Clarisse Lispector, Cultura, Geral, Literatura, Livros

UM LIVRO PARA TEMPOS DE FÉRIAS

A TRANSCENDÊNCIA             Clarice Lispector

DA VULGARIDADE

DO MUNDO

 

 

Com 23 anos, em 1943, Clarice Lispector alcançou fama com o seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem. Fulgurante entrada no mundo literário brasileiro emparceirando com escritores do quilate de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, Jorge Amado, João Guimarães Rosa. Um estrondo provocado por uma obscura estudante, cuja língua materna era o ucraniano, tinha emigrado para o Brasil com doze anos de idade. Tudo se tornou mais estranho quando a bela loura de aspecto estrangeiro, semanas depois desse êxito que fez história, deixa o Rio de Janeiro e deambula durante duas décadas pela Europa com o marido diplomata. Especulou-se se não seria o pseudónimo de algum escritor famoso. Nos anos seguintes tudo se esclarece sobre a sua identidade quando são publicados os romances O Lustre, A Cidade Sitiada, os contos de Os Laços de Família. Há um traço comum na sua obra, o de mergulhar nas realidades ocultas da vida visível das vidas das mulheres. O tédio que assalta os dias, os prazeres secretos de mães de família, o equilíbrio frágil das relações familiares, as violências interiores tão simples e vulgares como a da alegria da beleza que o espelho devolve a uma jovem à ferocidade com que esse mesmo espelho regista o envelhecimento. Na literatura mundial, ainda menos na de língua portuguesa, nada é comparável à obra de Clarice Lispector que, como um estudioso sublinha, projecta pela primeira vez luz intensa sobre a vida das mulheres com intensidade só comparável à que Zola, Dickens, Dostoiévki projectaram, também pela primeira vez, sobre as classes trabalhadoras. Fá-lo, com um assombroso rigor inovador na escrita. Os seus contos completos, trinta e cinco anos separam o primeiro do último, relatam vidas de mulheres, em silêncio ou alta voz, que vivem a sua vida com o máximo dignidade possível, desde as hesitações na escolha da roupa dos filhos ao delírio sexual de uma septuagenária que se apaixona por uma estrela pop que conhece no ecrã da televisão. Celebre-se Clarice Lispector em que os temas “femininos” tradicionais têm uma dimensão única e inigualável.

 

Todos os Contos

Clarice Lispector

Editor Relógio d’Água

Edição, Tradução e Notas Benjamin Moser

Tradução da Introdução José Miguel Silva

Revisão do Texto Anabela Prates Carvalho, Inês Dias

Capa Carlos César Vasconcelos sobre design de Erik Rieselbach

Foto da capa Pedro Henrique Matos

1ª edição março 2016

560 páginas

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal Julho/Agosto)

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Cultura, Geral, Helder Macedo, Literatura, Livros, poesia

O Poeta não é um fingidor

HMACEDO

 

Romance é um labirintíco e complexo poema. Um diálogo sobre amores e desamores, realidades e sonhos, encontros e desencontros que têm por cenário o cruzamento entre certezas quase absolutas e dúvidas sempre sistemáticas. O presente ser todo o passado e também o futuro, como Álvaro de Campos e T.S. Elliott enunciaram, tem neste poema a sua expressão paradigmática. São memórias de vida como foi vivida, como poderia ter ser sido vivida, como poderá ser vivida. Um rio a correr por direcções opostas sem nunca perder o norte.  Têm uma espessura e uma intensidade quase hipnóticas, numa escrita em que o poeta não é um fingidor. Sofre e faz-nos sofrer verdadeiramente com a crueza das palavras com que monta e desmonta o que é dado por adquirido para logo mergulhar na obscuridade onde se perde. Os corpos do desejo sempre presentes, sempre em unidade e conflito, engrossam uma nuvem que desaba espalhando os pedaços que sobram das batalhas da vida. Desaba num puzzle impossível de resolver, num chão impossível de varrer, numa ficção de amores antigos e actuais mais reais que a realidade que o poeta desnuda com as minúcias de nunca a despir. Um poema impar de Helder Macedo com Bernardim Ribeiro ao fundo.

