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CONTRA OS POPULISMOS QUE METERAM OS PÉS NA PORTA DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Discurso Eleitoral cartoon de João Abel Manta

Pela primeira vez três partidos, Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, meteram o pé na porta da Assembleia da República (AR), colocando um deputado cada e o outro, o PAN, que já tinha metido o pé na porta nas eleições anteriores elegendo um deputado, viu aumentada a sua representação para quatro deputados. A direita viu a sua presença na AR ampliada em número de partidos embora com menos 18 deputados do que tinha em 2015. As esquerdas, embora aumentassem o número de deputados em relação a 2015, mais dezasseis deputados, perderam quase 50 mil votantes, o que deve preocupar. Nestas contas direitas/esquerdas não entra o PAN que afirma não ser de direita nem de esquerda. Uma espécie de partido sem eira nem beira, de um oportunismo sem peias.

Embora o espaço da direita se tenha reduzido o seu futuro não se advinha adverso. A comunicação social já anda a bolinar a seu favor, veja-se o tempo concedido sobretudo à Iniciativa Liberal e a lavagem do Chega classificado de extrema-direita populista, uma forma simplista de mascarar a readaptação do fascismo de que é herdeiro, ao contexto actual em nova versão.

Igualmente a Iniciativa Liberal, que elege um deputado na primeira vez que concorre, é travestida de liberal quando de liberal nada tem. É a grande corrupção intelectual por não se assumirem o que realmente são, ultra-liberais em linha com Hayek e os Chicago Boys que renegam os liberais, de Stuart Mill a Keynes e seus continuadores actuais, que defendem a educação pública, universal e gratuita, impostos progressivos, a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros, um Estado interventivo no combate à sucessivas crises do capitalismo e que, nos dias de hoje, são as políticas dos partidos socialistas e sociais-democratas que as praticam com enormes e devastadoras concessões ao capital, uma das mais graves é terem abdicado de moeda própria, deixando o financiamento do Estado nas mãos de especuladores internacionais. Essa gente do IL tem o desplante, a incomensurável lata de pregarem um pseudo-liberalismo económico contra o excesso de intervencionismo do Estado, quando nas últimas décadas se privatizou tudo o que havia para privatizar, excepto a Caixa Geral de Depósitos, o serviço público da comunicação social, onde ocupam, directa e indirectamente, um espaço desmesurado em comparação com a esquerda, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação que paulatinamente tem sido entregue aos privados. É esse pouco que ainda resiste aos ataques dos ultra-liberais que agora está na sua mira.

Sem uma ruga de vergonha, coisa que não sabem o que é, fingem que a liberalização do sistema financeiro e a livre circulação de capitais não são os responsáveis pelo exponencial aumento do endividamento público e privado e que as leis do trabalho que têm facilitado os despedimentos, os horários flexíveis, a precarização não estão suficientemente desregulamentadas porque o que desejam é voltar à barbárie, aos mitos neoliberais do séc. XIX. A política fiscal que propõem é um ascensor para aumentar as desigualdades. A meritocracia que usam como brilhante emblema na lapela é a adulteração do verdadeiro mérito para favorecer os de sempre.

Os próceres da Iniciativa Liberal proclamam – a sua campanha eleitoral é um relambório de manhosices, um manual completo de manipulação eleitoral – que querem colocar Portugal a crescer. A realidade é que as ideias que defendem são exactamente as que têm sido postas em prática desde a década de 80 e que nos fazem crescer de forma frágil. Que por causa delas Portugal é um dos países mais pobres da Europa, onde as desigualdades sociais são das mais brutais. São essas evidências que negam com uma desfaçatez, uma insolência todo-o-terreno. O perigo dos próximos anos é terem uma desencabulada voz na AR para ampliar a voz que já têm numa comunicação social ao serviço da plutocracia e também no chamado serviço público.

