Al Qaeda, Arábia Saudita, Bashar al-Assad, Comunicação Social, Conselho Segurança ONU, Donald Trump, EUA, Geoestratégias, Georges Bush, Geral, Globalização, Guerra, Iemen, imperialismo, Iraque, Israel, Jacopo Arbenz, jihad, Líbia, Madeleine Allbright, Media, NATO, nazi fascismo, Nicky Haley, ONU, Pensamento Único, Propaganda, Rússia, Saddam Hussein, Salvador Allende, Síria, totalitarismo

Síria e as Dores Humanitárias – Um Sermão aos Peixes

síria

Andam no Facebook e nos blogues uns idiotas, alguns julgam-se inteligentes, que se masturbam alegremente vertendo lágrimas pelo pobre povo sírio, cuspindo sobre quem, com um rasto de racionalidade, desmonta as cabalas contra o exército sírio e seus aliados que só tem por único objectivo atrasar as batalhas contra a Al-Qaeda seus heterónimos e uns improváveis rebeldes enquadrados pelos terroristas. Compram as últimas novidades no supermercado da comunicação social estipendiada dos conglomerados gigantes dos media que pertencem ao poder oligopólico dos Murdoch, Times Warner/CNN, Viacom, Disney/ABC, TCI(Tele-Communications, Inc), Sony, Bertelsmann, mais uns regionais como Rede Globo no Brasil, Berlusconi na Itália, Televisa no México, que tecem uma teia universal de interesses cruzados que mesmo quando fingem concorrer entre eles estão a concorrer para que o pensamento único não sofra nem sequer cócegas. A eles se juntam uma girândola de ONG’s que trabalham para a agenda secreta dos EUA, a evidente está nos relatórios de geostratégia, (nem a leram! porra dá trabalho!) sem nunca conseguirem perceber que condenar os bombardeamentos, aliás condenar desde o principio esta falsa guerra civil que nunca o foi, não é defender Assad nem sequer dizer que ele não é um ditador. É fazer frente, nessa frente, às guerras directas ou por interpostos protagonistas que o imperialismo promove em todo o mundo para manter o seu poder unilateral. Assad é um ditador só que por aquelas bandas um ditador como Assad até parece um democrata quando comparado com o rei saudita e os emires amigos. Nas versões mais comedidas esticam a língua de pau acusando os que condenam e denunciam a guerra na Síria de se estar colar a Assad a barra de códigos do mal menor. Vertem abundantes lágrimas humanitárias para sorna e desonestamente defenderem a destruição da Síria na fogueira das primaveras árabes com os resultados que estão à vista para, no curto prazo, meter a mão nos recursos energéticos e a médio prazo garantirem a continuidade da rapina de uma economia que vampiriza as bolsas, arruína países e, num abrir e fechar de olhos, fabrica milionários, cada vez menos e com maior riqueza concentrada nas suas mãos e empobrece cada vez mais pessoas. É nesse lado, o lado que se colocam! O resto são cantigas e os povos que se lixem e sofram. Nos seus transes humanitários já esqueceram as 250 mil crianças mortas e estropiadas no Iraque. Os danos colaterais da Madeleine Allbright que, sem uma ruga de compaixão, considera que esse foi um custo necessário e justificado! Agora, fingem-se horrorizados com os dramas violentíssimos do povo e das crianças sírias. Estão e continuarão a estar escondidos de baixo da saia da madama! Haja decência! Alguma água fria nessa indignação de pacotilha. O resultado do apoio do Ocidente aos jihadistas, é bom lembrar que as cenas das primeiras decapitações foram na Bósnia com mercenários vindos principalmente do Afeganistão e aborígenes convertidos a essas práticas, foi o avanço brutal e impetuoso dos terroristas, armados e financiados pelo Ocidente, até à formação do Estado Islâmico. Na prática o que estava a suceder na Síria acabaria por ser muito pior que a resultante das “primaveras árabes”, a Líbia é o exemplo mais exemplar, que dariam um outro impulso aos terroristas e ao terrorismo no mundo. A entrada da Rússia estragou esses planos. Não o fez por amor à Síria, ao povo sírio. Fê-lo, entre outras razões, porque na Federação Russa há várias repúblicas onde os muçulmanos são maioritários. Repúblicas que forneceram e fornecem bastante mão de obra ao Estado Islâmico à Al-Qaeda, eram um perigo crescente dentro da Federação Russa e nas suas fronteiras. Na Ucrânia estão dois batalhões do Estado Islâmico que combatem ao lado dos grupos armados neo-nazis contra os separatistas ucranianos. Isso explica parcialmente a entrada da Federação Russa, tem essas potenciais bombas dentro do seu território que nem precisam de ser catalisadas pelo esforço que a Arábia Saudita começou a fazer durante a Guerra Fria na Europa implantando mesquitas para radicalizar os árabes com o resultado que se vê à vista desarmada. Outra das razões é a ameaça às bases militares russas que dão acesso ao Mediterrâneo que, conjuntamente com as da Crimeia, são as únicas bases navais em águas temperadas. São também as únicas bases militares da Federação Russa fora do seu território contra as 50 da NATO nas suas fronteiras.

