Canções de Resistência, Canções Revolucionárias, Geral, Hélène Delavault, Marc Ogeret, REVOLUÇÃO FRANCESA

Ah! Ça Ira,Ça Ira, Ça Ira

Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários.

«A liberdade guiando o povo», do artista francês Eugène Delacroix
«A liberdade guiando o povo», Eugène Delacroix

Durante séculos, as canções participaram directamente na vida social. Eram o espelho dos acontecimentos, o seu catalisador, a sua memória. Registavam a evolução dos costumes, do trabalho, dos amores e desamores, das batalhas, das ilusões e desilusões, cóleras e esperanças.

Relatavam os principais acontecimentos, apropriavam-se naturalmente da actualidade que estava a ser vivida. Difundiam-se das cidades para os campos, faziam o caminho inverso, voando de boca em boca. Nem sempre ficando impressas em folhas volantes muitas perderam-se outras foram recuperados nas recolhas gravadas de musicólogos, etnólogos e antropólogos.

Uma boa parte delas são de autores anónimos. É vulgar colarem os versos a músicas que estavam em voga. Compulsar os cancioneiros de uma determinada época acrescenta conhecimento ao conhecimento que os historiadores recolhem de outras fontes. São reveladores das diversas pontes existentes entre as formas populares e as que tendo origem nos cultos enquanto objecto ritual se secularizaram como forma cultural e estética.
Num tempo em que o analfabetismo era corrente as canções eram uma forma popular particularmente eficaz de circulação das ideias e das notícias.

Da boca para os ouvidos reproduziam-se saltando por cima das barreiras entre os salões aristocráticos e as tascas populares, entre as cidades e os campos. As folhas volantes, os periódicos, os almanaques, registam as suas variações, por vezes burlescas, dando relevo ao papel ocupado pelas canções como retrato crítico dos acontecimentos mas também o seu papel interventivo nas acções consciencializando, politizando. Tudo começava e tudo acabava numa canção.

Tudo muda com a invenção da rádio, que de recurso tecnológico de comunicação nos finais do séc. XIX se expande para as transmissões radiofónicas de entretenimento nas primeiras décadas do séc. XX, popularizando-se no mundo.

Há a necessidade de preencher o tempo, que foi crescendo até estar no ar durante as vinte e quatro horas do dia. O grande recurso foram as canções que se diversificaram por vários géneros desanexando-se da sua complexa origem.

Em paralelo, também nos finais do séc. XIX, surgiram as primeiras gravações sonoras que muito evoluíram desde as primitivas técnicas de gravação comercial em massa, até às que hoje são mais comuns, CD e streaming.

As canções e as músicas de variedades entraram definitivamente no quotidiano descontextualizando-se da realidade. O consumo da música universalizou-se, as canções multiplicaram-se nos mais diversos géneros explorados por uma poderosa indústria progressivamente submetida ao marketing e ao sistema do star-system, uma realidade iniludível que se vê à vista desarmada quando se percorrem as grandes superfícies comerciais, aqui e em qualquer parte do mundo ocidental, em que a música anglo-saxónica na forma e internacional nos sentimentos é dominante e domina, de forma directa e indirecta, as músicas locais. Em que o que pouco escapa a esse formato é remetido para os nichos das músicas étnicas, músicas de um pequeno mundo que vai conseguindo subsistir, para onde são mesmo atiradas as músicas e os músicos de países com França, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda, etc.

Como em tudo há sempre quem resista e as excepções mais sublinham a regra. Os cantores de intervenção política são cada vez mais raros. Por vezes aparecem mensagens sociais inscritas no padrão dominante, polvilhando-as com o mesmo pó de diamante dos sapatos de Andy Warhol. Dão-lhes um ar comprometido que não alarma nenhuma sirene, é um auxiliar de vendas.

Evidentemente que no meio de tanta tralha é inevitável surgirem boas canções, bem mais escassas que as trombeteadas com alarde nos media.