(publicado no Guia de Eventos de Setúbal Maio/Junho 2016)

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Cultura, Geral, Literatura, Livros

Um livro de vez em quando

 

 

anoiterodaNoite na terra. Nunca é noite na terra porque a noite roda. Mas é noite na terra quando duas pessoas estão coladas uma à outra. Só nós estamos vivos, somos a Arca de Noé.”

O que acontece ao amor quando irrompe por num cenário de conflito, objecto de reportagem jornalística? O que acontece ao trabalho jornalístico quando é invadido pela paixão? No romance, a cronologia é subvertida pela geografia dos lugares por onde, Ana e Leon, protagonistas da história de amor narrada por Ana, transitam por urgências e exigências profissionais. O cenário é Israel e Palestina. O sucesso a morte de Arafat, as ressonâncias antes e depois.

Nessa geografia real, os mapas da paixão vive de encontros de intenso enamoramento erótico e de desencontros em que as distâncias são preenchidas por sms e e-mails, discurso amoroso da era digital. As cartas de amor são ridículas ou não seriam cartas de amor, escreveu Pessoa. Os e-mails e sms não escapam à vulgaridade. “Isto está mesmo a acontecer-me? Um folhetim de cordel, uma opereta” (…) “A realidade é sempre má ficção” regista com violência Ana. Sabemos, logo na primeira página do romance, que a paixão entre Ana Blau, jornalista catalã, sem relacionamento conhecido e Leon Lannone, também jornalista, belga, casado, com três filhos, família a viver em Bruxelas tinha chegado a seu termo. “Escrevo para acabar com a história, escrevo para que a história comece”, Leon tinha desaparecido há quatro anos. A história persiste para lá desse desaparecimento. A história procura fazer sobreviver a história de amor entre reportagens, narrativas de viagens, sms e e-mails com canções de Brel, Sigur Rós, Leo Ferré, versos de Elliot, Kavafis, citações do Gilgamesh, Lawrence Durrell, Dylan Thomas. Ver Saraband de Bergmann, ouvir um concerto dirigido por Barenboim em Ramallah, com a sua orquestra de jovens israelitas e palestinianos. Um arquipélago de referências.

Um belíssimo romance de amor, onde duas geografias, a real e a da paixão, obstinadamente se cruzam. Onde nos reconhecemos em fragmentos, neste ou naquele incidente do trânsito amoroso, como se o tivéssemos vivido num outro ponto do mapa.

“Há sempre qualquer coisa que está a acontecer. qualquer coisa que eu deva resolver, eu não meti o barco ao mar para ficar pelo caminho. porquê não sei, mas sei que essa coisa é que é linda.”

 

_publicado no Guia de Eventos de Setúbal/ Julho-Agosto 2014

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Cultura, Livros

E… BOAS LEITURAS

Há encontros aos quais não podemos faltar, por cumplicidade ou por genuíno prazer. E se a leitura é o vício bom que tudo avassala, fruto de uma experiência repetida vezes sem fim, então não deve deixar de conhecer este novo site – Deusmelivro.com – que se propõe divulgar/falar de autores, de livros e de livrarias… pois o que se lê é muito precioso e transcendente.

A leitura é, frequentemente, uma ajuda. Sabemos que pode mudar vidas, tal qual o farol que alumia a noite escura… sem parar.

Deixo aqui um pequeno aperitivo… delicioso.

Histórias com Bicho – Livrarias #1

Por 

Conhecem aquela sensação, propagada através do cinema e da literatura, de se percorrer um deserto sem fim à vista e, do nada, dar-se de caras com um belo oásis, cercado por belas árvores e com a dádiva inesperada de água fresca? Pois bem, a livraria Histórias com Bicho é também ela um oásis, descoberto após uma travessia que parece não ir dar a lado nenhum mas que, no final, reserva uma recompensa de todo o tamanho.