A questão nuclear da guerra imposta à Síria está na geoestratégia dos EUA que tentam manter um mundo unipolar e por isso cercam a Rússia e a China. A Síria, para mal dos sírios e, pelo andar dos acontecimentos, para bem de Assad que já beneficiava de ter uma oposição medíocre internamente corroída por fortes dissensões, por mais que as potências ocidentais tentem colar aqueles cacos não o conseguem como se tem assistido nas conferências que se têm realizado sob a égide da ONU e nada garante que sejam melhores que Assad. Estar contra a agressão na Síria, não é estar a favor de Assad, mas é estar contra o que se continua a assistir no norte de África e noutros países do Médio Oriente com a implantação de estados falhados que passaram para segundo plano na máquina de propaganda que são os media ocidentais. Convém não esquecer a volatilidade do Ocidente na classificação dos ditadores. Saddam Hussein e Muhamar Khadaffi passaram de ditadores amigos para ditadores inimigos quando um começou a tentar vender petróleo em euros e o outro, mais ambicioso e com mais meios, estava a tentar instituir o dinar-ouro para vender o seu petróleo e tornar essa moeda a moeda padrão das transacções comerciais no continente africano.

Iraque

syria_another_pipeline_war_02

Pormenores, questões sem importância para essa gente, mas já agora vejam a nova partilha dos campos de petróleo no Iraque e a que está em marcha na Líbia. É esclarecedor para os que julgam que as razões económicas são secundárias e o traçado dos pipelines uma redundância. Georges Bush não teve papas na língua ao afirmar, em 1992 no Rio de Janeiro, porque os EUA se recusavam a assinar a Convenção da Biodiversidade “é importante proteger os nossos direitos, os direitos dos nossos negócios”. São os negócios que continuam na linha da frente na Síria e no Iemen, onde o desastre humanitário é muitíssimo maior, mas não comove a banda que por aqui vocifera, embora seja estranho ou então explica porque existe nuns casos tanta comoção e noutros omissão e um atroador silêncio. São tudo peças no baralho da unipolaridade que está ameaçada e quer dar sinais de força. Há uns tantos mais imaginativos que sobrevalorizam a questão religiosa, sunitas e xiitas, secundária e instrumental.

