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LÉNINE E AS ARTES (assinalando os 150 anos do nascimento de Lénine)

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes.

Tribuna para Lénine, El Lissitsky, 1920

Em 1905, durante a primeira revolução, ele (Lénine) teve de passar uma noite em casa de D. Lechtchenko, onde havia, entre outras, uma colecção das publicações de Knachfuss consagradas aos maiores pintores do mundo inteiro. Na manhã do dia seguinte, Vladimir Ilitch disse-me: «Que fascinante domínio o da história de arte. Quanto trabalho para um marxista. Não preguei olho durante a noite, percorrendo os livros um após outro. E lamentei não ter tempo – e não terei provavelmente nunca – para me ocupar das questões artísticas»
A. Lunatcharski, Lenine tel quel fut, Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès,  Moscovo, 1959 II volume, p. 422-426.

O trabalho político e revolucionário não lhe darão tempo para se ocupar das questões artísticas como poderia pretender, mas as questões artísticas nunca lhe foram estranhas nem indiferentes, muito pelo contrário, pelo que teve sempre um grande e directo envolvimento nas questões artísticas e literárias ligadas aos problemas políticos e filosóficos, antes da Revolução Bolchevique e no agitadíssimo período que se viveu depois da tomada do poder pelos sovietes, sempre intransigente em relação aos princípios e sempre politicamente flexível. Há um conceito que é nuclear em todo o pensamento e na acção de Lénine em relação à cultura: «a cultura revolucionária tem que ser o desenvolvimento lógico do acervo dos conhecimentos conquistados pela humanidade submetida ao jugo da exploração capitalista, de uma sociedade de latifundiários e burocratas. Esses são os caminhos e os atalhos que nos irão orientar e conduzir até alcançarmos uma cultura revolucionária»1 o que será mais explícito quando afirma «no capitalismo a cultura é de uma minoria. É com essa cultura que temos que construir o socialismo. Não dispomos de outro material. Queremos construir o socialismo imediatamente, na base do material que o capitalismo nos legou, ontem, hoje, agora mesmo e não com homens criados em estufas, se é que alguma vez podemos ter dado crédito a essas fábulas (…) se não somos capazes de construir a sociedade comunista com esses materiais, seremos uns charlatães».2. É a expressão do pensamento de um revolucionário marxista, conhecedor profundo do pensamento marxista, em consonância com a crítica sem complacências que Marx e Engels fazem do capitalismo sem deixarem de reconhecer, como Engels escreve no prefácio à edição italiana do Manifesto do Partido Comunista, que «o Manifesto presta inteira justiça ao papel revolucionário que o capitalismo representou em relação ao passado». É um tema de uma enorme dimensão e ainda actual que, obviamente, só poderá ser enunciado numa nota tão breve quanto esta.

Antes da Revolução de Outubro

Antes da Revolução, de 1893 a 1917, enquanto debatia as inúmeras questões políticas e filosóficas que se colocavam aos revolucionários marxistas, contra os erros ideológicos de todas as forças políticas que anulavam a intervenção e a acção revolucionária, Lénine refere frequentemente as questões literárias e artísticas, mais as primeiras que as segundas, intimamente ligadas aos problemas políticos revelando um considerável conhecimento sobre esse universo.

Os grandes debates políticos travavam-se entre os marxistas e os populistas, e os seguidores pós-Revolução destes, os socialistas-revolucionários. Os populistas tinham uma presença importante na literatura russa. Nos seus primeiros escritos Lénine polemiza violentamente contra a sua visão da sociedade russa, uma polémica que se irá prolongar durante vários anos. O que critica nos populistas, realçando como uma expressão estética revela uma ideologia política, é a negação que fazem de ser possível uma revolução na Rússia, contra a convicção de Lénine, que haveria de a tornar real, de que era possível uma revolução e que seria o proletariado a efectuar essa transformação. Lénine, no entanto, reconhece que os populistas fazem descrições exactas da realidade russa, cita-as com frequência, enquanto denuncia que na maior parte dessas obras, que expõem a evolução brutal da vida social, as novas formas de miséria ligadas ao aparecimento do capitalismo, se dissimula uma ideologia que prolonga a desgraça que denunciam e julgam combater.

Essas polémicas literárias em que Lénine se envolveu vão adquirir maior expressão com a criação da imprensa revolucionária, IskraVperiod, que considera nucleares para lutar contra os adversários ideológicos do marxismo, para a formação de um partido revolucionário, onde se permitisse a discussão dos diversos pontos de vista: « é impossível conduzir a luta política se todo o partido não puder pronunciar-se sobre todas as questões políticas e guiar as diversas manifestações de luta. Só se poderão organizar as forças revolucionárias, discipliná-las e desenvolver a técnica da acção revolucionária se todas estas questões forem discutidas num órgão central, se forem elaboradas colectivamente certas formas e regras de organização de trabalho, se a responsabilidade de cada membro do Partido perante todo o Partido for estabelecida por intermédio de um órgão central para debater as questões de teoria e de prática (…) devem dar amplo lugar aos problemas teóricos, isto é, tanto à teoria social-democrata em geral como à sua aplicação à realidade russa. A urgência da discussão pública destes problemas, actualmente, não é objecto de dúvida e dispensa comentários, depois do que acaba de ser dito (…) Devemos proceder de maneira a que cada social-democrata e cada operário consciente tenha uma opinião determinada sobre todos os problemas essenciais: é impossível, sem isto, organizar em grande escala uma propaganda e uma agitação metódicas»3. A história da Iskra é inseparável da luta de Lénine para criar um partido revolucionário, onde se retoma o combate às teorias populistas, onde se avolumam as divergências fundamentais entre Lénine, Plekhanov, Trotsky e Martov quanto à organização de um partido revolucionário, que seriam mais evidentes com a publicação de Que Fazer? (Editorial Avante!, 1984). O avolumar de divergências que culminariam na cisão, em 1903, do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) em Mencheviques e Bolcheviques e que também está na origem do Vperiod como órgão dos Bolcheviques, opondo-se ao Iskra que passou a reflectir as ideias mencheviques e, mais tarde todas as polémicas suscitadas pela plataforma organizada em torno do Vperiod, animada por Bogdanov, quando depois de terem sido reconhecidos pelo plenário do partido, em 1910, como «grupo de edição do partido», tendo recebido do Comité Central os fundos para o seu funcionamento, se recusaram a aplicar as directivas do mesmo Comité, juntando-se aos mencheviques e trotskistas para lutar contra as decisões nele tomadas. Um conflito que se arrastou durante anos, até à sua desagregação em 1913 e à sua oficial dissolução em Fevereiro de 1917, quase sempre em perpétua dissidência com o Partido Bolchevique, com uma ideologia flutuante sem unidade teórica mas, no plano cultural reivindicando-se de uma «filosofia e cultura proletária» que terá expressão depois da Revolução de Outubro.

Gorki e Tolstoi

Os debates sobre o trabalho literário e o papel dos escritores é largamente debatido tanto na Iskra como no Vperiod e se Lénine faz severas críticas aos intelectuais, seus desvios e erros, é porque reconhece a importância que têm na luta contra o czarismo. A sua correspondência com Gorki, que não era membro do Partido, é bem reveladora do interesse de Lénine pelo papel dos intelectuais na luta revolucionária. É também neste período na Novaia Jizn, em 13 de Dezembro de 1905, que Lénine escreve um célebre texto que dará origem a imensos debates e equívocos, pelo que merece atenção mais particular A Organização do Partido e a Literatura de Partido (ibidem, tomo. X, p. 37) que deve ser fundamente analisado até pela especulação que Estaline e Jdanov fizeram desse texto, ignorando propositadamente todos os esclarecimentos feitos por Lénine.

São muitas as polémicas literárias antes da Revolução de Outubro em que Lénine participou. Particularmente interessantes são os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, compará-los com os escritos por Plekhanov e Trotsky. Quando Tolstoi fez 80 anos e na celebração da sua morte dois anos depois, coincidiram a direita mais reaccionária, esta com a suprema hipocrisia de continuar a proibir os textos em que o escritor condenava a sua prática política, e os mencheviques que elogiaram Tolstoi «anarquista conservador», para evidenciarem a sua teoria reaccionária da não resistência ao mal pela violência, a fusão mística com a natureza, o culto do trabalho manual. O que é de sublinhar é que Lénine, assinalando todas essas contradições de Tolstoi, manifesta a sua profunda admiração pelo escritor que considera um dos maiores escritores vivos, «um observador e um crítico profundo do regime burguês, apesar da ingenuidade reaccionária da sua teoria». Anota que «se não simpatiza com os nossos objectivos revolucionários, sabemos que é porque a história lhe recusou toda a compreensão dos seus caminhos. Não o condenaremos por isso. Admiraremos sempre nele o génio que viverá tanto tempo quanto a própria arte, e também a coragem moral indomável que não lhe permite ficar no seio da sua Igreja hipócrita, da sua Sociedade e do seu Estado, o que o condenou a ficar isolado entre os seus inúmeros admiradores». Os seis textos de Lénine sobre Tolstoi, são o trabalho teórico mais extenso desenvolvido por um dos fundadores do marxismo-leninismo sobre um escritor. São uma visão crítica da obra de Tolstoi e a apreciação da importância histórica da sua obra, da importância política da sua obra e o que ela significava para a história do movimento social russo. O agudo olhar crítico de Lénine sobre Tolstoi, condenando «o ataque sem cambiantes de certos elementos de esquerda, os quais confundindo Tolstoi e o tolstoísmo, recusam em bloco a obra e a sua ideologia» está claramente a apontar para Plekhanov e Trostsky, entre outros socialistas, que passam por cima de todas as contradições de Tolstoi para, sem negar a sua valia literária, verem nele apenas um reaccionário, um representante da aristocracia, um inimigo do movimento operário. São textos que revelam a atitude revolucionária de um revolucionário marxista intransigente nos princípios e acutilante e flexível nas apreciações políticas e estéticas, de uma sageza crítica rara, o que é particularmente importante para se entender a sua relação com as artes e as letras depois da Revolução de Outubro.

«Batam os brancos com a cunha vermelha» (1919), litografia de El Lissitzky no Museu de Belas Artes, em Boston, EUA. Por “brancos” eram designados os exércitos contra-revolucionários durante a Guerra Civil Russa. Lazar Markovich Lissitzky (1890-1941), arquitecto e artista plástico, foi uma das mais importantes figuras do construtivismo russo Créditos

A Cultura, a Educação, as Artes e a Revolução

As fotografias da revolução russa, não só a de 1917, mas também a de 1905, mostram uma curiosa literarização da rua. As cidades e mesmo as aldeias, estão consteladas de fórmulas, como símbolos. A classe que se apodera do poder inscreve em grandes pinceladas as suas opiniões e as suas palavras de ordem nos edifícios de que se apoderam.
Berthold Brecht, Les Arts et la Revolution, L’Arche, 1997

A Revolução modificou as ruas porque mudou as relações entre os homens. Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais, a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes nem paralelos. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachadas de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura na Rússia Soviética em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. A literalização das ruas inscreve-se nessa metamorfose radical da vida quotidiana depois de Outubro. O estoirar das velhas estruturas coexiste com uma explosão da criatividade entre artistas, operários, soldados escrevendo música, poemas, peças de teatro, cinema, num enorme esforço de trabalho de agitação e propaganda para motivar as imensas massas iletradas, para as fazer aderir aos ideais revolucionários. Lado a lado trabalham os maiores artistas soviéticos, Meyerhold, Eisenstein, Maiakovski, Malevitch, Rodzchenko, Tatline, Dziga Vertov, El Lissitsky, que melhor compreendiam os objectivos da Revolução, mas também os que dela tinham imagens parcelares, algumas distorcidas como é o caso de Essenine, Chagall, de algum modo Pasternak, até por vezes místicas como em Blok, ao lado de operários, soldados, simples cidadãos, muitos deles iletrados.

Lénine, assoberbado com o trabalho imenso de transformação económica, social e política da Rússia, enfrentando uma situação de grande penúria, a contra-revolução e os revisionismos que minavam a Revolução, tem um papel central na área da cultura e das artes. Refira-se, quando da formação do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, a integração de um Comissariado do Povo para a Instrução Pública, para o qual indicou Anatoli Lunatcharski. A tarefa não era de somenos: organizar uma educação nova, socialista numa Rússia maioritariamente analfabeta, representar o poder soviético junto dos artistas e intelectuais, um caldeirão efervescente, em que muitos dos empenhados na Revolução se digladiavam violentamente entre si, por opções estético-artísticas inconciliáveis, e muitos outros opunham-se vigorosamente à Revolução. Uma tarefa de vulto dispondo de meios materiais escassos num tempo em que tudo era escasso e tinha que ser muitíssimo bem equacionado.

