1% pra a Cultura, Artes, Artes Perféricas, Artes performativas, Crítica de Arte, Cultura, Curadores, Geral, Gestão Cultural, ignorância, Imperialismo Cultural, Indústrias Culturais e Criativas, Marketing, Mercado da Arte, Política Cultural, Programadores

A Cultura nos seus Labirintos

A produção de produtos ditos culturais pelas indústrias culturais e criativas faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística.

Acrise provocada pelo coronavírus e o consequente confinamento social deu enorme visibilidade à crise da cultura, muito anterior mas agora catalisada pela pandemia, e à grave situação laboral da esmagadora maioria dos agentes culturais em que a precariedade da intermitência sem estatuto remuneratório é sistémica, agravada pela ausência de um sistema de segurança social e contributivo compatível com esse estatuto. Foi uma imagem brutal que marcou este interregno em que foram fechados todos os palcos, dos teatros às galerias de exposições, dos museus aos cinemas, etc., onde se exibiam os eventos selados como culturais. Por força da imagem simbólica da cultura, seja o que o que for que se acoberte sobre esse guarda-chuva adquiriu o desespero dos trabalhadores das áreas culturais, muitos deles reduzidos aos mínimos da sobrevivência, uma evidência superlativa em relação aos dos milhares de trabalhadores atirados para o desemprego efectivo ou relativizado pela lay-off, o que até deve fazer questionar o estatuto especial, a notoriedade e visibilidade mediática atribuída aos trabalhadores da cultura no contexto da crise e em relação à enorme mancha de precariedade que alastra no mundo do trabalho. Um tratamento diferenciado que explora a cultura enquanto chancela de diferenciações sociais e a má consciência desta sociedade em que a cultura é cada vez mais inculta, atirada para os circuitos do entretenimento para animar a malta, o que se intensificou com a pandemia em que os tempos vazios da vida em confinamento foram invadidos por uma oferta digitalizada com um volume insuspeitado, em que se despejaram em streaming conteúdos e formatos como se não houvesse amanhã. Uma hiper-oferta que se expandiu na nuvem internética em iniciativas solidárias merecedoras de aplauso mas que também devem ser interpeladas por, consciente ou inconscientemente, serem um sinal do expansionismo da mercantilização do sector cultural, submetido às práticas do capitalismo neoliberal em que a programação cultural é a dos supermercados da cultura, determinada pelo marketing e regida pela eficiência da gestão operacional.

São sucessos que merecem reflexão profunda que acabam por demonstrar que a exigência de 1% para a cultura, reivindicação de grande justeza para que o orçamento para a cultura no Orçamento de Estado (OE) deixe de ser uma sobra, o que resta no OE, não é por si só suficiente para a definição de políticas culturais num estado da arte em que o Estado progressivamente se tem demitido de as traçar por estar capturado pelas forças do mercado, submetido à lógica das indústrias culturais e criativas, em que a única hierarquia cultural, os únicos critérios de excelência são os do que é rentável e vendável, o norte dos gestores e produtores de eventos empenhados não na formação dos públicos mas na angariação de novos públicos, porque o que interessa são os números e não as pessoas, embora se apregoe o contrário, para plantar mais árvores na floresta de enganos em que a cultura se tornou, atacada por um vírus poderosamente invasivo que tudo contamina, esvaziando-a de conteúdo para a amortalhar numa gomosa nulidade.

Progressivamente, a partir de meados dos anos 60, esses agentes culturais passaram a ser os principais intermediários do sector cultural estando sempre entre duas actividades promocionais onde a arte é, sempre e só, mercadoria, e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades. A cultura que começou a estar, ainda que marginalmente, submetida às leis do mercado quando a burguesia adquiriu poder político, libertando-se das tutelas mecenáticas da nobreza e do clero, entrou, a partir desses anos, abertamente nos circuitos comerciais, tornando-se objecto de estudo para muitos economistas porque «as economias da arte constituem uma espécie de terreno de experimentação da pertinência dos conceitos económicos fundamentais»1. Uma perspectiva dominada pela importância económica da cultura, do seu valor económico, do dinheiro, muito dinheiro que pode gerar, em que se anula o seu valor de uso, enquanto factor de desenvolvimento intelectual da sociedade e dos indivíduos que a compõem, em favor do seu valor de troca enquanto mercadoria, em que os produtos e os serviços culturais são bens transaccionáveis nos mesmos termos que outros bens produzidos no sistema económico, sujeitando-se à racionalidade económica do capitalismo neoliberal.