Neste contexto, ouvir hoje as canções da Revolução Francesa, que este ano comemora o 230.º aniversário no dia 14 de Julho, dia da Tomada da Bastilha, é fazer uma escuta quase arqueológica, que é também um acto de resistência e de suspensão do tempo para reflectir contra a vulgaridade que invade as ondas sonoras e os palcos do mundo, num tempo em que, por dá cá aquela palha, as tão na moda artes performativas, muitas integram formas cantadas, reclamando reflectir sobre o mundo em que vivemos quando se limitam a transmitir a imagem de uma cultura de consumo irreflectido, sem espaço para discursos significativos. Em que a sedução é a única estratégia de funcionamento e esse reclamo não passa de uma frágil fachada intelectual para justificar um mundo embriagado pelas imagens e seus acessórios, a sua marca de água.

Marca de água do nosso tempo de embriaguez estética. De uma estética da embriaguez pela imagem, qualquer que seja a forma que assuma, que reduz até anular a consciência crítica e impõe às pessoas um vazio saturadamente preenchido por uma oferta cultural bulímica em que o espaço social é uma abstracção fetichizada. Em que a cultura e as práticas culturais contemporâneas activamente participam num sofisticado processo de controlo social, que planta ilusões de liberdade pessoal para que o sacrifício nos viciantes altares do consumo seja indolor e voluntário, promovendo uma eficaz submissão.

Um processo de dominação que Edward Said descreveu em Cultura e Imperialismo, evidenciando como desse modo o imperialismo chegou a lugares que frotas navais nunca poderiam alcançar, em que nenhum exército de ocupação poderia subsistir, com a vantagem de ser muitíssimo mais barato e ser vendável.

Exceptuando-se a Marselhesa, adoptada como hino nacional de França, pouco ou nada resta do vasto cancioneiro revolucionário. Procurar registos sonoros é tarefa árdua. Nas lojas de gravações sonoras é agulha em palheiro, mesmo em França.

Nas vendas on-line estão, quando estão, disponíveis, todos por via indirecta, um numero reduzidíssimo de exemplares de L’Histoire de France par des Chansons (Chant du Monde), o segundo disco dedicado à Revolução Francesa, Chansons Revolutionnaires ou l’Esprit de 1789, por Serge Kerval (Editions du Petit Véhicule), Marc Ogeret Chante la Revolution (Chant du Monde), Hinos da Revolução Francesa (Rouge de l’Isle, Paisiello, Méhul, Gossec), Coros e Orquestra du Capitole de Toulouse, maestro Michel Plasson (EMI), La Republicaine, Hélène Delavault (Chant du Monde).

La Republicaine foi um espectáculo, em 6 de Janeiro de 1989, que deu brado em França quando Hélène Delavault, mezzo-soprano que também faz espectáculos com canções de cabaret (esteve em Portugal com um desses espectáculos nos anos 90 no Fórum Luísa Todi, integrado no programa do Festival dos Capuchos), viu o palco ser invadido por fascistas encapuçados que acorreram ao apelo do jornal de extrema-direita Présent, que a colocavam no pelourinho como «a hiena vestida de vermelho berrando os seus cantos de ódio sobre os túmulos dos nossos mortos». O que nos remete para a actualidade de se revisitar as canções da Revolução Francesa para agitar a normalização e apatia em curso imposta pelo imperialismo quando dispensa acções mais radicais, embora as tenham guardado no bolso.

O catálogo das canções elaborado por Constant Pierre, Les Hymnes et Les Chansons de La Révolution, (Imprimerie Nationale, Paris 1904) regista 2257 entradas em três rubricas Hymnes (1/167), Canções (168/2142), Teatro (2143/2257), o que dá uma excelente imagem da força participava e interventiva das canções mesmo tendo em consideração que a Revolução Francesa não estourou num dia e tudo mudou, que foi um processo revolucionário que se inicia em 1788 e acaba em Novembro de 1799.

«A canção era e continua a ser uma arma,

embora nos nossos tempos

esteja cercada pelas banalidades que são a sua marca contemporânea.»

