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J'Accuse

Nos tempos pós-modernos Zola teria sido passado a ferro. Teria muitos intelectuais ao seu lado mas sem a força e muito menos a unidade com que se fizeram ouvir no caso Dreyfus.

Fotograma do filme «J'Accuse» (2019), realizado por Roman Polanski a partir de um romance inspirado no caso do oficial francês Albert Dreyfus, de origem judaica, acusado de traição à Pátria por círculos militares anti-semitas.
Fotograma do filme «J’Accuse» (2019), realizado por Roman Polanski a partir de um romance inspirado no caso do oficial francês Albert Dreyfus, de origem judaica, acusado de traição à Pátria por círculos militares anti-semitas. Créditos

J’Accuse, o filme de Roman Polanski, recupera o título da carta que Emile Zola publicou no jornal L’Aurore a 13 de Janeiro de 1898, dirigindo-se ao presidente da República Francesa, Félix Faure, acusando membros do aparelho militar e do governo de cumplicidade na forjada condenação por traição de um inocente, o oficial de artilharia Alfred Dreyfus, um dos poucos judeus que faziam parte do exército, acusado de alta traição. Pelo crime, julgado à porta fechada, o capitão é sentenciado à prisão perpétua no presídio da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Será mais tarde amnistiado e deixa a prisão, apesar de continuar a ser considerado culpado. Só em 1906 Dreyfus é reabilitado e reintegrado no exército.

Foi um caso que agitou toda a França depois da carta de Zola, que será condenado a um ano de prisão, a 3 000 francos de multa e ao exílio em Inglaterra, de onde só será autorizado a regressar depois da reabertura do processo.

O que interessa aqui é assinalar a movimentação intelectual e cultural originada pelo caso Dreyfus. É o centro de um livro de Roger Martin du Gard, O Drama de João Barois, livro bastante esquecido que deve ser relido por equacionar questões entre a religião e a ciência, da inteligência contra a força bruta, as contradições da justiça humana, as relações entre o social e o individual, questões que andam muito arredadas de muita da literatura contemporânea, sendo sempre de relembrar Terry Eagleton: «hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literatura são bastardas (…) pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em questão de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental». Britânico e de qualquer parte do mundo. As excepções confirmam a regra.

Em França, a carta de Zola denunciando a iniquidade do julgamento de Dreyfus gerou um grande movimento de artistas, advogados, universitários, arquitectos, médicos, músicos, escritores, nomes publicamente conhecidos que assinaram protestos no Aurore Littéraire, juntam-se num manifesto publicitado por Julien Benda. Georges Clemenceau, chefe de redacção do jornal, vê nessa convergência entre tantos especialistas de primeiro plano em áreas tão diversas, «um sinal, no facto de todos esses intelectuais chegados dos horizontes mais diversos, se unirem em torno de uma ideia», a defesa de valores mais importantes ainda que ameaçados pelas acções da autoridade do Estado. O conceito forjado por Clemenceau, intelectuais, parte da constatação de esse grupo tão diversificado de portadores de saberes especializados superarem as suas especializações e qualificações profissionais por se sentirem obrigados a intervir no espaço público para falar em nome da sociedade no seu conjunto.

Regis Debray irá defini-los como «uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões pessoais sobre os assuntos públicos, com dispensa dos procedimentos cívicos regulares que se impõem aos cidadãos comuns»1. Nesse conceito de intelectuais convergiam duas tendências. A primeira era a superação em que a especialização dos saberes os tinha acantonado corporativamente encerrando-os praticamente na exploração dos seus conhecimentos específicos, distanciando-os das questões sociais mais vulgares. A segunda era reentrarem na cena pública, numa altura em que a política começava a ser uma actividade a tempo inteiro, superando os seus interesses profissionais e pessoais, para influenciar as decisões políticas analisando-as sobretudo do ponto de vista ético, criticando-as, procurando corrigi-las. Os intelectuais recuperavam as potencialidades e a capacidade de intervenção que tinham sido proclamadas na filosofia iluminista, e que outrora, efectiva ou supostamente, tinham gozado.

Transponha-se a carta de Zola e o manifesto que a carta promoveu para a actualidade. A maioria da comunicação social mainstream, ignorá-los-ia. Talvez um ou outro deles publicasse excertos, desvirtuando-os. O manifesto seria remetido para as redes sociais. Os seus autores, intelectuais e outros não considerados nesse grupo, conseguiriam impacto junto da opinião pública circulante nessa área, mas embateriam no silêncio dos media. Na melhor das hipóteses Zola iria a uma televisão onde lhe dariam uns 15 segundos, entalado entre uma notícia de uma catástrofe qualquer e outra desportiva ou de um sucesso de um famoso. No violento ruído do mundo, o estado de sítio em que vivemos, a sua diluição seria procurada entre fake news, teorias conspirativas, populismos de várias estirpes, o mundo viral em que estamos mergulhados, que contamina a atmosfera.

Manifestantes fora do tribunal de magistrados de Westminster. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, enfrenta uma audiência sobre um pedido de extradição dos EUA por alegadamente conspirar para “hackear” um computador do Pentágono. Londres, Inglaterra, 2 de Maio. CréditosFrank Augstein /

Se Zola fosse vivo não temos dúvidas que escreveria um J’Accuse denunciando a perseguição a Julian Assange ou a Peter Handke. Denunciaria a farsa do julgamento a que está a ser submetido o primeiro, num tribunal presidido por uma lacaia do imperialismo. Já teria denunciado a perseguição que sofreu desde que delatou publicamente as práticas criminosas dos Estados Unidos para imporem ao resto do mundo a sua super-dominação no espaço geopolítico global. Fê-lo sem nunca procurar recompensas nem protecções judiciais. Fê-lo como um acto de cidadania e defesa da liberdade de informar. Leia-se o interessantíssimo livro de Juan Branco Assange: L’Antisouverain2, em que o soberano é o aparelho de estado. Foi imediatamente perseguido pelos EUA, a primeira linha de ataque foi assumida por Hillary Clinton e Obama, logo apoiados pelos neo-cons e pela subserviente comunicação social anglo-saxónica que contumazmente, não o podendo desmentir, o vilipendiaram e hoje praticamente não noticiam as miseráveis condições de detenção a que foi sujeito nem a farsa do seu julgamento. Os intelectuais não agiram como um grupo, ainda que heterogéneo, como aconteceu com o caso Dreyfus. As petições para a sua libertação ocorrem na internet e não têm eco nos media, como seria de prever por serem na sua esmagadora maioria vozes vendidas ao dono.

