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CONTRA OS POPULISMOS QUE METERAM OS PÉS NA PORTA DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Discurso Eleitoral cartoon de João Abel Manta

Pela primeira vez três partidos, Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, meteram o pé na porta da Assembleia da República (AR), colocando um deputado cada e o outro, o PAN, que já tinha metido o pé na porta nas eleições anteriores elegendo um deputado, viu aumentada a sua representação para quatro deputados. A direita viu a sua presença na AR ampliada em número de partidos embora com menos 18 deputados do que tinha em 2015. As esquerdas, embora aumentassem o número de deputados em relação a 2015, mais dezasseis deputados, perderam quase 50 mil votantes, o que deve preocupar. Nestas contas direitas/esquerdas não entra o PAN que afirma não ser de direita nem de esquerda. Uma espécie de partido sem eira nem beira, de um oportunismo sem peias.

Embora o espaço da direita se tenha reduzido o seu futuro não se advinha adverso. A comunicação social já anda a bolinar a seu favor, veja-se o tempo concedido sobretudo à Iniciativa Liberal e a lavagem do Chega classificado de extrema-direita populista, uma forma simplista de mascarar a readaptação do fascismo de que é herdeiro, ao contexto actual em nova versão.

Igualmente a Iniciativa Liberal, que elege um deputado na primeira vez que concorre, é travestida de liberal quando de liberal nada tem. É a grande corrupção intelectual por não se assumirem o que realmente são, ultra-liberais em linha com Hayek e os Chicago Boys que renegam os liberais, de Stuart Mill a Keynes e seus continuadores actuais, que defendem a educação pública, universal e gratuita, impostos progressivos, a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros, um Estado interventivo no combate à sucessivas crises do capitalismo e que, nos dias de hoje, são as políticas dos partidos socialistas e sociais-democratas que as praticam com enormes e devastadoras concessões ao capital, uma das mais graves é terem abdicado de moeda própria, deixando o financiamento do Estado nas mãos de especuladores internacionais. Essa gente do IL tem o desplante, a incomensurável lata de pregarem um pseudo-liberalismo económico contra o excesso de intervencionismo do Estado, quando nas últimas décadas se privatizou tudo o que havia para privatizar, excepto a Caixa Geral de Depósitos, o serviço público da comunicação social, onde ocupam, directa e indirectamente, um espaço desmesurado em comparação com a esquerda, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação que paulatinamente tem sido entregue aos privados. É esse pouco que ainda resiste aos ataques dos ultra-liberais que agora está na sua mira.

Sem uma ruga de vergonha, coisa que não sabem o que é, fingem que a liberalização do sistema financeiro e a livre circulação de capitais não são os responsáveis pelo exponencial aumento do endividamento público e privado e que as leis do trabalho que têm facilitado os despedimentos, os horários flexíveis, a precarização não estão suficientemente desregulamentadas porque o que desejam é voltar à barbárie, aos mitos neoliberais do séc. XIX. A política fiscal que propõem é um ascensor para aumentar as desigualdades. A meritocracia que usam como brilhante emblema na lapela é a adulteração do verdadeiro mérito para favorecer os de sempre.

Os próceres da Iniciativa Liberal proclamam – a sua campanha eleitoral é um relambório de manhosices, um manual completo de manipulação eleitoral – que querem colocar Portugal a crescer. A realidade é que as ideias que defendem são exactamente as que têm sido postas em prática desde a década de 80 e que nos fazem crescer de forma frágil. Que por causa delas Portugal é um dos países mais pobres da Europa, onde as desigualdades sociais são das mais brutais. São essas evidências que negam com uma desfaçatez, uma insolência todo-o-terreno. O perigo dos próximos anos é terem uma desencabulada voz na AR para ampliar a voz que já têm numa comunicação social ao serviço da plutocracia e também no chamado serviço público.

