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As Cruzadas da Terra Plana

O obscurantismo das direitas é tão ignaro e obsceno, de uma ignorância tão desaforada, que muitas das suas intervenções são um circo de dislates que se encastram nas mentiras vendidas em cima da hora.

Detalhe de «A máquina de chilrear» (em inglês, «The twittering Machine»), pintura de Paul Klee (1879-1940), no Museu de Arte Moderna (MOMA), em Nova Iorque, EUA.
Detalhe de «A máquina de chilrear» (em inglês, «The twittering Machine»), pintura de Paul Klee (1879-1940), no Museu de Arte Moderna (MOMA), em Nova Iorque, EUA.Créditos

Ainda não há muito tempo falava-se na excepção portuguesa em relação à Europa de por cá não ter aparecido uma direita radical, a açucarada designação dos novos fascismos conformados e confinados às normas formais democráticas, enquanto esperam melhores tempos.

Várias explicações eram tentadas. A mais elaborada era a de em Portugal nunca ter existido verdadeiramente um fascismo, o que não propiciaria o surgimento de um movimento nacionalista populista, ficando a direita mais à direita acomodada num partido dito democrata-cristão cada vez menos cristão e democrata e a direita envergonhada dispersa em partes desiguais pelos partidos que ocupam o centro e o centro-esquerda do espectro partidário, empurrados mais para a direita ou mais para a esquerda conforme as sortes eleitorais. Teorias que objectivamente lavavam e lavam o salazarismo-fascismo e sequente marcelismo-fascismo do estigma fascista apresentando-os como conservadores nacionalistas, autoritários, até tecnocráticos, como se o fascismo não se defina por ser a forma extrema de ditadura do capital exercendo a mais dura repressão sobre os trabalhadores e as massas populares. Os quarenta e oito anos de ditadura fascista com o seu partido único e um parlamento farsola, as suas organizações para-militares, Legião e Mocidade Portuguesa, a polícia política activíssima que durante esses anos prendeu e torturou quase 30 mil portugueses , mais de dois presos por dia – um número que peca por defeito já que as estatísticas policiais só começam em 1936, dez anos depois da ditadura militar que o instaurou e de, em 1933, o regime ter sido institucionalizado num plebiscito viciado – são menorizadas ou ocultadas por essa gente que se entretém a discutir o sexo dos demónios fascistas, como se as ideologias não fossem directamente dependentes das condições económicas de produção e ser essa a sua base, como Marx liminarmente evidenciou em Para a Crítica da Economia Política:

«Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem»,

depois de já ter afirmado, em A Ideologia Alemã, que

«a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

«Sem mãos a medir», cartoon de João Abel Manta (1928), publicada no semanário «Sempre Fixe», a 4 de Maio de 1974. Créditos

O fascismo nacional de facto foi diferente em muitos aspectos dos outros fascismos porque, tal como os outros fascismos, era moldado em função de contextos económicos e sociais particulares em que se impunha. Mesmo nos seus quarenta e oito anos de vigência alterou-se circunstancialmente sem perder nenhuma das suas características fundamentais, defendendo e privilegiando com violência o capital financeiro, industrial, agrário. Depois do 25 de Abril a sua lavagem foi imediata, embora algo tímida e com respiração assistida, obrigando à mudança de casacas, negócio florescente para alfaiates ou mesmo para o pronto a vestir. Passou das tímidas barrelas iniciais para as máquinas de lavar industriais assim que os grupos económicos do antigamente reentraram no Portugal de Abril pela mão dos governos socialistas do dr. Mário Soares, é bom que a memória aqui também não se apague.

Pouco a pouco as larvas contidas dentro dos casulos começaram a voar juntando-se às outras que sempre andaram por aí dando provas de vida1 mesmo recorrendo às bombas2. O espaço da direita levedou, tornou-se confortável e dominante na comunicação social onde os jornalistas e os comentadores de esquerda, depois de terem sido corridos em força no pós-25 de Novembro3, começaram a ser paulatinamente desbastados até à escassez actual, tanto na comunicação social propriedade das oligarquias financeiras como na do chamado serviço público.

Os lobbies empresariais dos grupos económicos ressuscitados e os novos grupos económicos que já tinham os seus corredores calcorreados por muitos políticos de direita, como são homens avisados e bem experimentados nas técnicas da rapina, estenderam os seus tentáculos angariando políticos, sobretudo das esquerdas vacilantes, de preferência reformados das suas anteriores funções ministeriais, auto-reformados da política activa ou semi-congelados nos seus partidos de origem. É vê-los em diversos cargos de administração ou de assessoria. É ouvi-los a perorar nos mais diversos fóruns das universidades, das fundações, da comunicação social, bolsando um arco-íris opinativo que, se a luz for revertida pelo prisma, mostra a uniformidade que os mais hábeis disfarçam com doce palrar pseudo-académico.

No entanto, tudo continuava a fluir dentro do quadro demo-liberal da badalada lusitana excepção, enquanto Europa fora os fascismos floriam e nas américas trumps e bolsonaros eram democraticamente entronizados das mais variegadas formas e feitios. Estava a chegar a hora de se verificar sem surpresas que a excepção era uma rábula pronta a implodir por a espoleta estar a ser afinada há algum tempo a vários níveis nas diversas plataformas internéticas, mas sobretudo na comunicação social privada e na de serviço público, com as esquerdas cosmopolitas a olharem para o lado para não perderem os acalantos que lhes são concedidos, enquanto as outras ziguezagueavam como sempre por há muito terem perdido o norte ideológico, mesmo qualquer norte, em nome do pragmatismo do não há alternativa. Finalmente a direita trauliteira e caceteira saía do seu estado de viuvez, pronta a conviver mas também a roubar espaço às outras direitas mais acomodadas ao jogo democrático que já lhes tinham propiciado alguns triunfos, nos saudosos tempos da AD, do cavaquismo, da troika. Direitas cujo espaço prosperava nos espaços «livres» da Universidade Católica e dos colégios da Opus Dei, nas universidades privadas, enquanto ia metendo o pé nas universidades públicas, muitas vezes em alianças mais ou menos espúrias com os pós-marxistas, pós-estruturalistas e pós-modernistas, nos lobbies empresariais, nalgumas fundações, nas redes sociais, na multiplicação dos blogues de direita, na comunicação social, com destaque para o Correio da Manhã e o Observador e na imprensa económica, no acesso dos seus articulistas e comentadores a todos os outros media, jornais, revistas, televisões, rádios, mesmo os do dito serviço público, onde estão em franca maioria e têm como seus pares os mais à direita da esquerda socialista.

Um caldo de cultura em que a direita é dominante e ao qual uma parte das elites, com alguns laivos de progressismo, sacrifica os seus débeis ideais para proveitos pessoais nas universidades, nos media, no eclético mundo da cultura. Um caldo de cultura de onde os militantes de esquerda que insistem no carácter contingente da realidade histórica do capitalismo, são banidos. A sopa de pedra da pretensa excepção portuguesa, onde se cozinhavam o ultra-liberalismo, os populismos, as xenofobias, os nacionalismos patrioteiros, os fascismos ainda mascarados, acabou por eleger dois representantes para a Assembleia da República. Seguem duas vias que na foz, que não é em delta, confluem. Um é um finório que embrulha em papel de seda a retórica de um modelo económico que é, até por eles publicamente confessado, o do Chile de Pinochet e o que está em marcha no Brasil de Bolsonaro. O outro é o trauliteiro de serviço que fez limpar o pó às mocas que estavam escondidas nos armários. Embora pronto a com eles fazer alianças o CDS, é ouvir o que sobre o assunto vai dizendo o Chicão – os mimos mediáticos são sempre bem vindos, já a sua antecessora era a Boss AC, um modo de suprir a falta de capacidade pirotécnica das tagalerices feirantes do paulinho – não deixa de se inquietar ao ver a sua base de apoio mais tradicional a ser ratada. Sentem urgência de mostrar serviço, aparecerem nos media. Fazem correrias desatinadas em que a ignorância, vulgar por aquelas paragens, emerge com fulgor.

Numa das últimas incursões Nuno Melo, um fala barato habituado a tropeçar no seu argumentário, sai a terreno para denunciar a inserção de um vídeo do Rui Tavares sobre o Estado Novo numa aula de história da telescola. Como nenhum vício lógico trava esses parlapatões, denuncia isso como se fosse uma leitura marxista do fascismo nacional, uma demonstração de perigosa presença marxista no ensino o que, no caso até é uma impossibilidade por o Rui Tavares não ser nem nunca ter sido marxista, basta ler alguns dos textos que regularmente publica na comunicação social onde é um dos eleitos pelos critérios editoriais prevalecentes.

Dando isso de barato o Melo intitula o texto «A supremacia do marxismo cultural» e, para melhor exibir a sua crassa incultura, começa por citar Marx: «As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante.» O filisteu nem percebe que a leitura da tese de Marx demonstra rigorosamente o contrário do que ele quer demonstrar. O proletariado, as classes trabalhadoras e os seus companheiros de luta estão muito distantes de serem a classe dominante pelo que o seu pensamento nunca poderia ser o dominante.. O escrito do Melo, os escritos dos melos mais ou menos broncos, são a demonstração da evidência da tese de Marx, são a mostra de que a força intelectual dominante é a da burguesia. A burrice do Melo, dos melos, é uma vulgaridade que se comprova a toda a hora mas também patenteia o obscurantismo que a direita, nos seus vários formatos, vai instilando na sociedade e tem o desejo de impor a Portugal com o mesmo afinco dos 48 anos de fascismo, embora de maneira diversa porque os tempos são outros, .

A preocupação que motivou o Melo a desembestar naquele texto estampa uma das marcas do fim do estado de excepção em Portugal. É trazer para o terreno de batalha da direita o que ainda existe de marxismo cultural, que existe e continuará a existir enquanto pólo de resistência da esquerda que considera que nenhuma realidade por mais hegemónica que seja, como há que reconhecer é o capitalismo actual, pode ser considerada definitiva pelo que não é eterno o seu princípio de dominação. Têm razão em se preocupar com o marxismo cultural ainda que hoje muitíssimo distanciado da hegemonia cultural teorizada por Gramsci, um espectro que os continua a assaltar por insistir em lutar no campo de batalha da luta de classes fora das fronteiras em que as guerras entre os cruzados da santíssima trindade Deus, Pátria e Família e os soldados da tríade Sexo, Género, Raça se travam e em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo.