Na foto, Peter Handke assiste ao funeral do ex-presidente sérvio Slobodan Milošević, em Março de 2006. Handke foi uma das vozes críticas da guerra de agressão levada a cabo em 1999 pelos EUA e pela NATO contra a Sérvia. O escritor, dramaturgo, ensaísta e realizador austríaco foi recentemente galardoado com o Prémio Nobel de 2019. CréditosPetar Pavlovic / AP

Peter Handke, assim que denunciou a guerra dos Balcãs para desagregar a Jugoslávia – leiam os livros dos generais Carlos Branco3 e Raul Cunha que durante integraram o grupo de observadores internacionais da ONU nos Balcãs – e depois quando fez o elogio fúnebre de Milosevic, que tinha sido extraditado à revelia das leis e decisões do Supremo Tribunal do seu país, entregue ao Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia, instituído por influência dos EUA – que a ele não se sujeita – e que acabou por absolvê-lo por considerar não existirem provas que permitissem qualquer acusação, sofreu a mesma sorte sem que houvessem petições públicas nem notícias que, pelo menos, o deixassem justificar as suas posições. Agora, quando lhe foi atribuído o prémio Nobel da Literatura, houve quem tivesse o descaro de o depreciar, menorizando mesmo a sua importância enquanto escritor, curiosamente os mesmos que aparentemente são defensores da autonomia das artes, a sua não contaminação pela política e pela vida social. Mas foram tirar do baú todas as aleivosias e todas as mentiras, que propalaram durante anos, para agitarem a opinião pública contra a decisão do Comité para a Literatura do Nobel. Vários intelectuais alinharam nessa farsa trágica. Seria espantosa a hipocrisia, o cinismo e a subserviência de muitos intelectuais ao pensamento único se não se estivesse atento aos colunistas que por esse mundo fora são escolhidos a dedo ao serviço do satus quo para justificar a qualquer custo os actos americanos que os querem impor enquanto função regulatória para o resto do mundo, para a normalizar tornando-a natural. Como sempre as excepções, as raras excepções confirmam a regra.

«Zola à saída do tribunal» (1898), óleo sobre tela, 81 x 109,5 cm, do pintor belga Henry de Groux (1866-1930), Médan, Casa de Émile Zola. O quadro, também conhecido por «Zola ultrajado», evoca a turba nacionalista e anti-semita que o escritor teve de enfrentar em Fevereiro de 1898, à saída do tribunal onde fora processado por aqueles que acusara no seu célebre manifesto. A integridade física de Zola, nesse dia, apenas foi mantida graças à sua defesa por outros «dreyfusards», entre os quais o próprio pintor. CréditosBNF / Casa de Émile Zola

Esta nova ordem, fanática e totalitária, considera fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados que não conseguiram agenciar para seus arautos, sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por exclusivos interlocutores os seus pares e não a sociedade, para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Nos tempos pós-modernos Zola teria sido passado a ferro. Teria muitos intelectuais ao seu lado mas sem a força e muito menos a unidade com que se fizeram ouvir no caso Dreyfus. Desde os anos 60, com advento do mercado sobre a cultura e os vários episódios da Guerra Fria Cultural – leiam-se os documentos da CIA, que embora libertados sob tutela e a contagotas, são suficientemente reveladores – houve todo um trabalho de desagregação dos intelectuais e de desmantelamento da esquerda intelectual até se atingir o ponto crítico actual.

Há um gigantesco trabalho a fazer para que os intelectuais façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, ainda que com a consciência de que se essa não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que a ponha em causa. Para readquirirem o sentimento do seu papel social mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

  • 1.Debray, Régis, Le Pouvoir Intellectuel em France, Editions Ramsay, 1979
  • 2.Branco, Juan, Assange L’Anti-Souverain, les Editions du Cerf, 2020. O leitor que tenha dificuldade em encontrar o livro nas nossas livrarias – e terá – poderá encomendar a versão e-book do mesmo, publicada pela Rakuten Kobo.
  • 3.Ver A Guerra nos Balcãs: jihadismo, geopolítica e desinformação. Vivências de um oficial do Exército Português ao serviço da ONU, Edições Colibri 2016; e A guerra na antiga Jugoslávia vivida na primeira pessoa: testemunhos de militares Portugueses ao serviço das Nações Unidas / The Yugoslav Wars in the First Person: Testimonies of Portuguese soldiers serving with the United Nations, Edições Colibri, 2018, português/ inglês, com Luís Eduardo Saraiva e Henrique Santos.
  • Cunha, Raul, Kosovo, A Incoerência de uma Independência Inédita,Edições Colibri 2019

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

TÓPICO

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La Nave Va

barco

o barco que transporta Nosferatu no filme de Murnau

Passos Coelho vocifera empurrado pelo ciclone de dez mil milhões de euros!  Paulo Núncio tropeça em si-próprio até não conseguir negar as evidências! Paulo Portas passeia irrevogável mudez até agarrar de novo os microfones de vendilhão nos templos da comunicação social estipendiada! Assunção Cristas faz queixinhas ao Presidente da República enquanto distribui beijinhos postais aos lisboetas pedindo ideias para encher a sua vazia cabecinha! Luis Montenegro e Nuno Magalhães usam a Assembleia da República para concorrerem aos óscares dos incorruptíveis contra a droga realizando a sua remake em versão filme cómico! Lobo Xavier e António Domingues almoçam e jantam sms nas casas de banho para defesa da sua intimidade que deixam entrever abrindo e fechando a portas dos privados das administrações dos bancos onde as trocam! Maria Luís Albuquerque cala-se para guardar de Conrado o prudente silêncio! A mentira, as mentiras são despejadas, sem selecção de resíduos para reciclagem, no aterro sanitário dos erros de percepção mútua!

Uma ópera bufa que nos toma por basbaques, recuperando um grande final em que contumazes indignidades recuperam prazo de validade rebobinadas pela assunção política das falsidades, retirados os andaimes que as ocultavam. Miserável lavagem pública da imoralidade passada e repassada em todas as máquinas da comunicação social para voltar a dar crédito à miséria de alguma política e de muitos políticos.