O Chega, carinhosamente apelidado de extrema-direita populista, diz-se anti-sistema, o que dá imenso jeito num país em que o descrédito da política e dos políticos, o desencantamento com a política que os media, produzindo e propondo uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, instalam com contumácia preparando e adubando o terreno para as simplificações demagógicas, que foi bem explorado também pelo IL e que também já tinha sido e continua ser explorado pelo PAN. É esse o terreno que o Chega vindima sem descanso, que o fez obter os resultados eleitorais que obteve. Acresce a notoriedade pública do seu líder iniciada em Loures pelo lugar que Passos Coelho lhe outorgou, consolidada pelo comentarismo desportivo, leia-se futebol, que é um campo fértil para se alcandorarem na política, lembrem-se de Santana Lopes e Fernando Seara, entre outros.

O PAN cavalga sem freio a causa ambiental. Cavalga mas não sai da pista de corrida da lavagem verde que o capitalismo iniciou e que teve e tem em Al Gore um dos rostos mais mediáticos em que agora todos, mesmo Christine Lagarde e Vítor Gaspar, se empenham em apregoar. Bem sabemos que eles sempre foram adeptos do verde, convictos de que verde mesmo verde é a cor do dinheiro que continua a dominar o sistema financeiro internacional.

Contra esse ambientalismo neoliberal tem sido lembrado recorrentemente e com razão a frase de Chico Mendes, sindicalista-ambientalista brasileiro assassinado em 1988, de que «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem». Depois do discurso pungente de Greta Thunberg na ONU,que tem sido usado com desonra pela lavandaria ambiental e destratado grosseiramente pelos arautos neoliberais, nas acções de massas das Sexta-Feiras pelo Ambiente surgiu com força a ideia nuclear de que o capitalismo não é verde, de que a luta ecológica tem de colocar a questão da superação do capitalismo colocada de forma clara e sintética por João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas.

Para o PAN essa não é a equação, a jardinagem é o que está a dar, a vender bem na Feira da Ladra da ecologia. A ver vamos se os vigésimos premiados continuam sem prazo de validade a render votos.

Os desafios futuros para a esquerda, contra a tralha neoliberal e os populismos em marcha, não são fáceis. É urgente uma nova política económica em que o Estado agarre as alavancas do investimento e da banca para reduzir as desigualdades sociais, combater o desemprego, valorizar o trabalho em vez do capital, colocar em prática uma nova ordem ambiental, e essa não é agenda de alguma esquerda que só muito empurrada faz algumas, poucas, cedências.

Há que traduzir essa urgência em votos – uma das frentes de luta – o que com o panorama comunicacional manipulador existente vai exigir esforços acrescidos. Há que lutar, contra todas as evidências, sabendo de ciência certa que a razão está do lado da esquerda mesmo, apesar e contra as conjunturas, o que não é garante de nenhuma certeza mas vitamina a luta.

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Celebrar Jessye Norman em Dia de Eleições

Hoje, dia de votar e vou votar bem embora com algum alarme pelos resultados que ao fim do dia se saberão. Alarme com as votações que alguns partidos poderão alcançar obtendo-as com os populismos mais rascas, com a mão sempre no gatilho das fraudes políticas e intelectuais disparadas a torto e a direito, a exploração sem freio do que está a dar vendendo vigésimos premiados em directo e on-line com incursões pelas ruas ou ruminando vitualhas suspeitas de contaminações pós-modernas. Para não haver margem para dúvidas, se é que ainda as havia, refiro-me sobretudo ao PAN, embora esteja bem acompanhado. Alarme pelo que isto evidencia de como a estupidez adubada pelo marketing facilmente explora a ignorância e a desinformação que a comunicação social com contumácia propala, confortada pelo adormecimento generalizado que os programas televisivos ditos de divertimento expandem, abrindo caminho aos pan’s. Alarme por esta ser uma realidade bem evidente que, no estado actual do panorama informativo e das redes sociais, obriga a um árduo combate. Além das armas serem desiguais, a estupidez é sempre mais facilmente triunfante porque como Musil escreveu no Homem sem Qualidades: ”se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combate-la”.