«A máquina de chilrear» (em inglês, «The twittering Machine»), pintura de Paul Klee (1879-1940), no Museu de Arte Moderna (MOMA), em Nova Iorque, EUA. CréditosMOMA /

O Melo, os melos de aqui e além mar, têm a cultura das selecções readers’s diggest agora reformulada nos mergulhos google pelo que nada na espuma das trivialidades das citações, uma desqualificação normal na anormalidade dos tempos contemporâneos de extensa ignorância e da iliteracia da cultura inculta. Confinado, como grande parte do mundo, aos tweets, aos likes, aos posts das redes sociais deixou de saber ler, se que é que alguma vez soube ler, porque se soubesse ler perceberia que para Marx, para os marxistas numa sociedade burguesa, as ideias dominantes são as da burguesia, o que de maneira radical não permite que possa existir qualquer supremacia do marxismo cultural nessas sociedades. O Melo, os melos, assustam-se com os afloramentos esquerdistas que, sobretudo no campo das artes, surgem, mas como são incapazes de penetrar para lá da superfície não entendem que esquerda e esquerdismo são duas coisas diferentes e que esse esquerdismo há muito deixou de ser marxista, embora por vezes não o saiba. Que esses sucessos esquerdistas não fazem parte de projecto cultural algum, competem com a burguesia nos entretenimentos com mais ou menos condimentos culturais, o que também contamina alguma esquerda, fazendo-a sofrer desse vício intrínseco da cultura nos nossos tempos.

Essas direitas globalmente, com poder crescente, foram e são adubadas por uma cultura falsa que se apresenta como um pensamento mágico para assegurar a sobrevivência do capitalismo neoliberal simulando que a financeirização da economia é uma hipótese de crescimento num sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano. À esquerda, às forças ditas progressistas, há que assacar a enorme responsabilidade de terem feito e persistirem em fazer enormes concessões à elite do poder de direita com um oportunismo desbragado que tem nos sociais democratas a sua forma mais emblemática na Terceira Via do trabalhismo thactcherista de Tony Blair, no campo comunista, no eurocomunismo de Berlinguer, Carrillo, Marchais, renunciando mesmo à sua função moral, emparceirando alegremente com as instituições do poder dominante, alinhando com as suas mais desabusadas arengas patrioteiras, criando um território vazio onde se plantaram as esquerdas cosmopolitas agitando as novas e esburacadas bandeiras das causas fracturantes e identitárias, uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias. Objectivamente é alguma esquerda a ausentar-se de apontar ao que deveria ser o alvo da sua luta, transformar a sociedade e a vida, o que continua a ser o alvo da esquerda consequente, a que insiste na casualidade da realidade histórica do capitalismo. Toda esta situação dá espaço e lugar aos populismos de direita, à extrema-direita do Estado-empresa, às novas ditaduras, por mais fachadas democráticas com que se pintem.

O obscurantismo dessas direitas é tão ignaro e obsceno, de uma ignorância tão desaforada que muitas das suas intervenções são um circo de dislates que se encastram nas mentiras vendidas em cima da hora o que muito deve preocupar e alertar por não ser nada inocente, ter a mesma utilidade das fake news, a sua arma mais poderosa, que estercam os nóveis democratas ditadores, enxertam-se na geopolítica dos trumps, são a imagem de marca dos venturas e salvinis com a perigosíssima eficácia de mesmo sendo factualmente falsas, mesmo que se provem ser falsas, nunca deixam de ser emotivamente verdadeiras, com lógica evangélica que a terra é plana e o sol roda à sua volta.

É esse o armamento dos populismos mediáticos que não se podem combater com soluções fáceis por o campo de batalha estar minado e só poder ser ultrapassado com armaduras bem forjadas em princípios ideológicos resilientes aos cantos das sereias que acreditam que um anticiclone dispersará os ventos obscurantistas sem que o céu seja limpo do totalitarismo invertido em que o imperialismo neoliberal obtém os máximos lucros materiais e imateriais do empobrecimento moral, intelectual e económico dos indivíduos, iludindo os fogos reais das suas políticas.

  • 1.Cunhal, Álvaro; A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril, Edições Avante!, 1999.
  • 2.Carvalho, Miguel; Quando Portugal Ardeu, Oficina do Livro, 2017.
  • 3.Cardoso, Ribeiro; O 25 de Novembro e os media estatizados – uma história por contar, Editorial Caminho, 2017.
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O SOM E A FÚRIA

Para o capitalismo e seus representantes, para os mais lestos empreendedores, tudo se pode transformar em oportunidades para gerar negócios e lucros. A pandemia do coronavírus não será excepção.

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O Jardim das Delícias Terrenas, Hieronymus Bosch, 1504CréditosHieronymus Bosch

A crise universal provocada pelo coronavírus, se irá ter impactos ainda imprevisíveis em todos os planos das nossas vidas individuais e colectivas, na vida social, no estado das nações também é uma janela de oportunidade para os abutres neoliberais. Sendo os mais velhos e os mais pobres os mais vulneráveis é a janela por onde a senhora Lagarde está a olhar depois de ter afirmado que «os idosos vivem demasiado e isso é um risco para a economia global. Há que tomar medidas urgentes»Tem a companhia de Dan Patrick, vice-governador do Texas a dizer sem qualquer sobressalto na consciência «que as pessoas mais velhas preferem morrer a deixar que o Covid19 prejudique a economia dos Estados-Unidos». Enquanto se rebolam no eugenismo neoliberal, dando razão ao personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne quando afirma «que os novos nazis são democratas», noutra janela com vidros da mesma fábrica espreita a ministra da saúde da Lituânia, Rimantė Šalaševičiute, membro do PSD Lituano, que declarou pouco depois de tomar posse, em 2014, que a eutanásia deveria ser considerada como uma boa opção para os pobres que não podem pagar os cuidados de saúde. Trump não conseguiu escancarar uma outra janela siamesa, mas bem o tentou quando quis fazer mão baixa dos trabalhos de um laboratório alemão para encontrar uma vacina contra o covid 19, só não a abriu porque o governo alemão e o próprio laboratório se opuseram. Para o capitalismo, para o capitalismo e seus representantes, para os mais lestos empreendedores tudo se pode transformar em oportunidades para gerar negócios e lucros. A pandemia do coronavírus não será excepção. Marx escreveu (há quem atribua a frase a Lenine, mas si no e vero e ben trovato) “o último capitalista que penduramos será aquele que nos vendeu a corda”. Vende a corda mesmo sabendo que já não poderá investir o dinheiro ganho. O capitalismo é um animal predador sempre insatisfeito parasitando um mundo onde «a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção directa com a valorização do mundo das coisas». (Karl Marx, Manuscritos Económico-Filosóficos, edições Avante!).

Vive-se um período excepcional de que sairá sem se ter a certeza por que portas e que portas se abrirão e para onde abrirão. As nossas vidas em quarentena estão, as mais privilegiadas, ligadas à máquina das nuvens informáticas que a alimenta abundantemente enquanto nos alimentamos solitariamente com o que vamos despejando dos frigoríficos e das despensas até sermos compelidos a recorrer, os que têm capacidade económica para isso, às ofertas do takeaway ou nos sujeitarmos às penosas mas necessárias filas às portas dos supermercados.

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Ao Povo Alentejano, Jorge Pinheiro, 1980

Vive-se um global estado de excepção que suspende o normal funcionamento das condições de vida em países inteiros que redescobrem que as suas fronteiras afinal são uma linha que as protege. Irão descobrir ainda mais quando perceberem ou quando começarem a perceber, mesmo a contragosto, que o que cederam de soberania nos últimos decénios agora lhe faz falta para enfrentarem a crise. Na Europa para uns, os desde sempre descrentes nas virtudes e na bondade do projecto da União Europeia (UE), por que bem sabem que esta, por mais ouropéis que lhe deitam para cima, é a Europa dos ortodoxos neoliberais ao serviço das elites oligárquicas, dos banqueiros e dos especuladores, a falta de solidariedade no espaço da UE era esperada, à imagem do que têm feito com os países mais débeis economicamente e o modo como trataram as crises provocadas pelas dívidas soberanas. Para outros, os europeístas mais ou menos convictos que ainda tenham alguma honestidade intelectual, todos aqueles que, apesar e contra todas as evidências, insistiam e insistem em ver predicados nessa UE ao serviço do capital financeiro, o vazio político das poucas medidas anunciadas, a frieza, o desprendimento e a incompetência com que os dirigentes da UE tem tratado este estado de sítio, a ausência de qualquer apoio solidário aos países membros – o caso italiano é o mais gritante – deve finalmente fazer disparar o alarme em vez de carpirem jeremiadas com que disfarçam a realidade. A ver vamos se merecem que se lhe seja concedido um frágil benefício da dúvida. Sublinhe-se que foi preciso a Alemanha adoptar um orçamento rectificativo largamente deficitário, que suspende o travão da dívida que figura na constituição alemã e prevê uma recessão de 5%, para a presidente da Comissão Europeia anunciar que ficam suspensas as regras de disciplina financeira europeia, o malfadado Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), com que têm garrotado os países economicamente mais frágeis em benefício dos mais fortes que têm lucrado com essa situação de desigualdade. O Eurogrupo, essa instituição informal presidida por Centeno, sempre servil e dependente das directivas teutónicas, agora pode seguir as pisadas do patrão dando-se a liberalidades que nunca teriam coragem de propor. A ver vamos se debaixo do tapete não estão já plantadas sementes de troika. Essa gente é capaz de tudo.