Lunatcharki definia-se como «um intelectual entre os bolcheviques e um bolchevique entre os intelectuais». As suas polémicas com Lénine são dos tempos de exílio na Suíça. Com formação filosófica, era um homem de imensa cultura, um orador apaixonado e apaixonante. A sua divergência de fundo com Lénine enraizava nas concepções empiriocriticistas que tinha estudado com Averenius e que perfilhava, ainda que com algumas reservas, mas muitíssimo distanciado da violenta e arrasadora crítica feita por Lénine em Materialismo e Empiriocriticismo (Editorial Avante!, 1978), que nunca lhe poupou críticas reconhecendo-lhe todas as suas qualidades, empenhamento na Revolução e dedicação ao Partido apesar das suas indecisões e oscilações. Esse é um dos traços da personalidade de Lénine. Recorde-se, a talhe de foice, que apesar de todas as discordâncias com Rosa Luxemburgo, foi ele que incentivou e apoiou a edição em russo de Reforma ou Revolução (Editorial Estampa, 1972).

Vladimir Tatlin e um assistente junto à maqueta do «Monumento à III Internacional», em Petrogrado (hoje São Petersburgo), então capital da Rússia Soviética, em Novembro de 1920. Vladimir Tatlin (1885-1953) é um dos fundadores e nomes maiores do construtivismo. O «Monumento à III Internacional», concebido por Tatlin em 1919-1920, que nunca chegou a ser construído na dimensão originalmente prevista (400 metros de altura) é um dos ícones da arte construtivista Créditos

O Comissariado do Povo para a Instrução Pública (Narkompros) defrontava-se com inúmeras dificuldades, de que as menores não eram a desorganização entre departamentos, iniciativas mal estruturadas, o recrutamento de recursos humanos com competências culturais e de ensino mas poucas ou nenhumas em matérias de administração, a recusa activa de muitos membros da anterior intelligentsia em colaborarem com os bolcheviques, as estruturas arcaicas que herdara e os militantes mais competentes dos Partido estarem absorvidos pelas tarefas de reconstrução de um país a enfrentar dificuldades desmesuradas. Reinava uma certa anarquia contra a qual N. Krupskaia, ardente defensora do Narkompros, era porta-voz, por diversos departamentos do Comissariado escaparem à sua autoridade. A outra questão central era a do orçamento. Os representantes do orçamento do Conselho de Comissários do Povo criticavam o Narkompros por pedirem o impossível. O apoio de Lénine ao Narkompros e a Lunatcharski, olhado com desconfiança por muitos membros do Partido que ironizavam o seu esteticismo, foi fulcral. O seu orçamento, se relativamente baixo em termos absolutos, era até exorbitante em comparação com outros Comissariados. Foi objecto de várias reorganizações até à ultima, que instituiu o Narkompros como Comissariado do Povo para a Educação e as Belas-Artes. Os primeiros decretos incidiram na reorganização da educação em todo o extenso território da Rússia, defrontando-se com o gigantesco problema de encontrar professores para o realizar. Apesar disso as primeiras realizações, com o apoio directo de Lénine, foram notáveis, como os projectos de jardins infantis, as escolas comunais, maternas e artísticas, os métodos de ensino pedagogicamente revolucionários, um universo rico de experiências, impossíveis de descrever aqui mas em que se deve referir o trabalho, avançadíssimo para a época de Makarenko pelas suas teorias pedagógicas com uma ideia central: «exigir o mais possível do homem e respeitá-lo o mais possível» (Les Problèmes de la Éducation Scolaire Soviétique, Editions du Progrès, Moscovo, 1962).

O programa de ensino afrontava outra questão muito particular que era as dos idiomas locais, das diversas nações que coexistiam no território da Rússia, que muitos queriam normalizar pela imposição de uma língua unificada. Uma questão que imbricava noutra mais vasta, a de uma cultura nacional. A participação de Lénine é decisiva. É contra a ideia de uma cultura nacional unificada que classifica de reaccionária. Sublinhava que «a Rússia é um país misto no aspecto nacional» e que «uma cultura nacional exerce-se em detrimento do povo, favorecendo o nacionalismo burguês» (…) «não se trata de construir uma cultura nacional mas uma cultura internacional para a qual cada cultura nacional contribui apenas com uma parte, a saber, unicamente o conteúdo democrático consequente e socialista de cada uma das culturas nacionais (…) nós somos contra a cultura nacional enquanto palavra de ordem do nacionalismo burguês. Somos pela cultura internacional do proletariado socialista e democrata até ao fim». (ibidem, tomo XIX) Serão as palavras de ordem do Partido Bolchevique: a igualdade em direitos culturais, o direito à identidade de todas as nações no seio do Estado, a recusa da imposição de uma «autonomia nacional cultural» que conduziria a progressivamente anular as culturas regionais pelo seu não reconhecimento enquanto parte activa da cultura de toda a Rússia. Registe-se que, em linha com esta posição de Lénine, no trabalho de alfabetização de toda a Rússia, as línguas das diversas nacionalidades foram protegidas, o seu uso incentivado. Algumas delas, que eram orais, não tinham expressão escrita e só começaram a tê-la pelo trabalho dos linguistas soviéticos. Pela mesma ordem de razões, Lénine opor-se-á à imposição de uma «cultura proletária», mesmo a reconhecer a existência de uma «cultura proletária», como os partidários do Proletkult pretendiam, como mais adiante se referirá.

Outras das grandes questões a resolver pelo Narkompros era a dos monumentos e da riqueza artística da Rússia. Os combates de rua e a guerra civil eram uma ameaça. Os bolcheviques tomaram medidas eficazes para os salvaguardar, empenhando os responsáveis do Partido, os militares e os operários. A palavra de ordem de Lénine era «o povo dos trabalhadores é agora senhor absoluto do país. Além das riquezas naturais, herdou enormes riquezas culturais, edifícios de grande beleza, museus, bibliotecas, colecções particulares. Tudo isso é agora propriedade do povo». A propaganda contra a Revolução de Outubro apresentava os revolucionários como uma horda de bárbaros e de iconoclastas saqueando a velha cultura secular. Há um episódio relatado por John Reed, em Dez Dias que Abalaram o Mundo (Editorial Avante!, 1997) bem expressivo em relação a essa propaganda contra-revolucionária. «A 15 de Novembro, na sessão do Conselho de Comissários do Povo, Lunatcharski rebentou bruscamente em lágrimas, precipitou-se para fora da sala, gritando: É mais forte que eu! Não posso suportar esta destruição monstruosa da beleza e da tradição. No mesmo dia, a sua carta de demissão aparecia em todos os jornais: “Acabo por saber por testemunhas oculares o que se passou em Moscovo. Estão a destruir a igreja de Basílio, o Bem-Aventurado e a catedral Uspenski. Bombardeiam o Kremlin, onde se encontram os tesouros artísticos de Petrogrado e Moscovo, há milhares de vitimas. A luta atinge o último grau de selvajaria. Até onde irá isto? Que pode acontecer mais? Não posso suportar isto. A medida está cheia e sou impotente para deter estes horrores. É-me impossível trabalhar, perseguido por pensamentos que me enlouquecem». Era tudo mentira, as noticias falsas, as fake news, ontem como hoje e no futuro serão sempre uma arma, uma poderosa arma dos reaccionários. Lunatcharski retirará o seu pedido demissão.

Sublinhe-se que poucos foram os antigos monumentos destruídos, mesmo os que eram símbolos do poder czarista, desde que apresentassem valor artístico. No assalto ao Palácio de Inverno os guardas vermelhos foram os primeiros a dar o exemplo, impedindo actos de pilhagem e recuperando os que os fiéis ao czar queriam roubar. Logo a seguir à tomada do Palácio de Inverno foi publicado um decreto a proteger o edifício e os tesouros artísticos aí albergados.

O Narkompros com o apoio do Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lénine, e de várias comissões ad hoc, nomeadas por esse Conselho, inicia o trabalho de inventariar todas as obras de arte, de nacionalizar castelos, galerias, bibliotecas e colecções particulares, de proibir a exportação de objectos antigos e de obras de arte, foi mesmo decidido restaurar alguns palácios e castelos, como o palácio Stroganoff ou o castelo Pavlovsk, o Kremlin que estava devastado antes da Revolução, iniciar escavações arqueológicas. Em Novembro de 1917, por iniciativa de Lénine e do Comissariado do Povo da Instrução Pública, foi criado um colégio para se ocupar dos assuntos dos museus, deram-se cursos de formação para os trabalhadores dos museus. A Narkompros, enfrentando uma penúria generalizada, contradições e polémicas fez, nos anos da Revolução, um trabalho notabilíssimo dirigida por Lunatcharski, a quem Lénine, nunca o poupando a críticas, também nunca deixou de activamente apoiar.

Colectivo artístico acaba a decoração de uma carruagem de um comboio de agitprop

As Vanguardas Artísticas e a Revolução

Alguns aspectos da relação das artes com a Revolução de Outubro já foram referidos. É, como todos os outros aqui mencionados e muito debatidos ao longo dos anos, um tema extenso que tem que ser necessariamente resumido num texto deste género. Uma primeira nota, que merece uma longa reflexão e um longo debate, é o referente às vanguardas artísticas, o que foram e a decadência e o descrédito de tal conceito na actualidade, a sua validade e a sua relação com as vanguardas históricas revolucionárias e políticas. Não é um acaso que na Rússia da Revolução de Outubro se assista à explosão das vanguardas artísticas com toda a sua radicalização, o que colocou problemas e questões novas ao poder político e deu lugar a grandes polémicas, entre as vanguardas artísticas entre si e com o poder dos sovietes. Uma única certeza – com tudo o que as certezas têm e que devem ser sempre questionadas com hipóteses provisórias que as fazem equacionar sempre enquanto certezas relativas do ponto de vista do materialismo dialéctico – estavam empenhadas por inteiro, ainda que muitas vezes não compreendendo a sua evolução, com a Revolução.

As vanguardas artísticas, futuristas, cubo-futuristas, suprematistas, expressionistas, construtivistas, imagistas, etc. reivindicavam uma arte radicalmente nova e mesmo a destruição das obras de arte anteriores consideradas inquinadas pelo gosto e pelas ideias da burguesia. Cite-se a título de exemplo a drástica proposta de Avraámov – um pioneiro da música concreta que pintava filmes virgens para reproduzir os sons assim obtidos e que escreveu uma sinfonia com sirenes e ruídos de rua – que exigia que o Narkompros destruísse todos os pianos para acabar de vez com a música tonal. Noutra trincheira o Proletkult, que queria assumir-se como representante de uma nova cultura proletária, combatia vigorosamente as vanguardas artísticas que não se faziam rogadas em o combater e combater-se entre si. Um ambiente efervescente que no entanto não impedia que todos se concentrassem, cada um a seu modo, a glorificar e propagandear a Revolução, fosse com os lendários comboios de propaganda, fosse com as depuradas linhas e formas de El Lissitsky, com poucas cores, negro, cinzento, vermelho, as legendas inscritas nas figuras geométricas de que o exemplo mais icónico é «Com a Cunha Vermelha derrota os Brancos», fosse com as celebradas «Rosta» de Maiakovski, que com ferocidade caricatural teatralizava os acontecimentos de forma facilmente perceptível. fosse mesmo com o «Quadrado Negro sobre fundo Branco» de Malevitch que decorou as ruas de Vitebsk e que, surpreendentemente, foi base usada extensivamente em toda a Rússia para muitos cartazes anunciando eventos culturais e políticos por muitos autores, a maioria anónimos. Tudo isto se sucedia enquanto os criadores artísticos se digladiavam, chegando muitas vezes a via de facto. Refiram-se as sucessivas humilhações a que Malevitch submeteu Chagall, quando viviam e tinham as suas academias em Vitebsk, que culminou numa carta que aquele dirigiu a Estaline, já no poder, denunciando Chagall como contra-revolucionário, isto depois de ele e os seus discípulos terem invadido e praticamente destruído a academia de Chagall, que se vê obrigado a emigrar. Presume-se a perplexidade de Estaline e Jdanov ao olharem para os quadros suprematistas do revolucionário Malevitch.

É esse ambiente que faz perceber porque é o teatro, onde concorrem diversas géneros de arte, salta para as ruas e a praças, celebrando a Revolução e os seus sucessos, que no 1º de Maio, em Petrogrado os operários tenham construído e exibido no desfile o monumento construtivista de Tatlin à III Internacional, enquanto o de Moscovo era antecedido por uma gigantesca marioneta simbolizando o capitalismo. Tudo isto enquanto o Narkompros desenvolve um projecto muito caro a Lénine, monumentos que celebrassem os revolucionários e personalidades públicas, escritores, poetas, filósofos e sábios, pintores, compositores, artistas, patrimónios da humanidade na luta por outra vida. Uma longa lista em que figuravam, entre muitos outros, Espártaco, Marx, Engels, Bakunine, Marat, Robespierre, Tolstoi, Dostoievski, Gogol, Mendeleev, Rublev, Mussorgski, Chopin, Scriabine. Era um projecto de propaganda monumental-heróica. Foram postos a concurso e o seu resultado decepcionou Lénine, como refere Lunatcharski, no livro já citado: «ora em Moscovo Vladimir Ilitch justamente teve a possibilidade de vê-los, os monumentos eram bastante maus (…) um dia disse-me enfadado, que a “propaganda monumental” dera em nada. Respondi-lhe, referindo-me à experiência de Petrogrado e ao testemunho de Zinoviev. Abanou a cabeça em ar de dúvida e replicou: “isso quer dizer que todos os talentos se reuniram em Petrogrado e que todos os falhados estão em Moscovo?”». Esta primeira vaga de monumentos, dedicados à propaganda, foi tão violentamente criticada pelo Prolekult como pelas vanguardas.

