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O SOM E A FÚRIA

Para o capitalismo e seus representantes, para os mais lestos empreendedores, tudo se pode transformar em oportunidades para gerar negócios e lucros. A pandemia do coronavírus não será excepção.

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O Jardim das Delícias Terrenas, Hieronymus Bosch, 1504CréditosHieronymus Bosch

A crise universal provocada pelo coronavírus, se irá ter impactos ainda imprevisíveis em todos os planos das nossas vidas individuais e colectivas, na vida social, no estado das nações também é uma janela de oportunidade para os abutres neoliberais. Sendo os mais velhos e os mais pobres os mais vulneráveis é a janela por onde a senhora Lagarde está a olhar depois de ter afirmado que «os idosos vivem demasiado e isso é um risco para a economia global. Há que tomar medidas urgentes»Tem a companhia de Dan Patrick, vice-governador do Texas a dizer sem qualquer sobressalto na consciência «que as pessoas mais velhas preferem morrer a deixar que o Covid19 prejudique a economia dos Estados-Unidos». Enquanto se rebolam no eugenismo neoliberal, dando razão ao personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne quando afirma «que os novos nazis são democratas», noutra janela com vidros da mesma fábrica espreita a ministra da saúde da Lituânia, Rimantė Šalaševičiute, membro do PSD Lituano, que declarou pouco depois de tomar posse, em 2014, que a eutanásia deveria ser considerada como uma boa opção para os pobres que não podem pagar os cuidados de saúde. Trump não conseguiu escancarar uma outra janela siamesa, mas bem o tentou quando quis fazer mão baixa dos trabalhos de um laboratório alemão para encontrar uma vacina contra o covid 19, só não a abriu porque o governo alemão e o próprio laboratório se opuseram. Para o capitalismo, para o capitalismo e seus representantes, para os mais lestos empreendedores tudo se pode transformar em oportunidades para gerar negócios e lucros. A pandemia do coronavírus não será excepção. Marx escreveu (há quem atribua a frase a Lenine, mas si no e vero e ben trovato) “o último capitalista que penduramos será aquele que nos vendeu a corda”. Vende a corda mesmo sabendo que já não poderá investir o dinheiro ganho. O capitalismo é um animal predador sempre insatisfeito parasitando um mundo onde «a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção directa com a valorização do mundo das coisas». (Karl Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos, edições Avante!).

Vive-se um período excepcional de que sairá sem se ter a certeza por que portas e que portas se abrirão e para onde abrirão. As nossas vidas em quarentena estão, as mais privilegiadas, ligadas à máquina das nuvens informáticas que a alimenta abundantemente enquanto nos alimentamos solitariamente com o que vamos despejando dos frigoríficos e das despensas até sermos compelidos a recorrer, os que têm capacidade económica para isso, às ofertas do takeaway ou nos sujeitarmos às penosas mas necessárias filas às portas dos supermercados.

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Ao Povo Alentejano, Jorge Pinheiro, 1980

Vive-se um global estado de excepção que suspende o normal funcionamento das condições de vida em países inteiros que redescobrem que as suas fronteiras afinal são uma linha que as protege. Irão descobrir ainda mais quando perceberem ou quando começarem a perceber, mesmo a contragosto, que o que cederam de soberania nos últimos decénios agora lhe faz falta para enfrentarem a crise. Na Europa para uns, os desde sempre descrentes nas virtudes e na bondade do projecto da União Europeia (UE), por que bem sabem que esta, por mais ouropéis que lhe deitam para cima, é a Europa dos ortodoxos neoliberais ao serviço das elites oligárquicas, dos banqueiros e dos especuladores, a falta de solidariedade no espaço da UE era esperada, à imagem do que têm feito com os países mais débeis economicamente e o modo como trataram as crises provocadas pelas dívidas soberanas. Para outros, os europeístas mais ou menos convictos que ainda tenham alguma honestidade intelectual, todos aqueles que, apesar e contra todas as evidências, insistiam e insistem em ver predicados nessa UE ao serviço do capital financeiro, o vazio político das poucas medidas anunciadas, a frieza, o desprendimento e a incompetência com que os dirigentes da UE tem tratado este estado de sítio, a ausência de qualquer apoio solidário aos países membros – o caso italiano é o mais gritante – deve finalmente fazer disparar o alarme em vez de carpirem jeremiadas com que disfarçam a realidade. A ver vamos se merecem que se lhe seja concedido um frágil benefício da dúvida. Sublinhe-se que foi preciso a Alemanha adoptar um orçamento rectificativo largamente deficitário, que suspende o travão da dívida que figura na constituição alemã e prevê uma recessão de 5%, para a presidente da Comissão Europeia anunciar que ficam suspensas as regras de disciplina financeira europeia, o malfadado Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), com que têm garrotado os países economicamente mais frágeis em benefício dos mais fortes que têm lucrado com essa situação de desigualdade. O Eurogrupo, essa instituição informal presidida por Centeno, sempre servil e dependente das directivas teutónicas, agora pode seguir as pisadas do patrão dando-se a liberalidades que nunca teriam coragem de propor. A ver vamos se debaixo do tapete não estão já plantadas sementes de troika. Essa gente é capaz de tudo.

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Cartoon de Eneko, nome artístico de Eneko de las Heras Leizaola, desenhador e humorista vasco nascido em Caracas (Venezuela) em 1963. Em 2018 foi o ilustrador escolhido para desenhar o cartaz dos prémios Liberpress (Espanha). CréditosEneko / Le Grand SoirInsira um título

Uma das curiosidades despoletadas por esta crise são as reviravoltas dos mais estrépitos governantes neoliberais empurrados contra vontade a assumirem odiadas e malfadadas medidas socialistas ressuscitadas dos escombros do Welfare State e outras, como as nacionalizações ainda faladas entre-dentes. Com o caos a alastrar não podem fazer o que lhes vai na alma bem sintetizado num cartoon: privatizar a saúde, socializar a dor. Fazem-no com mal disfarçado ranger de dentes menos barulhento que o nosso ranger de dentes de fúria ao assistirmos ao FMI a recusar qualquer apoio à Venezuela; ao ignóbil e inominável Trump ameaçar com mais sanções um Irão muito fustigado pelo covid 19, bloqueando a importação de medicamentos e aparelhos sanitários; ao ouvir o secretário de Estado francês dizer que isto é um boa oportunidade para se fazerem bons negócios na bolsa, um convite à especulação que já andava de freio nos dentes pré-crise; ao presenciar o desembarque de milhares de soldados norte-americanos na Europa, para realizarem os maiores exercícios militares de sempre da NATO contra um suposto inimigo; ao ver as grandes empresas norte-americanas a pedir o dinheiro dos contribuintes para serem salvas e que são as mesmas que nos últimos anos gastaram milhares de milhões de dólares a comprar as próprias acções em bolsa para as valorizar artificialmente e distribuir chorudos dividendos; ao assistir às manobras do cavalheiro da indústria que ocupa a presidência dos EUA à coca de onde pode ganhar algum com a crise, sem se preocupar por os EUA serem já o país do mundo mais infetado e onde a saúde é um negócio pelo que o número de vítimas prevê-se brutal; ao ver os especuladores a esfregar as mãos preparando-se para saltar e fazer subir as taxas de juro sobre as dívidas soberanas mais expostas de países praticamente impotentes por terem entregue de mão beijada a sua soberania a instituições supranacionais; ao presenciar o espectáculo dos que, tendo informação privilegiada sobre a crise, como os senadores norte-americanos da comissão da saúde, a aproveitaram para se livrar de acções problemáticas.

Para nossa fúria, a lista das ignomínias não pára de crescer.

Fúria ainda ao assistir praticamente à ocultação das acções solidárias para com os países europeus feitas por Cuba, China e Rússia ou quando lhe concedem menos minutos que a um qualquer futebolista que entrega um donativo equivalente a dois pneus de um dos carrões que enchem a sua garagem. Fúria igual à daquela cientista empenhada em investigações para se alcançar uma vacina e que ganha menos de um décimo dos mais bem pagos desportistas. Fúria ao assistir à hipocrisia e ao cinismo da tropa fandanga dos comentadores e de alguns políticos que colocam a tónica nas faixas, etárias em que a mortalidade é maior para mascarar as diferenças de classe entre os mortos. facto ainda mais camuflado pelo relevo dado a um qualquer famoso vitimado entre milhares de outras vitimas. Fúria com essa tropa fandanga que distrai a atenção da malta não referindo que os países que melhor têm resistido à pandemia são os que têm serviços nacionais de saúde mais robustos; fúria com os que estão sempre a por em causa, alguns com melífluas vozes de bandido, os serviços nacionais de saúde.

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Detalhe do mural «O movimento social do trabalho» (1941), no Supremos Tribunal de Justiça da Nação, no México, do muralista mexicano José Clemente Orozco

Fúrias que nos assaltam todos os dias quando descascamos o lado oculto da pandemia e descobrimos mais uma golpada para lucrar com a crise, mais uma espadeirada no mínimo de solidariedade que se devia exigir, mais uma tentativa de semear o pânico, mais uma mentira grande ou pequena para socavar o trabalho dos SNS, por mais uma declaração canalha de um dos representantes do capitalismo predador, fúria ainda ao verificar as tentativas de por em prática a «doutrina de choque» (1) a alastrar como um vírus dentro do outro vírus, de forma mais benigna ou mais maligna. Fúria quando se torna público que no dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova York para realizar «um exercício pandémicode alto nível» designado Event 201; consistiu na «simulação de um surto de um novo coronavírus» de âmbito mundial no qual, «à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves» devido «ao crescimento exponencial semana a semana». Ninguém ouvira falar ainda de qualquer caso de infecção. O rol é extenso e todos os dias se tropeça em algo que desperta a fúria com todas estas políticas vendidas ao poderoso caballero (qui) es don dinero (Francisco Quevedo) agora catalisadas pela pandemia do covid19.

