austeridade, Banca, BANCO CENTRAL EUROPEU, capitalismo, Comissão Europeia, Comunicação Social, Cultura Mediática, Debates Eleitorais, demagogia, Direita e Esquerda, Emanuel Macron, Euro, fascismo, Franco, Frauke Petry, Geert Wilders, Geral, Globalização, História, Hitler, Hollande, Ideologia de Direita, imperialismo, Jornalismo, Le Pen, Lobo Xavier, Mussolini, Obama, Partidos Sociais.Democratas, Partidos Socialistas, Plutocracia, Salazar, Tony Blair., União Europeia

A FRANÇA ESTÁ A ARDER

Eugène_Delacroix_-_La_liberté_guidant_le_peuple

A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

12GericaultMedusa3

A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

Standard
capitalismo, Comunicação Social, direitos humanos, EUA, Fascismo, Geral, Guerra, Hitler, imperialismo, Miséria, Nazismo, Obama

EUA votam contra condenação do nazismo

 

 

jh1

fotomontagem de John Heartfield

 

Anda o Prémio Nobel da Paz 2009, Barack Obama, a fazer o seu último périplo europeu como Presidente dos EUA, pregando os valores do mundo livre e da democracia e no Comité dos Direitos Humanos da ONU, os Estados Unidos da América, ainda sob a sua liderança e seguindo as linhas mestras dessa liderança, votaram contra uma resolução que condenava a glorificação do nazismo. Ao seu voto contra juntaram-se a Ucrânia e o Palau.

A resolução tinha o objectivo de  “Combater a glorificação do Nazismo, Neonazismo e outras práticas que contribuem para alimentar formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada”. Texto que muito incomodou a administração Obama que na declaração de voto considerou votar contra “Devido ao âmbito excessivamente estreito e natureza politizada desta resolução, e porque exige limites inaceitáveis à fundamental liberdade de expressão, os Estados Unidos não podem apoiá-la”. A hipocrisia, o cinismo não conhecem limites e acabam, mais cedo ou mais tarde, por se revelar em todo o seu esplendor. Compreende-se perfeitamente que um governo dirigido por um Prémio Nobel da Paz que foi dos presidentes dos EUA que mais países bombardeou, o exemplo mais flagrante é a Líbia que tantas alegrias provocou na sua secretária de Estado Hillary Clinton “Viemos, vimos e matámos”, que mais guerras directas ou por procuração provocou, o Médio-Oriente é o caso mais evidente, que mais intervenções em países estrangeiros fez, apoiando e financiando golpes de estado como nas Honduras ou na Ucrânia, não poderia condenar o nazismo. Todos os sofismas seriam válidos para votar contra tal resolução. A memória do apoio que o grande capital, sem nacionalidade nem credos, deu a Hitler não permitia tal desaforo, aprovado por 131 votos a favor, três contra e 48 abstenções. O voto dos EUA causa sérias apreensões. É bem revelador do que está nos alicerces do pensamento único dominante.

Este voto, é um voto que ajuda a impulsionar as direitas mais radicais. Quem se preocupa seriamente com o ascenso dessas direitas mais radicais em todo o mundo devia estar cada vez mais preocupado com o sistema de vasos comunicantes que as aduba. Com o crescimento do capital financeiro parasitário que tem provocado o obscuro enriquecimento de uma minoria cada vez mais minoria que se apoia num poderoso complexo militar-industrial, domina uma máquina brutal de desinformação e alimenta um pântano de descontentamento onde germinam os ovos da serpente fascista.

A preocupação justifica-se plenamente e deve unir todos os que querem combater este estado de coisas, que tem as mais diversas e variadas formas mas uma raiz comum. Muitos preocupam-se mas afogam-se na espuma, sem mergulhar nas águas profundas. As análises e os comentários às últimas eleições nos EUA são a evidência da confusão que por aí anda à rédea solta, gerada por enormes e sinceras preocupações mas sem conseguirem fazer uma radiografia mais fundamentada, ainda que sem tempo de distanciação para prever todas as suas consequências. Sem perceberem porque é que o mundo é cada vez mais um lugar perigoso e mais aberto às agressões imperialistas que não tem pejo em fazer as alianças mais espúrias na luta pela sobrevivência de um sistema mergulhado em profunda crise.