O entusiasmo acendido pela Revolução de Outubro transformou as vidas e teve fortes repercussões na poesia que invade os comícios políticos, as fábricas, as ruas, os cafés. Escreve-se nas paredes ao lado das palavras de ordem. Poetas como Maiakovski, Essenine, Pasternak deram-se a conhecer nesse fervilhar quotidiano, mesmo o simbolista Blok adquire um novo fôlego, surgem os poetas proletários sob a bandeira do Prolekult. Cometem as maiores extravagâncias e o poder soviético mostra para com eles uma rara indulgência, muito pela intervenção de Lénine que dava mais importância ao seu contributo para a Revolução do que as seus excessos públicos, ao seu contributo para os ideais da Revolução do que para as suas propostas estéticas. Benjamin Goriely relata muitos desses sucessos como o dos poetas imagistas que querem imediatamente a celebridade universal, consagrada na própria cidade.

Da esquerda para a direita: Shostakovitch, Mayakovski, Meyerhold e Rodchenko

«Substituem nomes ilustres das placas pelos seus próprios nomes (…) A rua Petrokva passou a ter o nome do imagista Marienhoff. O beco dos Camaristas, onde está o teatro Stanislavski, fui mudado para rua Essenine, O Beco da Gazeta passaria a chamar-se Kussikoff. (…) Os cocheiros foram os primeiros a aperceberem-se da coisa. Foi o próprio Essenine que lhes chamou a atenção. Chamou um trem, disse ao cocheiro:
– Leve-me à rua Essenine
– Como disse, perguntou o cocheiro.
– Rua Essenine.
– Essenine, não conheço
– Como? Não conheces os grandes homens da Revolução?
– Mas claro que conheço, responde o cocheiro a tremer, como foi que disse camarada? A rua Essenine, conheço-a mas pode-me dizer o antigo nome da rua.
– Beco dos Camaristas.
– Pois claro que conheço. Como podia eu não conhecer o grande revolucionário Essenine?

Essas brincadeiras valeram aos imagistas uma severa repreensão, mesmo uma ameaça de prisão por Kamenev, então presidente do Comité Central do Soviete, que a relatará a Lénine. Este riu-se a bandeiras despregadas, de modo algum pensou em punir os imagistas: melhor ainda, os seus poemas foram editados.4

Lénine compreendia que o processo em curso implicava as mais amplas massas na criatividade revolucionária e na construção de uma nova cultura num contexto em que iriam surgir projectos extraordinários e reivindicações radicais. Em conversa com Clara Zetkin, referiu-se a esse processo: «O despertar de novas forças, o trabalho com o objectivo de criar na Rússia Soviética uma arte e uma cultura novas, é uma coisa boa, muito boa. O ritmo tempestuoso do seu desenvolvimento é compreensível, mesmo útil. Devemos dar futuro ao que foi, durante séculos, descuidado, nós assim o queremos. A efervescência caótica, as novas consignas febris das aventuras artísticas, consignas que hoje cantam “hossanas” em relação a determinadas correntes da arte e amanhã as “crucificam”, são coisas inevitáveis. A revolução liberta todas as forças ontem amarradas, impulsionam-nas das profundidades para a superfície da vida» (Écrits sur l’Art et la Littérature. Éditions du Progrès, 1969).

No entanto, não estava desatento a esses movimentos que se tinham juntado à Revolução. Os de vanguarda intensificando a sua acção a favor de uma nova arte, criando células literárias e artísticas entre os operários, e o Prolekult criando estúdios, também entre os operários, para impor a «cultura proletária», enfrentando-se não só por palavras mas muitas vezes a murro. Entre todos os que alcançam maior notoriedade estão o futurista Maiakovski e o poeta proletário Demian Bedny. Um é o grande poeta da Revolução como hoje é reconhecido, o outro é um poeta medíocre que se limita à agitação e propaganda sem grande estro poético, hoje quase esquecido. O julgamento que na altura sofreram por parte de Trotsky (La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972) e Lénine, apesar de ambos preferirem Bedny a Maiakovski, é bastante diferenciado. Lénine fá-lo em alguns telegramas a Lunatcharski: «não será uma vergonha votar a favor da publicação do poema 150 000 de Maiakovski em 5000 exemplares? Tolice, extravagância e pretensão, tudo isto. Na minha opinião, só um em cada dez desses escritos vale a pena ser publicado, e não mais do que em 1500 exemplares, para as bibliotecas e para os maníacos»

Em benefício de Lénine, refira-se a imensa escassez de papel que deveria ser direccionado prioritariamente para as escolas e para os jornais. Natália Kruspskaia confirma a admiração crítica de Lénine por Bedny. Gorki, conta nas suas recordações o paralelo que Lénine traçava entre os dois poetas. Sublinhava o alcance da propaganda na obra de Demian Bedny, embora dizendo «é um pouco grosseiro. Vai atrás do leitor, em vez de marchar à frente dele». Em relação a Maiakovski «grita, inventa não sei que palavras estapafúrdias. Não é assim, acho eu, não é assim, e é pouco compreensível. Tudo disperso, tudo difícil de ler. Dizem que é dotado? Até muito dotado? Hum, veremos».

Trotsky, brutal em relação a Maiakovski, que considera «um vadio anarquizante, sem qualquer valor poético», tem um imenso entusiasmo por Demian Bedny: «é curioso verificar que aqueles que fabricam as fórmulas abstractas da poesia proletária passam habitualmente ao lado de um poeta que, mais que ninguém, tem o direito ao poeta da Rússia revolucionária» (…) «tem a capacidade de fazer da poesia um mecanismo de transmissão incomparável das ideias bolcheviques» (…) «Demian Bedny não criou, nem criará uma escola: ele mesmo foi criado por uma escola que se chama P.C.R., para as necessidades de uma grande época que não terá igual» (Ibidem, obra citada). Uma formulação no mínimo inquietante por excluir a arte de encontrar aquilo que quer fazer com os seus materiais e instrumentos, para a entregar pura e simplesmente nas mãos da política e dar à política o comando, o que acabava por sancionar a «cultura proletária». Uma concepção diametralmente oposta à de Lénine, que sempre lutou contra as tentativas do Prolekult impor uma «cultura proletária» autonomizando-se do Narkompros. No primeiro Congresso sobre a Educação, em 6 de Maio de 1919, Lénine criticou o Proletkult e os intelectuais burgueses que desdobravam a sua fantasia no domínio da filosofia e da cultura ditas proletárias, «como se a cultura proletária surgisse de uma fonte desconhecida, brotasse do cérebro de alguns que se dizem especialistas na matéria, um total absurdo». A fracção comunista nesse Congresso, liderada por Lénine, votou a submissão do Prolekult ao Narkompros por 166 votos a favor, contra 36, e 26 abstenções. No discurso final, um discurso não previsto, Lénine atacou ainda mais violentamente os teóricos da «cultura proletária» considerando-a um desvario.

Sempre inflexível em relação aos princípios, Lénine foi também sempre um revolucionário flexível nas políticas que os não violassem, o que aplicou coerentemente em relação às artes, nunca aceitando que a política a colonizasse.
Bibliografia Resumida

Brecht, Berthold, Les Arts et la Révolution, L’Arche, 1997
Ehrenburg, Ilya, Un Écrivain dans la Révolution, Éditions Gallimard, 1962
Goriely,Benjamin, Les Poètes dans la R’evolution Russe, Éditions Gallimard, 1934
Gorki, Máximo, Lénine, Modo de Ler, 2009
Lénine, Oeuvres Complètes, em 45 volumes, Éditions du Progrès, 1958-1976
Lénine, Écrits sur l’Art et la Littérature, Éditions du Progrès, 1969
Lénine, Obras Escolhidas, em 3 volumes, Editorial Avante!, 1978
Lénine, Que Fazer?, Editorial Avante!, 1984
Lénine, Materialismo e Empiriocriticismo, Editorial Avante!,1979
Lunatcharski, Anatoli; Gorki, Maxim e outros, Lénine tel quel fut. Souvenirs de Contemporains, Editions du Progrès, 1959
Palmier, Jean Michel, Lénine, A Arte e a Revolução. Ensaio sobre Estética Marxista, Moraes Editores, 1976
Prévost, Claude, Literatura, Política, Ideologia, Moraes Editores, 1976
Reed, John, Dez Dias que Abalaram o Mundo, Editorial Avante!, 1997
Trotsky, Leon, La Littérature et la Révolution, Le Monde em 10/18, 1972

  • 1.«As tarefas das uniões da juventude», discurso pronunciado no III Congresso das Juventudes Comunistas, in Oeuvres Complètes, em 45 Volumes, tomo 31, Éditions du Progrès, 1958-1976
  • 2.Êxitos e Dificuldades do Poder Soviético, in Oeuvres Complètes, em 45 Volumes, tomo 29, Éditions du Progrès, 1958-1976
  • 3.Lénine e la Presse, Lénine, Oeuvres Complètes, em 45 volumes, tomo 4, Éditions du Progrès, 1958-1976
  • 4.Benjamin Goriely, Les Poètes dans la Revolution Russe, Éditions Gallimard, 1.ª edição 1934, citado Jean Michel Palmier em Lénine, A Arte e a Revolução. Ensaio sobre Estética Marxista, Moraes Editores, 1976.

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A Fragmentação da Vida Social

A pandemia impôs um interregno na vida social e deu novo impulso à vida virtual em que a hipercomunicação se torna central, espaço onde tudo se amalgama aceleradamente pela destruição da distanciação.

«Escritório numa pequena cidade (1953), de Edward Hopper (1882-1967). Óleo sobre tela, 71,1x101,6 cm. Museu de Arte Metropolitano, Nova Iorque

«Escritório numa pequena cidade (1953), de Edward Hopper (1882-1967). Óleo sobre tela, 71,1×101,6 cm. Museu de Arte Metropolitano, Nova Iorque CréditosMetropolitan Museum of Art (MET) / George A. Hearn Fund, 1953

Fechados em casa, com as raras saídas a que a sobrevivência obriga, a vida social foi tragada pelo buraco negro da pandemia. A internet, que já era uma presença substancial no mundo globalizado, tornou-se dominante, embora com as limitações impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais. Somos janelas abertas para os outros plantados nas suas janelas analógicas e, há que reconhecer, competimos na atenção que suscitamos, medida pelos comentários e pelos gostos. Nesse espaço digital que tinha e tem o objectivo de encurtar, mesmo abolir qualquer distância, somos empurrados, pelo confinamento a que estamos forçados, a aproximarmo-nos do outro tanto quanto possível, no espaço do ecrã digital em que não há espaço para estranhezas nem estrangeirismos. A maioria dos nossos amigos são virtuais, nesse espaço de hipercomunicação acelerada em que se perde a capacidade de assombro pela crescente proximidade que se estabelece com todos eles que aceitamos movidos por um qualquer critério, o mesmo pelo qual não aceitamos ou rejeitamos outros, num espaço numérico em que tudo acaba por ser idêntico. Essas vidas virtuais tragam a vida social propiciando a sua autofagia, o que está a gerar um novo paradigma.

«Fechados em casa, com as raras saídas a que a sobrevivência obriga, a vida social foi tragada pelo buraco negro da pandemia. A internet, que já era uma presença substancial no mundo globalizado, tornou-se dominante, embora com as limitações impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais»

A pandemia que impôs um interregno na vida social deu novo impulso à vida virtual em que uma hipercomunicação se tornou central, um espaço onde tudo se amalgama aceleradamente pela destruição da distanciação, onde se julga encontrar um sentimento de liberdade sem fronteiras, onde tudo parece possível só que sujeito à repressão do algoritmo que tem a moral e a ética do pensamento dominante, usada com alguma parcimónia para ser aceite sem grande contestação ou com contestações pontuais, o que anula a resistência colectiva. Sem resistência colectiva a revolução torna-se impossível ou é, no mínimo, improvável. Uma teia de aranha em que uma liberdade ilusória dá conforto suficiente por via de uma comunicação sem restrições horárias. Uma teia de aranha que pretende capturar a capacidade de resistência e promover uma alienação global tão incrustada na vida real que o horizonte da anormalidade seja normalidade e a alienação seja aceite voluntariamente. O que é o grande objectivo da dominação neoliberal. É um processo polifacetado de subjugação ao pensamento dominante e que tem tido êxitos, contaminando mesmo algumas esquerdas.