No estado actual da cultura esse é o paradigma vigente em que uma suposta excepcionalidade da cultura desaguou num albergue espanhol em que são equivalentes uma ópera como Os Dias Levantados de Pinho Vargas, com libreto de Manuel Gusmão, ou o abre as perninhas para Deixar o Pimba em Paz de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, os romances de José Rodrigues dos Santos ou Margarida Pinto Coelho e os de Maria Velho da Costa ou Ana Margarida de Carvalho, os musicais de Filipe la Féria ou as peças de teatro dos Artistas Unidos ou do Teatro da Rainha, dos bilhetes postais que a chamada street art planta nas cidades às exposições das galerias de arte e nos museus, uma interminável lista aqui referida aleatoriamente para tornar mais manifesta essa realidade, em que os mais alarves divertimentos ligeiros ao vivo, transmitidos pela televisão, na rádio, em streaming, que ocupam os horários com maior visibilidade. Tudo é selado como cultura, aqui e na Europa Connosco, como se pode verificar na listagem das indústrias culturais e criativas contempladas pelos programas da Europa Criativa. Nesse contexto, em que tudo é cultura para nada ser cultura, em que a cultura é um conceito flutuante, um saco em que cabem todas as indiferenciações, o Ministério da Cultura demite-se refugiando-se numa política de apoio às artes que é um pobre assistencialismo de contestáveis critérios.

Este interregno, esta paragem forçada pela pandemia deve ser um momento para profunda reflexão dos intervenientes nas áreas culturais para se pensar como inverter o estado actual em que se acelera pelas auto-estradas de um bullying cultural do excesso, excesso de actividade editorial, excesso de exposições, excesso de ruído, excesso de imagens, excesso de informação, excesso de comunicação, excesso de oferta e de consumo, todo um excesso que se sobrepõe e se intercepta contaminado pelas inúmeras formas de idiotização desta época obrigada à vertigem da velocidade e da sucessão de modas que travam ou passam ao lado de qualquer análise sustentada, profunda, em favor da estupidez, tornando mais actual que nunca o que Musil escreveu no Homem sem Qualidades: «se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combatê-la»2.

A normalidade da anormalidade dessa cultura inculta que promove a iliteracia cultural dominante é exposta com crueza por Byung-Chul Han; «hoje, a própria percepção assume a forma de Binge Watching, (assistir a algo compulsivamente, descontroladamente) de visionamento bulímico. Oferecem-se continuamente aos consumidores o que se adapta por completo ao seu gosto— quer dizer, do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa. O Binge Watching pode ser entendido como o modo actual de percepção generalizado»3. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo, do inconsequente entretenimento que bordelizou a cultura, com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. A produção de produtos ditos culturais pelas indústrias culturais e criativas faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico, por mais e melhores artefactos que se lhe colem para maquilhar o seu estado cadavérico em que a gestão cultural, a gestão das artes é um instrumento das estruturas de dominação neoliberal, tem o objectivo de impor uma submissão pacífica que pareça espontânea. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Em que a cultura deixou de ser uma presença viva e em que, no melhor dos casos, como diz Blanchot, «é secretamente dramático saber que a cultura não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege dissimulando-o»4.

Há que repensar a cultura recuperando-a desse pântano de areias movediças onde se afunda e desclassifica recuperando o seu significado original em que, sendo uma das mais complexas palavras de qualquer língua, é, na sua raiz, uma actividade que também é uma entidade. Originalmente descrevia um concreto processo material de trabalho que o homem introduziu no crescimento espontâneo da natureza para a conformar às suas necessidades, alterando-a, dominando-a e inventando uma nova disciplina, a agricultura, que o foi agarrando à terra diversificando as culturas e desenhando novos habitats, desenvolvendo agregados populacionais e uma vida colectiva onde a cultura começou a ser metaforicamente transposta para os assuntos ditos do espírito.

