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007’s RASCAS e PERIGOSOS

Os 007’s andam por aí em roda livre, sem o gozo nem as peripécias bem engendradas dos guiões cinematográficos. Estes têm objectivos bem definidos, saudosos da Guerra Fria, são rascas e muito mais perigosos.

007

Em Alice no País das Maravilhas, a Rainha de Copas tinha um modo expedito e garantido de resolver todas as dificuldades grandes ou pequenas:“cortem a cabeça!” sem perder tempo a procura de justificação para o acto. À sua semelhança, os dirigentes do «mundo livre» cortam cabeças a esmo verbalmentequando passam à prática, as vítimas são milhões.

Na fronteira entre as alegações do Ocidente e da Rússia sobre o caso Skripal, algumas notas para despejar alguma água fria, racionalismo e realismo, (não confundir com neutralidade ou independência, uma moeda falsa com bastante curso) nos recentes ataques do Ocidente à Rússia que tinham como pano de fundo as vésperas de eleições presidenciais nesse país, antes de Putin ser reeleito como era prevsivel, da Grã-Bretanha estar em evidentes dificuldades nas negociações do brexit, das eleições em Itália adubarem os eurocépticos por toda a Europa, do exército sírio e seus aliados estarem à beira de tomar Gouta e de se ter tornado uma evidência que os terroristas, assim chamados pelos media ocidentais em Mossul, logo travestidos em rebeldes em Gouta como o foram em Aleppo, sequestrarem os civis e dispararem sobre os que se aventuram nos corredores humanitários e terem os instrumentos para fabricar armas químicas, da guerra comercial que está a ser instalada com o proteccionismo norte-americano e mais uns quantos mas não despiciendos conflitos de baixa e média intensidade em que se procura manter a unipolaridade norte-americana que está a ser fissurada.

Notas que têm bem presente duas frases de Georges Orwell que se aplicam perfeitamente ao autodenominado «mundo livre»: para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitárioe “numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um acto revolucionário.“
Primeira Nota– Os «novitchoks», supostamente usados na tentativa de assassinato de Skipral e filha, em que o químico Mirzanyanoy trabalhou num laboratório secreto da União Soviética podem, escreveu ele em 1995 nos EUA onde reside fugido da Rússia, ser fabricados num qualquer laboratório químico de relativa sofisticação. Num livro publicou várias fórmulas de armas químicas, que andam a circular na internet.. A dra Robin Black, chefe de um laboratório investigação militar em Porton Down, Salisbury, numa declaração feita em 2016, coloca alguma dúvidas:Nos últimos anos, tem havido muita especulação sobre uma quarta geração de agentes nervosos (inovações “Novichok”) tivesse sido desenvolvida na Rússia, tendo sido iniciada nos anos 70 do século passado como parte do programa “Foliant”, com o objectivo de encontrar agentes que pudessem comprometer as contramedidas defensivas. Informações sobre estes compostos têm estado dispersas no domínio público, provenientes principalmente de um químico militar russo dissidente, Vil Mirzayanov. Não há confirmação independente da estruturas ou que as propriedades desses compostos tenham sido publicadas”.

São conhecidos outros países que estudaram a mesma tipologia de compostos químicos como a Checoslováquia, a Eslováquia, a Suécia, a Inglaterra e os EUA.

Segunda NotaA investigação e desenvolvimento das armas químicas na União Soviética estavam centralizadas num laboratório no Uzbesquistão, onde trabalhou Mirzanyanoy, república que se tornou independente quando da desagregação da União Soviética e não integra a Federação Russa. Actualmente, quem tem presença militar nesse país asiático são os EUA com uma base militar. Anote-se que os EUA participaram activamente no desmantelamento do referido laboratório de armas químicas.

Terceira Nota– Theresa May e o comissário Neil Basu, chefe do departamento anti-terrorista da Scotland Yard, tem que se entender. Ela conclui muito rápida que “ a única explicação possível é o Estado Russo ser responsável da tentativa de assassinato de Serge Skripall e a filha” imediatamente corroborada por essa personagem altamente credível que é Nikki Haley, provocadora com várias mentiras no currículo de embaixadora dos EUA na ONU, embora nas suas teatradas não tenha ainda alcançado o patamar de Colin Powell quando desdobrou mapas com a localização de fábricas de armas de destruição no Iraque que não existiam. Diz ela:“ pensamos que a Rússia é responsável(…)”. Macron em linha “tudo leva a crer” no que é acompanhado por Merkel são muitas as pessoas que pensam que”. Neil Basu que já ninguém ouve nem interessa ouvir disse que “o assunto é tão complexo que só uma investigação de semanas o poderá esclarecer”. Uma declaração que fica silenciada debaixo das pedras de explicação possível”, pensamos que” , tudo leva a crer”, “são muitas as pessoas que” , o que é o necessário e suficiente para às investigações dizerem nada ou prepararem-se para fazer investigações de que o Conselho Consultivo Científico (Scientific Advisory Board, SAB) da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) é convenientemente excluído, talvez por não reconhecido os “novichoks” como armas químicas, porque encontrou poucas evidências de que existam.