Antes de ir votar estive a ouvir Jessye Norman, essa extraordinária soprano que morreu na quarta-feira, dia 30. Tinha um timbre riquíssimo e uma excepcional amplitude de voz que a faziam conseguir os registos de meio-soprano e contralto, o que é raro. Estive a ouvir não uma das excelentes interpretações que a notabilizaram no universo da música sinfónica, bem expressos na sua imensa discografia.

Mencionem-se Ariadne, Ariadne de Naxos / Richard Strauss; Cassandra, As Troianas / Berlioz; Sieglinde, As Valquírias / Wagner; Dido, Dido e Eneias / Purcell; Alceste / Alceste / Gluck; Armida, Armida / Haydn; Judith, Castelo do Barba Azul / Bartok. Uma enumeração rápida para sublinhar a sua versatibilidade. Refira-se que Jessye Norman apesar do seu notável percurso na ópera é nos lieds que tem o seu terreno de eleição. Entre as muitas e magníficas interpretações das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss e dos Ruckert Lieder de Mahler as de Jessye Norman não podem são estar ausentes de alguma estante.

Não foi nenhuma dessas gravações que fui ouvir. Fui ouvi-la num cd duplo intitulado Roots:My Life, My Song em que ela diz que fez uma selecção das “páginas que fazem parte do meu universo pessoal e que permitem aos meus pares músicos e a mim-própria explorar e desenvolver a nossa própria língua musical, rendendo homenagem às figuras tutelares que criaram esta música que celebramos e amamos. Um caminho que nos conduz dos tambores de África até ao Novo Mundo.” São vinte e duas canções, introduzidas por uma evocação dos tambores de África, que nos deslumbram e que ouvimos como nunca as tínhamos ouvido.

Enquanto a ouvia lembrei-me de uma saborosa história que o meu sempre bem lembrado amigo Bartolomeu Cid dos Santos me contou com o humor que o caracterizava, não sei quem lha teria relatado. Jessye Norman vivia num dos bairros mais chiques de Londres de casas dos séculos XVIII e XIX recuperadas em luxuosos apartamentos a que se acede por ruas discretas, habitadas por gente de grandes posses económicas. Era esse bairro de vez em quando assaltado por uma gritaria que os incomodava e sobressaltava. Alguém seu vizinho, pela voz do sexo feminino, dava durante largos períodos de tempo, normalmente pela manhã, uns guinchos inacreditáveis que até poderiam pressupor cenas de violência doméstica ou exercícios sado-masoquistas.

Num bairro com aquele estatuto, os silêncios que marcam os compassos das distâncias sociais eram de quando em quando estraçalhados por um dilúvio de berros que deixava os seus habitantes emudecidos, paralisados de estupefacção. Até que um dia o mistério se resolveu: a senhora que gritava desinquietando todo o bairro era Jessye Norman que quando estacionava na sua casa londrina ensaiava a sua fabulosa voz.

Ouvido Roots, agora vou votar, apelando ao voto para que os populistas sejam menorizados, evitar, entre outros males, que o PS tenha a tentação de tirar a chave da fechadura da gaveta onde o seu o pai fundador meteu o socialismo.