A realidade é muito mais complexa e nada pior que uma potência em decadência económica seja a mais poderosa militarmente. São várias as ameaças ao estado actual em que os EUA são dominantes, em que é vital sustentar a qualquer preço o dólar, obrigar os países a financiar o seu gigantesco imparável e impagável défice. Os BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento são uma séria advertência apesar das grandes diferenças entre eles. Está atento o Big Brother, as golpadas no Brasil procura enfraquecê-los. Outros lances têm efeitos mais devastadores a médio e longo prazo. A mais recente e maior, com efeitos imediatos mas que se anunciam devastadores a médio e longo prazo, foi a abertura da Bolsa de Internacional Energia em Xangai, em que se negoceia petróleo em yuans convertíveis em ouro, que logo na sua primeira sessão, em finais de março, ultrapassou as vendas de petróleo nos outros mercados. Isso coloca em causa os petrodólares directamente nos mercados do petróleo e o dólar como principal moeda nas trocas internacionais, como foi negociado por Nixon com a Arábia Saudita, que é quem comanda a OPEP, quando desindexou o dólar do ouro, Aqui volta-se a Síria que é um ponto fulcral na Rota da Seda que a China está a arraigar. Já o era na Rota da Seda original. Esse o pano de fundo dessas guerras e da guerra na Síria. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts. Na Síria com ou sem Assad, com Assad ditador ou com um Assad democrata, o que é indiferente, a questão central é se qualquer um dos dois, por estratégias que até podem ser completamente diferentes, segue ou não uma política que escape à influência dos EUA. Ditadores como Saddam Hussein ou Muhamar Khadafi, democratas como Jacobo Arbenz ou Salvador Allende, quando tentaram escapar a essa órbita foram liminarmente eliminados. O cinismo e a hipocrisia é a dura realidade, invocar a democracia em relação à Síria é mero pretexto vazio de substância. Razão tinha e tem o Orwell quando escreveu “para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitário”. Os posts e os comentários que se colam no FB e em blogues atacando o regime sírio avalizam Orwell. Andar aos balanços sem perceber isso é ser um idiota útil, por mais camadas de humanitarismos com que se besuntem e verdades, meias-verdades e mentiras que centrifuguem. São as vitimas consentidas por vontade própria do que Harold Pinter denunciou ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose altamente conseguido”. São parte inteira dessa manipulação. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos em que se praticam acções, como as que se estão a assistir. Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”. Para essa gente este texto é um Sermão aos Peixes, uma inutilidade nesse areópago de personagens Monty Python. em que os terroristas quando passam a fronteira da Síria transformam-se magicamente em rebeldes, em que há muçulmanos maus mas os fanáticos sauditas são sempre bons. Fanáticos do Isis eram maus ou bons até fugirem ao controle e serem todos maus. A Rússia é sempre má. A China está a seguir o caminho de também o ser. Mais uma vez recomenda-se a leitura do último documento de geoestratégia dos EUA. Os terroristas já não são o inimigo principal, o inimigo principal são a Rússia e a China. As denúncias, pouco fundamentadas ou nada fundamentadas, dos ataques químicos na Inglaterra e na Síria ficam transparentemente explicados. Os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir” são a sua arma de arremesso que dispara sem contemplações sobre qualquer investigação que seja razoavelmente independente. A farsa das propostas de investigação que Nikky Haley fez e continuará a fazer no Conselho de Segurança da ONU seguem essa máxima. Recorde-se Hillary Clinton e o telegrama que enviou a várias embaixadas em que, depois de referir que a Arábia Saudita era um valioso e imprescindível aliado, sublinhava que “a Arábia Saudita continua a ser um apoio financeiro crítico para a Al- Nustra, os talibans, a Al-Qaeda”. Os saudosos e quase esquecidos talibans também já foram bons, eram os combatentes pela liberdade no Afeganistão nos tempos de Reagan. As armas químicas também já foram boas quando países da NATO as forneceram a Saddam Hussein quando este estava em guerra com o Irão. Era um bom ditador como hoje são os sauditas e os emires dos países do Golfo. É de lembrar que a tortura nem sempre é má, se for praticada em Guantanamo já é legítima. 

Um mundo às avessas em que não se pode andar como o bando de cegos de Brueghel, o Velho, empunhando as bandeiras esburacadas de um humanitarismo fatela.

brueghel

Standard
Armas Químicas, Aznar, Biil Clinton, Blogues, Bush, Cinismo, Colin Powell, Copmunicação Social, Critérios Editoriais, Critérios Jornalisticos, demagogia, Donald Trump, Durão Barroso, Geoestratégias, Geral, Guerra, Hillary Clinton, Ideologia de Direita, imperialismo, John McCain, NATO, Obama, Pós-Verdade, Redes Sociais, Síria, terrorismo, Tony Blair.

