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Modernidades do Outro Lado do Espelho

A batalha ideológica que se trava desde que Marx estabeleceu as traves mestras de interpretação do mundo, em que a ideia central é a relação entre o capital e o trabalho, a luta de classes, as relações entre infra-estrutura e superestrutura, tem sido intensa e, na actualidade, é polarizada pelo imperialismo norte-americano que persegue dois grandes objectivos consonantes: um económico e outro cultural.

Uma estratégia que se iniciou no pós-Segunda Guerra Mundial, com a guerra fria cultural1, se intensificou com a queda do Muro de Berlim e está triunfante nas políticas pós-política.

Os anos 60 são os anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do estado se começa a alterar substancialmente, passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada que é desmentido pela situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares para salvar o sistema financeiro e os privados. Com a financeirização da economia as desigualdades aumentaram brutalmente. Desde 1980 os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder, realidade que se pretende ocultar com a mercantilização da cultura para consolidar a hegemonia pela modelação da consciência popular. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista neoliberal, em que se vende a ideia que a liberdade do mercado seria mais igualitária quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.

Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Essa nova ordem económica impõe-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Mega pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística.

Uma cultura de impacto máximo e de obsolescência imediata, numa acelerada sucessão de modas e humores públicos que procura extrair o máximo lucro do empobrecimento moral, intelectual, em que a diversão promovida pelas indústrias culturais e criativas tudo normaliza e esvazia de sentido. É um dos mecanismos que o capitalismo pós-democrático usa com eficácia para promover a alienação, até a transformar num conformismo em que não se distingue a realidade das aparências. O objectivo final é que as massas populares fiquem cada vez mais incapazes de perceber os verdadeiros jogos políticos para castrarem a sua capacidade de intervenção.

É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Uma cultura da ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano.

É neste quadro que se trava um áspero combate ideológico, sobretudo num contexto em que não está no horizonte nenhuma acção política de projecção universal, em que as políticas de esquerda ainda que importantes, mesmo pontualmente decisivas, têm um limitado raio de acção, sempre com a certeza que se firmam numa base ontológica sólida porque a totalidade social não é uma quimera.

O debate entre as forças de esquerda sempre foi intenso entre revolucionários e reformistas e dentro de cada uma dessas áreas, o que foi sempre aproveitado pelos reaccionários, que nunca desarmam nem desistem, para assegurar a sobrevivência do capitalismo, de corromper a linguagem de esquerda, procurando-se apropriar-se das ideias nucleares da esquerda para manipulá-las, o que têm conseguido com algum êxito, promovendo a confusão ideológica, com a consequente desorientação política de muitos meios progressistas.

A mais antiga confusão é a de que os conceitos de direita e esquerda perderam sentido, são distinções sem significância porque as ideologias se desgastaram. Uma ideia que teve origem dentro de uma determinada esquerda, em que Deleuze e Gauttari pontificavam, em linha com o estruturalismo e a semiologia que estavam na ordem do dia e que tinham introduzido nas ciências humanas um sistema de análise das comunicações linguísticas e visuais de métodos análogos aos das ciências empíricas e experimentais. O que Deleuze e Gautatari fazem, com grande repercussão em muitas áreas da esquerda, é colocar em causa o conceito de ideologia como Marx o definira em Para a Crítica da Economia Política, onde estabelece e traça as relações entre a produção material e a produção imaterial: «Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem», depois de já ter afirmado em A Ideologia Alemã que «a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

Os filósofos franceses consideram que o que se designa como ideologia  são «enunciados de organizações de poder» entendidos como parte decisiva da própria estrutura produtiva do capitalismo, não uma superestrutura, ainda que numa relação com a produção económica, a infra-estrutura. São «agenciamentos de enunciação», que desde sempre foram predominantes na história ou seja, a ideologia é substituída pela análise das subtilezas da linguagem, pelas relações entre a semiótica do significante e do não-significante. De um modo chão, há que questionar e lembrar a essas correntes e suas derivadas que não foram as relações entre o significante e o seu significado ou vice-versa, por mais importantes que sejam, que foram decisivas para a tomada da Bastilha ou do Palácio de Inverno, para instaurar a Comuna de Paris ou para fazer a Revolução do 25 de Abril. Foram acções revolucionárias sobre o mundo material sobre o qual se agiu para o alterar.

