Cultura, Estado Islâmico, EUA, imperialismo, Iraque, Notre-Dame, património, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Síria

Proteger o Património Cultural

Notre-Dame consumida pelas chamas

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa. Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

A cidade de Palmira destruída pelos jihadistas
Standard
Acrópole, Amazónia, Banco Mundial, BCE, Bolsonaro, Brasil, capitalismo, FMI, Grécia, Palácio de Cnossos, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Património Natural, Syriza, Tsipras

À BEIRA DO ABISMO

Palácio de Cnossos

Nos tempos que se vivem do capitalismo pós-democrático, a financeirização de todas as formas de vida, em que a vida é o capital e o capital é a vida, é estado de sítio que se vive. No The Economist, editorial de 11 de Janeiro de 2014 intitulado «The $9 trillion sale», https://www.economist.com/leaders/2014/01/11/the-9-trillion-sale,escrevia-se que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado» inquietando-se por «os governos parecerem estranhamente relutantes em explorar essas oportunidades de arrecadação de receitas». Era a evidência de que nos centros decisores do capitalismo internacional, FMI, Banco Mundial, BCE etc., já há algum tempo estava a levedar a ideia de uma onda de privatizações de tipo novo e radical: vender patrimónios histórico-culturais e naturais, onde a única dificuldade será avaliar o Pártenon, o Museu do Louvre, o Parque Nacional de Yellowstone, etc. O que aconteceu recentemente com o património cultural na Grécia e o que se anuncia para o Brasil são a demonstração que a voracidade do capital é insaciável. É cada vez mais evidente que hoje, com o estado de crise permanente do capitalismo em vertigem de montanha russa, tudo está à venda e, parafraseando Lenine, a última coisa a ser vendida será a corda em que será enforcado. Inquietante é quase já não ser surpreendente que o Ministério das Finanças grego tenha entregue ao Taiped, o fundo de privatizações grego fundado, por imposição da UE, BCE e FMI, uma extensa lista de monumentos nacionais para venda.

No inventário, com mais de trezentas entradas, estão incluídos o palácio de Cnossos do mítico labirinto do Minotauro, em Creta, o túmulo do rei Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre o Grande, no norte da Grécia, a Torre Branca de Salónica, antiga prisão e lugar de grande valor simbólico nos Balcãs, o lugar pré-histórico de Santorini, os lugares arqueológicos de Salamina e Eleusis, muitos dos museus de Arqueologia, os Museus Bizantinos de Salónica e de Véria, os fortes das cidades de Esparta, Corinto e da ilha de Corfu, classificado património mundial pela Unesco, florestas integradas na rede Natura, a que se somam uma longa lista de outro património edificado como os lugares históricos nas montanhas que cercam a Acrópole. Esta fúria privatizadora não é uma particularidade grega por quase todo o mundo este assalto com a mão armada de dólares é verificável. Os pretextos e as formas são variáveis o fim é o mesmo. Em Itália, o governo Berlusconi tentou impor uma lei em que se privatizava todo o património imobiliário público, fosse um edifício pouco caraterizado ou fosse o Palácio do Quirinal, a residência do Presidente da República. Era a solução para a dívida pública. Foi travado por uma vasta mobilização que conseguiu reverter parcialmente as intenções iniciais, cancelando essa lei mas não evitando que se fizessem privatizações totais ou parciais de muitos monumentos históricos com efeitos devastadores. Na área dos recursos naturais as agressões têm séculos mas a ameaça mais grave e imediata é no Brasil de Bolsonaro que “prometeu acabar com a agência brasileira encarregue do controlo da desflorestação e da demarcação das zonas indígenas” um passo para começar a destruição da maior floresta tropical do mundo e, sem recorrer a câmaras de gás, acabar com os índios amazónicos. Um desastre humano e ambiental com consequências incalculáveis.

Em curso a entrega rápida dos recursos sejam culturais ou naturais ao capital privado com o álibi falso de o rentabilizar por maiores que sejam as selvajarias que se pratiquem. Nada comove nem demove essa gente para quem a humanidade, a cultura e a civilização são descartáveis, são inutilidades desde que não se tornem negócio, produzam lucro. É urgente travá-los. Uma luta política para se mudar de políticas que nos conduzem para um abismo.

Amazónia
Standard