No caso das dezenas de milhares de milhões de euros que voaram para offshores que um prestimoso secretário de estado viu mas não permitiu tornar público, o roteiro da viagem do que está em causa não é a ocultação, muito menos o azar de vir a ser objecto de tributação legal, mas o seu significado. O que é substantivo é essa acção ser parte por inteiro do norte político de um governo, as políticas de austeridade que reestruturavam a economia fazendo cortes e ajustamentos que visavam os trabalhadores, as pequenas e médias empresas, passava a ferro a classe média, todos os que eles diziam estar a viver acima das suas possibilidades, enquanto dava rédea solta aos desmandos da banca e do grande capital. Politicas em que ofertavam mais riqueza para os mais ricos a continuarem a acumular enquanto o garrote se apertava aos mais desmunidos que o viam apertar com um fisco de mão mais extensa e mais implacável, com leis laborais que faziam retroceder dezenas de anos de conquistas feitas palmo a palmo, com a degradação sistemática dos direitos sociais, económicos.

O laxismo que deixa ficar nas gavetas do secretário de estado as listas das dezenas de milhares de milhões de euros que legalmente iam estacionar em offshores não é inocente, como não o eram as listas VIP ou a indiferença em relação à fuga ilegal de dezenas de milhares de milhões de euros que só parcialmente são contabilizáveis pelos processos judiciais em curso, é a resultante directa da política do governo PSD-CDS que favorecia a acumulação da riqueza dos mais ricos e o aumento, na melhor das hipóteses, a manutenção da pobreza da esmagadora dos portugueses. A sanha com que atacam o actual governo PS, com apoio parlamentar PCP/BE/PEV, as medidas, mesmo que tímidas, de repor rendimentos a trabalhadores, pensionistas e reformados, de dar melhores condições de crédito às pequenas e médias empresas é a pedra de toque dessas políticas em que se dá liberdade quase absoluta aos que já a têm e aperta a tarraxa a todos os outros que não devem ser piegas por serem metidos na ordem de viverem conforme as suas magras possibilidades.

É repugnante ver esse teatro de sombras em que um forcado corneado pela impossibilidade de continuar nas omissões das verdades, se refugia nas tábuas das meias-mentiras, vai para o meio da arena exibindo a orelha da responsabilidade política para ser aplaudido pela turbamulta dos seus aficionados que agitam freneticamente o manto diáfano da sua mais que esburacada dignidade. São todos iguais por mais tonitruantes declarações que façam. Querem safar-se como se tudo isso tivesse sido um acidente do aparelho fiscal e o governo Passos-Portas não fosse politicamente responsável. A bardinagem, o populismo, a demagogia no seu melhor.

Um peão de brega é obrigado a saltar do barco para aliviar o lastro e o barco continuar a navegar no pântano. Enquanto houver parvos ou parvos fingidores continua acima da linha de água. La nave va, o rumo não se alterou, não se altera nem dá guinadas às quinta-feiras.

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CDS, Geral, justiça, PS, PSD

O GRANDE GUIGNOL DA JUSTIÇA,NUM PAÍS QUE É UMA DEMOCRÁTICA CHOLDRA

lata de atum

carcaça

 

Um sem-abrigo cheio de fome que rouba uma lata de atum e uma carcaça num supermercado, num valor total que não chega a um euro, é preso sem direito a caução e vai dormir nas enxovias da cadeia.

Um figurão, arguido pelos crimes de burla, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais, vai para casa dormir em lençóis de seda com uma caução de € 3 000 000,00 (três milhões de euros), proibição de se ausentar do território nacional, proibição de falar com determinadas pessoas.

Que crime vale uma caução de três milhões de euros? Onde é que o arguido sacou três milhões de euros para pagar a caução? Grande guignol da justiça para fingir que ninguém esta acima da lei.

Isto não é um país é uma choldra democrática em que os ricaços, apanhados numa curva onde derraparam movidos por extrema ganância, continuam a ser ricaços defendidos por advogados, no caso tal filho tal pai, pagos a preço de ouro do bandido que os mantém a navegar por cima das ondas da lei feita à medida de quem tem poder económico. Todos bem sabemos que entre a justiça e a lei há um abismo e que a lei é o direito do mais forte à liberdade.

Esta é mais uma história da  lusitana Nau Catrineta, que ainda tem muito que contar, do chefe da famiglia Espírito Santo, Salgados e Ricciardis, que continuam alegremente em liberdade rebolando-se nos milhões que durante anos roubaram legal, alegal e ilegalmente como se vai sabendo, acalantados pelos partidos do chamado arco governativo que organizaram e mantém este sistema político-económico que permite escandalosas acumulações de capital e que, durante quase quarenta anos, até hoje, até amanhã, enquanto os deixarmos continuam a governar.

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economia, Geral, justiça, Media, Passos Coelho, paulo Portas, Política, PS, PSD, troika

O grande circo do banco espírito santo

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É isso mesmo que reprovo.
Não há nada mais imoral do que roubar sem riscos.
É o risco que nos diferencia dos banqueiros
e seus émulos que praticam o roubo legalizado
com a cobertura dos governos.
Albert Cossery in As Cores da Infâmia
-edições Antígona, ano 2000
BES