Turistas em busca de selfies, cultores das redes sociais, estão a arruinar a experiência de ver a obra de arte em museu, como com a «Mona Lisa», no Louvre. Foto de arquivo Créditos

Nesse novo território imposto por este tempo de excepção, a cultura, a dos criadores e a dos fruidores, ocupa um largo espaço para preencher a solidão a que boa parte da humanidade foi obrigada. Por generosa solidariedade dos criadores culturais, das instituições culturais, há uma oferta extensa, em crescendo diário, que podemos seleccionar pelos nossos padrões de qualidade, por vezes amolecidos pelo acumular de horas sem horários. O excesso é sempre inimigo da qualidade. o que é mais visível nas artes do palco. Teatro, óperas, ballet, só são possíveis reproduzir com rigor se o registo cinematográfico for um trabalho sobre e em conjunto com o trabalho dos encenadores. Muito das artes de palco que agora são exibidas não têm esse padrão de exigência. Paralelamente as visitas digitais aos museus que são e devem ser óptimas introduções aos seus conteúdos, percorrem-nos muitas vezes com a insustentável ligeireza do olhar distraído. Percorrer um museu em suporte digital não substitui a sua visita, deve incentivá-la e questionar seriamente o que já está a degradar a sua função, com multidões a atropelarem-se para tirarem selfies com as monas lisas. O que se está a promover, mesmo que motivado pelas melhores intenções – veja-se o TV Fest – é o despejar de conteúdos nas redes sociais e na televisão sem ou quase sem critério, cobertos pelo manto da solidariedade. Elencando toda a oferta ora disponível, se com a internet, pela oferta cultural de que se dispunha, já se era mais turista que nunca, hoje, ainda que por um período temporalmente limitado, somos turistas a tempo inteiro.

«O encerramento temporário das salas de espectáculo, museus, bibliotecas, etc., um estado de excepção inédito provocado pela pandemia da COVID-19, originou também respostas solidárias e inéditas dos criadores e das instituições culturais, dando acesso fácil aos conteúdos culturais nos ecrãs dos computadores»

O encerramento temporário das salas de espectáculo, museus, bibliotecas, etc., um estado de excepção inédito provocado pela pandemia da COVID-19, originou também respostas solidárias e inéditas dos criadores e das instituições culturais, dando acesso fácil aos conteúdos culturais nos ecrãs dos computadores, o que, com todas as questões já enunciadas, comporta uma outra questão menos ou quase não referida, a da fragmentação da vida social que assim é originada. Ver um espectáculo, ir a um museu, visitar uma biblioteca solitariamente num ecrã de computador degrada a vida social que, de qualquer modo, está viva quando se vai a uma sala de espectáculo, a um museu, a uma biblioteca. Garantidamente os grandes centros de reflexão e de marketing dominantes, que mandam a solidariedade para as urtigas, vão estudar o fenómeno para as trabalharem em grandes linhas de condicionamento ideológico. A cultura, as áreas culturais são desde os meados dos anos 60, um terreno de trabalho teórico do neoliberalismo.

Deve-se lembrar que, desde que surgiram os primeiros estudos sobre as especificidades do trabalho cultural, que por sua vez deram origem a estudos aprofundados sobre a economia da cultura, a produção cultural foi e é campo de experimentação para conceitos económicos fundamentais por estar num terreno em que a formação do valor é específica, mais volátil, mais dependente de factores não materiais. Galbraith não o tinha percebido: «arte não tem nada que ver com a severidade das preocupações do economista» e que «estes “dois mundos” nunca se encontram e não se lamentam por isso». Tudo mudou a partir dos anos 70/80, quando os Estados começaram progressivamente a demitir-se de traçar políticas culturais passando a subsidiá-las pontualmente, entregando a cultura ao mercado cultural que ocupou esse espaço deixado vazio ou quase vazio. A arte e a cultura passaram a estar sujeitas ao modelo do pensamento económico comandado pelas leis da oferta e da procura, que não reconhecem outra hierarquia cultural que não seja a do que é vendável, rentável, o que, de uma ou outra maneira, acaba por estar subjacente aos apoios concedidos pelos Estados às actividades artísticas e culturais. Para os economistas que se dedicaram a analisar a cultura, a natureza do sistema de incentivos à produção cultural, à criação artística é subordinado às restrições orçamentárias o que é particularmente visível em Portugal, em que os orçamentos para a cultura são o resto, o que sobra dos Orçamentos de Estado. Consideram que o desfrute de um bem cultural sem um sentido para o seu consumo é vazio, só gera custos para o agente. Na prática, a única explicação que encontram para o consumo de bens culturais é o uso do objecto cultural como activo financeiro especulativo.

«O lado oculto dessa facilidade é a fragmentação da vida social. Vamos ficando mais distanciados dos outros, um distanciamento que é iludido pela proximidade que as redes sociais fabricam e que também concorre para a fragmentação da vida social. A multiplicação de conteúdos culturais despejados na internet e nas redes sociais vai ter consequências ainda não mensuráveis. Vai provocar alterações nos hábitos de consumo cultural»

Entre outros, atente-se neste texto do economista David Throsby, num artigo publicado no Journal of Economics em 1994: (…) ser dominante (na economia da cultura) a propensão para gerar fluxos variáveis de receitas ou de empregos, a necessidade de avaliação das decisões culturais e, no plano teórico, o fomentar a economia política dirigida a novos campos (economia de actividades não comerciais, economia das organizações, da informação e da incerteza implicando a revisão dos pressupostos de racionalidade (…). A economia da cultura é o terreno privilegiado para a verificação empírica de elementos novos.1 Esses elementos novos foram também aplicados ao mundo do trabalho. As actividades artísticas são um laboratório da flexibilização e precarização do trabalho, por se tratar de trabalho qualificado onde o trabalho independente, a intermitência do emprego sem custos de angariação nem de despedimento, a generalização da fragmentação do salário e a irregularidade do estatuto da actividade, abriram caminhos para se estudar e experimentar como abrir brechas nos direitos dos trabalhadores. Todas essas movimentações foram em crescendo no universo globalizado do neoliberalismo até ao extremo da uberização da economia.

Sem título (1994), de Teresa Dias Coelho (1954). Óleo sobre tela, 100×100 cm Créditos

Agora, estamos a assistir a uma violenta fragmentação da vida social imposta pela pandemia. Já estava a ser experimentada e posta em prática pelas plataformas de cinema na internet e nas da televisão por cabo. Em pouco tempo as netflix’s multiplicaram-se. Não só adquiriram os direitos de exibição de filmes como iniciaram produções cinematográficas próprias, algumas de alta qualidade, que crescentemente esvaziam as salas de cinema. A oferta é extensa, tudo à mão de um toque no comando televisivo sem o «incómodo» de se deslocar para ir a um cinema, com a vantagem de ser mais barato. O lado oculto dessa facilidade é a fragmentação da vida social. Vamos ficando mais distanciados dos outros, um distanciamento que é iludido pela proximidade que as redes sociais fabricam e que também concorre para a fragmentação da vida social. A multiplicação de conteúdos culturais despejados na internet e nas redes sociais vai ter consequências ainda não mensuráveis. Vai provocar alterações nos hábitos de consumo cultural. A medusa do capitalismo neoliberal deles fará uso para acentuar a precarização dos trabalhadores das áreas culturais, para impor restrições nos apoios e incentivos à cultura e às instituições culturais, no limite para as destruir como já estava a fazer nomeadamente com as salas de cinema e as livrarias. Tudo concorre para corroer a vida social.

«A medusa do capitalismo neoliberal deles fará uso para acentuar a precarização dos trabalhadores das áreas culturais, para impor restrições nos apoios e incentivos à cultura e às instituições culturais, no limite para as destruir como já estava a fazer nomeadamente com as salas de cinema e as livrarias. Tudo concorre para corroer a vida social»

A primeira vitima provável da pandemia será o capitalismo neoliberal no seu estado actual. Mas o vírus não faz milagres. O que tanto o capitalismo neoliberal como o modo de produção globalizado tentarão e vão fazer é procrastinar a sua morte, ressuscitar o seu cadáver noutro corpo com nova alma, um pós-capitalismo que ainda não se sabe o que será, como será. A sua ressurreição só não acontecerá pela luta de classes. A luta, aos mais diversos níveis, será dura e terá novas formas associadas às que estão no terreno, com tudo o que se aprendeu ao longo da história. Há que ter sempre bem vivo a ensinamento de Lenine: «o capitalismo não cairá se não existirem forças sociais e políticas que o façam cair». Para isso há que estar atento para se lutar nesta nova frente que é a fragmentação da vida social em curso e que se instalou em força, ainda que temporalmente limitada, por força da pandemia.

Bibliografia:

Martinez, Valentin Alejandro; García, Fernando Salgado. Economia de la Cultura y la Comunicación en la Era Digital, Media XXI (2012, reed.)

Throsby, David. The Economics of Cultural Policy, Cambridge University Press (2010, reed.)

Throsby, David; Ginsburg, Victor A. Handbook of Economics of Art and Culture, Elsevier Science Tecnology (2013, reed.)

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt )

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Modernidades do Outro Lado do Espelho

A batalha ideológica que se trava desde que Marx estabeleceu as traves mestras de interpretação do mundo, em que a ideia central é a relação entre o capital e o trabalho, a luta de classes, as relações entre infra-estrutura e superestrutura, tem sido intensa e, na actualidade, é polarizada pelo imperialismo norte-americano que persegue dois grandes objectivos consonantes: um económico e outro cultural.

Uma estratégia que se iniciou no pós-Segunda Guerra Mundial, com a guerra fria cultural1, se intensificou com a queda do Muro de Berlim e está triunfante nas políticas pós-política.

Os anos 60 são os anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do estado se começa a alterar substancialmente, passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada que é desmentido pela situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares para salvar o sistema financeiro e os privados. Com a financeirização da economia as desigualdades aumentaram brutalmente. Desde 1980 os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder, realidade que se pretende ocultar com a mercantilização da cultura para consolidar a hegemonia pela modelação da consciência popular. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista neoliberal, em que se vende a ideia que a liberdade do mercado seria mais igualitária quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.

Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Essa nova ordem económica impõe-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Mega pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística.

Uma cultura de impacto máximo e de obsolescência imediata, numa acelerada sucessão de modas e humores públicos que procura extrair o máximo lucro do empobrecimento moral, intelectual, em que a diversão promovida pelas indústrias culturais e criativas tudo normaliza e esvazia de sentido. É um dos mecanismos que o capitalismo pós-democrático usa com eficácia para promover a alienação, até a transformar num conformismo em que não se distingue a realidade das aparências. O objectivo final é que as massas populares fiquem cada vez mais incapazes de perceber os verdadeiros jogos políticos para castrarem a sua capacidade de intervenção.

É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Uma cultura da ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano.

É neste quadro que se trava um áspero combate ideológico, sobretudo num contexto em que não está no horizonte nenhuma acção política de projecção universal, em que as políticas de esquerda ainda que importantes, mesmo pontualmente decisivas, têm um limitado raio de acção, sempre com a certeza que se firmam numa base ontológica sólida porque a totalidade social não é uma quimera.

O debate entre as forças de esquerda sempre foi intenso entre revolucionários e reformistas e dentro de cada uma dessas áreas, o que foi sempre aproveitado pelos reaccionários, que nunca desarmam nem desistem, para assegurar a sobrevivência do capitalismo, de corromper a linguagem de esquerda, procurando-se apropriar-se das ideias nucleares da esquerda para manipulá-las, o que têm conseguido com algum êxito, promovendo a confusão ideológica, com a consequente desorientação política de muitos meios progressistas.

A mais antiga confusão é a de que os conceitos de direita e esquerda perderam sentido, são distinções sem significância porque as ideologias se desgastaram. Uma ideia que teve origem dentro de uma determinada esquerda, em que Deleuze e Gauttari pontificavam, em linha com o estruturalismo e a semiologia que estavam na ordem do dia e que tinham introduzido nas ciências humanas um sistema de análise das comunicações linguísticas e visuais de métodos análogos aos das ciências empíricas e experimentais. O que Deleuze e Gautatari fazem, com grande repercussão em muitas áreas da esquerda, é colocar em causa o conceito de ideologia como Marx o definira em Para a Crítica da Economia Política, onde estabelece e traça as relações entre a produção material e a produção imaterial: «Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem», depois de já ter afirmado em A Ideologia Alemã que «a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

Os filósofos franceses consideram que o que se designa como ideologia  são «enunciados de organizações de poder» entendidos como parte decisiva da própria estrutura produtiva do capitalismo, não uma superestrutura, ainda que numa relação com a produção económica, a infra-estrutura. São «agenciamentos de enunciação», que desde sempre foram predominantes na história ou seja, a ideologia é substituída pela análise das subtilezas da linguagem, pelas relações entre a semiótica do significante e do não-significante. De um modo chão, há que questionar e lembrar a essas correntes e suas derivadas que não foram as relações entre o significante e o seu significado ou vice-versa, por mais importantes que sejam, que foram decisivas para a tomada da Bastilha ou do Palácio de Inverno, para instaurar a Comuna de Paris ou para fazer a Revolução do 25 de Abril. Foram acções revolucionárias sobre o mundo material sobre o qual se agiu para o alterar.