O Sono da Razão gera Monstros

goya 1

gravura de Goya

Que Donald Trump tenha ordenado bombardear uma base aérea síria com argumentos na base de informações “credíveis” que disse dispor, sem sequer solicitar autorização ao Congresso, como no mínimo e sem correr grandes riscos, deveria ter feito, não pode causar admiração a ninguém. Obama fez o mesmo quando mandou bombardear a Líbia. Ambos dispensaram-se desse trabalho e do mais elaborado trabalho de arranjarem um Colin Powell com provas das fábricas de destruição maciça que nunca existiram. Agora, na Síria, Trump atirou para as urtigas o desmantelamento do arsenal de armas químicas que os sírios possuiam e que foi destruído sob supervisão da ONU. Um proto-fascista do seu calibre, que se auto proclama campeão dos países civilizados, o que não deixa de ser uma boa piada, não se detém nesses pormenores. Como não se detém Hillary Clinton ou John McCain, ambos opositores declarados de Trump, que rapidamente lhe renderam homenagem e aplauso. Claro que também teve conforto no ocidente de Hollande, Merkel, Erdogan e outros tantos, na esteira de Blair, Aznar e Durão Barroso. Ninguém se preocupa ou preocupou em saber o que de facto aconteceu com as armas químicas em Khan Cheikhoun, sabendo-se muitíssimo bem que os terroristas as têm usado e têm arsenais de armas químicas como os que foram encontrados em Aleppo. A hipocrisia e o cinismo dessa gente é bem conhecido, está bem montado e bem suportado por uma comunicação social mercenária a nível internacional, é ler as notícias sobre os ataques a Mossul, compará-los com os que fizeram em relação a Aleppo.

O que é mais interessante e significativo, percorrendo os activos sujeitos das redes sociais em Portugal é o silêncio de todos os que se têm esfarrapado e continuam a esfarrapar em alta grita contra Trump, os seus próceres europeus, Le Pen, Farage, Geert Wilders, Frauke Petry e mais uns tantos e que agora não se indignam, chegando mesmo à desfaçatez de  apoiar a iniciativa de Trump, com mais ou menos vergonha e retóricas risíveis. Muita dessa gente diz-se de esquerda. Parece estar sempre na primeira linha da denúncia do ascenso das direitas no mundo, um perigo real, enquanto não há bandeira de uma qualquer luta fracturante que não agitem. Não há um acontecimento em qualquer parte do mundo que não os comova e suscite adjectivações loquazes e violentas. Desfilam  comentários e fotografias para legendarem execrações de políticos que abominam, metendo no mesmo saco o que não deve ser metido no mesmo saco e não metendo nesse saco quem deveriam meter.

A sua miopia política é inquietante. Mais inquietante ao pensar no que farão se um dia surgir nesta terra de falsos brandos costumes uma variante do dinossaúrio excelentíssimo. Devem estar confiantes numa manhã de nevoeiro ou num qualquer milagre de Fátima. Nem percebem que os zigue-zagues políticos em que se embrulham estão a contribuir para esse peditório que já está a ser feito. É ler muitos dos comentários que por aí se plantam nas notícias dos media. É percorrer, mesmo na diagonal, muito do que viaja nas redes sociais. Objectivamente vão dando o seu óbolo com os comentários que decoram as suas intervenções. A direita sabe, bem sabe, que a maioria dessa gente será metida na ordem com uns safanões a tempo.

Inquietante é perceber o que isso representa do triunfo actual da ideologia de direita, um cancro que não é um exclusivo da direita. Muita esquerda está contaminada, alguma em estado terminal. Esse é que é um perigo concreto e bem real. O sono da razão gera monstros que, pelo menos alguns, o percebam a tempo.

goya

Standard
Cultura, David Cameron, Estado Islâmico, EUA, Europa, Geoestratégias, Geral, Guerra, Hollande, Médio Oriente, Obama, Orquestra Teatro Mariynski, Palmira, Síria, terrorismo, Valery Gergiev

Um Concerto Património da Humanidade

PALMIRA

Ontem, no teatro romano de Palmira, na Síria, a orquestra do Teatro Mariynki, dirigida por Valery Gergiev deu um concerto que se reveste de enorme simbolismo. Em 27 de Março as tropas do Estado Islâmico (EI) foram expulsas da cidade pelo exército sírio apoiado pela aviação russa. Foi, até hoje, a maior derrota que os terroristas sofreram. Significativamente, como Robert Fisk assinalou, Cameron ficou em silêncio , como ficaram Obama e Hollande. perante tão importante sucesso que salvou uma cidade Património da Humanidade das barbaridades que o EI aí estava a cometer, contra a população e contra um património histórico inestimável. Aliás, enquanto as forças militares avançavam para libertar a cidade esse silêncio foi interrompido por interposto Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), com sede em Londres muito activo a denunciar as vitimas civis provocadas pelos bombardeamentos dos que combatiam para reconquistar a cidade.

