Artes, cinema, Cultura, Geral, Literatura, música, museus, teatro

Sugestões para os Tempos mais Próximos

Sugestões culturais sem milagres, visões e aparições. Aqui os milagres, visões e aparições são realidades bem palpáveis, visitáveis, legíveis, audíveis.

baptista bastos

Comece-se pelo livros, motivo e opção óbvios, a morte de Baptista-Bastos. Sem ele e a arte e prazer de o ouvir contar estórias ao vivo ficam os livros. Vários dos seus melhores romances, entre outros No Interior da Tua Ausência, A Colina de Cristal, Cão Velho entre Flores, Cavalo a Tinta da China, encontram-se disponíveis (estarão todos?) nas livrarias. O que se espera é que se faça uma reedição da Biblioteca Baptista-Bastos que a Asa pela mão de um editor atento e esclarecido, o Manuel Alberto Valente, realizou no alvorecer do séc. XXI, que agora deveria abranger os últimos romances e crónicas. Fica a sugestão.

No cinema o destaque vai para os últimos dias do IndieLisboa, com propostas cinematográficas bem interessantes a decorrer nos cinemas São Jorge, Ideal e Cineteatro Capitólio, na Cinemateca Portuguesa e na Culturgest. Consulte o programa  http://indielisboa.com/programacao-2017/ , até dia 14 quando encerra ainda tem muito por onde escolher. O outro destaque é para o ciclo Kenji Mizoguchi no cinema Nimas, Lisboa e no Teatro do Campo Alegre, Porto e terá continuidade em Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Foz. São os melhores filmes desse realizador que em Contos de Lua Vaga, fez um retrato sem concessões da animalidade e barbárie do homem em situações limite de guerra no contexto da  guerra civil no século XVI, na origem do Japão actual. Uma obra- prima que ganhou o Leão de Prata em Veneza o que deu impulso significativo ao culto da cinematografia japonesa e de Mizoguchi. A crueldade humana volta a ser tema, agora em tempo de paz, nos Amantes Crucificados.

 

amantescricificados

Os Amantes Crucificados, Kenji Mizoguchi

Todo o amor sofre castigo até ser condenado à pena de morte por crucificação. Um filme em que o amor é exaltado optando os amantes pela morte para não renegarem a paixão em que se consomem. A crueldade já não física mas social e moral continua a ser  seu tema em As Mulheres de Quem se Fala, num belíssimo cenário arquitectónico de uma casa de gueixas. O ciclo completa-se com outros filmes  como Festa em Gion, A Senhora Oyu, A Imperatriz Yang Kwei Fei, O Intendente Sansho, Rua da Vergonha (1956) e O Conto dos Crisântemos Tardios. Um ciclo a não perder para ver ou rever Mizoguchi. Consultem os programas onde já está a decorrer em Lisboa http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-espaco-nimas/, e no Porto http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-teatro-campo-alegre/ . Nas outras cidades referidas, cinéfilos estejam atentos.

No teatro o grande destaque é para Teatro O Bando com uma leitura bem original do O Inferno da Divina Comédia de Dante, com encenação de João Brites, até 4 de junho no Teatro Nacional Dona Maria II. A 19 de maio no Teatro Municipal de Almada- Joaquim Benite, uma oportunidade para quem não conseguiu ver, as salas estiveram sempre esgotadas, Jardim Zoológico de Vidro de Tennessee Williams, dos Artistas Unidos com encenação de Jorge Silva Melo.

almada negreiros

Nas exposições continua até 5 de Junho, José Almada Negreiros, uma Maneira de ser Moderno. Outra exposição que merece toda a atenção é Victor Palla e Bento d’Almeida Arquitecturas de Outro Tempo, até 4 de junho no Centro Cultural de Belém, sobre a  obra do atelier desses dois arquitectos que se celebrizaram pela introdução em Portugal do modelo americano do snack-bar, o Galeto é exemplar no seu desenho que resiste ao tempo. Foram responsáveis pela modernização de inúmeros estabelecimentos comerciais, fábricas, escolas primárias, habitação permanente (moradias unifamiliares e edifícios de habitação multifamiliar) e temporária (hotéis e aldeamentos turísticos). Victor Palla pelo seu notável trabalho em muitas outras áreas, design de equipamento e gráfico, pintura, fotografia em que se destaca um livro feito em colaboração com Costa Martins,

vitor palla

Lisboa, Cidade Alegre e Triste, com poemas de Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, uma obra-prima de fotografia e de arranjo gráfico, merece uma exposição retrospectiva de toda a sua extensa obra.

