Anti-Semitismo, Artes, Ópera, Bakunine, Bernard Shaw, Cultura, Daniel Barenboim, Edward Said, fascismo, Festival de Bayreuth, Geral, Giacomo Meyerbeer, Hitler, Jair Bolsonaro, Jean-Jacques Rousseau, Mário Viera de Carvalho, música, Nazi-Fascismo, O Anel dos Nibelungos, Ricardo Alvim, RICHARD WAGNER, sionismo

Wagner, Luz e Sombras

Uma ópera de Wagner foi utilizada num discurso fascista de Ricardo Alvim, secretário especial da Cultura do governo brasileiro. É tempo de se ouvir Wagner, reabilitá-lo de um injusto labéu que ainda hoje se lhe cola.

«O crepúsculo dos deuses» (Götterdämmerung) finaliza o ciclo de quatro obras épicas de Richard Wagner, designado por O anel dos Nibelungos. Na foto, uma encenação contemporânea pelo Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, sob a direcção artística de Valery Georgeev
«O crepúsculo dos deuses» (Götterdämmerung) finaliza o ciclo de quatro obras épicas de Richard Wagner, designado por O anel dos Nibelungos. Na foto, uma encenação contemporânea pelo Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, sob a direcção artística de Valery Georgeev Créditos/ Teatro Mariinsky

Lohengrin, ópera de Wagner, foi utilizada como música de fundo de um discurso de Ricardo Alvim, secretário especial da Cultura do governo brasileiro, transmitido em directo nas redes sociais, em que abundavam as citações de Goebbels. Na sequência, Jair Bolsonaro, que durante a transmissão o elogiou por diversas vezes, acabou por o demitir, no dia seguinte, pela «infelicidade» das suas declarações. É a hipocrisia, o cinismo destes novos fascistas de fascismo sim, mas devagar, lá mais para a frente, enquanto vão colocando pedras nessa estrada.

Ricardo Alvim demonstrou a sua conhecida incultura referindo Lohengrin como a última ópera escrita por Wagner. Foi a terceira, na realidade a sua sexta ópera depois de As FadasAmor Proibido e Rienzi, ainda sem as inovações wagnerianas de Navio Fantasma e Tannhäuser, que viriam a marcar a história da música e que antecederam Lohengrin. Nada que cause espanto. Estava a utilizar Wagner, como os nazis o fizeram com contumácia, para sublinhar o conteúdo nazi-fascista do seu comentário.

Continua a ser vulgar associar Wagner aos nazis pelo anti-semitismo que em várias ocasiões manifestou. Há mesmo quem considere a sua música anti-semita e vá até mais longe, relacionando-o com o Holocausto pelo abuso da sua música pelas elites nazis e o seu uso por alguns dos chefes dos campos de concentração. Curiosamente, a última ópera escrita por Wagner, Parsifal, na sua primeira apresentação em Bayreuth foi dirigida por Hermann Levi, um maestro judeu escolhido por ele. Outro judeu, Jacob Rubinstein, foi o seu principal assistente musical. Muitos outros judeus, escritores e filósofos, conviveram com Wagner e por ele eram admirados. Mais significativo é não haver uma única personagem anti-semita nas óperas de Wagner. Desde sempre é notória a ambivalência do genial compositor alemão com o judaísmo e o semitismo.

Concorrem para a vulgata de a música de Wagner ser anti-semita o Festival de Bayreuth, quando começou a ser dirigido por Winifred, mulher do seu filho Siegfried – que morreu em 1930 – e convicta nazi, amiga pessoal de Hitler, julgada e condenada depois da queda do Reich; e um opúsculo escrito por Wagner, O Judaísmo na Música. Na base desse texto está a sua péssima relação com Meyerbeer, compositor judeu alemão de escola italiana, que alterou mesmo o seu nome, de Jacob Liberman para Giacomo. Meyerbeer era um bem-sucedido compositor mas ainda mais bem-sucedido homem de negócios, dominava completamente a cena artística em Paris. Elogiou Wagner quando este estava em Dresden. Quando Wagner vai para Paris procurando êxito e reconhecimento tudo lhe corre mal, acabando preso por dívidas. A representação de Tannhäuser foi um fracasso fustigado pela crítica o que, pela influência de Meyerbeer no panorama musical francês, Wagner lhe atribuirá e nunca perdoará. Outra razão é defesa da ópera alemã contra a influência da ópera italiana de que Meyerbeer era representante. Nenhum desses factos o desculpa de ter feito, no referido opúsculo, afirmações execráveis e inaceitáveis: «o judeu é por si próprio incapaz de se expressar artisticamente» […] «nem pela aparência, nem pela sua linguagem, e muito menos através de seu repertório musical».

Wagner é uma personalidade complexa, egocêntrica, com uma vida turbulenta pouco abonatória, o que o coloca na imensa galeria de artistas em que as considerações negativas sobre as suas personalidades não devem embaciar a qualidade artística – o que, de modo algum, o exime das justíssimas críticas ao seu anti-semitismo, ressalvando sempre a sua não tradução nos seus relacionamentos pessoais –, sublinhando-se a traço grosso que a sua música é estética e politicamente progressista, onde não há uma única personagem que personifique negativamente os judeus. Alguns críticos e estudiosos, mesmo ressalvando Wagner não ter escrito nenhuma ópera anti-semita, esmiúçam todas as suas óperas para especulativamente forçarem a realidade e descobrirem essa atitude antijudaica, em duas personagens: Mime, de O Anel dos Nibelungos, que subliminarmente teria sinais de estereótipos judeus, manifestamente uma afirmação especulativa com intenções forçadas, e o crítico pernóstico Beckmesser de Os Mestres Cantores de Nuremberg, na ópera um personagem menor e que é um alemão cristão – o que é esquecido por esses críticos. Note-se, duas personagens no meio de dezenas das quatorze óperas que escreveu considerando-se as quatro da tetralogia O Anel dos Nibelungos. O prolixo anti-semitismo dos escritos de Wagner nunca contaminou nem as suas relações pessoais nem a sua música.