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Cartoon de Eneko, nome artístico de Eneko de las Heras Leizaola, desenhador e humorista vasco nascido em Caracas (Venezuela) em 1963. Em 2018 foi o ilustrador escolhido para desenhar o cartaz dos prémios Liberpress (Espanha). CréditosEneko / Le Grand SoirInsira um título

Uma das curiosidades despoletadas por esta crise são as reviravoltas dos mais estrépitos governantes neoliberais empurrados contra vontade a assumirem odiadas e malfadadas medidas socialistas ressuscitadas dos escombros do Welfare State e outras, como as nacionalizações ainda faladas entre-dentes. Com o caos a alastrar não podem fazer o que lhes vai na alma bem sintetizado num cartoon: privatizar a saúde, socializar a dor. Fazem-no com mal disfarçado ranger de dentes menos barulhento que o nosso ranger de dentes de fúria ao assistirmos ao FMI a recusar qualquer apoio à Venezuela; ao ignóbil e inominável Trump ameaçar com mais sanções um Irão muito fustigado pelo covid 19, bloqueando a importação de medicamentos e aparelhos sanitários; ao ouvir o secretário de Estado francês dizer que isto é um boa oportunidade para se fazerem bons negócios na bolsa, um convite à especulação que já andava de freio nos dentes pré-crise; ao presenciar o desembarque de milhares de soldados norte-americanos na Europa, para realizarem os maiores exercícios militares de sempre da NATO contra um suposto inimigo; ao ver as grandes empresas norte-americanas a pedir o dinheiro dos contribuintes para serem salvas e que são as mesmas que nos últimos anos gastaram milhares de milhões de dólares a comprar as próprias acções em bolsa para as valorizar artificialmente e distribuir chorudos dividendos; ao assistir às manobras do cavalheiro da indústria que ocupa a presidência dos EUA à coca de onde pode ganhar algum com a crise, sem se preocupar por os EUA serem já o país do mundo mais infetado e onde a saúde é um negócio pelo que o número de vítimas prevê-se brutal; ao ver os especuladores a esfregar as mãos preparando-se para saltar e fazer subir as taxas de juro sobre as dívidas soberanas mais expostas de países praticamente impotentes por terem entregue de mão beijada a sua soberania a instituições supranacionais; ao presenciar o espectáculo dos que, tendo informação privilegiada sobre a crise, como os senadores norte-americanos da comissão da saúde, a aproveitaram para se livrar de acções problemáticas.

Para nossa fúria, a lista das ignomínias não pára de crescer.

Fúria ainda ao assistir praticamente à ocultação das acções solidárias para com os países europeus feitas por Cuba, China e Rússia ou quando lhe concedem menos minutos que a um qualquer futebolista que entrega um donativo equivalente a dois pneus de um dos carrões que enchem a sua garagem. Fúria igual à daquela cientista empenhada em investigações para se alcançar uma vacina e que ganha menos de um décimo dos mais bem pagos desportistas. Fúria ao assistir à hipocrisia e ao cinismo da tropa fandanga dos comentadores e de alguns políticos que colocam a tónica nas faixas, etárias em que a mortalidade é maior para mascarar as diferenças de classe entre os mortos. facto ainda mais camuflado pelo relevo dado a um qualquer famoso vitimado entre milhares de outras vitimas. Fúria com essa tropa fandanga que distrai a atenção da malta não referindo que os países que melhor têm resistido à pandemia são os que têm serviços nacionais de saúde mais robustos; fúria com os que estão sempre a por em causa, alguns com melífluas vozes de bandido, os serviços nacionais de saúde.

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Detalhe do mural «O movimento social do trabalho» (1941), no Supremos Tribunal de Justiça da Nação, no México, do muralista mexicano José Clemente Orozco

Fúrias que nos assaltam todos os dias quando descascamos o lado oculto da pandemia e descobrimos mais uma golpada para lucrar com a crise, mais uma espadeirada no mínimo de solidariedade que se devia exigir, mais uma tentativa de semear o pânico, mais uma mentira grande ou pequena para socavar o trabalho dos SNS, por mais uma declaração canalha de um dos representantes do capitalismo predador, fúria ainda ao verificar as tentativas de por em prática a «doutrina de choque» (1) a alastrar como um vírus dentro do outro vírus, de forma mais benigna ou mais maligna. Fúria quando se torna público que no dia 18 de Outubro de 2019, dezena e meia de tecnocratas de luxo ao serviço das mais altas esferas do regime neoliberal globalista reuniram-se num hotel de Nova York para realizar «um exercício pandémicode alto nível» designado Event 201; consistiu na «simulação de um surto de um novo coronavírus» de âmbito mundial no qual, «à medida que os casos e mortes se avolumam, as consequências tornam-se cada vez mais graves» devido «ao crescimento exponencial semana a semana». Ninguém ouvira falar ainda de qualquer caso de infecção. O rol é extenso e todos os dias se tropeça em algo que desperta a fúria com todas estas políticas vendidas ao poderoso caballero (qui) es don dinero (Francisco Quevedo) agora catalisadas pela pandemia do covid19.

Verdadeiramente alarmante é que, no meio do turbilhão apocalíptico que se vive, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, mesmo quando este mostra todo o esplendor da sua face canibal e prova ser incapaz desnudando a sua decadência. É o triunfo do pensamento único neoliberal, ainda que temporalmente condenado, que tem o objectivo último de já não ser possível pensar que é possível pensar uma sociedade outra, que conseguiu contaminar e continua a contaminar as esquerdas cosmopolitas, por onde ainda viaja muita gente séria e empenhada. Pensamento único neoliberal, que procura o improvável e impossível absurdo de, depois de séculos de duras lutas contra a exploração do homem pelo homem, que exigiram inúmeros e heroicos sacrifícios, em que milhões de pessoas se sacrificaram e foram sacrificadas, não haver ninguém para assistir à última cena de uma ópera, em aplauso desses séculos de lutas, quando o último capitalista, depois de vender a corda, vai ser enforcado.

A fúria que nos assalta tem que se transformar em som. Tem que ser o som da luta política, social e cultural em que a esquerda consequente e determinada – a que sabe que o capitalismo, por mais hegemónico e consistente que se apresente, como é o capitalismo actual ainda que corroído pelo coronavirus, tem sempre um carácter historicamente contingente – se envolve e empenha dia a dia, hora a hora, para sair deste furacão catalisador de uma crise anunciada, esclarecendo e denunciando todas as formas o estado de excepção que o transformem numa interrupção da vida em que as principais vitimas serão os trabalhadores. Som a denunciar a inverdade de todos estarmos expostos de igual modo ao vírus e a todas as consequências que se verificarão quando todas as emergências forem ultrapassadas. As classes, a luta de classes existe, até mais fácil percebe-la com a evidência de não ser a mesma coisa enfrentar a crise com o salário mínimo ou com os fabulosos honorários dos presidentes das maiores empresas cotadas no PSI20, de não ser a mesma coisa quatro pessoas estarem confinadas de quarentena num T1 de uma torre nos subúrbios do Porto ou de Lisboa e quatro pessoas viverem-na numa moradia com jardim e piscina à beira mar plantada.

Som de alerta para ter sempre bem presente que a luta de classes não entra em coma, mesmo assistido, com a pandemia. Som que se sobreponha a todas as trombetas do apocalipse capitalista.

(publicado em AbrilAbril http://www.abrilabril.pt )

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Síria e as Dores Humanitárias – Um Sermão aos Peixes

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Andam no Facebook e nos blogues uns idiotas, alguns julgam-se inteligentes, que se masturbam alegremente vertendo lágrimas pelo pobre povo sírio, cuspindo sobre quem, com um rasto de racionalidade, desmonta as cabalas contra o exército sírio e seus aliados que só tem por único objectivo atrasar as batalhas contra a Al-Qaeda seus heterónimos e uns improváveis rebeldes enquadrados pelos terroristas. Compram as últimas novidades no supermercado da comunicação social estipendiada dos conglomerados gigantes dos media que pertencem ao poder oligopólico dos Murdoch, Times Warner/CNN, Viacom, Disney/ABC, TCI(Tele-Communications, Inc), Sony, Bertelsmann, mais uns regionais como Rede Globo no Brasil, Berlusconi na Itália, Televisa no México, que tecem uma teia universal de interesses cruzados que mesmo quando fingem concorrer entre eles estão a concorrer para que o pensamento único não sofra nem sequer cócegas. A eles se juntam uma girândola de ONG’s que trabalham para a agenda secreta dos EUA, a evidente está nos relatórios de geostratégia, (nem a leram! porra dá trabalho!) sem nunca conseguirem perceber que condenar os bombardeamentos, aliás condenar desde o principio esta falsa guerra civil que nunca o foi, não é defender Assad nem sequer dizer que ele não é um ditador. É fazer frente, nessa frente, às guerras directas ou por interpostos protagonistas que o imperialismo promove em todo o mundo para manter o seu poder unilateral. Assad é um ditador só que por aquelas bandas um ditador como Assad até parece um democrata quando comparado com o rei saudita e os emires amigos. Nas versões mais comedidas esticam a língua de pau acusando os que condenam e denunciam a guerra na Síria de se estar colar a Assad a barra de códigos do mal menor. Vertem abundantes lágrimas humanitárias para sorna e desonestamente defenderem a destruição da Síria na fogueira das primaveras árabes com os resultados que estão à vista para, no curto prazo, meter a mão nos recursos energéticos e a médio prazo garantirem a continuidade da rapina de uma economia que vampiriza as bolsas, arruína países e, num abrir e fechar de olhos, fabrica milionários, cada vez menos e com maior riqueza concentrada nas suas mãos e empobrece cada vez mais pessoas. É nesse lado, o lado que se colocam! O resto são cantigas e os povos que se lixem e sofram. Nos seus transes humanitários já esqueceram as 250 mil crianças mortas e estropiadas no Iraque. Os danos colaterais da Madeleine Allbright que, sem uma ruga de compaixão, considera que esse foi um custo necessário e justificado! Agora, fingem-se horrorizados com os dramas violentíssimos do povo e das crianças sírias. Estão e continuarão a estar escondidos de baixo da saia da madama! Haja decência! Alguma água fria nessa indignação de pacotilha. O resultado do apoio do Ocidente aos jihadistas, é bom lembrar que as cenas das primeiras decapitações foram na Bósnia com mercenários vindos principalmente do Afeganistão e aborígenes convertidos a essas práticas, foi o avanço brutal e impetuoso dos terroristas, armados e financiados pelo Ocidente, até à formação do Estado Islâmico. Na prática o que estava a suceder na Síria acabaria por ser muito pior que a resultante das “primaveras árabes”, a Líbia é o exemplo mais exemplar, que dariam um outro impulso aos terroristas e ao terrorismo no mundo. A entrada da Rússia estragou esses planos. Não o fez por amor à Síria, ao povo sírio. Fê-lo, entre outras razões, porque na Federação Russa há várias repúblicas onde os muçulmanos são maioritários. Repúblicas que forneceram e fornecem bastante mão de obra ao Estado Islâmico à Al-Qaeda, eram um perigo crescente dentro da Federação Russa e nas suas fronteiras. Na Ucrânia estão dois batalhões do Estado Islâmico que combatem ao lado dos grupos armados neo-nazis contra os separatistas ucranianos. Isso explica parcialmente a entrada da Federação Russa, tem essas potenciais bombas dentro do seu território que nem precisam de ser catalisadas pelo esforço que a Arábia Saudita começou a fazer durante a Guerra Fria na Europa implantando mesquitas para radicalizar os árabes com o resultado que se vê à vista desarmada. Outra das razões é a ameaça às bases militares russas que dão acesso ao Mediterrâneo que, conjuntamente com as da Crimeia, são as únicas bases navais em águas temperadas. São também as únicas bases militares da Federação Russa fora do seu território contra as 50 da NATO nas suas fronteiras.