Quarta Nota– Alguma estranheza deveria provocar tudo isto acontecer em Inglaterra.

Já Alexander Litvinenko, que se transferiu dos serviços secretos russos para os ingleses e fazia por conta própria contrabando de armas nucleares, foi supostamente assassinado a mando da Rússia, era Theresa May, ministra da Administração Interna. Agora com Serge Skripal, Theresa May é primeira ministra. A histeria é rápida e igual. As dúvidas de Jeremy Corbyn e de outros deputados trabalhistas, lembrando casos como as armas de destruição maciça do Iraque, são rapidamente enterradas ou mesmo nem sequer referidas na comunicação social estipendiada ao serviço do pensamento único.

Nada disto se estranha ao recordar as declarações de Carla del Ponte, que se demitiu da Comissão de Inquérito Independente da ONU para a Síria, depois de ter feito várias denúncias sobre o uso de armas químicas pelos «rebeldes», apontando para o Conselho de Segurança que “não quer fazer justiça”. Lembrar que Carla del Ponte, de 1999-2007, procuradora do Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia, acusou duramente Slobodan Milosevic que antes de ser condenado, o que tudo indicava ser mais que garantido, morreu na prisão e anos antes de completamente inocentado pelo mesmo tribunal dos crimes de que era acusado. Não se poderá dizer que Carla del Ponte seja um agente do Kremlin.

Quinta Nota– A propalada credibilidade da Inglaterra, o rigor dos seus procedimentos nos inquéritos é arrasada em séculos de histórias de mentiras e hipocrisias. Um dos últimos e excelentes exemplos é o relatório do embaixador Chicot sobre a guerra desencadeada por Bush e Blair contra o Iraque. Se por um lado diz que “Em março de 2003, não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein contra o Ocidente” por outro acrescenta que a guerra foi baseada em dados imperfeitos da inteligência e levada adiante de maneira totalmente inadequada”, afirmando que as circunstâncias com as quais foi estabelecida a guerra estavam “longe de serem satisfatórias”. Uma linguagem de trapos ao gosto dos diplomatas, que abriu a porta para Tony Blair se escudar na sua “boa fé”, coisa de que o inferno está cheio. Quantos “dados imperfeitos” ou “decisões inadequadas” são necessárias para desencadear guerras reais ou diplomáticas em circunstâncias “longe de serem satisfatórias” ?

Sexta NotaMuito mais apreensivo e alarmado fica-se ao ouvir o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, reafirmar a solidariedade da NATO perante o ocorrido que se insere num “padrão temerário de comportamento russo ao longo de muitos anos”. O norueguês deu como exemplos “a mistura de armas nucleares e convencionais em doutrina e exercícios militares”. Conclui-se que só à NATO é permitido misturar essas armas em exercícios militares, que é o que tem feito e intensificado ao longo dos últimos anos.

Alega o uso crescente de “tácticas híbridas, como soldados sem insígnias” deve estar a referir-se a acusações feitas pela Ucrânia, em relação à presença de soldados da Federação Russa sem insígnias na Crimeia e nas regiões de Donetsk e Lugansk. A Ucrânia é fonte pouco confiável como é sabido, e tem sido várias vezes desmentida pelos observadores da OSCE que ninguém pode acusar de estar ao serviço dos separatistas ou dos russos. Não deixa de ser curioso que os países da NATO andem a infiltrar no Médio Oriente, em particular na Síria, tropas especiais descaracterizadas, alguns já foram presos pelas forças governamentais sírias, e usem mercenários em larga escala. Como classificará Stoltenberg essa soldadesca e as missões que desempenham a mando dos países da NATO? O homem deve sofrer de forte estrabismo divergente. Olha para a mesma “táctica híbrida”, de um lado vêcticas condenáveis do outro lado táticas legítimas.

Refere a anexação da Crimeia; o apoio aos separatistas na Ucrânia”. Na Ucrânia houve um golpe de estado de forças de direita, para-fascistas e fascistas apoiado pela União Europeia mas sobretudo pelos EUA, como esclareceu de forma célebre para que não houvesse dúvidas Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland, mulher de mão de Hillary Clinton nessas golpadas. A NATO tem apoiado, treinado e armado as tropas regulares e os grupos para-militares que integram dois batalhões do Exército Islâmico, facto real mas menos referido, que nesse país lutam contra os separatistas ucranianos. Será de lembrar que a Crimeia só integrou em 1954 por decreto a República Soviética da Ucrânia. Foi sempre uma região autónoma onde a população russa é maioritária. Tem um enorme interesse estratégico para a Rússia que tem lá instalada uma poderosa base militar no que é o seu único acesso ao Mediterrâneo. É uma evidência que se a Crimeia não tivesse por referendo retornado à Federação Russa, a esquadra do Mar Negro russa seria rapidamente expulsa, fechando de forma impetuosa o cerco que se tem vindo a fazer à Rússia depois da desagregação da União Soviética, o que explica esta disputa e o interesse na Ucrânia e na Crimeia, a ordem é comutativa, para o Ocidente. Outra evidência é que a Rússia conhecendo bem a região, sabendo muitíssimo bem que a população russa e russófona era largamente maioritária recorreu ao referendo para legalizar o retorno da Crimeia à situação de região autónoma, estatuto que tinha desde o tempo dos czares.