É singular que muito se fale do anti-semitismo de Wagner e pouco se refira a sua actividade revolucionária ao lado de Bakunine, que lhe valeu fugas e deportações. Tal como pouco se investiga a influência por ele recebida do pensamento filosófico, político e estético de Rousseau, em particular dos seus Écrits sur la Musique1, que Mário Vieira de Carvalho refere no seu excelente ensaio «O rasto de Rousseau na teoria e dramaturgia wagneriana»2.

A sua obra magna, O Anel dos Nibelungos, é um drama que condensa a história da sociedade desde o aparecimento da propriedade privada. Wotan impõe o poder, garantindo-o numa só pessoa, simbolicamente representado pela sua lança. Quando Siegfried a quebra está a quebrar esse contracto social. Siegfried é, de certo modo, o bom selvagem de Rousseau, aplaudido por Bakunine como herói proletário.

Bernard Shaw escreve uma excelente análise do Anel dos Nibelungos3 para tornar a tetralogia acessível e compreensível a todos. Lê o Anel como uma alegoria marxista assimilando os nibelungos ao proletariado, Alberich aos capitalistas, os gigantes ao campesinato, os deuses à aristocracia, Siegfried ao homem novo que vai destruir o sistema capitalista. A destruição da Walhala é o colapso do capitalismo em resultado das suas contradições.

Em Israel, onde o racismo contra os palestinianos4 é um facto agora inscrito na sua Constituição, a música de Wagner está proibida, embora se possam adquirir registos discográficos. Em 2001 Daniel Barenböim, maestro e pianista argentino que tem a cidadania israelita, fundador com Edward W. Said da West-Eastern Divan Orchestra, uma orquestra de jovens músicos árabes e judeus, desafiou essa proibição incluindo o prelúdio de Tristão e Isolda no programa. A contestação começou imediatamente na sala, a que se seguiram críticas, insultos, ameaças, boicotes, o vulgar numa sociedade totalitária.

Estão publicadas em livro5 as conversas de Barenböim com Edward W. Said sobre as artes e a sua relação com a sociedade, onde o músico tem uma lúcida leitura de Wagner, explicando os motivos que o levaram a incluí-lo no programa do concerto. “A realidade é que Wagner era um anti-semita execrável. Mas os nazistas usaram e abusaram das ideias e dos pensamentos de Wagner como ele nunca poderia ter imaginado (…) o anti-semitismo não foi inventado por Hitler e não foi inventado por Wagner. Existia por gerações e gerações, séculos antes. A diferença do nazismo foi a de ter posto em prática um plano sistemático de extermínio dos judeus. Não aceito que Wagner seja responsável por isso. Também é preciso dizer que nas óperas de Wagner não há um só personagem judeu, não há um só comentário anti-semita (…) é preciso separar o anti-semitismo de Wagner do uso que os nazis fizeram dele”.

É tempo de se ouvir Wagner, reabilitá-lo de um injusto labéu que ainda hoje se lhe cola e o faz ser proibido pelo regime sionista, o que não deixa de ser irónico e cínico sabendo como os sionistas trocavam galhardetes com os nazis6, chegando mesmo a com eles negociarem na altura em que os judeus eram deportados e exterminados nos campos de concentração.

  • 1.Écrits sur la musique, Jean-Jacques Rousseau, Stock Musique (1979).
  • 2.Razão e Sentimento na Comunicação Musical, Mário Vieira de Carvalho, Relógio D’Água (1999).
  • 3.The Perfect Wagnerite: a Commentary on the Ring of Nibelung, Bernard Shaw, Wildsidepress (1898; 2003). Há uma edição disponível online no portal marxists.org.
  • 4.Os Palestinianos, os Novos Judeus, Helena Salem, Livros Horizonte (1978).
  • 5.Parallels and Paradoxes, Explorations in Music and Society, Edward W. Said/Daniel Barenböim, Bloomsbury Publishing (2004)
  • 6.Em 1933, a Federação Sionista da Alemanha (ZVfD, de Zionistische Vereinigung für Deutschland) enviou uma declaração ao Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado em Nuremberga, entre 30 de Agosto e 3 de Setembro de 1933, em que afirmava que «um renascimento da vida nacional como o que está a acontecer na vida alemã […] deve também acontecer na nação judaica. A base de um novo Estado Nazi deve também ocorrer na formação de um Estado Nacional Judaico. Com os princípios de um novo Estado Nazi fundado no princípio da raça, devemos enquadrar a nossa comunidade com natureza similar para que se possa estruturar e desenvolver uma Pátria Judaica». A pátria judaica era Israel, com fronteiras redescobertas na leitura do Génesis. Os nazis retribuíram os elogios. Reinhardt Heydrich, chefe dos Serviços de Segurança das SS, proclamou: «Devemos dividir os judeus em duas categorias: os sionistas e os partidários da assimilação. Os sionistas defendem uma concepção de estado rigorosamente racial, mediante a emigração para a Palestina, prontos para construir o seu próprio Estado […]. Os nossos melhores votos e a nossa melhor boa vontade oficial para que o consigam». Poucos dias antes do congresso nazi, a 25 de Agosto de 1933, fora assinado entre a ZvfD e o governo nazi o «Acordo de transferência» ou «Acordo de Haavara» (da palavra hebraica com o mesmo significado). Previa a emigração de cerca de 60 mil judeus para a Palestina, entre 1933 e 1939, a fim de aí possibilitar o estabelecimento de um estado judaico. Ver entrada «Haavara Agreement», Wikipedia.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

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Artes, Bella Ciao, Cultura, Humanidade, música, resistência

Assassinaram a BELLA CIAO, A BELLA CIAO está viva !!!

