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Síria e as Dores Humanitárias – Um Sermão aos Peixes

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Andam no Facebook e nos blogues uns idiotas, alguns julgam-se inteligentes, que se masturbam alegremente vertendo lágrimas pelo pobre povo sírio, cuspindo sobre quem, com um rasto de racionalidade, desmonta as cabalas contra o exército sírio e seus aliados que só tem por único objectivo atrasar as batalhas contra a Al-Qaeda seus heterónimos e uns improváveis rebeldes enquadrados pelos terroristas. Compram as últimas novidades no supermercado da comunicação social estipendiada dos conglomerados gigantes dos media que pertencem ao poder oligopólico dos Murdoch, Times Warner/CNN, Viacom, Disney/ABC, TCI(Tele-Communications, Inc), Sony, Bertelsmann, mais uns regionais como Rede Globo no Brasil, Berlusconi na Itália, Televisa no México, que tecem uma teia universal de interesses cruzados que mesmo quando fingem concorrer entre eles estão a concorrer para que o pensamento único não sofra nem sequer cócegas. A eles se juntam uma girândola de ONG’s que trabalham para a agenda secreta dos EUA, a evidente está nos relatórios de geostratégia, (nem a leram! porra dá trabalho!) sem nunca conseguirem perceber que condenar os bombardeamentos, aliás condenar desde o principio esta falsa guerra civil que nunca o foi, não é defender Assad nem sequer dizer que ele não é um ditador. É fazer frente, nessa frente, às guerras directas ou por interpostos protagonistas que o imperialismo promove em todo o mundo para manter o seu poder unilateral. Assad é um ditador só que por aquelas bandas um ditador como Assad até parece um democrata quando comparado com o rei saudita e os emires amigos. Nas versões mais comedidas esticam a língua de pau acusando os que condenam e denunciam a guerra na Síria de se estar colar a Assad a barra de códigos do mal menor. Vertem abundantes lágrimas humanitárias para sorna e desonestamente defenderem a destruição da Síria na fogueira das primaveras árabes com os resultados que estão à vista para, no curto prazo, meter a mão nos recursos energéticos e a médio prazo garantirem a continuidade da rapina de uma economia que vampiriza as bolsas, arruína países e, num abrir e fechar de olhos, fabrica milionários, cada vez menos e com maior riqueza concentrada nas suas mãos e empobrece cada vez mais pessoas. É nesse lado, o lado que se colocam! O resto são cantigas e os povos que se lixem e sofram. Nos seus transes humanitários já esqueceram as 250 mil crianças mortas e estropiadas no Iraque. Os danos colaterais da Madeleine Allbright que, sem uma ruga de compaixão, considera que esse foi um custo necessário e justificado! Agora, fingem-se horrorizados com os dramas violentíssimos do povo e das crianças sírias. Estão e continuarão a estar escondidos de baixo da saia da madama! Haja decência! Alguma água fria nessa indignação de pacotilha. O resultado do apoio do Ocidente aos jihadistas, é bom lembrar que as cenas das primeiras decapitações foram na Bósnia com mercenários vindos principalmente do Afeganistão e aborígenes convertidos a essas práticas, foi o avanço brutal e impetuoso dos terroristas, armados e financiados pelo Ocidente, até à formação do Estado Islâmico. Na prática o que estava a suceder na Síria acabaria por ser muito pior que a resultante das “primaveras árabes”, a Líbia é o exemplo mais exemplar, que dariam um outro impulso aos terroristas e ao terrorismo no mundo. A entrada da Rússia estragou esses planos. Não o fez por amor à Síria, ao povo sírio. Fê-lo, entre outras razões, porque na Federação Russa há várias repúblicas onde os muçulmanos são maioritários. Repúblicas que forneceram e fornecem bastante mão de obra ao Estado Islâmico à Al-Qaeda, eram um perigo crescente dentro da Federação Russa e nas suas fronteiras. Na Ucrânia estão dois batalhões do Estado Islâmico que combatem ao lado dos grupos armados neo-nazis contra os separatistas ucranianos. Isso explica parcialmente a entrada da Federação Russa, tem essas potenciais bombas dentro do seu território que nem precisam de ser catalisadas pelo esforço que a Arábia Saudita começou a fazer durante a Guerra Fria na Europa implantando mesquitas para radicalizar os árabes com o resultado que se vê à vista desarmada. Outra das razões é a ameaça às bases militares russas que dão acesso ao Mediterrâneo que, conjuntamente com as da Crimeia, são as únicas bases navais em águas temperadas. São também as únicas bases militares da Federação Russa fora do seu território contra as 50 da NATO nas suas fronteiras.