Depois de reocupada Palmira, um batalhão de sapadores russos iniciou o trabalho de desminagem da zona histórica, armadilhada com quase 5000 artefactos explosivos. Agora estão a continuar o trabalho nas áreas habitacionais.

Foram essas acções que permitiram a realização deste concerto histórico em que se fizeram ouvir Bach, Schedrin e Prokofiev num cenário fabuloso, homenageando Khaled al Assar, director do Museu Central de Palmira e do seu património arqueológico que foi torturado e executado, juntamente com outros técnicos do museu pelos terroristas, perante o silêncio do OSDH. Bem significativo da credibilidade dessa gente sempre tão bem acolhida e acarinhada pela comunicação social.

Lembre-se que Palmira foi ocupada pelo EI em Março de 2015. As atrocidades habituais sucederam-se. Foram ampliadas pela destruição de vários monumentos, como o Arco do Triunfo, o templo de Baal Samin, um deus semita, o templo de Bel, entre outros que são considerados preciosidades impares do património cultural mundial. Irina Bokova, directora geral da Unesco, afirmou:” não se viu nada similar desde a Segunda Guerra Mundial. O que está a acontecer é a mais brutal destruição sistemática do património mundial”. A essas destruições soma-se o assalto e roubo de peças únicas do Museu Central de Palmira. O seu director Khaled al Assar, os seus familiares, os técnicos do Museu foram torturados e executados porque o EI procurava um tesouro que suponham escondido. Não o encontrando roubavam o que o exército, quando abandonou a cidade e evacuou a população, não tinha conseguido por a salvo.

A história de Palmira atravessa séculos do neolítico ao Império Otomano. Capital de uma dissidência do Império Romano, lugar de importância pela sua localização geográfica para o trânsito comercial, era a última paragem antes do Mediterrâneo na Rota da Seda. Com a sua história Palmira congregou um valor monumental raro. O EI, enquanto destruía monumentos saqueava peças arqueológicas que traficava através da Turquia para os mercados mundiais. “As antiguidades de Palmira estão à venda em Londres, como outros objectos da Síria e do Iraque” denunciou no The Independent a arqueóloga Joanne Farchakh. É indignante como esse mercado floresce no Ocidente sem que ninguém faça nada.

O concerto da Orquestra do Teatro Mariynki assinala uma vitória da civilização contra a barbárie. A abrir o concerto Putin, por vídeo, fez um discurso em que lembrou que “celebrar aquele concerto na proximidade de lugares onde decorrem acções bélicas tem riscos e exige muita coragem pessoal” enaltecendo-o como “magnífica acção humanitária, uma mensagem de memória, esperança e agradecimento”(…) agradecimento extensível a todos os que lutam contra o terrorismo pondo em risco a própria vida (…) uma  memória de todas as vitimas do terrorismo, independentemente do lugar e do momento do crime, sempre um crime contra a humanidade(…) a esperança no futuro renascimento de Palmira como património da humanidade, é um sinal da libertação da civilização contemporânea dessa peste que é o terrorismo internacional”.

Um concerto de propaganda? Um discurso de propaganda? Claro que Vladimir Putin aproveita para mostrar ao mundo quem no Médio-Oriente entrou na guerra para lutar de facto contra o terrorismo, obrigando outros a maior empenho e, se possível, a menor hipocrisia já que foram os maiores patrocinadores desse mesmo terrorismo, directamente e apoiando os seus aliados dos Emiratos Árabes e da Arábia Saudita, um Estado Islâmico tolerado, até ficar fora de controle. Agora estão mais empenhados, mas continuam políticas dúbias como se vê quando se submetem a chantagens da Turquia e Erdogan. Faz propaganda do que a Rússia conseguiu? Claro que faz e fá-lo sabendo que, sem os nomear, Obama, Cameron, Hollande estavam com as orelhas a arder, mesmo que a gigantesca máquina de mentiras ao seu serviço silencie ou menorize este concerto histórico.