Que só nos anos 91 e 92 se desencadeia a vertigem da Revolução quando o rei Luís XVI, pressentindo que mais valia prevenir quando pouco sobraria para remediar, procurou sobrevivência na conciliação, enfiou o barrete vermelho dos revolucionários, saudou a nação, um conceito colectivo que se opunha ao de soberano, mas recusa assinar a deportação dos padres refractários. Fazia isso, enquanto na sombra recorria aos exércitos estrangeiros para invadirem a França e estrangularem a Revolução.

A Assembleia Legislativa não perdoa. A 10 de Agosto de 1792 vota a suspensão do rei e convoca uma nova assembleia: a Convenção de Paris, que proclama a República e inicia o período revolucionário que acabará com um golpe de estado de Napoleão Bonaparte, com o apoio da grande burguesia, em 18 de Brumário (9 de Novembro de 1799).

Há canções que se vão alterando no balanço dos acontecimentos. Algumas pelo seu grande poder atractivo, são recuperadas pelos contra-revolucionários. A mais conhecida é «Ah! Ça Ira». A música é de uma contra-dança de grande êxito na altura.

Na primeira versão, o refrão altera-se para enfatizar as coplas. No primeiro, a abrir a canção: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / o povo repete sem se cansar / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Apesar dos motins isto vai, que introduz a primeira copla: Os nossos inimigos confessos estão aí / Vamos cantar Aleluia! / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai, e continua na defesa da liberdade, de melhores dias, de leis mais justas terminando com aviso sobre a guerra que a Revolução terá que enfrentar: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ soldados pequenos e grandes tenham a mesma alma/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Durante a guerra ninguém trairá.

Noutra variante, a certeza que estão a escrever história: Mas isto vai, isto vai, isto vai!/ À liberdade devemos a glória/ Ah! isto vai, isto vai, isto vai!/ A felicidade para todos acontecerá/ Seremos todos irmãos de armas/ amigos verdadeiros cada um será/ Ah! Isto vai, isto vai, isto vai! Ninguém protestará em vão/ para sempre na história/ o nosso século será celebrado/ Como isto foi, isto foi, isto foi! Os realistas, os contra-revolucionários também se aproveitam da popularidade da canção para a inverter em seu favor: Helás! Não há mais honra nem lealdade/ contra o seu rei o povo revoltou-se/ Ah inumana humanidade/ os direitos foram destruídos/ a essa liberdade sem lei/ chamam fraternidade.

Ganho o balanço, terminavam: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai / Os democratas para a lanterna 1/ Todos os deputados iremos enforcar.

Ao que os revolucionários imediatamente responderam à letra: Os aristocratas para a lanterna / Todos os aristocratas iremos enforcar.

«Ah! Ça Ira» tornou-se tão popular que muitos se divertiram a improvisar variantes do refrão: Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ Apesar dos aristocratas e da chuva / Ah! Isto vai, isto vai, isto vai/ ficamos molhados mas isto acabará.

São várias as canções que recuperam a música de «Ah! Ça ira» com variações sobre o seu refrão como em «L’Aristocratie en Déroute»: Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ podemos repeti-lo sem parar/ Ah! Eis que foi feito, foi feito, foi feito/ a aristocracia pôs-se a milhas, que intercalava com coplas invectivando, a nobreza, os seus financiadores e as tramas que teciam e estavam a ser desarmadilhadas.

Outra das canções que foi base de muitas variações, tanto de revolucionários como de contra revolucionários, foi «La Carmagnole». A carmagnole é um fato de trabalho dos operários da região do Midi, importado para Paris pelos marselheses e adoptado pelos patriotas.

Os estudiosos do Cancioneiro Revolucionário não conseguem precisar quando a canção surgiu. O que é certo é que rapidamente se tornou tão popular como «Ah! Ça ira», tendo inúmeras versões. A mais célebre é «La Carmagnole des Royalistes»: Senhora Veto prometeu (bis) / Mandar Degolar Paris inteira, (bis) / O seu golpe falhou/ Bombardeado pela nossa artilharia // Dancemos a Carmagnole/ Viva o som (bis)/ Dancemos a Carmagnole/ Viva o som dos canhões (refrão).