A questão nuclear da guerra imposta à Síria está na geoestratégia dos EUA que tentam manter um mundo unipolar e por isso cercam a Rússia e a China. A Síria, para mal dos sírios e, pelo andar dos acontecimentos, para bem de Assad que já beneficiava de ter uma oposição medíocre internamente corroída por fortes dissensões, por mais que as potências ocidentais tentem colar aqueles cacos não o conseguem como se tem assistido nas conferências que se têm realizado sob a égide da ONU e nada garante que sejam melhores que Assad. Estar contra a agressão na Síria, não é estar a favor de Assad, mas é estar contra o que se continua a assistir no norte de África e noutros países do Médio Oriente com a implantação de estados falhados que passaram para segundo plano na máquina de propaganda que são os media ocidentais. Convém não esquecer a volatilidade do Ocidente na classificação dos ditadores. Saddam Hussein e Muhamar Khadaffi passaram de ditadores amigos para ditadores inimigos quando um começou a tentar vender petróleo em euros e o outro, mais ambicioso e com mais meios, estava a tentar instituir o dinar-ouro para vender o seu petróleo e tornar essa moeda a moeda padrão das transacções comerciais no continente africano.

Iraque

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Pormenores, questões sem importância para essa gente, mas já agora vejam a nova partilha dos campos de petróleo no Iraque e a que está em marcha na Líbia. É esclarecedor para os que julgam que as razões económicas são secundárias e o traçado dos pipelines uma redundância. Georges Bush não teve papas na língua ao afirmar, em 1992 no Rio de Janeiro, porque os EUA se recusavam a assinar a Convenção da Biodiversidade “é importante proteger os nossos direitos, os direitos dos nossos negócios”. São os negócios que continuam na linha da frente na Síria e no Iemen, onde o desastre humanitário é muitíssimo maior, mas não comove a banda que por aqui vocifera, embora seja estranho ou então explica porque existe nuns casos tanta comoção e noutros omissão e um atroador silêncio. São tudo peças no baralho da unipolaridade que está ameaçada e quer dar sinais de força. Há uns tantos mais imaginativos que sobrevalorizam a questão religiosa, sunitas e xiitas, secundária e instrumental.