Partigiani

Sabemos, todos devíamos saber, que a ideologia burguesa ataca e cerca sem desbarato de tempo toda a resistência à abominação desta sociedade sem dignidade. Combate todo e qualquer sinal de resistência, de qualquer forma de resistência ao pensamento dominante, com o objectivo último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Vulgar é a rescrita da história para rasurar a heroica luta dos povos pela emancipação, pelo fim da exploração do homem pelo homem. Banal o bombardeamento diário feito pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais, concentrados pelos gigantescos grupos económicos em grandes empresas mediáticas que constroem realidades para ocultar a realidade. Comum a bastardização da cultura pelas indústrias culturais e criativas, moinhos onde nas suas rodas dentadas se reduz a pó a cultura para fazer luzir o entretenimento que não exige reflexão nem sintoniza sentimentos e tudo se afundar num perverso gosto homogeneizado e acéfalo.Um totalitarismo que até pode dispensarditadores e caudilhos, pulsa fortemente nos sistemas democráticos com o objectivo de reduzir e anular o espectro do debate e das ideias.

O combate a este estado de sítio é duro, exigente. Há que reconhecer que a direita tem tido êxitos nessa batalha e que muita esquerda está colonizada pelo pensamento de direita.

Hino de resistência

Versão original da Bella Ciao

Uma das formas mais sofisticadas e eficazes dessa ditadura do pensamento é prostituir, com as ferramentas do mercado, a cultura. Exemplo recente é a castração da Bella Ciao, essa bela e comovente canção dos partigiani que lutaram com denodamento contra o fascismo. Apropriaram-se dela para a usarem como banda sonora da série televisiva Casa de Papel. Descontextualizaram o seu potencial revolucionário para a tornarem um fetiche da cultura de massas desligada da cultura popular e de resistência. Colocaram-na nos top ten em muitos países hispânicos e de língua portuguesa.

Canta-se e dança-se ao som da Bella Ciao indiferentes aos seus belos e comoventes versos: Bella Ciao (adeus Bela) / Esta manhã, acordei / encontrei um invasor // Oh, guerrilheiro, leva-me contigo / Bella CiaoBella Ciao,Porque sinto que vou morrer // Se morrer como membro da Resistência / Enterra-me como membro da Resistência // Enterra-me no alto das montanhas / À sombra de uma bela flor/ Bella CiaoBella Ciao / As pessoas que passarem / Dirão: que bela flor!// Essa será a flor da Resistência/ Daquele que morreu pela liberdade (tradução livre).

Ela move-se!

Com A InternacionalBella Ciao era o canto dos partigiani, socialistas, anarquistas, sobretudo comunistas. Eram os hinos da resistência italiana. Hoje Bella Ciao é um hit de A Casa de Papel, cantada em vários momentos-chave da trama pelos personagens que vão assaltar a Casa da Moeda de Madrid, como se tivesse sido escrita para essa série. Destrói-se a história, a grande e bela história da Bella Ciao,esvaziando o seu conteúdo subversivo, o seu significado antifascista para a tornar um produto de consumo equivalente às centenas de canções de amor filistino de um qualquer Tony Carreira.

Assassinaram a Bella Ciao com a mesma frieza com que têm assassinado os milhões de mulheres e homens que lutaram e lutam para transformar a vida, devolver à humanidade a humanidade. Para esses resistentes de ontem e hoje Bella Ciao está viva. Contra os ventos da história desfavoráveis devemos continuar a lutar com a convicção de Galileu frente ao tribunal da Inquisição: No entanto, ela [a Terra] move-se 

Em 1971, Milva canta uma versão da Bella Ciao homenageando a Resistência numa demonstração pública das suas simpatias políticas

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caridade, concertação social, Gabrielli, Geral, Haendel, Haydn, Leonard Bernstein, música, natal, Saint-Saëns, Salário Minimo

Natal Sugestões Musicais e de uma prenda no sapato de todos os portugueses

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Presépio de Rosa Ramalho

Com o espírito de natal a sobrevoar o calendário e o quase ensurdecedor badalar dos sinos que anunciam um pequeno e frágil interregno num universo em que guerras directas e indirectas asseguram a continuidade de um sistema da exploração dos homens e dos recursos materiais e imateriais para manter a sobrevivência de um sistema desumanizado em que essas riquezas se vão progressivamente acumulando num grupo cada vez mais restrito, que sugestões culturais fazer que interferiram mínima mas positivamente no ruído desse frenético vai e vem natalício que em muitas partes do mundo é frágil ou inaudível?

Por cá, haverá sempre espaço para sair das ruas de iluminações acrescentadas que assinalam a época, ir ouvir música que naturalmente também tem essa marca. Haverá por todo o país, em todas as cidades, vilas e aldeias um momento musical relacionado com o natal. Enumerá-los é uma quase impossibilidade. Registem-se alguns, centrados em Lisboa e Porto para contornar essa inexequibilidade.