Coerentemente com os suas conclusões, Deleuze faz a defesa do Maio de 68 considerando que o que «é normalmente chamado de política se fecha de tal forma como um poder que uma força de transformação política só pode vir de fora deste território fechado da política». Em síntese o devir revolucionário só poderia começar pelos «despolitizados», pelos «desideologizados». Utilizando a sua terminologia, o desejo político explodiria de maneira pré-significante, anterior à consciência política, portanto pré-ideológico. Está em linha com a Internacional Situacionista (IS), a raiz ideológica do Maio 68, que se nega enquanto ideologia à semelhança dos ideólogos da burguesia: «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes cativos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (…) «com novas formas de acção contra a política e a arte», dizendo querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine, elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau», considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução. Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lenine recorre para, em Que Fazer?, combater as ilusões originadas por essa convicção, sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.

São estes os fundamentos de uma desideologização de uma nova esquerda que são adulterados pelos pensadores de direita e pelos média mainstream para esvaziarem o conteúdo original do materialismo dialéctico, o seu poder revolucionário, adulando esses reformadores das esquerdas radicais, que etiquetam de «modernos», opondo-os aos «conservadores», a esquerda consequente que tem a certeza e a convicção de que nenhuma realidade, por mais consistente e hegemónica que se apresente, como é o capitalismo actual, deve ser considerada definitiva, nem dá por eterno o princípio da dominação capitalista.

Os objectivos do imperialismo cultural são óbvios, vulnerabilizar o pensamento de esquerda promovendo uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores de esquerda e de direita, que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico. Os partidos de direita e dessa esquerda cosmopolita tornaram-se prolongamentos do aparelho de estado, representando interesses económicos que lhes dão apoio variável. Em que a actividade política se reduz praticamente à conquista do voto, o que representa um retrocesso político-ideológico que se esgota nos momentos eleitorais e deixa o campo aberto para o surgimento dessas novas-velhas forças políticas enquadradas no capitalismo pós-democrático.

Maio 68 é o marco da não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas por mudanças sociais que deixam intocadas as fundações do sistema. São as políticas identitárias tão em voga, que objectivamente são políticas de direita. Aos rebeldes sem filtro que reclamavam maiores liberdades o neoliberalismo deu-lhes essas liberdades dando-lhes a liberdade do mercado, com o objectivo de desmantelar as instituições colectivas da classe trabalhadora, em particular os sindicatos e os partidos políticos, considerados anacrónicos nessa nova ordem em que maiores liberdades individuais se afundam em maiores injustiças sociais. O fim do neoliberalismo é que as reivindicações, mesmo quando alterem as atitudes sociais, não sejam mudança social, nem se empenhem em transformações sociais radicais. Até um certo limite, até correndo alguns riscos, é-lhe conveniente a emergência das lutas ditas fracturantes, em que se conquistam direitos sem o direito de colocar em causa a ordem estabelecida. Tem uma consequência: a colonização do pensamento de sectores da esquerda pela direita com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer ainda que com todas as contradições e dificuldades.

As esquerdas radicais, em Portugal e no mundo, as esquerdas «modernas» que se opõem à esquerda praxada de «conservadora», ainda que por vezes tenham uns rompantes ou se digam pós-marxistas, não se revêm no que é nuclear no pensamento marxista: a relação de exploração entre o capital e o trabalho, as lutas  de classes que se vão ajustando às condições objectivas e subjectivas das sociedades onde se travam.

Conjecturam que a teoria marxista está ultrapassada por não corresponder às características da sociedade contemporânea, a chamada aldeia global pós-industrial. Consideram essas condições ultrapassadas, antiquadas, substituíveis pelas causas fracturantes e identitárias, com uma forte componente intelectual, mediática, de moda, praticamente sem relação com a tradicional base social da esquerda no mundo operário e nos sindicatos. Para eles ,as classes sociais não contam porque se estão dissolvendo, perdendo sentido, pelo que a tónica marxista nas classes sociais é reducionista, o que prevalece é a santíssima trindade da raça, sexo e género, como se em cada raça, sexo e género não existissem divisões sociais. Uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias.

Ultrapassado o espelho da «modernidade» assumida por essas esquerdas, por mais que lapidem essa realidade, mesmo que obtenham alguns êxitos, o que se encontra de facto é a renúncia a uma sociedade que se oponha à desordem do mundo actual, com a desonestidade intelectual de fingir que o marxismo não representa mais uma realidade política actuante numa perspectiva socialista ainda que remota, um campo de batalha de onde os «conservadores» não desertam, carregando um património de lutas, «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez» (Manuel Gusmão).

(Publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

Bibliografia relacionada

Cunhal, Álvaro; O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Edições Avante!, 1974

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1, Assírio & Alvim, 2004

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; Mil Planaltos. Capitalismo e Esquizofrenia 2, Assírio & Alvim, 2008

Gusmão, Manuel, Uma Razão Dialógica, Edições Avante!, 2011

Lenine, Que Fazer?, Edições Avante!, 1984

Marx, Karl; Engels, Friedrich; Obras Escolhidas (em três tomos), Edições Avante!, 1982-1985 (2.ª edição, 2008-2016)

Marx, Karl; Proudhon, Pierre-Joseph; Misère de la Philosophie/Philosophie de la Misère, Union Génerale d’Editions, colecção Le Monde en 10/18, 1964
 

TÓPICO

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Canções de Resistência, Canções Revolucionárias, Geral, Hélène Delavault, Marc Ogeret, REVOLUÇÃO FRANCESA

Ah! Ça Ira,Ça Ira, Ça Ira

Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários.

«A liberdade guiando o povo», do artista francês Eugène Delacroix
«A liberdade guiando o povo», Eugène Delacroix

Durante séculos, as canções participaram directamente na vida social. Eram o espelho dos acontecimentos, o seu catalisador, a sua memória. Registavam a evolução dos costumes, do trabalho, dos amores e desamores, das batalhas, das ilusões e desilusões, cóleras e esperanças.

Relatavam os principais acontecimentos, apropriavam-se naturalmente da actualidade que estava a ser vivida. Difundiam-se das cidades para os campos, faziam o caminho inverso, voando de boca em boca. Nem sempre ficando impressas em folhas volantes muitas perderam-se outras foram recuperados nas recolhas gravadas de musicólogos, etnólogos e antropólogos.

Uma boa parte delas são de autores anónimos. É vulgar colarem os versos a músicas que estavam em voga. Compulsar os cancioneiros de uma determinada época acrescenta conhecimento ao conhecimento que os historiadores recolhem de outras fontes. São reveladores das diversas pontes existentes entre as formas populares e as que tendo origem nos cultos enquanto objecto ritual se secularizaram como forma cultural e estética.
Num tempo em que o analfabetismo era corrente as canções eram uma forma popular particularmente eficaz de circulação das ideias e das notícias.

Da boca para os ouvidos reproduziam-se saltando por cima das barreiras entre os salões aristocráticos e as tascas populares, entre as cidades e os campos. As folhas volantes, os periódicos, os almanaques, registam as suas variações, por vezes burlescas, dando relevo ao papel ocupado pelas canções como retrato crítico dos acontecimentos mas também o seu papel interventivo nas acções consciencializando, politizando. Tudo começava e tudo acabava numa canção.

Tudo muda com a invenção da rádio, que de recurso tecnológico de comunicação nos finais do séc. XIX se expande para as transmissões radiofónicas de entretenimento nas primeiras décadas do séc. XX, popularizando-se no mundo.

Há a necessidade de preencher o tempo, que foi crescendo até estar no ar durante as vinte e quatro horas do dia. O grande recurso foram as canções que se diversificaram por vários géneros desanexando-se da sua complexa origem.

Em paralelo, também nos finais do séc. XIX, surgiram as primeiras gravações sonoras que muito evoluíram desde as primitivas técnicas de gravação comercial em massa, até às que hoje são mais comuns, CD e streaming.

As canções e as músicas de variedades entraram definitivamente no quotidiano descontextualizando-se da realidade. O consumo da música universalizou-se, as canções multiplicaram-se nos mais diversos géneros explorados por uma poderosa indústria progressivamente submetida ao marketing e ao sistema do star-system, uma realidade iniludível que se vê à vista desarmada quando se percorrem as grandes superfícies comerciais, aqui e em qualquer parte do mundo ocidental, em que a música anglo-saxónica na forma e internacional nos sentimentos é dominante e domina, de forma directa e indirecta, as músicas locais. Em que o que pouco escapa a esse formato é remetido para os nichos das músicas étnicas, músicas de um pequeno mundo que vai conseguindo subsistir, para onde são mesmo atiradas as músicas e os músicos de países com França, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda, etc.

Como em tudo há sempre quem resista e as excepções mais sublinham a regra. Os cantores de intervenção política são cada vez mais raros. Por vezes aparecem mensagens sociais inscritas no padrão dominante, polvilhando-as com o mesmo pó de diamante dos sapatos de Andy Warhol. Dão-lhes um ar comprometido que não alarma nenhuma sirene, é um auxiliar de vendas.