As sementeiras passaram a ser materiais e imateriais tal como os seus frutos enquanto, paradoxalmente, os que adubam a terra para a tornar mais fértil, mais propícia a produzir culturas, começaram a ser considerados incultos por falta de tempo para se cultivarem, em contraponto com os citadinos progressivamente mais interessados na cultura e com mais tempo para produzirem cultura não só enquanto progresso da humanidade, mas também como instrumento que marca distancias e distinções.

O labirinto semântico da palavra cultura descreve sempre uma transição entre o que existe e o que se transforma, seja na natureza ou no espírito dos homens. Transição constante, variável, entre regulação e crescimento espontâneo, por força do trabalho que a diversifica e aprofunda. É esse poder transformador da cultura que tem de ser recuperado, não como instrumento de distinções sociais, não como mercadoria em que os objectos culturais se alienam aprofundando o divórcio entre o homem e a natureza, o homem e os seus semelhantes, entre o homem individual e a sua individualidade, mas enquanto prática dinâmica e activa das sabedorias da vida e dos conhecimentos do fazer, das práticas colectivas de grupos e indivíduos.

Vive-se um tempo de catástrofe global. Aprenda-se com Walter Benjamin que «o conceito de “progresso” tem de assentar na ideia de catástrofe. Que as coisas “continuarem como estão” é isso a catástrofe. Ela não é aquilo que a cada momento temos à nossa frente, mas aquilo que já foi» e para que a luta seja substantiva «ser dialéctico é ter nas velas o vento da história. A vela são os conceitos. Mas não basta dispor das velas. Decisiva é a arte de as saber içar»5.

Reflexões e aprendizagens a fazer durante esta suspensão do correr do tempo neste mundo que era estranho e mais estranho ficou.

  • 1.Blaug, Mark , The Economics of the Arts, Martin Robertson, 1976
  • 2.Musil, Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Publicações Dom Quixote, 2008.
  • 3.Han, Byung-Chul, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água, 2018.
  • 4.Blanchot. Maurice, O Livro por Vir, Relógio d’Água, 2008.
  • 5.Benjamin, Walter, As Passagens de Paris, Assírio&Alvim, 2019
Standard
capitalismo, Capitalismo Neoliberal, Comuna, Comunicação Social, Cultura Mediática, Deleuze, demagogia, Direita e Esquerda, Esquerdas Radicais, Estruturalismo, Fim da História, Fim da Ideologia, Geral, Guattari, Ideologia de Direita, imperialismo, Imperialismo Cultural, Karl Marx, Kropotkine, Lenine, Lutas de Classes, Lutas Fracturantes, Lutas Identitárias, Maio 68, Marketing, Neo Liberalismo, Oportunismo Político, Pós-Modernismo, Proudhon, REVOLUÇÃO FRANCESA, Revolução de outubro, Semiologia

Modernidades do Outro Lado do Espelho

A batalha ideológica que se trava desde que Marx estabeleceu as traves mestras de interpretação do mundo, em que a ideia central é a relação entre o capital e o trabalho, a luta de classes, as relações entre infra-estrutura e superestrutura, tem sido intensa e, na actualidade, é polarizada pelo imperialismo norte-americano que persegue dois grandes objectivos consonantes: um económico e outro cultural.

Uma estratégia que se iniciou no pós-Segunda Guerra Mundial, com a guerra fria cultural1, se intensificou com a queda do Muro de Berlim e está triunfante nas políticas pós-política.

Os anos 60 são os anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do estado se começa a alterar substancialmente, passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada que é desmentido pela situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares para salvar o sistema financeiro e os privados. Com a financeirização da economia as desigualdades aumentaram brutalmente. Desde 1980 os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder, realidade que se pretende ocultar com a mercantilização da cultura para consolidar a hegemonia pela modelação da consciência popular. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista neoliberal, em que se vende a ideia que a liberdade do mercado seria mais igualitária quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.

Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Essa nova ordem económica impõe-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Mega pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística.