A não condenação do nazismo é bem denunciadora dos estados de alma do imperialismo e da ausência de qualquer travão que ainda salve as aparências. Quem não condena o nazismo acaba por ser seu cúmplice, por mais penas democráticas que cole no alcatrão das suas vestimentas e por mais cores que essas vestimentas tenham. Actualmente, como escreveu recentemente Jorge Cadima “uma coisa é certa: seja nos EUA ou na UE, a palavra de ordem é militarizar. Os povos nada têm a esperar dos defensores do grande capital, a não ser exploração, miséria e guerra.”

jh

fotomontagem de John Heartfield

 

Standard
Al Qaeda, Bush, Estado Islâmico, fascismo, Hitler, ii guerra Mundial, NATO, Nazismo, Rockfeller, Rothschild, Stepan Bandera, Ucrânia, União Soviética

comemorar os 70 anos da derrota do nazi-fascismo

Berlim

Há 70 anos o IV Reich foi derrotado. A aventura nazi-fascista inicialmente apoiada pelo grande capital, chegava ao fim às mãos e ás armas da União Soviética, aliada das potencias ocidentais, Reino Unido, Estados Unidos da América e França, cujos interesses económicos começaram a partir de certa altura a serem ameaçados pelos interesses económicos apoiantes do Eixo. Isto apesar de grandes magnatas norte-americanos como Rockfeller, Rothschild ou Prescott Bush, avô dos Bush que esteve implicado num golpe fascista nos EUA, terem sido grandes financiadores de Hitler e várias empresas norte-americanas terem participações significativas nas maiores empresas alemãs que beneficiavam largamente com o trabalho escravo recrutado nos campos de concentração. Sinais claros do prestígio que Hitler e o partido Nazi tinham nos meios do grande capital.

Num outro plano, a II Guerra Mundial foi também o palco para resolver a crise de 1929. Foi a II Guerra Mundial que possibilitou que a crise financeira de 1929 se resolvesse. O New Deal de Roosevelt, iniciado em 1932, no pico da crise, introduziu uma forte intervenção do Estado na economia. Procurando regular os mercados e o funcionamento da Bolsa, impedindo investimentos especulativos e de alto risco. Impulsionando uma forte política de investimento na construção civil com um programa intenso de obras públicas, a New Deal começou em força, foi perdendo fulgor e estava a avançar muito devagar. Um novo pico dessa crise foi atingido em 1932. A guerra resolveu os problemas dessa crise capitalista. Obrigou os governos a fazer encomendas gigantescas de aço, máquinas, peças, artefactos que mobilizaram toda a indústria. O problema do desemprego, há que o dizer com toda a brutalidade, resolveu-se com a mobilização de milhões de desempregados e com os milhões de seres humanos mortos nos campos de batalha e fora deles com a fome e a destruição que uma guerra provoca.

Há 70 anos o nazi-fascismo foi derrotado, hoje na Rússia comemoraram-se esses 70 anos, lembrando bem o papel central, decisivo da União Soviética na derrota da barbárie nazi. Para vergonha universal quase todos os países ocidentais não se fizeram representar nessas comemorações a pretexto da situação na Ucrânia. Mais uma vez demonstraram a sua natureza. São hoje tão complacentes com o regime terrorista ucraniano como o foram inicialmente com os nazis Aceitam, sem qualquer reticência que o governo que está no poder na Ucrânia tenha entre os seus ministros e quadros superiores, nazis assumidos. Não se envergonham por ontem, na presença do secretário geral da ONU e outros dignitários ocidentais, o Presidente da República da Ucrânia tenha comemorado o fim da II Guerra Mundial, celebrando simultaneamente o sanguinário bandoleiro, Stepan Bandera, um dois mais brutais colaboradores dos alemães, em todos os territórios ocupados pelo IV Reich. Chefe e guia de um bando de facínoras responsável pela morte de centenas de milhares de russos, polacos e ucranianos, fossem ou não fossem judeus.

O ocidente, ausente das comemorações na Rússia como “castigo” pela situação de guerra na Ucrânia, esteve presente e apoia activamente a Ucrânia/Kiev, onde batalhões de nazis do Sector Direita, que os media ocidentais apelidam com ternura de ultranacionalistas, têm no terreno, a lutar a seu lado, batalhões do Estado Islâmico, seus aliados e aliados da NATO que cada vez se compromete mais naquela frente de batalha que abriram com um golpe de estado financiado pelos EUA, como proclamou Victoria “Que Se Foda a Europa” Nuland.

Nada trava essa gente sem princípios que diz combater o terrorismo, corporizado pela Al Qaeda e pelo Estado Islâmico e é seu aliado no Iemen, na Síria, na Ucrânia.

Ao comemorar os 70 anos do fim da II Guerra Mundial, da derrota do nazi-fascismo, devemos erguer a nossa voz, fazer ouvir a nossa indignação pelo ressurgimento dessa besta apocalíptica em todo o mundo com o apoio, umas vezes oculto outras vezes descarado, das forças do império e do seu braço armado a NATO.

