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Celebrar Jessye Norman em Dia de Eleições

Hoje, dia de votar e vou votar bem embora com algum alarme pelos resultados que ao fim do dia se saberão. Alarme com as votações que alguns partidos poderão alcançar obtendo-as com os populismos mais rascas, com a mão sempre no gatilho das fraudes políticas e intelectuais disparadas a torto e a direito, a exploração sem freio do que está a dar vendendo vigésimos premiados em directo e on-line com incursões pelas ruas ou ruminando vitualhas suspeitas de contaminações pós-modernas. Para não haver margem para dúvidas, se é que ainda as havia, refiro-me sobretudo ao PAN, embora esteja bem acompanhado. Alarme pelo que isto evidencia de como a estupidez adubada pelo marketing facilmente explora a ignorância e a desinformação que a comunicação social com contumácia propala, confortada pelo adormecimento generalizado que os programas televisivos ditos de divertimento expandem, abrindo caminho aos pan’s. Alarme por esta ser uma realidade bem evidente que, no estado actual do panorama informativo e das redes sociais, obriga a um árduo combate. Além das armas serem desiguais, a estupidez é sempre mais facilmente triunfante porque como Musil escreveu no Homem sem Qualidades: ”se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combate-la”.

Antes de ir votar estive a ouvir Jessye Norman, essa extraordinária soprano que morreu na quarta-feira, dia 30. Tinha um timbre riquíssimo e uma excepcional amplitude de voz que a faziam conseguir os registos de meio-soprano e contralto, o que é raro. Estive a ouvir não uma das excelentes interpretações que a notabilizaram no universo da música sinfónica, bem expressos na sua imensa discografia.

Mencionem-se Ariadne, Ariadne de Naxos / Richard Strauss; Cassandra, As Troianas / Berlioz; Sieglinde, As Valquírias / Wagner; Dido, Dido e Eneias / Purcell; Alceste / Alceste / Gluck; Armida, Armida / Haydn; Judith, Castelo do Barba Azul / Bartok. Uma enumeração rápida para sublinhar a sua versatibilidade. Refira-se que Jessye Norman apesar do seu notável percurso na ópera é nos lieds que tem o seu terreno de eleição. Entre as muitas e magníficas interpretações das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss e dos Ruckert Lieder de Mahler as de Jessye Norman não podem são estar ausentes de alguma estante.

Não foi nenhuma dessas gravações que fui ouvir. Fui ouvi-la num cd duplo intitulado Roots:My Life, My Song em que ela diz que fez uma selecção das “páginas que fazem parte do meu universo pessoal e que permitem aos meus pares músicos e a mim-própria explorar e desenvolver a nossa própria língua musical, rendendo homenagem às figuras tutelares que criaram esta música que celebramos e amamos. Um caminho que nos conduz dos tambores de África até ao Novo Mundo.” São vinte e duas canções, introduzidas por uma evocação dos tambores de África, que nos deslumbram e que ouvimos como nunca as tínhamos ouvido.

Enquanto a ouvia lembrei-me de uma saborosa história que o meu sempre bem lembrado amigo Bartolomeu Cid dos Santos me contou com o humor que o caracterizava, não sei quem lha teria relatado. Jessye Norman vivia num dos bairros mais chiques de Londres de casas dos séculos XVIII e XIX recuperadas em luxuosos apartamentos a que se acede por ruas discretas, habitadas por gente de grandes posses económicas. Era esse bairro de vez em quando assaltado por uma gritaria que os incomodava e sobressaltava. Alguém seu vizinho, pela voz do sexo feminino, dava durante largos períodos de tempo, normalmente pela manhã, uns guinchos inacreditáveis que até poderiam pressupor cenas de violência doméstica ou exercícios sado-masoquistas.

Num bairro com aquele estatuto, os silêncios que marcam os compassos das distâncias sociais eram de quando em quando estraçalhados por um dilúvio de berros que deixava os seus habitantes emudecidos, paralisados de estupefacção. Até que um dia o mistério se resolveu: a senhora que gritava desinquietando todo o bairro era Jessye Norman que quando estacionava na sua casa londrina ensaiava a sua fabulosa voz.

Ouvido Roots, agora vou votar, apelando ao voto para que os populistas sejam menorizados, evitar, entre outros males, que o PS tenha a tentação de tirar a chave da fechadura da gaveta onde o seu o pai fundador meteu o socialismo.

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15 Dias contra a Corrente

Os períodos eleitorais nas democracias representativas são um interregno controlado na desinformação continuada dos meios de comunicação social, mesmo os de serviço público, sobre a actividade política na sua generalidade e, em particular, na dos partidos políticos que se desenquadram do sistema prevalecente, lutando dentro dele contra ele. Interregno que atenua mas não invalida a deformação comunicacional que, entre eleições para o poder central, poder local, europeias e presidenciais, e mesmo durante esse período, é produzida pelos celebrados critérios editoriais que beneficiam descaradamente uns em detrimento de outros. Vários estudos universitários demonstram, sem margem para quaisquer dúvidas, o enviesamento dos media, ainda que partam de princípios discutíveis como o de colocarem todos os comentadores do Partido Socialista do lado da esquerda – o que, ouvindo-os e lendo-os, é altamente questionável e é ainda mais superlativamente contestável com os supostamente independentes. A conclusão, por mais ginásticas que se pratiquem, é que a direita é francamente maioritária, que a representação parlamentar não se repercute nos tempos de antena concedidos.

Entricheiram-se na autonomia e liberdade editorial, uma verborreia eivada de doblez e desplante por uma comunicação social estipendiada aos interesses económicos dominantes, que usam hipocritamente o direito à informação, os princípios da liberdade, independência e imparcialidade, os princípios da não discriminação como balizas para impor um ambiente geral de propaganda, de terror ideológico totalitário, que substituiu os visíveis actos censórios, a violência autoritária da censura dos regimes ditatoriais por uma quase invisível mas omnipresente, fina e sofisticada rede que filtra toda a informação, instalando, tanto a nível nacional como mundial, uma colossal máquina de guerra, poderosíssima e eficaz, que controla e manipula a informação. Diariamente, o mundo é bombardeado por mentiras propaladas por essa gente que se apresenta, sem uma ruga de vergonha, como cruzados na defesa desse bem universal que é a informação e se enquadram no que Platão classifica como doxósofos, que hoje são os técnicos de opinião que se julgam cientistas, que analisam a política como um negócio na bolsa das votações, fazem cálculos eleitoralistas intermediados pelas sondagens e a economia enquanto vulgata dominada pelos mecanismos do mercado em roda livre.

Na verdade são a tropa de choque, os mercenários do poder da classe dominante. Produzem e propõem uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, que concorrem para produzir um efeito global de despolitização, de desencantamento com a política, um território de portas abertas para o populismo mais descarado, estrumado pela simplificação demagógica que está nos antípodas da democrática intenção de informar.

Esse mecanismo é complementado, sobretudo na televisão, pelos programas que se centram nas actualidades, com diagnósticos e prognósticos mais aparentados com os jogos de casino, os casos do dia em desenfreadas correrias de permanente descontinuidade, cuja sobreposição concorre para o esquecimento, os programas de diversão que preenchem os restantes espaços, por cá com grande ênfase no desporto, praticamente reduzido às futeboladas, em que concorrem entre si aterrorizados pelo pânico de aborrecer, para não degradarem audiências e as correlatas receitas publicitárias. Um circo jornalístico de rápida rotação que fomenta o conformismo e se agravou com um movimento de concentração da propriedade da imprensa, rádio, televisão e informação on-line. Movimento que ainda não acabou, é paralelo ao da globalização capitalista, com a destruição das bases económicas e sociais da produção cultural submetida ao reinado do comércio, do comercial.

As diferenças entre órgãos de comunicação mais circunspectos ou mais populares são variações de estilo do mesmo estado das coisas. Biombos que, quando retirados, mostram uma obscena uniformidade. Uniformidade que se estende das peças jornalísticas às de opinião, com comentadores escolhidos a dedo. Aqui, há que fazer uma nota às condições de trabalho dos jornalistas, que se degradaram e continuam a degradar brutalmente. Precariedade, despedimentos, utilização de trabalho dos estagiários gratuito ou quase, a porta da rua sempre aberta, imposição de critérios editoriais condicionados aos interesses dos patrões, dos partidos dos patrões, do absolutismo do pensamento dominante, retiraram e retiram progressivamente a autonomia jornalística. Autonomia e liberdade editorial que quanto mais se vende mais altissonantemente é proclamada, que foram, são e continuam a ser utilizadas para discriminar ostensivamente forças políticas e sociais que não se submetem aos seus diktats. Basta fazer o cômputo sem sequer ser preciso descer ao pormenor do conteúdo ou do relevo que tiveram, do número e dimensão das notícias, entre os diversos partidos políticos e forças sindicais. Uma radiografia devastadora da ausência de imparcialidade e independência dos meios de comunicação social.

Os truques são os mais diversos. O mais vulgar é o que dá ou não dá para ser notícia, sempre em favor da direita ou mesmo de alguma esquerda como o BE, acalentado desde a sua fundação pelo seu radicalismo de esquerda jovem que mais não era que uma movida social-democrata, como a sua coordenadora recentemente reconheceu. Se a menorização do PCP já vem de longe, com mais que fatelosos argumentários, actualmente o empolamento do PAN em detrimento do PEV é a evidência da anormalidade da normalidade na comunicação social – o que não tem nada de extraordinário no panorama predominante do marketing político, dos efeitos de anúncio em que se procuram obter ganhos directos e indirectos pela notoriedade mediática alcançada que cobre todo esse arco que vai da direita mais bronca e retrógrada aos oportunistas recém-convertidos ao ambientalismo pós-moderno. Marketing político em que a Iniciativa Liberal, um recém-chegado à política empurrado pelas urgências do neoliberalismo económico, é o alfa e o ómega de um discurso de manipulação sem tréguas envernizado por um certo vocabulário técnico do discurso fatalista que transforma tendências económicas em destino sem alternativa, numa regressão à barbárie da exploração capitalista mais brutal.

A comunicação social na sua generalidade dá-lhes guarida e apoio. Cumpre com denodado esforço a sua missão de impor o pensamento único para, no limite, calar os que apresentam outras alternativas políticas. O seu objectivo é que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar outras soluções políticas. Procuram fechar num gueto os que lutam contra todas as opressões de geometrias variáveis que são o estado de sítio em que estamos mergulhados. Emudecer e expulsar todos os que, como Manuel Gusmão assinalou, se colocam «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprenderam a não ceder aos desastres, aprenderam a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas sejam silenciados.»

A contragosto obrigam-se, nos períodos eleitorais, a quinze dias de maior equidade que não disfarça o seu trabalho continuado em favor da pavimentação das estradas da financeirização, da globalização e da desregulamentação da economia, da apropriação dos recursos do planeta, do desemprego estrutural, da precarização por diversas vias da força de trabalho, da fascização tecnocrática travestida por uma democracia formal em que «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas» como diz com implacável lucidez um personagem do filme de João César Monteiro, Le bassin de John Wayne. Vive-se um tempo em que a ofensiva capitalista se agrava tentando ultrapassar as suas crises estruturais, que transforma num instrumento útil para as forças burguesas, das mais sociais-democratas às mais ultraconservadoras, falsearem a sua imagem, criticando os aspectos marginais do sistema para que a espinha dorsal deste continue intocada.

Um tempo da globalização neoliberal, do mundo aldeia global «que supostamente apagaria as fronteiras quando jamais se viram tantas fronteiras de classes sociais, de renda, fronteiras físicas e políticas, de poderio militar, como hoje» (Domenico Losurdo)Um tempo em que se exige às esquerdas coerentes a reinvenção da política e a intensificação da luta de classes em que as lutas eleitorais são uma das suas frentes. . Um tempo em que a esquerda tem que estar sempre presente e empenhada em todas as frentes na defesa dos direitos económicos, sociais e políticos.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

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ROBLES, DO OUTRO LADO DO ESPELHO

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho.

