo, uma cortina que tapa o silêncio em que, sem qualquer vergonha, envolveram as políticas que agravaram desigualdades económicas e sociais, as agressões norte-americanas em todo o mundo por anteriores administrações, democratas e republicanas. É chocante, obsceno ver, ler e ouvir como muitos desses obsecados com Trump, bajularam e bajulam Obama. Como se assemelham aos ratos que seguem, sem uma ruga de dúvida, essa moderna versão do flautista de Hamelin. Têm razão em invectar Trump, em se preocuparem com o abubar dos campos da direita e extrema-direita. Com o estado de guerra latente que se vive, que já se vivia. Deviam sentir-se culpados, miseravelmente culpados por terem fechado ou na melhor das hipóteses semi-cerrado os olhos aos desmandos que prepararam a sua ascensão.

Como escreve William I. Robinson, professor na Universidade da Califórnia,  um dos raros não contaminados pelo pensamento dominante da ideologia de direita: “O presidente Barack Obam pode ter feito mais do que ninguém para assegurar a vitória de Trump(…)Ainda que a eleição de Trump tenha disparado uma rápida expansão de correntes fascistas na sociedade civil dos EUA, uma saída fascista para o sistema político está longe de ser inevitável.(…) Mas esse combate requer clareza de como actuar perante um precipício perigoso. As sementes do fascismo do século XXI foram plantadas, fertilizadas e regadas pela administração Obama e a elite liberal em bancarrota politica”. http://www.telesurtv.net/english/opinion/From-Obama-to-Trump-The-Failure-of-Passive-Revolution-20170113-0011.html

A direita exulta. Mesmo a que inicialmente foi reticente em relação a Trump, agora vai deixando cair as máscaras. progressivamente alinhando com as sementes proto fascistas que ele vai plantando.  Ler ou ouvir a comunicação social mais alinhada à direita sobre Trump, durante as primárias republicanas e a campanha eleitoral e depois da sua vitória é assistir a um pouco árduo e cínico exercício de rotação. Do outro lado, muita esquerda permanece vacilante amarrada ao ter louvado ou ter depositado irracionais esperanças em Obama. Ler o que por aí se escreveu e disse quando foi eleito presidente ou agora quando não há razão para qualquer dúvida, é muito instrutivo sobre algumas esquerdas, as velhas e as novas. As que repetem os vícios do radicalismo pequeno burguês usando estilistas modernaços ou de antanho,  as que metem com contumácia o socialismo nas gavetas abertas ou fechadas pelas terceiras vias e suas variantes. Nas suas derivas não encontram o fio de Ariadne que lhes aponte o caminho de saída do labirinto por onde deambulam confusos. O Minotauro espera-os. O mundo continua a arder.

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"Star-System", Copmunicação Social, Edgar Silva, Eleições presidenciais 2016, Geral, Henrique Neto, Jornalismo, Maio 68, Marcelo Rebelo de Sousa, Maria de Belém, Marisa Matias, Sociedade Pós-Moderna, Tino de Rans

Quem ganhou as eleições?

 

TVQuem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”. Continuar a ler

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Desportos Mecânicos, Paris-Dakar, Política, Sociedade Pós-Moderna

Paris-Dakar sem Paris nem Dakar

Paris Dakar

Amanhã começa o Paris-Dakar, trasladado do continente europeu e africano para a América do Sul. Tudo uma questão de marca, como quase tudo neste nosso mundo pós-moderno. Mundo mais virtual que real, nada substantivo, que vive do que nos é vendido por verdade e importante, mesmo que não tenha qualquer significado. Como tudo é cinicamente permitido, alimenta-se de eventos, de todas e cores e feitios, ocupando os promotores desses acontecimentos um lugar central na sociedade, lugar equiparável ao do baixo clero na Idade Média. São muitos e diversos os sucessos para fazer circular o sangue perverso nos corpos mórbidos das confrarias que existem, para lhe soprarem vida. São as festas glamorosas, os festivais de música pronta a ouvir e esquecer. As corridas, com ou sem recurso ás máquinas, contra nada. A política esvaziada de sentido praticada por políticos sem ideias nem ética. O quotidiano medido pelo termómetro de uma comunicação social estipendiada.

Um dos núcleos desse fastio são os desportos mecânicos. O circo de corridas de automóveis, motocicletas, camiões, o folclore a eles associado sempre me fizeram alguma impressão. Não consigo perceber o gozo que se obtém a ver na televisão uns carros inutilitários a darem voltas e mais voltas num circuito fechado que serve para muito pouco mais do que acontece naquele momento, desde que chegam até partirem. Talvez a esperança de se assistir a um desastre, sermpre espectacular, que faz voar em estilhas uns largos milhares de euros. Ver ao vivo ainda é mais incompreensível. Seguir um bólide a 200 Kms/hora ou mais, virando sempre a cabeça na mesma direcção deve acabar por provocar dores de pescoço por muitas horas. Talvez o tempo memorizável da corrida. Quem tem dinheiro para todas e quaisquer extravagâncias ainda comprará um ferrari das várias marcas expostos nessas montras, para mostrar estatuto porque não poderá andar a mais de 120Km/h numa autoestrada, velocidade que deixa o motor envergonhado pela sonolência.