Mas comecemos pelo início. Em 1999, na cidade de Tomar, nascia uma editora infantil chamada O Bichinho de Conto, fundada em parceria por Mafalda Milhões e Pedro Maia. A Editora começou com o livro “Perlimpimpim…Perlimpimpão” – da autoria de Mafalda Milhões -, uma edição de autor feita nos tempos da faculdade que viu a luz da edição graças a um grupo de amigos que acreditou que seria possível dar forma ao impossível. Seguiram-se títulos como “Come a sopa Marta” – de Marta Torrão -, “O Desejo da Lua” – de Montse Gisbert – ou “A morte e o nascimento de uma flor” – de Elvira Santiago, Joana Quental e Alberto Péssimo -sempre à volta do mesmo desígnio: ler e dar a ler materiais gráficos de qualidade, desenhados com rigor, cuidado e atentos aos pequenos detalhes.

Depois do nascimento da Histórias com Bicho, um projecto que começou na Fábrica da Pólvora de Barcarena, em Oeiras, num dos espaços da Lugar Comum, a editora entrou em modo pausa, dedicando-se por inteiro à livraria, à mediação de leitura e à formação de leitores.

Há sete anos, tendo por missão a descentralização da cultura e o devolver da vida a uma zona de baixa e média densidade urbana, a Histórias com Bicho fez as malas e andou a percorrer o país à procura de um sítio com características muito especiais. Depois de uma demanda de contornos Quixotescos, o lugar especial para a implantação da Histórias com Bicho foi finalmente encontrado a 2,5 quilómetros de Óbidos, na localidade de Casais   Brancos.

Numa escola onde outrora crianças e adultos se encontravam para aprender, os olhos procuram o castelo, a lagoa ou o mar, num horizonte atravessado por um bonito monte. Em redor há também um poço, uma árvore gigante e ovelhas e cabras à solta, num cenário que parece ter nascido de um bonito sonho de infância. Aqui nasceu uma livraria especializada em literatura infantil, a primeira Livraria que Óbidos conheceu ainda antes de se ter tornado uma Vila Literária, que colocou à disposição dos leitores um catálogo de edições nacionais e internacionais, onde se encontram algumas das mais belas preciosidades editadas.

Mas nem só de livros vive a Histórias com Bicho. A livraria oferece uma agenda regular de actividades de promoção da leitura, apoio na formação de pais, educadores, professores e outros mediadores de leitura e um atendimento especializado, que junta muita simpatia e, na grande maioria das visitas, uma chávena de chá.

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História, Livros, Setúbal

Setúbal sob a Ditadura Militar – 1926-1933

Setubal sob a Ditadura Militar_Alho, Alberico Afonso CostaImagine-se com uma lupa muito potente a olhar para a História de uma terra. Uma ampliação concentrada num período muito especial da História, não só dessa terra, como do país. Pois é o que oferece aos seus leitores “Setúbal sob a Ditadura Militar 1926-1933“, da autoria do investigador Albérico Afonso Costa, obra recentemente dada à estampa.

A observação microscópica de uma realidade local pode bem ser o método que permite seguir o “fio à meada” de uma realidade histórica mais ampla. O angulo de observação de Albérico Afonso Costa foca-se nesse grande pano de fundo que são os movimentos sociais, de que Setúbal, na sua especificidade, é particularmente exemplar. E com especial enfoque na condição operária da cidade mono-industrial do binómio pescas-industria conserveira, nos anos iniciais da ditadura militar.

Três momentos

O trabalho analítico de Albérico Afonso Costa distribui-se por três momentos com epicentro no golpe militar de 1926: o antes, o durante e o depois, distribuidos por cinco breves capítulos: 1) O ciclo económico e social conserveiro; 2) Ação e organização operária após a revolução republicana; 3) O 28 de Maio de 1926 em Setúbal; 4) Setúbal e a oposição à ditadura militar e 5) A resistência operária e popular após o 28 de Maio.

A primeira industrialização de Setúbal havia sido caracterizada pelo rápido crescimento em torno da fileira da pesca e das conservas de peixe, que associou um conjunto de outras indústrias. O rápido crescimento da cidade (categoria a que foi elevada em 1860) guindara-a à condição de terceira maior urbe do país nas primeiras décadas do seculo XX.

Mas, passado o primeiro grande conflito mundial (1914-1918), a cidade e a esmagadora maioria de uma população dependente da pesca e da indústria conserveira, viriam a enfrentar um prolongado período de crise, com todo um impressionante e cruel cortejo de fome, miséria e degradação da condição humana. Aliás bem retratados ao longo da obra de A. Afonso Costa.