Sublinha A presença militar na Moldávia e Geórgia”. Comparar a presença militar na Moldávia e Geórgia com as bases da NATO que existiam e as que, depois do fim da guerra fria, foram implantadas à volta da Rússia, é, no mínimo, extraordinário. Na Europa, são 50 as bases da NATO em doze países que aceitaram que aí fossem instaladas e armazenadas armas nucleares. Há que referir que a presença russa na Geórgia localiza-se nas regiões autónomas associadas a esse país que reinvindicam e querem manter autarcia. Para a anular foram invadidas a mando de Mikheil Saakashvili, na altura presidente da Geórgia, um amigo do ocidente. Um personagem que iniciou a carreira política no Instituto de Direitos Humanos na Noruega, antes de se candidatar e ser eleito presidente da Geórgia contra Eduard Shevardnadze, figura de proa da perestroika mas apesar disso menos confiável para o Ocidente, em eleição fraudulenta que nem os observadores enviados pela UE conseguiram ocultar. Decidiu invadir a Abcássia e a Ossétia que recorreram à Rússia para defenderem o seu estatuto. Saakashvili é hoje um apátrida. Acusado de inúmeras fraudes, fugiu da Geórgia para se albergar na Ucrânia, refugiando-se nos braços amigos de Poroschenko que, depois de lhe conferir a nacionalidade e a governação de Odessa, acabou por o expulsar e retirar a nacionalidade. Tudo gente do mesmo gabarito. Não se sabe, mas é bastante provável, que continue a receber os favores da NATO de que é ardente apologista.

Fala da A ingerência nas eleições ocidentais”. Acusação curiosíssima que ou é um atestado de estupidez às populações desses países ou é a admissão que dezenas de anos de agressão comunicacional, de mentiras e semi-verdades, esclerosaram tanto a esmagadora maioria dos povos submetidos ao pensamento dominante até os fazer perder sentido crítico pelo que são facilmente manipuláveis tanto por uns como por outros. Um bom exemplo são os media corporativos não questionarem Jens Stoltenberg sobre nenhuma dessas suas considerações, um atestado de idiotia a quem as ouve, feitas com o cinismo de quem sabe que não será desconfortado por uma plateia subserviente.

Sublinha o envolvimento na guerra na Síria”. Um pedregulho no sapato. Andam os EUA e os seus aliados da Nato a invadir o Iraque, a plantar primaveras árabes com os resultados conhecidos, a olhar para o lado para não verem a catástrofe humana brutal que acontece no Iemen, a apoiar o rei da Arábia Saudita e os emires seus amigos que fazem Bashar el-Assad parecer um democrata, a inventar financiar e armar uma oposição democrática moderada síria, uma ficção que é uma porta escancarada para financiar e armar o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e mais uns tantos grupos de igual quilate que espalham o terrorismo localmente e pelo mundo e a Rússia decide intervir, a pedido do governo sírio, para combater o terrorismo. Não é admissível, há que condenar quem trama o terrorismo amigo da NATO. Stoltenberg é espaldado por Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, um dos principais fornecedores de armas à Arábia Saudita que delas tem feito uso intensivo no Iemen, que tem o desaforo de dizer que “há uma relação directa entre a indulgência manifestada por Putin para com as atrocidades cometidas por Bashar-el-Assad na Síria e o Estado russo não ter dúvidas em usar uma arma química em território britânico”. Não se exime a atribuir culpas directas a Putin mas cobardemente acrescenta que é “muito provável”. Insinua mas não assume. Atira a pedra e esconde-se dentro de um caixote de lixo de onde a história não o resgatará.

Essa gente, que andou pelo norte de África e Médio-Oriente a espalhar a morte e a destruição, a matar e a destruir a vida de milhões de pessoas na base de mentiras e meias-verdades, está tão convencida que dezenas de anos a controlar e manipular a informação lhes permite continuar a martelar nas cabeças que as julgam todas formatadas, prontas a aceitar sem questionamentos qualquer coisa que lhes seja vendida mesmo se embrulhada em papel manhoso. Estão à beira de um ataque de nervos por verem as suas criminosas políticas irem por água abaixo na Síria, os terroristas amigos a ser derrotados. Não os preocupa nem nunca os preocupou que o regime de Assad fosse ou seja opressivo. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts.