A questão nuclear da guerra imposta à Síria está na geoestratégia dos EUA que tentam manter um mundo unipolar e por isso cercam a Rússia e a China. A Síria, para mal dos sírios e, pelo andar dos acontecimentos, para bem de Assad que já beneficiava de ter uma oposição medíocre internamente corroída por fortes dissensões, por mais que as potências ocidentais tentem colar aqueles cacos não o conseguem como se tem assistido nas conferências que se têm realizado sob a égide da ONU e nada garante que sejam melhores que Assad. Estar contra a agressão na Síria, não é estar a favor de Assad, mas é estar contra o que se continua a assistir no norte de África e noutros países do Médio Oriente com a implantação de estados falhados que passaram para segundo plano na máquina de propaganda que são os media ocidentais. Convém não esquecer a volatilidade do Ocidente na classificação dos ditadores. Saddam Hussein e Muhamar Khadaffi passaram de ditadores amigos para ditadores inimigos quando um começou a tentar vender petróleo em euros e o outro, mais ambicioso e com mais meios, estava a tentar instituir o dinar-ouro para vender o seu petróleo e tornar essa moeda a moeda padrão das transacções comerciais no continente africano.

Iraque

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Pormenores, questões sem importância para essa gente, mas já agora vejam a nova partilha dos campos de petróleo no Iraque e a que está em marcha na Líbia. É esclarecedor para os que julgam que as razões económicas são secundárias e o traçado dos pipelines uma redundância. Georges Bush não teve papas na língua ao afirmar, em 1992 no Rio de Janeiro, porque os EUA se recusavam a assinar a Convenção da Biodiversidade “é importante proteger os nossos direitos, os direitos dos nossos negócios”. São os negócios que continuam na linha da frente na Síria e no Iemen, onde o desastre humanitário é muitíssimo maior, mas não comove a banda que por aqui vocifera, embora seja estranho ou então explica porque existe nuns casos tanta comoção e noutros omissão e um atroador silêncio. São tudo peças no baralho da unipolaridade que está ameaçada e quer dar sinais de força. Há uns tantos mais imaginativos que sobrevalorizam a questão religiosa, sunitas e xiitas, secundária e instrumental.

A realidade é muito mais complexa e nada pior que uma potência em decadência económica seja a mais poderosa militarmente. São várias as ameaças ao estado actual em que os EUA são dominantes, em que é vital sustentar a qualquer preço o dólar, obrigar os países a financiar o seu gigantesco imparável e impagável défice. Os BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento são uma séria advertência apesar das grandes diferenças entre eles. Está atento o Big Brother, as golpadas no Brasil procura enfraquecê-los. Outros lances têm efeitos mais devastadores a médio e longo prazo. A mais recente e maior, com efeitos imediatos mas que se anunciam devastadores a médio e longo prazo, foi a abertura da Bolsa de Internacional Energia em Xangai, em que se negoceia petróleo em yuans convertíveis em ouro, que logo na sua primeira sessão, em finais de março, ultrapassou as vendas de petróleo nos outros mercados. Isso coloca em causa os petrodólares directamente nos mercados do petróleo e o dólar como principal moeda nas trocas internacionais, como foi negociado por Nixon com a Arábia Saudita, que é quem comanda a OPEP, quando desindexou o dólar do ouro, Aqui volta-se a Síria que é um ponto fulcral na Rota da Seda que a China está a arraigar. Já o era na Rota da Seda original. Esse o pano de fundo dessas guerras e da guerra na Síria. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts. Na Síria com ou sem Assad, com Assad ditador ou com um Assad democrata, o que é indiferente, a questão central é se qualquer um dos dois, por estratégias que até podem ser completamente diferentes, segue ou não uma política que escape à influência dos EUA. Ditadores como Saddam Hussein ou Muhamar Khadafi, democratas como Jacobo Arbenz ou Salvador Allende, quando tentaram escapar a essa órbita foram liminarmente eliminados. O cinismo e a hipocrisia é a dura realidade, invocar a democracia em relação à Síria é mero pretexto vazio de substância. Razão tinha e tem o Orwell quando escreveu “para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitário”. Os posts e os comentários que se colam no FB e em blogues atacando o regime sírio avalizam Orwell. Andar aos balanços sem perceber isso é ser um idiota útil, por mais camadas de humanitarismos com que se besuntem e verdades, meias-verdades e mentiras que centrifuguem. São as vitimas consentidas por vontade própria do que Harold Pinter denunciou ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose altamente conseguido”. São parte inteira dessa manipulação. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos em que se praticam acções, como as que se estão a assistir. Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”. Para essa gente este texto é um Sermão aos Peixes, uma inutilidade nesse areópago de personagens Monty Python. em que os terroristas quando passam a fronteira da Síria transformam-se magicamente em rebeldes, em que há muçulmanos maus mas os fanáticos sauditas são sempre bons. Fanáticos do Isis eram maus ou bons até fugirem ao controle e serem todos maus. A Rússia é sempre má. A China está a seguir o caminho de também o ser. Mais uma vez recomenda-se a leitura do último documento de geoestratégia dos EUA. Os terroristas já não são o inimigo principal, o inimigo principal são a Rússia e a China. As denúncias, pouco fundamentadas ou nada fundamentadas, dos ataques químicos na Inglaterra e na Síria ficam transparentemente explicados. Os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir” são a sua arma de arremesso que dispara sem contemplações sobre qualquer investigação que seja razoavelmente independente. A farsa das propostas de investigação que Nikky Haley fez e continuará a fazer no Conselho de Segurança da ONU seguem essa máxima. Recorde-se Hillary Clinton e o telegrama que enviou a várias embaixadas em que, depois de referir que a Arábia Saudita era um valioso e imprescindível aliado, sublinhava que “a Arábia Saudita continua a ser um apoio financeiro crítico para a Al- Nustra, os talibans, a Al-Qaeda”. Os saudosos e quase esquecidos talibans também já foram bons, eram os combatentes pela liberdade no Afeganistão nos tempos de Reagan. As armas químicas também já foram boas quando países da NATO as forneceram a Saddam Hussein quando este estava em guerra com o Irão. Era um bom ditador como hoje são os sauditas e os emires dos países do Golfo. É de lembrar que a tortura nem sempre é má, se for praticada em Guantanamo já é legítima. 

Um mundo às avessas em que não se pode andar como o bando de cegos de Brueghel, o Velho, empunhando as bandeiras esburacadas de um humanitarismo fatela.

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Armas Químicas, Boris Johnson, Comunicação Social, Donald Trump, Emanuel Macron, EUA, Geral, Laboratório SPIEZ, OPCW(Organização para a Proibição das Armas Químicas), Reino Unido, Sergei Skripall

A GRANDE FARSA

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O caso Skripall teve um desenvolvimento inesperado. Tanto o laboratório militar de Porton Down como a OPCW ( sigla em inglês da Organização para a Proibição da Armas Químicas) não conseguiram identificar o agente químico usado na tentativa de envenenamento de Sergei Skripall e da sua filha Youlia. A OPCW enviou as amostras que Londres lhe tinha facultado para o laboratório suiço Spiez, laboratório que é referência mundial nos estudos técnico-cientificos das ameaças derivadas de acidentes nucleares, biológicos e químicos.
O agente químico foi identificado como BZ, nunca produzido na União Soviética ou na Rússia. Quem o produz são os Estados Unidos da América e o Reino Unido e quem os usou ou usa os países da NATO.
A OPCW já noticiou qual o agente químico utilizado, ocultando quem o produz e quem o detém o que, no mínimo, é pouco sério.
O que dirão agora Theresa May e Boris Johnson, depois de tantas certezas e da guerra diplomática que desencadearam? Que dirão Trump e Macron? E os outros países que tão pressurosamente alinharam com as teses desses farsantes? E os media sempre tão apressados a ribombar tambores com as diatribes dessa gente? Fica-se à espera dos próximos capítulos desta novela que só se pode tornar ainda mais rocambolesca. Com tais trapaceiros tudo é possível. Até podem dizer que os russos roubaram o BZ, que deve andar aos deus dará num armazém qualquer ou que compraram umas doses num qualquer Borough Market ou Camden Market. Também é de esperar que cooptem apoios para essa tese nos inúmeros opinadores que poluem os media. Nada de espantar a quem assistiu ontem ao debate na RTP 3 sobre os bombardeamentos à Síria e ouviu os argumentos grotescos de um tal Bruno Cardoso Reis, professor de política internacional do ISCTE. Como serão as aulas daquele idiota útil? É um dos muitos que são impermeáveis à racionalidade e às evidências. Marionetas patéticas ao serviço das oligarquias dominantes, parafusos da gigantesca máquina de propaganda que diariamente nos bombardeia.