Agora quando o fascismo, que está sempre nas entranhas do capitalismo, volta a rondar em força  o mundo, para sabermos o que todos sabemos que Portugal não é um país de brandos costumes e porque não se deve nunca  apagar a memória dos anos negros da ditadura do Estado Novo e dos seus safanões a tempo, são de ver as exposições Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz, no Atelier-Museu Júlio Pomar, tendo por ponto de partida o Almoço do Trolha de Júlio Pomar e os tempos de crise e austeridade, apresenta obras de artistas contemporâneos, André Romão, Carlos Bunga, Igor Jesus, Joana Bastos, João Leonardo, João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, Pedro Barateiro e Rodrigo Oliveira. Lembrando tempos mais remotos que continuam a ter ecos na actualidade, casos de escravatura continuam a existir em Portugal sobretudo no trabalho agrícola, vejam-se as exposições Racismo e Cidadania, no Padrão dos Descobrimentos e Testemunhos da Escravatura na Academia Militar no âmbito de Lisboa, Capital Ibero-Americana da Cultura.

No Museu Nacional de Arte Antiga duas exposições a ver: A Cidade Global- Lisboa no Renascimento e Giovanni Antonio Canal IL CANALETTO

“O Canal Grande a partir do Campo San Vio”,

canaletto 1

um pintor que usava um sistema nas origens muito remotas das máquinas fotográficas para reproduzir as imagens que depois transpunha para a pintura com grande rigor o que permitiu que o centro de Varsóvia completamente arrasado pelos nazis fosse reconstituido a partir das pinturas de Canaletto.

A não esquecer o próximo dia 18 é Dia Internacional dos Museus, comemorado em todos os museus do país. Uma oportunidade a não perder.

Para os alfacinhas, antecipando as Festas da Cidade, inaugurou no dia 9  no Museu da Cidade-Santo António, uma interessante exposição sobre Santo António em Banda Desenhada. José Garcês, Raphael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Filipe de Abranches, João Paulo Cotrim e Pedro Burgos, Marcos Farrajota, Nuno Saraiva, Vítor Silva entre outros estão extensivamente representados.

A fechar exposições de artes deixando muitas dentro da gaveta, a de Helena Lapas  Matéria do Tempo na galeria Ratton e Sérgio Pombo Agora,  no Teatro da Politécnica.

Na música, na Casa da Música no Porto compositores portugueses contemporâneos, com obras recentes outras em estreia, encomendadas por essa instituição, podem ser ouvidos em três concertos com o título genérico O Estado da Nação. A Orquestra Sinfónica, o Remix Ensemble e a Orquestra Jazz de Matosinhos, visitam um reportório onde se encontram novas versões de obras de João Pedro Oliveira e Pedro Amaral,  Luís Tinoco, Cândido Lima, Jorge Peixinho e Daniel Moreira entre outros.

britten

Um alerta com alguma expectativa para Peter Grimes de Benjamin Britten no Teatro Nacional São Carlos nos dias 30 de maio, 1,3, 5 e 7 de Junho. É uma das grandes óperas do séc. XX que está em todos os reportórios operáticos depois do seu sucesso inicial, que é também o primeiro grande sucesso de Britten junto do público e da crítica. O cenário é uma aldeia piscatória fictícia em que o pescador Grimes enfrenta a acusação da morte do seu aprendiz debatendo-se em grande angústia e solidão contra o veredicto da sua comunidade. Acentuando a exclusão social do personagem central, Britten deixa ao público decidir qual a verdadeira natureza de Peter Grimes.

A fechar, na Antena 2 aos sábados às 22h00 com repetição às 2ª feiras às 13h, o programa de rádio Ao Correr do Som, de Marcos Magalhães e Marta Araújo, os promotores e directores de Os Músicos do Tejo. Um programa para descobrir a música em perspectivas cruzadas, algumas bastante inesperadas, que abrem novos horizontes para audições musicais estimulantes. Esta semana o 7º episódio, os anteriores podem ser encontrados na RTP-Play.

( sugestões feitas em AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt/ 12 de Maio)

 

 

 

 

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"Vamos por o Sequeira no Lugar Certo", Adoração dos Magos, António Filipe Pimentel, Artes, Cultura, Domingos Sequeira, Geral, museus, Nuseu Nacional de Arte Antiga, Políticas Museológicas, Sequeira, Série Palmela

O Sequeira e o Lugar certo

Sequeira

 

“Vamos por o Sequeira no Lugar Certo” é uma ideia basicamente interessante pelo apelo que faz à participação cidadã nas políticas do património e é bom que o faça e a incentive. A questão central é como, quando e para quê. Questão central que a campanha lançada pelo Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) não responde nem coloca, mais interessada no seu êxito e até no cortejo de mundanidades que a envolveram e envolvem. Acaba por não colocar Sequeira no lugar certo, coloca a Adoração dos Magos no lugar certo. Se o objectivo fosse colocar Sequeira no lugar certo, a campanha deveria integrar a chamada “série Palmela” de que faz parte e que se completa com mais três quadros: A Descida da Cruz; Ascensão; Juízo Final. Esse seria um projecto museológico coerente e o MNAA, que tem na sua colecção os desenhos preparatórios de todos os quadros, teria real e finalmente colocado Sequeira no Lugar Certo, completando o conjunto de quadros que já possui que são excelentes exemplares de uma pintura que está entre o Classicismo e o Romantismo, onde se encontram estéticas do passado em conflito e unidade com estéticas inovadoras. O ter tido a oportunidade imperdível de adquirir este quadro era a oportunidade imperdível de procurar, custasse o que custasse, houvesse as dificuldades que houvesse, adquirir toda a série Palmela. Nada pode justificar o não o ter feito. No mínimo devia ter equacionado essa questão em defesa do património nacional e antecipando o que poderá vir a acontecer aos restantes.