Coerentemente com os suas conclusões, Deleuze faz a defesa do Maio de 68 considerando que o que «é normalmente chamado de política se fecha de tal forma como um poder que uma força de transformação política só pode vir de fora deste território fechado da política». Em síntese o devir revolucionário só poderia começar pelos «despolitizados», pelos «desideologizados». Utilizando a sua terminologia, o desejo político explodiria de maneira pré-significante, anterior à consciência política, portanto pré-ideológico. Está em linha com a Internacional Situacionista (IS), a raiz ideológica do Maio 68, que se nega enquanto ideologia à semelhança dos ideólogos da burguesia: «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes cativos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (…) «com novas formas de acção contra a política e a arte», dizendo querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine, elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau», considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução. Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lenine recorre para, em Que Fazer?, combater as ilusões originadas por essa convicção, sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.

São estes os fundamentos de uma desideologização de uma nova esquerda que são adulterados pelos pensadores de direita e pelos média mainstream para esvaziarem o conteúdo original do materialismo dialéctico, o seu poder revolucionário, adulando esses reformadores das esquerdas radicais, que etiquetam de «modernos», opondo-os aos «conservadores», a esquerda consequente que tem a certeza e a convicção de que nenhuma realidade, por mais consistente e hegemónica que se apresente, como é o capitalismo actual, deve ser considerada definitiva, nem dá por eterno o princípio da dominação capitalista.

Os objectivos do imperialismo cultural são óbvios, vulnerabilizar o pensamento de esquerda promovendo uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores de esquerda e de direita, que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico. Os partidos de direita e dessa esquerda cosmopolita tornaram-se prolongamentos do aparelho de estado, representando interesses económicos que lhes dão apoio variável. Em que a actividade política se reduz praticamente à conquista do voto, o que representa um retrocesso político-ideológico que se esgota nos momentos eleitorais e deixa o campo aberto para o surgimento dessas novas-velhas forças políticas enquadradas no capitalismo pós-democrático.

Maio 68 é o marco da não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas por mudanças sociais que deixam intocadas as fundações do sistema. São as políticas identitárias tão em voga, que objectivamente são políticas de direita. Aos rebeldes sem filtro que reclamavam maiores liberdades o neoliberalismo deu-lhes essas liberdades dando-lhes a liberdade do mercado, com o objectivo de desmantelar as instituições colectivas da classe trabalhadora, em particular os sindicatos e os partidos políticos, considerados anacrónicos nessa nova ordem em que maiores liberdades individuais se afundam em maiores injustiças sociais. O fim do neoliberalismo é que as reivindicações, mesmo quando alterem as atitudes sociais, não sejam mudança social, nem se empenhem em transformações sociais radicais. Até um certo limite, até correndo alguns riscos, é-lhe conveniente a emergência das lutas ditas fracturantes, em que se conquistam direitos sem o direito de colocar em causa a ordem estabelecida. Tem uma consequência: a colonização do pensamento de sectores da esquerda pela direita com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer ainda que com todas as contradições e dificuldades.

As esquerdas radicais, em Portugal e no mundo, as esquerdas «modernas» que se opõem à esquerda praxada de «conservadora», ainda que por vezes tenham uns rompantes ou se digam pós-marxistas, não se revêm no que é nuclear no pensamento marxista: a relação de exploração entre o capital e o trabalho, as lutas  de classes que se vão ajustando às condições objectivas e subjectivas das sociedades onde se travam.

Conjecturam que a teoria marxista está ultrapassada por não corresponder às características da sociedade contemporânea, a chamada aldeia global pós-industrial. Consideram essas condições ultrapassadas, antiquadas, substituíveis pelas causas fracturantes e identitárias, com uma forte componente intelectual, mediática, de moda, praticamente sem relação com a tradicional base social da esquerda no mundo operário e nos sindicatos. Para eles ,as classes sociais não contam porque se estão dissolvendo, perdendo sentido, pelo que a tónica marxista nas classes sociais é reducionista, o que prevalece é a santíssima trindade da raça, sexo e género, como se em cada raça, sexo e género não existissem divisões sociais. Uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias.

Ultrapassado o espelho da «modernidade» assumida por essas esquerdas, por mais que lapidem essa realidade, mesmo que obtenham alguns êxitos, o que se encontra de facto é a renúncia a uma sociedade que se oponha à desordem do mundo actual, com a desonestidade intelectual de fingir que o marxismo não representa mais uma realidade política actuante numa perspectiva socialista ainda que remota, um campo de batalha de onde os «conservadores» não desertam, carregando um património de lutas, «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez» (Manuel Gusmão).

(Publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

Bibliografia relacionada

Cunhal, Álvaro; O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Edições Avante!, 1974

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1, Assírio & Alvim, 2004

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; Mil Planaltos. Capitalismo e Esquizofrenia 2, Assírio & Alvim, 2008

Gusmão, Manuel, Uma Razão Dialógica, Edições Avante!, 2011

Lenine, Que Fazer?, Edições Avante!, 1984

Marx, Karl; Engels, Friedrich; Obras Escolhidas (em três tomos), Edições Avante!, 1982-1985 (2.ª edição, 2008-2016)

Marx, Karl; Proudhon, Pierre-Joseph; Misère de la Philosophie/Philosophie de la Misère, Union Génerale d’Editions, colecção Le Monde en 10/18, 1964
 

TÓPICO

Standard
Alain Cyroulnik,, Alain Glucksman, Alain Krivine, Alain Tanner, André Malraux, Anselm Jappe, Bauhaus Imaginista, Bernard Henry-Levy, Cabaret Voltaire, Chtcheglov, Dada, Dadaísmo, Daniel Cohn-Bendit, Emmy Hennings, Geral, Gianni vattimo, Giles Lipovetsky, Grozs, Grupo Cobra, Guy Debord, Henri Langlois, Hugo Ball, Internacional Letrista, Internacional Situacionista, Isidore Isou, Jean Arp, Jean Braudillard, Johannes Baader, John Berger, John Heartfield, Karl Marx, Kropotkine, Lenine, leo ferré, London Psychogeographical Association., Macron, Maio 68, Marcel Janco, Mark Twain, Novos Filósofos, Proudhon, Raoul Hausmann, Raoul Vaneigem, Richard Huelsenbeck, Romain Goupil, Sofia Taueber-Arp, Tristan Tzara,, Walter Mehring

Maio 68, a Não-Revolução

 

O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68. Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta.

manif 1Maio 68 faz cinquenta anos. A 13 de Maio a França assistiu à maior greve geral de sempre, que paralisou o país. Uma greve só comparável à greve de 1936 e à que antecedeu a Comuna de Paris. A maior greve geral que alguma vez aconteceu na Europa ou em qualquer parte do mundo.

Era o culminar de lutas operárias que se tinham intensificado desde os princípios dos anos 60, com lutas enquadradas, algumas desenquadradas, pelas estruturas sindicais, e das lutas estudantis desse ano.

Estudantes e operários confluíram nesse dia numa batalha contra o poder gaulista, corporizado por um general reaccionário que até aí tinha a maior oposição em Miterrand, um político oportunista.

Maio 68 destrói o jogo de xadrez em que esses dois filibusteiros se enfrentavam. Destrói o jogo mas não destrói o tabuleiro. O jogo irá continuar com outros gambitos e, como os lances imediatos e os seguintes a curto e médio prazo mostraram, são eles que acabam por sair triunfantes.

Triunfo no quadro político e comunicacional que também é verificável nos percursos dos principais intervenientes no Maio 68. Uma das ilustrações da imagem desse triunfo, é ler na M Magazine du Monde (revista do Le Monde de 6 de Janeiro) que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil estão a fazer um filme para a televisão comemorativo dos 50 anos de Maio 68.

Dois soixante-huitards, dois destacados lideres estudantis, um anarquista o outro trotskista. Cohn-Bendit, que mediaticamente se tornou na cara de Maio 68, a partir da década de 70 aproximou-se dos Verdes alemães, foi eleito em 1994 deputado europeu e co-presidente do grupo parlamentar Verde no Parlamento Europeu que abandonou em 2014, com um discurso inflamado a favor do federalismo.

Romain Goupil é um cineasta que rapidamente evoluiu para posições da direita. Ambos foram apoiantes de Macron, esse meteorito fabricado pelos media, um reaccionário que se apresentou ao eleitorado acima dos partidos tradicionais afirmando o propósito de reformar a política, uma linguagem recorrente de direita que muito seduz os chamados independentes e também muito tem seduzido algumas esquerdas.

É um percurso de distanciação a quaisquer resquícios revolucionários que já tinha sido trilhado por outros distintos dirigentes estudantis como Alain Glucksman, Bernard Henry-Levy, Guy Lardeau, Christian Jambert, Jean Paul Dulié, que formaram a corrente dos Novos Filósofos que desenvolveram e desenvolvem as teorias mais conservadoras, nos antípodas do que defendiam em Maio 68.

São convictamente atlantistas, violentamente críticos da «abominação do colonialismo do homem branco», defensores do capitalismo em todas as suas formas, atacam o multiculturalismo que consideram ser «o racismo dos anti-racistas».

Raros são os que, como Alain Krivine e Alain Cyroulnik, continuaram fiéis aos ideais trotskistas que perfilharam na juventude. É o que significativamente sobra da poeira de estrelas do Maio 68. Não é um acaso comemorar-se Maio 68 com saudosismos serôdios e manipulações da história, nem é um acaso a involução dos seus líderes se atentarmos nas teorias da Internacional Situacionista (IS), a sua base teórica e ideológica, onde pontificava Guy Debord e Raoul Vaneigeim.

Sociedade do Espectáculo

No primeiro número da revista da IS (Junho 1958) apregoam ser preciso mudar o mundo. Já a razão era «para não se entediar (…) o tédio é uma realidade vulgar dos jovens enraivecidos e pouco informados e essa rebelião de adolescentes, instalados confortavelmente na vida, não tem perspectivas e está bem distante de ser uma causa. Os situacionistas fazem o julgamento dos tempos livres e sentenciam-nos» considerando que «a política constitui uma alienação comparável à da arte».

A IS move-se num mar encapelado de contradições que acabam por contaminar Maio 68. Afirmam que «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes activos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (…) «com novas formas de acção contra a política e a arte».

Dizem querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau» considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução.

Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lénine recorre para em Que Fazer? combater as ilusões originadas por essa convicção sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.

Interessante são as recorrentes referências da IS à arte, colocada em paralelo e no mesmo plano da política. Interessante mas não inesperado. A IS deriva da Internacional Letrista (IL), fundada em 1952 por um grupo de jovens artistas de vanguarda, onde já se encontra Guy Debord, que em 1957 se refunda na IS, onde se associam à IL o Movimento para uma Bauhaus Imaginista, o Grupo Cobra e a London Psychogeographical Association.

Nas fundações desse edifício teórico estão, entre outras, as ideias de Isidore Isou:  «A evolução social não é o instinto de sobreviver mas a vontade de criar (…) a criação é a mais alta forma de actividade humana e a arte a forma mais alta de criação, e a poesia a mais alta forma de arte».

E, sobretudo, as de Chtcheglov que em Formulário para um Novo Urbanismo declara: «Estamos entediados na cidade, não há mais o Templo do Sol. Entre as pernas das mulheres que passavam, os dadaístas imaginaram uma chave de macaco e os surrealistas uma taça de cristal. Está tudo perdido. Sabemos como ler todas as promessas nos rostos – o último estágio da morfologia. A poesia dos outdoors durou vinte anos. Nós estamos entediados na cidade, nós realmente temos que nos esforçar para ainda descobrir mistérios sob os empedrados, o mais recente estado de humor e poesia».

É o urbanismo utópico de Chtcheglov que projecta uma «capital intelectual do mundo», uma espécie de Las Vegas fouriérista enxertada numa Disneylândia surrealista, onde a razão de viver se descobria vagueando pelos seus bairros e jardins os «diversos sentimentos catalogáveis que se encontram nos acasos da vida corrente» e em que a principal actividade dos seus habitantes seria «a permanente deriva».

De modo oblíquo, o urbanismo utópico de Chtcheglov, pela mão dos situacionistas, irrompe em Maio 68. «Debaixo dos Empedrados a Praia», «A nossa esperança só pode vir dos desesperados»; «Decreto o Estado de Felicidade Permanente»; «Vivam sem tempos mortos», «A vida está alhures» palavras de ordem que poderiam ter sido escritas por Chtcheglov por desejar resgatar a vida com a poesia tinha que tinha que estar na rua, como cantará Leo Ferré a celebrar Maio 68.

sous le pavés

Essas ideias já tinham sido antecipadas por Walter Mehring um dadaísta que, em Berlim 1919, proclama em ??? O que é Dadayama???  dadayma faz / ferver o sangue / e a alma do povo / na panela onde se fundem / –um pouco de corrida— um pouco / de assembleia nacional– / um pouco de Frente Vermelha / metade prateada / metade aço / mais a mais-valia /——= a vida quotidiana.

São as minas Dada espalhadas nos campos da política e da arte que irão rebentar na IL, um grupo de jovens artistas e intelectuais que durante meia dúzia de anos se juntaram procurando nos seus divertimentos encontrar um modo de mudar o mundo.