Robles

O caso Robles tem empapado noticiários, redes sociais, internet. A esmagadora maioria dos comentários navega na espuma dos factos variando entre os das esquerdas que, fazendo contorcionismos quase impossíveis, tentaram e tentam desresponsabilizar o dirigente do BE, aos de outros que, com o oportunismo que caracteriza a direita, agitam as bandeiras de princípios morais que nunca tiveram, para o condenar e por arrasto condenar o BE, não por causa do BE mas visando mais longe para tentarem acertar na «geringonça» que eles bem sabem ter tido o seu tiro de arranque por iniciativa do PCP (o que tem sido ocultado em benefício do BE), como foi esclarecido, certamente não por acaso, preto no branco, por António Costa, num dos últimos debates na AR, depois de afirmar ter a «geringonça» na cabeça e no coração – o que será comprovado nos tempos próximos.

Uma insanável contradição ética

Robles não cometeu nenhuma ilegalidade, nem cometeu nenhum crime económico. Envolveu-se num negócio imobiliário especulativo que se inicia quando participa num leilão em que o Estado aliena património público ao desbarato. Para quem diz defender políticas públicas de habitação esse foi o primeiro passo para se negar, adquirindo para si um património que devia pugnar para que se mantivesse público. Os passos sequentes estão em conformidade.

Na recuperação do imóvel os apartamentos variam entre os 30 e os 25 metros quadrados, segundo a descrição do anúncio que o colocava no mercado. Robles poderá não ter noção do que é uma habitação de 30, 25 metros quadrados. Poderá não ter, mas certamente saberá quantos metros quadrados tem a sala da casa onde vive e não é de crer que tenha menos de 20 metros quadrados, o que já lhe dá um razoável padrão comparativo.

Há ainda outro aspecto no projecto de recuperação do imóvel que, aparentemente, viola o PDM, artigo 42-3 d, em que «se admite o aproveitamento da cobertura em sótão e a alteração da configuração geral das coberturas, desde que contida nos planos a 45 graus passando pelas linhas superiores de todas as fachadas do edifício, não seja ultrapassada a altura máxima da edificação, seja assegurado o adequado enquadramento urbanístico». Pelas fotos divulgadas, o aproveitamento da cobertura não cumpre essa norma, com largo benefício para a sua área útil. Robles disso não se deve ter apercebido. Deve desconhecer o PDM ou leu-o na diagonal, 45 graus é um ângulo estranho que deve ter dificuldade em calcular. Sendo vereador na CML e defendendo publicamente, com grande alarde, políticas urbanísticas não especulativas deveria, no entanto, cuidar-se para não incorrer em riscos suplementares aos riscos de se ter enredado no processo em que se envolveu.

 

Robles e a campanha da direita

 

Os oportunistas de direita não perderam tempo a colocar a prancha na crista da onda e o BE, pouco habituado a maus tratos comunicacionais, andou aos zigues-zagues. Também houve quem aproveitasse a balbúrdia para atirar umas pedras ao PCP, nada inesperado nem inusual. Não sendo essa a questão central, a direita por interposto Robles apontava o dedo às esquerdas partindo do princípio de que quem é de esquerda tem que fazer votos franciscanos. Um equívoco idiota. Quem é de esquerda, no contexto desta sociedade, pode ser rico, Engels era, o que não limita a capacidade de intervenção social e política, de lutar ao lado dos trabalhadores desde que não se ofenda quaisquer princípios éticos nem deixe de defender essas frentes de luta mesmo que os seus bens patrimoniais sejam atingidos. A direita, com o seu oportunismo contumaz, confunde moralismo, ética e ilegalidade. Tem outro problema, a corrupção, os crimes políticos e económicos, os que estão escrutinados e alvo de processos judiciais mais os que andam a pairar ou estão submersos em nuvens de suspeição, são praticamente um exclusivo do PS, do PPD e do CDS. Têm a seu favor a artilharia jurídica, sabendo-se que entre a justiça e o direito o abismo não é pequeno e que o direito é o direito do mais forte à liberdade. Robles era um alvo à sua medida mesmo sabendo-se que não tinha cometido nenhuma ilegalidade. Tinha incorrido numa fortíssima e insanável contradição ética.

A campanha que decorreu e continua a decorrer é da baixa politiquice, prenhe de truques xico-espertos e populistas que procuram ocultar a dura realidade das inquietações que assaltam os grandes interesses económicos e os políticos que os representam.

A questão central da direita é a necessidade, até urgência, em romper com a convergência que parlamentarmente tem sustentado a solução governamental que, desde as últimas eleições, foi encontrada. Pressionados pelo grande poder económico e politicamente desorientados, fazem esses fogachos enquanto não encontram líderes capazes de a romper. Rui Rio não os satisfaz por parecer estar mais interessado em ressuscitar um bloco central, o sonho desejado por Marcelo, que desde o seu primeiro dia de presidência o tinha colocado por debaixo da mesa em que discutia os problemas do dia-a-dia governativo com António Costa. Assunção Cristas é aquela coisa que abana a cabeça de um lado para o outro sem uma ideia consequente. Aparecem agora um ressuscitado Pedro Santana Lopes que tem ideias que sem o concurso dos concertos de violino de Chopin não consegue afinar. Pedro Duarte a saltar pimpão para o palco, faltando saber se tem estaleca para enfrentar Rio e é capaz de corporizar os desejos não ocultos do grande capital.

A direita, atarantada por estar longe de exercer o poder e de no horizonte próximo essa possibilidade se configurar difícil, fragmenta-se, o que não significa que não continue a ser perigosa. Os comentadores que lhe são afectos e que dominam o panorama dos meios de comunicação social, da estipendiada propriedade dos plutocratas ao chamado serviço público – com destaque para a televisão onde se encontram bem representados –, aproveitam o caso Robles para colar pedaços e atacar sem detença a «geringonça» de caras ou de cernelha, como o têm feito desde o primeiro momento em que se percebeu que poderia haver uma solução governativa PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV. Esse o alvo e o grande objectivo.

Alvos: entre o preferencial e o interposto

Num primeiro momento, de forma continuada, o PCP foi o alvo preferencial, em linha com que sucede desde o pós Revolução de Abril. O PCP abrir a porta para esta solução governativa destruía a velha e relha tese do PCP «na sua lógica imutável do “quanto pior, melhor”». Uma cassete da direita adoptada por muitos que se dizem de esquerda mas alinham sistematicamente com a direita. O PCP, na sua longa história, não teve nem tem vistas curtas pelo que nunca poderia pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda.

As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata, espontânea e humana é o receio pelo seu futuro. As pessoas que vivem pior e enfrentam situações que precarizam a sua vida estão humanamente mais fragilizadas, mais vulneráveis. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade podem e devem ser postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. O colar o «quanto pior melhor» ao PCP é uma ideia feita da direita e de malta dita de esquerda formatada e em deriva ideológica. Esse bordão tinha ficado em estilhas, pelo se entrincheiraram nos desvios do PCP «à fidelidade de princípios». O que muito os incomodava, porque seria a única virtude que reconheciam a esse partido, ainda que essa virtude representasse para eles um claro sinal de envelhecimento. Para quem não tem, nunca teve, nem nunca terá princípios de qualquer género, para quem os princípios são instrumentais, ter princípios e a eles não falhar é qualquer coisa incompreensível, inaceitável. Esbarrava essa argumentação no empenho negocial do PCP em dar continuidade à «geringonça» sem recuar em nenhuma luta e nas críticas às vacilações das políticas sociais e económicas do governo, sem deixar de condenar a sua subordinação aos ditames da UE e à política belicista da NATO.

Com o BE, a questão era outra. Desde o anúncio da sua formação o BE beneficiou de desvelados carinhos mediáticos. Largos espaços de antena, dos jornais às televisões lhe foram concedidos, muitas das suas mais conhecidas individualidades foram e continuam a ser recrutadas para comentadores, mesmo os que saíram do BE para o Livre não perderam essas sinecuras, o que torna, curiosa mas não inesperadamente, o Livre num partido de quase nula expressão a ter desmesurada presença nos media. O BE alimentava a esperança de uma movida política, de ser o anticiclone dos Açores a impulsionar o ar fresco que varreria um PCP que não abdicava da sua identidade ideológica, reconfigurando o lado esquerdo do espectro político em Portugal, normalizando-o. O BE foi incapaz de cumprir esse desiderato. Desde a sua fundação andou sempre a balançar entre a recuperação aggiornata dos ideais dos primeiros sociais-democratas, para quem a democracia era o território da luta de classes pacífica, e um difuso eurocomunismo pop em que se começa pelos fins e se acabam os princípios. O seu modelo anda aos solavancos entre os Verdes alemães, o Syriza grego, o Podemos espanhol. As cenas de namoros com esses partidos têm vários episódios, alguns tornaram-se pouco recomendáveis. De qualquer modo continuava e continua a beneficiar da complacência mediática em larga escala e num amplo espectro.

O caso Robles abriu uma fissura e a oportunidade para os comentadores da direita mais reaccionária iniciarem uma campanha de descredibilização do BE, que as tergiversações de Catarina Martins & companhia facilitaram. É gato escondido com o rabo todo de fora. Há que sublinhar a traço muito grosso que o alvo dessa campanha era a «geringonça» por interposto BE, em que visionavam uma inevitável ruptura nos seus equilíbrios internos e as dificuldades que o BE teria na lógica da aspiração das suas elites intelectuais em participar num futuro governo, no que concorrem com os seus ex-militantes agora enfileirados num Livre eleitoralmente irrelevante mas muito activo nos tabuleiros desse mercado.

 

O saudosismo descarado da direita

 

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho, o ódio à peste grisalha, o ataque desenfreado aos direitos sociais e laborais, o acentuar os desequilíbrios entre a remuneração ao capital e ao trabalho, o atribuir qualquer sucesso económico, por menor que fosse, ao mundo empresarial e nunca aos trabalhadores, o dividir os portugueses entre empreendedores, sempre altamente beneficiados, e os «piegas» que se queixavam das cada vez mais duras condições de vida e de trabalho e da deterioração das relações laborais. O ódio aos sindicatos que conseguiram travar com êxito muitas lutas para que o pior não fosse ainda pior. O elogio do empobrecimento da generalidade dos portugueses enquanto a minoria dos mais ricos continuava a enricar a galope. Em simultâneo também estavam confortáveis com um PS e um BE que muito os criticavam e diziam que o país estava péssimo, mas não saíam das variantes de jogos de salão.

O PSD, com golpes populistas, ganha as eleições mas perde a maioria parlamentar e os alarmes disparam quando, à saída de uma reunião entre o PCP e o PS, Jerónimo de Sousa diz que «o PS só não será governo se não quiser». Não era só o tradicional e bafiento arco governativo que estava em causa, era sobretudo o PS abrir um interregno na sua matriz soarista-reaccionária e haver a possibilidade de um entendimento à esquerda.

Desde que esse entendimento se concretizou os ataques tem sido uma constante. O caso Robles deu-lhes um novo impulso sobretudo agora que a legislatura se aproxima do fim e se vai discutir o seu último orçamento. O único objectivo desta campanha é minar os possíveis e nada fáceis entendimentos à esquerda para, num primeiro passo, reduzir e, a médio prazo, anular o peso político do PCP, do BE e do PEV nas acções do Estado, desbravando as veredas por onde a direita mais reaccionária possa avançar. Atacar a «geringonça», até, se possível, torná-la inviável, é também dar força dentro do PS aos saudosos do soarismo-reaccionário que odeiam militantemente a esquerda e aos que estão contrafeitos na barca da «geringonça».