 

Standard
Al Qaeda, Atentados Terroristas, Bush, David Cameron, Dolar, Estado Islâmico, EUA, Expresso, Geoestratégias, Geral, Henrique Monteiro, História, Humanidade, imperialismo, Independência da Comunicação Social, Médio Oriente, Miguel Sousa Tavares, Miguel Tiago, pesamento único, Poder Económico, Política, Rússia, Robert Fisk, Robert Pape, Síria, Ucrânia, União Europeia

Terrorismos

 

terrorismo3

Há uma visão do terrorismo pequena, que vive de sobressalto em sobressalto a cada atentado. Condena-se o terrorismo, glorifica-se a dignidade dos que sobrevivem, socorrem e perseguem os terroristas, glorificação variável em função da geografia em que acontecem, com a mesma facilidade com que se menorizam ou mesmo esquecem as suas raízes. As vidas são de primeira, de segunda ou mesmo terceira categoria conforme os lugares em que as bombas rebentam e as ceifam. Os mais recentes acontecimentos são disso uma demonstração brutal. A distância mediática entre Bruxelas e Lahore ultrapassa em muito a sua distância real. Põe em evidência a farsa das teorias da aldeia global e como funciona em benefício do pensamento único.

Ler vários textos opinativos no último Expresso é um retrato implacável de uma comunicação social medíocre, de dois pesos e duas medidas, bem representativa da cobertura jornalística e os comentários produzida ao longo dos anos, desde que o terrorismo entrou no quotidiano de muitos países com a sua barbárie brutal.

Há que condenar sem qualquer hesitação o terrorismo seja feito por quem for, aconteça onde acontecer. Essa não é a orientação dos media internacionais e muito menos dos nacionais. Estão mais empenhados em defender, com graduações diversas, as estratégias geopolíticas dos EUA e seus aliados europeus, desviando o olhar dos seus efeitos devastadores para se focarem pontualmente nos atentados em si, menorizando uns em favor de outros.

A listagem dos mais graves atentados terroristas depois do primeiro mais visível e simbólico de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, é eloquente. Veja-se a cobertura mediática dos ataques terroristas mais violentos nos últimos anos, do Boko Haram na Nigéria, 310 vítimas em Agosto de 2007, 178 em Janeiro de 2012, 188 em Abril e 143 em Setembro de 2013, 219 em Março de 2014, 780 vitimas em Julho de 2009 e 700 em Janeiro de 2015, no Iraque 188 em Março de 2004, 182 em Setembro de 2005, 153 em Março, 193 em Abril e 192 em Julho, 502 em Agosto. de 2007, 155 em Outubro de 2009. E de outros que aconteceram no Uganda, na India, no Paquistão, no Quénia, no Iémen, na Indonésia, na Somália, todos com número de vítimas superior à centena, sendo que alguns desses países sofreram vários os atentados.

Compare-se essa cobertura mediática e os comentários que produziram nos media com os sucedidos em Espanha, em Madrid em Março de 2004, 191 vítimas, em França com o massacre na redacção do Charlie Hebdo em Janeiro e as 120 vítimas dos ataques armados em Novembro de 2015. Ficaria tudo dito ou quase se não se referissem os atentados perpetrados na Rússia com 334 vitimas no ataque aos terroristas ao fim de três dias de sequestro de 1100 reféns numa escola em Beslan, na Ossétia do Norte, em Setembro de 2004, as 170 vítimas em 2002, na tomada de reféns num cinema em Moscovo ou um atentado bombista no metropolitano. A imprensa ocidental tratou benevolamente os terroristas como nacionalistas, uns padecedores da desaparecida União Soviética e do actual governo da Rússia. Nunca referem que são os os mesmos que agora engrossam as fileiras do Estado Islâmico (EI), alguns com cargos importantes e que também estão na Ucrânia com os seus companheiros de armas nazi-fascistas. Os mesmos que têm por seus antecessores os talibãs, esses combatentes pela liberdade no Afeganistão, treinados, municiados e financiados pelos EUA seus aliados e o Paquistão, que derrubaram um governo que tinha proibido o uso da burka, que tinha dado às mulheres afegãs o direito de vestirem o que quisessem, de casar com quem queriam, de estudar e participar na vida pública e política, de iniciar uma reforma agrária que queria erradicar a plantação de plantas opiáceas. Crimes contra os valores tradicionais na região e, pelas alianças espúrias que apoiaram os mujahedin, os guerreiros de deus que derrubaram esse novo poder afegão, também contra alguns valores da civilização ocidental que estavam a ser implementados.