Se na época passaram quase incógnitos, tornaram-se conhecidos quando fecharam a IL para fundar com outros a Internacional Situacionista 

Serão os Lost Prophets de John Berger«o programa (ou anti-programa) dos situacionistas será provavelmente reconhecido como uma das formulações puramente políticas mais lúcidas destes últimos decénios da história, reflectindo de forma extrema a força do seu desespero e das suas privilegiadas fraquezas». 

O tédio é para os situacionistas a patologia social. A alienação e a ideologia, a hierarquia e a burocracia são, para eles, a estrutura do mundo. Consideram que todas as ideologias são uma alienação por isso definem posições, não uma ideologia.

Uma negação que acaba por ser uma afirmação, à semelhança da ideologia burguesa que se recusa com contumácia a assumir-se enquanto ideologia. Fazem essas denúncias, proclamando provocatóriamente que «não há situacionismo», enquanto se apresentam como revolucionários unicamente interessados nas liberdades.

Liberdades que significam o direito de fazer tudo e mais alguma coisa com as consequências que isso implica, num turbilhão que desconhece fronteiras. São princípios devedores do dadaísmo com as suas extravagâncias, cruezas e barbarismos que tornam impossível a meditação contemplativa «À meditação que se tornou, no processo de degeneração da burguesia, uma escola de comportamento associal, contrapõe-se a distracção como uma forma especial de comportamento social. De facto as manifestações dadaístas asseguravam uma extrema distracção na medida em que faziam da obra de arte o centro de um escândalo. Ela tinha de satisfazer sobretudo uma exigência muito concreta: causar indignação pública» (Walter Benjamin)

Esquecem ou não sabem reconhecer os dadaístas que a burguesia entediada com o seu próprio tédio já não se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.

Antecedentes históricos dos activistas da IS encontram-se na Alemanha que no rescaldo da I Guerra Mundial, na Primavera e no Verão de 1918, está em profunda crise. Os movimentos populares forçam a abdicação do imperador Guilherme, todas as esperanças são possíveis antes de serem defraudadas pelo governo do social-democrata de Friedrich Ebert que recuou em todos os campos políticos, sociais e económicos; de o levantamento espartaquista que lhes queria dar continuidade ser liquidado; de Karl Lieknecht e Rosa Luxemburgo serem assassinados.

No Clube Dada de Berlim, Grozs, Walter Mehring, Johannes Baader, John Heartfield, Raoul Hausmann saúdam entusiasticamente os tumultos, «o mundo dadaísta pode ser instantaneamente realizado». Cantam canções e recitam poemas incompreensíveis, aclamam sobre esse barulho de fundo o espontaneísmo das massas que, segundo eles, dissolve as ideologias de esquerda e de direita.

Nesse clube renovam-se as consignas do Cabaret Voltaire de Zurique, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings, em que participam Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sofia Taueber-Arp e Jean Arp, fundadores de Dada, um movimento artístico anárquico, com objectivos artísticos e políticos cujos ecos, flutuando com os ventos da história, continuam a fazer-se ouvir nos nossos tempos. Ainda recentemente foram o adubo do movimento punk.

Dada

«A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa» escreveu Karl Marx no 18 de Brumário de Louis Bonaparte «A história não se repete, mas por vezes pode rimar», dirá Mark Twain que acreditava que nenhuma ocorrência histórica era solitária, mas uma eterna repetição de algo que já aconteceu  noutro contexto, com outra forma, despoletada por outras razões.

Pensa Mark Twain e os situacionistas também o pensam pelo que, mudando o enfoque dos dadaístas mas usando a mesma lente, entendem que podem e devem fazer uma transformação espectacular de todas as coisas e também do seu contrário, usando «a coerência reversível do mundo moderno».

O impulso revolucionário é desviado para o território do espectáculo, a vida social como simbolismo. Os mitos dadaístas e anarquistas na política e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.

As suas teorias, que tinham bastante curso nos meios universitários alemães e franceses, expandem-se ainda mais aceleradamente quando um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo faz uma edição de milhares de exemplares do panfleto da IS «A Miséria do Meio Estudantil», que terá profunda influência nas correntes de esquerda, sobretudo nas anarquistas e trotskistas, em que os comunistas, rotulados de tradicionais e burocratas, eram tão atacados como sempre o foram pelas direitas.

Maio 68 é a não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas importantes para mudanças na evolução das sociedades, mas que deixam intocadas as suas fundações.

Maio 68 é o momento nuclear desse processo. Uma revolução sem programa político, uma revolução sem revolucionários que faz um sobre investimento no existencial.

Faz isso enquanto abre o caminho para processos ousados que introduzem novas formas de luta na longa luta das mulheres, na nova luta pelos direitos dos homossexuais e, de forma embrionária, nas lutas ecológicas. Abrirá o caminho para novas frentes, a interrupção voluntária da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc.

Faz isso mas também um desinvestimento em identidades instituídas o que produz uma paisagem aleatória em que se interroga o significado do que é político. As frentes de luta abertas por Maio 68, que se assumem como fracturantes, mesmo quando centrais de uma alteração de atitude social, não são mudança social, nem estão realmente empenhadas em transformações sociais radicais.

Quando proclamavam que iam mudar a sociedade logo se desmentiam com um desinteresse quase enfastiado pelas estruturas económicas e do Estado, embrulhado numa gritaria altissonante que mal lhe arranhava a pele. O cenário conhecido é o de um afinado processo de despolitização e de desmobilização na batalha por uma real mudança social que amortecem e tendem a anular.

Maio 68, recusando participar na construção dos alicerces em que se fundam as revoluções, é a fascinante festa bem expressa nas imaginativas palavras de ordem que excitam a criatividade e ocultam com fina casca colorida e luminescente o enorme vazio que o corroía por dentro.

«Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê», é provavelmente a chave da «Imaginação ao Poder». São palavras de ordem para todos os gostos, abrangem todas as áreas «Debaixo dos empedrados, a praia»; «É proibido Proibir»; «Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo»; «Amem-se uns aos outros»; «A anarquia sou eu»; «A arte está morta, libertemos a nossa vida»; «Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês»; «A cultura é a inversão da vida»; «Dez horas de prazer já»; «A economia está ferida, pois que morra!»; «Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século»; «Não se chateiem, chateiem os outros»; «A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista»; «A liberdade do outro estende a minha ao infinito»; «A arte está morta, não consumamos o seu cadáver»;«O estado é cada um de nós»; «Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor»; «Os sindicatos são uns bordéis»; «Não nos prendamos ao espectáculo da contestação, passemos à contestação do espectáculo»; «Autogestão da vida quotidiana»; «A felicidade é uma ideia nova»; «Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu»; «A Revolução tem deixar de ser, para existir»; «Tudo é Dadá».

São mais versos de um Cadavre Exquis surrealista do que palavras de ordem de um programa político. Como o programa político não existia ficam essas palavras, a sua carga poética, o seu vazio revolucionário em negação de outra frase recuperada de Saint-Just pintada nas paredes da Sorbonne: «Uma Revolução que não vai até ao fim cava o seu túmulo».

Não havendo programa, por esta pequena selecção se vê como há uma ideia subjacente de desenquadramento político. A tónica centra-se no espectacular e na personalização em que «os confrontos duros entre o verdadeiro e o falso, do belo e do feio, do real e da ilusão, do sentido e do não sentido, esbatem-se, os antagonismos tornam-se flutuantes» (Giles Lipovetsky) 

Nesse caldo de cultura, em que o hedonismo e a indiferença triunfam, narciso caminha para a era do vazio. Era do vazio em que se vive «a tensão lucidamente autodestrutiva da desesperada vitalidade», como dirá um dos seus epígonos, aduzindo «que a actual lógica de uma possível resistência abandona as ideias modernas de racionalidade global da vida social e pessoal para a desintegrar numa unidade de mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade, reinventando-as de modo a que elas deixem de ser partes do todo e passem a ser totalidades em múltiplas partes», o que logicamente encerra a resistência a esta sociedade, em qualquer uma das formas em que se manifeste e como se manifeste, num casulo onde se debate e agoniza condenada à danação do fracasso.

Essa «reinvenção de mini-racionalidades» acaba por ser um exercício de pacificação do estado de sítio «da global inabarcável e incontrolável irracionalidade», ritualizando uma suposta resistência em artifícios de sobrevivência em que o único objectivo é ser absolutamente o que se é, mesmo quando não se é nada se a esse nada se consegue colar um código de barras que passe nas caixas registadoras dos supermercados da política, da economia, das artes.

É um corte epistemológico, o dobrar a esquina da história em que «a ‘dissolução’ da história, nos vários sentidos que se podem atribuir a essa expressão, é, de resto, provavelmente, a característica que distingue do modo mais claro a história contemporânea da história ‘moderna’» (Gianni Vattimo)

É o caldo da cultura do simulacro e da simulação, uma imagem feita de muitas imagens. Um poderoso holograma que se assume como nova realidade em que a vida é controlada por uma estetização descontrolada.

«Tudo se estetiza a si mesmo a política se estetiza em espectáculo, o sexo em publicidade e pornografia, e toda a gama de actividades se transforma em algo chamado «cultura», o que é completamente diferente de arte; esta «cultura» invade todos os campos através da publicidade e da semiologização dos médios» (Jean Braudillard)

A contaminação é viral. Perdem-se e deixam de haver pontos de referência. Em todos os campos desaparecem os parâmetros para se fazerem juízos de valor. Os juízos políticos, éticos, estéticos forjam-se no excesso até se banalizarem sem redenção.

Os situacionistas e a Internacional Situacionista, que tem em Guy Debord e Raoul Vaneigem os principais pensadores que organizam o seu corpo teórico, irá encontrar em Maio 68 a expressão das suas teorias, preconizando o irresolúvel paradoxo de uma «sociedade revolucionária» incorporar as tendências positivas do desenvolvimento capitalista deixando intocada a exploração desenfreada que o sustenta e sem nunca se definirem os crivos que fazem a avaliação das tendências positivas. 

Para eles, a situação revolucionária seria resolvida com a organização autogestionária das forças produtivas sem alterar as relações de produção. Uma situação insólita em que se enredam manipulando um cubo de Rubik à procura de soluções, como se o fundamental não fosse destruir o cubo.

Maio 68 é a revolução sem revolução nem revolucionários. Um tumulto de contradições que tem vida curta. A IS nasce em 1967 extingue-se em 1972, marcada por inúmeras deserções e expulsões. Anselm Jappe, o último teórico e estudioso do Situacionismo, na continuidade de Debord, persiste em defender o legado desse movimento que, na sua opinião, instalou uma conspiração permanente contra o mundo mesmo admitindo que essa conspiração está estandardizada, foi absorvida pelo capitalismo.

PAVES

Maio 68 é uma situação pós-revolucionária que se dissipou quase tão rapidamente quanto havia surgido, numa sucessão de momentos simbólicos que rapidamente se evaporaram.

Deixou um rasto de sedutoras frases-chave, uma poeira de estrelas por onde hoje se continua a navegar. Sem ser de facto uma Revolução e por até esvaziar o sentido de Revolução, teve uma repercussão imensa nos tempos seguintes, apesar do seu funcionamento bipolar.

Por um lado, desvaloriza e secundariza as lutas operárias e procura socavar o trabalho político dos partidos revolucionários, por outro, atira pedras às caras do poder que acabam por promover uma profunda alteração no modo de estar no mundo.

Uma das faces dessa moeda, a mais visível e persistente, foi a festa que ocupou as ruas, os grafitis, as discussões sem fim, as barricadas, as ocupações selvagens, a poética das palavras de ordem.

Um movimento de resistência ao deserto urbano em que se ocultava a sua outra face: a deserção e a indiferença que sobrevoavam para continuar a sobrevoar o mundo contemporâneo. É «a revolução sem finalidade, sem programa, sem vítimas nem traidores, sem enquadramento político». (Giles Lipovetsky).

A política tornou-se espectáculo. Destruíram-se convenções rígidas substituindo-as por outras convenções onde se firmam o feroz individualismo, a esteticização da vida, a cultura hedonista.

Maio 68 revelou com grande clareza um mundo tornado demasiado ligeiro, demasiado absurdo. Uma das suas palavras de ordem «Cada Vez é Nenhuma Vez» sintetiza-o de forma transparente. Nada se repete, tudo é meramente casual e por isso inenarrável. 

Os situacionistas, o núcleo político mais sólido de Maio 68, teorizaram sobre a sociedade do espectáculo na política e na vida, verificando «a generalização da sedução em que o espectáculo é a ocupação da parte principal do tempo vivido no exterior da produção moderna» (Guy Debord).

Seduzir, introduzir o jogo das aparências na realidade, fazer das simulações e dos simulacros o centro da actividade política e social, temas sobre que Braudillard se debruçou extensamente, culminam na aceitação da mistificação e da alienação enquanto normalidades no quadro da vida pós-moderna.

A ideologia dilui-se, os partidos transformam-se em máquinas eleitorais ao serviço dos poderes económico-financeiros dominantes que lhes dão apoio variável em linha com os benefícios que lhes são concedidos, desertando mesmo da ideia da democracia como território da luta de classes pacífica, preconizada pelos primeiros sociais-democratas.