Definhamento e indiferença

O progressivo definhamento da República democrática tem o seu epílogo com o golpe de 28 de Maio de 1926, que estabelece uma ditadura militar e encontra Setúbal, a “Barcelona portuguesa”, numa situação económica e social dramática. Retratando esse ambiente, Albérico Afonso Costa relata-nos a greve geral da indústria conserveira de 1922 – que, com uma duração de quase três meses, foi uma das mais duras realizadas em Setúbal, “em que se convocam todos os recursos, da manifestação à bomba, por um lado, e do lock-out ao estado de sítio por outro” (pg.15).

A relação da primeira República com os movimentos operários foi marcada por sucessivos e violentos enfrentamentos. À esperança de melhores dias foi-se sucedendo a desilusão. E Setúbal foi bem disso exemplo. Foi na sua avenida Luisa Todi, na repressão de uma manifestação, que se registaram as primeiras mortes provocadas pela recém formada GNR!

O desencanto das classes trabalhadoras perante as sucessivas políticas da República propiciou a indiferença com que foi recebido do golpe militar antidemocrático (mas sobretudo anti Partido Democrático de Afonso Costa).

A escassa defesa do regime democrático em Setúbal não foi exclusiva da cidade, antes sendo a atitude dominante a nível nacional. Leia-se a propósito o relato circunstanciado dos episódios sadinos registados em 28 de Maio de 1926 e dias seguintes. Em que se descrevem os avanços e recuos do Regimento de Infantaria 11, sedeado na cidade e que não fazia inicialmente parte do movimento. Os 40 oficiais desta unidade rapidamente assinarão uma declaração abaixo-assinado, sob “palavra de honra”, em que se colocam “ao lado do movimento (…) convencidos que tal movimento é genuínamente militar, não político e retintamente republicano, e tem por fim a moralização dos costumes e o engrandecimento da Pátria e da República” (pg.22).

Os primeiros anos

A ditadura não se impôs imediatamente em toda a sua esmagadora plenitude, na forma que viríamos a conhecer com a afirmação de O. Salazar à frente do poder executivo e com a Constituição de 1933. É certo que alguns dos seus principais traços foram rapidamente instaurados – a ocupação dos centros de poder administrativo locais e regionais, a censura prévia, a presença de oficiais nos centros de decisão ou a suspensão de direitos, liberdade e garantias, a perseguição a dirigentes políticos e sindicais.

Em “Setúbal sob a Ditadura Militar 1926-1933” ficamos por dentro dos meandros que levaram à constituição da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Setúbal, presidida por Carlos Botelho Moniz e tutelada pelo poder militar, que substituirá a vereação eleita em 1925. E à nomeação do primeiro Governador Civil do Distrito de Setúbal. Distrito, categoria administrativa outorgada à cidade já pela Ditadura (22 de Dezembro de 1926) num processo concomitante com a desanexação de Palmela do concelho de Setúbal e a recuperação da sua dignidade de concelho.

Os primeiros anos da ditadura militar foram anos complexos e tortuosos, mesmo para o núcleo dirigente. À frente do “Ministério” sucederam-se Mendes Cabeçadas, Gomes da Costa, Óscar Carmona, Vicente de Freitas, Ivens Ferraz e Domingos Oliveira. Só a entrada de O. Salazar em 5 de Julho de 1932, após quatro anos nas Finanças, viria a dar-lhe estabilidade.

Mas, apesar das limitações e da repressão, há ainda nesses anos iniciais da ditadura algum espaço de sociabilidade e ação política semi-legal. Com um sindicalismo de classe ainda muito ativo (que será desarticulado em 1934 com a lei das corporações) e com algumas forças partidárias que ainda exercem grande parte da sua ação à luz do dia. Ao longo da detalhada cronologia com que o autor nos presenteia, pode ainda constatar-se a realização na cidade de algumas actividades públicas, promovidas por partidos e personalidades não afectos à “situação”.

O greve dos marítimos de 1931

fontainhas

Fontainhas, Setúbal, 1928. Foto de Américo Ribeiro.