Clama o secretário-geral da Nato que a Rússia “apagou a linha entre a paz, a crise e a guerra”. Proclamação de um terrorista verbal que procura um pretexto para passar à acção. Um ventríloquo dos trump´s & companhia, nas suas variegadas versões, de hoje como foi dos de ontem e será dos próximos, capaz de negar todas as evidências para vender cenários de guerra que a propaganda ocidental travestida de informação vende diariamente em doses maçiças para originar uma histeria colectiva cega.

Esperar pelos resultados de uma investigação credível não interessa às theresasmays & companhia. Aliás, no ponto que se atingiu, nem parece possível uma averiguação rigorosa. Segue o caminho de outros inquéritos ditos independentes em que algumas das partes interessadas, portadoras de informações importantes, são exiladas para não perturbarem as conclusões que circulam pelos media de modo a não possibilitar que se separe a verdade da mentira. Lembre-se, é sempre bom soprar as brasas da memória para iluminar as situações, o que se passou com Viktor Ioutchenko. Em 2004, todo o Ocidente vociferou contra a cumplicidade da Rússia na tentativa de envenenamento do candidato pró-ocidental por ucranianos seus adversários. Estranhamente ou não, Ioutchenko eleito presidente, com todo o aparelho de Estado à sua disposição não mexeu uma palha para investigar e acusar quem o tinha tentado envenenar. Porquê? A questão é, como diria Sherlock Holmes ao seu caro Watson, num crime a primeira pergunta é quem é beneficiado. A histeria colectiva dentro e fora da Ucrânia foram forte suplemento para a eleição de Ioutchenko. Objectivo alcançado deixou de ter interesse apurar a verdade.

Como disse Harold Pinter, ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose de grande êxito”. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos praticando acções que seguem os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir”.

rainha dew copas

Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”.

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2017-Artes Visuais : Um balanço em passo(quase) de corrida

ao povo alentejano

Ao Povo Alentejano. Jorge Pinheiro, 1980

Se, no plano fechado do foco estrito das artes visuais, o ano 2017 começa bem com as semanas finais das exposições inauguradas em 2016, de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, acaba em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora, projectada por Pedro Cabrita Reis, com desenho expositivo de Eduardo Souto Moura, a primeira grande exposição de um dos mais importantes pintores portugueses, depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou há quinze anos.

Muita outra coisa aconteceu neste ano de 2017 que, pelas melhores e as piores razões, se deve assinalar num balanço que é sempre algo imperfeito, mesmo nas contabilidades mais criativas e não pode ficar entrincheirado nos cômputos das exposições das artes visuais.

1. BALANÇO, PIM!

OS CONCURSOS DE APOIO ÀS ARTES

Por onde começar? Pela miséria do Orçamento de Estado para a Cultura que continua a ser um resto, uma sobra no OE, apesar de um ligeiro aumento que não dá para mudar o furo do cinto. Num balanço de 2017 tem que se olhar preocupadamente para os processos de candidaturas de apoio às artes que são fundamentais para viabilizar projectos que, nos últimos anos, têm sido administrativamente adiados. Apoios estatais à criação artística que são a possibilidade de centenas ou mesmo milhares de criadores e outros trabalhadores da cultura não verem a sua actividade frustrada e da da área cultural não ser inteiramente colonizada, sem alternativa, pelos produtos mercantis, rotineiros das chamadas indústrias criativas e culturais. Olhar preocupadamente porque os ecos das notícias sobre o curso dos candidaturas são inquietantes. Labirintos de formulários complexos, com informação detalhada entre explanação de projectos, orçamentos, anexos a suportar a documentação exigida. Respostas a perguntas algo desconexas que impõem aos concorrentes que, sublinhe-se trabalham em estruturas frágeis, um esforço desmesurado que chega às centenas de páginas e se pode perder num pormenor, na falha de uma assinatura, numa rasura.

Um exercício para os concorrentes que faz lembrar a feroz ironia de João Abel Manta quando retratou as aventuras de um cidadão português a aventurar-se numa digressão por um crítica ensaística.