Verdadeiramente alarmante é que, no meio do turbilhão apocalíptico que se vive, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, mesmo quando este mostra todo o esplendor da sua face canibal e prova ser incapaz desnudando a sua decadência. É o triunfo do pensamento único neoliberal, ainda que temporalmente condenado, que tem o objectivo último de já não ser possível pensar que é possível pensar uma sociedade outra, que conseguiu contaminar e continua a contaminar as esquerdas cosmopolitas, por onde ainda viaja muita gente séria e empenhada. Pensamento único neoliberal, que procura o improvável e impossível absurdo de, depois de séculos de duras lutas contra a exploração do homem pelo homem, que exigiram inúmeros e heroicos sacrifícios, em que milhões de pessoas se sacrificaram e foram sacrificadas, não haver ninguém para assistir à última cena de uma ópera, em aplauso desses séculos de lutas, quando o último capitalista, depois de vender a corda, vai ser enforcado.

A fúria que nos assalta tem que se transformar em som. Tem que ser o som da luta política, social e cultural em que a esquerda consequente e determinada – a que sabe que o capitalismo, por mais hegemónico e consistente que se apresente, como é o capitalismo actual ainda que corroído pelo coronavirus, tem sempre um carácter historicamente contingente – se envolve e empenha dia a dia, hora a hora, para sair deste furacão catalisador de uma crise anunciada, esclarecendo e denunciando todas as formas o estado de excepção que o transformem numa interrupção da vida em que as principais vitimas serão os trabalhadores. Som a denunciar a inverdade de todos estarmos expostos de igual modo ao vírus e a todas as consequências que se verificarão quando todas as emergências forem ultrapassadas. As classes, a luta de classes existe, até mais fácil percebe-la com a evidência de não ser a mesma coisa enfrentar a crise com o salário mínimo ou com os fabulosos honorários dos presidentes das maiores empresas cotadas no PSI20, de não ser a mesma coisa quatro pessoas estarem confinadas de quarentena num T1 de uma torre nos subúrbios do Porto ou de Lisboa e quatro pessoas viverem-na numa moradia com jardim e piscina à beira mar plantada.

Som de alerta para ter sempre bem presente que a luta de classes não entra em coma, mesmo assistido, com a pandemia. Som que se sobreponha a todas as trombetas do apocalipse capitalista.

(publicado em AbrilAbril http://www.abrilabril.pt )

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Geral, S.N.S., saúde

Um bem raro

saúde

 

 

 

Tudo aconteceu num repente… e todos os minutos contam, para o bem e para o mal.

Depois de alguns exames é para o hospital – lugar de vida e de morte – que o levam. Atónito, com tantas alterações na sua vida em tão pouco tempo, o que queria era sair dali, o mais rapidamente possível. A sua expectativa, porque é uma pessoa positiva, é que o inesperado aconteça e que as boas notícias dêem lugar às más e, como que num passo de magia, a vida volte ao seu curso habitual, longe deste meio invasivo e acético, onde tudo é impessoal, dos cheiros… aos paladares de sempre.

Quando, finalmente, se abeirou da porta do quarto, sentiu um tremor forte por todo o corpo que o deixou em “pedaços”, tal qual um copo de vidro que, ao cair, se despedaça. Era assim que se sentia. Em “cacos”.

A entrada deu-se a medo, muito assustado e pouco convencido da necessidade deste seu ”novo espaço/quarto”. Sentia-se bem, sem nada a assinalar, só os exames o desmentiam. Aos poucos, ainda que vagarosamente, deixou cair o corpo sobre a cadeira que estava junto à mesa, a um dos cantos do quarto, apoiou a cabeça entre as duas mãos e fechou os olhos… como quem dorme. Sentia-se cansado.

Entorpecido, de olhos molhados e sem interesse em ver ou ouvir, só tinha o desejo de acabar com aquele tumulto. A cabeça sentia-a “vazia”, a imaginação, sempre tão viva, estava agora totalmente paralisada. Só podia estar doente… ou seria do desconcertante medo?

A noite já descia dos céus e tomava de assalto, com o seu manto negro, todos os espaços e cores, que tudo submerge.

– Pareço estar num poço sem fundo – dizia de si para si.

Tudo aqui é novo e frio, como frias são as noites de invernia, com a chuva a plagiar o choro das fontes.

Os dias, esses, são vividos um de cada vez, na esperança de que aconteçam muitas vezes, para manter acesa a chama da vida.

Quando saiu pela porta principal do hospital, naquela manhã de Janeiro, e acedeu à liberdade, um pequeno sorriso iluminou o seu rosto e aceitou (como lhe tinha dito a mulher) que tinha renascido… outra vez.

Não há nada de melhor… do que ter saúde!

 

 

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Lei de Murphy, saúde

IDA AO DENTISTA ou as minhas aventuras na saúde

DentistaIr ao dentista é desagradável. Porque se perde imenso tempo, fazem-nos sabe-se lá o quê dentro da boca e o que temos como certo em cada visita é uma conta gorda no final e a necessidade de marcar nova consulta, porque há sempre casos urgentes nos molares superiores, onde a nossa vista não alcança.

Para que o tempo flua mais rapidamente, há anos que defendo a instalação de ecrãs no tecto do consultório, que poderiam passar videoclipes dos Modern Talking, filmes do John Wayne ou imagens surpreendentes que facilitassem o imperativo de manter os maxilares bem abertos. Mas logo que me deito constacto que apenas se mantêm as lâmpadas alogénias, que ferem os olhos e têm como único efeito servir de lembrete para a marcação de consulta de oftalmologia.

No gabinete do dentista o tempo assume um compasso africano e embora a consulta dure apenas meia hora, parece-nos que demorou a tarde inteira. O desconforto ganha força durante a intervenção porque vai crescendo uma tensão na coluna, sempre à espera daquele momento em que a lima nos pica no final do canal provocando uma dor aguda, ao que o dentista questiona “Doeu” e faz uma pausa de dois segundos antes de prosseguir, como se isso resolvesse o problema.

Logo que inicia a intervenção são-nos pendurados uma parafernália de instrumentos na boca. Um que faz pi, outro que aspira e mais alguns que não faço ideia para que sirvam. Às vezes desconfio que o dentista me pendura um cabide com o seu sobretudo na boca. Em seguida transforma-nos o peito num estaleiro, onde deposita ferramentas e prepara argamassas. Mas a ida ao dentista é igualmente um exercício humilhante quando nos indica para bochechar a boca e os lábios estão de tal modo anestesiados que só conseguimos babar. Com esta imagem sempre presente, a primeira coisa que faço é segurar no guardanapo. Mas o que mais me incomoda é a obsessão dos dentistas pelas radiografias. Para tudo tiram RX. Põem-nos a segurar na chapa e saem de fininho para fugir às radiações. Depois olham, à distância, para a imagem no computador e continuam os afazeres sem dizer palavra. Fico sempre sem saber o resultado e saio sentindo-me como se tivesse passado por Chernobyl.

Há dias fui ao dentista. Após breves minutos a passar os olhos pela revista Hola de Fevereiro de 1968, que anunciava o nascimento de Filipe de Borbon, fui chamado. Era a terceira sessão de uma desvitalização. No final tentei perguntar ao médico se três sessões para uma desvitalização são por uma questão clínica ou uma política de incentivos à economia local, mas como estava anestesiado, tudo o que consegui foi babar-me. Valeu-me ainda ter o guardanapo.

Todo o ritual da consulta foi, invariavelmente, o atrás descrito, mas com uma nuance. Após cerca de 15 minutos de intensa brocagem, e quando me preparava para perguntar ao dentista se tinha encontrado petróleo, o silêncio instalado permitiu-me distinguir claramente a música “Lady in Red” no som ambiente. Ocorreu-me a Lei de Murphy “se alguma coisa pode correr mal, então é certo que correrá mal” e pensei isto bateu no fundo. Engano meu. A assistente, embalada pelo som, quase me aspira as amígdalas, ao mesmo tempo que inicia um empenhado dueto com o Chris de Burgh. De imediato veio-me à memória a Lei de Clark “Murphy era optimista”.

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Política, saúde

Já Chega!

Rosina Andrade é médica, anestesista, dona de um humor mordaz e acutilante. As suas palavras são um grito de alerta que vale a pena ler e divulgar… a bem do Serviço Nacional de Saúde.

Já Chega!