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Al Qaeda, Angela Merkel, Armas Químicas, Boris Johnson, Crimeia, Donald Trump, Emanuel Macron, Estado Islâmico, Georges Orwell, Geral, Guerra Fria, Iemen, imperialismo, Jens Stolbernberg, Jens Stoltenberg, jihad, Lewis Carroll, Macron, Médio Oriente, Theresa May

007’s RASCAS e PERIGOSOS

Os 007’s andam por aí em roda livre, sem o gozo nem as peripécias bem engendradas dos guiões cinematográficos. Estes têm objectivos bem definidos, saudosos da Guerra Fria, são rascas e muito mais perigosos.

007

Em Alice no País das Maravilhas, a Rainha de Copas tinha um modo expedito e garantido de resolver todas as dificuldades grandes ou pequenas:“cortem a cabeça!” sem perder tempo a procura de justificação para o acto. À sua semelhança, os dirigentes do «mundo livre» cortam cabeças a esmo verbalmentequando passam à prática, as vítimas são milhões.

Na fronteira entre as alegações do Ocidente e da Rússia sobre o caso Skripal, algumas notas para despejar alguma água fria, racionalismo e realismo, (não confundir com neutralidade ou independência, uma moeda falsa com bastante curso) nos recentes ataques do Ocidente à Rússia que tinham como pano de fundo as vésperas de eleições presidenciais nesse país, antes de Putin ser reeleito como era prevsivel, da Grã-Bretanha estar em evidentes dificuldades nas negociações do brexit, das eleições em Itália adubarem os eurocépticos por toda a Europa, do exército sírio e seus aliados estarem à beira de tomar Gouta e de se ter tornado uma evidência que os terroristas, assim chamados pelos media ocidentais em Mossul, logo travestidos em rebeldes em Gouta como o foram em Aleppo, sequestrarem os civis e dispararem sobre os que se aventuram nos corredores humanitários e terem os instrumentos para fabricar armas químicas, da guerra comercial que está a ser instalada com o proteccionismo norte-americano e mais uns quantos mas não despiciendos conflitos de baixa e média intensidade em que se procura manter a unipolaridade norte-americana que está a ser fissurada.

Notas que têm bem presente duas frases de Georges Orwell que se aplicam perfeitamente ao autodenominado «mundo livre»: para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos que viver num país totalitárioe “numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um acto revolucionário.“
Primeira Nota– Os «novitchoks», supostamente usados na tentativa de assassinato de Skipral e filha, em que o químico Mirzanyanoy trabalhou num laboratório secreto da União Soviética podem, escreveu ele em 1995 nos EUA onde reside fugido da Rússia, ser fabricados num qualquer laboratório químico de relativa sofisticação. Num livro publicou várias fórmulas de armas químicas, que andam a circular na internet.. A dra Robin Black, chefe de um laboratório investigação militar em Porton Down, Salisbury, numa declaração feita em 2016, coloca alguma dúvidas:Nos últimos anos, tem havido muita especulação sobre uma quarta geração de agentes nervosos (inovações “Novichok”) tivesse sido desenvolvida na Rússia, tendo sido iniciada nos anos 70 do século passado como parte do programa “Foliant”, com o objectivo de encontrar agentes que pudessem comprometer as contramedidas defensivas. Informações sobre estes compostos têm estado dispersas no domínio público, provenientes principalmente de um químico militar russo dissidente, Vil Mirzayanov. Não há confirmação independente da estruturas ou que as propriedades desses compostos tenham sido publicadas”.

São conhecidos outros países que estudaram a mesma tipologia de compostos químicos como a Checoslováquia, a Eslováquia, a Suécia, a Inglaterra e os EUA.

Segunda NotaA investigação e desenvolvimento das armas químicas na União Soviética estavam centralizadas num laboratório no Uzbesquistão, onde trabalhou Mirzanyanoy, república que se tornou independente quando da desagregação da União Soviética e não integra a Federação Russa. Actualmente, quem tem presença militar nesse país asiático são os EUA com uma base militar. Anote-se que os EUA participaram activamente no desmantelamento do referido laboratório de armas químicas.

Terceira Nota– Theresa May e o comissário Neil Basu, chefe do departamento anti-terrorista da Scotland Yard, tem que se entender. Ela conclui muito rápida que “ a única explicação possível é o Estado Russo ser responsável da tentativa de assassinato de Serge Skripall e a filha” imediatamente corroborada por essa personagem altamente credível que é Nikki Haley, provocadora com várias mentiras no currículo de embaixadora dos EUA na ONU, embora nas suas teatradas não tenha ainda alcançado o patamar de Colin Powell quando desdobrou mapas com a localização de fábricas de armas de destruição no Iraque que não existiam. Diz ela:“ pensamos que a Rússia é responsável(…)”. Macron em linha “tudo leva a crer” no que é acompanhado por Merkel são muitas as pessoas que pensam que”. Neil Basu que já ninguém ouve nem interessa ouvir disse que “o assunto é tão complexo que só uma investigação de semanas o poderá esclarecer”. Uma declaração que fica silenciada debaixo das pedras de explicação possível”, pensamos que” , tudo leva a crer”, “são muitas as pessoas que” , o que é o necessário e suficiente para às investigações dizerem nada ou prepararem-se para fazer investigações de que o Conselho Consultivo Científico (Scientific Advisory Board, SAB) da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW) é convenientemente excluído, talvez por não reconhecido os “novichoks” como armas químicas, porque encontrou poucas evidências de que existam.

Quarta Nota– Alguma estranheza deveria provocar tudo isto acontecer em Inglaterra.

Já Alexander Litvinenko, que se transferiu dos serviços secretos russos para os ingleses e fazia por conta própria contrabando de armas nucleares, foi supostamente assassinado a mando da Rússia, era Theresa May, ministra da Administração Interna. Agora com Serge Skripal, Theresa May é primeira ministra. A histeria é rápida e igual. As dúvidas de Jeremy Corbyn e de outros deputados trabalhistas, lembrando casos como as armas de destruição maciça do Iraque, são rapidamente enterradas ou mesmo nem sequer referidas na comunicação social estipendiada ao serviço do pensamento único.

Nada disto se estranha ao recordar as declarações de Carla del Ponte, que se demitiu da Comissão de Inquérito Independente da ONU para a Síria, depois de ter feito várias denúncias sobre o uso de armas químicas pelos «rebeldes», apontando para o Conselho de Segurança que “não quer fazer justiça”. Lembrar que Carla del Ponte, de 1999-2007, procuradora do Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia, acusou duramente Slobodan Milosevic que antes de ser condenado, o que tudo indicava ser mais que garantido, morreu na prisão e anos antes de completamente inocentado pelo mesmo tribunal dos crimes de que era acusado. Não se poderá dizer que Carla del Ponte seja um agente do Kremlin.

Quinta Nota– A propalada credibilidade da Inglaterra, o rigor dos seus procedimentos nos inquéritos é arrasada em séculos de histórias de mentiras e hipocrisias. Um dos últimos e excelentes exemplos é o relatório do embaixador Chicot sobre a guerra desencadeada por Bush e Blair contra o Iraque. Se por um lado diz que “Em março de 2003, não havia nenhuma ameaça iminente de Saddam Hussein contra o Ocidente” por outro acrescenta que a guerra foi baseada em dados imperfeitos da inteligência e levada adiante de maneira totalmente inadequada”, afirmando que as circunstâncias com as quais foi estabelecida a guerra estavam “longe de serem satisfatórias”. Uma linguagem de trapos ao gosto dos diplomatas, que abriu a porta para Tony Blair se escudar na sua “boa fé”, coisa de que o inferno está cheio. Quantos “dados imperfeitos” ou “decisões inadequadas” são necessárias para desencadear guerras reais ou diplomáticas em circunstâncias “longe de serem satisfatórias” ?

Sexta NotaMuito mais apreensivo e alarmado fica-se ao ouvir o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, reafirmar a solidariedade da NATO perante o ocorrido que se insere num “padrão temerário de comportamento russo ao longo de muitos anos”. O norueguês deu como exemplos “a mistura de armas nucleares e convencionais em doutrina e exercícios militares”. Conclui-se que só à NATO é permitido misturar essas armas em exercícios militares, que é o que tem feito e intensificado ao longo dos últimos anos.

Alega o uso crescente de “tácticas híbridas, como soldados sem insígnias” deve estar a referir-se a acusações feitas pela Ucrânia, em relação à presença de soldados da Federação Russa sem insígnias na Crimeia e nas regiões de Donetsk e Lugansk. A Ucrânia é fonte pouco confiável como é sabido, e tem sido várias vezes desmentida pelos observadores da OSCE que ninguém pode acusar de estar ao serviço dos separatistas ou dos russos. Não deixa de ser curioso que os países da NATO andem a infiltrar no Médio Oriente, em particular na Síria, tropas especiais descaracterizadas, alguns já foram presos pelas forças governamentais sírias, e usem mercenários em larga escala. Como classificará Stoltenberg essa soldadesca e as missões que desempenham a mando dos países da NATO? O homem deve sofrer de forte estrabismo divergente. Olha para a mesma “táctica híbrida”, de um lado vêcticas condenáveis do outro lado táticas legítimas.

Refere a anexação da Crimeia; o apoio aos separatistas na Ucrânia”. Na Ucrânia houve um golpe de estado de forças de direita, para-fascistas e fascistas apoiado pela União Europeia mas sobretudo pelos EUA, como esclareceu de forma célebre para que não houvesse dúvidas Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland, mulher de mão de Hillary Clinton nessas golpadas. A NATO tem apoiado, treinado e armado as tropas regulares e os grupos para-militares que integram dois batalhões do Exército Islâmico, facto real mas menos referido, que nesse país lutam contra os separatistas ucranianos. Será de lembrar que a Crimeia só integrou em 1954 por decreto a República Soviética da Ucrânia. Foi sempre uma região autónoma onde a população russa é maioritária. Tem um enorme interesse estratégico para a Rússia que tem lá instalada uma poderosa base militar no que é o seu único acesso ao Mediterrâneo. É uma evidência que se a Crimeia não tivesse por referendo retornado à Federação Russa, a esquadra do Mar Negro russa seria rapidamente expulsa, fechando de forma impetuosa o cerco que se tem vindo a fazer à Rússia depois da desagregação da União Soviética, o que explica esta disputa e o interesse na Ucrânia e na Crimeia, a ordem é comutativa, para o Ocidente. Outra evidência é que a Rússia conhecendo bem a região, sabendo muitíssimo bem que a população russa e russófona era largamente maioritária recorreu ao referendo para legalizar o retorno da Crimeia à situação de região autónoma, estatuto que tinha desde o tempo dos czares.