1-O CIRCO POLÍTICO

Passos Coelho diz com o ar solene do costume, para dar credibilidade às fanfarronadas, charlatanices, lapalissadas de político de meia tijela, que “cada vez mais os bancos olham ao mérito dos projectos e aqueles que não olham pagam um preço por isso. As empresas que olham mais aos amigos do que à competência pagam um preço por isso, mas esse preço não pode ser imposto à sociedade como um todo e muito menos aos contribuintes”. Está a gozar com todos nós!!! Os 300 milhões que a CGD emprestou ao BES foi pelo mérito dos projectos? E os 900 milhões da PT ao GES foi pelo mérito dos projectos? E o Estado que tem descaradamente beneficiado a famiglia Espirito Santo desde que esta começou a reconstituir os tentáculos do polvo? Foi pelo mérito dos projectos? E o trânsito entre quadros do grupo Espírito Santo e o aparelho de estado e os partidos do chamado arco governativo? Foi para beneficiar o Estado? Para colocar os partidos mais próximos da realidade? Foi por mérito desses quadros? Ou foi para garantir e ampliar a influência da “famiglia” espírito do santo nos destinos do país a seu favor? Apesar de não terem um pingo de vergonha, pelo menos fechem a carcela!
Paulo Portas, um técnico de vendas com a escola toda, mestrados e doutoramentos adquiridos em anos de frequência das feiras, alinha várias alarvidades, com o ar sério de vendedor de vigésimos premiados, com o cuidado de não se referir aos amigos espíritos santos, ai Portucale, Portucale!«os portugueses já pagaram muito caro erros do sistema financeiro», defende «economia de mercado com responsabilidade ética (…) nós não acreditamos no Estado como produtor de riqueza e temos receio do Estado como produtor de dívida, mas queremos um Estado que seja um regulador forte e um supervisor eficiente».
Como se ética e mercado tivessem alguma vez andado de braço dado. Como se não fosse o Estado a vaca onde toda essa gente mama, acarinhada por Portas&Comparsas.
Desde que começou o folhetim do Grupo Espírito Santo. Passos Coelho e Paulo Portas tinham toda a confiança no que “já foi dito pelo senhor doutor Ricardo Salgado” e assumiam “todo o respeito” pelas questões internas de um grupo privado. Esses dois e a camarilha dos governantes são os mesmos que sacaram milhares de milhões de euros a pensionistas, a desempregados e a trabalhadores no activo para tapar roubos e buracos de negócios desastrosos feitos por entidades privadas que eles tanto respeitam. A história repete-se e é cada vez mais sinistra.
Por fim, António José Seguro diz que está menos preocupado com a situação do BES depois da reunião que teve com o Governador do Banco de Portugal. Diz que, como líder do PS, “recolheu informações que lhe garantem que os portugueses podem estar tranquilos”. O gajo é parvo? Queria que o Governador do Banco de Portugal lhe dissesse que aquilo é uma choldra que andou a gamar à tripa forra? Que ainda não se sabe quantos milhares de milhões vão ser necessários para tapar o buracão?
Esses três da vida airada mentem, sabem muito bem que vão ser os contribuintes a pagar com língua de palmo a roubalheira. Que o BES mais cedo ou mais tarde, com nova ou velha administração, perdida ou reciclada a confiança dos mercados, vai ao saco dos seis mil milhões de euros do empréstimo total feito na base do Pacto de Agressão, que continuam guardados para salvar os bancos e que deveriam ser utilizados para promover a economia. Que quem paga a factura da troika somos nós enquanto as grandes fortunas, os especuladores, continuam a ser poupados.
Esses três da vida airada, mais os que os antecederam são das famílias políticas e do sistema político que permitiu que em trinta anos o Grupo Espírito Santo, com golpadas conhecidas e, pelos vistos, desconhecidas, todas muito éticas, sejam legais, alegais ou ilegais, acumulasse:

  • 7.000.000.000.000 de euros
  • 200.000.000 de euros em cada ano
  • 17.000.000 em cada mês
  • 550.000 em cada dia
  • 24.000 em cada hora

Claro que o problema não é do grupo Espírito Santo é da natureza do sistema e dos políticos e dos partidos que o sustentam, os tais que o Cavaco quer ver concertados, que permite sucessos e insucessos deste jaez. Leia-se o post “Pobrezinho Sim, Honesto Nunca”, aqui publicado em 2010, sobre Ricardo Salgado, antes de conhecidos os actuai lances.

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2- O CIRCO PRIVADO DO GOVERNADOR

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal tem sido muito elogiado pela claque do costume, pela forma sagaz com que tem tratado o caso do Grupo Espírito Santo. Outra coisa não seria de esperar dessa gente que empapa os órgãos de comunicação social com comentários e notícias que são uma roda dentada importante no movimento do sistema em que pontificam os doutores e doutorecos fonsecas & burnays dos Espíritos Santos e congéneres.
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal, que só actuou quando se sentiu entalado entre a espada e a parede e não lhe restou outra alternativa senão intervir?
Pode-se levar a sério um governador do Banco de Portugal que pactua com gente que manipula contabilidades para esconder défices de milhares de milhões? Gente que inscreve nos seus activos acções representando ficticiamente milhares de milhões que de facto só valem 10% ou menos? Que, segundo os jornais, atribui idoneidade a troco de um espirito santo mais renitente sair da administração do BES? Que não considera grave um presidente de uma instituição bancária receber luvas de dezenas de milhões de euros de um construtor civil mal cheiroso, o que noutros países daria direito a ser preso, a ser levado algemado para a prisão, em directo e a cores? Que permite que os espíritos santos, sejam salgados ou ricciardis, se preparem para inventar e entrar num Conselho Estratégico, para continuarem a ter um comando à distância no BES? Apesar de Ricardo Salgado já ter nos novos membros do CA, pelo menos alguém que andou com ele de braço dado num virote para salvar os Espíritos Santos do abismo para que parecem caminhar, com os bolsos a abarrotar de maravedis. Alguém avalizado pelo novo presidente do CA do BES e pelo governador do BdP. Tudo gente que frequenta os mesmos salões, sejam eles restaurantes, academias, ginásios, cabeleireiros ou casas de meninas com profissão mais antiga mas de princípios mais sólidos. Gente que nunca se perde no paraíso que é o Portugalito, debaixo das asas do galo de Barcelos que debica as migalhas que os grandes grupos económicos despejam nos pátios das traseiras dos partidos que nos têm governado há quase quarenta anos.

 

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3-O CIRCO DOS BONS RAPAZES

Enquanto a galinha punha hora a hora e pontualmente ovos de ouro, a famiglia espírito santo, seguia em manada o padrinho, embalada pelo tilintar da dinheirama derramada nos seus bolsos pelas cornucópias que durante dezenas de anos multiplicavam rios de maravedis com múltiplas actividades ilegais, desde a fraude fiscal à falsificação de contabilidade, a utilização do dinheiro dos depositantes em benefício dos próprios, a intensa promiscuidade entre os banqueiros e o poder político. Não uma árvore, uma floresta de árvores das patacas.
Era um pagode apesar dos problemas judiciais por práticas ilícitas em múltiplas praças que não a nacional, à sombra da sonolência que invade os gabinetes do BdP, apesar dos sobressaltos BCP, BPN, BPP, Banif. Porque há que respeitar e ter confiança na actividade privada bancária, nos seus senhores e senhoritos.
Os problemas começaram com a guerrilha pública na famiglia. Um turco mais jovem queria substituir o Padrinho. Já não lhes respeitavam os assobios e os chitos como antigamente. Estava a falhar à generalizada e santa ganância. Os golpes não tinham a mesma eficácia. Não estavam a render o esperado, embora toda a famiglia bem se esforçasse em manipulações sofisticadas que não estavam a resultar tão bem como no passado recente. O dinheiro que lhes entrava em cascata nas suas contas bancárias, nos seus bolsos já não lhes satisfazia a desmedida cupidez. Eram tão felizes na candonga financeira, a falsificarem contabilidades, a fazer transacções fictícias entre o labirinto de empresas dominadas pela famiglia, a vender gato por lebre aos seus depositantes, investidores, crentes no espírito santo e agora só chatices…bagunças…
Até o governador do BdP, apesar da reputação da Famiglia, se deu ao luxo de não querer espíritos santos na administração do banco para lhes salvar o banco! Tudo bons rapazes que vão continuar a gozar com o muito de que se apropriaram sem produzir nada! O crime compensa !!!