Evidentemente que no meio de tanta tralha é inevitável surgirem boas canções, bem mais escassas que as trombeteadas com alarde nos media.

Neste contexto, ouvir hoje as canções da Revolução Francesa, que este ano comemora o 230.º aniversário no dia 14 de Julho, dia da Tomada da Bastilha, é fazer uma escuta quase arqueológica, que é também um acto de resistência e de suspensão do tempo para reflectir contra a vulgaridade que invade as ondas sonoras e os palcos do mundo, num tempo em que, por dá cá aquela palha, as tão na moda artes performativas, muitas integram formas cantadas, reclamando reflectir sobre o mundo em que vivemos quando se limitam a transmitir a imagem de uma cultura de consumo irreflectido, sem espaço para discursos significativos. Em que a sedução é a única estratégia de funcionamento e esse reclamo não passa de uma frágil fachada intelectual para justificar um mundo embriagado pelas imagens e seus acessórios, a sua marca de água.

Marca de água do nosso tempo de embriaguez estética. De uma estética da embriaguez pela imagem, qualquer que seja a forma que assuma, que reduz até anular a consciência crítica e impõe às pessoas um vazio saturadamente preenchido por uma oferta cultural bulímica em que o espaço social é uma abstracção fetichizada. Em que a cultura e as práticas culturais contemporâneas activamente participam num sofisticado processo de controlo social, que planta ilusões de liberdade pessoal para que o sacrifício nos viciantes altares do consumo seja indolor e voluntário, promovendo uma eficaz submissão.

Um processo de dominação que Edward Said descreveu em Cultura e Imperialismo, evidenciando como desse modo o imperialismo chegou a lugares que frotas navais nunca poderiam alcançar, em que nenhum exército de ocupação poderia subsistir, com a vantagem de ser muitíssimo mais barato e ser vendável.

Exceptuando-se a Marselhesa, adoptada como hino nacional de França, pouco ou nada resta do vasto cancioneiro revolucionário. Procurar registos sonoros é tarefa árdua. Nas lojas de gravações sonoras é agulha em palheiro, mesmo em França.

Nas vendas on-line estão, quando estão, disponíveis, todos por via indirecta, um numero reduzidíssimo de exemplares de L’Histoire de France par des Chansons (Chant du Monde), o segundo disco dedicado à Revolução Francesa, Chansons Revolutionnaires ou l’Esprit de 1789, por Serge Kerval (Editions du Petit Véhicule), Marc Ogeret Chante la Revolution (Chant du Monde), Hinos da Revolução Francesa (Rouge de l’Isle, Paisiello, Méhul, Gossec), Coros e Orquestra du Capitole de Toulouse, maestro Michel Plasson (EMI), La Republicaine, Hélène Delavault (Chant du Monde).

La Republicaine foi um espectáculo, em 6 de Janeiro de 1989, que deu brado em França quando Hélène Delavault, mezzo-soprano que também faz espectáculos com canções de cabaret (esteve em Portugal com um desses espectáculos nos anos 90 no Fórum Luísa Todi, integrado no programa do Festival dos Capuchos), viu o palco ser invadido por fascistas encapuçados que acorreram ao apelo do jornal de extrema-direita Présent, que a colocavam no pelourinho como «a hiena vestida de vermelho berrando os seus cantos de ódio sobre os túmulos dos nossos mortos». O que nos remete para a actualidade de se revisitar as canções da Revolução Francesa para agitar a normalização e apatia em curso imposta pelo imperialismo quando dispensa acções mais radicais, embora as tenham guardado no bolso.

O catálogo das canções elaborado por Constant Pierre, Les Hymnes et Les Chansons de La Révolution, (Imprimerie Nationale, Paris 1904) regista 2257 entradas em três rubricas Hymnes (1/167), Canções (168/2142), Teatro (2143/2257), o que dá uma excelente imagem da força participava e interventiva das canções mesmo tendo em consideração que a Revolução Francesa não estourou num dia e tudo mudou, que foi um processo revolucionário que se inicia em 1788 e acaba em Novembro de 1799.

«A canção era e continua a ser uma arma,

embora nos nossos tempos

esteja cercada pelas banalidades que são a sua marca contemporânea.»