Sublinha A presença militar na Moldávia e Geórgia”. Comparar a presença militar na Moldávia e Geórgia com as bases da NATO que existiam e as que, depois do fim da guerra fria, foram implantadas à volta da Rússia, é, no mínimo, extraordinário. Na Europa, são 50 as bases da NATO em doze países que aceitaram que aí fossem instaladas e armazenadas armas nucleares. Há que referir que a presença russa na Geórgia localiza-se nas regiões autónomas associadas a esse país que reinvindicam e querem manter autarcia. Para a anular foram invadidas a mando de Mikheil Saakashvili, na altura presidente da Geórgia, um amigo do ocidente. Um personagem que iniciou a carreira política no Instituto de Direitos Humanos na Noruega, antes de se candidatar e ser eleito presidente da Geórgia contra Eduard Shevardnadze, figura de proa da perestroika mas apesar disso menos confiável para o Ocidente, em eleição fraudulenta que nem os observadores enviados pela UE conseguiram ocultar. Decidiu invadir a Abcássia e a Ossétia que recorreram à Rússia para defenderem o seu estatuto. Saakashvili é hoje um apátrida. Acusado de inúmeras fraudes, fugiu da Geórgia para se albergar na Ucrânia, refugiando-se nos braços amigos de Poroschenko que, depois de lhe conferir a nacionalidade e a governação de Odessa, acabou por o expulsar e retirar a nacionalidade. Tudo gente do mesmo gabarito. Não se sabe, mas é bastante provável, que continue a receber os favores da NATO de que é ardente apologista.

Fala da A ingerência nas eleições ocidentais”. Acusação curiosíssima que ou é um atestado de estupidez às populações desses países ou é a admissão que dezenas de anos de agressão comunicacional, de mentiras e semi-verdades, esclerosaram tanto a esmagadora maioria dos povos submetidos ao pensamento dominante até os fazer perder sentido crítico pelo que são facilmente manipuláveis tanto por uns como por outros. Um bom exemplo são os media corporativos não questionarem Jens Stoltenberg sobre nenhuma dessas suas considerações, um atestado de idiotia a quem as ouve, feitas com o cinismo de quem sabe que não será desconfortado por uma plateia subserviente.

Sublinha o envolvimento na guerra na Síria”. Um pedregulho no sapato. Andam os EUA e os seus aliados da Nato a invadir o Iraque, a plantar primaveras árabes com os resultados conhecidos, a olhar para o lado para não verem a catástrofe humana brutal que acontece no Iemen, a apoiar o rei da Arábia Saudita e os emires seus amigos que fazem Bashar el-Assad parecer um democrata, a inventar financiar e armar uma oposição democrática moderada síria, uma ficção que é uma porta escancarada para financiar e armar o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e mais uns tantos grupos de igual quilate que espalham o terrorismo localmente e pelo mundo e a Rússia decide intervir, a pedido do governo sírio, para combater o terrorismo. Não é admissível, há que condenar quem trama o terrorismo amigo da NATO. Stoltenberg é espaldado por Boris Johnson, ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, um dos principais fornecedores de armas à Arábia Saudita que delas tem feito uso intensivo no Iemen, que tem o desaforo de dizer que “há uma relação directa entre a indulgência manifestada por Putin para com as atrocidades cometidas por Bashar-el-Assad na Síria e o Estado russo não ter dúvidas em usar uma arma química em território britânico”. Não se exime a atribuir culpas directas a Putin mas cobardemente acrescenta que é “muito provável”. Insinua mas não assume. Atira a pedra e esconde-se dentro de um caixote de lixo de onde a história não o resgatará.

Essa gente, que andou pelo norte de África e Médio-Oriente a espalhar a morte e a destruição, a matar e a destruir a vida de milhões de pessoas na base de mentiras e meias-verdades, está tão convencida que dezenas de anos a controlar e manipular a informação lhes permite continuar a martelar nas cabeças que as julgam todas formatadas, prontas a aceitar sem questionamentos qualquer coisa que lhes seja vendida mesmo se embrulhada em papel manhoso. Estão à beira de um ataque de nervos por verem as suas criminosas políticas irem por água abaixo na Síria, os terroristas amigos a ser derrotados. Não os preocupa nem nunca os preocupou que o regime de Assad fosse ou seja opressivo. O verdadeiro crime da Síria é a sua independência em relação aos EUA, seus aliados da NATO e a Israel. Num mundo que os EUA querem, com o apoio dos seus aliados, dominar o que lhes é intolerável é que um país, independentemente da sua dimensão, poder económico, político ou militar, se manifeste soberano e autónomo, não se vergue aos seus ditakts.

Clama o secretário-geral da Nato que a Rússia “apagou a linha entre a paz, a crise e a guerra”. Proclamação de um terrorista verbal que procura um pretexto para passar à acção. Um ventríloquo dos trump´s & companhia, nas suas variegadas versões, de hoje como foi dos de ontem e será dos próximos, capaz de negar todas as evidências para vender cenários de guerra que a propaganda ocidental travestida de informação vende diariamente em doses maçiças para originar uma histeria colectiva cega.

Esperar pelos resultados de uma investigação credível não interessa às theresasmays & companhia. Aliás, no ponto que se atingiu, nem parece possível uma averiguação rigorosa. Segue o caminho de outros inquéritos ditos independentes em que algumas das partes interessadas, portadoras de informações importantes, são exiladas para não perturbarem as conclusões que circulam pelos media de modo a não possibilitar que se separe a verdade da mentira. Lembre-se, é sempre bom soprar as brasas da memória para iluminar as situações, o que se passou com Viktor Ioutchenko. Em 2004, todo o Ocidente vociferou contra a cumplicidade da Rússia na tentativa de envenenamento do candidato pró-ocidental por ucranianos seus adversários. Estranhamente ou não, Ioutchenko eleito presidente, com todo o aparelho de Estado à sua disposição não mexeu uma palha para investigar e acusar quem o tinha tentado envenenar. Porquê? A questão é, como diria Sherlock Holmes ao seu caro Watson, num crime a primeira pergunta é quem é beneficiado. A histeria colectiva dentro e fora da Ucrânia foram forte suplemento para a eleição de Ioutchenko. Objectivo alcançado deixou de ter interesse apurar a verdade.

Como disse Harold Pinter, ao receber o Prémio Nobel da Literatura em 2005, “existe uma manipulação do poder à escala mundial, se bem que mascarando-se como uma força para o bem universal, um esperto, mesmo brilhante, acto de hipnose de grande êxito”. É o que contumazmente tem acontecido em dezenas de anos praticando acções que seguem os princípios da Rainha de Copas na Alice no País das Maravilhas “Condene-se primeiro, investigue-se a seguir”.

rainha dew copas

Os resultados são trágicos com milhões de vitimas inocentes. Como dizia um personagem do filme de João César Monteiro Le Bassin de John Wayne “hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas”.

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Não temos medo?

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Janet Leigh em Psico de Alfred Hitchoock

Não temos medo? Claro que temos medo! Devemos ter medo! Uma criança sem medo é um perigo para si-própria. O medo faz parte do seu desenvolvimento. Se não temos medo estamos, também, a ser um perigo para nós-próprios. Temos que ter a coragem de ter medo!

Medo dos atentados de terroristas islâmicos, mas também medo da vigarice intelectual que faz discriminação entre atentados. Um atentado na Europa, mesmo que faça muito menos vítimas, tem uma importância muitíssimo maior que um atentado na Síria, no Iraque, no Burkina-Fasso, na República Centro-Africana. Mesmo na Europa, um atentado em Bruxelas tem mais favor noticioso que um atentado em Moscovo. Também devemos ter medo desse desequilíbrio informativo, porque esse medo nos dá a lucidez de ver o que é uma boa demonstração de como funcionam as centrais que controlam a comunicação social o que se agrava nas centenas de artigos sobre o terrorismo islâmico, inquinados na sua esmagadora maioria por uma xenofobia evidente ou disfarçada, entrincheirada em factos e evidências, misturando em doses cada vez mais letais medo com segurança e prevenção o que acaba sempre em ataques às liberdades individuais, procurando tornar aceitáveis, mesmo desejáveis as suas restrições, como Macron está a tentar impor em França.

O nosso medo é outro, tem que necessariamente se demarcar do que essa gente espalha para abrir caminho a um fascismo de novo tipo, mesmo que provisoriamente tenha fachada democrática. Medo do terrorismo islâmico, medo do terrorismo sionista, medo de qualquer terrorismo venha de onde vier, medo da manipulação política, leia-se o discurso de Passos Coelho no Pontal, e mediática de que o mais acabado exemplo é o Observador e o seu pelotão de comentadores. Faz-nos medo para perdermos o medo.

Todos os atentados terroristas provocam vitimas inocentes mas nós, todos nós potenciais vitimas inocentes, temos uma percentagem de culpa nesses atentados por termos ficado passivos, complacentes ou dado apoio por omissão a políticas que andaram a usar o monstro nos seus fins estratégicos.