 

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4- O CIRCO DO RISCO SISTÉMICO
Num país em que um ministro da saúde está a destruir o Serviço Nacional de Saúde sem se deter, mesmo quando põe em risco a vida dos portugueses, eis que surge essa inventiva e maravilhosa frase recuperada dos manuais de sanidade: o risco sistémico.
Aliás se existe área em que a finança é altamente criativa é na invenção da linguagem. Os gurus, mesmo os nobelizados. falham sistematicamente as previsões, enquanto inventam conceitos para baralhar e voltar a dar o mesmo. Algumas são verdadeiras pérolas. Engenharia financeira, um guarda-chuva de todas as especulações financeiras. Crescimento negativo para não dizer que está tudo a ir água abaixo. Imparidades, defaults, contabilidade criativa sei lá mais o quê, um teatro de vozes que alimenta a vigarice intelectual.
Uma das últimas, o risco sistémico. À pala do risco sistémico os estados têm sustentado a voracidade e a falência sucessiva do sistema financeiro. Como se o sistema financeiro fosse o motor do desenvolvimento económico. O coração insubstituível do sistema económico.
É a grande mentira!
Os mercados financeiros não produzem, nunca produziram nem nunca produzirão nada! É a economia real que o faz. Andar atrás do brilho da montagem russa dos mercados financeiros é um erro. A exuberância dos mercados financeiros é uma ficção. Limita-se, na melhor das hipóteses, a ser um reflexo da base real na qual assentam, da qual extraem a riqueza, sem produzirem nada. Especulam. Especulam sempre na margem do roubo legalizado e organizado. Ultrapassam essas porosas fronteiras. Geram bolhas, outra maravilha linguística, que rebentam de forma súbita, descoordenada, como estamos a assistir no BES.. Os efeitos vêm sempre em catadupa, com falências, desemprego massivo, redução de salários, de protecção social, de direitos fundamentais dos cidadãos. Sofrem os países mais pobres e com economias mais frágeis, como o nosso.
Os portugueses estão hoje bem mais pobres e desprotegidos e com uma economia muito menos capaz de responder do que há quatro anos. Os festejos que Passos Coelho, Portas e seus correligionários andam a fazer, é um tenebroso circo.
O povo nunca ganha quando os títulos ou as acções são transaccionados por valores muito superiores ao seu valor real. Ganham, com toda a certeza, os accionistas dos grupos económicos e financeiros cotados em bolsa, mas esse ganho não resulta da exploração das actividades concretas desses grupos.
A ganância e a loucura política que hoje dominam foram e são trágicas para milhões de pessoas. Há, a nível mundial, criminosas negociações, desenvolvido à socapa por governantes e tecnocratas ao serviço das grandes multinacionais, que não apenas procuram erodir ainda mais a regulação financeira, como transformar em meros produtos de mercado os recursos essenciais à vida das pessoas.
Este é o verdadeiro risco sistémico que se pretende iludir quando um bando que andou anos a banquetear-se lautamente é vítima da sua própria ganância. Do muito que ganharam e que por acaso infeliz, por um erro de cálculo se estampou.

Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal
(…) a primeira é que o mundo em que vivemos
é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes
(…) a segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério;
é isso que eles querem, que os levemos a sério
Albert Cossery, A Violência e o Escárnio
Edições Antígona 1999

Standard

portugal

Passos Coelho, mais uma vez, considera que a decisão do Tribunal Constitucional é incompreensível (inexplicável,estranha,inconcebível, inalcançável,singular,ininteligível, obscura, inextricável)*, mesmo uma adversidade( borrasca, contrariedade,contratempo, fatalidade, infortúnio,óbice)*.

Pois é a LEI, a CONSTITUIÇÃO são uma chatice para essa gente que governa fora da lei. Que, com contumácia, viola a LEI, que depois de a violar procuram contorná-la com mentiras. Lei que é um incómodo para a troika, para o FMI, para o capital financeiro e para as suas marionetas, como se ouve e lê quando se encontram, dão conselhos, impõem regras, fazem declarações.

BOM ALUNO ESTE É UM GOVERNO DE TRAPACEIROS FORA DA LEI! DE INVETERADOS BATOTEIROS!

SE NÃO TIVESSEM UM CÚMPLICE EM BELÉM JÁ TINHAM SIDO DEMITIDOS!

SE ESTIVESSEM NO FAROESTE ESTAVAM COBERTOS DE ALCATRÃO E PENAS! A SORTE DELES É A LEI QUE TANTO ODEIAM E TRIPUDIAM!

(*) dicionário Houaiss

Geral, História, Internacional, justiça, Política

Outros 27 de Janeiro

Num momento em que o perigo espreita, em que a Europa capitalista em crise volta a ressuscitar nacionalismos, em que o imperialismo continua a promover a guerra e a violência, subjugando os povos aos interesses económicos e financeiros dos «mercados», importa relembrar outros 27 de Janeiro.

Muito tem sido feito pelos intelectuais orgânicos do capitalismo triunfante para limpar ou, pelo menos, suavizar a imagem do nazi-fascismo, limitando-o à Alemanha nazi, considerando-o a obra de um louco, desvalorizando as suas origens e reduzindo a sua ideologia ao anti-semitismo.

Uma das muitas formas de branqueamento do nazi-fascismo é a sua comparação ao socialismo, utilizando a própria propaganda nazi sobre a União Soviética para reescrever a história, confundindo agressor e agredido, opressor e libertador, carrasco e vítima, vencido e vencedor.

No entanto, não há reescrita que possa omitir a heróica resistência do povo  Soviético, liderado pelo PCUS de Stáline e o seu Exército Vermelho e o papel decisivo que teve na libertação da humanidade da barbárie nazi-fascista.

Dai parecer-me fundamental continuar a manter viva a memória de outros 27 de Janeiro.

Em 27 de Janeiro de 1944, acaba cerco nazi a Leninegrado, a heróica resistência do povo soviético, com milhares de mortos, sofrendo com o frio, a fome, os combates, saí vitoriosa e abre caminho para que um ano depois, a 27 de Janeiro de 1945, o Exército Vermelho na sua ofensiva libertasse o campo de morte de Auschwitz, onde a Alemanha nazi procedia ao extermínio de judeus, ciganos, comunistas, democratas, homossexuais, deficientes.