O capital está inquieto com a possibilidade de haver uma reedição dos entendimentos à esquerda. Por isso avança todos os seus peões nesta altura, que não é um momento qualquer. As tensões comerciais internacionais multiplicam-se e têm desenvolvimentos imprevistos. Advinha-se uma nova crise económica mais devastadora do que de 2008, a qual politicamente favoreceu a expansão dos populismos e dos autoritarismos. A frágil economia portuguesa é e será muito sensível às variações internacionais e, enquanto não recuperarmos muita da soberania que alienámos, ainda mais expostos estamos. Com o governo PS subordinado à UE e à Nato o caminho de recuperação de independência nacional está adiado e as medidas socialistas não saíram de gaveta fechada a sete chaves, ainda que se tenha metido uma chave na fechadura. Neste contexto as questões que se colocam à esquerda não são nada fáceis, confrontada como está entre a renovação ou não de um acordo semelhante ao que está em vigor, conhecendo as habituais flutuações do PS, as suas sujeições à UE e NATO, o polme dos seus militantes sempre prontos a se deixarem fritar em conjunto com a direita, a qual, mesmo a que aparenta ser mais civilizada, não perde os genes seláquios.

As alternativas são fáceis de desenhar no actual contexto nacional e internacional e a bem visível voracidade da direita não deixa margem para dúvidas. O saudosismo pelas celebradas medidas estruturais que mais não são que o ataque desenfreado a todos os direitos que ao longo destes 44 anos foram conquistados e defendidos, não é iludível. O governo Passos-Portas foi uma variante dura dos anos cavaquistas e soaristas. O que se pode prever nos actuais desentendimentos da direita, que são mais concorrência interpares do que divergências de fundo, é que uma próxima oportunidade de um governo dessa gente será ainda pior. A leitura do seus arautos é esclarecedora. É com essa realidade que a esquerda tem de se confrontar, que tem de enfrentar, com coragem e audácia, para continuar as batalhas pela reconquista dos direitos políticos, sociais e económicos que, por mais magroas que sejam, são conquistas que têm revertido, ainda que muitas vezes insatisfatoriamente, o caos insalubre que a direita tinha implantado.

(publicado em AbrilAbril,  http://abrilabril.pt 10 de Agosto 2018)

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Autárquicas 2017, BE, CDS, CDU, Eurocomunismo, Geral, Partidos Socialistas, PCP, PEV, PS, PSD, Social Democracia

Uma Leitura das Autárquicas 2017

autárquicas 2017

 

Ler, mesmo na diagonal as leituras que se fazem das eleições autárquicas 2017, na comunicação social e nas redes sociais é exercício acabrunhante, mesmo que se coloque à margem o que se escreve e diz sobretudo sobre os resultados eleitorais de Almada, em que existe uma exaltação pelo aparente ar fresco (o que é que isso quererá dizer?) soprado  por uma Inês Medeiros que não tem deixado marcas notáveis pelos lugares por onde deambulou mas que, nos delírios provincianos e serôdios que por aí se plantam, fará renascer em solo luso uma rive gauche se não defunta pelo menos moribunda no seu local de origem. Depois,  Lisboa onde iremos ter, para alegria dos sitcoms turísticos e da especulação imobiliária, a continuação, agora talvez um pouco mais mitigada pela perca de maioria absoluta, de uma cidade que está a ser virada do avesso por Manuel Salgado, com Medina a fazer de presidente, em linha com os modelos das cidades neoliberais (*), que vai tentar continuar o seu curso numa Lisboa enquanto “ cidade pensada a preço por metro quadrado, como um realista tabuleiro de monopólio, pronto a servir para a monocultura de hotéis e luxury apartments (**). Haveria ainda a referir, sem necessidade de comentários, o exemplo exemplar de Oeiras.

Saltando ao eixo sobre esses três sucessos, outros se poderiam alinhar, cai-se nas leituras que estão a ser feitas extrapolando os resultados autárquicos para o plano nacional. Uma decifração excessiva, tenham o peso que tiverem nos partidos que se confrontaram, mesmo sem iludir o efeito que a persistência mediática em transformar as eleições locais em eleições nacionais possa ter tido. A leitura das votações nas autárquicas deve ser feita autarquia a autarquia. Votar numa lista de candidatos para uma Câmara Municipal, uma Assembleia Municipal, uma Assembleia de Freguesia é bem distinto de votar para as legislativas. Só a comparação dos resultados obtidos no mesmo concelho por cada um dos partidos, coligações ou candidaturas ditas independentes a essas autarcias é elucidativa.

Um tema tem sido dominante entre os supostamente preclaros plumitivos: o efeito que o mau resultado da CDU, com a perca de dez câmaras, terá na relação existente entre os parceiros do acordo parlamentar, cuja efectivação sublinhe-se foi impulsionada pelo PCP o que é sistematicamente esquecido porque coloca em causa a generalizada tese de os comunistas perfilharem o quanto melhor pior. Uma tese falsa, a roçar a aleivosia. O PCP, pela sua grande proximidade com as populações, sabe melhor que ninguém que o quanto pior melhor, tanto afecta trabalhadores como as classes médias. Que quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro, pelo que as lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita.

Os maus resultados do PCP nas autárquicas devem ser analisados pela lente, cada caso é um caso, das deficiências na gestão e como o trabalho realizado foi comunicado em cada uma das dez câmaras perdidas, pelas escolhas eventualmente erradas nos candidatos, o que nem sempre será certo, nas propostas feitas aos eleitores, no trabalho e empenho nas campanhas eleitorais. Esses são os pontos nucleares em que se devem centrar os questionamentos internos no PCP o que, como seria expectável, são estranhos aos escreventes tanto da direita mais encortiçada como das esquerdas saltitantes.

Uns e outros, por razões diversas, mas não conflituantes, esperam que os acordos estabelecidos, por muito ainda estar por cumprir, sejam fissurados ou mesmo quebrados por o PCP recear uma perca imediata de influência o que o faria engrossar a voz para não sofrer “o abraço de urso” que foi dado aos partidos comunistas na Europa quando fizeram acordos com partidos socialistas. Esquecem, com pertinácia nada virginal, que o abraço era dado a um urso de pelúcia com quase todo o seu miolo esvaziado. Teses simplórias que incorrem no erro original de meter os partidos comunistas no mesmo saco como se os partidos comunistas, em particular o de França e Itália, não tivessem entrado em autofagia ideológica, denegando e destruindo princípios para supostamente atingirem uns fins que não se diferenciavam dos revisionistas sociais-democratas, ficando incapazes de ver que o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, que a  proletarização, ainda que  encapotada, avançava e continua a avançar  a passo largo em todo o mundo. Que esses partidos foram invadidos pelo eclectismo político, um forte aliado do capital e da burguesia, que já tinha inundado essas outras esquerdas. São expressão do triunfo ideológico da direita bem patente nos defuntos eurocomunismos, nas variegadas terceiras vias que colonizaram e colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas. Outro aspecto nada despiciendo desse estado de coisas é a tónica das lutas ter sido deslocada para as mudanças de atitude social desprezando qualquer alteração do quadro social dominante. Não é que se deva ficar alheio a essas lutas ditas fracturantes. O equívoco é fazer a exaltação das diferenças ocupar lugar central em vez do lugar secundário que justamente devia ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Poderão os resultados positivos da governação PS, ter algum efeito de erosão nos votantes CDU. Não será isso que fará o PCP recuar na sua de sempre linha política que, por ter viabilizado o governo, fragilizou de maneira contundente a direita, melhorou, ainda que de forma insuficiente, a vida dos trabalhadores, pensionistas e da classe média, fez com que muitas das políticas vacilantes do PS se orientassem para a esquerda, no que nem sempre tem tido êxito. As lutas do PCP continuarão esse e não outro rumo. Jerónimo de Sousa coerentemente deixou isso muito claro, quando afirma que “o que determinará o futuro do Governo do PS está nas mãos do próprio PS”, “tudo depende da continuação — ou não — do caminho começado há dois anos, com a reposição de rendimentos e de direitos”. Reafirma: “estamos nesta nova fase da vida política nacional, num processo onde repor, devolver até a esperança, leva o PCP a não perder nem uma oportunidade materializar esses avanços” o que aliás está em linha com o que disse há dois anos “o PS só não será governo se não quiser”, abrindo caminho para a solução política actual.

Os cálculos políticos da direita, da mais obnóxia à mais porosa, da esquerda, da mais recalcitrante com o rumo actual à mais performativa, todos agitados pelo cheiro do couro dos cadeirões do poder, são de curto prazo depois de terem perdido todos e quaisquer horizontes ideológicos, alguns nem nunca os tiveram. A sua única visão foca-se em futuras contagens de votos porque são máquinas eleitorais que medem exclusivamente a sua força pelas percentagens que alcançam para servir interesses económicos que lhes dão apoio variável. É a transposição para Portugal do que está a acontecer em todo, quase todo o mundo, numa extensão do sistema norte-americano, dentro do quadro do pensamento da ortodoxia de direita que está triunfante e que inquina generalizadamente as análises políticas, mesmo as que se lhe opõem quando decalcam argumentários que se desgastam por repetitivos. Por muito que o neguem e disfarcem estão amarrados aos pelourinhos do TINA (There Are No Alternative) ou perdidos nos seus labirintos.

É ler e ver o que passeia destrambelhadamente pela comunicação social e pelas redes sociais, da direita a uma certa esquerda, todos muitos excitados com a perca de autarquias pela CDU e pelo que daí pode advir, como se as lutas estivessem dependentes de outros cálculos que não fossem os que as motivam. Nos graneis das direitas estão preocupadíssimos com a crise aberta no PSD, em que o presidente não se demite, mas não se recandidata, rezando à Senhora de Fátima para que apareça um Macron lusitano no nevoeiro do próximo congresso, a Cristas faz figas para que tal milagre não aconteça. Espreitam pelos buracos de todas as fechaduras para o que supostamente se passa debaixo do tampo da mesa em que Marcelo e Costa reúnem, sonhando com a ressurreição do bloco central e suas alternâncias pouco substantivas, ainda e mesmo que com uns berloques de esquerda a reboque. Os cenários multiplicam-se cada cor seu paladar. Acabam sempre com os olhos em bico a ler os astros para fazer previsões na base de contagens de cruzes que as massas populares irão um dia inscrever nos boletins de voto, para no outro dia acordarem como sempre sem nenhum amanhã.

Há outros mundos e que quem lute por outros mundos para lá desses pequenos mundos sem horizonte, com isso eles não sonham, mas conhecem quem porfie nessa luta, o que muito os desassossega.

(Publicado em AbrilAbril)

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A Austeridade da Geringonça

homer simpson

Vem aí a austeridade!

Vão aumentar os impostos para os carros de maior cilindrada e mais poluentes. Logo agora que estava hesitante entre comprar um Porsche ou um Ferrari, Um automóvel vulgar, nada de Bugatti’s Veron. E esta gente vai obrigar a contentar-me com um Jaguar ou coisa parecida. Não é justo!

Também vão aumentar os impostos às empresas que trabalham por cá mas têm sedes no estrangeiro. Coitados dos belmiros, alexandresoaressantos, amorins e coitado de mim! Que vai ser da minha microempresa? Estava indeciso entre a sediar no Luxemburgo ou na Holanda, num país da Europa connosco não numa offshore das Caraíbas. devaneava cruzar-me com o Alexandre num canal de Amesterdão. Agora…agora eu e as milhares de micro, pequenas e médias empresas do país já não podemos sonhar em seguir o exemplo Belmiro, Soaresdosantos, Amorim. Não é justo!