O Chega, carinhosamente apelidado de extrema-direita populista, diz-se anti-sistema, o que dá imenso jeito num país em que o descrédito da política e dos políticos, o desencantamento com a política que os media, produzindo e propondo uma visão cínica do mundo político nas notícias, na selecção das notícias, nas perguntas das entrevistas, nos comentários políticos, instalam com contumácia preparando e adubando o terreno para as simplificações demagógicas, que foi bem explorado também pelo IL e que também já tinha sido e continua ser explorado pelo PAN. É esse o terreno que o Chega vindima sem descanso, que o fez obter os resultados eleitorais que obteve. Acresce a notoriedade pública do seu líder iniciada em Loures pelo lugar que Passos Coelho lhe outorgou, consolidada pelo comentarismo desportivo, leia-se futebol, que é um campo fértil para se alcandorarem na política, lembrem-se de Santana Lopes e Fernando Seara, entre outros.

O PAN cavalga sem freio a causa ambiental. Cavalga mas não sai da pista de corrida da lavagem verde que o capitalismo iniciou e que teve e tem em Al Gore um dos rostos mais mediáticos em que agora todos, mesmo Christine Lagarde e Vítor Gaspar, se empenham em apregoar. Bem sabemos que eles sempre foram adeptos do verde, convictos de que verde mesmo verde é a cor do dinheiro que continua a dominar o sistema financeiro internacional.

Contra esse ambientalismo neoliberal tem sido lembrado recorrentemente e com razão a frase de Chico Mendes, sindicalista-ambientalista brasileiro assassinado em 1988, de que «ambientalismo sem luta de classes é jardinagem». Depois do discurso pungente de Greta Thunberg na ONU,que tem sido usado com desonra pela lavandaria ambiental e destratado grosseiramente pelos arautos neoliberais, nas acções de massas das Sexta-Feiras pelo Ambiente surgiu com força a ideia nuclear de que o capitalismo não é verde, de que a luta ecológica tem de colocar a questão da superação do capitalismo colocada de forma clara e sintética por João Rodrigues no blogue Ladrões de Bicicletas.

Para o PAN essa não é a equação, a jardinagem é o que está a dar, a vender bem na Feira da Ladra da ecologia. A ver vamos se os vigésimos premiados continuam sem prazo de validade a render votos.

Os desafios futuros para a esquerda, contra a tralha neoliberal e os populismos em marcha, não são fáceis. É urgente uma nova política económica em que o Estado agarre as alavancas do investimento e da banca para reduzir as desigualdades sociais, combater o desemprego, valorizar o trabalho em vez do capital, colocar em prática uma nova ordem ambiental, e essa não é agenda de alguma esquerda que só muito empurrada faz algumas, poucas, cedências.

Há que traduzir essa urgência em votos – uma das frentes de luta – o que com o panorama comunicacional manipulador existente vai exigir esforços acrescidos. Há que lutar, contra todas as evidências, sabendo de ciência certa que a razão está do lado da esquerda mesmo, apesar e contra as conjunturas, o que não é garante de nenhuma certeza mas vitamina a luta.

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Celebrar Jessye Norman em Dia de Eleições

Hoje, dia de votar e vou votar bem embora com algum alarme pelos resultados que ao fim do dia se saberão. Alarme com as votações que alguns partidos poderão alcançar obtendo-as com os populismos mais rascas, com a mão sempre no gatilho das fraudes políticas e intelectuais disparadas a torto e a direito, a exploração sem freio do que está a dar vendendo vigésimos premiados em directo e on-line com incursões pelas ruas ou ruminando vitualhas suspeitas de contaminações pós-modernas. Para não haver margem para dúvidas, se é que ainda as havia, refiro-me sobretudo ao PAN, embora esteja bem acompanhado. Alarme pelo que isto evidencia de como a estupidez adubada pelo marketing facilmente explora a ignorância e a desinformação que a comunicação social com contumácia propala, confortada pelo adormecimento generalizado que os programas televisivos ditos de divertimento expandem, abrindo caminho aos pan’s. Alarme por esta ser uma realidade bem evidente que, no estado actual do panorama informativo e das redes sociais, obriga a um árduo combate. Além das armas serem desiguais, a estupidez é sempre mais facilmente triunfante porque como Musil escreveu no Homem sem Qualidades: ”se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combate-la”.

Antes de ir votar estive a ouvir Jessye Norman, essa extraordinária soprano que morreu na quarta-feira, dia 30. Tinha um timbre riquíssimo e uma excepcional amplitude de voz que a faziam conseguir os registos de meio-soprano e contralto, o que é raro. Estive a ouvir não uma das excelentes interpretações que a notabilizaram no universo da música sinfónica, bem expressos na sua imensa discografia.