Standard
Dia D, fascismo, Geral, Guerra, História, Hitler, Humanidade, ii guerra Mundial, Media, Política

O PODER SIMBÓLICO

ImagemPierre Bourdieu, no seu ensaio “O Poder Simbólico” (Difel, Memória e Sociedade, 1994), defende a tese “ O poder simbólico é esse poder invisível, o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhes estão sujeitos ou mesmo que o exercem. Poder quase mágico, que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.”

Lembrei-me desta brilhante tese de Bourdieu ao ver as comemorações dos setenta anos do Dia D, o desembarque na Normandia das tropas dos EUA, Inglaterra e França Livre.

De como esse dia é glorificado como sendo o dia que marcou a viragem na II Guerra Mundial e o princípio da viragem a favor dos aliados, URSS, Inglaterra, EUA, França, contra as forças do Eixo. É uma reversão da história da guerra que coloca os norte-americanos como os grandes salvadores d Europa da barbárie nazi. Apaga-se com uma monumental manobra de propaganda, dos meios de comunicação social aos estudos históricos e ao cinema, a verdadeira e factual história da II Guerra Mundial. Nisso os norte-americanos são mestres. A saga da conquista do Oeste é exemplar nas centenas de filmes em que glorificam os cowboys, acentuando o mito do justiceiro solitário, o triunfo do individualismo, o embrião do american way of life, transformando uma história de inomináveis brutalidades e arbitrariedades na mitologia dourada do Oeste Selvagem. Cormac McCarthy, baseado em factos históricos ocorridos na fronteira entre os EUA e o México, em meados do séc. XIX, desmonta e subverte essa cosmogonia ao narrar a violência que foi essa expansão, no romance “Meridiano de Sangue”

O Dia D, procura iludir que a derrota da Alemanha nazi estava em marcha depois das vitórias soviéticas em Estalinegrado (1943) e, sobretudo, Kursk (1943), a maior batalha de blindados de todo os tempos, com as maiores perdas aéreas num só dia de guerra.Imagem

Enormes perdas de vidas humanas, de aparatos militares, de recursos económicos para os soviéticos, consequência dos sucessivos adiamentos da abertura de uma frente ocidental, muito reclamada por Estaline, acusando Churchill e Roosevelt de estarem a poupar vidas ocidentais às custas de vidas soviéticas. Hoje muitos historiadores põe em causa a influência do Dia D, no curso da guerra. Três quartos das forças nazis estavam na Frente Oriental, recuavam frente ao Exército Vermelho, quando, finalmente, em 6 de Julho de 1944, se invadiu a Normandia.

Essa entronização do Dia D, tem outros efeitos menos visíveis mas igualmente importantes. Atira para plano longínquo o facto de Hitler ascender ao poder político apoiado pelos grandes conglomerados industriais alemães, nomeadamente I.G.Farben, Thyssen, Krupps, todas largamente beneficiárias do trabalho escravo recrutado nos campos de concentração. Grupos económicos onde Rockfeller, Rothschild e outros tinham participações significativas. A I.G.Farben o gigante da indústria química da Alemanha era uma divisão da Standard Oil de Rockfeller. Esses magnatas norte-americanos financiaram de boa vontade Hitler.

ImagemNão só esses foram fortes esteios da Alemanha nazi. Prescott Bush, avô de George Bush, um especulador financeiro de Wall Street que até esteve implicado num golpe militar contra Roosevelt em 1934 para impor um regime fascista nos EUA, foi um grande financiador do Partido Nazi, através do Union City Bank. Também será de lembrar que outro magnata norte-americano Henry Ford, também com investimentos não negligenciáveis na Alemanha nazi, fez o elogio do Ku Klux Klan do seu “genuíno “americanismo”. Muito admirado pêlos ideólogos nazis, Henry Ford, condenava a Revolução Bolchevique acusando-a de ser o produto de uma conspiração judaica. Fundou até uma revista, o Oearborn Independent, cujos artigos publicados foram reunidos em 1920 num único volume intitulado “O Judeu Internacional”. O livro transformou-se numa referência central do anti-semitismo internacional. Foi traduzido para alemão e adquiriu grande popularidade. Nazis destacados, como Von Schirach e Himmler reconheceram ter sido inspirados ou motivados por Ford. Segundo Himmler, o livro de Ford desempenhou um papel “decisivo” não só na sua formação pessoal, como também na do Führer. Os estrénuos campeões da liberdade e da democracia apoiaram e financiaram os nazis, bem depois de a guerra ter começado.

O Dia D, inventado e celebrado como o dia que decidiu a vitória dos aliados, estende um diáfano manto sobre esses factos históricos. Foi de facto importante. Foi sobretudo uma vitória dos EUA, do império norte-americano. A II Grande Guerra foi terminante  para que os EUA, que com a I Grande Guerra tinha alcançado uma época de prosperidade sem precedentes,  impusessem o seu poder no mundo.