Uma cultura de impacto máximo e de obsolescência imediata, numa acelerada sucessão de modas e humores públicos que procura extrair o máximo lucro do empobrecimento moral, intelectual, em que a diversão promovida pelas indústrias culturais e criativas tudo normaliza e esvazia de sentido. É um dos mecanismos que o capitalismo pós-democrático usa com eficácia para promover a alienação, até a transformar num conformismo em que não se distingue a realidade das aparências. O objectivo final é que as massas populares fiquem cada vez mais incapazes de perceber os verdadeiros jogos políticos para castrarem a sua capacidade de intervenção.

É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Uma cultura da ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano.

É neste quadro que se trava um áspero combate ideológico, sobretudo num contexto em que não está no horizonte nenhuma acção política de projecção universal, em que as políticas de esquerda ainda que importantes, mesmo pontualmente decisivas, têm um limitado raio de acção, sempre com a certeza que se firmam numa base ontológica sólida porque a totalidade social não é uma quimera.

O debate entre as forças de esquerda sempre foi intenso entre revolucionários e reformistas e dentro de cada uma dessas áreas, o que foi sempre aproveitado pelos reaccionários, que nunca desarmam nem desistem, para assegurar a sobrevivência do capitalismo, de corromper a linguagem de esquerda, procurando-se apropriar-se das ideias nucleares da esquerda para manipulá-las, o que têm conseguido com algum êxito, promovendo a confusão ideológica, com a consequente desorientação política de muitos meios progressistas.

A mais antiga confusão é a de que os conceitos de direita e esquerda perderam sentido, são distinções sem significância porque as ideologias se desgastaram. Uma ideia que teve origem dentro de uma determinada esquerda, em que Deleuze e Gauttari pontificavam, em linha com o estruturalismo e a semiologia que estavam na ordem do dia e que tinham introduzido nas ciências humanas um sistema de análise das comunicações linguísticas e visuais de métodos análogos aos das ciências empíricas e experimentais. O que Deleuze e Gautatari fazem, com grande repercussão em muitas áreas da esquerda, é colocar em causa o conceito de ideologia como Marx o definira em Para a Crítica da Economia Política, onde estabelece e traça as relações entre a produção material e a produção imaterial: «Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem», depois de já ter afirmado em A Ideologia Alemã que «a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

Os filósofos franceses consideram que o que se designa como ideologia  são «enunciados de organizações de poder» entendidos como parte decisiva da própria estrutura produtiva do capitalismo, não uma superestrutura, ainda que numa relação com a produção económica, a infra-estrutura. São «agenciamentos de enunciação», que desde sempre foram predominantes na história ou seja, a ideologia é substituída pela análise das subtilezas da linguagem, pelas relações entre a semiótica do significante e do não-significante. De um modo chão, há que questionar e lembrar a essas correntes e suas derivadas que não foram as relações entre o significante e o seu significado ou vice-versa, por mais importantes que sejam, que foram decisivas para a tomada da Bastilha ou do Palácio de Inverno, para instaurar a Comuna de Paris ou para fazer a Revolução do 25 de Abril. Foram acções revolucionárias sobre o mundo material sobre o qual se agiu para o alterar.

Coerentemente com os suas conclusões, Deleuze faz a defesa do Maio de 68 considerando que o que «é normalmente chamado de política se fecha de tal forma como um poder que uma força de transformação política só pode vir de fora deste território fechado da política». Em síntese o devir revolucionário só poderia começar pelos «despolitizados», pelos «desideologizados». Utilizando a sua terminologia, o desejo político explodiria de maneira pré-significante, anterior à consciência política, portanto pré-ideológico. Está em linha com a Internacional Situacionista (IS), a raiz ideológica do Maio 68, que se nega enquanto ideologia à semelhança dos ideólogos da burguesia: «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes cativos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (…) «com novas formas de acção contra a política e a arte», dizendo querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine, elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau», considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução. Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lenine recorre para, em Que Fazer?, combater as ilusões originadas por essa convicção, sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.