João Abel Manta

Perguntas que não se percebem sobre se os projectos “valorizam a fruição artística enquanto instrumento de correção de assimetrias territoriais e de desenvolvimento humano, social, económico e financeiro”, “coesão social e territorial”, “qualificação dos cidadãos”, “valorização do território”, etc. Em vez de inquirir, os júris deveriam verificar se os projectos correspondem a esses objectivos, porque a cultura os deve ter sempre presentes e as práticas artísticas para ela devem concorrer. O ministério é da Cultura não é das Artes, apesar das artes serem parte substancial e impartível da cultura. As artes não podem ser percepcionadas como uma actividade que só tem por objectivo elas próprias, como se existissem e fossem realizadas numa ilha sem qualquer relação com um continente que é, aliás, o que confere significado à ilha. Uma equação complexa e algo paradoxal em que se deve ler atentamente Manuel Gusmão; “a poética é um produzir, um estudo da poiesis, e, a poesis já introduz artes e, portanto, podemos falar da poesis de qualquer arte sem trazer nada de exterior à arte, enquanto que, quando falamos da estética, tentamos confrontar o mundo da arte com o mundo em que vivemos, o mundo onde a arte é. Esse confronto pode não nos trazer muita coisa de bom porque substitui a descrição daquilo que as artes fazem por valores de comparação entre a figura artística e a figura do mundo e isso é aquilo que significa, por um lado, aparentemente, a necessidade de ver que a arte tem sempre a ver com o mundo mas não implica, não garante, que o que o que a arte ganha do mundo seja dito pela arte tal qual, e, portanto, é preferível escutar a arte no que ela diz enquanto arte e aí confiarmos que ela tem uma palavra sobre o mundo”. Uma tese orientadora dos concursos de apoio às artes delimitando os campos sem os excluírem.

Espera-se que se aprenda com os concursos agora feitos, que foram encerrados no fim do ano, para no futuro se simplificarem e sobretudo cumprirem prazos que viabilizem os projectos em tempo útil, o que parece extremamente difícil com os procedimentos actuais e com o modo como se constituem os júris. Foram dados passos positivos sem resolver os de fundo que deveriam nortear os concursos de apoio às artes. É cada vez mais evidente a urgência de uma profunda reestruturação do Ministério da Cultura para se delimitar claramente duas esferas de acção, uma com o foco no Património Cultural e nas instituições directamente dependentes, outra nas Artes Contemporâneas. Dois pilares que, nunca estanques, ficariam com maior autonomia e mesmo especialização para gerir os imensos problemas em que essas duas áreas se debatem actualmente. Duas estruturas verticais que se enraizariam numa rede horizontal que cobriria todo o território, região a região. Isso implicaria a reforma total das actuais Direcções Regionais de Cultura, hoje uma quase irrelevância. Um modelo de estrutura que favoreceria a descentralização positiva contra o excessivo centralismo que tem sido acentuado com as reformas que se tem feito, sobretudo desde 1980, com o aumento exponencial do aparelho de Estado na Cultura, reforçando um centralismo administrativo que nem umas vagas desconcentrações ilude. Um reestruturação que deveria ter reflexos positivos na simplificação e na descentralização dos concursos de apoio às artes , para que a Cultura, como se afirma no Manifesto 1% para a Cultura, se deixe de colocar no plano de um adereço da sociedade ou de um privilégio das elites. Cultura parte inteira da saída democrática da crise que, timidamente se procura resolver, com a intervenção determinante dos trabalhadores e do povo. Cultura que deve assumir um papel central, enquanto serviço público, que assegura o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural. Cultura, pedra nuclear na formação da consciência da soberania e da identidade nacional, dialogando, de igual para igual, com toda a cultura de todos os povos do mundo. Cultura a explorar o seu imenso potencial de criação, liberdade, transformação e resistência que deve ter um apoio decisivo por parte do Estado para não deixar destruir o que existe e não destruir o que fica impedido de existir. Os últimos Orçamentos de Estado para a Cultura, melhoraram a situação em relação aos anos de austeridade sem deixarem de ser preocupantes. Um tema que merece e exige uma mais ampla reflexão.

2. BALANÇO PAM!

A MARATONA DAS EXPOSIÇÕES

Balanço das exposições realizadas? Colunas Deve e Haver? No fim uma cotação +++ ou — com a seriedade das moodys, fitchs & poors que dão AAA+++ a empresas que no dia seguinte vão à falência mas rendem milhões aos especuladores seus accionistas? Como avaliar o débito e o crédito de valores imateriais? Qual o peso do irremediável kitsch do Terço em Fátima e do Galo à beira Tejo da Vasconcelos, joaninha volumosa que vai, por isso ou por causa disso, voar em 2018 para aterrar os seus totens na arquitectura de guardanapos do Guggenheim de Bilbau, numa demonstração que a “Merde d’Artiste” já não fica encerrada em latas de conserva.