E os bancos? Coitados dos bancos. Agora vão pagar mais impostos! Se calhar também vão cortar nos benefícios fiscais. Ou obrigá-los a pagar com juros mais altos as ajudas dos últimos anos! Resta a esperança que com a ajuda dos lobosxavier e outros especialistas, mesmo menos capazes, se subtraiam a essa violência fiscal. Ainda mais violenta, porque os apanha desprevenidos e pouco habituados a esse tratamento de desfavor. Nem sequer descontam nos impostos o trombocid para algumas nódoas negras que essas pauladas provoquem. Não é justo!

Aumentam também os impostos no tabaco! Vou ser, vamos ser obrigados a racionar nos bons charutos. Charutos, se calhar agora só açorianos e nem todos os dias. Uma chatice. Como se pode pensar bem sem o conforto do fumo de um puro? Felizmente não vi que aumentassem os impostos sobre o álcool, sobretudo das bebidas espirituosas. Vejam só a desorientação política que desabaria sobre o país se o Pulido Valente fosse obrigado à lei seca por via fiscal! Lá se iam as crónicas pia abaixo. Valha-nos isso!

Que mais irá acontecer? O Camilo Lourenço, um dos idiotas pouco inteligentes de serviço, diz que a austeridade não tem cor política. O gajo é mesmo burro. Tem, claro que tem. Outros desses opinantes todo o terreno vieram, em grande alarido, pregoar: isto é austeridade de esquerda!!! O Camilo nem isso percebe! Que grande bosta !!! Uma minoria dos portugueses afectada e ele nem repara! Julga que esta austeridade é igual à outra? Olhe que não! Olhe que não!

Não é justo! Não é justo! A austeridade nunca pode ser de esquerda.  Desabar em cima de nós desprevenidos e pouco habituados a ela, ainda é menos justo. A austeridade devia ser sempre para aqueles que o preclaro Ullrich dizia: Ai ,Aguentam, Aguentam!

Socorro! A geringonça está a funcionar! O governo centro esquerda com o apoio dos radicais de esquerda está a passar entre os bombardeamentos da Comissão Europeia, FMI, da troika, dos partidos de direita aqui e lá fora, dos mercenários da comunicação social. Esta malta anda a dormir na forma! A insónia alastra-se pela turbamulta de direitinhas que continuam a ladrar com o desespero de ver a caravana a passar

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Patrioteiros

bandeira portuguesa

Alexandre Soares dos Santos, com Américo Amorim e Belmiro de Azevedo, é um dos homens mais ricos de Portugal. Esses três da vida airada detém um valor pessoal equivalente a 8,5% do PIB, Alexandre Soares dos Santos é regular e subservientemente ouvido no jornalismo económico. Os seus bitaites são recolhidos com unção pelos josegomesferreiras com o deslumbramento pacóvio que os distingue.

Na semana passada Alexandre Soares dos Santos foi à Sic Negócios (passe a publicidade a programa tão medíocre e manipulador) juntar a sua voz à algazarra que por aí se ouve contra as medidas do governo que tendem, com grande precaução reduzir o enorme fosso entre os ricos e os pobres de Portugal. País da União Europeia em que mais se tem agravado a distância entre os mais ricos e os mais pobres, em particular nos últimos quatro anos de governo PSD-CDS, o que coloca Portugal no ignominioso primeiro lugar dos países da EU em que os ricos são e estão  cada vez mais ricos e os pobres mais pobres. Para essa luminária “o governo de António Costa anda a comprar votos”, Não é mal dito por quem nas empresas do seu grupo e na Fundação Manuel dos Santos “compra” por atacado think tank’s à escala nacional, à direita e numa esquerda manhosa, que fazem lobying em seu proveito, Prática verificável no trânsito entre empresas privadas de todo o género e o aparelho de Estado, em que brilhava, mas nunca esteve sozinho, o Grupo Espírito Santo. Práticas usuais de empresas e empresários que vivem encostados e amparados pelo Estado enquanto fazem grande alarido propugnado menos Estado. Uma ópera buffa que se canta adrede nos cantos e recantos dos media.

Avisa contra os perigos do aumento das importações que o magro poder de compra agora recuperado, vai provocar. Também não é mal dito por quem tem no Pingo Doce o sexto maior importador nacional, atrás da Petrogal, Galp, Repsol, Volkswagen e SIVA e, entre os maiores grupos de distribuição do país, está na linha da frente dos que garrotam a produção nacional com práticas comerciais que asfixiam os produtores.

No fim faz uma profissão de patriotismo, exercício da maior hipocrisia e cinismo por quem deslocalizou para a Holanda a Sociedade Francisco Manuel dos Santos SGPS, SA, que concentra as acções através das quais a família Soares dos Santos controla empresas como o Pingo Doce, via Jerónimo Martins, para pagar menos impostos em Portugal. Isto apesar dessa mesma empresa ser a que mais tem recebido benefícios fiscais por parte do Estado, em particular do governo PSD-CDS,  o mesmo Estado que esmaga os portugueses com uma carga de impostos brutal. Os últimos números conhecidos cifram-se em 79 900 000 (setenta e nove milhões e novecentos mil euros) o equivalente a mais de 150 mil salários mínimos já actualizados.

São assim os nossos patrioteiros. Só lhe falta andar de bandeirinha na lapela. É assim talhada essa gente que range os dentes e conspira, ainda em surdina, mas de vozear crescente e com erupções fedorentas que a comunicação social estipendiada acolhe na sua cruzada contra o governo de centro esquerda do PS, de maioria de esquerda apoiado parlamentarmente pelo PCP, Bloco de Esquerda e PEV-Verdes.

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A BANCA JÁ É DO ESTADO

EUROS

Com o Banif em chamas, as questões relativas à banca em Portugal, ao Banco de Portugal e às moscambilhas, nesse sector em particular, do Governo Passos Coelho/ Paulo Portas voltam à ordem do dia.

Comece-se por uma curiosidade. Brada a rapaziada, sem idade nem sexo, da direita nacional contra o objectivo do PCP de nacionalização da banca. Num dos debates eleitorais Paulo Portas, arvorando aquele ar de xico-esperto vendedor de vigésimos premiados, calculava que as nacionalizações propostas pelo PCP custariam ao país cerca de vinte mil milhões de euros. Uma brutalidade para o erário público. Dizia isto com ar sério parecendo preocupado com o erário público. Dizia isto escondendo que o governo de que era vice-primeiro ministro entregou à banca 19,5 mil milhões de euros, o que equivale a que cada português tenha emprestado à banca, nos últimos anos,  1 950 euros, quase quatro salários mínimos!!! O equivalente a 11,3 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

Mesmo o mais que insuspeito Banco Central Europeu, liderado por Mário Draghi, critica particularmente a actuação das autoridades portuguesas por terem falhado na recuperação das ajudas, muitas delas injecções de dinheiro, disfarçadas de empréstimos por conta de activos bancários ilíquidos ou sem quase valor. O que a actual crise do Banif veio, mais uma vez, demonstrar em toda a sua brutalidade. Primeira coisa a reter é a vigarice do raciocínio e dos números de Paulo Portas e sequazes, o que de tão vulgar quase deixa de ser notícia, mas não deve ser deixado passar em claro porque esconde outra realidade.

Quando o PCP reclama a nacionalização da banca está a ser redundante. De facto, desde 2011 a banca já está de facto nacionalizada! A Caixa Geral de Depósitos, o único banco de facto nas mãos do Estado, recebeu um empréstimo de 900 milhões de euros e aumentou o seu capital, totalmente subscrito pelo Estado em 750 milhões de euros. Do empréstimo não devolveu um euro. O Banif recebeu 1 100 milhões de euros dos quais 700 milhões foram directos para o capital ficando o Estado com um pouco mais de 60% do capital, portanto ficou maioritário, mas deixou a administração na mão dos privados, e emprestou 400 milhões que anda por lá por paga e ninguém acredita que paguem.. No Novo Banco é o que se sabe 3 900 milhões do Estado de um Fundo de Resolução de 4 900, em que todos dizem sem o menor pingo de vergonha ir ser pagos pelos outros bancos que só entraram com 1 000 milhões. E dizer entrar é outra rábula já que o dinheiro dos bancos no Fundo de Resolução sai dos impostos que têm que pagar ao Estado. Vão ser precisos, a curto prazo, um mínimo de 1 500 milhões de euros. Já se sabe de onde virá esse dinheiro do Estado, de nós todos contribuintes o que vai fazer que os 1 950 euros que cada português emprestou até hoje à banca vá ultrapassar os 2 000 euros, e ainda não se sabe quanto vai custar a aventura do Banif. A todos esses milhões há que acrescentar 3 000 milhões emprestados ao BCP que já pagou metade, mas está em grossas dificuldades para pagar o que falta!  O único que pediu emprestadoe já pagou, foram 1 500 milhões,  foi o BPI.

Em resumo, como os bancos não pagam os chamados empréstimos, transformam-se esses empréstimos em capital. Com estas manobras a maioria da Banca portuguesa, dos maiores bancos nacionais, ainda está por se conhecer a verdadeira situação do Montepio, estão de facto nacionalizados! Finge-se é que não estão e deixa-se que o dinheiro dos contribuintes continue a alimentar as derivas privadas. Urgente é estancar essa sangria dos bens públicos para os privados! Assumir a realidade que é a do Estado ser hoje proprietário, dono, de mais de 40% do sistema bancário! Amanhã ou depois de amanhã essa quota vai aumentar, e não pouco, por via do Banif, do Novo Banco e de um aumento inevitável de capital na Caixa Geral de Depósitos.

É uma piada grossa dos vigaristas encartados do PSD, CDS e mais os inúmeros comentadores que agitam o espantalho da nacionalização da banca que o PCP diz querer e Bruxelas repudia. Andam a gozar com a malta! Chega de mentiras! As contas dessa gentalha está furada! Nacionalizar a banca tem custo zero! Só não é feita por principio ideológico.

Nota final. Seria bom saber quanto ganham os senhores administradores do Banif, os Tomés e Amados! Se calhar ainda ganharam prémios pelo trabalho (mal) feito! Pelo andar da carruagem desse outro vendedor da banha da cobra Sérgio Monteiro, 30 mil euros/mês, livre de impostos e custas da segurança social, deve ser uma conta calada sempre à nossa conta. Sem esquecer as vigarices do BPN, BPP, BES curiosamente tudo malta de direita, PSD, CDS e ainda a acoitada no PS. Será por acaso? Ah! Ah! Ah! Quem acredita nisso? As tecnoformas foram feitas para os treinar, moldar e encher os bolsos. Afinar o vício lógico argumentativo, torna-los em experimentados vigaristas com os truques de todos os vigaristas que se não são simpáticos e convictos não conseguem vigarizar e vender votos.

O que se deve exigir já é que devolvam a banca ao Estado! Ela já é de facto do Estado!

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Algo de Novo

RR Bandeira Vermelaa

Com a entrada em funções do XXI Governo Constitucional do PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV, a direita ficou desorientada porque vivia no conforto de julgar que pelo capitalismo actual se pensar definitivo, não fazia sentido a distinção entre direita e esquerda, pelo principio de a esquerda ter sido inapelavelmente encerrada num ghetto. Ou que a reivindicação de se ser de esquerda era uma bandeira empunhada por radicais que viviam fora da realidade, sendo a realidade confundida com as bases teóricas e práticas intransformáveis do capitalismo.