A luta por mudanças sociais fragmenta-se em lutas por alterações de atitudes sociais, o que acaba por paradoxalmente desgastar a ideia de revolução. Tudo acaba por aparentemente desaguar num mundo de uma sociedade de abundância e consumo, a bête-noir que Maio 68 contesta violentamente nas ruas mas ama secretamente nas suas alcovas subterrâneas pelo que, passado o incêndio e feito o rescaldo, muito mudou para nada mudar.

O Príncipe de Salinas continuava vivo e aspira à eternidade, os seus salões continuam muito frequentados por esgrimistas de  floretes embotados. Alcançada a paz pantanosa, mesmo que seja invadida por pontuais sobressaltos, o clube dos ricos continua a prosperar, é cada vez mais restrito e enriquece a velocidades inimagináveis, os pobres são cada vez mais e estão cada vez mais pobres, a proletarização estende-se a todas as áreas da actividade produtiva mesmo que esses novos proletários não se reconheçam como proletários.

Um cenário complexo de luta e de lutas sempre ameaçadas pelos labirintos em que os minotauros se multiplicam e estão atentos para as desengatilhar. 

Em Maio 68 tornam-se mais visíveis os fios ideológicos porque se tece o pós-modernismo onde a recusa de narração dos factos passa a ser assumida como recusa da realidade em si, a desconstrução como a destruição de uma actividade política, artística, literária, filosófica, historiográfica activas, o ser individual como um ser livre e semelhante aos outros, para se transitar para uma actividade política, artística, literária, filosófica e historiográfica enquanto experiência de negatividades, ausências, obsolescências e o ser individual ficar aprisionado pelo querer ser diferente o que o torna uma figura mais adjectiva que substantiva.

A realidade deixou de ser um sistema operativo onde se actua para a transformar, no limite revolucionar, para se assumir como um território de uma hiper-realidade onde só as errâncias são possíveis sem dia seguinte. 

«Maio 68 foi um grande teatro de rua, com a administração em espectral ausência à espera que aquilo passasse», declara Alain Tanner a propósito do seu filme Jonas terá 25 anos no ano 2000, sobre as pessoas que viveram aqueles dias e que a seguir foram rejeitadas pela história por causa do seu insucesso, «o que importa, mais que os acontecimentos foi esse teatro colocar em cena as esperanças e os desejos ocultados, que continuaram a emergir à superfície».

Revisitar Maio 68 e os seus  fantasmas, vestindo-os com roupas mais em dia, é muito útil em momentos de crise, como as que actualmente se vivem, para desarmar a ideia de revolução.

Não é um acaso Guy Debord, o maior teórico da Internacional Situacionista, o teórico da sociedade do espectáculo, ter sido, em 2013, objecto de uma grande exposição na Biblioteca Nacional de Paris, que lhe adquiriu os arquivos, classificando-os como tesouro nacional. Hoje em dia não há, da direita à esquerda, político ou pensador que se preze que não cite Debord por tudo e por nada.

O que não quer dizer que o tenham lido, nem quer dizer que não se deva ler a sua obra com tudo o que nela se aprende, mas quer dizer que Guy Debord, como Maio 68 foram recuperados por esta sociedade que tão radicalmente pareciam contestar e que, ironicamente, os integrou no seu circo mediático. Um destino que não lhes causará grandes incómodos nem muito desagrado.

A forma como o poder e as forças que o suportam, estando ou não no seu exercício, olharam para Maio 68 foi clara e cinicamente expressa por André Malraux – um intelectual de esquerda que aceitou ser ministro da Cultura de De Gaulle, que no seu consulado provocou imensa indignação na intelectualidade francesa quando, em 1966, proibiu a representação de La Religieuse de Diderot. Protestos mais violentos houve em Fevereiro de 68, quando demite Henri Langlois, um dos mentores da Nouvelle Vague, da presidência da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gestão, quando o verdadeiro motivo era Langlois se ter recusado a censurar cenas do filme de Truffaut, Beijos Proibidos – numa entrevista ao Der Spiegel em Outubro de 1968: «no que respeita aos estudantes divertiu-me o laivo surrealista do movimento. Mas nem por um segundo levei aquilo a sério (…) a imaginação ao poder é, sem dúvida, um gracejo.»

Revisitar Maio 68 é também verificar que mais que uma revolução política, que nunca foi, foi uma revolução cultural que provocou grandes mudanças nas atitudes sociais. 

Maio 68 mudou o mundo sem o fazer saltar dos eixos, sem o descentrar das suas rotações e translações que se mantiveram íntegras, apesar dos muitos episódios que pouco as aceleraram e muito as desaceleraram até aos tempos de regressão política, económica e social que hoje se vivem.

Tem um legado que persiste e é importante, que deve ser limpo das ilusões e das boas intenções que plantou, das muitas tergiversações que produziu, dos bochornosos contubérnios em que se envolveu.

Ensinou, como talvez nunca se tenha verificado com tanta clareza em séculos de história, que o capital sabe desarmar e reduzir o impacto das lutas políticas, que as mistifica para tirar proveitos cercando as forças que de facto o ameaçam, que nunca hesita no uso de todas as armas dos seus arsenais, dos das armas aos comunicacionais, não recuando das mais violentas e bárbaras repressões às mais subtis e suaves persuasões, com a despolitização na linha da frente.

Celebre-se Maio 68 com uma palavra de ordem que nunca foi dita nem grafitada, mas foi cantada por  Leo Ferré Il n’y a Plus Rien: A desordem é a ordem sem o poder. Talvez a melhor consigna de Maio 68 e das suas incandescentes cinzas.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

 

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Formulaire pour un Urbanisme Nouveau, Ivan Chtcheglov ( pseudónimo Gilles Ivan) in International Situacioniste nº1, Junho, 1958

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Lénine – Que fazer?, Edições Avante!, 2017

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Ribemont.-Dessaignes,Georges- DADA, manifestes,poèmes,articles,projects,chroniques,thêatre,cinéma, Éditions Ivrea, 1994

Vaneigem, Raoul,-Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano, Antígona,2003

 

 

Standard
Agitação e Propaganda, Artes, Cultura, Dziga Vertov, El lissitsky, Estética, Geral, Janelas Rosta, Kloutsis, Lenine, Literatura, Lunatcharsky, Maiakovski, Malevitch, Maurice Blanchot, Política Cultural, Revolução de outubro, Revoluções Proletárias

AGIT-PROP: O LUGAR GEOMÉTRICO DAS VANGUARDAS POLÍTICAS E ARTÍSTICAS

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A arte não é um espelho para reflectir o mundo,

é um martelo para o forjar

Maiakovski

No final do século xix e no príncipio do século xx, as lutas dos explorados e oprimidos, sobretudo da classe operária, intensificaram-se na Europa. A massa de proletários reorganizou-se depois de a Comuna de Paris, o primeiro e efémero governo operário da história da humanidade, ter sido brutalmente reprimida. O Manifesto Comunista, com a sua palavra de ordem Proletários de Todos os Países, Uni-vos!, tem um impacto que não mais perderá, ao sublinhar a centralidade da questão da propriedade privada e as críticas aos socialistas revisionistas que deslocam as lutas de classe para o território da democracia formal, mantendo a estrutura nuclear das relações de produção e de troca, submetendo-se ao poder burguês que pretendem reformar, e aos socialistas utópicos que, apesar de fazerem uma análise crítica da exploração do proletariado, se distanciam da luta política, o que inviabiliza a luta pela transformação da sociedade. Paralelamente, enfrentando uma agudização das lutas operárias, cada vez mais organizadas, os reaccionários capitães da indústria, escorados pelo capital, procuram esvaziá-las, ainda que timidamente e com enorme paternalismo, pondo em marcha políticas para melhorar as condições de vida dos assalariados. O ponto mais alto dessas políticas é a criação das cidades operárias, das vilas operárias, muito saudadas pelos socialistas revisionistas, apesar de Jules Siegfried, deputado e presidente da Câmara do Havre, autor da lei das habitações locais a preços acessíveis, proclamar: «Queremos fazer em simultâneo as pessoas felizes e bons conservadores; queremos combater ao mesmo tempo a miséria e os erros socialistas, queremos garantir a ordem, a moralidade, a moderação política e social? Façamos as cidades operárias!» Nesta declaração, todo um programa político que, em múltiplas variantes, é extensível a outras áreas de acção continua actual e é prática continuada dos partidos que pretendem contumazmente esvaziar a luta de classes, apagar as fronteiras ideológicas, manter o Estado ao serviço do capital. Hoje, adequando-a às exigências que as alterações históricas impõem, tem a sua expressão no TINA (There Is No Alternative), em linha com o Fim da História, o Fim da Ideologia, o Fim da Política, que a queda do Muro de Berlim permitiu e acentuou. Políticas que têm o objectivo de manter o domínio do capital sobre o trabalho, tornando a exploração mais suportável, a miséria material e moral menos escandalosa.

Na altura, essa era a realidade que se impunha na maioria dos países da Europa, mas que não tinha viabilidade numa Rússia com um extenso mundo rural e uma jovem classe operária. Uma população brutalmente explorada e sem possibilidades de aceder ao mínimo essencial. Aí a evolução não era possível, só a revolução tornaria possível a melhoria das condições de vida. A Revolução de 1905 deu um primeiro passo, logo traído pelos socialistas revisionistas. A luta continuou, tornou-se imparável. As massas populares, conduzidas pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lénine, triunfaram em 1917, na Revolução de Outubro. Uma formidável explosão popular que abalou o mundo. Os explorados e oprimidos durante séculos tomaram pela primeira vez o poder; não se limitando a assenhorear-se da máquina do Estado, destruíram-na, cumprindo a tese de Lénine, em O Estado e a Revolução, desenvolvendo as teses de Marx e Engels, denunciando os revisionistas: «a transição da sociedade capitalista, que se desenvolve em direcção ao comunismo, para a sociedade comunista, é impossível sem um “período de transição política”, e o Estado deste período só pode ser a ditadura revolucionária do proletariado».

A Revolução de Outubro, pondo em prática a ditadura revolucionária do proletariado, provocou um enorme entusiasmo nas vanguardas artísticas que, desde finais do século xix, agitavam o universo das artes e se debatiam entre as suas propostas radicais de depuração da forma, libertando-a de superficiais ornamentações, e uma sociedade que os olhava distanciadamente, sem nenhuma dignidade para lhes oferecer num contexto em que a situação social se agravava, o poder de compra dos trabalhadores se erodia, a proletarização da classe média se acelerava. As artes estavam confinadas aos seus espaços de fronteiras bem delimitadas, os artistas eram marginais tolerados que a lustravam. As vanguardas artísticas no Ocidente que colocavam em questão a alienação social, ética e visual das relações dos homens e dos objectos na sociedade burguesa, a contranatura da sua hierarquização, que no topo tinha, continua a ter, os objectos de luxo e os realizados pelos artistas enquanto objectos inúteis só acessíveis a uma minoria, estavam cercadas e confinadas a circuitos bem definidos. Registe-se que o que hoje é uma vulgaridade, o investimento em objectos de arte, como pinturas e esculturas, e de luxo aconteceu massivamente pela primeira vez em França, em 1924, curiosamente o ano em que foi publicado o Manifesto Surrealista, quando uma maioria parlamentar tinha chegado ao poder depois de propor o controlo dos movimentos de capitais, o que provocou um movimento de pânico e uma subida da inflação que levou os ricos a investirem nesses bens a par das já normais fugas de capitais e compra de divisas estrangeiras. A grande crise económica capitalista, com o afundamento de Wall Street, sucederia cinco anos depois. Até aí, comprar obras de arte, que são sempre um investimento, por maior que seja a paixão estética, não tinha essa característica, antecipando a actualidade, em que os objectos de arte são um nicho do mercado de objectos de luxo. Um investimento que se faz pela lógica do lucro, muitas vezes embrulhados em considerações estéticas em que ninguém acredita.

Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo social sem precedentes. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária é parte inteira das propostas estéticas. Só assim se compreende como os ferozes debates entre as diversas vanguardas estéticas que trabalham em prol da Revolução têm um contacto efectivo e eficaz com aqueles a quem se dirigem e que enfrentam multímodos problemas quotidianos num espaço geográfico territorialmente enorme. Só assim se percebe como o Quadrado Negro de Malevitch, que provoca enorme controvérsia nos meios artísticos, se populariza como mancha gráfica usada extensivamente por todo o território soviético para suporte de mensagens de propaganda, além de ser usado por outros artistas, como em Negro sobre Negro, de Rodtchenko. Quadrado Negro que se divulgou tanto que figurou na frente do carro funerário que transportou o caixão do pintor no que foi uma grande manifestação popular em 1935, em Leninegrado. Só assim se entende que no 1.o de Maio de 1926, em Leninegrado, os manifestantes transportem a maqueta do Monumento à III internacional, de Tatlin, com o mesmo fervor revolucionário com que em Kharkov se transportava, também num 1.o de Maio, um gigantone figurando o capitalismo construído por artistas e populares, ou o êxito dos comboios e dos barcos agit-prop, que partiam dos grandes centros urbanos, com pinturas, cartazes, manifestos, cinema, teatro, etc., para atravessar toda a Rússia com paragens nos lugares mais improváveis, levando a festa e a cultura da Revolução a todo o país, sem descurar as tradições artísticas locais dos percursos previamente organizados. Que tenha acontecido o primeiro espectáculo de som e luz em todo o mundo, O Assalto ao Palácio de Inverno, encenação de Evréinov, cenários de Annenkov, que foi também um grandioso teatro de massas, com milhares de espectadores e participantes. Um novo tipo de teatro iniciado pelo encenador Vinogradov-Mamont, director das Oficinas Teatrais do Exército Vermelho, outra novidade revolucionária, que esteve na origem de espectáculos memoráveis: A Caminho para a Comuna Mundial, Mardjanov, Almant, Chaldnecht, Luta e Vitória, Meyerhold, Vesnine, Popova, O Bloqueio da Rússia, Fomine, Radlov, Khodassievitch, que pretendiam suplantar o teatro tradicional e estão na origem de o teatro soviético, já noutro formato, se transformar num teatro supranacional.

No cinema, talvez pela sua juventude, o salto qualitativo na linguagem cinematográfica induzido pelos realizadores soviéticos transmudou-a completamente. Inicialmente, os cineastas soviéticos registavam o que era mais interessante e importante. Um cinema documental orientado pela palavra de ordem Todo o Poder aos Sovietes também cantado por Maiakovski […] A todos! / A todos! / A todos os que na frente, / estão cansados da guerra, / aos escravos / de todos os tipos, / na servidão / dos ricos / Todo o poder aos sovietes / A terra aos camponeses! / O mundo ao povo! / Pão aos que têm fome! (poema Vladimir Ilitch Lénine). As imagens traduziam a verdade dos acontecimentos, as imagens poéticas da Revolução. A montagem, a montagem narrativa, seguia os cânones de Holywood, de realizadores notáveis como Griffith, King Vidor, Chaplin. Esses primeiros anos a acompanhar a Revolução acabam por provocar uma revolução na arte cinematográfica que explode entre 1925-1930 com A Greve, Couraçado Potemkin, Outubro, de Eisenstein, A Mãe, O Fim de São Petersburgo, A Tempestade na Ásia, de Pudovkin, O Arsenal, A Terra, de Dovjenko, A Rússia de Nicolau II e de Tolstoi, de Ester Choub e o Cinema-Verdade de Dziga Vertov, O Homem da Câmara de Filmar, Três Canções para Lénine, O Entusiasmo. A montagem está na raiz do que fez mudar universalmente a linguagem cinematográfica. Duas cenas são exemplares dessa alteração: a do tiroteio na escadaria de Odessa no Couraçado Potemkin, os confrontos entre manifestantes grevistas e as forças repressivas czaristas em A Mãe. É esse novo género de montagem introduzido pelo cinema soviético, com destaque para Eisenstein, que tem sido analisado extensamente por muitos teóricos do cinema que o consideram o inventor da linguagem cinematográfica actual no que ela tem mais de específico. A montagem eisensteiniana é a ilustração da aplicação da dialéctica marxista: cada imagem só tem verdadeiro sentido em relação às imagens que a precedem e às que são subsequentes. Lembre-se a cena, no Couraçado Potemkin, do médico lançado ao mar a que sucede o grande plano do seu monóculo, que no momento da queda fica pendurado a balançar, metáfora da redução da sua autoridade anterior a uma marioneta. Vertov é outro exemplo da importância da montagem no que se poderia chamar jornalismo pela imagem. Destrói as lógicas narrativas sequenciais para fazer descobrir o sentido oculto das imagens captada. Escolhe e corta os planos para os opor uns aos outros, para confrontar os seus conteúdos, para em semelhanças e dissemelhanças complementares nos seus contrastes fazer «a decifração comunista do mundo» (Vertov), com uma novidade formal excepcional. Com o advento do sonoro, Tchapaev, dos irmãos Vassiliev, um grande êxito popular, é um excelente exemplo de como aprender com todos os seus antecessores e de como se assimilaram as possibilidades estéticas abertas pelo sonoro.

Todas as disciplinas artísticas são atravessadas pelo vento da Revolução. Respiram-no, e essa respiração é vital para a pulsão criadora de que ficam possuídas. A abolição das relações de propriedade abre as estradas para novas formas de arte que apontam para o futuro, recusando frontalmente tanto a estetização da política como a mundanização das artes, demonstrando de forma inequívoca como a arte de massas pode ser verdadeira arte, isto dito de forma linear, usando e aceitando uma terminologia vulgar. A grande escassez de materiais condicionou a produção de cartazes, monumentos, filmes. O papel era utilizado sobretudo em jornais, livros, cadernos. Isso não impediu que o cartaz com mensagens e palavras de ordem revolucionárias fosse bastante utilizado e tivesse uma expressão estética que, na maioria dos casos, usava técnicas figurativas, muito influenciadas pelas imagens cinematográficas. A fotomontagem vulgarizou-se com grande inventiva com El Lissitsky, os irmãos Stenberg, Kloutsis, Proussakov, e paralelamente com as ideias do construtivismo, que Naoumov usou com notável maestria. A escassez de papel está na base de uma nova forma de cartaz, as janelas ROSTA. Um trabalho gigantesco feito por «um grupo de pintores que, à mão, traduziam a luta revolucionária em manchas coloridas e palavras de ordem sonoras para a levarem a milhões de pessoas», como o sintetizou Maiakovski, um dos mais activos intervenientes nessa actividade, que se expandiu pelas principais cidades russas, sobretudo em Moscovo, São Petersburgo, Smolensk, Kiev, Vitebsk. Com uma linguagem pictural muito estilizada e de grande expressividade, as ROSTA eram uma variante dos jornais de parede e tiveram grande influência na feitura de cartazes.

A arte monumental deste período merece um estudo particular. Anote-se rapidamente a coexistência entre monumentos temporários e monumentos para perdurarem no tempo. A essa distinção não é alheia a já referida escassez de materiais, que condicionava as selecções. Logo em 1918, Lunatcharsky, Comissário no governo soviético para a Educação, propôs e fez aprovar um decreto sobre os Monumentos da República (12 de Abril de 1918) em que se determina o destino a dar aos monumentos czaristas e a organização de concursos públicos para projectos de monumentos que assinalem «as jornadas gloriosas da Revolução socialista na Rússia». Na sequência, em 2 de Agosto foi publicada e aprovada uma lista com «As Personalidades à memória das quais é previsto realizar monumentos em Moscovo e noutras cidades». São dezenas de revolucionários, filósofos, escritores, pintores, músicos, cientistas, etc., a quem se deveria erigir um monumento. A lista foi elaborada considerando o seu carácter progressista e papel histórico nas lutas sociais e na luta pela consciência social das massas. Era também um meio de colocar a Revolução Bolchevique na cultura universal como herdeira do progresso social da história da humanidade. Tinha um forte carácter internacionalista, era uma base para as diversas cidades elaborarem as suas encomendas. A par das outras obras de agit-prop, tinham frases de Marx, Tolstoi, Goethe, Ovídio, Danton. Embora a dominante fosse o monumento-retrato, fizeram-se propostas com soluções de moderna estatuária que ficaram para a posteridade. Muitos desses monumentos, por razões económicas, não passaram de projectos. Alguns foram construídos com materiais precários; de referir os que foram construídos com gelo, mesmo conhecendo a sua sazonalidade. Não se limitaram a glorificar pessoas, mas as lutas heróicas dos operários e camponeses, do Exército Vermelho. Nele se empenharam tanto escultores como arquitectos, pintores, artistas gráficos.

Todas essas realizações da arte soviética nesses anos heróicos da construção do socialismo resultam de um trabalho teórico e de um empenhamento sem precedentes na organização cultural e educativa. No III Congresso dos Sovietes, Lénine afirmou: «Antes, o génio do espírito humano trabalhava unicamente para que os bens da cultura e da técnica fossem aproveitados por uma minoria, enquanto os outros, a esmagadora maioria, era privada do essencial: da educação e do desenvolvimento. A partir de hoje toda e qualquer maravilha da técnica, cada conquista da arte, será uma herança de todos os povos e jamais algum espírito humano e o seu génio estarão ao lado da opressão, da exploração.» Foi esse o trabalho do Comissariado do Povo da Educação da URSS, que numa dezena de anos alfabetizou uma população de milhões maioritamente analfabetos e impulsionou uma nova cultura, em que se empenharam milhares de artistas e intelectuais que, por vezes com grandes e ásperos confrontos de ideias, lançaram as bases de uma vasta acção artística e cultural em apoio à Grande Revolução de Outubro que se dirigiu a toda uma população, às mais largas massas populares, no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura.

A cultura era uma presença viva, inconformada e sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas actualmente pelas culturas ocidentais, no plural para sublinhar diferenças que realmente são cada vez mais secundárias, e que inquietam a intelligentsia, como Blanchot tão claramente sintetiza: «secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

A cultura e as artes, nos anos grandiosos da Revolução de Outubro, enunciaram e percorreram todos os caminhos que as forjam como poderosas ferramentas de transformação da vida. Nos nossos dias, as artes e a cultura vivem uma situação dramática resumida por Terry Eagleaton: «hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas […] pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em condições de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental». Não é só a literatura britânica, são todas as artes, é toda a cultura de uma cultura inculta. As excepções são raras num tempo em que, num aparente paradoxo, se investe consideravelmente na construção de museus, teatros, salas de concertos, em múltiplas instituições, na subvenção de espectáculos, sem que isso tenha expressão nas artes, que em nenhuma parte do mundo se aproximam, muito menos emergem, das realidades sociais. As artes e cultura, num tempo em que tudo se submete e sacrifica nos altares do economicismo, estão atiradas para uma incoerência caótica e insensata, apesar dos génios que em obras fragmentadas demonstram a sua genialidade, o que sublinha a tese de Burckhardt: «existem hoje grandes homens para coisas que não existem».

A arte e a cultura não estão condenadas à alienação. As artes na Revolução de Outubro, com a sua vertiginosa criatividade e combatividade, comprovam-no. É um processo irrepetível, mas o que foi possível poderá novamente sê-lo com formas completamente outras.

CV ContraCapa

BIBLIOGRAFIA

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Vários, Os Futuristas Russos (coordenação de Léon Robel, tradução de Emília geo Georgette), Editora Arcádia, 1971.

(PUBLICADO NO CADERNO VERMELHO Nº 25 / Setembro 2027)

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Aznar, Colin Powell, Comunicação Social, Conselho Segurança ONU, Dicionários Oxford, Georges W, Bush, Geral, Lenine, Mentira, Pós-Verdade, Redes Sociais, Tony Blair., Verdade

O Óbito da Verdade

magritte

Reprodução Interdita, René Magritte, 1937

Os Oxford Dictionaries, um canone dos dicionários, elege todos os anos uma palavra da língua inglesa. A de 2016 é “pós-verdade”. Definiram-na como o “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais factos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”.

Explicam os doutores de Oxford que “pós-verdade deixou de ser um termo periférico para se tornar central no comentário político (…) tornou-se uma das palavras definidoras dos nossos tempos.”

A verdade deixou de interessar, é um acessório no debate político. Quando Colin Powell vai às Nações Unidas, com mapas falsificados localizando fábricas de armas de destruição maciça no Iraque que não existiam, não mentia descaradamente, estava a desdobrar uma pós-verdade utilizada para justificar a invasão. Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso na cimeira dos Açores não mentiram, estavam a fazer um exercício de pós-verdade.

As grandes plataformas de difusão da pós-verdade são as redes sociais bem sustentadas por uma comunicação social estipendiada ao serviço do imperialismo para justificar as suas acções agressivas. O que já está na forja é instituir censura nas redes sociais limitando a acção de quem, sem acesso aos media, denuncia as pós-verdades. Um exemplo recente: Kerry em entrevista ao New York Times diz, preto no branco, que os EUA sustentaram com armas e bagagens o Estado Islâmico. O NYT fez o seu trabalho editorial de desinformação. Expurgou essa passagem, deixou-a pairar nas entrelinhas. Construiram uma pós-verdade, desmentida pela gravação na integra da entrevista. Quem fizer circular essa gravação poderá agora ficar sujeito à censura. Com a vulgarização da pós-verdade tudo se torna possível, mesmo que se verifique que as afirmações feitas sejam mentira. Nada de inesperado se houver memória que teóricos da pós-modernidade defendem a tese que “a ideia moderna da racionalidade global da vida social e pessoal acabou por se desintegrar em mini-racionalidades ao serviço de uma global inabarcável e incontrolável irracionalidade”.

Os tempos em que Lenine proclamava que só a verdade é revolucionária, são sepultados pela pós-verdade, um triunfo da ideologia de dominante de direita que contamina boa parte da esquerda.

( publicado no Jornal a Voz do Operário, Fevereiro 2017   http://www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Fevereiro2017/VO3041_web.pdf)

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