Mencionem-se Ariadne, Ariadne de Naxos / Richard Strauss; Cassandra, As Troianas / Berlioz; Sieglinde, As Valquírias / Wagner; Dido, Dido e Eneias / Purcell; Alceste / Alceste / Gluck; Armida, Armida / Haydn; Judith, Castelo do Barba Azul / Bartok. Uma enumeração rápida para sublinhar a sua versatibilidade. Refira-se que Jessye Norman apesar do seu notável percurso na ópera é nos lieds que tem o seu terreno de eleição. Entre as muitas e magníficas interpretações das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss e dos Ruckert Lieder de Mahler as de Jessye Norman não podem são estar ausentes de alguma estante.

Não foi nenhuma dessas gravações que fui ouvir. Fui ouvi-la num cd duplo intitulado Roots:My Life, My Song em que ela diz que fez uma selecção das “páginas que fazem parte do meu universo pessoal e que permitem aos meus pares músicos e a mim-própria explorar e desenvolver a nossa própria língua musical, rendendo homenagem às figuras tutelares que criaram esta música que celebramos e amamos. Um caminho que nos conduz dos tambores de África até ao Novo Mundo.” São vinte e duas canções, introduzidas por uma evocação dos tambores de África, que nos deslumbram e que ouvimos como nunca as tínhamos ouvido.

Enquanto a ouvia lembrei-me de uma saborosa história que o meu sempre bem lembrado amigo Bartolomeu Cid dos Santos me contou com o humor que o caracterizava, não sei quem lha teria relatado. Jessye Norman vivia num dos bairros mais chiques de Londres de casas dos séculos XVIII e XIX recuperadas em luxuosos apartamentos a que se acede por ruas discretas, habitadas por gente de grandes posses económicas. Era esse bairro de vez em quando assaltado por uma gritaria que os incomodava e sobressaltava. Alguém seu vizinho, pela voz do sexo feminino, dava durante largos períodos de tempo, normalmente pela manhã, uns guinchos inacreditáveis que até poderiam pressupor cenas de violência doméstica ou exercícios sado-masoquistas.

Num bairro com aquele estatuto, os silêncios que marcam os compassos das distâncias sociais eram de quando em quando estraçalhados por um dilúvio de berros que deixava os seus habitantes emudecidos, paralisados de estupefacção. Até que um dia o mistério se resolveu: a senhora que gritava desinquietando todo o bairro era Jessye Norman que quando estacionava na sua casa londrina ensaiava a sua fabulosa voz.

Ouvido Roots, agora vou votar, apelando ao voto para que os populistas sejam menorizados, evitar, entre outros males, que o PS tenha a tentação de tirar a chave da fechadura da gaveta onde o seu o pai fundador meteu o socialismo.

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Venezuela e Oportunismos de Pacotilha

A eurodeputada Marisa Matias denuncia os oportunismos de última hora do PSD e do CDS em relação à Venezuela e faz uma revelação bombástica : “Nós, no Bloco de Esquerda, não estamos ao lado de Trump nem de Bolsonaro em relação à Venezuela. No Bloco de Esquerda estamos ao lado de Guterres e das Nações Unidas”. A coordenadora do BE diz que «a posição do Governo português de reconhecer Guaidó não tem precedente e viola o direito internacional» para logo a seguir exigir «eleições livres» o que é uma estranhíssima afirmação pressupondo que as eleições que até aqui se realizaram na Venezuela não têm sido livres nem sujeitas a apertada supervisão internacional. Só nas últimas eleições é que a ONU e a UE, sem o justificarem, se escusaram a participar no restante grupo de observadores internacionais, o que entreabriu portas à golpada em curso. É o BE a denunciar o oportunismo dos outros enquanto faz público strip-tease do seu oportunismo. Deviam saber, até devem saber mas passam ao lado, que Guaidó, também as exige embora adiantando que é necessário depurar as instituições que supervisionam eleições na Venezuela, os cadernos eleitorais e mais um rol de exigências de um programa de claras florescências macartistas. No horizonte o desejo de eleições como as descaradamente fraudulentas nas Honduras, as manipuladas no Paraguai, Colômbia, etc. O BE não estará evidentemente de acordo com essas «eleições livres» de Guaidó mas, com as suas tergiversações, percorre um perigoso caminho paralelo.