Ancorados nessa convicção, radicalizaram a exploração de todos os recursos fossem humanos, sociais, ambientais, culturais ou económicos com a fé totalitária de que os mecanismos do sistema capitalista ultrapassariam todas as crises em que se afunda. Não conseguiam, nem conseguem, nem conseguirão perceber que nenhuma realidade por mais hegemónica e aparentemente consistente que seja, como é o capitalismo na actualidade, pode ser considerada definitiva. Muito menos quando para o capitalismo terminal em que barbaramente tudo, a começar pelo ser humano, foi esvaziado de qualquer valor a não ser o seu valor de mercadoria. As chamadas reformas estruturais têm esse sentido e objectivo, o de desumanizar a sociedade tornando-a num gigantesco mecanismo de produção e reprodução de mercadorias, aumentando exponencialmente as desigualdades em nome do lucro. É essa a lógica intrínseca do sistema capitalista como se não estivesse dependente, na sua substância e de modo crucial de uma coisa chamada lei da queda tendencial da taxa de lucro, como Marx bem explicou, mas que essa turbamulta de publicistas económico-financeiros do capitalismo parece desconhecer, mesmo quando a sucessão de crises, com ciclos cada vez mais curtos e profundos, o demonstra à saciedade.

A fé, como bem se sabe é cega e estúpida, torna essa gente autista. O espectáculo do debate na Assembleia da República na apresentação do programa do XXI Governo Constitucional, foi a demonstração que a direita nunca perceberá que para a esquerda a realidade histórica do capitalismo tem um caracter contingente, mesmo dentro de um quadro em que o capitalismo continua a ser o sistema dominante. O que a torna incapaz de entender o funcionamento da democracia, da democracia burguesa sublinhe-se, cujos valores hipocritamente usam na lapela dos seus casacos de marca. Por isso não perceberam, nem nunca perceberão o alcance e o significado dos acordos que viabilizaram este governo. Não entendem, nem nunca conseguirão entender o que significa ser de esquerda no século XXI. Muito menos como a praxis teórico-política da esquerda arranca de princípios sólidos na legibilidade da realidade, para actuar sobre a transformação dessa realidade mesmo em bases mínimas, para por fim à aniquilação das pessoas e da sua individualidade. Por fim aos sistemáticos assaltos à nossa inteligência  à nossa vidae aos nossos bolsos.

Os acordos que viabilizaram parlamentarmente o XXI Governo Constitucional colocaram um travão a fundo ao rol dos desvarios mais insanos, das mentiras mais descaradas da direita em nome da sustentabilidade de um sistema de exploração brutal em benefício do grande capital. Foram quatro anos de assalto a todos os que tinham menos armas para se defender, os que estavam mais desmunidos, porque esta direita é rancorosa, não tem escrúpulos e é cobarde.

Também é estúpida, profundamente estúpida e por isso vivia na ilusão que o apartheid parlamentar era durável. Não tinha fim. A realidade ultrapassou-os. Atirou-os para onde sempre estiveram, no caixote de lixo da história. Daí não enxergam o valor simbólico dos acordos que a esquerda alcançou com o PS, para por um ponto final, melhor um ponto e vírgula ou mesmo uma vírgula,  no autoritarismo ideológico de que não havia alternativa. Havia, há e haverá sempre alternativas, isso distingue fundamente a esquerda da direita. Como essa alternativa ou essas alternativas vão funcionar é o centro de gravidade dos próximos tempos com uma certeza: a hegemonia de um sistema que dominou os últimos quarenta nos da vida política portuguesa acabou. Esse ficou definitivamente enterrado.

(na imagem pintura de Rogério Ribeiro/Elegia I/1989)

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25 Abril, 25 Novembro, António Costa, Álvaro Cunhal, BE, CDS, Govermo de Esquerda, Jerónimo de Sousa, Mário Soares, PCP, PEV, PS, PSD, Social Democracia, Terceira Via

A actualidade do Olhe que Não!

João Abel Manta Soares Cunhal

O universo internáutico foi invadido pela memória de um debate de 11 de Novembro de 1975 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares., que ficou na história do 25 de Abril com o registo da célebre frase “Olhe que não! Olhe que não!” 

Viviam-se tempos complexos. A contra revolução iniciada na hora seguinte ao 25 de Abril, caminhava triunfante. Camaleonicamente tinha muitas formas e aliados. Estendiam-se da extrema extrema esquerda à extrema extrema direita. Sucessos amplamente noticiadfos outros silenciados, erupções muito revolucionárias e outras muito reaccionários concorrendo para o mesmo objectivo. Oportunismos de vários jaez tanto à direita como à esquerda. Personagens com estatura e dignidade convivendo com escumalha inominável. Financiamentos inconfessáveis que continuam desconhecidos ou bem guardados em cofres de algumas instituições que afanosamente reescrevem a história. Boatos a dar com um pau. Um caldeirão de azeite fervente pronto a derramar-se na porta da história. Muito por contar, que, se calhar, nunca será contado. A contra revolução era um albergue espanhol manipulado por mãos mais invisísiveis ou mais vísiveis como a do amigo Carlucci, em que coexistiam as palavras de ordem mais revolucionárias com destaque para as dos educadores do povo, com as do do bem aventurado cónego Melo. As alianças contra revolucionárias não conheciam fronteiras, nem tinham qualquer ética. Nada de novo neste jardim à beira mar plantado.

O país vivia um clima de cortar à faca. No ar pairava um cheiro a pólvora pronto a explodir, prenunciando uma hipótese de guerra civil que se acontecesse , fosse ganha por quem fosse, acabaria inevitavelmente por uma vitória da direita mais revanchista, com os seus aliados democráticos que não desdenhariam na partilha dos despojos de receber as benesses que a volta do capital em força lhes proporcionariam, caso se tivesse chegado a esse extremo.

O debate foi longo, bastante interessante. Ficou marcado pela frase de Álvaro Cunhal “Olhe que não! Olhe que não! Ironizando com o seu humor inteligente as acusações que Mário Soares fazia de que o PCP queria impor uma ditadura contra as virtudes da democracia burguesa. A crítica de Álvaro Cunhal à democracia burguesa era sobre os efeitos que, nos termos em que Mário Soares a defendia, iria ter na frágil e historicamente recente situação social económica e política portuguesa. Simplificando, como a “democracia burguesa” iria corroer as conquistas de Abril. Os anos imediatamente seguintes e os que seguiram até hoje, bem o têm demonstrado. Quem honestamente na altura se opunha a Cunhal, hoje o reconhece. Curiosamente, mais que previsivelmente, foram sendo silenciados.

Soares sabia bem do que falava: Conhecia os interesses económicos que se acoitavam debaixo do seu manto de campeão de todas as liberdades e do socialismo em liberdade a bandeira que empunhava com o pundonor de super homem da rua da Betesga..

O que nesse debate ficou bem claro, que já  se advinhava, era uma situação explosiva a curto prazo que estava preparada e iria eclodir para fazer pender os pratos da balança política para a direita. Quanto penderiam é que, na altura, era uma incógnita.

O 25 de Novembro foi uma aventura militar bem montada. Se fosse uma séria tentativa de golpe de estado de esquerda, a esquerda não estaria desorganizada e sem voz de comando. Tudo estava  disperso por vários focos sem ligação entre si .Ao contrário, as forças contra revolucionárias estavam bem coordenadas e preparadas. Era uma evidência anunciada, bem vísivel em todos os sucessos que se multiplicavam sobretudo desde o comício da Alameda, mas vinham de longe, de muito longe. Se por hipótese, era uma real possibilidade, as forças de esquerda apesar da sua descoordenação,  levassem de vencida as forças contra revolucionárias, o caos ficaria instalado. Não basta conquistar o poder. Há que ter saber e ter força para o manter. O “olhe que não! olhe que não!” de Álvaro Cunhal traduzia, com a lucidez e inteligência política que o caracterizavam, essa incapacidade,

No debate, Mário Soares sabia do que estava a falar quando dramatizava histriónicamente um país dividido ao meio, à beira do abismo de uma guerra civil. Bem sabia o que se estava a tramar. Sabia do que falava, como antes, soube de todos os ataques à Revolução de Abril, nomeadamente o 11 de Março. Um parenteses, subsiste uma enorme curiosidade em se conhecer quem seria a voz que leria a proclamação de Spínola se o 11 de Março tivesse êxito. Se essa voz não se tivesse, pelas circunstâncias, calado, talvez mais uma ponta do véu se levantaria sobre a teia de cumplicidades que sustentavam o monóculo do general e quem com ele compartilhou as tramas da conspiração.

A história desses tempos está fragmentada e todos os dias é, de uma ou outra forma, detergentada, para apontar o dedo ao Partido Comunista Português como um inimigo da democracia. História que remonta aos tempos salazarentos e que ressurge, em vários tons e sons, ao longo do tempo. Agora, com a perspectiva de um governo PS com apoio parlamentar dp PCP reaparece em força.Há já quem não se exima em pedir de forma sonora ou sorna a sua interdição. Há por aí gente com os dentes de fora ou com sorrisos alvares que o fazem descaradamente nos palcos que lhes são oferecidos. É a democracia burguesa em funcionamento, com liberdade de controlar a seu bel-prazer os merios de comunicação social usando os seus porta vozes mais ou menos dotados e uma enorme legião de idiotas úteis.

Glosa-se o Olhe que não! com vários fins. Até Seixas da Costa não resiste á tentação, afinal porque haveria que resistir, do recurso à citação,  (“burguesa”, claro, como Cunhal não gostava mas que, como Churchill disse, é “a pior forma de de governo, com exceção de todas as outras”). A mesma democracia (“burguesa”, não é?) que hoje permite que o PCP possa ser chamado a ser parte da solução (I cross my fingers).

Será que António Costa já perguntou abertamente a Jerónimo de Sousa se o PCP vai, um destes dias, romper o acordo? E será que este lhe respondeu: “Olhe que não, olhe que não!”?

Graçolas  à parte, passando por cima do ser chamado,  não sendo cosmopolita como Seixas da Costa, também cruzo os dedos para que o PS e António Costa não rompam o acordo. Porque hoje como ontem o PCP sempre quis ser parte das soluções que melhorem efectivamente as condições de vida dos portugueses, o que durante estes anos de vigência da “democracia burguesa” têm sido brutalmente atacadas pelos ditames do capital a que o PS, metido o socialismo na gaveta, se tem submetido. Não venham conversas fiadas em que a conversa da treta da votação do PEC IV é a última e recorrente. Um pouco de seriedade intelectual, mesmo decência e alguma vergonha exigem-se.

Um problema grave, gravíssimo dos partidos do arco social democrata, tem na sua base a total perca de príncipios ideológicos que eram caros aos fundadores da social democracia. Para eles o funcionamento da democracia burguesa e os sistemas eleitorais, mesmo os que mais subvertem os votos expressos nas urnas com manigâncias pouco democráticas, era o campo de batalha da luta de classes por via pacífica. Os partidos socialistas, trabalhistas sociais-democratas, os autênticos não os travestidos como PSD português, vivem há dezenas anos essa crise. Tornaram-se máquinas de conquista de votos a qualquer preço. São máquinas ao serviço de interesses económicos que lhes dão apoio variável e conjuntural. A thachterização dos partidos do campo socialista é uma realidade que atingiu o seu climax com Tony Blair, no que foi seguido por muitos outros.São agentes das políticas neoliberais desse capitalismo terminal que invade todas as esferas do quotidiano. Alimentam-se do poder e por estar no poder.Ideologicamente são autofágicos até nada restar da ideologia. Olhe-se como os militantes e apoiantes mais destacados desses partidos se atropelam na distribuição de cargos governativos e na ocupação de lugares cimeiros no mundo do capital. Dos bancos às grandes empresas ou mesmo em coisas mais aparentemente inocentes  e politicamente falsamente neutras como as humanitárias e culturais. O trânsito é intenso, a ideologia foi para as urtigas. Essa gente, com emblemas partidários vsariegados, está mancomandada e vive alegremente à mesa do orçamento seja público ou privado e do muito que é privado suportado pelo público. Peça mestra nesse estado de coisas é essa enorme conquista da democracia burguesa que foi o sequestrar quase por inteiro do imaginário confiscando a cultura e a comunicação social. Estão lá todos, revezando-se no controlo do pensamento único para que nem sequer seja possível pensar que se pode pensar uma sociedade outra. Nesse ambiente de fraude comunicacional generelarizada dizer a verdade é um acto de resistência.