O Messias de Haendel, uma narrativa dramática em torno do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo é uma obra prima e um dos temas recorrentes da época natalícia e pascal. É um dos mais populares oratórios escritos por Haendel, ainda que ultrapasse as fronteiras típicas de uma definição estrita de “oratório”. Tem uma forte componente teatral que provocou grande controvérsia na sua primeira apresentação em Dublin e nas sequentes em Londres. A Aleluia  de Messias  https://youtu.be/C3TUWU_yg4s é um dos trechos musicais com maior reconhecimento universal.  

Pode ouvir o Messias de Haendel no dia 16 no Fórum Luísa Todi em Setúbal e no dia 17 no Grande Auditório do CCB e a 18 no Coliseu do Porto, pela orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Leonardo Garcia Alárcon, o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, maestro do coro Jorge Carvalho Alves, e os solistas Joana Seara-soprano, Carolina Figueiredo-meio soprano, Marco Alves dos Santos-tenor, André Henriques-barítono.

Em Lisboa, no dia 15 de Dezembro às 21h30 na Igreja da Graça, Lisboa O Ensemble Bomtempo (alunos da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional) e a Orquestra de Câmara do Conservatório, músicos jovens, muito prometedores e com anunciado futuro que dirigidos por Nathanael Júnior, interpretam a Oratória de Natal de Saint-Saens. https://youtu.be/j6FB6VTDR-w Obra da juventude do compositor, que foi um menino prodígio, dividida em 10 andamentos para cinco solistas, coro, orquestra de cordas, órgão e harpa. O concerto encerra com o Tantum Ergo também de Saint-Saëns. Um aviso a entrada é livre, está sujeita à lotação disponível.

Na Fundação Gulbenkian, também a 15 de Dezembro a Oratória de Natal de Johann Sebastian Bach com o Coro e a Orquestra Gulbenkian dirigidos por Michel Corboz e os solistas Maria Cristina Kiehr-soprano, Marianne Beate Kielland-meio soprano, Tilman Lichdi-Tenor, Peter Harvey- Barítono. A Oratória de Natal https://youtu.be/h6qtBGqjyNU de J. S. Bach tem na sua base muita música escrita pelo compositor em anteriores cantatas que recupera, adapta e transforma, uma prática habitual em Bach que a faz com a sua enorme genialidade.

Ainda na Fundação Gulbenkian, nos dias 20, 21 e 22, Músicas de Natais de Todo o Mundo, na voz de Sophia Escobar, acompanhada pelo Coro e Orquestra da Fundação Gulbenkian dirigido por Jorge Matta. Canções escritas por Leonard Bernstein https://youtu.be/lsOowKrGJ8I , Andrew Lloyd Webber, Frederick Loewe, Alan Silvestri, John Rutter, Howard Blake, Robert Shaw e Robert Russell Bennett.

A orquestra e o coro da Fundação Gulbenkian com a direcção de Jorge Matta estarão também na Igreja de São Roque, no dia 31 de Dezembro com o Te Deum Laudemus de Bráz Francisco de Lima, numa primeira audição moderna desse compositor que foi enviado por D. José para estudar em Itália. Tem obra pouco conhecida e com arquivo escasso, só se conhecem dez partituras. Solistas Carla Caramujo-soprano, Carolina Figueiredo- meio soprano e Manuel Rebelo-barítono.

No Porto, na Casa da Música o natal começa a dia 14 com Christmas Song Book, uma selecção das músicas tradicionais mais ouvidas nesta quadra. Do Silent Night a Santa Claus Is Coming to Town, de White Christmas a Blue Christmas de Let It Snow a Jingle Bells, https://youtu.be/7spkFpFdIK0 não falta (quase) nada do que foi consagrado pela tradição anglo-saxónica, muitas recuperadas pelo jazz.

A 16, a Banda Sinfónica Portuguesa, dirigida por Francisco Ferreira e o Coro Infantil da Academia de Música Costa Cabral, classe de Patrícia Silva, mergulham no reportório do espírito natalício com temas inspirados na música latino-americana, no folk inglês, no ballet clássico. Um concerto com composições de James Barnes, Jorge Salgueiro, Philip Sparkes, Leroy Anderson, Alfred Reed e Bert Appermon.

A 23, a Orquestra Barroca da Casa da Música e o Coro da Casa da Música com a direcção Laurence Cummings dão um concerto a que não falta a 1º parte do Messias de Haendel e se farão ouvir Heinrich Biber Duas Fanfarras, Michael Praetorius Wie schön leuchtet der Morgenster, Uns ist ein Kindlein heut gebo e In Dulci jubilo, https://youtu.be/pHRFyYzOFNQ Andrea Gabrieili O Magnum Mysterium e o The King Shall Rejoice de Haendel.

Em Figueiró dos Vinhos a Orquestra Clássica do Centro, em parceria com a Associação das Vítimas de Pedrógão Grande, assinala o Dia de Natal com um concerto com entrada livre a realizar-se na Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos, no dia 25 pelas 17h00. A Orquestra Clássica do Centro será regida pelo Maestro Cesário Costa com a participação da soprano Marina Pacheco e do tenor Sérgio Martins.

Das obras que serão interpretadas destaque-se Op. 6 nº 8 de Corelli; Mit Würd und Hoheit https://youtu.be/9GMegjPz_g0 da A Criação, de J. Haydn; Laudate Dominum, de W. A. Mozart; Panis Angelicus, de Cesar Franck; Avé Maria, de Caccini.

Muitos outros e bons concertos, com o Natal por tema, irão certamente acontecer ao pé da sua porta. Faça um intervalo nos seus preparativos natalícios para os ouvir.