Marisa Matias alinha ao lado de António Guterres, ainda sem ter a oportunidade de lhe distribuir uma ração de beijos como fez com Tsipras, para saudar e dar cobertura à sua sinuosa manobra diplomática quando, a par de Federica Mogherini, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, se recusou, sem explicar os motivos, a enviar delegações que dessem assistência e supervisionassem as eleições em que Nicolás Maduro foi eleito com 67,4% dos votos expressos, tendo-se registado uma abstenção de 54%, a mais alta de sempre em eleições venezuelanas. Finge que não sabe que Maduro foi reeleito usando o mesmo sistema eleitoral com o qual Guaidó se tornou deputado, que havia 3 candidatos da oposição, os outros anunciados desistiram à última hora numa manobra comandada à distância por Washington para desacreditar essa eleição rufando desde o primeiro momento essa depreciação nos tambores dos media mercenários. Omite que os outros candidatos reuniram 33% dos votos e seguiram as regras acordadas na mesa de diálogo realizada na República Dominicana entre o governo venezuelano e a oposição, com o ex-presidente espanhol Zapatero como mediador, que também participou como observador nas eleições presidenciais. Nada disso lhe interessa, tal como não interessa que, na realidade, António Guterres, sancionando essa ausência, tenha dado antecipada cobertura, do alto do seu altar de secretário-geral da ONU, ao Grupo de Lima, Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru, Santa Lúcia e México (antes das eleições que colocaram Lopez Obrador na presidência e que se hoje se recusa a apoiar o golpe de estado de Juan Guaidó), que não reconheceram os resultados das eleições presidenciais devido à percepção de falta de transparência”, o que é irónico olhando para aquele painel de países. Foi com essa encenação e o implícito e nada inocente beneplácito de Guterres e Mogherini que se preparou o golpe de estado em curso, com que a deputada euro-europeia e o BE alinham por mais ginásticas façam.

Marisa Matias e o BE bem podiam ter evitado o embaraço em que se embrulharam. O oportunismo do BE de nem Maduro nem Guaidó, atirando para debaixo do tapete que é um é presidente eleito e outro o actor de um golpe de estado, está em compasso com a desinformação e manipulação mediática que, desde o princípio da revolução bolivariana de Chavez, tem sido uma das principais armas de combate do imperialismo. Isto apesar de todas as controvérsias que envolvem o processo venezuelano, não isentas dos erros que conduziram ao impasse actual. O que é inadmissível é que o BE faça umas vagas condenações das brutais agressões e boicotes que têm sido feitas à Venezuela conduzindo à crise económica, impulsionada por ordens executivas de Barack Obama e Donald Trump ao declarar o país como perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos. Nem digam nada ou digam pouco sobre as sanções que têm impedido a compra de alimentos e medicamentos, nem sobre o confisco de bens venezuelanos nos EUA e países súbditos das suas estratégias geopolíticas. Sobre isso o BE quase que é surdo, cego e mudo.

Não apoiam nem Maduro nem Guaidó puxando os galões de democratas todo o terreno, denunciam uma deriva autocrática, insinuam que na Venezuela não há liberdade de expressão. O que não se sabe é que raio de democracia e liberdade de expressão defendem quando a Venezuela tem sido o país com mais disputas eleitorais em todo o hemisfério da América do Sul nas últimas décadas. Desde 1998, foram realizadas 5 eleições presidenciais, 4 eleições parlamentares, 6 eleições regionais, 4 eleições municipais, 4 referendos constitucionais e uma consulta nacional. 23 eleições em 20 anos. Todos com o mesmo sistema eleitoral, considerado o mais seguro do mundo pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, todas sob observação internacional plural, excepto a última por motivos óbvios a atapetar o caminho para a golpada. Todos os dias olham para os ecrãs televisivos e deparam-se com Guaidó – veja-se a peça de propaganda montada pelo serviço público da televisão nacional numa mascarada de entrevista ao putativo presidente que deve ter feito ficar Steve Bannon roxo de inveja – dando declarações rodeado de microfones de meios de comunicação nacionais e internacionais, devem considerar que isso não demonstra que haja liberdade. Se calhar, hipocritamente, consideram que Leopoldo López, líder do mesmo partido de Guaidó, é um preso político olvidando que foi condenado por ser o autor intelectual de “La salida”, que promoveu as “guarimbas” de 2014, com saldo de 43 mortos e centenas de pessoas feridas.