Esse é que é o real problema desses partidos que questões momentaneas, parcelares, locais ou universais acabam por trazer para primeiro plano, e que . por mais importantes que sejam,  tem andado a maquilhar para não ser seriamente discutida.. O que é muito do agrado dos opinadores aborigenesa que assim deixam de enfrentar os problemos fundamentais para se entreterem nas croniquetas parlapiando entre assises e costas, se estão mais de acordo com um ou com o outro, com as soluções governativas, dizendo que estão a discutir política para cobardemente não debaterem a questão de fundo, e que está realemente em causa  Fazem isso com contumácia sobre qualquer assunto, aqui ou no estrangeiro. O biombo é ler criticamente o mundo imediato limpo de direita ou esquerda, em nome do realismo e de uma suposta inteligência política que é a estupidez ideológica.

O que está a acontecer em Portugal, mais que haver ou não haver um governo com apoio maioritário de esquerda, é um reflexo do debate que atravessa os partidos da área social democrata e, essa é outra questão, o realinhamento à  direita dos partidos que se diziam do centro. Esperemos pelos próximos capítulos. O que está em causa é os partidos do campo social-democrata realinharem-se pelos seus príncipios originais, com tudo o que tempo histórico ensina, ou continuarem a ser apêndices e gerentes do capitalismo neo liberal, caminho bem conhecido. Já era conhecido mas foi consolidado por uma terceira via que triturou a social democracia.

Ao contrário do que escreve Seixas da Costa, no estado actual que se vive em Portugal, o que se espera é que António Costa diga “Olhe que não! Olhe que não!” a todos os que querem e desejam, aos gritos ou em surdina, que o PS vire à direita, prosseguindo políticas com quarenta anos de idade. Que na primeira curva das enormes dificuldades que irá enfrentar não rompa os compromissos com o PCP, o BE e o PEV, dizendo “Olhe que não! olhe que não!” a todos os que esperam existir um pretexto para o fazer.

Uma enorme e funda diferença com o que têm sido as práticas do Partido Socialista desde a falida primavera marcelista

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BE, Cavaco Silva, CDS, Maioria de Esquerda, Passos Coelho, paulo Portas, PCP, PS, PSD

A Direita em Transe

cartoon de João Abel Manta

Cartoon de João Abel Manta

É um exercício curioso, bastante elucidativo, ler os opinadores e jornalistas assustados com a perspectiva e um governo de esquerda. Não os comentários trogloditas, que percorrem a pauta toda do mel ao fel, que acabam por verberar alacremente com o que consideram ser um golpe de estado. Dos vascos correia guedes aos raposos, dos avilezes aos monteiros, a bebedeira contra a hipótese de um governo PS com acordo parlamentar PCP e BE faz saltar as tampas da cabecinhas.

Não esses, mas os outros, senhores de grande ciência económico-financeira que subitamente descobrem os riscos de uma maioria de esquerda porque a recuperação das finanças públicas não foi feita, porque a previsão do crescimento económico é uma miragem, porque a banca está descapitalizada, porque a fuga de capitais se irá agravar, porque o défice afinal é superior ao previsto pelo governo PSD-CDS, porque a situação internacional piorou, porque as reformas estruturais, seja lá o que isso for, não se fizeram. O rol é extenso e quase só lhes falta dizer que afinal estávamos na bancarrota, mas por lá continuamos apesar da violenta austeridade a que Portugal foi submetido pelo governo de direita, bom aluno, mas, pelos resultados referidos por essa sumidades, aluno estúpido da troika.  Em suma, com a fúria que lhes assalta as almas contra a hipótese de um governo de maioria parlamentar de esquerda, nem se apercebem que passam um atestado de incompetência ao governo dos partidos que ficaram em minoria na Assembleia da República. A sua ira é tal que nem reparam que estão a dar razão a António Costa quando disse que nas reuniões que manteve com a coligação PaF, ia conhecendo desagradáveis surpresas. Não as elencou, mas, pela amostra da devolução da sobretaxa sobre o IRS, tão trombeteada, pela dupla Passos-Portas e seus sequazes, que, durante a campanha eleitoral, era de 50% e nos dias a seguir às eleições minguou para 3,5%, as contas públicas devem ter sido bem marteladas para construir os cenários de recuperação económica, com requintes que fariam inveja ao almirante Pontemkin.

Devem ser esses cenários construídos por pantomineiros encartados, que a voz que veio das profundezas do Poço de Boliqueime considera ser de “consolidar”, “prosseguir”, “preservar”, “não regredir”, chavões que repetiu à exaustão em nome “dos superiores interesses da nação”. O que devia causar escândalo vindo de quem vem e da seita que apoia que contumazmente violam a Constituição.

Tudo isso seria uma tragicomédia, de um género La Feria mais rasca, se não fosse extremamente grave, o que certamente irá colocar problemas acrescidos a um governo de maioria parlamentar de esquerda, além dos que vai enfrentar pelos constrangimentos impostos pelo tecno burocratas da União Europeia, mandaretes da finança internacional.

Apesar dessas evidências um governo apoiado pelos partidos de esquerda na Assebleia da República é uma urgência para um país que, durante quatro anos, foi destruído, vendido a retalho, que perdeu quqlquer dignidade. País que regrediu dezenas de anos social, política e economicamente. Há que dar a volta a essa dura realidade, a que já se conhece e a que se vai conhecer a curto prazo

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António Costa, BE, Catarina Martins, Coligação de Direita, Copmunicação Social, Critérios Jornalisticos, Eleições Legislativas 2015, Independência da Comunicação Social, Jerónimo de Sousa, PCP, Poder Económico, PS, Rigor Jornalístico

Acudam! Acudam que o arco governativo está em risco!

arame farpado

Durante anos, dezenas de anos, culpava-se o PCP pela má imprensa, leia-se comunicação social, que tinha. Antiquado, anquilosado não percebia a vibração mediática pós-moderna que lustrava os media. O ghetto para onde o atiravam, era culpa do PCP que não percebia o que eram as novas exigências dos critérios jornalísticos, do pluralismo informativo. Pode ter havido inabilidades por parte do PCP. Houve, há e haverá, mas nada justifica o silêncio, a menorização ou a deturpação de posições e iniciativas do PCP que desde sempre foram sistemática, deliberada e contumazmente ostracizadas e trituradas pelos celebrados critérios jornalísticos.

Aparece o Bloco Esquerda, modernaço, políticos e políticas desempoeiradas, juventude em marcha na movida política, mesmo se muitos já não fossem assim tão cronologicamente jovens. Um clima arejado, um mainstream primaveril estabeleceu-se entre a comunicação social e o Bloco Esquerda, que mesmo antes de formalmente existir já estava embrulhado em boas manchetes. O Bloco, sem precisar de bater à porta, entrava nos salões, salas e saletas dos media para alegres e celebrados convívios.

Com essas danças e contradanças o pluralismo informativo pavoneava as suas penas arco-íris, enquanto paulatinamente ia afastando gente de esquerda dos seus quadros, fossem jornalistas ou comentadores. Iam ficando alguns para atenuar o mau cheiro progressivamente mais intenso.

O palco estava montado para dar credibilidade aos actores que sentenciavam sobre Portugal, os arredores, o mundo. Tudo corria bem na festança informativa até rebentar a bomba dos resultados das últimas eleições legislativas onde se desenhou a hipótese de haver um governo de esquerda suportado por uma maioria dos deputados eleitos, frente a uma coligação de direita minoritária. Os alarmes dispararam. Isto era tudo muito bonito e andava nos carris dos melhores dos mundos se o eixo político estivesse sempre na direita, rodando mais para a direita ou mais para a esquerda. Agora deslocar-se para a esquerda é que é insuportável. Da comunicação social mais rasca à mais sofisticada os tambores rufaram. Estala o verniz. O pluralismo informativo é atirado para as urtigas. A manipulação faz-se com despudor. Nenhum vício lógico os trava.

O PCP continua, com ligeiras variantes, no destratamento do costume. Lá concederam durante a campanha eleitoral que o Jerónimo era simpático, já sem se lembrarem do que disseram dele quando foi eleito secretário geral do PCP, na primeira linha alguns brilhantes jornalistas afectos à esquerda. Virados os resultados eleitorais, com o PCP a declarar a sua disposição em viabilizar um governo de esquerda, voltam a vestir ao Jerónimo a pele estalinista, de chefe de um bando de esfomeados comedores de crianças.

O Bloco de Esquerda é outra grande chatice. Andaram com a rapaziada ao colo, primeiro porque pensaram que ia tramar o PCP. Erraram estrondosamente. Depois porque pensaram que o BE roubaria os votos suficientes ao PS, para o PS ser derrotado e a direita ficar, mesmo que pela tangente, em maioria. Era o quadro das últimas eleições legislativas.A cobertura da campanha eleitoral foi toda ela vergonhosa. Brutos ou sonsos, os bonecreiros da comunicação social fizeram os possíveis e os impossíveis para a direita ganhar. Quando o BE, na esteira do PCP, também se declara disposto a viabilizar um governo PS, a casa vai abaixo.  A Catarina, a grande revelação da campanha eleitoral, que disse isso claramente no debate que teve com António Costa, perfila-se como uma perigosa assaltante da natureza do sistema e do repouso que havia à sombra do arco governativo.. Não querem lá ver a catraia, já se dá ares de Jerónimo! Perdem a cabeça. Só falta dizer que Bonnie e Clyde, mesmo sem terem ainda falado um com o outro, andam a assaltar bancos e a semear o pânico. na bolsa e nos mercados, enquanto abrem caminho a António Costa, um perigoso esquerdista, como alguns, não poucos, camaradas de partido esclarecem nos media que dão largo tempo de antena a essas cassandras sejam lellos ou assis.

Dos pasquins ao jornalismo dito de referência o vulcão entrou em actividade, derramando a lava das evidências: o pluralismo informativo, o rigor jornalístico é uma ficção! Os meios de comunicação social não têm qualquer independência em relação ao poder do capital. São uma tropa fandanga de mercenários que, com maior ou menor habilidade e talento, estão ao serviço dos poderes económicos e dos poderes políticos sujeitos a esses poderes económicos.

Bastou no horizonte esboçar.se a vaga sombra de um governo de esquerda para as marionetas começarem a festa! O cair de as máscaras ser uma desbunda tonitruante! O jornalismo nunca foi um paraíso imaculado, povoado por virtuosas virgens, esquadrões de amazonas (de todos os sexos entenda-se) de espada desembainhada  à procura da verdade. A grande evidência neste lavar de cestos eleitorais é que não há qualquer liberdade imformativa. São um polifónico coro  da voz dono. Pensam, escrevem, falam todos o mesmo com variações meramente formais.das mais primárias às mais elaboradas.. Todo o universo da comunicação social está contaminado e alinhado à direita. Já dispensam as encenações, as gesticulações de esquerda que alguns faziam para simular diversidade editorial e de opinião. Restam uns jornalistas que dentro desses campos de concentração onde se incinera diariamente o que resta da isenção e do rigor informativo resistem e vão, legitimamente, sobrevivendo. Plantam umas flores no meio do pântano. São cada vez mais raras.