Merde d'artiste

Merde d’Artiste, Piero Manzoni, 1961

Qual o contributo para um possível défice? E em que colunas colocar as inúmeras exposições de artistas interessantes ou desinteressantes em não menos interessantes e desinteressantes espaços exposicionais? As estradas do mundo das artes estão entupidas com artistas interessantes para todos os gostos, desgostos e paladares. Por cá, muitos a fazerem pela vida, apoiados em retóricas tanto mais obscuras e inteligentes quanto mais indigentes são as obras para se decifrar o indecifrável em curvilíneos textos que referem a natureza performática e efémera que as obras possuem e obrigam a um mergulho documental muitas vezes hostil ao espectador ou as interrogações poéticas do sentido que se estabelecem com os objectos em experiências marcadas pelo espanto, o humor e a perplexidade deste momento de destruição que ameaça o mundo em que falar de cura e reparação é uma urgência porque noutra lauda se desafia questiona e enfrenta o esquecimento para descobrir e activar os sentimentos latentes, percepcionar a materialidade das coisas, interrogar-se sobre o processo de realização das obras e o corpo, omnipresenças nos quilómetros que se percorrem a olhar para as paredes e para o chão e para o tecto dos cubos brancos onde a obra de arte é filtrada por coleccionadores, instituições públicas e particulares, feiras de arte. Escreve-se, muito se escreve sobre a obra em meios de comunicação social, generalistas ou especializados, muitos deles suportados pelos seus circuitos comerciais. Uma massa flutuante de informação que acaba fixada na História(s) de Arte que desse modo a certificam. Nesses trânsitos procura-se ocultar que na arte a História e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema financeiro que é o que realmente interessa porque pela primeira vez na história, na longa perspectiva da história, nesse nosso tempo pós-moderno, chegámos ao que antes era impossível conceber: a de uma arte sem significação social. É a danação do nosso tempo em que vivemos como o sujeito da canção Ces Gens-Là: “on ne s’en vas pas e il faut que je rentre chez moi”. E reentramos no mundo das artes a percorrer quilómetros de paredes, chão e tectos dos cubos brancos onde se plantam obras classificadas como arte nas múltiplas variantes do populismo estético e da ausência de profundidade que é o traço fundamental do pós-modernismo (Francis Jameson), na fusão obscena entre estética e realidade (Marcuse) em que se pode encontrar o padrão, de novo se recorre a Jameson, nos Sapatos com Pó de Diamante de Warhol a fulgir a sua inanidade, a sua vulgaridade que ribomba com intensidade nas redes de comunicação social e nas falácias estéticas que conseguem ocultar a significação, a beleza, o juízo político das Botas Camponesas de Van Gogh. É o drama da criação contemporânea, seja lá o que isso for, em que tudo se transforma em mercadoria.

Mas esse passeio pelas exposições no ano de 2017 começou bem com o fecho de três exposições inauguradas no ano anterior. As duas de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, para acabar em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora.

El-rei 1974

IEl-Rei V (Olhando um Quadro de Jorge Pinheiro – o da MetaLinguagem), Jorge Pinheiro, 1974

Jorge Pinheiro é um dos mais relevantes artistas da história de arte portuguesa. Nessa exposição de oitenta obras de pintura, escultura e desenho, abstratizantes ou figurativas, é determinante o estudo que o artista dedicou às sequências matemáticas de Fibonacci, estabelecidas no século XIII, que esclarecem a regra de ouro nas artes e nunca perdeu actualidade. Tem aplicações na análise de mercados financeiros, na ciência da computação, na teoria dos jogos, em muitas outras ciências. O fascínio que exerce e está bem presente em toda a extensa obra de Jorge Pinheiro é o do rigor do pensamento matemático, de como a matemática ensina a pensar e de como esse pensamento se transpõe para um sólido pensamento estético e uma não menos sólida e fascinante prática artística.

Esta exposição de Jorge Pinheiro é uma oportunidade de ver a grande arte, em plano igual à da selecção de obras do Museu do Vaticano que pôde ser vista no Museu Nacional de Arte Antiga com obras notáveis dos primitivos italianos Taddeo di Bartolo, Sano di Pietro, Fra Angelico, e de grandes mestres do Renascimento e do Barroco, Rafael, Pinturichio, Salviati, Pietro da Cortona, Barocci, em que a Virgem Maria é o centro da temática.

São exposições que marcam o ano de 2017, onde também é de assinalar a de José Almada Negreiros- Uma Maneira de Ser Moderno, comissariada por Ana Vasconcelos e Mariana Pinto dos Santos, com um trabalho a sublinhar sobre esse caso muito particular nas artes portuguesas e no contexto do modernismo, que tinha na altura o centro irradiante em Paris, de um Almada, autodidacta, artista multidiversificado, que cunha toda a sua obra com o selo de uma modernidade contraditória, híbrida, complexa.

Almada, com uma energia criativa invulgar presente em toda a sua obra de poeta, ficcionista, conferencista, ensaísta, desenhador, pintor, artista gráfico, muralista, ceramista, vitralista, cenógrafo, coreógrafo, bailarino, geómetra, onde o centro é ele em estado de performance narcisista.

No percorrer das outras exposições, com as questões já assinaladas, são  ana hathertyde referir a de Ana Hatherty e o Barroco, no Museu Gulbenkian, as de Sérgio Pombo, no Teatro da Politécnica e no Centro Cultural de Cascais e as várias de Valter Vinagre, em muitos lugares do país que o colocam num lugar central e de relevo na fotografia.