Recordem-se os heróicos exemplos de resistência e firme combate pela liberdade e que todos os dias possam ser 27 de Janeiro, derrotando sempre a ideologia e a prática terrorista do ódio, do racismo, da opressão e da exploração.

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Cultura, Geral, Jazz, justiça, música, Política

Alabama, um hino contra o ódio

No dia que os norte-americanos dedicam a Martin Luther King e que tanto continua por fazer em matéria de direitos e igualdade, ouve-se “Alabama”, de John Coltrane, com McCoy Tyner (Piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria). Coltrane escreveu esta música em resposta ao ataque à bomba do KKK que, em 1963, matou quatro jovens raparigas na Igreja Baptista da 16th Street.

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História, justiça, PCP, Política

18 de Janeiro de 1934

 

Presos do 18 de Janeiro no Forte de Peniche

Presos do 18 de Janeiro no Forte de Peniche

A 18 de Janeiro de 1934, os trabalhadores portugueses levaram a cabo uma heróica Greve Geral contra a fascização dos sindicatos.

Na sequência da entrada em vigor da Constituição fascista de 1933, a ditadura procede à consolidação das suas estruturas jurídicas e sociais, no início do ano de 1934 é o Estatuto do Trabalho Nacional e Organização dos Sindicatos Nacionais que entra em vigor acabando com os sindicatos livres, com a contratação colectiva, com a liberdade de reunião e associação.

Face a estes avanços da ditadura, os trabalhadores portugueses e as suas estruturas de classe, respondem com uma jornada de luta que ficou na história do movimento operário e da resistência ao fascismo, uma greve geral com adesões significativas em todo o País, com particular destaque para Almada, Barreiro, Lisboa, Sines, Silves, Seixal e Setúbal, entre outros.

No entanto, foi na Marinha Grande que esta Greve Geral assumiu um carácter insurreccional, os trabalhadores ocuparam a estação de correios e o posto da GNR , paralisaram por completo as fábricas, respondendo de forma heróica aos avanços do fascismo.

O movimento grevista revolucionário de 18 de Janeiro foi derrotado, a ditadura desencadeou uma repressão brutal sobre os grevistas e os mais destacados dirigentes deste movimento, perseguidos, presos, torturados, deportados para as chamadas colónias penais, é deste movimento de surgem os presos que inauguram o campo de concentração do Tarrafal.

Nos dia que correm, conhecidas que são as ameaças existentes, os ataques ao movimento sindical, as campanhas contra as lutas dos trabalhadores, as pressões para limitar o direito à greve, os discursos anti-partidos e anti-parlamento, importa ter em conta as lições do 18 de Janeiro, esclarecer e mobilizar os trabalhadores para a defesa das suas liberdades e direitos, impedir que a história se repita.

Essa é a melhor homenagem que se pode prestar ao homens e mulheres que há 80 anos heroicamente resistiram.

Sobre o 18 de Janeiro de 1934 vale a pena ler 

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Costumes, economia, Geral, justiça, Política

PROMISCUIDADES

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Para se entreterem e se indignarem.

Este jogo já anda há algum tempo na “net”. Traça as ligações entre os grupos económicos e os políticos, recompensados pelo trabalho que fizeram enquanto membros do aparelho de Estado. De ministros a parlamentares, de assessores a administradores, directores nas empresas públicas, reguladores, etecetera,  enquanto não foram ou que ainda não foram privatizadas. Jogando percebe.se melhor as promiscuidades que  ao longo dos anos, correlegionários do PS, PSD e CDS teceram fazendo da política trampolim para se instalarem bem na vida,  vidinha. Nem todos foram tão sôfregos como os que agora estão  nas bocas do mundo, espreguiçando-se à sombra da lenta justiça, casos do BPN, BPP ou Face Oculta. Nem por isso menos eficazes no proveito próprio.

Esses partidos estão cada vez mais próximos e cada vez mais esvaziados de ideologia. fazem a apologia da democracia às boca cheia quanto mais a realidade partidária corresponde cada vez menos ao ideal democrático. Partidos que reduzem a sua acção na caça ao voto. É ver as promessas eleitorais e compará-las com as práticas governativas. Não são instrumentos ao serviço dos seus eleitores. São braços do aparelho de Estado onde representam interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais que medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral. Neste jogo, que o seu autor chamou Um Ecossistema Político-Empresarial / Portugal 1975-2013, vê-se a enorme e despudorada promiscuidade entre os políticos desses partidos e os grupos económicos.

Joguem, entretenham-se a perseguir essas baratas nada tontas.

SOBRETUDO INDIGNEM-SE!!!

DIA 1 DE FEVEREIRO LÁ ESTAREMOS EM MAIS UMA JORNADA DE DESBARATIZAÇÃO!

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Geral, justiça, Política

FORA DA LEI

ImageDepois do governo estar fazer diariamente, pressões descaradas sobre o Tribunal Constitucional para que feche os olhos à lei fundamental de Portugal, agora é Bruxelas a dar uma mão aos delinquentes que nos governam, para que o Tribunal Constitucional se coloque fora da lei, chamando ao exercício do cumprimento da lei pelo TC, o curioso e imaginativo nome de activismo político.

Para uma Comissão de malta que não é eleita, que é escolhida em função da sua subserviência aos interesses do grande capital, que legisla a torto e a direito, sobre tudo e sobre nada, que se escora num Tribunal para quem a propriedade privada é o seu deus ex-machina, vir em alta grita a terreiro fazer a apologia do não cumprimento da lei, e logo a lei onde se inscreve a soberania de um país ou que ainda resta dela, é a demonstração clara, inequívoca que estamos perante um grupo de bandidos sem lei, ladrões e facínoras de alto coturno, pistoleiros mercenários do grande capital que têm assento na Comissão Europeia e suas instâncias superiores, no BM, no BCE, no FMI, nos Governos de muitos países, o nosso governo destaca-se como bom aluno e bom executante, que torna os grandes padrinhos da mafia, Corleones, Don Vittos, Al Capones e tantos outros nuns meninos de coro. Comparativamente talvez sejam mesmo merecedores de serem canonizados.

Já numa recente reunião do FMI, os grandes banqueiros e os dirigentes de instituições financeiras transnacionais e nacionais, se tinham queixado dos entraves que a democracia colocava às actividades financeiras, ao funcionamento dos mercados etc. Recorrente foi a crítica aos debates parlamentares onde se perdia muito tempo ou se podia chumbar leis mais favoráveis a eles, evidentemente. Grãos de areia na máquina do grande capital..