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Populismos

populismo

Populismo entrou no léxico da política e da comunicação social. É usado a torto e a direito, nem sempre a direito e muitas vezes bem torto. Um rótulo em que, intencionalmente e com cinismo, se baralha populismo com lutas populares para as desvalorizar. Às políticas do governo PS, apoiado parlamentarmente pelo PCP, BE e PEV, que visam, de forma magra e tímida, repor rendimentos e direitos atirados para o lixo pelas políticas ditas de ajustamento, é inúmeras vezes colado esse rótulo pelos partidos de direita e pelos media ao seu serviço. Procuram e encontram formulações perjorativas, geringoça é das de maior êxito, para fazer chicana. Com a mesma intencionalidade e cinismo não o usam quando o deveriam usar. Exemplo recente são as declarações de Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, uma estrutura clandestina que a UE legalizou dando peso institucional, expressão de um populismo pós-colonial, corrente nos países do norte da Europa Connosco. A variante suave e actualizada do pensamento das potências coloniais que justificavam as suas inauditas violências com a missão civilizadora de iluminarem as bestas com os seus valores, exterminando sempre que necessário os que se oponham a receber essa luz. Agora as bestas são mais brunidas, entregam-se aos copos e às mulheres, é preciso metê-las na ordem.

Na raiz do populismo está sempre presente a batalha entre as elites que se dizem esclarecidas e a ignara populaça. Um conceito que surge originalmente dos choques entre Cultura e cultura. As batalhas entre os que alinhavam pelo gosto popular contra o gosto das elites. Entre os defensores do canone e os que se entricheiravam nas veredas das vulgaridades. Em linguagem chã e no rectângulo nacional, guerras entre os devotos de António Lobo Antunes e Herberto Helder e os embasbacados com Teresa Guilherme e Manuel Goucha. As portas dos gabinetes académicos foram arrombadas pela política real, as batalhas já não são entre simples definições culturais, entraram nos territórios da política.

O populismo está no ordem do dia. Os avanços da direita mais extrema nos EUA e na Europa fazem soar as sirenes de alarme que tocam insistentemente e bem alto para apagar os sons de quem andou a alimentar os populismos de Trump, Le Pen, Farage, Geert Wilders, Frauke Petry e todos os outros que aparecem como cogumelos na terra pútrida adubada pelos partidos políticos, da direita à esquerda, que com grande e fecundo populismo andaram e andam a angariar votos vendendo promessas que assim que alcançam o poder rasgam com grande despudor. Exemplos não faltam de Hollande a Renzi, de Tsipras a Obama. Por cá é só folhear os programas eleitorais desde que há eleições. Um espesso rol de ilusões vendidas a pataco que desacredita política e políticos, alimenta o populismo rasca de os políticos serem todos iguais, mudam as moscas a merda é a mesma e demais axiomas em que se afunda a democracia. Mete-se tudo no mesmo saco para fazer o caminho a uma qualquer variante fascista ou proto-fascista. Anular políticos e políticas de esquerda que, quando são mesmo de esquerda, são destratados por uma comunicação social mercenária.

Utiliza-se o fantasma do populismo não é um fantasma é um real perigo para fazer triunfar políticas de direita. Seria rísivel se não fosse assustador ouvir o vento provocado pelos grandes suspiros de alívio que correu pelos areópagos europeus com os resultados eleitorais holandeses, ganhos em cima da meta por escasssos segundos por um bom populista a um populista mau. Espera-se o vendaval de suspiros de alívio que se prepara quando se souberem os resultados eleitorais em França, com idênticos resultados.

Desde que o populismo entrou no léxico da política há populismos para todos os gostos. De alta densidade como Perón e Getúlio Vargas, num continente fértil na emergência de caudilhos populistas, aos de baixa intensidade como Berlusconi ou, com outro estilo e derivas, Pablo Iglésias. Não têm uma ideologia concreta. Apresentam-se como uma forma diferente de fazer política que ultrapasse os impasses da política representativa em que os partidos políticos defraudam com contumácia as esperanças dos que lhes confiam o voto iludidos com as promessas de lhes darem um bem-estar que negam assim que se sentam nas cadeiras do poder.