Foi a II Guerra Mundial que possibilitou a crise financeira de 1929 se resolvesse. O New Deal de Roosevelt, iniciado em 1932, no pico da crise, introduziu uma forte intervenção do Estado na economia. Procurando regular os mercados e o funcionamento da Bolsa, impedindo investimentos especulativos e de alto risco. Impulsionando uma forte política de investimento na construção civil com um programa intenso de obras públicas, a New Deal começou em força, foi perdendo fulgor e estava a avançar muito devagar. A guerra resolveu os problemas dessa crise capitalista. Obrigou os governos a fazer encomendas gigantescas de aço, máquinas, peças, artefactos que mobilizaram toda a indústria. O problema do desemprego, há que o dizer com toda a brutalidade, resolveu-se com a mobilização de milhões de desempregados e com os milhões de seres humanos mortos nos campos de batalha Imageme fora deles com bombardeamentos a alvos industriais e civis.Leia-se Matadouro Cinco de Kurt Vonnegut, soldado americano prisioneiro de guerra em Dresden, quando norte-americanos e ingleses bombardearam indiscriminada e desnecessariamente essa cidade, cercada pelo Exército Vermelho, à beira de se render. Um livro duro, duríssimo em que as descrições muito estilo Vonnegut são hilariantes sem permitir gargalhadas. Livro alvo de vários ataques da intelligentsia norte-americana que negaram até ser impossível, a brutalidade dessa realidade, agora também branqueada depois da queda do Muro de Berlim, em que só falta ressuscitar centenas de milhares de mortos.

O Dia D foi e é fundamental para o poder simbólico ocultar o poder real e efectivo como se conseguiu em Bretton Woods, instituindo os instrumentos de dominação financeira dos EUA. O BIRD, Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento que seria mais tarde dividido entre o Banco Mundial e o Banco para Investimentos Internacionais, e o Fundo Monetário Internacional (FMI). As principais disposições do sistema Bretton Woods foram a obrigação de cada país adoptar uma política monetária que mantivesse a taxa de câmbio de suas moedas dentro de um determinado valor indexado ao dólar, cujo valor, por sua vez, estaria ligado ao ouro numa base fixa de 35 dólares por onça troy. Dotar o FMI de financiamento para suportar dificuldades temporárias de pagamento. Na ausência de um mercado europeu forte para os bens e serviços estado-unidenses a economia dos EUA seria incapaz de sustentar a prosperidade que alcançara durante a guerra. Teoria claramente exposta por Bernard Baruch, financeiro, conselheiro de presidentes e congressistas, que sintetizou o espírito de Bretton Woods no início de 1945: “se eliminarmos o subsídio ao trabalho e à competição acirrada nos mercados exportadores, bem como prevenir a reconstrução de máquinas de guerra, que prosperidade a longo termo nós teremos.” Assim, os Estados Unidos usaram a sua posição dominante para restaurar uma economia mundial aberta, unificada sob controlo dos EUA, que deu aos EUA acesso ilimitado a mercados e matéria-prima.

Tudo se acentuou quando, em 1971, frente às pressões crescentes na procura global por ouro, depois da libra esterlina se ter afundado deixando de ser moeda de troca no comércio internacional, Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos, suspendeu unilateralmente o sistema de Bretton Woods, cancelando a conversibilidade directa do dólar em ouro O domínio passou a ser global, com uma moeda padrão no comércio internacional, o dólar. Com uma moeda a progressivamente ocupar o lugar do ouro nas reservas dos bancos centrais.

dolarEra só por a tipografia a imprimir a nota verde, como a até hoje e, perigosamente, o têm feito. Ficaram com as mãos ocupadas com a máquina de impressão e livres para manipularem a dívida externa, como o fizeram, reduzindo-a contabilisticamente de uma penada em 35%. Um forrobodó que tem feito os EUA viver à conta dos outros países e que só nos últimos anos está a ser posto em causa com a emergência de outros pólos económicos, com outros países a fazer as trocas comerciais em euros ou nas suas moedas nacionais, reduzindo a importância do dólar, o maior produto de exportação dos EUA. Cientes da sua fragilidade defendem com ameaças, canhões e propaganda o seu império, porque quem continuar a  exercer poder unipolar que tem na dólar  e na sua força militar o principal instrumento de dominação.

O Dia D tem pouco significado para o fim da guerra. Tem um enorme significado simbólico para os EUA. Sobretudo agora, quando são uma grande potência militar e uma potência económica em decadência. Um brutal perigo para a paz mundial como se tem observado nos últimos anos. O poder simbólico do Dia D, o modo como foi construído e mantido ao longo de setenta anos, ensina-nos a ver a importância da manipulação histórica e informativa na formação da opinião pública.

Standard