O que é extraordinário, mesmo inquietante, é ver, ouvir e ler pessoas de esquerda que se sentem enganadas, quase traídas por essa comunicação social. Indignam-se. Será bom que além de se indignar percebam o que já deviam ter percebido há muito tempo para lerem todas as notícias com redobrada atenção, o que lhes evita futuras surpresas e a formulação de juízos erróneos sobre outros assuntos candentes. O crivo que filtra as notícias sobre o momento político que se vive em Portugal é o mesmo que é aplicado ao restante noticiário económico, internacional, cultural. O sobressalto e o estupor provocado pela dimensão e vigor dessa barragem noticiosa deve ser um alerta para a gigantesca fraude universal montada através da comunicação social para moldar as nossas opiniões, apoderar-se da nossa consciência política, da nossa capacidade crítica, da possibilidade de termos um pensamento independente do que é imposto pelo governo invisível do poder económico. É assim, que muitas vezes estamos a julgar pensar pelas nossas cabeças e estamos a pensar o que eles querem que pensemos, por estarmos intoxicados pela manipulação mediática, pelas mentiras que mesmo as verdades induzem. Uma teia altamente sofisticada e complexa onde nos querem prender. Tenhamos consciência que a escravidão mental está a ser implementada a alta velocidade.

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Alternância, Cavaco Silva, CDS, Eleições Legislativas 2015, Galo de Barcelos, Geral, Para a Frente Portugal, Passos Coelho, paulo Portas, PS, PSD

O País Real

Pais REAL

Hoje, 5 de Outubro, Dia da implantação da República Portugal desperta com uma nova Assembleia da República onde existe uma inútil maioria de esquerda. Isto aceitando que o Partido Socialista é de esquerda contra a opinião de muitos ilustríssimos militantes e simpatizantes do PS aflitíssimos por o PS se ter esquerdizado na campanha eleitoral! Gente que se diz socialista, mas que perderam qualquer horizonte ideológico. São admiradores do trabalhismo thatcheriano do Tony Blair! O PS esquerdizou-se?Ninguém deu ou acreditou nisso, mesmo aqueles que, cheios de boa vontade e ilusões, foram dar o seu voto (in)útil ao PS para combater os traficantes de direita que nos desgovernam há quatro anos.

A comunicação social continua mercenariamente ao serviço do poder económico que os paga e compra para isso mesmo, sustentar a direita, adubar o pensamento único, nas suas variantes, das mais broncas, género José Gomes Ferreiras, Joões Césares das Neves, Migueis Tavares & Companhia, aos mais envernizados Henrique Monteiros, Carlos Andrades, Ricardos Costas SA. Explicam-nos o que é o País Real, aquele país que eles empenhadamente constroem linha a linha , imagem a imagem, comentário a comentário para que não se saía da cepa torta e o capital continue a ganhar à tripa forra!

É o País Real ! O País Real que todos os dias é fabricado pelas Teresas Guilhermes, Gouchas, Júlias Pinheiros, o sem fim de famosos que ocupam despudoradamente o território e em que decidi mergulhar fazendo zapping entre o Você na Tvi, A Querida Manhã e o Bom Dia Portugal! Como é deslumbrante ver o meu querido país a desfilar no seu máximo esplendor! Durante a tarde não perderei nem uma gota da Grande Tarde, A Tarde é Sua, A Praça e o que mais houver para acabar o dia em beleza, à noite a ver os comentários futeboleiros. Um dia em cheio para comemorar a vitória dos farsantes direitinhas que vão ser embalados nos bracinhos da múmia paralítica que habita em Belém. Estou a ficar um fã do meu Portugalito, querida Joana quando fazes um embrulho em croché desse magno ícone para o universo e arredores o colocar em altar sanitário? O Xavier subsidia-te o trabalho!!! É a koltura em marcha!!!

Vou comprar um cachecol das claques do País Real alumbrado com a elevação com que decorreu o acto eleitoral!

Vou berrar aos quatro ventos, com o auxílio do Cesariny, os seus assinalados slogans: Lá vai o povo toma lá o pé! Lá votou o povo dá cá o pé! Burgessos somos nós todos ratos e gatos, burgessos ou ainda menos!!!

DESENGANEM-SE!!! CONTRA TODAS ESTAS EVIDÊNCIAS A LUTA CONTINUA!!!

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Álvaro Cunhal, Política, PS

Alegre no reino da coerência

 

«Ao passado, mais concretamente às presidenciais de 1986, Alegre foi ainda buscar uma “lição para reflexão”: “Queria citar o exemplo de Álvaro Cunhal, com quem tivemos grandes divergências ideológicas. Mas ele nunca se esqueceu que há uma fronteira entre esquerda e direita. Teve a lucidez e a coragem política de convocar um congresso extraordinário para lançar a palavra de ordem: contra a candidatura da direita, vota Soares”».

Não foi este Alegre que nas Presidenciais de 2006, certamente em nome da unidade do seu PS, concorreu como candidato indpendente contra Soares, apoiado pelo PS?

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Alternância, capitalismo, Eleições Legislativas 2015, Política, PS, PSD, Voto Útil

Para o capital tanto faz

mr-shark

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«Seja a coligação ou o PS a ganhar as eleições, para os empresários “não fará diferença”»

Para os grandes interesses económicos todo o voto no PS ou na coligação PSD-CDS é um voto útil.

E eles lá sabem porquê…

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Alternância, António Costa, Arco da Governação, CDS, Comunicação Social, Eleições Legislativas 2015, Oliveira da Figueira, Passos Coelho, paulo Portas, Política, PS, PSD, Voto Útil

As Eleições/Os Oliveiras da Figueira

oliveira da figueira 3

Com eleições à porta multiplicam-se os Oliveiras da Figueira nos partidos do chamado arco da governação.

O ataque é dirigido àquilo a que chamam o eleitorado do centro e aos indecisos. O fitoplanton desses partidos que perderam ideologia e tem por único objectivo a caça ao voto para pôr em prática políticas ao serviço dos poderes económicos que lhes dão apoio variável. As diferenças são de pormenor. Lêem a mesma pauta com andamentos e tempos diferentes. Pauta que sem pudor desdobram sobre Portugal vendendo, como treinados Oliveiras da Figueira, o manto diáfano do realismo e da moderação que é aceitar, sem uma ruga de dúvida, o que a Europa Connosco impõe pela mão de ferro, tapada quando necessário por luvas de veludo, da Sra Merkel, a figurona agora de serviço a abrir as portas ao grande capital. É o território pantanoso da grande mistificação que tem sido construída com contumácia, há que reconhecer com eficácia, pelos poderes instituídos suportados por uma comunicação social estipendiada que nos assalta á mão armada em cada notícia, em cada comentário, em cada editorial. Uma teia de aranha poderosa que não deixa nenhum fio ao acaso para construir um imaginário situacionista em conformidade com um modelo de democracia em que as pessoas, o colectivo e a individualidade das pessoas, se afunda sem horizonte nem dignidade. Para esses figurantes da política actual, a democracia deixou mesmo de ser o palco da luta de classes pacífica, como preconizavam os sociais democratas revendo as teorias marxistas, renunciando à revolução. É o campo de tiro da caça ao voto. Eles os Oliveiras da Figueira vendem-no a qualquer preço, oferecendo brindes, cada cor seu paladar, para que tudo continue na mesma.

Oliveira da Figeuira1

A máquina está oleada, em pleno funcionamento para que a anormalidade da normalidade da situação que se vive não seja posta em causa. Assistimos a um primeiro grande momento desse teatro de sombras com o Debate Histórico, no dizer de um dos bonecreiros de serviço, das próximas eleições legislativas Para quem tem os olhos abertos não eram dois, eram cinco os figurões: os actuais chefes de fila dos partidos do chamado arco da governação e os três jornalistas de grupos mediáticos ditos de referência. Marionetas do sistema político-propagandístico do sistema que quer fazer com que as pessoas acreditem que não há escolha fora do quadro institucionalizado. Que o voto útil é o voto inútil porque nada altera de substantivo numa política de submissão aos ditâmes de Bruxelas, aos secretários políticos e grumetes tecnocratas do capitalismo tardio, às suas políticas de austeridades e desigualdades. Diferenças existem, claro que existem na forma, na velocidade, no pormenor, na simulação com que essas políticas vão ser praticadas. Em tudo o que é insuficiente para que se mude de vida.

Os próximos números já estão ensaiados, já foram mostrados os trailers. De um lado acenar as bandeiras de uma volta ao passado próximo que é o nosso presente num cenário diferente. Do outro cantar o fado do desgraçadinho, entalado entre a direita e a esquerda, só faz o quer fazer por estar orgulhosamente só. Vai ser um (des)concerto de ruído político-propagandístico, uma caravana de Oliveiras da Figueira, agentes das mesmas políticas ainda que tenham fardas diferentes, a procurarem ocupar todos os espaços possíveis para vender quinquilharias que enfeitam mas não alteram a vida das pessoas.

oliveira da figueira2

Esquecem-se, não lhes interessa ver nem saber que apesar e contra tudo, mesmo as próprias evidências, contra esta nova inquisição mutinacional, globalizadada que quer impedir, anular mesmo a possibilidade de se pensar que é possível pensar na transformação da vida, o mundo E pur si muove!

Há que votar de olhos bem abertos para não continuar a viver mais do mesmo, qualquer seja esse mesmo!

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música, Política, PS

Congresso do PSempre ao sabor da corrente

PS

Parece que no fim-de-semana passado realizou-se um Congresso do PS.

Não consta que tivesse havido grandes novidades e a grande dúvida não residia em questões programáticas, mas antes se algum congressista diria o nome daquele cujo nome não pode ser pronunciado e que, aqui entre nós que ninguém nos ouve, se chama Sócrates. 

Assim, a grande surpresa do Congresso do PS foi a súbita paixão pelo Cante Alentejano e a sua classificação como Património Mundial.

CIMBAL

Mais vale tarde do que nunca, sejam bem-vindos!

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CDS, Geral, justiça, PS, PSD

O GRANDE GUIGNOL DA JUSTIÇA,NUM PAÍS QUE É UMA DEMOCRÁTICA CHOLDRA

lata de atum

carcaça

 

Um sem-abrigo cheio de fome que rouba uma lata de atum e uma carcaça num supermercado, num valor total que não chega a um euro, é preso sem direito a caução e vai dormir nas enxovias da cadeia.

Um figurão, arguido pelos crimes de burla, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, vai para casa dormir em lençóis de seda com uma caução de € 3 000 000,00 (três milhões de euros), proibição de se ausentar do território nacional, proibição de falar com determinadas pessoas.

Que crime vale uma caução de três milhões de euros? Onde é que o arguido sacou três milhões de euros para pagar a caução? Grande guignol da justiça para fingir que ninguém esta acima da lei.

Isto não é um país é uma choldra democrática em que os ricaços, apanhados numa curva onde derraparam movidos por extrema ganância, continuam a ser ricaços defendidos por advogados, no caso tal filho tal pai, pagos a preço de ouro do bandido que os mantém a navegar por cima das ondas da lei feita à medida de quem tem poder económico. Todos bem sabemos que entre a justiça e a lei há um abismo e que a lei é o direito do mais forte à liberdade.

Esta é mais uma história da  lusitana Nau Catrineta, que ainda tem muito que contar, do chefe da famiglia Espírito Santo, Salgados e Ricciardis, que continuam alegremente em liberdade rebolando-se nos milhões que durante anos roubaram legal, alegal e ilegalmente como se vai sabendo, acalantados pelos partidos do chamado arco governativo que organizaram e mantém este sistema político-económico que permite escandalosas acumulações de capital e que, durante quase quarenta anos, até hoje, até amanhã, enquanto os deixarmos continuam a governar.