Os ralies poderão talvez contribuir para alguns aperfeiçoamentos técnicos nos veículos automóveis. As marcas vendem a ilusão daqueles carros terem alguma coisa a ver com os que colocam no mercado ao nosso alcance. Além da imagem de marca ser a mesma, só muito remotamente um carro que compramos terá relação com aquelas máquinas super preparadas para suportarem, no espaço de alguns dias, um sobreuso que nenhum dos utilitários dos comuns mortais enfrenta em muitos anos de uso.

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De todos os ralies, o mais extravagante é o Paris-Dakar. Uma maratona a percorrer desertos, atravessar aldeias cujas casas e habitantes ficam submersos pelo som e o pó da areia levantada em turbilhões por sucessivas máquinas trovejantes que as atravessam sem ver mais nada que não seja a meta que fica lá longe, a dezenas,centenas de quilómetros, é de uma crueza brutal. O gasto com a preparação de um só veículo, com os tripulantes, equipa de apoio, combustível, sobressalentes, etc, deve ser o suficiente para alimentar os indígenas durante mais de um ano.

Provavelmente, os custos da organização no apoio médico, por terra e ar, aos concorrentes que se acidentam, também deverá ser o bastante para garantir serviços sanitários mínimos a todas as terras marcadas nos mapas do ralie.

Algumas notícias, pelo seu insólito e barbaridade, causam estupefacção. Numa edição qualquer do Paris-Dakar, a cegueira de um condutor em atingir os seus objectivos foi tal que conseguiu a proeza de, no meio daquela enorme solidão, atropelar e matar um dromedário. Para nós, leigos que conhecemos o deserto por o ter visitado ou simplesmente pela intermediação fotográfica, é um acontecimento que nos deixa atónitos. Como é possível naquela imensidão acertar num dromedário? Só não é caso que provoca riso porque pensamos imediatamente no prejuízo causado a um tuarege ou a uma tribo de tuareges e no pobre animal de passo pachorrento que, de repente, vê um objecto extradeserto atirá-lo pelos ares até à morte.

Com acontecimentos desses, com o rasto de dinheiro cremados no ralie perante populações no gume da sobrevivência, pela poluição provocada, o Paris-Dakar começou a tomar medidas de relações públicas que acalmem os sentidos universais e lhes dão a consolação beatífica que um pecador dos mais contumazes obtém na confissão.

Em 2008, por razões de segurança, dada a instabilidade política em vários países africanos, a prova foi cancelada. Em 2009 foi transferida para a América do Sul. Teve várias versões com base no deserto andino. Coincide com essa alteração as preocupações da organização do Paris-Dakar com situações sociais e ambientais. A América do Sul não é África. Já iam corridas quase quarenta edições, o negócio prosperava a olhos vistos A miséria na América do Sul continua a ser miséria, mas como a miséria é um valor relativo, apesar de tudo há algumas diferenças em relação à miséria da África subsahariana, tiveram um sobressalto social e ambiental.

No “site” oficial do Paris-Dakar 2015, destacam o milhão de dólares que desde 2009, cerca de 170 mil dólares/ano, a organização e os seus concorrentes cooperaram com acções de inserção social, programas de alfabetização, equipamentos informáticos e um abragente e etc. Refere que foram construídos 300 alojamentos de recurso, colaborando com a associação “Un Techo”. Como o total de emissões directas de CO2 está calculado em 15.500 toneladas, a sociedade Paris Dakar paga 460 000 dólares ao projecto ambiental e social “Madre de Dios” desde 2011. Gotas de água nos custos e nos lucros da organização. Considera que isso salda as emissões de carbono e outros danos ambientais colaterais. As consciências ficam tranquilas e podem aventar nuvens de areia dos desertos sem mais questões. No meio desses feitos sociais e ambientais do Paris-Dakar, agora ao som das flautas andinas depois de arrancar dançando o tango, há uma referência a um cidadão do Qatar, Nasser Al Attiyah, que no ano de 2012, abriu os cordões à bolsa para doar mais 100 000 dólares a esse esforço feito pela organização do Paris-Dakar. Quem será esse benemérito tão preocupado com o ambiente e os dramas sociais causadas por essas correrias todo o terreno, quase nos antípodas do seu país? Quais serão as suas relações com os “donos” do ralie, para merecer tal destaque? Mistério que um dia se resolverá. Se calhar, uma hipótese não mais que uma hipótese dada a participação activa do Qatar nos últimos incidentes no Médio Oriente, tão eminente benemérito tem a mesma largueza com as armas que equipam os mercenários que lutam pelo fundamentalismo islâmico depois de terem lutado pela liberdade e a democracia que o Qatar desconhece.

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Outras são as curiosidades de primeiro plano no Paris -dakar. A adrenalina, o espírito de aventura é vendido aos bocados em pacotes VIP, com um valor que varia entre os US$ 3590 e os US$1590, ou US$250 lugares de bancada para os menos abonados, mas sequiosos da sua dose para assistir às partidas e chegadas, em lugares que dão “acesso privilegiado e direito a momentos de cortar a respiração, à quase intimidade total com o pódio e as mangas de partida”. O programa VIP contempla acompanhamento de proximidade da organização. Deve ser com aquelas meninas em minisaia ou calções, chapéu de sol para os VIP não queimarem as moleirinhas. Também garante momentos de repouso, deve ser para não sofrerem uma sobredose de adrenalina e puderem gozar placidamente a proximidade desses gladiadores modernos a desafiar os limites do triunfo de mais uma das grandes insignificâncias dos nossos tempos, que são a sua falta de sentido e o tédio que alastra.

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