Na “ressaca” de uma consoada que pela primeira vez em seis anos consecutivos pude festejar junto da família, reservo uns momentos para maçar quem quiser ler estes desabafos.
A maior parte dos meus amigos do FB conhece-me bem, porque muitos são mais do que amigos virtuais. Conhecem o meu modo de estar por vezes truculento, o espírito não alinhado e rebelde, a intolerância para o disparate e a displicência, a falta de corporativismo. Costumam resumir tudo na designação “mau feitio”. Os mais contaminados pelos eufemismos em voga dirão que tenho um baixo quociente de inteligência emocional. Não discordo do veredicto, prefiro ter mau feitio a ter mau carácter e o meu QI (não emocional) avaliado, em tempos de juventude, em 138 e 140 parece afastar-me dos níveis de debilidade e embotamento de raciocínio.
Vem tudo isto a propósito de que, sendo médica, me sinto diariamente agredida, insultada e difamada pelos profissionais do “eu acho” e do “eles deviam”.
Para quem me conheça menos eu apresento-me: médica anestesista, 57 anos, 31 de profissão dedicada nos últimos 14 anos sobretudo à Neuro-anestesia, dez dos quais no H. de S. José.
Para esclarecimento de muitos que transformam os honorários médicos em mistérios de sociedades secretas, a minha remuneração na categoria de assistente hospitalar graduada, com exclusividade na função pública, horário de 42 horas semanais (actualmente 39, pela redução anual de uma hora após os 55 anos) é de 4107 € (preço hora ~ 22 €) dos quais receberei no fim do mês ~ 2400 € (preço hora ~ 9€). A condição contratual de exclusividade obriga-me à prestação de mais 12 horas extra semanais se a instituição hospitalar o exigir (e exige), resultando em 53 horas semanais, das quais 24 são um período contínuo. Posso ser solicitada (e pressionada) a realizar mais horas semanais. Actualmente, face à carência de recursos na área de anestesiologia, perfaço, em média, 70 horas semanais (39 em actividade de bloco operatório programado, o resto em urgência) e tenho um fim de semana por mês sem urgência (nos meses mais compridos posso chegar à loucura de ter dois). Por lei poderia não realizar trabalho nocturno a partir dos 50 anos e ter isenção total de trabalho de urgência a partir dos 55. Se eu e os meus colegas do H de Faro cumprirmos a lei do trabalho à risca, a urgência cirúrgica será encerrada porque restam três elementos para garantir o apoio anestésico 24/24 horas – 7 dias por semana. Em resumo, com o ordenado base e as horas acrescidas, recordo – 70 horas semanais – a minha remuneração fica em – 3800€. Acima da média dos ordenados em Portugal? Sem dúvida! Mas 70 horas representam a soma do horário de dois médicos sem exclusividade que é de 35 horas.
Portanto, meus senhores, os malandros dos médicos trabalham ao fim-de-semana mesmo quando a lei os isenta; e também trabalham nos feriados.
Perguntam alguns porque têm os médicos que ganhar mais do os maquinistas do metro, do que os policias, do que os licenciados em geral. Faço um pequeno desvio para falar das forças da ordem. Os que têm como dever zelar pela nossa segurança são talvez a única categoria profissional mais odiada do que os médicos. Desprestigiados, mal remunerados, sujeitos a julgamentos e em alguns casos a penas de prisão quando cumprem a missão que lhes é profissionalmente exigida. Ridículo e afrontoso que um polícia tenha que pagar o próprio equipamento, surreal que se responsabilize por danos em viaturas usadas em serviço. Não há salário demasiado alto para quem arrisca a vida para que a nossa esteja segura. Existem abusos, sabemos que sim, protestamos contra a caça à multa e algumas arbitrariedades de que somos vitimas. Mas imagino como será difícil ver uma e outra vez sair pela porta da frente o marginal que horas antes detiveram, não raramente arriscando a vida, e que um juiz, de interpretação mais liberal da lei, põe e liberdade.
Vivemos numa sociedade acéfala de faz de conta, de inversão de valores, do politicamente correcto, do fundamentalismo da tolerância, dos chavões momentâneos gritados em ondas emocionais bem orquestradas, em proveito próprio, pelos bonecreiros da política.
Somos formatados para pensar o que os media querem que pensemos, sem contraditório, sem interrogação, adormecidos e embalados em conceitos pre fabricados. Continuar a ler

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Política, saúde

O Frenesim dos Ataques ao SNS, Doentes e Profissionais

medicoO Governo PSD/CDS entrou num verdadeiro frenesim de ataques ao SNS, doentes e profissionais de saúde. Receosos do futuro e consequências prováveis, pretendem deixar legislação que agrave o estado a que este governo sem ética nem sensibilidade social levou o SNS satisfazendo os poderosos grupos económicos privados que têm arrecado lucros de milhões neste sector, mas, como é próprio do negócio privado, querem ainda mais e mais lucros tornando a doença uma mercadoria. Sim, a doença, pois não irá haver nem promoção nem prevenção da saúde e, muito menos, cuidados de reabilitação e integração socioprofissional.

Com receio do que pudesse acontecer se levasse à Assembleia da República a legislação gravosa que preparava, decidiu fugir a esse dever criando uma portaria – a nº 82/Abril de 2014, por ventura para comemorar o Dia Mundial da Saúde – que vai dar até final de 2015 a machadada fatal ao que ainda não destruíram no SNS, nomeadamente, nos cuidados hospitalares. Alterando, inventando uma classificação sui generis e mal fundamentada, classifica de novo os hospitais e de acordo com esta classificação retira-lhes muitas das especialidades que passam no fundamental para os grandes hospitais, no caso da nossa Península, para Lisboa. Um recuo em termos de organização e funcionamento de serviços de saúde que deixarão de ser de proximidade e acessíveis. A loa deste Governo sobre o Utente no Centro do Sistema está comprovada tal como foi denunciada na devida altura.

Mais uma vez, as verdadeiras intenções deste Governo surgem enroupadas de palavras tais como “são soluções que visam a racionalidade dos meios e dos serviços”, “a sua modernização”, “a sustentabilidade do SNS”, “ razões de proximidade” para acabarem com especialidades e serviços que são tão necessários e que estão equipados e com profissionais competentes, empenhados e, até mesmo, criativos. Os profissionais não foram mais uma vez ouvidos, considerando o Governo que são meras peças dos seus desígnios que só os cegos não percebem quais são.

O Hospital de Setúbal foi classificado no grupo I que é o menos diferenciado. A portaria estabelece as valências que poderá ter e de uma penada retira-lhe a especialidades de Obstetrícia, Urologia, Gastroenterologia, Oncologia Médica, Infecciologia, Nefrologia, Hematologia, Oftalmologia, Otorrinolaringologia, Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, Pneumologia, Endocrinologia e de Imunoalergologia, entre as mais importantes. Continuar a ler

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Política, saúde

O SNS – Grande Conquista de Abril

De forma mais ou menos sub-reptícia e subtil vão destruindo o SNS: hoje um pequeno ataque, ali outro; desestruturando, desarticulando, desinvestindo, impedindo a contratação de técnicos e empurrando outros para a reforma/emigração, com contratos avulso de técnicos às empresas dos ”empreendedores”, acabando com urgências nocturnas e ao fins-de-semana de especialidades, concentrando estas em Lisboa, diminuindo o número de camas hospitalares, fechando serviços aqui e ali, criando dificuldades crescentes a técnicos, cada vez mais insatisfeitos e desmotivados, e aos utentes que vêem diminuir de forma drástica a acessibilidade aos cuidados de saúde.

Muitas da ditas reformas foram tomadas sem ter estudos sérios, rigorosos que demonstrassem a necessidade das mesmas. No fundo o que tem estado sempre por detrás, é a privatização, a mercantilização dos cuidados de saúde a favor dos grande grupos económicos os quais, a verdade seja dita, sem a ajuda do Estado, sem a mão benfazeja do Governo PDS/CDS nunca conseguiriam ter chegado onde estão, pois nem teriam engenho e arte para tal, vivendo do parasitismo estatal, gritando pelo estado mínimo para os que trabalham, tendo para eles o estado máximo através das parcerias público-privadas e de contratos que dão prejuízo ao Estado, recursos financeiros a serem canalizados de forma galopante dos bolsos dos contribuintes para os “pobres” bolsos deles sob a batuta esforçada do Governo PDS/CDS bem acompanhados pelo PS que agora apela falaciosamente à mudança.

Já várias vezes tinha alertado neste espaço para a possibilidade, para o perigo do CHS (Centro Hospitalar de Setúbal) ficar reduzido a uma mera Unidade Básica Hospitalar. Pois bem, o decreto agora publicado sobre as alterações da rede hospitalar vem colocar de forma cada vez mais real aquela possibilidade.

O Governo através do Ministério da Saúde vem dizer que não é para já, mentindo mais uma vez como sempre foi mentindo descaradamente ao povo.Porém, também bem ao jeito destes governantes sem vergonha, afirma que a hipótese não está afastada.

A concentração de especialidades no Hospital Garcia de Orta, medida que tem vindo a ser paulatinamente tomada, vai gerar desigualdades, aumentar as dificuldades de acesso, porque este Hospital há muito que está subdimensionado e incapaz de dar as respostas às necessidades da população. Além disso, sem transportes fáceis, sem recursos para recorrer a transportes privados, com o envelhecimento demográfico, com o empobrecimento crescente, podemos afirmar categoricamente que ao dificultar o acesso dos cidadãos aos cuidados hospitalares se está a configurar na prática uma negação do direito à saúde na nossa população.

O Hospital de Setúbal bem como o do Barreiro são imprescindíveis para garantir cuidados de saúde diferenciados onde, é claro, também tem lugar o Hospital Garcia da Orta. Não há qualquer justificação técnica ou económica para concentrar apenas num dos Hospitais as valências médicas diferenciadas desprezando, deitando para o lixo as capacidade já instaladas.

Para que o Cidadão esteja efectivamente no Centro do Sistema (como gosta de apregoar demagogicamente o Ministro da Saúde) exigem-se medidas assentes no desenvolvimento integrado e articulado dos serviços de saúde, visando uma diferenciação, o aumento de qualidade e a melhoria de acessibilidade.

A luta pelo Direito à Saúde é um imperativo de todos! A Saúde é um investimento e não uma despesa: investimento em bem-estar social (melhoria das condições de saúde, grau de satisfação das pessoas, inclusão social) económico (impacto no PIB , na produtividade, I&D) e mesmo cultural.

Nunca é demais afirmar que o SNS foi uma das maiores conquistas do 25 de Abril que nos ajudou a guindar ao estatuto de país desenvolvido no campo da saúde. Não se pode deixar que recuemos a 40 anos atrás.

VIVA O SNS!

VIVA O 25 DE ABRIL!

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Política, saúde

As Andas do Sr. Ministro

Lá em casa, em família, usava-se a expressão “pôr-se em andas” num sentido pejorativo sempre que alguém procurava mostrar-se superior ou tentava enganar alguém.

Neste caso, isto é, em relação ao ministro em causa, o da Saúde, ambos os sentidos se aplicam, mas sobretudo, o de continuar com as mentiras para nos enganar sobre o estado a que já levou o SNS.

Do Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos saiu um comunicado que já é conhecido do público e que denuncia a situação que se vive nos três serviços de urgência dos hospitais da Península. Muito mais se poderá dizer acerca de outros serviços, condenados a serem asfixiados para que as instituições privadas dos grandes grupos possam florescer, sobretudo, à custa da ADSE para a qual todos os que estão ligados à Função Pública vão descontando mais e mais sem  a devida explicação onde são aplicados esses aumentos.