A finalizar este capítulo uma nota para o fecho da saga Miró quando faltam uns pormenores burocráticos e saber quanto se vai pagar à Cristhies, ficando, como é hábito, impunes os que armaram o imbróglio atropelando o quadro legal vigente. Há um efeito público no desfecho que não é desprezível, gerador de uma animação que de algum modo aplaina um olhar crítico. Curioso é confrontar esta apresentação pública com as muitas discussões a favor e contra ficar ou não ficar propriedade do Estado, sem que as obras fossem conhecidas ou só fossem conhecidas por um restritíssimo grupo de pessoas, na maioria sem especial conhecimento das artes. As 85 obras tinham sido compradas a granel pelo BPN. Eram um activo do banco sem qualquer preocupação que orientasse a sua selecção,o que está bem presente nesta exposição de Miró com obras de várias técnicas, temporalmente muito distantes, em que as conexões que se procurem estão dispersas. Há uma evidente irregularidade e errância entre elas, o que torna mais evidente o modo como o pintor com as suas formas abstractas se apropria dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, como deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que é particularmente interessante e acaba por conferir outra relevância a esse acervo que não é particularmente notável no seu todo pelo que em causa estará a sua indivisibilidade, como publicitariamente se proclamou.

3. BALANÇO PUM!!!

O KLU KLUX KLAN POLITICAMENTE CORRECTO

Thérteèse Dreaming, Balthus

Thérèse Dreaming, Balthus, 1938

No mês de Dezembro, nova-iorquinos fizeram uma petição em que se exigia ao Metropolitan Museum of Art que retirasse das suas paredes o quadro de Balthus, Thérèse Dreaming.

Motivo de tal pretensão: as muitas acusações de assédio sexual que desabaram sobre várias personalidades norte-americanas na sequência da Marcha das Mulheres em Washington que apontavam, com razão, para Trump e as suas fanfarronadas em que envolvia o sexo feminino. É de passar por cima, mesmo dando-lhes razão mas sem esquecer que muitas dessas organizações de mulheres eram financiadas por um personagem não menos torpe, Georges Soros. O assédio e a violência sexual, a desigualdade, a discriminação, a misoginia em relação às mulheres deve ser veementemente condenada. Tem uma história longa que começa se quisermos encontrar uma data quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, continuou imparável até aos nossos dias, apesar dos muitas conquistas alcançadas pelas lutas das mulheres e dos homens, uma luta que se inscreve na luta mais geral contra uma sociedade dividida em classes e na exploração do homem pelo homem e que não se resolve nessas lutas ditas fracturantes que são, sublinhe-se, importantes e devem ser empreendidas sem desfalecimentos. Dando-lhes razão, há que lhes retirar razão quando denunciam o que consideram ser o voyeurismo romanticizado pelas artes, sobretudo intermediado por crianças ou adolescentes, que é o que denunciam no quadro de Balthus a que, se fizesse vencimento, se seguiria o rasuramento de todas as ninfetas, para lá da sua idade, descritas, pintadas, fotografadas, filmadas, queimando na fúria dessas fogueiras inquisitoriais romances, poemas, pinturas, filmes, músicas que fariam um vazio devastador na história das artes. Quando, em França, esses novos guardiões da moral pública fazem uma manifestação à porta da Cinemateca com palavras de ordem e cartazes em que gritam “Se violar é uma arte, dêem a Polanski, todos os Césares”, estão a legitimar, se calhar sem disso se aperceberem, a destruição dos Budas no Afeganistão pelos dijahistas. Polanski deve ser condenado por ter violado uma adolescente de treze anos? Deve ser condenado sem remissão, mas essa condenação não pode nem deve atirar para o index os seus filmes. Por esse caminho vamos rasgar os poemas de Dante a Beatriz? Ou Alice no País das Maravilhas porque Lewis Carroll do que gostava mesmo era de desenhar e fotografar lolitas nuas e seminuas? Ou os filmes de Woody Allen com referências explícitas às suas histórias reais com Soon Yi uma adolescente, sua enteada via Mia Farrow? Vamos submeter a juízos morais e criminais as obras de poetas, pintores, romancistas, cineastas, músicos, ostracizando a sua arte porque infringem códigos morais, como Oscar Wilde condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por cometer actos imorais com diversos rapazes? Ou Crivelli, pintor de magníficas virgens julgado e condenado por ter sequestrado e repetidamente abusado de uma mulher indefesa? Caravaggio, inúmeras vezes condenado como homem perigoso e violento. Villon por ser ladrão, boémio e bebâdo, Rimbaud e Verlaine pelos seus escândalos amorosos, Céline anti-semita e misógino, colaborador destacado do governo de Vichy, relator de listas de resistentes franceses, judeus e não judeus, que enviava para os campos de concentração nazi. Schubert por escrever magníficos lieds que trocava por engates de momento. Os filmes do realizador francês Brisseau condenado a prisão por assédio sexual? Deixamos de ouvir Mahler, dirigido por Otto Klemperer que é de uma clareza arquitectural não mais alcançada porque tinha comportamentos sexuais incontrolados que alternava com mergulhos ultra puritanos? Os exemplos multiplicam-se e esvaziariam as artes tornando-as num deserto a engrossar um index interminável, dependente de códigos, morais, históricos e sociais com a agravante de serem variáveis com as épocas. Essa gente não percebe nem nunca perceberá porque devassos como Fillippo Lippi ou Carlo Gesualdo são capazes de pintar figuras bíblicas com a maior aura piedosa e virginal ou escrever Tenebrae ou Sabbato Sancto com um sentimento religioso e metafísico que muitos bons e politicamente correctos cristãos nunca alcançaram.