Destaque para o relato da dura, difícil e prolongada greve dos marítimos de 1931 (pp. 66-75). Luta que se prolonga de Abril a Junho e onde se demonstra a má-fé com que as autoridades e os industriais negoceiam com trabalhadores, a ponto de a sua associação ser encerrada e diversos dirigentes sindicais serem presos.Mas também uma luta em que se manifesta já aquela que será uma das grandes divergencias que trespassa o movimento operário, em Setúbal, como no país, com a crescente afirmação do então jovem Partido Comunista Português (fundado em 1921 e ilegalizado em 1927) face ao ainda dominante anarco-sindicalismo (pp.75-77).

A Jaime Rebelo (Setúbal, 1900-1975), o personagem celebrado por Jaime Cortesão no poema “Romance do Homem da Boca Fechada” e figura emblemática da resistência anarquista, dedica a obra um detalhado capítulo. Porventura na representação de uma estirpe de lutadores antifascistas que encontra nos marítimos de Setúbal um dos seus grupos mais activos à época.

***

Uma cronologia procura transmitir o ambiente da Cidade nos primeiros anos da Ditadura, registando não só o que de mais relevante ocorre, como dando nota de pequenos detalhes significativos nos mais diversos domínios. E apresentando, como documentação complementar, abundantes citações de artigos de imprensa da época, nomeadamente do jornal “O Setubalense” e “A Indústria” (publicação ligada aos sectores patronais), bem como de outras fontes primárias.

A obra é ainda abundantemente servida de imagens de elevado valor documental – edifícios públicos, obras, aspetos urbanos, estabelecimentos industriais e comerciais, figuras públicas, eventos e acontecimentos políticos, culturais e sociais, publicidade comercial. Com significativo e incontornável recurso a imagens do arquivo municipal Américo Ribeiro – o fotógrafo a quem se deve o mais importante registo conservado de imagens sobre Setúbal da primeira metade do século XX.

Um útil indice analítico e uma “Iconografia Setubalense” encerram “Setúbal sob a Ditadura Militar 1926 – 1933”. Obra que se vivamente se saúda e de que se esperam agora os decisivos capítulos iniciados com a assunção plena do poder por O. Salazar, da “sua” Constituição de 1933 e do inicio do Estado Novo.

Ficha técnica

Título “Setúbal sob a Ditadura Militar 1926-1933”; Autor: Albérico Afonso Costa; Design de comunicação: DDLX Design Comunicação Lisboa / José Teófilo Duarte (Direção de Arte), Gonçalo Duarte, Eva Vinagre, João Silva (design); Edição: Estuário / Instituto Politécnico de Setúbal – Escola Superior de Educação / Câmara Municipal de Setúbal; Impressão: SIG Sociedade Industrial Gráfica, Lda; Depósito legal: 373359/14; ISBN: 978-972-8017-22-4; Fevereiro 2014

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Cultura, Literatura, Livros

Livros… a ler

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Não é que seja um entendido. É a curiosidade que me conduz à descoberta de autores e de livros que não encontro expostos nas montras e nas prateleiras das livrarias da moda.

Ler é perder-me – há muitos lugares onde nos podemos perder, mas nenhum é tão complexo como uma livraria ou uma biblioteca -, o que aconteceu, também, “ao Vivaldo Bonfim, escriturário na repartição de finanças do 7.º Bairro Fiscal e que punha sempre um livro debaixo de modelos B, impressos de alteração de actividade e outros papéis de nomes ilustres, e lia discretamente, fingindo trabalhar. Não era uma atitude muito bonita, mas o meu pai só pensava nos livros”.

É esta a história que nos conta Afonso Cruz, em “ Os livros que devoraram o meu pai”, numa edição da Caminho.

Como aperitivo transcrevo este pequeno e saboroso fragmento: “ … Soube pela minha avó que um tal Orígenes, por exemplo, dizia haver uma primeira leitura, superficial, e outras mais profundas, alegóricas. Um bom livro deve ter mais do que uma pele, deve ser um prédio de vários andares. O rés-do-chão não serve à literatura. Está muito bem para a construção civil, é cómodo para quem não gosta de subir escadas, útil para quem não pode subir escadas, mas para a literatura há que haver andares empilhados uns em cima dos outros. Escadas e escadarias, letras abaixo, letras acima”.

Se gostou… não hesite. Vai ver que vai valer a pena!

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