Devem-se comover com os milhões de venezuelanos que, empurrados por uma crise económica imposta pelo imperialismo norte-americano e seus títeres, se refugiam nos países vizinhos, esquecendo-se que, pelos números da ONU, os venezuelanos que fogem à crise são metade dos hondurenhos que deambulam pelos territórios do continente americano, o que não diminui a gravidade da crise que se vive na Venezuela mas contextualiza-a em relação à miséria que grassa no continente americano. Outra probabilidade é considerarem que os direitos humanos são violados na Venezuela nos confrontos com a polícia. Se atendessem aos números verificavam que, pelos últimos números de 2017: 131 pessoas mortas, 13 das quais foram baleadas pelas forças de segurança (compostas por 40 membros presos e processados); 9 membros da polícia e da Guarda Nacional Bolivariana mortos; 5 pessoas queimadas vivas ou linchadas pela oposição. O restante dos mortos foram-no principalmente enquanto manipulavam explosivos ou tentavam contornar as barricadas da oposição. Há a violência do banditismo na Venezuela, roubos sequestros e equiparáveis, que não é maior nem menor que noutros países da América do Sul. Também isso serve para manipular a informação e apresentar a Venezuela como o país mais violento dessa região, mesmo que o Brasil ou a Colombia estatisticamente a ultrapassem. Os números, a realidade pouco lhes interessam. Interessam as imagens desde que não tenham legendas. Fica-lhes na cabeça aquele jovem em chamas, um opositor ao regime que involuntariamente se imolou pelo fogo quando pretendia atear o fogo aos bolivarianos. Horror, horror, tapam os olhos para não o identificarem e assim a violência torna-se um valor abstracto.

O que o preocupa o BE na Venezuela não é o drama que aquele povo vive por imposições externas, nem os direitos humanos, nem a ausência de eleições livres, etc., etc. O que será? Arriscamos uma hipótese: o relaxe de lutas fracturantes!!! Deve ser isso! No meio daquele caos, daqueles dramas quotidianos, dos boicotes e sabotagens o Partido Socialista Unido da Venezuela não dá a devida atenção às lutas fracturantes, um crime lesa liberdades que o BE não perdoa.

Tanta emoção, tanta comoção empurra-as para o equilibrismo oportunista de Guterres. “Nós no Bloco não estamos ao lado de Trump nem de Bolsonaro” pois não, era o que mais faltava, mas alinham com os seus desejos. Andam a vender chocolates embrulhados em papel de prata que é de estanho, sentam-se à mesa com o beato Guterres travestido de Pilatos que, da forma sorna que é o seu selo, apela ao “respeito pela lei e pelos direitos humanos” pedindo uma investigação “independente e transparente” aos casos de violência nos protestos de quarta-feira, escusando-se a falar da legitimidade de Nicolás Maduro e da declaração de Juan Guaidó proclamando-se presidente interino, atirando para dentro do armário o esqueleto da ONU, a seu mando mas cumprindo os desejos de Bolton, Pompeo, Trump & Companhia, se ter excluído de observar as últimas eleições presidenciais para abrir a porta ao actual golpe de estado. Nada sobre os boicotes. Nada sobre os pacotes de sanções. Nada sobre o saque aos bens da Venezuela. Um comunicado redigido com água benta de que algumas gotas foram recolhidas sofregamente pelo BE para aspergir o seu comportamento errático a tentar retirar dividendos das circunstâncias. No mais fundo das mais fundas gavetas do excelentíssimo secretário-geral repousa em coma profundo, o BE humanitariamente não o desperta, o relatório de Alfred-Maurice de Zayas, especialista independente que a ONU enviou em 2017 à Venezuela, que afirmava que as medidas coercivas unilaterais impostas pelos governos dos Estados Unidos (EUA), Canadá e a União Europeia (UE) afectaram o desenvolvimento da economia venezuelana, já que agravaram a escassez de remédios e a distribuição de alimentos. Descarta a tese da “crise humanitária”, indicando que o que existe é uma crise económica que não pode ser comparada com os casos da Faixa de Gaza, Iémene, Líbia, Iraque, Haiti, Mali, Sudão, Somália ou Myanmar. Considera que as sanções económicas são comparáveis com os cercos praticados contra as cidades medievais com a intenção de obrigá-las a render-se, que atualmente buscam submeter países soberanos e que o bloqueio económico, aplicado no século XXI, está acompanhado de ações de manipulação da opinião pública através de notícias falsas e relações públicas agressivas, para desacreditar determinados governos. A “ajuda humanitária” , cavalo de batalha de Gauidó espaldado pelos mercenários da comunicação social, em lugar de destaque o enviado especial do serviço público da RTP, é uma das manobras mais miseráveis, cínicas e hipócritas do império norte-americano e seus sequazes que, enquanto garrotam com sanções e boicotes a Venezuela, que já custaram 30 mil milhões de dólares aos cofres venezuelanos e promovem as carências em bens alimentares e medicamentos, enviam em saquetas uma percentagem mínima do que já sacaram.