A duplicidade, a hipocrisia atinge o quase inimaginável quando, de algum modo se justifica a bomba que fez explodir um avião de passageiros russo sobre o Sinai, 235 mortos, como uma vingança do EI contra a intervenção da aviação russa na Síria que, em alguns meses,  obteve mais resultados na luta contra o EI e os vários braços armados da Al-Qaeda do que cinco anos de intervenção da coligação liderada pelos EUA que o cientista político Robert Pape, também na última edição do Expresso, diz, contra todas as evidências, sem se rir, com grande descaro e sem que a jornalista se sobressalte, ser a responsável pela perca pelo EI de 40% das áreas povoadas na Síria e no Iraque. Diz isto quando o exército sírio apoiado pela aviação russa tem feito recuar significativamente o EI e a Al-Nustra, cortando as suas linhas de abastecimento e de financiamento e quando acaba de recuperar a cidade de Palmira, o que deveria envergonhar o Ocidente, como escreveu Robert Fisk no The Independent, prevendo esse desfecho, sobre o que já escreveu.

Essa doblez, esse cinismo não conhece fronteiras. Atinge o seu alfa e ómega se compararmos como foram noticiados e comentados os ataques terroristas nos aeroportos de Domodedovo, Moscovo 2011 e Zaveventem, Bruxelas, ocorrido na semana passada. A diferença entre o número de páginas, tempos de noticiários radiofónicos e televisivos, espaços na internet e redes sociais é abissal. Mas o que mais indigna e é inquietantemente grave é a diferença de tratamento entre os terroristas suicidas nas duas ocorrências que, note-se, tiveram um número de vítimas idêntico. Enquanto os que fizeram o atentado em Bruxelas são universalmente tratados como as bestas criminosas que são e nunca como combatentes do Estado Islâmico, as duas mulheres suicidas do atentado em Moscovo são nalguns casos, como no Huffington Post, que se distingue pelas posições de direita, umas quase heroínas lutando pela independência das suas regiões de origem no Cáucaso. Se isso até pode não causar admiração vindo de quem vem, já se pode estranhar como o atentado foi noticiado por imprensa que empunha as bandeiras da independência, do rigor informativo, de serem de referência, até mais à esquerda como o The Guardian ou o Liberation que as tratam como viúvas negras vingadoras dos supostos lutadores pelos direitos humanos nas suas regiões que teriam morrido nessa nobre luta contra o Kremlin. Os outros media afinaram pelo mesmo diapasão. Uma ignóbil manipulação que só se compreende pela submissão mercenária desses media ao pensamento dominante e ao imperialismo euro-atlântico.

terrorismo1

Tão viscosa, viciosa e dúplice maneira de tratar dois atentados terroristas em tudo semelhantes, não alvoroçou nem perturbou os monteiros e os tavares agora tão lépidos a condenar a intervenção do deputado Miguel Tiago que, admitamos com alguma ligeireza, começou por apontar o dedo “às políticas de direita, o capitalismo e o imperialismo” antes de condenar o terrorismo na sua cega barbárie. Ligeireza porque deveria sem peias, nem outros mas, ter condenado o terrorismo venha de onde vier, seja utilizado por quem for mesmo que a razão lhe assista e assiste. Num caso destes, em que a intervenção tem o tempo contado, a explicativa pode ser maliciosamente confundida com uma justificativa. Os considerandos, perante actos deste jaez que procuram pela instalação do medo e do terror de forma cega, deveriam ter sido secundarizados porque nunca teriam tempo para ser fundamentados.