A realidade é muito mais complexa e nada pior que uma potência em decadência económica seja a mais poderosa militarmente. São várias as ameaças ao estado actual em que os EUA são dominantes, em que é vital sustentar a qualquer preço o dólar, obrigar os países a financiar o seu gigantesco imparável e impagável défice. Os BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento são uma séria advertência apesar das grandes diferenças entre eles. Está atento o Big Brother, as golpadas no Brasil procura enfraquecê-los. Outros lances têm efeitos mais devastadores a médio e longo prazo. A mais recente e maior, com efeitos imediatos mas que se anunciam devastadores a médio e longo prazo, foi a abertura da Bolsa de Internacional Energia em Xangai, em que se negoceia petróleo em yuans convertíveis em ouro, que logo na sua primeira sessão, em finais de março, ultrapassou as vendas de petróleo nos outros mercados. Isso coloca em causa os petrodólares directamente nos mercados do petróleo e o dólar como principal moeda nas trocas internacionais, como foi negociado por Nixon com a Arábia Saudita, que é quem comanda a OPEP, quando desindexou o dólar do ouro, Aqui volta-se a Síria que é um ponto fulcral na Rota da Seda que a China está a arraigar. Já o era na Rota da Seda original. Esse o pano de fundo dessas guerras e da guerra na Síria. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts. Na Síria com ou sem Assad, com Assad ditador ou com um Assad democrata, o que é indiferente, a questão central é se qualquer um dos dois, por estratégias que até podem ser completamente diferentes, segue ou não uma política que escape à influência dos EUA. Ditadores como Saddam Hussein ou Muhamar Khadafi, democratas como Jacobo Arbenz ou Salvador Allende, quando tentaram escapar a essa órbita foram liminarmente eliminados. O cinismo e a hipocrisia é a dura realidade, invocar a democracia em relação à Síria é mero pretexto vazio de substância. Razão tinha e tem o Orwell quando escreveu “para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitário”. Os posts e os comentários que se colam no FB e em blogues atacando o regime sírio avalizam Orwell. Andar aos balanços sem perceber isso é ser um idiota útil, por mais camadas de humanitarismos com que se besuntem e verdades, meias-verdades e mentiras que centrifuguem. São as vitimas consentidas por vontade própria do que Harold Pinter denunciou ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose altamente conseguido”. São parte inteira dessa manipulação. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos em que se praticam acções, como as que se estão a assistir. Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”. Para essa gente este texto é um Sermão aos Peixes, uma inutilidade nesse areópago de personagens Monty Python. em que os terroristas quando passam a fronteira da Síria transformam-se magicamente em rebeldes, em que há muçulmanos maus mas os fanáticos sauditas são sempre bons. Fanáticos do Isis eram maus ou bons até fugirem ao controle e serem todos maus. A Rússia é sempre má. A China está a seguir o caminho de também o ser. Mais uma vez recomenda-se a leitura do último documento de geoestratégia dos EUA. Os terroristas já não são o inimigo principal, o inimigo principal são a Rússia e a China. As denúncias, pouco fundamentadas ou nada fundamentadas, dos ataques químicos na Inglaterra e na Síria ficam transparentemente explicados. Os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir” são a sua arma de arremesso que dispara sem contemplações sobre qualquer investigação que seja razoavelmente independente. A farsa das propostas de investigação que Nikky Haley fez e continuará a fazer no Conselho de Segurança da ONU seguem essa máxima. Recorde-se Hillary Clinton e o telegrama que enviou a várias embaixadas em que, depois de referir que a Arábia Saudita era um valioso e imprescindível aliado, sublinhava que “a Arábia Saudita continua a ser um apoio financeiro crítico para a Al- Nustra, os talibans, a Al-Qaeda”. Os saudosos e quase esquecidos talibans também já foram bons, eram os combatentes pela liberdade no Afeganistão nos tempos de Reagan. As armas químicas também já foram boas quando países da NATO as forneceram a Saddam Hussein quando este estava em guerra com o Irão. Era um bom ditador como hoje são os sauditas e os emires dos países do Golfo. É de lembrar que a tortura nem sempre é má, se for praticada em Guantanamo já é legítima. 

Um mundo às avessas em que não se pode andar como o bando de cegos de Brueghel, o Velho, empunhando as bandeiras esburacadas de um humanitarismo fatela.

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«SPLEEN»

A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social. A infantilização, a idiotização que propagam, é uma pedra de fecho. Nada é inocente. O objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Há que lutar, no inferno destes tempos estúpidos, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol.

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Discurso Eleitoral, João Abel Manta, desenho a tinta da china, 1969

Não haverá uma tradução que exprima a amplitude do significado de spleen, o que explica porque Baudelaire o utilizou, sem tentar traduzir, no título de um grupo de poemas Spleen de Paris e no título de vários dos poemas dessa série(*). Spleen é o que Walter Benjamin descreve “como o sentimento que corresponde à catástrofe em permanência”. Nos tempos que se estão a viver é determinante para o pensamento único impor um sistema a partir de condições pré-estabelecidas para dissuadir os homens de intervir. Vive-se mergulhado num permanente spleen.