São um impulso que tem erupções recorrentes ao longo da história. Recorde-se o Concílio de Trento em que se chegou a propor acabar com a música sacra, só o bom senso de Palestrina evitou semelhante brutalismo, ou recobrir os frescos de Michelangelo na Capela Sistina de um azul celeste contínuo que faria as delícias de Yves Klein, por causa da extrema sensualidade dos episódios retratados

De lembrar que no auge da Guerra Fria Cultural, em que a CIA empenhou biliões de dólares, no primeiro congresso de curadores norte-americanos, esse baixo clero contemporâneo que comprava arte para as grandes corporações financeiras e do complexo industrial-militar, proclamou urbi et orbi que só iriam adquirir obras de arte que não tivessem qualquer relação com política, religião, sexo. Faziam-no em nome da liberdade artística, da arte pela arte, atirando para o caixote de lixo séculos de inquietações estéticas e artísticas. Faziam-no sabendo do poder de compra que estava à sua disposição e que comandaria a liberdade artística entregue farisaica e falsamente aos ditames do mercado sustentado por retóricas estéticas em que ninguém acredita. O seu desejo final era impor um campo de concentração terrestre onde se cercariam e se possível se atirariam para as câmaras de gás as lutas de classes para triunfo do fim da história enfeitada com uma arte elegantemente congelada limpa de sexo, política e religião, para alegria do olhar cego e estúpido dos viajantes por essas falácias, amplamente difundidas por uma comunicação social mercenária. Olhar cego e estúpido que não consegue ver as artes incómodas de todos os tempos produzidas por génios como Picasso, Erza Pound, Henry Miller, Wagner e tantos outros a que colariam os emblemas das “monstruosidades” das suas vidas numa fúria abominável de purificação, para os ocultar soterrando-os debaixo das virtudes dos piedosos e insuportáveis versos de Claudel que sequestrou até ao fim da vida a irmã, a escultora Camille Claudel, ela sim uma inspirada artista, num hospital psiquiátrico por condenar a sua livre vida sexual.

O que estamos a assistir é uma sequência, por assim dizer natural, desse paradigma da lógica cultural do pós-modernismo na lógica do capitalismo final que faz das artes mercadorias submetidas aos valores do mercado, situando-as num nicho do mercado dos bens de luxo em que a arte, as artes se integram com a frenética urgência de produzir novas linhas de produtos inconsequentes, subtraídos de qualquer inovação ou experimentação estética que não sejam pasto para a moda e as estruturas do star-system. Um mercado concordante com a imagem política da época que estamos a viver e nos querem impor bem retratada no filme de João César Monteiro, A Comédia de Deus, na cena em que é extraído do ventre do protagonista, entrapado numa cama de hospital, um enorme falo que vai ser pousado diante de uma fotografia de Georges W. Bush, o führer do império que se considera excepcional e quer policiar o mundo. Imagem política premonitória que o realizador completa em Le Bassin de John Wayne com a frase arquétipica: “hoje os novos fascistas, apresentam-se como democratas” que é o que são essas virtuosas congregações, novas polícias de costumes que se propõem acrisolar o mundo, castrando-o para triunfo do fim da história, do fim da política, do fim da ideologia.

Estamos a viver um tempo de niilismo democrático e a arte, as artes devem ser uma trincheira contra o ghetto em que as querem encurralar tornando-a uma inutilidade num território neutro de um salão de festas divertido, inócuo, moralista ainda que controladamente extravagante, noticiado abundantemente na comunicação social dita de referência e nas revistas da moda dos vários canais em que se consomem os dias.

A arte, as artes são a luta constante que nos faz interrogar a vida, a sociedade. A arte, as artes são parte activa da luta política diária em participam sem se deixarem colonizar pela política e sem submeterem ao simplismo de censuras que atiram as obras de arte para o deserto por via da vida pessoal dos artistas que não é nem tem que ser um modelo de virtudes. Contra a actual ofensiva moralista reclama-se a clarividência de não se estabelecer uma relação directa e imediata entre a vida como foi vivida pelos artistas e as suas obras, no que pode mesmo ser uma contradição insanável.

(publicado em https://www.abrilabril.pt/ )

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