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15 Dias contra a Corrente

Os períodos eleitorais nas democracias representativas são um interregno controlado na desinformação continuada dos meios de comunicação social, mesmo os de serviço público, sobre a actividade política na sua generalidade e, em particular, na dos partidos políticos que se desenquadram do sistema prevalecente, lutando dentro dele contra ele. Interregno que atenua mas não invalida a deformação comunicacional que, entre eleições para o poder central, poder local, europeias e presidenciais, e mesmo durante esse período, é produzida pelos celebrados critérios editoriais que beneficiam descaradamente uns em detrimento de outros. Vários estudos universitários demonstram, sem margem para quaisquer dúvidas, o enviesamento dos media, ainda que partam de princípios discutíveis como o de colocarem todos os comentadores do Partido Socialista do lado da esquerda – o que, ouvindo-os e lendo-os, é altamente questionável e é ainda mais superlativamente contestável com os supostamente independentes. A conclusão, por mais ginásticas que se pratiquem, é que a direita é francamente maioritária, que a representação parlamentar não se repercute nos tempos de antena concedidos.

Entricheiram-se na autonomia e liberdade editorial, uma verborreia eivada de doblez e desplante por uma comunicação social estipendiada aos interesses económicos dominantes, que usam hipocritamente o direito à informação, os princípios da liberdade, independência e imparcialidade, os princípios da não discriminação como balizas para impor um ambiente geral de propaganda, de terror ideológico totalitário, que substituiu os visíveis actos censórios, a violência autoritária da censura dos regimes ditatoriais por uma quase invisível mas omnipresente, fina e sofisticada rede que filtra toda a informação, instalando, tanto a nível nacional como mundial, uma colossal máquina de guerra, poderosíssima e eficaz, que controla e manipula a informação. Diariamente, o mundo é bombardeado por mentiras propaladas por essa gente que se apresenta, sem uma ruga de vergonha, como cruzados na defesa desse bem universal que é a informação e se enquadram no que Platão classifica como doxósofos, que hoje são os técnicos de opinião que se julgam cientistas, que analisam a política como um negócio na bolsa das votações, fazem cálculos eleitoralistas intermediados pelas sondagens e a economia enquanto vulgata dominada pelos mecanismos do mercado em roda livre.

Na verdade são a tropa de choque, os mercenários do poder da classe dominante. Produzem e propõem uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, que concorrem para produzir um efeito global de despolitização, de desencantamento com a política, um território de portas abertas para o populismo mais descarado, estrumado pela simplificação demagógica que está nos antípodas da democrática intenção de informar.

Esse mecanismo é complementado, sobretudo na televisão, pelos programas que se centram nas actualidades, com diagnósticos e prognósticos mais aparentados com os jogos de casino, os casos do dia em desenfreadas correrias de permanente descontinuidade, cuja sobreposição concorre para o esquecimento, os programas de diversão que preenchem os restantes espaços, por cá com grande ênfase no desporto, praticamente reduzido às futeboladas, em que concorrem entre si aterrorizados pelo pânico de aborrecer, para não degradarem audiências e as correlatas receitas publicitárias. Um circo jornalístico de rápida rotação que fomenta o conformismo e se agravou com um movimento de concentração da propriedade da imprensa, rádio, televisão e informação on-line. Movimento que ainda não acabou, é paralelo ao da globalização capitalista, com a destruição das bases económicas e sociais da produção cultural submetida ao reinado do comércio, do comercial.

As diferenças entre órgãos de comunicação mais circunspectos ou mais populares são variações de estilo do mesmo estado das coisas. Biombos que, quando retirados, mostram uma obscena uniformidade. Uniformidade que se estende das peças jornalísticas às de opinião, com comentadores escolhidos a dedo. Aqui, há que fazer uma nota às condições de trabalho dos jornalistas, que se degradaram e continuam a degradar brutalmente. Precariedade, despedimentos, utilização de trabalho dos estagiários gratuito ou quase, a porta da rua sempre aberta, imposição de critérios editoriais condicionados aos interesses dos patrões, dos partidos dos patrões, do absolutismo do pensamento dominante, retiraram e retiram progressivamente a autonomia jornalística. Autonomia e liberdade editorial que quanto mais se vende mais altissonantemente é proclamada, que foram, são e continuam a ser utilizadas para discriminar ostensivamente forças políticas e sociais que não se submetem aos seus diktats. Basta fazer o cômputo sem sequer ser preciso descer ao pormenor do conteúdo ou do relevo que tiveram, do número e dimensão das notícias, entre os diversos partidos políticos e forças sindicais. Uma radiografia devastadora da ausência de imparcialidade e independência dos meios de comunicação social.