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economia, Geral, justiça, Media, Passos Coelho, paulo Portas, Política, PS, PSD, troika

O grande circo do banco espírito santo

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É isso mesmo que reprovo.
Não há nada mais imoral do que roubar sem riscos.
É o risco que nos diferencia dos banqueiros
e seus émulos que praticam o roubo legalizado
com a cobertura dos governos.
Albert Cossery in As Cores da Infâmia
-edições Antígona, ano 2000
BES

1-O CIRCO POLÍTICO

Passos Coelho diz com o ar solene do costume, para dar credibilidade às fanfarronadas, charlatanices, lapalissadas de político de meia tijela, que “cada vez mais os bancos olham ao mérito dos projectos e aqueles que não olham pagam um preço por isso. As empresas que olham mais aos amigos do que à competência pagam um preço por isso, mas esse preço não pode ser imposto à sociedade como um todo e muito menos aos contribuintes”. Está a gozar com todos nós!!! Os 300 milhões que a CGD emprestou ao BES foi pelo mérito dos projectos? E os 900 milhões da PT ao GES foi pelo mérito dos projectos? E o Estado que tem descaradamente beneficiado a famiglia Espirito Santo desde que esta começou a reconstituir os tentáculos do polvo? Foi pelo mérito dos projectos? E o trânsito entre quadros do grupo Espírito Santo e o aparelho de estado e os partidos do chamado arco governativo? Foi para beneficiar o Estado? Para colocar os partidos mais próximos da realidade? Foi por mérito desses quadros? Ou foi para garantir e ampliar a influência da “famiglia” espírito do santo nos destinos do país a seu favor? Apesar de não terem um pingo de vergonha, pelo menos fechem a carcela!
Paulo Portas, um técnico de vendas com a escola toda, mestrados e doutoramentos adquiridos em anos de frequência das feiras, alinha várias alarvidades, com o ar sério de vendedor de vigésimos premiados, com o cuidado de não se referir aos amigos espíritos santos, ai Portucale, Portucale!«os portugueses já pagaram muito caro erros do sistema financeiro», defende «economia de mercado com responsabilidade ética (…) nós não acreditamos no Estado como produtor de riqueza e temos receio do Estado como produtor de dívida, mas queremos um Estado que seja um regulador forte e um supervisor eficiente».
Como se ética e mercado tivessem alguma vez andado de braço dado. Como se não fosse o Estado a vaca onde toda essa gente mama, acarinhada por Portas&Comparsas.
Desde que começou o folhetim do Grupo Espírito Santo. Passos Coelho e Paulo Portas tinham toda a confiança no que “já foi dito pelo senhor doutor Ricardo Salgado” e assumiam “todo o respeito” pelas questões internas de um grupo privado. Esses dois e a camarilha dos governantes são os mesmos que sacaram milhares de milhões de euros a pensionistas, a desempregados e a trabalhadores no activo para tapar roubos e buracos de negócios desastrosos feitos por entidades privadas que eles tanto respeitam. A história repete-se e é cada vez mais sinistra.
Por fim, António José Seguro diz que está menos preocupado com a situação do BES depois da reunião que teve com o Governador do Banco de Portugal. Diz que, como líder do PS, “recolheu informações que lhe garantem que os portugueses podem estar tranquilos”. O gajo é parvo? Queria que o Governador do Banco de Portugal lhe dissesse que aquilo é uma choldra que andou a gamar à tripa forra? Que ainda não se sabe quantos milhares de milhões vão ser necessários para tapar o buracão?
Esses três da vida airada mentem, sabem muito bem que vão ser os contribuintes a pagar com língua de palmo a roubalheira. Que o BES mais cedo ou mais tarde, com nova ou velha administração, perdida ou reciclada a confiança dos mercados, vai ao saco dos seis mil milhões de euros do empréstimo total feito na base do Pacto de Agressão, que continuam guardados para salvar os bancos e que deveriam ser utilizados para promover a economia. Que quem paga a factura da troika somos nós enquanto as grandes fortunas, os especuladores, continuam a ser poupados.
Esses três da vida airada, mais os que os antecederam são das famílias políticas e do sistema político que permitiu que em trinta anos o Grupo Espírito Santo, com golpadas conhecidas e, pelos vistos, desconhecidas, todas muito éticas, sejam legais, alegais ou ilegais, acumulasse:

  • 7.000.000.000.000 de euros
  • 200.000.000 de euros em cada ano
  • 17.000.000 em cada mês
  • 550.000 em cada dia
  • 24.000 em cada hora

Claro que o problema não é do grupo Espírito Santo é da natureza do sistema e dos políticos e dos partidos que o sustentam, os tais que o Cavaco quer ver concertados, que permite sucessos e insucessos deste jaez. Leia-se o post “Pobrezinho Sim, Honesto Nunca”, aqui publicado em 2010, sobre Ricardo Salgado, antes de conhecidos os actuai lances.

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2- O CIRCO PRIVADO DO GOVERNADOR

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal tem sido muito elogiado pela claque do costume, pela forma sagaz com que tem tratado o caso do Grupo Espírito Santo. Outra coisa não seria de esperar dessa gente que empapa os órgãos de comunicação social com comentários e notícias que são uma roda dentada importante no movimento do sistema em que pontificam os doutores e doutorecos fonsecas & burnays dos Espíritos Santos e congéneres.
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal, que só actuou quando se sentiu entalado entre a espada e a parede e não lhe restou outra alternativa senão intervir?
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal que pactua com gente que manipula contabilidades para esconder défices de milhares de milhões? Gente que inscreve nos seus activos acções representando ficticiamente milhares de milhões que de facto só valem 10% ou menos? Que, segundo os jornais, atribui idoneidade a troco de um espirito santo mais renitente sair da administração do BES? Que não considera grave um presidente de uma instituição bancária receber luvas de dezenas de milhões de euros de um construtor civil mal cheiroso, o que noutros países daria direito a ser preso, a ser levado algemado para a prisão, em directo e a cores? Que permite que os espíritos santos, sejam salgados ou ricciardis, se preparem para inventar e entrar num Conselho Estratégico, para continuarem a ter um comando à distância no BES? Apesar de Ricardo Salgado já ter nos novos membros do CA, pelo menos alguém que andou com ele de braço dado num virote para salvar os Espíritos Santos do abismo para que parecem caminhar, com os bolsos a abarrotar de maravedis. Alguém avalizado pelo novo presidente do CA do BES e pelo governador do BdP. Tudo gente que frequenta os mesmos salões, sejam eles restaurantes, academias, ginásios, cabeleireiros ou casas de meninas com profissão mais antiga mas de princípios mais sólidos. Gente que nunca se perde no paraíso que é o Portugalito, debaixo das asas do galo de Barcelos que debica as migalhas que os grandes grupos económicos despejam nos pátios das traseiras dos partidos que nos têm governado há quase quarenta anos.

 

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3-O CIRCO DOS BONS RAPAZES

Enquanto a galinha punha hora a hora e pontualmente ovos de ouro, a famiglia espírito santo, seguia em manada o padrinho, embalada pelo tilintar da dinheirama derramada nos seus bolsos pelas cornucópias que durante dezenas de anos multiplicavam rios de maravedis com múltiplas actividades ilegais, desde a fraude fiscal à falsificação de contabilidade, a utilização do dinheiro dos depositantes em benefício dos próprios, a intensa promiscuidade entre os banqueiros e o poder político. Não uma árvore, uma floresta de árvores das patacas.
Era um pagode apesar dos problemas judiciais por práticas ilícitas em múltiplas praças que não a nacional, à sombra da sonolência que invade os gabinetes do BdP, apesar dos sobressaltos BCP, BPN, BPP, Banif. Porque há que respeitar e ter confiança na actividade privada bancária, nos seus senhores e senhoritos.
Os problemas começaram com a guerrilha pública na famiglia. Um turco mais jovem queria substituir o Padrinho. Já não lhes respeitavam os assobios e os chitos como antigamente. Estava a falhar à generalizada e santa ganância. Os golpes não tinham a mesma eficácia. Não estavam a render o esperado, embora toda a famiglia bem se esforçasse em manipulações sofisticadas que não estavam a resultar tão bem como no passado recente. O dinheiro que lhes entrava em cascata nas suas contas bancárias, nos seus bolsos já não lhes satisfazia a desmedida cupidez. Eram tão felizes na candonga financeira, a falsificarem contabilidades, a fazer transacções fictícias entre o labirinto de empresas dominadas pela famiglia, a vender gato por lebre aos seus depositantes, investidores, crentes no espírito santo e agora só chatices…bagunças…
Até o governador do BdP, apesar da reputação da Famiglia, se deu ao luxo de não querer espíritos santos na administração do banco para lhes salvar o banco! Tudo bons rapazes que vão continuar a gozar com o muito de que se apropriaram sem produzir nada! O crime compensa !!!

 

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4- O CIRCO DO RISCO SISTÉMICO
Num país em que um ministro da saúde está a destruir o Serviço Nacional de Saúde sem se deter, mesmo quando põe em risco a vida dos portugueses, eis que surge essa inventiva e maravilhosa frase recuperada dos manuais de sanidade: o risco sistémico.
Aliás se existe área em que a finança é altamente criativa é na invenção da linguagem. Os gurus, mesmo os nobelizados. falham sistematicamente as previsões, enquanto inventam conceitos para baralhar e voltar a dar o mesmo. Algumas são verdadeiras pérolas. Engenharia financeira, um guarda-chuva de todas as especulações financeiras. Crescimento negativo para não dizer que está tudo a ir água abaixo. Imparidades, defaults, contabilidade criativa sei lá mais o quê, um teatro de vozes que alimenta a vigarice intelectual.
Uma das últimas, o risco sistémico. À pala do risco sistémico os estados têm sustentado a voracidade e a falência sucessiva do sistema financeiro. Como se o sistema financeiro fosse o motor do desenvolvimento económico. O coração insubstituível do sistema económico.
É a grande mentira!
Os mercados financeiros não produzem, nunca produziram nem nunca produzirão nada! É a economia real que o faz. Andar atrás do brilho da montagem russa dos mercados financeiros é um erro. A exuberância dos mercados financeiros é uma ficção. Limita-se, na melhor das hipóteses, a ser um reflexo da base real na qual assentam, da qual extraem a riqueza, sem produzirem nada. Especulam. Especulam sempre na margem do roubo legalizado e organizado. Ultrapassam essas porosas fronteiras. Geram bolhas, outra maravilha linguística, que rebentam de forma súbita, descoordenada, como estamos a assistir no BES.. Os efeitos vêm sempre em catadupa, com falências, desemprego massivo, redução de salários, de protecção social, de direitos fundamentais dos cidadãos. Sofrem os países mais pobres e com economias mais frágeis, como o nosso.
Os portugueses estão hoje bem mais pobres e desprotegidos e com uma economia muito menos capaz de responder do que há quatro anos. Os festejos que Passos Coelho, Portas e seus correligionários andam a fazer, é um tenebroso circo.
O povo nunca ganha quando os títulos ou as acções são transaccionados por valores muito superiores ao seu valor real. Ganham, com toda a certeza, os accionistas dos grupos económicos e financeiros cotados em bolsa, mas esse ganho não resulta da exploração das actividades concretas desses grupos.
A ganância e a loucura política que hoje dominam foram e são trágicas para milhões de pessoas. Há, a nível mundial, criminosas negociações, desenvolvido à socapa por governantes e tecnocratas ao serviço das grandes multinacionais, que não apenas procuram erodir ainda mais a regulação financeira, como transformar em meros produtos de mercado os recursos essenciais à vida das pessoas.
Este é o verdadeiro risco sistémico que se pretende iludir quando um bando que andou anos a banquetear-se lautamente é vítima da sua própria ganância. Do muito que ganharam e que por acaso infeliz, por um erro de cálculo se estampou.

Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal
(…) a primeira é que o mundo em que vivemos
é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes
(…) a segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério;
é isso que eles querem, que os levemos a sério
Albert Cossery, A Violência e o Escárnio
Edições Antígona 1999

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