Com esta declaração da Comissão Europeia fica demonstrado que estamos perante uma quadrilha, disposta a tudo para defender os seus verdadeiros patrões, de que eles são uns meros peões de brega que disparam mais rápido que a própria sombra para garantirem os tachos que lhes foram oferecidos, que têm que fazer para os merecer os chorudos ordenados que auferem. Tudo gente sem escrúpulos e sangue de barata.

Gente sem dignidade nem honra, o lixo mal cheiroso e não reciclável. que enche as suas cabeças exibe-se esplendorosamente decente, tal como os libertinos definiam a decência: a forma cínica de exibir as convenções (proclamadas e assinadas ou feitas em reuniões semi-secretas, todas elas acabando, porreiro pá, em declarações orgásticas e onanistas em louvor do dinheiro roubado ou que vão roubar a todos nós) as virtudes (a desumanidade do grande capital e dos mercados que ganham rios de dinheiro sem nada produzirem) e as leis (as leis dos mais fortes que as talham à medida de uma liberdade deletéria), para melhor praticar o deboche. (continuarem a roubar sem pudor quem trabalha ou que é pequeno ou médio empresários).

Olhando para essa gente temos o dever de nos lembrar do olhar que Robespierre lançava ao pescoço de Maria Antonieta. Temos o dever de ter a honra de nos livrarmos deles, de os denunciar na praça pública como o bando de criminosos fora da lei que de facto são.

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Ecologia, economia, Geral, justiça, Política

Caça aos Coelhos, de cá e de Lá!

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Mais um discurso, com alguns engasgos o que é natural o coelho não sabe do que fala ou sabe pouco do que fala, com vários truques rascas escondendo o que é visível  a olho nu para qualquer português dotado de  média inteligência, o que não é obviamente o caso do coelho nem do bobo frasquilho comentado apressado e de rabo entre as pernas a quem lhe dá o lugar de deputado mesmo fazendo as tristes figuras a que nos habituou. Ambos mentindo com todos os dentes que têm e já não têm.

Impostos disfarçados, aumento do desemprego para números imparáveis, aumento da dívida pública, retoma da economia adiada para as calendas, em suma a desgraça de um caminho que tem um objectivo claramente traçado pelo grande capital e de que estes palhacitos são actores de terceira ordem e que é muito simples de decifrar. Depois de andarem no casino da alta especulação financeira, perdendo milhões que os trabalhadores de todo o mundo andam a pagar, atacaram o mercado de trabalho precarizando-o. Tornando-o mais vulnerável  à ferocidade da exploração. Quando esse exército de mão de obra, melhor de pau para toda a obra, estiver instituído voltará a aparecer o capital para o investimento. Para voltar aos tempos do capitalismo selvagem, o seu grande sonho posto em movimento nos prostíbulos financeiros geridas por thatchers e reagans, as grandes prostitutas ao serviço do proxenetismo do neoliberalismo económico.

É o que está em marcha na Europa e não só! Será assim se o deixarmos. Se não apanharmos, de qualquer modo, os coelhos, gaspares & companhia, sacripantas nesta história malvada em que eles são as marionetas de serviço. Na realidade não têm nem gabarito nem cabeça para mais. Temos que por no olho da rua estas más empregadas de limpeza do grande capital. Dar-lhes um valente pontapé no cu, no seu pobre cu!

Um acto de sanidade mental e de ecologia política!

( Nota final: já viram que o rapaz tem todo o ar de ser um celta irlandês? da irlanda que o coelhito de aviário dava como exemplo)

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justiça

O polvo e outros moluscos

Vou dividir esta crónica em duas partes: o que sei e o que leio, vejo e ouço.

1. O que sei.

Gosto de polvo. Salada de polvo, arroz de polvo, polvo cozido com coentros e cebola, polvo guizado, filetes de polvo com arroz de feijão, polvo à lagareiro (peço desculpa mas já me está a crescer água na boca). Venha polvo, desde que esteja fresco, marcha. Vivo numa cidade adoptiva e adoptada que felizmente sabe fazer honras ao polvo  (ao polvo, ao choco e ao peixe assado no carvão, mas isso ficará para outras calendas).

2. O que leio, vejo e ouço

Das novas apresentadas, sei que um sem-abrigo dessa bela cidade do Porto, foi condenado a pagar 250€ de multa ou a fazer trabalho cívico ou a ir parar à prisão por ter roubado um polvo congelado e uma embalagem de shampô.

Estranha combinação essa de shampô e polvo. Seria um shampô amaciador? Todos sabemos que o polvo é rijo: não se deve primeiro congelar antes de cozinhar como é tradição? A ser assim tem  lógica ter furtado um shampô inteiro já que o polvo, para além da carola tem oito tentáculos e pode ser volumoso, portanto não chegava ter posto um pouco de shampô na mão, acção que talvez lhe reduzisse a pena para metade, mais o equivalente aos mililitros de shampô que a mão transportaria, que no entanto, seriam insuficientes para amaciar o polvo.

Aqui penso que o sem-abrigo pode ter cometido um erro por falta de conhecimentos culinários. Se era para lavar o polvo deveria ter subtraido um frasco de vinagre, já que este extrai facilmente aquela “nhanha” pegajosa que o polvo transporta e que devido à diferença de preço em relação ao shampô lhe poderia reduzir substancialmente a pena, digamos para 195€, mais de 20% de abatimento, o que para os tempos que correm, mesmo para quem não tem dinheiro … é dinheiro.

Quais seriam as suas motivações? Quereria ganhar um pouco de dinheiro com o shampô e comer o polvo? Mas então porque não roubou também os coentros, a cebola, as batatas, a água, o sal e a panela de pressão? Quereria vender o polvo para poder ganhar uns cêntimos para ter água quente para poder lavar o cabelo? Pensando bem, a quantidade de motivações possíveis para o acto cometido por esse sem-abrigo quase que igualam as possibilidades de combinações existentes para ganhar o totoloto.

Pelo que li, o autor deste tenebroso crime foi condenado a pagar 250€ de multa a uma qualquer superfície comercial que talvez até pague impostos noutro país ou a fazer trabalho comunitário ou a ir parar à prisão onde, bem vistas as coisas, pode talvez comer uma refeição de polvo, tomar banho regularmente, lavar os cabelos e até perfumar-se, quem sabe?

Mas –  porque é que existe sempre um mas nas histórias que envolvem a justiça em Portugal, a acreditar nos meios de comunicação social –  o sem- abrigo não foi localizado para poder pagar por esse horrendo crime que penalizou profundamente a um ponto nunca visto a sociedade portuguesa em geral e a cidade do Porto em particular.