Que fizemos para denunciar os talibãs no Afeganistão, então chamados de combatentes da liberdade? Que fizemos quando se desmembrou a Jugoslávia e surgiram os primeiros terroristas, como hoje os conhecemos, na Bósnia e depois no Kosovo? Onde estávamos quando da invasão do Iraque com todo o rol de mentiras que a justificaram? Que dissemos à guerra na Síria levado a cabo pela Al-Qaeda e o Estado Islâmico? E aos batalhões do mesmo Estado Islâmico que estão no terreno na Ucrânia ao lado dos eufemisticamente apelidados de nacionalistas ou ultra-nacionalistas que são de facto assumidamente nazis? Saddam Hussein era um sanguinário ditador? Era, mas só o descobrimos após e Bush assim o assinalar isto depois de, por interposto Rumsfeld, lhe ter oferecido umas esporas em ouro? Bashar alAssad é um ditador? É, mas até é um democrata se comparado com o rei da Arábia Saudita ou os emires dos países do Golfo. Combate a Al-Qaeda e o Estado Islâmico que esses estados apoiam com armas e bagagens, com a complacência activa e cínica do ocidente, em particular os EUA e a Grã-Bretanha, apesar dos povos dos seus países e dos países seus aliados na NATO, serem vitimas colaterais de insensatas jogadas políticas ao serviço de grandes interesses económicos.

Hoje o mundo, não só o mundo ocidental, até ameaçado por um terrorismo que se tornou imprevisível, usa armas que fazem parte do nosso quotidiano. Temos medo e a sorte de não termos estado em Manchester, Bruxelas, Berlim ou Barcelona. Não sermos uma das vitimas inocentes de um desses ataques que não foram a tempo detectados pelos serviços de segurança. Vitimas inocentes como as que todos os dias morrem no Médio-Oriente, em África, na Ásia que não morrem ou quase não morrem nos media. Essa dissemelhança também nos deve fazer medo.

Como nos deve fazer medo que, por cálculo político e inconfessáveis interesses económicos, se mantenham óptimas relações diplomáticas, lembre-se, entre outras a última viagem de Trump à Arábia Saudita, com o Kuwait, o Qatar, o Barhein, os Emiratos Árabes Unidos e sobretudo a Arábia Saudita, países amigos que são por demais conhecidos como financiadores não só dos grupos terroristas como das mesquitas salafitas, localizadas pela Europa, onde se faz propaganda da sharia. Dirão que se está a atacar o multiculturalismo, a não respeitar as diferenças culturais. Na realidade é o inverso. É não aceitar que rasteiramente se confunda e venda a ideia que uma religião, um seu culto particular, seja condição natural para ser veículo do terrorismo. O que se condena é a sharia como se condena o nazismo sem cair nas armadilhas não inócuas de se reduzirem as vitimas do holocausto aos judeus, de se valorizarem atentados terroristas como o de Barcelona e quase se rasurar o de Samsara, ou pensar que o atentado neo-nazi em Charlottesville foi consequência de uma disputa política entre duas facções radicalizadas, como o fez Trump. O automóvel em Barcelona é o mesmo de Charlottesville, igual aos armadilhados que têm explodido um pouco por todos os continentes. As facas usadas em Londres, são iguais às de Sourgout e Turku. Procuram atingir o maior número de vítimas inocentes com a garantia que uma comunicação social de jornalistas e comentadores necrófagos irá propalar o medo, misturado em doses bem calculadas com os mantras do je suis, não temos medo, etc,. sobrepondo-o à segurança e prevenção que, perante os factos se mostraram insuficientes, para fazerem uma cruzada, melhor ou pior disfarçada, contra as liberdades. Os fascismos convergem mesmo quando e se as suas direcções parecem opostas. Ver, ouvir, ler as notícias, as opiniões e os comentários e dos leitores a essas torrentes, é assustador. Disso também devemos ter medo, o medo saudável das crianças que lhes garante a sobrevivência e lhe dá consciência para enfrentar os perigos.

Temos medo e devemos ter medo para o usar para analisar lucidamente os labirintos deste nosso perigoso mundo. Não nos refugiarmos em respostas fáceis e slogans de momento, separar o trigo do joio, condenar o terrorismo e condenar quem o incentivou e depois escondeu a mão que continua a dar vigorosos apertos de mão e a colocar assinaturas firmando negócios multimilionários com quem directamente manipula esse teatro de horrores.

Temos medo, por isso nunca mais estaremos ausentes das frente de luta pela paz e cooperação entre os povos de todo o mundo, a forma mais eficaz de lutar contra os que financiam as bombas, os que as armadilham, os que as rebentam, o que as utilizam para nos cercarem dizendo que nos querem salvar, fazendo respiração boca a boca com o Grande Irmão de Orwell.

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Populismos

populismo

Populismo entrou no léxico da política e da comunicação social. É usado a torto e a direito, nem sempre a direito e muitas vezes bem torto. Um rótulo em que, intencionalmente e com cinismo, se baralha populismo com lutas populares para as desvalorizar. Às políticas do governo PS, apoiado parlamentarmente pelo PCP, BE e PEV, que visam, de forma magra e tímida, repor rendimentos e direitos atirados para o lixo pelas políticas ditas de ajustamento, é inúmeras vezes colado esse rótulo pelos partidos de direita e pelos media ao seu serviço. Procuram e encontram formulações perjorativas, geringoça é das de maior êxito, para fazer chicana. Com a mesma intencionalidade e cinismo não o usam quando o deveriam usar. Exemplo recente são as declarações de Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, uma estrutura clandestina que a UE legalizou dando peso institucional, expressão de um populismo pós-colonial, corrente nos países do norte da Europa Connosco. A variante suave e actualizada do pensamento das potências coloniais que justificavam as suas inauditas violências com a missão civilizadora de iluminarem as bestas com os seus valores, exterminando sempre que necessário os que se oponham a receber essa luz. Agora as bestas são mais brunidas, entregam-se aos copos e às mulheres, é preciso metê-las na ordem.

Na raiz do populismo está sempre presente a batalha entre as elites que se dizem esclarecidas e a ignara populaça. Um conceito que surge originalmente dos choques entre Cultura e cultura. As batalhas entre os que alinhavam pelo gosto popular contra o gosto das elites. Entre os defensores do canone e os que se entricheiravam nas veredas das vulgaridades. Em linguagem chã e no rectângulo nacional, guerras entre os devotos de António Lobo Antunes e Herberto Helder e os embasbacados com Teresa Guilherme e Manuel Goucha. As portas dos gabinetes académicos foram arrombadas pela política real, as batalhas já não são entre simples definições culturais, entraram nos territórios da política.

O populismo está no ordem do dia. Os avanços da direita mais extrema nos EUA e na Europa fazem soar as sirenes de alarme que tocam insistentemente e bem alto para apagar os sons de quem andou a alimentar os populismos de Trump, Le Pen, Farage, Geert Wilders, Frauke Petry e todos os outros que aparecem como cogumelos na terra pútrida adubada pelos partidos políticos, da direita à esquerda, que com grande e fecundo populismo andaram e andam a angariar votos vendendo promessas que assim que alcançam o poder rasgam com grande despudor. Exemplos não faltam de Hollande a Renzi, de Tsipras a Obama. Por cá é só folhear os programas eleitorais desde que há eleições. Um espesso rol de ilusões vendidas a pataco que desacredita política e políticos, alimenta o populismo rasca de os políticos serem todos iguais, mudam as moscas a merda é a mesma e demais axiomas em que se afunda a democracia. Mete-se tudo no mesmo saco para fazer o caminho a uma qualquer variante fascista ou proto-fascista. Anular políticos e políticas de esquerda que, quando são mesmo de esquerda, são destratados por uma comunicação social mercenária.

Utiliza-se o fantasma do populismo não é um fantasma é um real perigo para fazer triunfar políticas de direita. Seria rísivel se não fosse assustador ouvir o vento provocado pelos grandes suspiros de alívio que correu pelos areópagos europeus com os resultados eleitorais holandeses, ganhos em cima da meta por escasssos segundos por um bom populista a um populista mau. Espera-se o vendaval de suspiros de alívio que se prepara quando se souberem os resultados eleitorais em França, com idênticos resultados.

Desde que o populismo entrou no léxico da política há populismos para todos os gostos. De alta densidade como Perón e Getúlio Vargas, num continente fértil na emergência de caudilhos populistas, aos de baixa intensidade como Berlusconi ou, com outro estilo e derivas, Pablo Iglésias. Não têm uma ideologia concreta. Apresentam-se como uma forma diferente de fazer política que ultrapasse os impasses da política representativa em que os partidos políticos defraudam com contumácia as esperanças dos que lhes confiam o voto iludidos com as promessas de lhes darem um bem-estar que negam assim que se sentam nas cadeiras do poder.

O populismo alimenta-se com essas fraudes por as pessoas se sentirem abandonadas pela política e pelos políticos, por um crescente sentimento de injustiça que os torna receptáculos de outros meios de exercício da política, onde se sintam com voz. Nesse contexto não devia surpreender ninguém que os populistas tenham êxito, ganhem votos populares, ascendam ao poder. Foi isso que deu a vitória a Trump e na Europa os clones de Trump estejam a ter o impacto que têm. Em Portugal ainda não apareceu uma ou um Le Pen, mas lendo muitos das notícias dos media, ouvindo e lendo muitos dos comentadores encartados que por lá estacionam, lendo os comentários a essas notícias não será extraordinário que acabe por surgir, espere-se mas não se confie numa manhã de nevoeiro, uma qualquer imitação salazarenta de Trump.

Para esse sucesso, um insucesso do Portugal de Abril tão maltratado em quarenta anos de governos com políticas de direita, muito contribuem a propaganda mascarada de informação que deliberada e perversamente confunde populismo com lutas populares.

As justas reinvindações dos trabalhadores e pensionistas, as lutas por direitos sociais económicos e políticos, as organizações sindicais e políticas que as assumem e encabeçam são classificadas, directa e indirectamente, como populistas por irem contra o pensamento dominante e a sua expressão mais acabada o TINA (There Is No Alternative) com o objectivo último de ser impossível pensar que é sequer possível pensar que há uma outra política, uma outra sociedade.