Com estas, muito parcelares sugestões culturais, até para o ano com um desejo que é uma proposta bem enquadrada no espírito da época e que seria uma verdadeira e de bom quilate prenda de Natal para todos os portugueses e para Portugal. Quando os empreendedores lusos andam todos excitados e sobressaltados com a proposta dos 600 euros para salário mínimo, acabou fixado em 580 euros, porque não discutir o salário máximo?(*) Uma ideia de Roosevelt que, em 1933, propôs que quem recebesse de rendimento mais de 25 mil dólares/ano, uns 400 mil dólares / 339 600 euros actualmente, seria taxado a 100%. Acabou por ser fixada uma taxa de 97%, o que reduziu desigualdades e deu ao Estado capacidade para investir directamente e apoiar os investimentos privados produtivos, para acabar com a parasitagem que voltou em força com as políticas económicas neoliberais, postas sobretudo em prática pelos famigerados Reagan-Thatcher. Uma proposta que bem se enquadra no espírito natalício, embora se calcule que os 0,002% (provavelmente ainda menos) de portugueses com rendimento superior aos € 30 000/mês (número redondo, pouco mais que 50 vezes o salário mínimo estabelecido para 2018), de voz grossa e recorrendo aos seus vassalos e mercenários, tocariam freneticamente os sinos a rebate anunciando que o propalado ecumenismo do Natal iria ser queimado em praça pública. O Natal é o veículo para essa gente expurgar a alma com a caridadezinha! https://youtu.be/ZHieMBabirY

(*) O salário máximo não o é em sentido estrito. É assim chamado para facilitar a comparação com o salário minimo,. O mais correcto seria chamar-lhe remuneração máxima porque é a soma de todos os rendimentos, como julgo estar claramente expresso no texto. Um valor anual que foi dividido por doze meses para se fazer uma comparação entre salário minimo/salário máximo para tornar mais visível o ponto mais baixo e o mais alto entre o menor e o maior rendimento anual.

(publicado em AbrilAbril, excepto a nota (*)

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Artes, Cultura, Fausto Neves, Geral, Literatura, Mão Morta, música, Músicos do Tejo, Política, teatro

Sugestões Culturais Julho

Leonardo da Vinci

 

 

Sugestões Culturais para o mês  de Julho publicadas no AbrilAbril e texto do comunicado do MPPM cujo link falhou

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Artes, cinema, Cultura, Geral, Literatura, música, museus, teatro

Sugestões para os Tempos mais Próximos

Sugestões culturais sem milagres, visões e aparições. Aqui os milagres, visões e aparições são realidades bem palpáveis, visitáveis, legíveis, audíveis.

baptista bastos

Comece-se pelo livros, motivo e opção óbvios, a morte de Baptista-Bastos. Sem ele e a arte e prazer de o ouvir contar estórias ao vivo ficam os livros. Vários dos seus melhores romances, entre outros No Interior da Tua Ausência, A Colina de Cristal, Cão Velho entre Flores, Cavalo a Tinta da China, encontram-se disponíveis (estarão todos?) nas livrarias. O que se espera é que se faça uma reedição da Biblioteca Baptista-Bastos que a Asa pela mão de um editor atento e esclarecido, o Manuel Alberto Valente, realizou no alvorecer do séc. XXI, que agora deveria abranger os últimos romances e crónicas. Fica a sugestão.

No cinema o destaque vai para os últimos dias do IndieLisboa, com propostas cinematográficas bem interessantes a decorrer nos cinemas São Jorge, Ideal e Cineteatro Capitólio, na Cinemateca Portuguesa e na Culturgest. Consulte o programa  http://indielisboa.com/programacao-2017/ , até dia 14 quando encerra ainda tem muito por onde escolher. O outro destaque é para o ciclo Kenji Mizoguchi no cinema Nimas, Lisboa e no Teatro do Campo Alegre, Porto e terá continuidade em Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Foz. São os melhores filmes desse realizador que em Contos de Lua Vaga, fez um retrato sem concessões da animalidade e barbárie do homem em situações limite de guerra no contexto da  guerra civil no século XVI, na origem do Japão actual. Uma obra- prima que ganhou o Leão de Prata em Veneza o que deu impulso significativo ao culto da cinematografia japonesa e de Mizoguchi. A crueldade humana volta a ser tema, agora em tempo de paz, nos Amantes Crucificados.

 

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Os Amantes Crucificados, Kenji Mizoguchi

Todo o amor sofre castigo até ser condenado à pena de morte por crucificação. Um filme em que o amor é exaltado optando os amantes pela morte para não renegarem a paixão em que se consomem. A crueldade já não física mas social e moral continua a ser  seu tema em As Mulheres de Quem se Fala, num belíssimo cenário arquitectónico de uma casa de gueixas. O ciclo completa-se com outros filmes  como Festa em Gion, A Senhora Oyu, A Imperatriz Yang Kwei Fei, O Intendente Sansho, Rua da Vergonha (1956) e O Conto dos Crisântemos Tardios. Um ciclo a não perder para ver ou rever Mizoguchi. Consultem os programas onde já está a decorrer em Lisboa http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-espaco-nimas/, e no Porto http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-teatro-campo-alegre/ . Nas outras cidades referidas, cinéfilos estejam atentos.