Marisa Matias e o BE também nada disseram ou pouco dizem sobre o terrorismo estadunidense que, não fora o apoio popular ao governo bolivariano e o de muitas nações que se demarcaram e condenaram os EUA só apoiado pelo rebanho de países suas marionetas entre os quais está Portugal, o interino Guaidó, teria, directamente ou pelas armas dos para-militares e dos exércitos colombianos e brasileiros, passado a definitivo, dando início aos massacres e perseguições e à aplicação desenfreada do programa de choque neoliberal há muito agendado. É claramente insuficiente, mesmo cobarde afirmar-se que não se está com Trump ou Bolsonaro e depois pintar com meias e cinzentas tintas o que de facto está a acontecer na Venezuela.

O povo venezuelano vive um imenso sofrimento por erros políticos internos graves por parte do governo bolivariano, por uma extensa e brutal pressão externa, por um embargo que só se justifica por ser um país que tem das maiores reservas mundiais de petróleo. É isso que explica e justifica esta obsessão por uma mudança de regime, patrocinada directamente pelos EUA e suas marionetas, sustentada pelas atitudes até há pouco dúbias das chamadas democracias e que agora se chegam à frente para ver se não se atrasam numa eventual partilha que seguirá ao saque, se o conseguirem. A posição assumida pelo governo português reconhecendo Guaidó, obedecendo a Mike Pompeo e dando respaldo ao seu partido de extrema-direita e ao golpe de estado em curso, pela voz do maquiavel da feira de vandoma que se senta nas Necessidades, envergonha-nos. Mais nos envergonha por se saber que a Europa já esteve várias vezes activa nas negociações entre governo e oposição, negociações que fracassaram sempre por pressão dos EUA.

O problema central da Venezuela é continuar a ser independente e soberana, o que intolerável para Trump como já o era para Obama. O que está a ocorrer é um processo de afundamento da sua economia para impor uma mudança de governo e submeter o país a uma alteração sócio-económica pela cartilha dos princípios neoliberais. Que Santos Silva alinhe com esses objectivos nada que surpreenda, pensa pela cartilha que lhe colocam á frente e nunca arriscaria uma palmatoadas do Pompeo,

só seria estranho que PSD, CDS, muito do PS não lhe dessem conforto. Tem no oportunismo do BE um aliado que estando no mesmo palco se quer apresentar distinto. Que alinha sem alinhar nessa agenda que objectivamente subscreve, como já fez em muitas outras ocasiões, que mal disfarça com uma ginástica de radicalismos de fachada e piruetas canhestras que coloram aquela manta de retalhos.