Os monteiros e os tavares e outros idiotas que se julgam inteligentes e poluem os espaços mediáticos, percebem pouco do que está a acontecer e porque está a acontecer. São obtusos perante a história próxima que desagua nos cenários de guerra e terror actuais. A sua miopia nada inocente apaga a realidade para defenderem não os valores da liberdade e da civilização, mas de uma certa liberdade e de uma certa civilização que espalha a bestialidade, e dela acaba por ser tornar vitima, para garantir a sua sobrevivência ameaçada como está pela decadência. As chacinas provocadas pelos atentados terroristas desde que não aconteçam nos países ocidentais praticamente não existe, é quase natural. Pouco lhes importa que o número de vitimas dos atentados no Médio-Oriente, em África ou na Ásia sejam mais numerosos e atinjam mais pessoas inocentes do que na Europa, exceptuando a Rússia. Que, apesar de tudo, a Europa ainda é um lugar mais seguro que os outros países. Subliminarmente são o prolongamento do pensamento da expansão colonial que se fez na base de exterminar todas as bestas, todos os que se opunham à missão civilizadora do homem branco e assim justificava o saque que praticavam. São a expressão de um pensamento pós-colonial.

terrorismo2

O que hoje se configura tem contornos e fronteiras diferentes. Mas devemos recordar Hanna Arendt quando considerou que “os terríveis massacres” e os “assassínios selváticos” perpetrados pelos imperialistas europeus “são os responsáveis pela introdução triunfante de tais meios de pacificação em políticas estrangeiras comuns e respeitáveis, dando origem aos totalitarismos e aos seus genocídios”. O Estado Islâmico e de outro modo a Al-Qaeda e as suas variantes, têm uma mentalidade totalitária com raiz no Islão radical.

Quando Nixon, depois de desindexar o dólar do ouro, negociou com a Arábia Saudita, na altura de longe o maior produtor de petróleo e o fiel da balança do mercado petrolífero, o dólar como moeda única na transacção do ouro negro, deu o primeiro passo na direcção actual. A Arábia Saudita, garante dos petrodólares e do seu futuro, ficou com a liberdade e a possibilidade de instalar e multiplicar as mesquitas que divulgavam e divulgam o wahabismo, o fundamentalismo islâmico. É nessas mesquitas que se radicalizam, em todo o mundo, os muçulmanos o que ainda é mais fácil e rápido quando na Europa as populações árabes e magrebinas, de primeira ou segunda geração, são fortemente atingidas pelo desemprego, que se vai agravar com a crise dos refugiados É esse o caldo de cultura que políticas geoestratégicas desvairadas dos EUA e dos seus aliados, em que as invasões do Afeganistão e do Iraque decididas por Bush, as Primaveras Árabes um caminho directo para o Inferno, a invenção de uma oposição moderada síria para derrubar um ditador que é quase um democrata quando comparado com o rei e os dignatários sauditas e os emires do Qatar ou do Bahrein, que lançaram o caos e a desordem, possibilitando a instalação de um Estado que ocupa um território extenso, tem estruturas administrativas e militares, meios financeiros obtidos por generosas dádivas sauditas e qatares e as angariados pelo roubo do petróleo e bens patrimoniais que contrabandeiam através da Turquia, um membro da NATO, enquanto exportam o fundamentalismo e o terror para todo o mundo.

O estarem actualmente em recuo no Iraque e na Síria, sublinhe-se o papel importante e decisivo da Rússia e dos curdos, sistematicamente bombardeados pela Turquia, amplifica o seu desespero na luta pela sobrevivência, continuando respaldados sobretudo pela Arábia Saudita e pelo jogo duplo da Turquia que chantageia com êxito uma Europa desorientada.

Fingir ou ocultar os problemas dessas geoestratégias, como fazem os monteiros e os tavares deste e do outro mundo, que Miguel Tiago enunciou correndo todos os riscos da simplificação, é condenar-nos todos a ficar reféns da barbárie. Do terror fundamentalista na Europa, em África, na Ásia no Médio-Oriente, porque o que está a acontecer não é uma guerra entre civilizações, nem uma guerra religiosa. A história está cheia de processos de miscigenações e aculturações que desmentem essa visão.. Quem pensa assim está a alimentar a xenofobia e o ódio. A não ter qualquer horizonte de futuro, continuando com os pés enterrados no pântano a que nos conduziram essas políticas. É não ver que tudo isto acontece por objectivos pré-estabelecidos, mesmo quando salta fora dos eixos e do controle de quem os traçou.

Standard