No teatro o grande destaque é para Teatro O Bando com uma leitura bem original do O Inferno da Divina Comédia de Dante, com encenação de João Brites, até 4 de junho no Teatro Nacional Dona Maria II. A 19 de maio no Teatro Municipal de Almada- Joaquim Benite, uma oportunidade para quem não conseguiu ver, as salas estiveram sempre esgotadas, Jardim Zoológico de Vidro de Tennessee Williams, dos Artistas Unidos com encenação de Jorge Silva Melo.

almada negreiros

Nas exposições continua até 5 de Junho, José Almada Negreiros, uma Maneira de ser Moderno. Outra exposição que merece toda a atenção é Victor Palla e Bento d’Almeida Arquitecturas de Outro Tempo, até 4 de junho no Centro Cultural de Belém, sobre a  obra do atelier desses dois arquitectos que se celebrizaram pela introdução em Portugal do modelo americano do snack-bar, o Galeto é exemplar no seu desenho que resiste ao tempo. Foram responsáveis pela modernização de inúmeros estabelecimentos comerciais, fábricas, escolas primárias, habitação permanente (moradias unifamiliares e edifícios de habitação multifamiliar) e temporária (hotéis e aldeamentos turísticos). Victor Palla pelo seu notável trabalho em muitas outras áreas, design de equipamento e gráfico, pintura, fotografia em que se destaca um livro feito em colaboração com Costa Martins,

vitor palla

Lisboa, Cidade Alegre e Triste, com poemas de Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, uma obra-prima de fotografia e de arranjo gráfico, merece uma exposição retrospectiva de toda a sua extensa obra.

Agora quando o fascismo, que está sempre nas entranhas do capitalismo, volta a rondar em força  o mundo, para sabermos o que todos sabemos que Portugal não é um país de brandos costumes e porque não se deve nunca  apagar a memória dos anos negros da ditadura do Estado Novo e dos seus safanões a tempo, são de ver as exposições Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz, no Atelier-Museu Júlio Pomar, tendo por ponto de partida o Almoço do Trolha de Júlio Pomar e os tempos de crise e austeridade, apresenta obras de artistas contemporâneos, André Romão, Carlos Bunga, Igor Jesus, Joana Bastos, João Leonardo, João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, Pedro Barateiro e Rodrigo Oliveira. Lembrando tempos mais remotos que continuam a ter ecos na actualidade, casos de escravatura continuam a existir em Portugal sobretudo no trabalho agrícola, vejam-se as exposições Racismo e Cidadania, no Padrão dos Descobrimentos e Testemunhos da Escravatura na Academia Militar no âmbito de Lisboa, Capital Ibero-Americana da Cultura.

No Museu Nacional de Arte Antiga duas exposições a ver: A Cidade Global- Lisboa no Renascimento e Giovanni Antonio Canal IL CANALETTO

“O Canal Grande a partir do Campo San Vio”,

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um pintor que usava um sistema nas origens muito remotas das máquinas fotográficas para reproduzir as imagens que depois transpunha para a pintura com grande rigor o que permitiu que o centro de Varsóvia completamente arrasado pelos nazis fosse reconstituido a partir das pinturas de Canaletto.

A não esquecer o próximo dia 18 é Dia Internacional dos Museus, comemorado em todos os museus do país. Uma oportunidade a não perder.

Para os alfacinhas, antecipando as Festas da Cidade, inaugurou no dia 9  no Museu da Cidade-Santo António, uma interessante exposição sobre Santo António em Banda Desenhada. José Garcês, Raphael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Filipe de Abranches, João Paulo Cotrim e Pedro Burgos, Marcos Farrajota, Nuno Saraiva, Vítor Silva entre outros estão extensivamente representados.

A fechar exposições de artes deixando muitas dentro da gaveta, a de Helena Lapas  Matéria do Tempo na galeria Ratton e Sérgio Pombo Agora,  no Teatro da Politécnica.

Na música, na Casa da Música no Porto compositores portugueses contemporâneos, com obras recentes outras em estreia, encomendadas por essa instituição, podem ser ouvidos em três concertos com o título genérico O Estado da Nação. A Orquestra Sinfónica, o Remix Ensemble e a Orquestra Jazz de Matosinhos, visitam um reportório onde se encontram novas versões de obras de João Pedro Oliveira e Pedro Amaral,  Luís Tinoco, Cândido Lima, Jorge Peixinho e Daniel Moreira entre outros.

britten

Um alerta com alguma expectativa para Peter Grimes de Benjamin Britten no Teatro Nacional São Carlos nos dias 30 de maio, 1,3, 5 e 7 de Junho. É uma das grandes óperas do séc. XX que está em todos os reportórios operáticos depois do seu sucesso inicial, que é também o primeiro grande sucesso de Britten junto do público e da crítica. O cenário é uma aldeia piscatória fictícia em que o pescador Grimes enfrenta a acusação da morte do seu aprendiz debatendo-se em grande angústia e solidão contra o veredicto da sua comunidade. Acentuando a exclusão social do personagem central, Britten deixa ao público decidir qual a verdadeira natureza de Peter Grimes.

A fechar, na Antena 2 aos sábados às 22h00 com repetição às 2ª feiras às 13h, o programa de rádio Ao Correr do Som, de Marcos Magalhães e Marta Araújo, os promotores e directores de Os Músicos do Tejo. Um programa para descobrir a música em perspectivas cruzadas, algumas bastante inesperadas, que abrem novos horizontes para audições musicais estimulantes. Esta semana o 7º episódio, os anteriores podem ser encontrados na RTP-Play.

( sugestões feitas em AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt/ 12 de Maio)

 

 

 

 

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Carnaval, Cultura, Geral, Heinrich Ignatz Biber, música, Música Barroca, Polifonia

Carnaval no séc. XVII

Carnaval

pintura de Brueghel, O Velho

 

Heinrich Biber (1644-1704) foi um célebre violinista e compositor. Começou a sua carreira musical em Kremsier, na Boémia onde foi nomeado mestre capela da corte do Bispo de Olomouc, cargo que ocupou até 1670 para transitar para a corte do Arcebispo de Salzburgo, até ao fim da sua vida.