Há que estar ao lado do povo da Venezuela. Há que inequivocamente condenar o boicote e as sanções que estrangulam a economia venezuelana, a causa principal da brutal crise que o povo tem vindo a suportar. Referir o estado caótico da economia sem apontar ao boicote humanitariamente condenável é de um cinismo e uma hipocrisia intoleráveis. A Venezuela vive uma grande depressão económica, com uma enorme degradação dos serviços públicos. Há que não esconder que parte dessa situação deriva de erros e equívocos do governo de Maduro, que agravaram alguns que já vinham de Chavez, porque não houve mudanças significativas na estrutura económica do país que não se libertou da quase total dependência do petróleo, sujeitando-se aos ciclos da economia internacional. Porque prosseguiu um rumo ziguezagueante e algo confuso, de compromissos e confrontos com políticas capitalistas o que acaba por dificultar a sua luta assumidamente anti-imperialista e contra o golpismo da burguesia que sempre beneficiou com a exclusividade dos recursos do petróleo, que os governos chavistas redistribuíram pelos mais pobres. Mesmo que esses erros e equívocos não sejam a parte substancial da crise, não devem ser subestimados nem escondidos atrás do biombo do criminoso boicote conduzido pelos EUA, para que a Venezuela os ultrapasse e sobreviva num contexto regionalmente desfavorável e a Revolução Bolivariana prossiga corrigindo muitos dos seus desacertos.

Há que encontrar o mais rapidamente possível uma saída para a crise garantindo a continuidade da Revolução Bolivariana. É um dever cívico, político e de cidadania apoiá-la sem margem para dúvidas, por maiores ou menores que sejam as críticas que se façam, sem embarcar em oportunismos de pacotilha traduzidos em declarações simbólicas em que muitas esquerdas se enredam para matizar a sua deriva ideológica e a sua impotência política o que é insuportável e injustificável quando a Venezuela está na iminência da guerra civil e do caos total.

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A FRANÇA ESTÁ A ARDER

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A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

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A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

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Totalitarismos Democráticos

 

BOLSA

Num mundo ligeiro em que a espessura do pensamento é mais fina que uma folha de papel de arroz, a política um jogo que se quer viciado ao serviço dos grandes interesses económico-financeiros, a comunicação social a voz dos plutocratas seus donos que reproduzem com maior ou menor talento, o controlo de opinião feito por um plâncton de idiotas úteis, alguns inteligentes,  cada cor seu paladar em que o paladar pouco se altera e a cor dominante é o cinzento, multiplica-se a invenção de frases coloridas como bolas de sabão para simular que se vive num mundo muito variado que de facto é composto de poucas mudanças.

Na economia as crises estruturais não são radiografadas. Tudo se escoa pelos sumidouros dos activos tóxicos, dos remédios, bancos bons e bancos maus e por aí fora, numa correria desordenada de frases feitas onde se encontram verdadeiras perolas como aquela do crescimento negativo.

Na política a cada esquina que se dobra tropeça-se no Brexit, no TINA (There Is No Alternative), nas lutas fracturantes, nos efeitos colaterais etc etc para que tudo pareça mudar para tudo continuar na mesma. Eleva-se à categoria de pensamento o thatcherismo, o reganismo, o blairismo como se tudo isso não fossem papeis amarrotados no caixote de lixo da história.

Constrói-se uma realidade de frases feitas que quer impor como realidade o fim da história, o fim da ideologia, o fim do mundo porque para eles não há outro mundo para lá deste. É um processo de pensamento minguante, de retrocesso social, de infantilização da política com um objectivo claro: não ser sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade outra. É o totalitarismo democrático imposto por uma ditadura de medíocres que manipula o presente para manter as rédeas do passado e do futuro nas mãos da plutocracia. Razão tinha Georges Orwell quando lucidamente denunciou que para se ser totalitário não é necessário viver numa sociedade ditatorial porque “quem controla o passado dirige o futuro e quem dirige o futuro controla o passado”.

Deve-se reconhecer que a direita vive um momento de vitória ideológica apesar das vitórias políticas da esquerda. Há que lutar todos os dias contra essa factualidade, mesmo quando vamos entrar no que eles chamam de silly season, como se as lutas sociais e políticas amolecessem com o calor e fossem de férias. Há que fazer entrar pela janela a real realidade que eles atiram com contumácia porta fora.

(editorial do Jornal A Voz do Operário/ Julho,Agosto 2016)

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A Austeridade da Geringonça

homer simpson

Vem aí a austeridade!