Os truques são os mais diversos. O mais vulgar é o que dá ou não dá para ser notícia, sempre em favor da direita ou mesmo de alguma esquerda como o BE, acalentado desde a sua fundação pelo seu radicalismo de esquerda jovem que mais não era que uma movida social-democrata, como a sua coordenadora recentemente reconheceu. Se a menorização do PCP já vem de longe, com mais que fatelosos argumentários, actualmente o empolamento do PAN em detrimento do PEV é a evidência da anormalidade da normalidade na comunicação social – o que não tem nada de extraordinário no panorama predominante do marketing político, dos efeitos de anúncio em que se procuram obter ganhos directos e indirectos pela notoriedade mediática alcançada que cobre todo esse arco que vai da direita mais bronca e retrógrada aos oportunistas recém-convertidos ao ambientalismo pós-moderno. Marketing político em que a Iniciativa Liberal, um recém-chegado à política empurrado pelas urgências do neoliberalismo económico, é o alfa e o ómega de um discurso de manipulação sem tréguas envernizado por um certo vocabulário técnico do discurso fatalista que transforma tendências económicas em destino sem alternativa, numa regressão à barbárie da exploração capitalista mais brutal.

A comunicação social na sua generalidade dá-lhes guarida e apoio. Cumpre com denodado esforço a sua missão de impor o pensamento único para, no limite, calar os que apresentam outras alternativas políticas. O seu objectivo é que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar outras soluções políticas. Procuram fechar num gueto os que lutam contra todas as opressões de geometrias variáveis que são o estado de sítio em que estamos mergulhados. Emudecer e expulsar todos os que, como Manuel Gusmão assinalou, se colocam «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprenderam a não ceder aos desastres, aprenderam a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas sejam silenciados.»

A contragosto obrigam-se, nos períodos eleitorais, a quinze dias de maior equidade que não disfarça o seu trabalho continuado em favor da pavimentação das estradas da financeirização, da globalização e da desregulamentação da economia, da apropriação dos recursos do planeta, do desemprego estrutural, da precarização por diversas vias da força de trabalho, da fascização tecnocrática travestida por uma democracia formal em que «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas» como diz com implacável lucidez um personagem do filme de João César Monteiro, Le bassin de John Wayne. Vive-se um tempo em que a ofensiva capitalista se agrava tentando ultrapassar as suas crises estruturais, que transforma num instrumento útil para as forças burguesas, das mais sociais-democratas às mais ultraconservadoras, falsearem a sua imagem, criticando os aspectos marginais do sistema para que a espinha dorsal deste continue intocada.

Um tempo da globalização neoliberal, do mundo aldeia global «que supostamente apagaria as fronteiras quando jamais se viram tantas fronteiras de classes sociais, de renda, fronteiras físicas e políticas, de poderio militar, como hoje» (Domenico Losurdo)Um tempo em que se exige às esquerdas coerentes a reinvenção da política e a intensificação da luta de classes em que as lutas eleitorais são uma das suas frentes. . Um tempo em que a esquerda tem que estar sempre presente e empenhada em todas as frentes na defesa dos direitos económicos, sociais e políticos.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

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Artes, Cultura, Geral, Manuel Gusmão, poesia

Manuel Gusmão

 

gusmao

Hoje, Manuel Gusmão, nome maior entre os poetas e intelectuais portugueses nossos contemporâneos celebra o aniversário. Celebremos com ele essa data.

 

“Nós, na «tradição dos oprimidos (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez” (Manuel Gusmão, Uma Razão Dialógica. Ensaios sobre literatura, a sua experiência do humano e sua teoria, 2011, p. 371)

 

 

UMA PEDRA NA INFÂNCIA

 

 

Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância

 

Para que de vez se cale essa respiração

contida suspensa no escuro

 

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre

essa infância essa fala ininterrupta essa

 

falagem que falha e promete e inventa

os sonhos e as promessas o riso sem porquê

 

Para que de vez se interrompa a esperança esse

mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

 

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa

que é a infância, as vozes da noite do poço.

 

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada

e para sempre trocou já os desejos e os medos.

 

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio

as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

 

Para que se cale de vez essa respiração que se ri

na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

 

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre

a infância e ouve a erva a folhagem que cobrem

 

o céu em ruínas,

 

Também então havia uma pedra no canto do quarto

Ali onde a noite começava, era uma pedra e depois

crescia, petrificava-se no seu coração de pedra

dividia-se e eram várias crescendo; ocupando

todo o espaço do sono, do sonho do mundo,

Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos

que de pedra ficavam e o grito era uma pedra

que na garganta subia contra a outra pedra,

O próprio ar golpeado era e dividia a voz

pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

 

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma

outra infância de que possas recordar-te.

 

Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:

nada acontece, Não há

 

nenhuma voz na voz dos condenados.

(Migrações do Fogo, 2004)

 

Leiam a entrevista que recentemente deu para a revista on-line de Letras, Artes e Ideias CALIBAN

https://caliban.pt/entrevista-com-manuel-gusmão-904d401e9ea4#.u97f1nk4u

 

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