O populismo alimenta-se com essas fraudes por as pessoas se sentirem abandonadas pela política e pelos políticos, por um crescente sentimento de injustiça que os torna receptáculos de outros meios de exercício da política, onde se sintam com voz. Nesse contexto não devia surpreender ninguém que os populistas tenham êxito, ganhem votos populares, ascendam ao poder. Foi isso que deu a vitória a Trump e na Europa os clones de Trump estejam a ter o impacto que têm. Em Portugal ainda não apareceu uma ou um Le Pen, mas lendo muitos das notícias dos media, ouvindo e lendo muitos dos comentadores encartados que por lá estacionam, lendo os comentários a essas notícias não será extraordinário que acabe por surgir, espere-se mas não se confie numa manhã de nevoeiro, uma qualquer imitação salazarenta de Trump.

Para esse sucesso, um insucesso do Portugal de Abril tão maltratado em quarenta anos de governos com políticas de direita, muito contribuem a propaganda mascarada de informação que deliberada e perversamente confunde populismo com lutas populares.

As justas reinvindações dos trabalhadores e pensionistas, as lutas por direitos sociais económicos e políticos, as organizações sindicais e políticas que as assumem e encabeçam são classificadas, directa e indirectamente, como populistas por irem contra o pensamento dominante e a sua expressão mais acabada o TINA (There Is No Alternative) com o objectivo último de ser impossível pensar que é sequer possível pensar que há uma outra política, uma outra sociedade.

Elencar o que todos os dias se repete com obstinação para desacreditar as lutas contra essas políticas é uma árdua e sempre incompleta tarefa. É de lembrar as barreiras de propaganda disfarçadas de notícias e comentários, com bem ou mal amanhado argumentário, que durante os quatro anos de governo PSD-CDS faziam ruído contra as manifestações e greves desencadeadas pela CGTP e pelos sindicatos contra a barbárie de uma legislação do trabalho que queria reduzir a cisco direitos conquistados palmo a palmo em árduas lutas. Contra todas as outras lutas que durante esses malfados anos foram realizadas. Sem essa resistência, no meio de enormes e violentas dificuldades, os desmandos do governo Passos Coelho/Paulo Portas teriam uma dimensão muito maior, até mais durável. Eram classificados de irrealistas por estarem contra a realidade construída com zelo pela troika e seus mandatários aborígenes. Colavam-lhes o selo de populistas por proporem políticas que defendem as classes sociais mais desfavorecidas, no limite por defenderem medidas que estavam contra o “progresso” do país que não podia viver acima das suas possibilidades, como se o progresso do país fosse o que eles propugnavam e continuam a propugnar e as classes privilegiadas não continuassem a rapinar a riqueza produzida.

Há que distinguir claramente lutas populares de populismo. Os populistas, os duros de Trump a Le Pen, e os moles, de Merkel a Cristas, estão sempre do lado das classes privilegiadas. Aos mais desmunidos reservam um assistencialismo rasteiro que lhes branqueia consciências. Os outros são mão de obra, quanto mais barata e sem direitos melhor, e sobras de vidas que sobreviveram a anos de trabalho. As lutas por melhores condições de vida, de denúncia pelos males do estado de coisas, pela redenção dessas sociedades é-lhes estranha, vai contra a realidade que os alimenta e que querem perpetuar. Nenhum vício lógico os trava. Do outro lado, contra populistas e populismos, está o povo, os partidos políticos, os sindicatos, as organizações populares que os defendem e lhes respondem com as lutas populares.

(publicado em AbrilAbril)

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La Nave Va

barco

o barco que transporta Nosferatu no filme de Murnau

Passos Coelho vocifera empurrado pelo ciclone de dez mil milhões de euros!  Paulo Núncio tropeça em si-próprio até não conseguir negar as evidências! Paulo Portas passeia irrevogável mudez até agarrar de novo os microfones de vendilhão nos templos da comunicação social estipendiada! Assunção Cristas faz queixinhas ao Presidente da República enquanto distribui beijinhos postais aos lisboetas pedindo ideias para encher a sua vazia cabecinha! Luis Montenegro e Nuno Magalhães usam a Assembleia da República para concorrerem aos óscares dos incorruptíveis contra a droga realizando a sua remake em versão filme cómico! Lobo Xavier e António Domingues almoçam e jantam sms nas casas de banho para defesa da sua intimidade que deixam entrever abrindo e fechando a portas dos privados das administrações dos bancos onde as trocam! Maria Luís Albuquerque cala-se para guardar de Conrado o prudente silêncio! A mentira, as mentiras são despejadas, sem selecção de resíduos para reciclagem, no aterro sanitário dos erros de percepção mútua!