Foi um dos grandes polifonistas da tradição alemã e a sua técnica contrapontística alcançou a excelência. As Die Rosenkranz Sonaten, Sonatas do Mistério são disso um excelente exemplo. Sonatas em que Biber introduz várias inovações no modo de tocar violino que ainda perduram.

Conhecidíssima também é a Missa Salisburgensis, um extraordinário e raro exemplo de música polifónica, expressão sonora em glorificação do poder político e religioso. Tocada na Catedral de Salzburgo em 1682, nas comemorações dos 1100 anos do arcebispado, que foram forte declaração de poder do império dos Habsburgo e do Arcebispado de Salzburgo que se afirmava como grande cultor das tradições romanas e venezianas mantidas e enriquecidas com a sua prática.

A Missa Salisburgensis, escrita no apogeu do barroco, corresponde a esse desígnio de afirmação do “Estado da Igreja” de Salzburgo como o primeiro entre os seus pares.

A sua concepção espacial utilizando os quatro órgãos da catedral, exigiam um enorme investimento em músicos e cantores, para dar expressão à monumentalidade exigida. Uma gravura da época regista o evento. As duas tribunas de órgãos onde foram colocados dois coros apoiados por instrumentos de cordas. À sua frente duas orquestras de instrumentos de sopro e cordas., tendo em baixo, os trompetistas. Não é difícil imaginar a Catedral e todos os assistentes mergulhando extasiados nas ondas sonoras que propagavam e celebravam o poder político e divino, unidos para mostrar ao mundo a sua glória e desejo de eternidade que acabaria perdida nos ventos da história.

O autor dessa extraordinária obra refugiou-se no anonimato, mas todos os especialistas, todos os estudiosos apontam para Heinrich Biber, depois de muito analisados o estilo a história, convictos que seria espantoso se um dia se descobrisse, o que é uma quase total improbabilidade, que o autor não fosse Heinrich Ignatz Biber. Ouçam a Missa Salisburgensis tocada pela Musica Antiqua Koln, de Reinhard Goebbel e os Gabrielli Consort e Players dirigidos por Paul McCresh.

Estamos no Carnaval, um bom momento para marcar encontro com Biber. O Ars Antiqua Áustria, em 1995, reuniu num disco, que agora não deve ser fácil de encontrar, a etiqueta Symphonia desapareceu, várias composições profanas de Biber por eles atribuídas a festejos aristocráticos do carnaval e ofertadas ao povo, por isso intitularam o disco de Un Carnevale a Kremsier. Aceite-se essa proposta para se ouvir a Trombet-Unit Musicalischer Taffeldienst à 4, a composição que abre o disco. Todo o virtuosismo de Biber é bem audível nessa pequena composição.

 

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Aragon, Artes, Barbara, Bartolomeu Cid dos Santos, Catherine Sauvage, Cultura, Françoise Hardy, Georges Brassens, Geral, Marc Ogeret, música

Não há amor feliz

Hoje é dia de solstício que inicia o Inverno. Um tempo de paisagens frias e vazias, tempo desolação que muito tem sido celebrado em poesia e na música. O mais óbvio é a memória do Winterreise/Viagem de Inverno de Schubert, viagem mais solitária de todas as viagens que percorre vinte e quatro canções onde os sonhos fenecem, as notícias ampliam a amargura e sepultam qualquer esperança. As interpretações desse ciclo de canções sobre poemas de Wilhelm Muller, são inúmeras e excelentes como as de Peter Schreier/ Sviastoslav Richter, Dieter Fisher-Dieskau/ Jorg Demus, Mathias Goerne/ Alfred Brendel, Hans Hotter/ Gerald Moore. Bartolomeu Cid dos Santos, artista maior, homem de enorme cultura, grande amante da música, não podia ficar indiferente ao Winterreise e fez 24 extraordinárias gravuras, uma por cada canção. Um dia alguém cantará a Viagem de Inverno tendo por fundo essas obras de arte, uma celebração das artes.

Mas para assinalar este primeiro dia de Inverno, para o assinalar aceitando que a desolação é a sua marca maior fomos ao encontro de Aragon e de um seu poema que, de certo modo, é invernal, Il n’y a pas d’Amours Heureux. Georges Brassens, esse trovador nosso contemporâneo escreveu e cantou-o como só ele o sabia fazer e quando os textos das canções tinham um sentido e um valor que o tempo tem corroído.

Depois muitos outros cantaram essa bela canção. Traduzir é muito complexo, ainda mais traduzir poemas. Com alguma audácia e não sendo poeta, longe disso, atrevi-me a escrever uma tradução muito livre do poema de Aragon, com a única pretensão de não trair o poeta, sem pretender “escrever” um poema o que só grandes poeras o poderiam fazer.