Não pretendo pôr em causa a ADSE – a Assistência na Doença aos Servidores do Estado – mas somente perceber a que bolsos vão parar os descontos sempre aumentados por este Governo, formado por quem sabe o que está a fazer e não por meninos, enfant-terribles, de famílias políticas que os protegem e são protegidas dos senhores que hoje governam o mundo e também Portugal. Não, não são meninos, são sequazes destes, mesmo que deem sinais cada vez maiores de uma renovada incompetência, ignorância e flatulência (não é isso que estão a pensar, pois quero dizer presunção).

A ADSE deveria estar a ser utilizada em beneficio do SNS porque são, afinal, os malandros dos funcionários públicos e reformados da Função Pública que a pagam ao longo de anos e anos e suportam, deste modo, a transferência de cada vez maiores quantias de dinheiros públicos para satisfazer a gula dos negociantes da saúde.

Voltando ao referido Ministro, o da não-assistência médica e do não-tratamento e da morte antecipada e sofrida de muitos portugueses, o qual, apesar dos dados sobre algumas das parcerias público-privadas e sobre as recomendações do Tribunal de Contas sobre o Hospital da Cruz Vermelha (português e não outro) arranja as tais andas para se colocar a uns metros da realidade e negar a evidência dos factos. Poderiam ter-se poupado em três anos 29,8 milhões de euros se os doentes tratados naquele hospital tivessem sido tratados nos hospitais públicos que tinham, de resto, capacidade de resposta.

Os hospitais das 4 parcerias público-privadas vão receber um financiamento de 378 milhões mais 8,5 milhões do que em 2013 enquanto os hospitais públicos vão ver os seus financiamentos diminuídos com os cortes que o SNS vai sofrer com este Orçamento muito cozinhado pelo FMI e que os trabalhadores, os reformados e todos os demais democratas contestam e até franjas de outros que sentem na pele os cortes que também os atingem. (lembra os versos bem conhecidos: primeiro foram os operários…)

Paulo Macedo afirmou isto: o governo tem mantido uma postura de não querer renegociar os contratos destas parcerias,(PPP’S) porque todas as renegociações feitas no passado prejudicaram o Estado. Estão a ler bem! Assim, em vez de se alterar o que provoca esses prejuízos mantem-se o erro e toca a financiar mais uma vez os grupos privados de saúde que já são beneficiados com o que recebem da ADSE.

Os funcionários públicos e os reformados da Função Pública quanto pagam afinal para terem direito à Saúde? Já alguém terá feito as contas? Impostos gerais, ADSE e mais impostos aplicados à F. Pública. Pagam IRS, IVA, TUC, IMI, e ainda ADSE e taxas de solidariedade, aumentos de IRS, cortes de subsídios de férias e Natal! Sei lá que mais virá!

E reporto-me a essa “águia” do BES Saúde que afirmou que a ADSE era muito boa, porque, ao contrário dos seguros-doença, não tinha plafond, isto é, não impunha uma quantia a partir da qual o doente deixa de ter direito ao tratamento por se ter esgotado a quantia prevista pela apólice.

Se a ADSE serve para alimentar os grandes grupos privados da saúde, porque não usá-la em benefício do SNS? Ao qual sempre a ADSE pagou tarde e mal as quantias devidas? E porque deixou de fazer os pagamentos? E tem taxas moderadoras mais altas para a ADSE no SNS do que nos privados? E vamos certamente ver aumentados os descontos para a ADSE face à diminuição brutal de funcionários públicos.

Claro que não defendo ideias de acabar com a ADSE, mas de que a mesma fosse utilizada, e bem, como forma de sustentar o SNS, evitando que a pretensa “gordura” do Estado seja derretida para as panelas dos grandes grupos financeiros.

 

As andas do Sr. Ministro são muito mais altas quando se fala dos cortes/racionamentos dos medicamentos, exames complementares, consultas, cirurgias!

Quais são, na realidade, as consequências actuais e futuras sobre o estado de saúde dos portugueses? O Ministro e o Governo não fazem estudos sérios do impacto dessas medidas sobre a assistência médica aos utentes e doentes do SNS. Não há dados sobre quaisquer variáveis que comprovem os benefícios dos cortes realizados. E quanto à tão falada sustentabilidade do SNS, estamos todos bem conversados sobre a altura das andas em que se colocam os governantes quando mentem sobre isso. Ora, se tivessem esses dados, o Sr. Ministro e o Governo não seriam motivados para o uso de andas. O que na realidade eles comprovariam é que a qualidade da prática médica diminuiu de forma acentuada e a acessibilidade dos cuidados tornou-se uma miragem para largas faixas de doentes; comprovariam o stress cada vez mais intenso dos trabalhadores da saúde devido ao aumento de horas de trabalho, às equipas deficitárias, ao aumento da distância dos doentes ao local de atendimento e à convicção crescente de que a tendência será para o seu agravamento.

O Governo já terá começado a fazer o que aconselhou o Observatório Nacional de Saúde sobre a monitorização das consequências da política de austeridade (de racionamento) do SNS? Credo que ideia! Pela reunião do Observatório, na passada primavera, ficámos a saber ou, melhor vimos confirmado, que o Ministro Paulo Macedo tinha ido para além da imposição feita pela troika o que nem com os malabarismos das andas o governo conseguiu esconder.

Vem agora o Sr. Ministro mostrar-se muito preocupado com o envelhecimento da população. Desde há uns anos a esta parte que vejo uma dissonância sempre agravada entre as afirmações dos governantes e o que eles verdadeiramente pensam. Isto é, quando nos vieram falar intensivamente como papagaios sobre acessibilidade e que a centralidade do SNS deveria ser o doente, fiquei com a pulga a morder-me atrás da orelha: ouvira muito antes o bombardeio com a qualidade dos serviços, paragonas sobre paragonas e, afinal, a qualidade diminuiu drasticamente e o doente é tudo menos a centralidade dos cuidados de saúde neste 3º ano de troikas e a acessibilidade tornou-se uma caricatura cada vez maior com o ajuntamento de serviços e sua deslocalização para as três cidades tal como o eram no tempo do fascismo: Lisboa, Coimbra e Porto.

Paulo Macedo não acrescentou nada sobre as medidas a tomar para se combater a quebra de natalidade do País como se também esta situação fosse irreparável ou inultrapassável. Sr. Ministro, gostaria muito de perceber o que quer dizer com “o País tem de se adaptar a uma nova realidade”.

Com as suas medidas…

 

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Dispersos de Domingo

universidade_coimbraCoimbra

A Universidade de Coimbra, a Alta e a Sofia foram considerados Património Mundial pela Unesco. Congratulo-me com tal decisão, sobretudo, pela razão fundamental invocada: o valor universal da cultura e da língua portuguesas.

É importante sublinhar estes aspectos face a um governo que tudo tem feito para destruir a cultura em Portugal, que vende patromónio sem olhar à memória que guarda, património deixado ao deus-dará por esse país fora.

Um Governo disposto a deixar morrer a Cinemateca e tantos outros locais de cultura com anos de trabalho e de projecção cultural.

Será caso para indagar ao Governo como está a Biblioteca Joanina, joia da Universidade de Coimbra: em risco de degradação progressivo que deveria envergonhar governantes actuais e passados, ministros da cultura actual e passados.

A organização não-governamental World Monuments Fund inscreveu na sua lista a Biblioteca Joanina, entre outros locais como “ um testamento insubstituível para a inspiração humana e para a diversidade de culturas em todo o mundo”, apontando-a também como em risco de degradação.

Dia Mundial da Saúde Mental

Os jornais dizem que Portugal está entre os países europeus com mais doenças mentais. Já se sabia isto como também que a política troikana iria aumentar a taxa dessas mesmas doenças. Dizem também que há equipas de enfermeiros a prestar apoio domiciliário aos doentes. Não sei onde se está a passar isso, mas no concelho Setúbal não ouvi nada referente a essa actividade. E onde andou uma tal Comissão criada há mais de um ano que tinha por objectivo tomar medidas para a diminuição destas doenças?

Os jornais não dizem que os doentes do foro psiquiátrico que têm a infelicidade de entrar no Serviço de Urgência do Hospital S. Bernardo depois das 20 horas de sexta-feira ficam até às 9 horas de segunda-feira sem qualquer tratamento especializado praticado por psiquiatra. Este é um dos resultados daquilo que eufemisticamente o governo e ministro da saúde chamam de reorganização das urgências da Península de Setúbal.

 Doentes sem atendimento adequado, deitados numa cama num corredor, em sofrimento psicológico, descompensados da doença psiquiátrica que os levou a procurarem alívio na urgência e, por ventura, perturbando todo o ambiente e outros doentes que ali tenham acorrido.

O Serviço Nacional de Saúde está a ser desmantelado fria e calculadamente. A par disso, assistimos à preparação da entrada em bolsa de valores da Espirito Santo Saúde. Quem disse que a saúde era o negócio mais rentável depois do das armas?

Como se atrevem a vir-nos mentir constantemente sobre a sustentabilidade do SNS?

Tribunal Penal Internacional

Desmond Tutu denunciou a manobra que está a ser feita por alguns líderes de países africanos para saírem da alçada do Tribunal Penal Internacional (TPI) sediado em Haia. Os “dois” faróis de tal decisão são os presidentes do Sudão e do Quénia, que já deveriam ter sido julgados por aquele Tribunal pelo crimes, pelo terror que já infligiram nos seus países. Contudo, ficariam muito mais à vontade se conseguissem abandonar o TPI.

De que terão medo?

Paulo Macedo

A Anedota do Dia

Paulo Macedo, ministro da Saúde, revela que está a ser preparado um novo plano para combater a toxicodependência.”O que nós temos que ver – é para isso que temos um plano – é como temos de atacar [a toxicodependência] nas diversas vertentes”, afirmou, mentindo, Paulo Macedo, sem avançar qualquer medida concreta do referido plano de combate à toxicodependência.