As canções registam todos os acontecimentos da Revolução. Da Tomada da Bastilha à formação da Guarda Nacional, da Declaração dos Direitos do Homem à Liberdade para os Negros, dos cantos a Marat e Lepeletier à Morte de Robespierre, dos Hinos à Razão, à Liberdade, a Rousseau, às muitas que incentivam os patriotas a defender as conquistas revolucionárias.

Compulsar as canções da Revolução Francesa é verificar a importância das canções no imaginário popular e patriótico e a sua iniludível contribuição para os avanços revolucionários. A canção era e continua a ser uma arma, embora nos nossos tempos esteja cercada pelas banalidades que são a sua marca contemporânea

(publicado em AbrilAbril)

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Aragon, Artes, Barbara, Bartolomeu Cid dos Santos, Catherine Sauvage, Cultura, Françoise Hardy, Georges Brassens, Geral, Marc Ogeret, música

Não há amor feliz

Hoje é dia de solstício que inicia o Inverno. Um tempo de paisagens frias e vazias, tempo desolação que muito tem sido celebrado em poesia e na música. O mais óbvio é a memória do Winterreise/Viagem de Inverno de Schubert, viagem mais solitária de todas as viagens que percorre vinte e quatro canções onde os sonhos fenecem, as notícias ampliam a amargura e sepultam qualquer esperança. As interpretações desse ciclo de canções sobre poemas de Wilhelm Muller, são inúmeras e excelentes como as de Peter Schreier/ Sviastoslav Richter, Dieter Fisher-Dieskau/ Jorg Demus, Mathias Goerne/ Alfred Brendel, Hans Hotter/ Gerald Moore. Bartolomeu Cid dos Santos, artista maior, homem de enorme cultura, grande amante da música, não podia ficar indiferente ao Winterreise e fez 24 extraordinárias gravuras, uma por cada canção. Um dia alguém cantará a Viagem de Inverno tendo por fundo essas obras de arte, uma celebração das artes.

Mas para assinalar este primeiro dia de Inverno, para o assinalar aceitando que a desolação é a sua marca maior fomos ao encontro de Aragon e de um seu poema que, de certo modo, é invernal, Il n’y a pas d’Amours Heureux. Georges Brassens, esse trovador nosso contemporâneo escreveu e cantou-o como só ele o sabia fazer e quando os textos das canções tinham um sentido e um valor que o tempo tem corroído.

Depois muitos outros cantaram essa bela canção. Traduzir é muito complexo, ainda mais traduzir poemas. Com alguma audácia e não sendo poeta, longe disso, atrevi-me a escrever uma tradução muito livre do poema de Aragon, com a única pretensão de não trair o poeta, sem pretender “escrever” um poema o que só grandes poeras o poderiam fazer.

Aqui ficam registos de vários cantores a interpretar o poema de Aragon com música de Brassens

 

 Nada é definitivo na vida de um homem

Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração

Quando acredita abrir os braços num abraço

A sombra é a de uma cruz

Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida

A vida é um estranho e doloroso divórcio

 

Não há amor feliz

 

A  vida é um soldado sem armas

Fardado para outros destinos

De pouco serve acordar cedo

Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas

E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

 

Não há amor feliz

 

Meu belo amor meu querido amor minha tristeza

Estás dentro de mim como um pássaro ferido

Quem nos vê passar nada sabe

Comigo repetem essas palavras que gravo

 E morrem de súbito no teu olhar profundo

 

Não há amor feliz

 

É tarde demais para aprender a viver

Os nossos corações unidos choram noite dentro

Quantos desgostos ultrapassámos para conquistar um arrebatamento

Quantos infortúnios experimentámos para escrever esta pequena canção

Quantos lamentos trocámos para arrancar estes sons de uma guitarra

 

Não há amor feliz

 

Não há amor sem dor

Não há amor que não morra

Não há amor que não seque

Não há amor maior que o teu amor pela pátria

Não há amor que não viva entre lágrimas

      Não há amor feliz

     Mas é esse o nosso amor o amor de nós dois

 

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