Que só nos anos 91 e 92 se desencadeia a vertigem da Revolução quando o rei Luís XVI, pressentindo que mais valia prevenir quando pouco sobraria para remediar, procurou sobrevivência na conciliação, enfiou o barrete vermelho dos revolucionários, saudou a nação, um conceito colectivo que se opunha ao de soberano, mas recusa assinar a deportação dos padres refractários. Fazia isso, enquanto na sombra recorria aos exércitos estrangeiros para invadirem a França e estrangularem a Revolução.

A Assembleia Legislativa não perdoa. A 10 de Agosto de 1792 vota a suspensão do rei e convoca uma nova assembleia: a Convenção de Paris, que proclama a República e inicia o período revolucionário que acabará com um golpe de estado de Napoleão Bonaparte, com o apoio da grande burguesia, em 18 de Brumário (9 de Novembro de 1799).

Há canções que se vão alterando no balanço dos acontecimentos. Algumas pelo seu grande poder atractivo, são recuperadas pelos contra-revolucionários. A mais conhecida é «Ah! Ça Ira». A música é de uma contra-dança de grande êxito na altura.

Na primeira versão, o refrão altera-se para enfatizar as coplas. No primeiro, a abrir a canção: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / o povo repete sem se cansar / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Apesar dos motins isto vai, que introduz a primeira copla: Os nossos inimigos confessos estão aí / Vamos cantar Aleluia! / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai, e continua na defesa da liberdade, de melhores dias, de leis mais justas terminando com aviso sobre a guerra que a Revolução terá que enfrentar: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ soldados pequenos e grandes tenham a mesma alma/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Durante a guerra ninguém trairá.

Noutra variante, a certeza que estão a escrever história: Mas isto vai, isto vai, isto vai!/ À liberdade devemos a glória/ Ah! isto vai, isto vai, isto vai!/ A felicidade para todos acontecerá/ Seremos todos irmãos de armas/ amigos verdadeiros cada um será/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai! Ninguém protestará em vão/ para sempre na história/ o nosso século será celebrado/ Como isto foi, isto foi, isto foi! Os realistas, os contra-revolucionários também se aproveitam da popularidade da canção para a inverter em seu favor: Helás! Não há mais honra nem lealdade/ contra o seu rei o povo revoltou-se/ Ah inumana humanidade/ os direitos foram destruídos/ a essa liberdade sem lei/ chamam fraternidade.

Ganho o balanço, terminavam: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Os democratas para a lanterna 1/ Todos os deputados iremos enforcar.

Ao que os revolucionários imediatamente responderam à letra: Os aristocratas para a lanterna / Todos os aristocratas iremos enforcar.

«Ah! Ça Ira» tornou-se tão popular que muitos se divertiram a improvisar variantes do refrão: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ Apesar dos aristocratas e da chuva / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ ficamos molhados mas isto acabará.

São várias as canções que recuperam a música de «Ah! Ça ira» com variações sobre o seu refrão como em «L’Aristocratie en Déroute»: Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ podemos repeti-lo sem parar/ Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ a aristocracia pôs-se a milhas, que intercalava com coplas invectivando, a nobreza, os seus financiadores e as tramas que teciam e estavam a ser desarmadilhadas.

Outra das canções que foi base de muitas variações, tanto de revolucionários como de contra revolucionários, foi «La Carmagnole». A carmagnole é um fato de trabalho dos operários da região do Midi, importado para Paris pelos marselheses e adoptado pelos patriotas.

Os estudiosos do Cancioneiro Revolucionário não conseguem precisar quando a canção surgiu. O que é certo é que rapidamente se tornou tão popular como «Ah! Ça ira», tendo inúmeras versões. A mais célebre é «La Carmagnole des Royalistes»: Senhora Veto prometeu (bis) / Mandar Degolar Paris inteira, (bis) / O seu golpe falhou/ Bombardeado pela nossa artilharia // Dancemos a Carmagnole/ Viva o som (bis)/ Dancemos a Carmagnole/ Viva o som dos canhões (refrão).

As canções registam todos os acontecimentos da Revolução. Da Tomada da Bastilha à formação da Guarda Nacional, da Declaração dos Direitos do Homem à Liberdade para os Negros, dos cantos a Marat e Lepeletier à Morte de Robespierre, dos Hinos à Razão, à Liberdade, a Rousseau, às muitas que incentivam os patriotas a defender as conquistas revolucionárias.

Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários. A canção era e continua a ser uma arma, embora nos nossos tempos esteja cercada pelas banalidades que são a sua marca contemporânea

(publicado em AbrilAbril)

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