Contudo, sabe-se muito bem que a recessão está a provocar um crescente maior abuso de drogas e um regresso à heroína, que consegue aliviar mais o sofrimento psicológico do que muitas outras, embora com efeitos secundários desastrosos. Este facto era previsível. Há três anos, os consumos estavam a estabilizar e o da heroína tinha mesmo diminuído.

Será que vamos ter dentro do Governo um Ministro, o da Saúde, a clamar ao seu 1º e chefe que pare com todas as medidas troikanas e ponha em prática uma política patriótica e de esquerda? Uma política eficaz contra o aumento da toxicodependência que passa por diminuir o desemprego, criar condições para rapidamente aumentarmos a produção nacional, renegociar a divida em números, prazos e juros e só pagar a legitima e não a contraída pela banca privada, lançar os impostos à Banca, às transacções efectuadas na bolsa e mais algumas medidas de fundo que permitam, de facto gerar riqueza e trabalho? Será este o seu plano ou…

 PS e Salário Mínimo Nacional

Sabemos que os projectos de resolução apresentados pelo PCP e pelo BE para o aumento imediato do Salário Mínimo Nacional para 515 euros foram chumbados com os votos contra do PSD e CDS-PP. Não espantou ninguém que eles não estão ali para defender os interesses dos trabalhadores (era o que mais faltava, pois então). O PS, nesta altura do “campeonato”, não teve alternativa senão votar favoravelmente, mas foi dizendo que a revisão do Salário Mínimo é competência da Concertação Social.

Deixo à vossa consideração esta notícia:

Horta, 13 jul (Lusa) – O Parlamento dos Açores aprovou esta madrugada uma ante-proposta de lei do PS, a enviar à Assembleia da República, que prevê um aumento do salário mínimo nacional de 485 para 500 euros mensais.A proposta socialista foi apresentada como uma iniciativa de “relevância social” e um “contributo para a economia”, etc….

Ler mais: http://visao.sapo.pt/parlamento-acoriano-aprova-ante-proposta-para-aumento-do-salario-minimo-nacional=f740540#ixzz2hXBaxLSX

Porque será que o PS endossa a sua responsabilidade agora para a Concer-tação Social, com a ainda demagógica interrogação de quem sabe se aquela não quer uma subida maior do que os 515 euros para o Salário Mínimo Nacional?

Ai, Seguro, Seguro quão pouco o estás mais o teu partido que tem um militante e dirigente nacional que se afirmou estas duas coisas e ao mesmo tempo independente e foi dizendo também que era socioliberal, sendo até honesto (julgo) neste seu enquadramento político.

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É urgente denunciar, é preciso que se saiba!

Serviço urgenciasA situação do Serviço de Urgência Geral do Hospital de S. Bernardo (e dos outros dois hospitais da Península) vai de mal a pior com as sucessivas contra-medidas economicistas que visam levar o SNS à total paralisação e incapacidade de dar resposta aos utentes.

Na 2 feira, tive a oportunidade de ouvir esta incrível bujarda de um dos Secretários do Ministro predador- mor do SNS: “Ontem, dia 15 de Setembro comemorou-se a data de criação do SNS que visava dar uma resposta às carências na saúde dos portugueses mais carenciados”! Isto foi dito perante uma assistência de médicos, perplexos e duvidosos de terem ouvido tais palavras de um responsável deste governo que se permite (e nós também se não fizermos tudo ao nosso alcance para o pôr na rua) ser o mais ignorante e incompetente de todos os que têm por aqui passado, mas também o mais cínico, manipulador e corrupto.

Na realidade, a ignorância do Sr. Secretário revelou-se ainda quando associou a criação da Ordem dos Médicos com a do SNS!!! Ou vice-versa! A Ordem surgiu em 1938 e o SNS em 1979. Caramba, não há contas que resistam.

Bom, mas voltando ao assunto inicial: A Península de Setúbal (e o Alentejo Litoral) está sob fogo cerrado do Ministro da Saúde. Desinvestindo totalmente numa política de recursos, nomeadamente, humanos, através dessa medida de recrutamento médico através de empresas privadas e pelo exclusivo menor preço/hora, o Ministério estar a conduzir as unidades hospitalares a uma mediocridade nas respostas nas quais a competência, a ética e a deontologia estão a ser postas em causa seja entre pares profissionais seja na relação médico-doente.

A este deplorável panorama (perigoso também) soma-se a já anunciada saída de elementos estruturantes das equipas das urgências e refiro-me aos médicos da especialidade de Medicina Familiar que há anos ali trabalhavam e que foram despedidos de um momento para o outro com a informação de que se pretendessem continuar a prestar serviços ao Hospital o teriam de fazer através da “Sucesso 24”, uma das empresas privadas creditadas pelo Ministério da Saúde. Estes elementos prestavam serviços há mais de 20 anos!

Assistem-se a factos impensáveis há 2 anos. As empresas creditadas pelo Ministro da Saúde contratam “médicos” pelo telefone sem verem os seus curricula, sem com eles dialogarem e enviam-nos directamente para os Hospitais e estamos a falar de especialidades cirúrgicas o que implicaria um muito maior cuidado nesse recrutamento.

O concelho de Sesimbra foi incluído na área de influência do Hospital de S. Bernardo (são mais ou menos 50.000 utentes) sem que fossem tomadas as necessárias medidas em termos de espaço físico, de logística e dotação de pessoal. As consequências têm-se feito sentir no aumento de trabalho adicional extenuante para equipas que já estavam muito desfalcadas em recursos. O stress laboral elevou-se de forma acentuada facilitando situações de conflitualidade e diminuindo muito a qualidade do trabalho realizado.

As equipes cirúrgicas das 20 às 8 horas das urgências têm estado a funcionar, por vezes, com um só cirurgião, mas na maioria das noites com 1 cirurgião já com a especialidade e um interno da especialidade ao qual não podem ser pedidas iguais responsabilidades.

Neste momento, vários colegas, temerosos e com razão, de serem os alvos fáceis do pedido de responsabilidades nos casos em que “ a coisa” correr mal, têm vindo a informar e a pedir ajuda à Ordem dos Médicos, salvaguardando a sua responsabilidade, mas não a das consequências a nível dos doentes já que não podem humanamente responder a situações críticas e graves entradas simultaneamente no hospital ou estarem a operar e entrar uma situação que requer uma intervenção cirúrgica rápida.

Quem vai morrer? Quem se vai deixar sem cuidados? Os dilemas já começaram a surgir e também já começaram a surgir as mortes evitáveis de que não fala o Governo e, muito menos, o Ministro da Saúde.

Pergunto: o que fazem médicos nos órgãos de gestão hospitalar? Esqueceram-se de que são, em primeiro lugar, médicos? Um dia, se forem chamados à responsabilidade, vão justificar-se com “ Recebemos ordens.”? Onde os princípios que deveriam nortear as suas decisões? A Ordem deverá actuar perante a sua complacência, a sua cumplicidade? Como? Estão a faltar aos seus deveres deontológicos, éticos colocando-se ao serviço de gestores e governantes sem etica na sua governação.

O que vai acontecer ao SNS com o novo corte para 2014 de mais 200 milhões impostos pela troika e aceite por estes simulacros de governantes? (mas que estão a levar o país ao maior desastre económico dos últimos anos)

Contudo, as parcerias público-privadas, autênticos buracos negros de sorver dinheiro ao Estado (a nós, claro) continuam, com prejuízos, com más prestações de cuidados sem que o Governo se propunha terminar definitivamente com elas.

A ADSE continua a financiar as grandes unidades de saúde dos melos, champallimaud’s, espíritos santo e quejandos. Os seguros prometem…, não cumprem na hora da verdade e são muito caros!

A população está a ser empurrada para a privada e corre, corre para ela sem perceber que está a ser cúmplice com as decisões de um governo que pretende terminar ou reduzir ao mínimo as funções sociais do Estado. Se a população portuguesa, dentro da União Europeia, já é uma das que mais paga do seu bolso pelos custos de saúde, (além dos vários impostos em que é tributada) esperem para ver o que vai custar a Saúde quando as troikas tiverem conseguido os seus objectivos.

Quem se lembra (ou a memória está assim tão fraca) do que se passava antes do 25 de Abril? Quando é que as pessoas consciencializam os perigos que estão a correr em relação a direitos humanos fundamentais, entre eles, o da Saúde?

Houve diminuição de consultas de que o Governo PSD/CDS – Pedro e Paulo Unidos na Cruzada – se ufana sem explicar a que se deve tal facto e as consequências para as populações. Ufana-se de algo de só os incompetentes e ignorantes governamentais se podem ufanar.

A que conclusões chegou o Observatório Nacional de Saúde sobre o que se está a passar em Portugal? E que medidas já tomou o Governo? Apenas aquilo a que eu designo por contra-medidas economicistas, pois nem uma só se justifica realmente. Nem serviram os interesse do SNS e dos seus potenciais utentes. E uma das que vai ter piores consequências é a da concentração das urgências em Lisboa num só Hospital (ora Santa Maria ou S. José). Somem a população da Península de Setúbal com a do Litoral Alentejano, fechem os olhos e imaginem os serviços de urgência de S. José ou de Santa Maria! Fechem os olhos e pensem nas pessoas que a ele vão ter de chegar!

É urgente unirmos todos os esforços: Sindicatos, Movimentos de Utentes, Ordem Distrital dos Médicos, Associações de Doentes, Autarquias e não permitirmos que se chegue àquela situação.

Viva o SNS com a sua universalidade, equidade e gratuidade! Lutemos por ele!

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A volta que isto vai ter de levar…

VER

Anos a fio lutei, lutámos muitos, para que a forma de tratar os doentes do foro psiquiátrico mudasse e muito havia para mudar. Foi uma dura batalha que se prolongou mesmo 25 de Abril adentro, embora as portas que se abriram muito tenham ajudado, sobretudo, para se poder falar livremente sobre a situação em que os serviços de psiquiatria portugueses se encontravam. Progressivamente as vitórias foram chegando, vitórias que foram muito palpáveis nas reformas profundas dos hospitais e dos serviços de consulta externa, mas também mais subtis, mais difíceis de apontar, mas essenciais para que se consolidassem aquelas. Refiro a mudanças de mentalidades, de preconceitos existentes que eram tão poderosos que mesmo técnicos da saúde e gestores os perfilhavam.