Aqui ficam registos de vários cantores a interpretar o poema de Aragon com música de Brassens

 

 Nada é definitivo na vida de um homem

Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração

Quando acredita abrir os braços num abraço

A sombra é a de uma cruz

Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida

A vida é um estranho e doloroso divórcio

 

Não há amor feliz

 

A  vida é um soldado sem armas

Fardado para outros destinos

De pouco serve acordar cedo

Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas

E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

 

Não há amor feliz

 

Meu belo amor meu querido amor minha tristeza

Estás dentro de mim como um pássaro ferido

Quem nos vê passar nada sabe

Comigo repetem essas palavras que gravo

 E morrem de súbito no teu olhar profundo

 

Não há amor feliz

 

É tarde demais para aprender a viver

Os nossos corações unidos choram noite dentro

Quantos desgostos ultrapassámos para conquistar um arrebatamento

Quantos infortúnios experimentámos para escrever esta pequena canção

Quantos lamentos trocámos para arrancar estes sons de uma guitarra

 

Não há amor feliz

 

Não há amor sem dor

Não há amor que não morra

Não há amor que não seque

Não há amor maior que o teu amor pela pátria

Não há amor que não viva entre lágrimas

      Não há amor feliz

     Mas é esse o nosso amor o amor de nós dois

 

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Artes, Ópera, Cultura, Francisco António D'Almeida, Geral, música, Música Sinfónica, Os Músicos do Tejo

Música Clássica/2015

cartaz

Em fim da ano é habitual fazerem-se balanços. Ontem o Ipsilon fez o balanço do ano de 2015 nos vários géneros artísticos, com os dez melhores em cada área.

Na música, na música clássica, figura um compositor português, tocado por um agrupamento português.

Numa selecção de dez discos, colocaram-no em quarto lugar.

O compositor é Francisco António d’Almeida como Il Trionfo d’Amore, o grupo Os Músicos do Tejo com mais uma interpretação de excepção.

Está de parabéns a música portuguesa.

(declaração de interesses: sou pai da Marta Araújo e sogro do Marcos Magalhães, os directores artísticos de Os Músicos do Tejo e fico muito orgulhoso com mais esta distinção)

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Artes, CDU, Festa do Avante, música, PCP

Foi linda a Festa, pá!

 

Para muitos a Festa não existiu, para outros ela aconteceu porque o Marcelo esteve lá, para outros, ainda, ela até se realizou, mas apenas por causa da música, porque ninguém quer saber de política e muito menos do PCP.

Para a maioria da comunicação social aquilo que importa noticiar é a cor dos cortinados da casa de José Sócrates, não se vislumbrando qualquer interesse numa iniciativa que junta centenas de milhares e onde a política, a música, a pintura, a escultura, a fotografia, a dança, o teatro, o cinema, a gastronomia, o artesanato e a ciência fazem da Festa do Avante! um acontecimento único e sem paralelo no nosso país.

No entanto, por muito que a tentem esconder ou menosprezar o seu real significado, nós sabemos que foi linda a Festa, pá!

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Cultura, Jazz, música

Ornette Coleman

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(1930-2015)

Morreu Ornette Coleman.

Nome maior do Jazz, inovador, inconformado, agente da mudança, ficou conhecido como pai do free jazz ao romper regras de harmonia e de ritmo.

O nome de Ornette Coleman fica também associado à história do jazz em Portugal, no seu concerto no Cascais Jazz de 1971, acompanhado de Dewey Redman, Charlie Haden e Ed Blackwell, o contrabaixista Charlie Haden dedica a música «Song for Che» aos movimentos de libertação nacional das colónias portuguesas, transformando o concerto num poderoso momento de resistência à ditadura e de exigência do fim da guerra colonial.

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música, Política, PS

Congresso do PSempre ao sabor da corrente

PS

Parece que no fim-de-semana passado realizou-se um Congresso do PS.

Não consta que tivesse havido grandes novidades e a grande dúvida não residia em questões programáticas, mas antes se algum congressista diria o nome daquele cujo nome não pode ser pronunciado e que, aqui entre nós que ninguém nos ouve, se chama Sócrates. 

Assim, a grande surpresa do Congresso do PS foi a súbita paixão pelo Cante Alentejano e a sua classificação como Património Mundial.

CIMBAL

Mais vale tarde do que nunca, sejam bem-vindos!

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música

Mais música

Foi um amigo que me deu a conhecer este novo trabalho musical, de muito bom gosto, sedutor, capaz de despertar todos os nossos sentidos e abrindo a curiosidade para receber, com toda a atenção, o novo EP “5 Monstros”, de Tio Rex, com data de edição prevista para 1 de Outubro.  

É tão difícil fazer tanto com tão pouco… tarefa só acessível aos predestinados.

 

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Geral, música

Recordar Carlos Paredes

A sua música é porventura do que melhor exprime a alma portuguesa. Carlos Paredes desapareceu do nosso convívio há precisamente dez anos, em 23 de Julho de 2004, mas deixou-nos temas musicais sublimes e perpétuos, de uma beleza rara, clara e profunda. Alguns dos melhores temas da música portuguesa.

Músico do nosso tempo. Mas músico de uma dimensão intemporal. Compositor e exímio executante de guitarra portuguesa. Homem a que à arte associou uma postura de intervenção cívica e política como militante comunista. Quando tal era difícil e doloroso. Uma opção que pagou com o cárcere e a expulsão da função pública.

Paredes deixou-nos obras imortais, impressas em álbuns e CD’s (*) como: “Guitarra Portuguesa” (1967), “Meu País Canções” (1970), “Movimento Perpétuo” (1971), “Concerto em Frankfurt” (1983), “Intervenções Livres” (1986), com António Vitorino de Almeida, “Espelho de Sons” (1988), “Asas sobre o Mundo” (1989), “Dialogues” (1990) com Charlie Aden, “Carlos Paredes / Artur Paredes” (1994), “Na Corrente” (1996). Para além das muitas colaborações com outros artistas. Também a sua participação no cinema foi notável. Como não recordar o tema que interpretou para o filme “Verdes Anos” (1963) de Paulo Rocha?

Diz com quem ele privou que a sua simplicidade desarmava. Como é próprio das almas grandes!

Bem hajas Carlos Paredes pelos maravilhosos momentos de felicidade que nos continuas a proporcionar.

 

 

(*) – informação mais completa sobre a discografia ver aqui

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