Se não fosse a desgraça do(s) sem abrigo(s) poderiamos dizer que perante esta decisão da justiça estávamos em face de uma situação cómica, mas que, à boa maneira grega, é trágica.

Afinal nada de novo no extremo sudoeste da Europa se pensarmos que outros polvos de águas mais profundas e que, esses sim, causam danos graves à sociedade, continuam impunes mesmo depois de serem condenados.

Esses, graças aos inúmeros 250€  que podem dispôr para levar a justiça a prolongar-se no tempo de forma a caducar os processos em que estão envolvidos, sabedores dos expedientes  processuais para poderem escapar ilesos mas não inocentes, apenas nos fazem crer a nós, cidadãos comuns, que os tribunais não existem para averiguar a verdade mas sim para condenarem quem estão à vontade para condenar e absolverem, nem que seja pela prescrição dos processos, quem sabem que devem absolver.

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justiça, Política

Era só o que nos faltava…

Foto tirada daqui - http://goo.gl/ovUwn

A condenação, hoje, a penas suspensas, de dois dos sete detidos na manifestação de 24 de Novembro, dia de Greve Geral, em frente à Assembleia da República é mais um poderoso sinal do descalabro em que está o país, traduzido, neste caso, numa profunda crise do exercício justo da autoridade.

Num país onde vendedores de droga são presentes a tribunal e imediatamente libertados, em que agressores saem das salas da justiça mais depressa que as autoridades, em que Isaltinos saltam de recurso em recurso para se safarem à prisão e Valentins se safam com ajudas obscuras, em que líderes de clubes de futebol instigam sistematicamente à violência, a condenação destes dois participantes na manifestação, porque terão abanado umas grades e ofendido uns polícias é um insulto à inteligência, uma ofensa à democracia e ao povo português.

São abundantes os relatos e as imagens que demonstram a responsabilidade nos distúrbios de um punhado de agentes policiais à paisana no papel de provocadores, numa acção que custa a crer não tenha resultado de uma orientação directa do Governo e do Ministro da Administração Interna.

Daria um enorme jeito que os distúrbios tivessem atingido maior dimensão, mas tal não aconteceu. Por isso, foi necessário forçar um simulacro de violência, o que, aliás, nem é novo. Novidade é a candura com que o Ministro reagiu aos acontecimentos. Novidade é que ignorem que as pessoas não são parvas e saibam distinguir quem está para provocar e quem está para, legítima e democraticamente, manifestar-se, ainda que em tom mais elevado.

Com o PSD no Governo concretiza-se, finalmente, a aspiração da antiga líder Ferreira Leite de suspensão da democracia. Só não sabemos se temporária ou definitiva.

Já tínhamos perdido uma enorme fatia dessa democracia, por que tanto lutámos, com o Memorando de “Entendimento” assinado com os agiotas da Troyka; preparamo-nos para, muito provavelmente, aceitar um governo económico europeu, no qual nada poderemos mandar; agora, temos os tribunais a sancionar a actuação provocadora da PSP, que, aliás, está bem documentada em variadíssimas imagens que circulam pela Internet.

A técnica é velha e está também muito bem documentada noutros países. Veja-se este video publicado no Youtube a propósito de uma manifestação em Barcelona e a forma como polícias disfarçados de manifestantes tentam gerar um clima de violência. É preciso ver até ao fim, porque a evidência de que são mesmo polícias vem mesmo no fim.

Nos acontecimentos de Lisboa também há imagens dos agentes provocadores a atacar as grades da polícia e, depois, a espancar um jovem. Curiosamente, os polícias em Lisboa e em Barcelona têm as mesmas atitudes, vestem da mesma maneira… Só não disfarçam o cabelo curtinho e a forte compleição física.

A polícia é um elemento fundamental de um Estado de direito democrático que deve ser valorizado e dignificado. Eles, tal como nós, sentem a iniquidade e o desequilíbrio destas políticas suicidas e, tal como nós, protestam e manifestam-se. Estão, naturalmente, sujeitos a um regime de disciplina e hierarquia que os obriga a colaborar com decisões menos justas. Esta não é uma declaração desculpablizadora, mas sim uma constatação de facto, assim como é uma constatação afirmar que o Governo, ao empurrar a PSP para isto, prestou um péssimo serviço às forças da autoridade, manipulando-as de forma vergonhosa.

Querem fazer de nós um povo violento, que provoca distúrbios nas manifestações pacíficas. Estão com dificuldades em alcançar esse objectivo, mas assim ainda se arriscam a conseguir.

Era só o que nos faltava…

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justiça

O Pagode da Justiça!

Isaltino Morais está mais que condenado pelos crimes que cometeu e que conseguiram ser provados, o que não foi tarefa fácil. A partir da condenação, recursos somam-se a recursos seguindo um programa estabelecido para esgotar o calendário até os crimes prescreverem e evitarem a prisão. Quer dizer, quando o último recurso possível for indeferido, confirmando os crimes que conseguiram ser provados, esses mesmos crimes prescreveram. Por mais voltas que se dê, isto é de uma irracionalidade que não dá para entender.

Ninguém de bom senso percebe como é possível o calendário para a prescrição não ficar suspenso enquanto os recursos, sejam da defesa ou da acusação, estão a ser avaliados. Tornando os recursos um instrumento jurídico cuja única finalidade parece ser deixar correr a areia na ampulheta, até se esgotar.
Ninguém percebe como é possível e aceitável aquela enormidade de recursos. Como não se percebe como é possível arrolar números astronómicos de testemunhas para um julgamento se prolongar anos e anos. Como já não se percebe que justiça se pratica, mesmo sabendo que justiça e direito são coisas distintas e que o direito é sempre o direito do mais forte à liberdade.
O que o comum dos mortais vê é um gajo cheio de fome que roube uns pães ser condenado e preso a alta velocidade. Um marmanjo que se banqueteia com o dinheiro dos outros, que chafurda na corrupção ou mesmo que cometa crimes de outra natureza mas igualmente graves, se pagar bem a advogados especialistas em manobras jurídicas acaba por se safar. Ou tem uma enorme probabilidade de se safar com danos mínimos. É filme a que assistimos com um travo de impotência . É o que tem acontecido em todos os casos mais mediáticos. É o que provavelmente irá acontecer com BPN, BPP, Face Oculta e outros que andam a saltar ao pé-coxinho, de recurso em recurso. Continuar a ler

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