E hoje? O que está a acontecer? Uma destruição silenciosa, mas que se vai tornando cada vez mais visível e que, brevemente, os doentes e as famílias irão perceber até que ponto foi profunda, dos serviços prestadores dos cuidados psiquiátricos.

Em Setúbal, conseguiu-se um serviço de internamento para doentes agudos em 2001 e com ele a consolidação de um serviço de urgências de 24 horas muito mais próximo dos doentes, embora ainda muitos deles tivessem de vir de zonas como Santiago de Cacém. Contudo, já não tinham de ir sistematicamente para Lisboa onde até ali eram atendidos. Quilómetros de distâncias, horas e horas de espera para, não raro, serem devolvidos à procedência com uma receita nas mãos a qual tanta vez não alterou o estado do doente que teria de voltar mais uma, duas vezes, tantas vezes sem conta, ao serviço de urgência em Lisboa, no Hospital Miguel Bombarda.

Pois bem, a partir das 20 horas e até às 8 horas já não existe uma urgência psiquiátrica na Península de Setúbal. Antes, havia ambulâncias, bombeiros disponíveis, para o transporte. E a partir de agora? Pobres doentes e pobres famílias que irão repetir o calvário de outros doentes e outras famílias para as quais o fascismo respondeu com a maior das indiferenças. Paulo Macedo estaria muito bem nesse tempo, porque consegue ser ainda mais indiferente, cínico e cruel.

Hoje, os fascistas estão mais encapotados, utilizam um linguajar modernaço, termos enganadores, falaciosos que depois a TV se encarrega de repetir para que as pessoas aceitem a inevitabilidade de tudo o que estes capatazes dos poderosos deste mundo põem em marcha, depois de umas aulas práticas nos Clubes Bilderberg’s ou nos hotéis de muitas estrelas onde os instalam para que percebam como a vida pode ser boa e luxuosa (recordo-me das palavras escritas por John Perkins no livro Confissões de Um Assassino Económico) se forem bem comportados para com o sistema iníquo de que se tornam escravos.

Mas não são só os doentes do foro psiquiátrico que estão a ficar sem urgências na Península durante a noite. Já assim estão os de oftalmologia e outras especialidades virão, e outros “programas” estarão na forja com as anti-medidas tomadas pela ARS (Administração Regional de Saúde) de Lisboa e Vale do Tejo a que pertence a Península de Setúbal, com o beneplácito do Ministro e do Governo e a complacência e cumplicidade de médicas/os que ocupam lugares na gestão /administração dos serviços de saúde.

Voltaremos rapidamente aos tempos em que as urgências estavam concentradas em Lisboa, no Hospital de S. José e Santa Maria o que, de resto, parece ser o fim último deste governo a quem foi “explicado” que as funções sociais do Estado são um dos inimigos a abater. Tudo privatizado para lucro dos detentores do capital.

Pode haver retrocessos, conquistas que se perdem, mas os trabalhadores já demonstraram ao longo dos séculos que têm, contêm em si, a força capaz de provocar mudanças, roturas que levem a sociedade a caminhos do progresso.

Como diz a canção: “ E se Abril ficar distante deste país, deste povo, a nossa força é bastante para fazer um Abril novo”.

A luta organizada é a nossa arma mais poderosa; foi ela que preparou o caminho para aquela manhã clara, nítida e libertadora. Outra faremos, até porque os mortos também vão ao nosso lado.

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A Saúde da Península de Setúbal em risco

Uma vez mais aqui estou para dar o alerta, agora através do 2º comunicado (o primeiro foi de 23 de Abril 2013) dos Órgãos de Direcção da Ordem dos Médicos do Distrito de Setúbal.

DISTRITO MÉDICO DE SETÚBAL

COMUNICADO

   O Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos tomou recentemente posição pública relativamente à situação dos Serviços de Saúde na sua área de influência.

    Desde então, as informações que foi recolhendo vieram não só confirmar as razões que a motivaram, como também, revelaram o agravamento da perturbação ao normal funcionamento dos Serviços, então denunciada.

   A imposição administrativa da redução no valor a pagar em trabalho extraordinário, necessário para garantir algumas actividades essenciais como por exemplo o Serviço de Urgência, ou a ordem de rescisão dos contratos aos médicos que se encontram em regime de prestação de serviços, recentemente emitidas, está já a condicionar negativamente as Instituições e poderá a curto prazo, vir a limitar de forma significativa a continuação da prestação de um conjunto de cuidados necessários aos doentes.

   Possuindo alguns destes médicos grande qualificação técnica, a resultante perda da capacidade para executar actos médicos que exigem competências e conhecimentos muito específicos vai limitar a acessibilidade a estes cuidados e reduzir a diferenciação já adquirida por algumas Instituições.

   O processo em curso de generalização da contratação de médicos através do recurso a empresas de prestação de serviços, marginalizando os Directores dos Serviços interessados no processo de escolha dos elementos por cuja prática médica serão, em última análise, os últimos responsáveis, e da dispensa de um conjunto de trabalhadores de vários Serviços de Saúde, nomeadamente enfermeiros ou assistentes administrativos e operacionais, vai certamente conduzir à rotura de muitas equipas e à sua desorganização e por esta via à redução da qualidade dos serviços prestados, alterando de forma profunda a normal actividade das Instituições.

   O Conselho Distrital de Setúbal da Ordem dos Médicos não pode, por isso, deixar de manifestar a sua mais veemente discordância com estas medidas, tomadas de forma meramente administrativa e sem qualquer fundamentação técnica ou organizativa que as sustente, que mais parecem destinadas a encerrar Serviços ou a limitar a capacidade de prestação de cuidados das Instituições e a acessibilidade dos cidadãos aos mesmos e que poderão, no limite, configurar actos de gestão danosa das Instituições Públicas de Saúde.

   Por isso, volta a afirmar que está totalmente disponível para participar na elaboração e aplicação de todas as medidas de carácter técnico e organizativo destinadas a melhorar a prestação de cuidados de saúde na sua área de influência e que tudo fará para impedir que sejam postos em causa os interesses dos cidadãos e dos profissionais.

 

   Setúbal, 28 Maio 2013»

A situação agravou-se também a nível da disponibilidade de medicamentos e receia-se que, no futuro, medicamentos inovadores, capazes de curar determinadas doenças como, por exemplo, a hepatite C, sejam uma miragem para os doentes e os médicos.

Temos de tomar consciência que silenciosamente se continua a tentar destruir um dos melhores e mais baratos serviços nacionais de saúde do mundo, admirado e respeitado, por ter conseguido em pouco mais de 20 anos elevar a saude e a assistência médica do País a níveis nunca alcançados e ultrapassando os níveis de muitos paises desenvolvidos.

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O Regabofe Continua

Que me perdoem os doentes a palavra “regabofe”, mas não encontrei, momentaneamente, outra que definisse melhor o que se vai passando na assistência aos doentes neste País.

Não contentes com as mortes que têm provocado, voltam a reincidir administrações hospitalares em actos que, certamente, em outros países os levariam à cadeia. Eles não têm medo, sentem-se impunes e também perderam o pudor, o respeito por si próprios, e por todos os valores que, provavelmente, apregoam quando vão à missa e batem com a mão no peito. Deixaram de ser humanos, pois penso que há características que devem estar presentes para se falar de Humanidade.

Agora os factos referem-se ao Hospital de Santa Maria. A administração (só ela???) decidiu uma vez mais mudar de medicamento aos doentes com esclerose múltipla. A situação é grave, porque os doentes auto-administram o medicamento e cada medicamento tem o seu injector próprio. Este facto vai exigir nova formação para o uso correcto do mesmo. Enquanto tal acontece podem surgir novos surtos de doença com tudo o que isso implica para o doente.

Ora bem, parecem brincar com aqueles que já fragilizados pela doença, não têm capacidades para se defenderem, porque doentes, porque frágeis, porque sem recursos económicos, porque dependentes de um medicamento, porque dependentes da insensibilidade e desumanidade de gestores, de Ministro da Saúde e de Governo.

E não me venham dizer o Governo e o Ministro da Saúde que desconhecem os factos. Mentirão como sempre o têm feito, mesmo que a incompetência seja também uma das suas características. Irão providenciar em encontrar uma qualquer desculpa esfarrapada a que já nos foram habituando.

O medicamento e respectivo injector foram mudados em 2011 e, novamente, no final de 2012 para agora voltarem ao de 2011. Como podemos classificar esta actuação?

A situação na Saúde já tão grave, vai piorar com os novos cortes que serão de 500 milhões de euros até 2016. Até onde nos vai levar todos os cortes anunciados pelo seráfico jesuíta, servil agente do capital financeiro mundial, que dá pelo nome de Victor Gaspar? 

A luta tem de continuar e cada vez com mais força. Não podemos parar; temos de ser cada vez mais a gritar Governo para a Rua! Assim gritaram pelas ruas de muitas cidades os trabalhadores, reformados e todos os que estão solidários com a luta que travamos.

 

 

 

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Quanto Vale A Vida?

Foi esta a notícia que saiu nos jornais de ontem.

 Morre depois de falhar remédio Homem de 33 anos não foi tratado por falta de medicamento na farmácia do hospital

 Por:Joana Nogueira

 Um “atraso burocrático” provocou a falta do medicamento Elaprase, usado no tratamento de doentes com uma doença rara, no Hospital de Faro (HF), durante cerca de dois dias. Um dos doentes morreu anteontem em Lisboa. Seguido no Hospital de Faro, o homem de 33 anos, que sofria de síndrome de Hunter, doença hereditária rara que afeta o organismo e limita a capacidade de respirar e andar, foi informado, há cerca de três semanas, de que não poderia fazer o tratamento.