Sistema que faz prova de vida como se fosse um caleidoscópio em que, sempre com os mesmos cristais, quando se roda o tubo se transforma a desordem numa nova ordem e as sucessivas imagens virtuais simulam uma pulsação que não existe nem desinquieta a base com que se formam novas imagens. A realidade permanece quase imutável por debaixo das camadas de maquilhagem que se vão acumulando deixando intocado o essencial. A perversidade é a crescente importância que as imagens virtuais adquirem para garantir a quase imobilidade do sistema, num cenário em que o simulacro e a simulação substituíram a realidade. Vive-se um presente empobrecido em que o pensamento débil é preponderante, o mau estar intelectual está contaminado pelo niilismo e o relativismo, a cultura é sepultada e ressuscitada pela efemeridade das modas que a torna cada vez mais inculta, os clichés vulgarizam-se como se fossem apotegmas. Tudo sinais da profunda crise que se vive e se diverte a traçar cenários de futurologias tão fundamentadas como as previsões astrológicas.

A vida social, económica e política é filtrada pelos meios de comunicação social, dos tradicionais, ferreamente controlados pela plutocracia que os detém, aos aparentemente livres como as redes sociais que funcionam como uma válvula de escape que está sempre na mão de quem tem poder efectivo sobre o algoritmo, pronto a regular a pressão, a denunciar quem sair doas fronteiras impostas pelo seu quadro normativo dominado pelo pensamento único.

Nesses universos nada é inocente. O grande objectivo é que nem sequer seja possível pensar que é possível pensar um mundo outro. Para que não haja pontos de fuga e o mundo que continue a ser TINA (Tere Are No Alternative), entrincheirado na crença que tudo é resolúvel e eternizável com opções gestionárias. Nada de novo na frente ocidental como o Príncipe de Falconeri tinha antecipado “para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude. O reino do Leopardo triunfante, mesmo quando desconhece Maquiavel, o que é incerto. É assim que Trump sucede a Obama, Theresa May a Cameron, Macron a Hollande, Junquers a Durão Barroso, Merkel a Merkel e…

Nesse processo em contínuo a infantilização, a idiotização que os meios de comunicação social propagam é uma pedra de fecho. Acende-se o ecrã televisivo para fazer zapping pelos programas de inutilidades que os empapam de manhã à noite com apresentadores que querem causar uma boa impressão ao vazio com que preenchem horas e horas a debitar, sem nenhuma convicção, banalidades. São muitas horas consumidas nos vários canais televisivos, a variedade não implica diversidade, em programas em qualquer género de notícia, com destaque para o desporto que se resume ao futebol, a repetir e sobrepor dissertações num português de chuto em força para a frente, o que replica um país onde a ileteracia é um problema mas têm três jornais diários, com tiragens assinaláveis, dedicados ao desporto, onde mais uma vez o desporto é residual, o futebol dominante. Apavorante é dar uma rápida olhada aos comentários ajavardados dos leitores nesses mesmo jornais on-line, que nos prepara para não se ficar assombrado pelos que são feitos às restantes noticias mesmo que mais brunidos, 

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Monumento Nacional 1, João Abel Manta, desenho a tinta da china e fotografia, 1969 .

O quadro completa-se se à vulgaridade e estupidez dessas tertúlias adicionadas às mesas-redondas temáticas, os comentários políticos, económicos e sociais, os alinhamentos noticiosos de notícias fabricadas com falsa independência, o que traça um panorama que tem por objectivo incapacitar atingir-se uma consciência crítica da realidade.