Uma ópera bufa que nos toma por basbaques, recuperando um grande final em que contumazes indignidades recuperam prazo de validade rebobinadas pela assunção política das falsidades, retirados os andaimes que as ocultavam. Miserável lavagem pública da imoralidade passada e repassada em todas as máquinas da comunicação social para voltar a dar crédito à miséria de alguma política e de muitos políticos.

No caso das dezenas de milhares de milhões de euros que voaram para offshores que um prestimoso secretário de estado viu mas não permitiu tornar público, o roteiro da viagem do que está em causa não é a ocultação, muito menos o azar de vir a ser objecto de tributação legal, mas o seu significado. O que é substantivo é essa acção ser parte por inteiro do norte político de um governo, as políticas de austeridade que reestruturavam a economia fazendo cortes e ajustamentos que visavam os trabalhadores, as pequenas e médias empresas, passava a ferro a classe média, todos os que eles diziam estar a viver acima das suas possibilidades, enquanto dava rédea solta aos desmandos da banca e do grande capital. Politicas em que ofertavam mais riqueza para os mais ricos a continuarem a acumular enquanto o garrote se apertava aos mais desmunidos que o viam apertar com um fisco de mão mais extensa e mais implacável, com leis laborais que faziam retroceder dezenas de anos de conquistas feitas palmo a palmo, com a degradação sistemática dos direitos sociais, económicos.

O laxismo que deixa ficar nas gavetas do secretário de estado as listas das dezenas de milhares de milhões de euros que legalmente iam estacionar em offshores não é inocente, como não o eram as listas VIP ou a indiferença em relação à fuga ilegal de dezenas de milhares de milhões de euros que só parcialmente são contabilizáveis pelos processos judiciais em curso, é a resultante directa da política do governo PSD-CDS que favorecia a acumulação da riqueza dos mais ricos e o aumento, na melhor das hipóteses, a manutenção da pobreza da esmagadora dos portugueses. A sanha com que atacam o actual governo PS, com apoio parlamentar PCP/BE/PEV, as medidas, mesmo que tímidas, de repor rendimentos a trabalhadores, pensionistas e reformados, de dar melhores condições de crédito às pequenas e médias empresas é a pedra de toque dessas políticas em que se dá liberdade quase absoluta aos que já a têm e aperta a tarraxa a todos os outros que não devem ser piegas por serem metidos na ordem de viverem conforme as suas magras possibilidades.

É repugnante ver esse teatro de sombras em que um forcado corneado pela impossibilidade de continuar nas omissões das verdades, se refugia nas tábuas das meias-mentiras, vai para o meio da arena exibindo a orelha da responsabilidade política para ser aplaudido pela turbamulta dos seus aficionados que agitam freneticamente o manto diáfano da sua mais que esburacada dignidade. São todos iguais por mais tonitruantes declarações que façam. Querem safar-se como se tudo isso tivesse sido um acidente do aparelho fiscal e o governo Passos-Portas não fosse politicamente responsável. A bardinagem, o populismo, a demagogia no seu melhor.

Um peão de brega é obrigado a saltar do barco para aliviar o lastro e o barco continuar a navegar no pântano. Enquanto houver parvos ou parvos fingidores continua acima da linha de água. La nave va, o rumo não se alterou, não se altera nem dá guinadas às quinta-feiras.

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