São estes os fundamentos de uma desideologização de uma nova esquerda que são adulterados pelos pensadores de direita e pelos média mainstream para esvaziarem o conteúdo original do materialismo dialéctico, o seu poder revolucionário, adulando esses reformadores das esquerdas radicais, que etiquetam de «modernos», opondo-os aos «conservadores», a esquerda consequente que tem a certeza e a convicção de que nenhuma realidade, por mais consistente e hegemónica que se apresente, como é o capitalismo actual, deve ser considerada definitiva, nem dá por eterno o princípio da dominação capitalista.

Os objectivos do imperialismo cultural são óbvios, vulnerabilizar o pensamento de esquerda promovendo uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores de esquerda e de direita, que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico. Os partidos de direita e dessa esquerda cosmopolita tornaram-se prolongamentos do aparelho de estado, representando interesses económicos que lhes dão apoio variável. Em que a actividade política se reduz praticamente à conquista do voto, o que representa um retrocesso político-ideológico que se esgota nos momentos eleitorais e deixa o campo aberto para o surgimento dessas novas-velhas forças políticas enquadradas no capitalismo pós-democrático.

Maio 68 é o marco da não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas por mudanças sociais que deixam intocadas as fundações do sistema. São as políticas identitárias tão em voga, que objectivamente são políticas de direita. Aos rebeldes sem filtro que reclamavam maiores liberdades o neoliberalismo deu-lhes essas liberdades dando-lhes a liberdade do mercado, com o objectivo de desmantelar as instituições colectivas da classe trabalhadora, em particular os sindicatos e os partidos políticos, considerados anacrónicos nessa nova ordem em que maiores liberdades individuais se afundam em maiores injustiças sociais. O fim do neoliberalismo é que as reivindicações, mesmo quando alterem as atitudes sociais, não sejam mudança social, nem se empenhem em transformações sociais radicais. Até um certo limite, até correndo alguns riscos, é-lhe conveniente a emergência das lutas ditas fracturantes, em que se conquistam direitos sem o direito de colocar em causa a ordem estabelecida. Tem uma consequência: a colonização do pensamento de sectores da esquerda pela direita com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer ainda que com todas as contradições e dificuldades.

As esquerdas radicais, em Portugal e no mundo, as esquerdas «modernas» que se opõem à esquerda praxada de «conservadora», ainda que por vezes tenham uns rompantes ou se digam pós-marxistas, não se revêm no que é nuclear no pensamento marxista: a relação de exploração entre o capital e o trabalho, as lutas  de classes que se vão ajustando às condições objectivas e subjectivas das sociedades onde se travam.

Conjecturam que a teoria marxista está ultrapassada por não corresponder às características da sociedade contemporânea, a chamada aldeia global pós-industrial. Consideram essas condições ultrapassadas, antiquadas, substituíveis pelas causas fracturantes e identitárias, com uma forte componente intelectual, mediática, de moda, praticamente sem relação com a tradicional base social da esquerda no mundo operário e nos sindicatos. Para eles ,as classes sociais não contam porque se estão dissolvendo, perdendo sentido, pelo que a tónica marxista nas classes sociais é reducionista, o que prevalece é a santíssima trindade da raça, sexo e género, como se em cada raça, sexo e género não existissem divisões sociais. Uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias.

Ultrapassado o espelho da «modernidade» assumida por essas esquerdas, por mais que lapidem essa realidade, mesmo que obtenham alguns êxitos, o que se encontra de facto é a renúncia a uma sociedade que se oponha à desordem do mundo actual, com a desonestidade intelectual de fingir que o marxismo não representa mais uma realidade política actuante numa perspectiva socialista ainda que remota, um campo de batalha de onde os «conservadores» não desertam, carregando um património de lutas, «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez» (Manuel Gusmão).

(Publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

Bibliografia relacionada

Cunhal, Álvaro; O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Edições Avante!, 1974

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1, Assírio & Alvim, 2004

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; Mil Planaltos. Capitalismo e Esquizofrenia 2, Assírio & Alvim, 2008

Gusmão, Manuel, Uma Razão Dialógica, Edições Avante!, 2011

Lenine, Que Fazer?, Edições Avante!, 1984

Marx, Karl; Engels, Friedrich; Obras Escolhidas (em três tomos), Edições Avante!, 1982-1985 (2.ª edição, 2008-2016)

Marx, Karl; Proudhon, Pierre-Joseph; Misère de la Philosophie/Philosophie de la Misère, Union Génerale d’Editions, colecção Le Monde en 10/18, 1964
 

TÓPICO

Standard
André Ventura, Chega, Comunicação Social, demagogia, Direita e Esquerda, facebook, fascismo, Geral, Ideologia de Direita, Iniciativa Liberal, Instragam, Joacine Katar, Livre, Marketing, PAN, Tories, Twitter, WhatsApp

Políticas de Supermercado

Discurso Eleitoral, João Abel Manta, desenho a tinta da china, Agosto 1969, publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda 19 de Setembro

Não é de agora nem é novidade a política estar cada vez mais subordinada a estratégias de marketing. As próximas eleições no Reino Unido são um sinal claro dessa deriva. Mais que a campanha eleitoral, os debates televisivos o que verdadeiramente conta é a “fábrica de memes” dos conservadores a funcionar 24 horas por dia no universo digital dirigida por David Cummings, um australiano especialista nessas estratégias, autor das mais bem conhecidas ideias da campanha no referendo pela saída da União Europeia com o slogan Take Back Control” (Agarre novamente o controlo) numa referência clara ao uso do controlo remoto dos aparelhos domésticos e das playstationes e do telefilme The Uncivil War, que muito influenciaram o voto. É um acenar sem pausas à empatia e não à racionalidade das pessoas. A campanha online dos conservadores iniciou-se ainda antes de estar decidida a ida às urnas. As referências à cultura popular multiplicam-se. É o jogo do Monopólio, A Guerra dos Tronos, o recurso constante a anúncios que não estão ligados diretamente a partidos políticos mas à publicidade de, por exemplo, KFC e MacDonnalds, enviesadamente utilizados para aproveitar a memorização já produzida. Por cá isso também foi decalcado e utilizado, não por acaso, pela Iniciativa Liberal para, numa linguagem acessível, dar uma imagem falsa da realidade. Percorra-se a galeria de imagens dos seus cartazes para se percepcionar esse relacionamento mimético com o outro lado do Canal da Mancha, o que deixa muitas questões no ar.

Tudo isto é feito com uso intensivo das redes sociais, Facebook, Instagram, Twitter e do WhatsApp, onde se investem milhões em publicidade com anúncios políticos online em que os os utilizadores são instados a fornecer o seu e-mail e localização, uma evidente tentativa de alargar a base de dados de eleitores do partido e recolher dados dos eleitores através das redes sociais. Nada disto é novo. Nos EUA são uma vulgaridade bem utilizada por Obama ou Trump, com resultados reais que correspondem aos investimentos brutais em spots publicitários pagos com as contribuições de grandes grupos económicos, que lhes dão apoio variável em função das expectativas criadas à expansão dos seus negócios. Há ainda que ter memória das revoluções da Primavera Árabe e da campanha de Bolsonaro à boleia da difusão colossal e da velocidade estrastoférica desses meios tecnológicos, onde a propaganda se associa às fake-news e ao que é fake para defraudarem a realidade com um poderio imenso, influenciando não só os utilizadores intensivos das redes sociais seja o utilizador comum sejam jornalistas, analistas e académicos, muitos deles predispostos a absorverem essas mensagens, para se verificar como a informação assim produzida é influente.

Tudo isto acontece porque nos sistemas representativos a publicidade, directa e indirecta, associada à descarada manipulação da comunicação social sempre ao serviço do poder dominante, tem enorme peso na decisão de voto. O exemplo mais exemplar, passe o pleonasmo, é o de Itália onde Berlusconi recolheu as maiores votações nas regiões onde o seu poder televisivo era esmagador mas também no triunfo de Macron sustentado na pseudo novidade de um partido mais que velho e relho nas suas raízes.