“Disseram-lhe que não havia medicação e mandaram-no para casa. Segunda-feira, o médico decidiu interná-lo. Suspeitavam de que tinha leucemia. Terça feira foi transferido para o IPO de Lisboa, com uma infeção respiratória, onde acabou por morrer”, diz a irmã, que prefere o anonimato. Pedro Nunes, presidente do Conselho de Administração do HF, garante desconhecer o agravamento do estado de saúde do doente.

“Houve um atraso burocrático, mas o hospital voltou a comprar o medicamento, que custa um milhão de euros por ano e é inócuo. Desconheço que o doente tenha morrido. Se assim for, o caso tem de ser estudado”, disse.

O Sr. Pedro Nunes que diz a isto? Que não sabia do agravamento da doença, mas não diz que nada sabia sobre a falta do medicamento, portanto sabia que tinha havido “ o atraso burocrático”. Logo era obrigado, como médico, a pensar que haveria agravamento da doença.

E remata, cinicamente? ou estupidamente? que o caso tem de ser estudado!!!

De caminho vai dizendo que custa 1 milhão de euros por ano! Uma afirmação que nunca deveria proferir e muito menos nestas circunstâncias. Quanto vale um homem? Uma vida, para este Senhor que parece que é médico? Ou talvez já não o seja! Quem sabe onde hoje começa e acaba uma e outra coisa com os que aceitam cargos e, alegremente, embarcam numa política de saúde e geral condenada por quase todos?

E faz ainda esta afirmação espantosa: que o medicamento era inócuo. Um pouco perplexa,fui ao dicionário para ter a certeza do significado de inócuo – inofensivo, que não danifica. Ainda bem que era inócuo, que não danificava.

Tudo leva acrer que o doente só faleceu face à falta do medicamento que é essencial nesta doença, o único existente, e que produz benefícios clínicos importantes para os doentes.

 Mais uma morte antecipada provocada! Onde estão os Conselhos de Ética deste País?

 Agora quem vai negar o que vêm dizendo há mais de um ano as várias Associações de Doentes sobre a falta de medicamentos e a recusa de tratamento em muitos hospitais do SNS?

O Sr. Ministro, certamente, vai sacudir a água do capote bem como o governo, desumano e antissocial, que é cada vez mais urgente pormos a andar, porque para os Bancos, para as Parcerias Público-Privadas, para a Cruz Vermelha Portuguesa e outros amigos jorram sem cessar os milhões de milhões de euros sem produtividade, sem eficácia e sem eficiência para a Economia e para o País, arruinando ambos de forma cada vez mais rápida e profunda.

P.S. – Pode não ser relevante este facto: nos EUA o medicamento custa 300.000 dólares/ano/paciente. Porque será tão caro em Portugal?

 

 

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O SNS, uma vez mais

Há momentos em que não conseguimos dar resposta a tudo a que gostaríamos de fazer. Aconteceu-me isto nos últimos meses.

A minha contribuição para a Praça do Bocage ressentiu-se disso.

O ataque ao SNS prossegue de forma cada vez mais brutal e, hoje, a palavra quase constantemente ouvida é “ Economizar”. É chocante que tal palavra seja proferida por muitos daqueles cujos juramentos profissionais obrigam a zelar, promover, cuidar dos doentes e, quando já não podem fazer mais, aliviar o sofrimento em condições de dignidade. Esta dignidade a que o doente tem direito também está entrosada na dignidade dos profissionais que actuam nas unidades de saúde sejam elas quais forem!

Com alguma impunidade para não dizer descaramento, equacionam-se futuros de vidas humanas sem aquela nobreza de sentimentos e deveres humanistas que o progresso fez ir mais além.

Muitos profissionais reagem com angústia, apreensão, mas sentem alguma impotência e, porque não dizer, medo em contestarem o que vêem, ouvem e são obrigados a fazer.

Mais ou menos silenciosamente vão sendo tomadas medidas que são altamente lesivas dos direitos, que já são em muitos casos humanos, e não meramente de assistência médica e acessibilidade a tratamentos e cuidados que o desenvolvimento das técnicas, dos meios complementares de diagnóstico e de fármacos permitem.

O Ministério da Saúde e o Governo ou vice-versa, sem pudor nem rigor gritam aos ventos (isto é, à comunicação social dominada pelos “senhores do mundo”) a poupança que se faz no SNS. Contudo, nada dizem à custa de que é feita essa poupança. São morte acumuladas, doentes mal-tratados, com altas demasiado precoces, e tudo em nome da poupança. Continuar a ler

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«A Fome é negra»

A leitura da rúbrica Sociedade e Saúde da Visão de hoje, fez-me pensar, uma vez mais, naquela máxima que a Thatcher alardeou nos seus bons tempos de bruxa –mor do neoliberalismo:

A economia é o método, mas o objectivo é mudar-lhes a alma»!

Que importa que morram um aqui e outro ali? Que importa que passem fome além e acolá? Que importa que emigram para longe ou para perto?

As suas almas neoliberais deixam-se tranquilamente dormir sem pesadelos nem remorsos. Ofuscados pelo poder e pela riqueza que vão acumulando, lá fazem o que lhes dizem para ser feito. «Ora, ora, se não for eu, outros o farão!» A eles a quem não irão dizer: «hoje não temos remédios ou só há remédios para dois, mas não para três».

E quase tudo foi legitimado por cientistas impantes por poderem ter os seus minutos de glória!

Estamos a regressar em velocidade da mais veloz banda larga para anos de fome, de miséria, de desemprego, de trabalho mal pago,de falta de assistência médica, de velhices pobres e penosas, de crianças com raquitismo, sem educação e sem futuro. Aos meninos de Soeiro Pereira Gomes que nunca tiveram infância!

Onde o progresso? Para que serve o enorme desenvolvimento cientifico e tecnológico que deveria estar ao serviço dos seres humanos?

Medicamentos inovadores? Oh, meus caros, isso é coisa de ricos! Utilização de técnicas menos invasivas e, por isso, com menores custos de sofrimento? Isso é para quem pode pagar! Hospitais limpos? Que esquisitos que estais! Material médico bom? Mas que ideia estranha!

E vão repetindo a letra ao ritmo da música da UE! Até conseguiram convencer gente que vive do esforço do seu trabalho!

Do Brasil, chega-me a voz do grande Josué de Castro da minha juventude: «Cuidado, que a fome é negra».

Acrescento eu: «E capaz de todas as violências como resposta à violência de um Estado e de governantes frios, arrogantes e insensíveis que nos olham farisaicamente! Eles, afinal, não são mais do que lacaios ao serviço dos verdadeiros predadores mundiais aqueles que acumulam dinheiro, destroem o Estado Social, destroem seres humanos, devastam a natureza e apodrecem pela corrupção os agentes que colocam no poder para que melhor possam dominar os povos.

Vão ser derrotados uns e outros, porque os povos começam a contestar o império dos predadores, organizam resistências e combatem com a certeza de que só a luta lhes poderá devolver a imensa esperança num mundo melhor.

Porque a esperança, o sonho, a liberdade estão profundamente enraizados nos povos.

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Geral, Política, saúde

A Alternativa é Possível

São 500 milhões o corte nas despesas nos hospitais. Que medidas vão, de facto, tomar os hospitais para conseguirem esta “coisa”? Onde vão cortar ainda mais?

Dos 500 milhões, 333 milhões são cortes nos medicamentos! Como vão tratar os hospitais? Que meios vão restar para que os doentes sejam tratados como mandam as regras da boa prática médica? Isso ninguém nos diz e muito menos o predador-mor do SNS nem o Sr. Coelho! Claro que todos adivinhamos o que vai acontecer e nem precisamos de recorrer a D. Maya.

A única verdade que dizem é que vão ser feitos cortes, mas nem uma palavra ou um estudo(que eles gostam tanto da tecnocracia dos estudos) sobre os resultados que se estarão a obter com todos estes cortes. Nem dirão nunca! Na Grécia o governo já afirmou que os desempregados irão deixar de ter assistência médica no serviço público. É para isto que este governo pretende caminhar?

Já se fala em co-pagamento (como se não pagássemos já e muito os serviços do SNS) em 2014 e em que os centros de saúde vão ser concessionados a privados (ao estilo das pontes e das SCUTS?) Vamos pagar mais quanto? O Sr. Paulo Macedo já vai dizendo que o ano de 2013 será o úlitmo em que não irá haver co-pagamento! Demagógicamente como é hábito, vêm com a questão da indexação das taxas moderadoras aos rendimentos das famílias. Os impostos já não chegam? Mais uma forma de roubo. Que rendimentos, afinal, Sr. Ministro? Aumentar a rapina de salários e reformas para que se apronta o Sr. Victor Gaspar? Que já veio dizer que a rapina se irá manter em 2014.

D. Merkel afirmou ainda ontem que crê (esta crença!!!) que a eurozona está longe de ter superado a crise e que serão necessários uns cinco anos ou mais para a superar. E foi afirmando que são necessárias mais reformas estruturais (e já sabemos o que esconde esta terminologia neoliberal para agradar aos (não, não falou em mercados) investidores e mais “austeridade para convencer o mundo de que vale a pena investir na Europa.”

Assim sendo, vamos podendo contar que nos virão com a mesma cantilena, pois a D. Merkel vem visitar em breve os seus alunos diletos.

De facto, o que está na mira é colocar o Estado a defender unicamente os banqueiros e grandes capitalistas industriais. Para tal, que haja mais e muito Estado para promover e roubar os que trabalham ou trabalharam. Como poderiam eles ter em apreço o Estado Social, essa aberração surgida das lutas já centenárias dos operários e outros trabalhadores e que a nossa Constituição consagra?

Vem um outro Sr. dizer que o Estado Social está directamente ligado com a economia. Mas que tipo de economia? As abstracções, Sr. Luis Pereira, nada dizem e tudo escondem! Afirmou ainda que se pôde ter esse estado Social porque nos emprestavam dinheiro! Ora, pois, mas não diz é que grande parte da divida é privada( quem sabe dessas factos diz serem 40%) e também não explica porque razão a nossa economia está em fase aguda de choque anémico.