Vão aumentar os impostos para os carros de maior cilindrada e mais poluentes. Logo agora que estava hesitante entre comprar um Porsche ou um Ferrari, Um automóvel vulgar, nada de Bugatti’s Veron. E esta gente vai obrigar a contentar-me com um Jaguar ou coisa parecida. Não é justo!

Também vão aumentar os impostos às empresas que trabalham por cá mas têm sedes no estrangeiro. Coitados dos belmiros, alexandresoaressantos, amorins e coitado de mim! Que vai ser da minha microempresa? Estava indeciso entre a sediar no Luxemburgo ou na Holanda, num país da Europa connosco não numa offshore das Caraíbas. devaneava cruzar-me com o Alexandre num canal de Amesterdão. Agora…agora eu e as milhares de micro, pequenas e médias empresas do país já não podemos sonhar em seguir o exemplo Belmiro, Soaresdosantos, Amorim. Não é justo!

E os bancos? Coitados dos bancos. Agora vão pagar mais impostos! Se calhar também vão cortar nos benefícios fiscais. Ou obrigá-los a pagar com juros mais altos as ajudas dos últimos anos! Resta a esperança que com a ajuda dos lobosxavier e outros especialistas, mesmo menos capazes, se subtraiam a essa violência fiscal. Ainda mais violenta, porque os apanha desprevenidos e pouco habituados a esse tratamento de desfavor. Nem sequer descontam nos impostos o trombocid para algumas nódoas negras que essas pauladas provoquem. Não é justo!

Aumentam também os impostos no tabaco! Vou ser, vamos ser obrigados a racionar nos bons charutos. Charutos, se calhar agora só açorianos e nem todos os dias. Uma chatice. Como se pode pensar bem sem o conforto do fumo de um puro? Felizmente não vi que aumentassem os impostos sobre o álcool, sobretudo das bebidas espirituosas. Vejam só a desorientação política que desabaria sobre o país se o Pulido Valente fosse obrigado à lei seca por via fiscal! Lá se iam as crónicas pia abaixo. Valha-nos isso!

Que mais irá acontecer? O Camilo Lourenço, um dos idiotas pouco inteligentes de serviço, diz que a austeridade não tem cor política. O gajo é mesmo burro. Tem, claro que tem. Outros desses opinantes todo o terreno vieram, em grande alarido, pregoar: isto é austeridade de esquerda!!! O Camilo nem isso percebe! Que grande bosta !!! Uma minoria dos portugueses afectada e ele nem repara! Julga que esta austeridade é igual à outra? Olhe que não! Olhe que não!

Não é justo! Não é justo! A austeridade nunca pode ser de esquerda.  Desabar em cima de nós desprevenidos e pouco habituados a ela, ainda é menos justo. A austeridade devia ser sempre para aqueles que o preclaro Ullrich dizia: Ai ,Aguentam, Aguentam!

Socorro! A geringonça está a funcionar! O governo centro esquerda com o apoio dos radicais de esquerda está a passar entre os bombardeamentos da Comissão Europeia, FMI, da troika, dos partidos de direita aqui e lá fora, dos mercenários da comunicação social. Esta malta anda a dormir na forma! A insónia alastra-se pela turbamulta de direitinhas que continuam a ladrar com o desespero de ver a caravana a passar

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Quem ganhou as eleições?

 

TVQuem ganhou estas eleições presidenciais? A televisão!!! Três candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Tino de Rans são, desigualmente e de modos diversos, produtos da comunicação social, com a televisão a ocupar um lugar central. Comunicação social, com a televisão na linha da frente, que é a ferramenta importante da construção ideológica da realidade que molda e inquina o pensamento.

É a situação actual que vivemos, que se iniciou nos anos 60, anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do Estado se começa a alterar substancialmente passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada, o que paradoxalmente é desmentido quando a situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, conhece um agravamento. Que teve em Maio 68 o seu momento fundamental. Uma situação pós-revolucionária que incorpora as tendências positivas do desenvolvimento capitalista que seria superado pela organização autogestionária das forças produtivas sem alterar a relações de produção. Uma revolução sem revolução nem revolucionários. Fábrica de provocações frustres que, na sua forma mais radical, procura assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”. Continuar a ler

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