Isto acontece porque a apologia da democracia tende progressivamente a confundir-se com a dos partidos tanto mais quanto menos a realidade corresponde ao ideal democrático, o que provoca uma contínua degradação da política e do pessoal político, na degradação do Estado nas suas componentes políticas, profissionais e técnicas, no descrédito da política e dos políticos, no desencantamento com a política que os media e as redes sociais produzem com contumácia propondo uma visão cínica do mundo político nas notícias e comentários, o que abre as portas dos populismos, cada cor seu paladar, alimenta a vox populli contra os políticos, o aparelho de Estado, o trabalho da acção parlamentar fertilizando processos de demagogia, alimentando uma opinião pública que não sabe mas acha que.

É o caldo de cultura de um sistema democrático representativo em que há uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre os partidos de esquerda, do centro e de direita que se integram completamente nesse sistema. Que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade quase exclusivamente pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia deixou mesmo de ser o lugar da luta de classes pacífica como era proclamada pelos pioneiros revisionistas sociais-democratas. Isto também abre caminho aos populistas, de direita e de uma auto proclamada esquerda, que negam as evidências de que a luta de classes existe , não parou e que há de facto políticas de direita e de esquerda.

Surgem novos partidos useiros e vezeiros nas profissões de fé contra os partidos tradicionais enquanto se organizam tal qual os partidos tradicionais. Não são instrumentos ao serviço dos eleitores, em particular de quem os elegeu, são uma finalidade em si-próprios que disfarçam com declarações altissonantes como as de Joacine Katar Moreira que, chegada à AR, sente-se tão ungida, tão excepcional que messianicamente explica à plebe ignara que “Hoje estamos a inaugurar uma nova era e é, especialmente, uma era em que estes ambientes que há uns anos olhávamos enquanto ambientes completamente orientados para a mesma elite política, económica, financeira e por aí a fora, é hoje em dia, um ambiente que se abre e que é, simultaneamente, a evolução do ambiente institucional português e um sinal de maturidade política”. Para a deputada do Livre há uma AR antes- Joacine e uma AR pós-Joacine, só lhe falta propor um novo calendário em substituição do gregoriano para assinalar esse facto magno que só existe na sua cabeça. Tem o desplante de proclamar isso porque bem sabe que o ridículo não mata e declarações desse jaez são um golpe publicitário sublinhado pelas saias do seu assessor. Mesmo para todos os que se estão marimbando para a sua gaguez e para as vestes provocatórias do seu assessor, para todos os que repudiam a infame campanha de que foi e é alvo, é evidente que o que Joacine Katar Moreira persegue, e iniciou em grande estilo, é uma campanha de marketing que iluda as propostas programáticas do Livre em deriva acentuada para a direita por uma radicalização das políticas identitárias polvilhadas de afirmações patéticas como a de “não se pode falar de salário mínimo nacional sem se falar de amor” (…) “política sem amor é comércio”, um linguarejar em linha com os gouchas que preenchem os espaços televisivos dos entretenimentos do povo dá cá o pé, toma lá o pé.

Não está isolada. Tinha sido precedida pelo PAN e está bem acompanhada pela Intervenção Liberal e pelo Chega que tem a vantagem sobre os outros de congregar os saudosos do fascismo, os patrioteiros nacionalistas, os caceteiros que andavam tresmalhados. Têm um traço comum: as políticas identitárias dos mais diversos matizes que os separam à superfície e os unem nas profundezas. Jogam todos e competem todos nos golpes de marketing e nos adubados territórios das redes sociais às ruas, apoiados nos media que rapidamente lhes ofereceu e oferece um tempo de antena que pouco ou nada reflete a sua representatividade, com o Chega a chegar-se à frente por via dos comentários desportivos.

Se o marketing e a publicidade já ocupavam espaço crescente em substituição das propostas ideológicas, diluindo-as até as tornar quase residuais em partidos tradicionais agora tornaram-se dominantes nesses partidos, mesmo o Chega, que são de facto organizações eleitorais e eleitoralistas sem definição, com a mobilização ideológica reduzida ao alinhamento de slogans apontados à conquista do voto, à politização desses slogans em melhor ou pior urdidas campanhas publicitárias, o que é um grave retrocesso político-ideológico até porque as lutas sociais e políticas não se esgotam nos momentos eleitorais, o seu único alvo.

Standard