Uma teia que se estende adrede sobre a sociedade em que se tropeça com cada vez mais frequência. É ver como crescem nas livrarias as estantes com livros de auto-ajuda de psicologia a pataco, do misticismo de vencer na vida e ser feliz aceitando a pobreza real e espiritual como um valor de uma sociedade onde sempre houve pobres e ricos, opressores e oprimidos, não tem nenhuma dignidade para oferecer.

Um sistema prenhe de subtilezas que planta onde pousa, e pousa em todos os lados e por todos os lados, o lixo de uma subcultura reles, corriqueira que têm no entretenimento vazio o seu alfa e ómega. Um muro construído com todas as pedras da lógica da desculturização e da despolitização para cercar eficazmente a utopia enquanto exploração do possível, de se ir além do imediato. Um muro que protege esse mundo estandartizado onde tudo é feito para que se acredite que a verdadeira vida é assim, submetida à ditadura da necessidade, em que “ a liberdade se deve submeter às urgências do processo da própria vida”( Hannah Arendt), em que, na melhor das hipóteses, a garantia de morrer de tédio é vendida como garantia de não morrer de fome. Um processo em que a impotência induzida cerceia a liberdade individual, a própria identidade.

Entretenimento vazio que idiotiza a sociedade, empurra a cultura para um bullying em que se corrompe e que, como avisa lucidamente Blanchot, acaba por “não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio, contra o qual nos protege, dissimulando-o”.

No mundo actual a sociedade da informação, reforçada com a expansão do ciberespaço, é dominada pelas plutocracias que, por essa via, se tornam mais poderosas e mais eficazes na captura dos estados e dos partidos políticos que perderam horizontes ideológicos e a quem dão apoios variáveis em função dos seus interesses económico-financeiros. O entretenimento vazio, a tralha informativa são os seus poderosos pilares, pensados para paralisar os seres humanos, para os encerrar nos cárceres do pensamento único dando-lhes como única saída possível o suportá-lo estoicamente num simulacro de liberdade que é um modo de manipular a humanidade.

Vive-se um tempo absurdo, imerso em spleen. que ter bem presente, nesse estado catstrófico, o aviso de Walter Benjamin: “para que as coisas «continuem como estão», é isso a catástrofe!”, com a certeza possível de que “o conceito de progresso assenta na catástrofe”(W.B). Há que trabalhar sobre a(s) catástrofe(s) em que está mergulhada esta sociedade para lhe retirar as gangas, encontrar as estradas do progresso. Há que lutar no inferno destes tempos estúpidos contra este tempo estúpido, por valores nos antípodas dos que nos são vendidos de sol a sol, com uma obscena violência e uma contumácia que não desfalece. Há que lutar sem tréguas, passo a passo, minuto a minuto porque ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante”( Georges Orwell) e porque, como escreveu Marx numa carta a Ruge, «Nós não confrontamos então o mundo, de um modo doutrinário, com um princípio novo: Está aqui a verdade, ajoelhai-vos! Nós desenvolvemos para o mundo, a partir dos princípios do mundo, princípios novos.». É com príncipios novos com a idade de Marx mas que estão sempre a ser inovados que se deve lutar contra este mundo que nos procura asfixiar.

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A Praia dos Pássaros Esquisitos, João Abel Manta, desenho a tinta da china, 1970

(*)Quando o cinzento céu, como pesada tampa,/Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta, /E a sua fria cor sobre a terra se estampa, /O dia transformado em noite pardacenta; // Quando se muda a terra em húmida enxovia/D’onde a Esperança, qual morcego espavorido,/Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,/Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;//Quando a chuva, caindo a cântaros, parece/D’uma prisão enorme os sinistros varões,/ E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,/Com paciente labor, fantásticas visões,// – Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,/Lançando para os céus um brado furibundo,/Como os doridos ais de espíritos errantes/Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;/Soturnos funerais deslizam tristemente/Em minh’alma sombria. A sucumbida Esp’rança,/Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,/Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”; O Spleen de Paris; LXVII Spleen,; Tradução de Delfim Guimarães

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt)

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