Com a súbita aparição da Fundação Aga Khan que contribuiu, com pompa e circunstância, com duzentos mil euros, um terço do valor da subscrição pública para a aquisição do quadro A Adoração dos Magos, ficou praticamente garantido o êxito da campanha. São duzentos mil euros que se adicionam aos outros duzentos mil angariados desde Outubro passado. São contribuições sobretudo de pessoas singulares, cerca de oito mil, muitas delas anónimas, como se pode consultar no site da campanha patrocinar.publico.pt. De sublinhar o apelo feito pelo Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira aos seus 8 800 alunos para ajudarem o MNAA nessa iniciativa pelo seu sentido pedagógico e o da Associação Nacional dos Municípios Portugueses e pela Associação Nacional das Freguesias em linha com a actividade cultural do Poder Local que, nestes já longos anos de desinvestimento na cultura pelo Poder Central, muito têm contribuído para que o país não se desertifique culturalmente.

A data de fecho da campanha é em 30 de Abril. A lista das contribuições coloca em evidência o alheamento das grandes empresas nacionais e contribuições individuais dos detentores de meios financeiros substanciais. O mecenato em Portugal é frágil mesmo em situações muito particulares como a Fundação de Serralves, a Casa da Música ou o CCB-Fundação das Descobertas. A prática comum é as empresas surgirem individualmente com uma política de marketing que os destaque pelo que uma angariação pública de fundos onde fiquem mais ou menos diluídas deixa-as quase indiferentes. Talvez a aparição da Fundação Aga Khan os desperte já que pouco tem estado acordados seja para o património cultural, para universidades, para investigação científica, para hospitais, etc. Anote-se a curiosidade da Jerónimo Martins cujo bonzo é tão lépido a opinar sobre os problemas do país, justificar o ainda não ter contribuído por não ter sido contactada!

António Filipe Pimentel, director do MNAA, que quer empunhar a flâmula do museu-bandeira (o que será isso e o que serão os outros museus?) declara-se, emocionado, comovido com uma campanha que “se transformou de um caminho de pedras numa campanha alegre” (…) “um indicador notável da vitalidade do país”. Só não explicou como foi atribuído o valor de 600 mil euros à Adoração dos Magos. Um valor que vai inflacionar o valor de mercado dos outros três quadros. O mercado é o que todos sabemos ser e por isso devia-se ter feito uma avaliação por peritos nacionais ou mesmo internacionais, não só àquele quadro, mas a toda a série Palmela, porque como já foi referido um projecto museológico consistente devia ter o objectivo de a integrar nas suas colecções. Todos conhecemos as manobras do mercado. Por maioria de razão um director de um museu tem a obrigação de saber como Jorge de Brito ao adquirir por mil contos o quadro do Pessoa pintado por Almada Negreiros, valorizou imediatamente a sua colecção de obras de Almada. Ou como a Fundação E(c)lipse fazia valorizar rapidamente as suas aquisições por interposto museu. Ou como a Fundação Berardo valorizou as obras de Cesariny logo depois de as ter comprado.

A obra de arte é filtrada através das galerias, coleccionadores, instituições públicas. Sobre a obra de arte escreve-se em meios de comunica-ção social, generalistas ou especializados, muitos deles suportados pelos seus circuitos comerciais. Essa massa flutuante de informação acaba fixada na História(s) de Arte que desse modo certificam as obras de arte. Na arte a História e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema bancário. Por maior que seja a paixão que uma obra de arte provoque quem a adquirir sabe que está a fazer um investimento com rentabilidade futura garantida. O’Doherty esclarece em, No Interior do Cubo Branco, um interessantíssimo e bem informado estudo sobre esses mecanismos, o papel central dos museus e das galerias na certificação das obras de arte, como isso vale dinheiro e como esses mecanismos são equiparáveis aos da bolsa. Agora, quando se compra a Adoração dos Magos por 600 mil euros, quanto passarão a valer os outros? Se forem comprados separadamente no tempo, cada um valerá mais que o anterior. O céu será o limite, embora em Portugal o céu ser relativamente baixo. É essa a lógica inexorável do mercado. Se a campanha tiver êxito, espera-se que sim, o risco é a definitiva separação da série. Não tendo cuidado do futuro do Sequeira da “série Palmela” à euforia, à animação que rodeou a campanha que irá colocar a Adoração dos Magos no lugar certo , o MNAA, poderá seguir o desalento, o desânimo de nunca se ver o Sequeira no lugar certo. O não se ter feito uma avaliação prévia e pública poderá ter sido uma ligeireza, ainda que impulsionada por boas intenções, mas pode ter altos custos patrimoniais. A bem do nosso património cultural deseja-se forte e sinceramente que isso não aconteça, mas…

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