Para que bolsos foram os dinheiros entrados neste Pais, à laia de empréstimos? Para que foram utilizados? Serviu sim para destruir todo o nosso tecido produtivo. Onde estão as nossas indústrias? A nossa agricultura? A nossa pesca? Os dinheiros para formação? As privatizações de sectores lucrativos foram feitas tendo em vista uma economia atenta aos interesses do Pais e da esmagadora maioria da população portuguesa? As autoestradas que foram construídas e que quase não têm movimento, como a A13? A parcerias público-privadas quem as paga e quem tem o lucro? As concessões de pontes e SCUTS?

Quem criou nas mentalidades portuguesas a necessidade de terem uma casa própria que lhe custava 3 vezes o seu preço? Quem tornou difícil o arrendamento imobiliário e com quem finalidade? Quem pagou os preços sobre-avaliados dessas mesmas casas?

 Segundo Eric Hobsbawm, um estado que desmantela voluntariamente os serviços públicos mais essenciais e transfere para o sector privado as tarefas que relevam do interesse colectivo, submetendo-as assim à lei da maximização dos lucros constitui “ um estado em falta”. E eu acrescento: diminui a liberdade e a cidadania.

Eles pretendem convencer-nos do fatalismo desta situação económica, mas a verdade é que ela foi gerada de forma consciente e programada por uma política que visava fazer-nos crer no poder fatal das forças económicas. Isto representa um retrocesso em termos ideológicos, regressão que a vida e a luta vai demonstrar o quanto é uma mentira grosseira com que nos pretendem manietar e mesmo domesticar.

 As lutas que têm decorrido são muitas e dos mais diversos sectores da sociedade portuguesa. Elas têm ganho determinação e força organizada. E vão continuar, porque a consciência social e política foram aumentando ao longo dos meses. A alternativa é possível e necessária e constrói-se na própria luta.

Fora com os Vasconcelos!

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Política, saúde

A Mercantilização Total da Saúde?

Cada vez se torna mais claro que as medidas que foram sendo tomadas pelos ministros da saúde desde Correia de Campos, passando por Ana Jorge, até ao actual predador-mor do SNS, visavam a privatização dos serviços de saúde – porque a saúde, de acordo, a estratega do negócio de saúde do BES, é o melhor negócio depois do das armas – .

Uma vez mais acentuo aqui as loas em volta da sustentabilidade do SNS, táctica dos governos ao serviço dos grandes interesses privados da saúde, para nos convencerem a todos nós de que as medidas de encerramentos de serviços e de cortes sucessivos no orçamento do SNS até chegarem ao seu racionamento atroz, colocando seres na eminência de morrerem antecipadamente, para que os bolsos rapaces fiquem mais cheios, era a alternativa possível.

Foram muitas as vozes que alertaram para o real significado de muitas das ditas reformas hospitalares e dos cuidados de saúde primários encetados pelos governos de Sócrates, preparando com as suas campanhas nos media, a concretização actual das medidas da troika aceites e assinadas por PS, PSD e CDS.

Um novo passo está a ser tentado para aprofundar a privatização da saúde com a constituição de um grupo de trabalho com o objectivo de abrir ao sector cooperativo e social das chamadas Unidades de Saúde Familiar. Foi Correia de Campos que avançou com esta reforma que, como foi oportunamente denunciado, apenas visava mercantilizar a saúde entregando-a aos privados.

Este modelo foi posto em prática no Reino Unido e abandonado em 2003 devido ao descontentamento que gerou nos utentes da saúde. E Correia de Campos bem como o Governo de Sócrates sabiam bem disto, mas foram mansamente continuando para que passo-a-passo a saúde passasse para quem não tem outro objectivo senão o lucro e, se possível, o lucro máximo no negócio.

Temos de denunciar este objectivo do Ministro Paulo Macedo e deste Governo descredibilizado e já semi-enterrado por aqueles comentadores que há uns meses lhe teciam grandes louvores como os meninos bem-comportados da Europa colonizada, a do sul, onde abundam os «esbanjadores e devedores»    (outra loa ideológica bem estruturada e lançada nos media para nos convencer a aceitar a evidência dos sacrifícios ditados pela troika e aceites, com assinaturas, pelo PS, PSD e CDS).

O uso de cientistas para justificarem as suas medidas, pobres cientistas que consciente ou inconscientemente fazem o frete, já estão também a tornar-se sem crédito aos olhos do povo português. E veja-se a polémica, a triste história de um Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, cheios de cientistas esfalfados a justificar o racionamento com pretensas teorias gestionárias que nada têm de deontológico e humano.

Vamos denunciar mais esta medida que vai trazer acrescidas dificuldades a quem não tem possibilidades económicas para pagar, vamos evitar que cada vez seja maior o fosso entre os muitos que não terão meios para se tratar e aqueles poucos que poderão até mesmo ir para o estrangeiro fazê-lo.

BASTA! A Saúde é um direito humano fundamental!

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Política, saúde

Posição da Ordem dos Médicos

Deixo aqui a posição do Conselho Nacional Executivo da Ordem dos Médicos sobre o parecer do CNECV:

 

COMUNICADO DO CNE da ORDEM DOS MÉDICOS

 

O perverso parecer do 64/CNECV/2012CNECV sobre racionamento em Saúde, encomendado pelo Ministério da Saúde, não contou com a participação e audição da Ordem dos Médicos.

A Ordem dos Médicos verifica que todo o parecer é uma tendenciosa construção que visa tentar justificar eticamente o racionamento em Saúde, sem limites definidos, o que é uma inultrapassável contradição ética.

Neste perigoso e desumano parecer é sempre deliberadamente utilizada a palavra racionamento e UMA ÚNICA VEZ a palavra racionalização. O que significa que os subscritores sabem bem a diferença entre racionamento e racionalização e optaram conscientemente pela palavra racionamento.

Este parecer deixa para os “órgãos governativos” a resolução “justa e legítima” do “desacordo moral”!!!… E a fase de decisão política, a última, é assegurada por responsáveis do Ministério que… “tomarão a decisão final.”…. Ou seja, os doentes ficariam submetidos à arbitrariedade economicista de qualquer Ministro da Saúde.

O texto introduz insidiosamente “a avaliação da permissibilidade de racionamento por idade”… Será que vamos assistir à exclusão dos mais idosos?!

O parecer fala em medicamentos de duvidosa eficácia, contrariando todas as regras em vigor para a aprovação científica e fármaco-económica de medicamentos, colocando em causa o próprio Infarmed e a Agência Europeia do Medicamento. Com que objetivos?!

O parecer sujeita as Normas de Orientação Clínica, elaboradas pela Direcção Geral da Saúde e pela Ordem dos Médicos, às decisões arbitrárias e prepotentes das “administrações hospitalares” que passariam a poder alterá-las, o que é inconcebível e incompreensível!

Finalmente, sublinhe-se como o cumprimento do Código Deontológico da Ordem dos Médicos já baliza todos os procedimentos e comportamentos do Médico em situações limite, pelo que tornaria absolutamente desnecessário este parecer se ele fosse inofensivo…

A Ordem dos Médicos nunca aceitará o conceito de “racionamento ético” nem que os doentes mais desprotegidos sejam obrigados a pagar a crise, quiçá com a própria vida.

Assumindo por inteiro a frontal rejeição do parecer e por considerar que este fere o Código Deontológico da Ordem dos Médicos e valores éticos intemporais, o Conselho Nacional Executivo decidiu solicitar a abertura de um processo de averiguação aos Médicos que assinaram o parecer do CNECV.

 

CNE, Lisboa, 28 de Setembro de 2012

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Política, saúde

A DEVASSA

O Ministério da Saúde soma e segue nos actos de absoluto desprezo pelos cidadãos portugueses.

A devassa de dados que deveriam ser confidenciais já circulam na Net e para aceder aos mesmos nem é preciso ser perito no assunto.

Outra vergonha a manchar este Governo! O Estado que deveria ser o guardião da confidencialidade dos dados referentes aos portugueses, fornece-os livremente na Net.

Foram muitos os médicos que chamaram a atenção para a necessidade de serem protegidos os dados que ficariam registados nas prescrições medicamentosas e exames complementares de diagnóstico electrónicos. O Ministro fez orelhas moucas a isso. A incompetência deste Sr. Ministro está a ser tal que ainda acaba num guiness de qualquer coisa.

Centro Hospitalar de Setúbal

Sr. Ministro, se fosse o responsável máximo de uma qualquer corporação – grande empresa –  e a mesma tivesse uma filial sem um Conselho de Administração nomeado durante 10 meses seguidos, como reagiria? O que lhe aconteceria? Como seria classificado pelos que lhe pagassem? Pois é isso mesmo. Incompetência, desleixo, incúria, má gestão.

Pois bem. O Centro Hospitalar de Setúbal está há 10 meses a ser administrado e gerido por um Conselho de Administração demitido, mas em gestão corrente. Portanto, impossibilitado de definir políticas e estratégias de acção. Também não tem desde há muitos meses um Director Clínico em funções, devido à reforma da anterior Directora Clínica.

Esta situação tem causado muitas perplexidades e dificuldades como se poderá compreendera todos os que trabalham na Instituição.

Não vou dizer que está sem rei nem roque, pois o referido conselho tem procurado segurar as pontas como vai podendo, mas é escandalosa a situação.

Sr. Primeiro-ministro onde anda? Também não sabe de nada?

As tentativas de centralizar muitos serviços em Lisboa continua, diminuindo a oferta na Península.

Não é só o Serviço de Oncologia do Hospital do Barreiro que está em perigo. Existem muitos outros! Aqui mesmo à nossa porta!

De resto, o comunicado dos órgãos da Ordem dos Médicos do Distrito de Setúbal foi muito claro e põe a nú as graves situações que se irão gerar se forem para a frente os desígnios do governo em matéria de política de saúde para a península.

Só temos razões e grandes razões para irmos amanhã para a rua exigir:

Fora com as troikas e mais os seus roubos!

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