Elencar o que todos os dias se repete com obstinação para desacreditar as lutas contra essas políticas é uma árdua e sempre incompleta tarefa. É de lembrar as barreiras de propaganda disfarçadas de notícias e comentários, com bem ou mal amanhado argumentário, que durante os quatro anos de governo PSD-CDS faziam ruído contra as manifestações e greves desencadeadas pela CGTP e pelos sindicatos contra a barbárie de uma legislação do trabalho que queria reduzir a cisco direitos conquistados palmo a palmo em árduas lutas. Contra todas as outras lutas que durante esses malfados anos foram realizadas. Sem essa resistência, no meio de enormes e violentas dificuldades, os desmandos do governo Passos Coelho/Paulo Portas teriam uma dimensão muito maior, até mais durável. Eram classificados de irrealistas por estarem contra a realidade construída com zelo pela troika e seus mandatários aborígenes. Colavam-lhes o selo de populistas por proporem políticas que defendem as classes sociais mais desfavorecidas, no limite por defenderem medidas que estavam contra o “progresso” do país que não podia viver acima das suas possibilidades, como se o progresso do país fosse o que eles propugnavam e continuam a propugnar e as classes privilegiadas não continuassem a rapinar a riqueza produzida.

Há que distinguir claramente lutas populares de populismo. Os populistas, os duros de Trump a Le Pen, e os moles, de Merkel a Cristas, estão sempre do lado das classes privilegiadas. Aos mais desmunidos reservam um assistencialismo rasteiro que lhes branqueia consciências. Os outros são mão de obra, quanto mais barata e sem direitos melhor, e sobras de vidas que sobreviveram a anos de trabalho. As lutas por melhores condições de vida, de denúncia pelos males do estado de coisas, pela redenção dessas sociedades é-lhes estranha, vai contra a realidade que os alimenta e que querem perpetuar. Nenhum vício lógico os trava. Do outro lado, contra populistas e populismos, está o povo, os partidos políticos, os sindicatos, as organizações populares que os defendem e lhes respondem com as lutas populares.

(publicado em AbrilAbril)

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O Sono da Razão gera Monstros

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gravura de Goya

Que Donald Trump tenha ordenado bombardear uma base aérea síria com argumentos na base de informações “credíveis” que disse dispor, sem sequer solicitar autorização ao Congresso, como no mínimo e sem correr grandes riscos, deveria ter feito, não pode causar admiração a ninguém. Obama fez o mesmo quando mandou bombardear a Líbia. Ambos dispensaram-se desse trabalho e do mais elaborado trabalho de arranjarem um Colin Powell com provas das fábricas de destruição maciça que nunca existiram. Agora, na Síria, Trump atirou para as urtigas o desmantelamento do arsenal de armas químicas que os sírios possuiam e que foi destruído sob supervisão da ONU. Um proto-fascista do seu calibre, que se auto proclama campeão dos países civilizados, o que não deixa de ser uma boa piada, não se detém nesses pormenores. Como não se detém Hillary Clinton ou John McCain, ambos opositores declarados de Trump, que rapidamente lhe renderam homenagem e aplauso. Claro que também teve conforto no ocidente de Hollande, Merkel, Erdogan e outros tantos, na esteira de Blair, Aznar e Durão Barroso. Ninguém se preocupa ou preocupou em saber o que de facto aconteceu com as armas químicas em Khan Cheikhoun, sabendo-se muitíssimo bem que os terroristas as têm usado e têm arsenais de armas químicas como os que foram encontrados em Aleppo. A hipocrisia e o cinismo dessa gente é bem conhecido, está bem montado e bem suportado por uma comunicação social mercenária a nível internacional, é ler as notícias sobre os ataques a Mossul, compará-los com os que fizeram em relação a Aleppo.

O que é mais interessante e significativo, percorrendo os activos sujeitos das redes sociais em Portugal é o silêncio de todos os que se têm esfarrapado e continuam a esfarrapar em alta grita contra Trump, os seus próceres europeus, Le Pen, Farage, Geert Wilders, Frauke Petry e mais uns tantos e que agora não se indignam, chegando mesmo à desfaçatez de  apoiar a iniciativa de Trump, com mais ou menos vergonha e retóricas risíveis. Muita dessa gente diz-se de esquerda. Parece estar sempre na primeira linha da denúncia do ascenso das direitas no mundo, um perigo real, enquanto não há bandeira de uma qualquer luta fracturante que não agitem. Não há um acontecimento em qualquer parte do mundo que não os comova e suscite adjectivações loquazes e violentas. Desfilam  comentários e fotografias para legendarem execrações de políticos que abominam, metendo no mesmo saco o que não deve ser metido no mesmo saco e não metendo nesse saco quem deveriam meter.

A sua miopia política é inquietante. Mais inquietante ao pensar no que farão se um dia surgir nesta terra de falsos brandos costumes uma variante do dinossaúrio excelentíssimo. Devem estar confiantes numa manhã de nevoeiro ou num qualquer milagre de Fátima. Nem percebem que os zigue-zagues políticos em que se embrulham estão a contribuir para esse peditório que já está a ser feito. É ler muitos dos comentários que por aí se plantam nas notícias dos media. É percorrer, mesmo na diagonal, muito do que viaja nas redes sociais. Objectivamente vão dando o seu óbolo com os comentários que decoram as suas intervenções. A direita sabe, bem sabe, que a maioria dessa gente será metida na ordem com uns safanões a tempo.

Inquietante é perceber o que isso representa do triunfo actual da ideologia de direita, um cancro que não é um exclusivo da direita. Muita esquerda está contaminada, alguma em estado terminal. Esse é que é um perigo concreto e bem real. O sono da razão gera monstros que, pelo menos alguns, o percebam a tempo.

goya

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A Intelligentsia nos seus labirintos

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O Grito, Munch (fragmento)

 

A  intelligentsia norte-americana está em guerra aberta com Trump. Na Europa, alguns classificam essa intelligentsia, escritores, artistas das artes visuais, teatro e cinema, músicos, como de esquerda, sabendo bem de mais que a grande maioria são liberais com muito pouco de esquerda. Fazem bem em invectivarem Trump um reacionário proto-fascista, com tiques de caudilho sul-americano, mas não deixa de ser uma curiosa posição que merece alguma reflexão quando, muitos até com boas intenções melhor dizendo ilusões democráticas, objectivamente escoram uma oligarquia, agora corporizada por Hillary Clinton e antes por Obama. O cerne da questão é a decadência dos EUA. Trump é tão neoliberal como os Clintons’s, os Obama’s, os Bush’s. Os confrontos a que estamos a assistir pouco tem a ver com democracias e muito com uma guerra entre interesses divergentes de grupos de plutocratas. Trump e os seus sequazes reconhecem a decadência dos EUA, consideram-na uma consequência das políticas dos oligarcas que se acantonaram atrás da Sra. Clinton,nas últimas eleições. Para uns e outros os mecanismos democráticos são uma ferramenta para defenderem os seus interesses. A intelligentsia norte-americana e  as outras em muitas partes do mundo, principalmente na Europa, estiveram até agora caladas perante todos os desmandos “democráticos”. É de perguntar onde estiveram durante os oito anos de mandato de Obama, quando a divida pública dos EUA passou de 11 para 20 milhões de milhões de dólares (aumento de 1 250 mil milhões por ano, 3 mil milhões /dia!) procurando fazê-la pagar à força ou com persuasão, que não deixa de ser violenta, ao mundo onde se impunha unipolarmente. Dívida que aumentou exponencialmente por essa administração ter uma política que defendeu os interesses da finança e do grande capital, pelos custos das guerras que fomentou. Onde estava essa gente quando, durante os oito anos de administração Obama as desigualdades aumentaram, os salários reais baixaram, mais de 90% do aumento da riqueza nacional foram enfiados nos bolsos dos 1% mais ricos. Quando os serviços públicos e sociais se degradaram. Quando mais de 46 milhões de cidadãos – a maioria negros e hispânicos, a situação dessas minorias e a violência que sofrem agravou-se – estão abaixo do limite de pobreza. Quando o desemprego é de 21%  com os critérios dos anos 80 (Paul Craig Roberts). A população prisional atingiu os 2 milhões. O Obamacare é um seguro médico pago pelo Estado aos privados, redigido per representantes das seguradoras e farmacêuticas, com uma franquia de 6 500 dólares por família em 2015. Onde estavam? Que protestos fizeram? Todos mudos e quedos como sempre estiveram surdos às bombas que esse Nobel  da Paz despejou pelo mundo ao ritmo de 3 bombas/hora, número revelado nno jornal bi-mensal do Foreign Affairs, do CRF (Council on Foreign Relations), http://blogs.cfr.org/zenko/2017/01/05/bombs-dropped-in-2016/ que é considerado pelo Departamento de Estado como uma espécie de “how-to”, um guia para a condução da política externa. Quando com Obama, os EUA e aliados lançaram 100 000 bombas e mísseis, em sete países, contra  70 000 em cinco países pelo Bush da invasão do Iraque. Os gastos militares superaram em mais 18,7 mil milhões os de George W Bush. Quando as forças militares dos EUA estão presentes em 138 países, em comparação com os 60 quando tomou posse. A utilização de drones aumentou 10 vezes, atingindo toda a espécie de alvos e vítimas civis e Obama,  informe do New York Times, https://www.nytimes.com/2014/06/26/world/use-of-drones-for-killings-risks-a-war-without-end-panel-concludes-in-report.html?_r=0 seleccionava pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis disparados de drones. Um senador republicano, Lindsey Graham, estimou, sem qualquer desmentido, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. “Por vezes atingem-se pessoas inocentes e odeio isso”, disse o nobelizado com o cinismo que o caracteriza, “mas removemos alguns altos membros da Al Qaeda”. Quando foram recrutadas e treinadas forças mercenárias para combaterem na Líbia e Síria, pagaram-se a esquadrões da morte para abaterem no Iraque alvos políticos incómodos. O total de mortes infligidas em guerras, directas ou por procuração, terá atingido 2 milhões de pessoas. Onde estavam quando os bombardeamentos são mais intensos que os anteriores, contabilizando-se 65 730 ataques de bombas e mísseis nos últimos dois anos e meio. Com Obama ampliou-se o apoio às agressões de Israel ao povo palestiniano, os crimes da Arábia Saudita contra o povo do Iémen, financiou-se e armou-se o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, John Kerry dixit em entrevista de fim de mandato. Obama também aconselhou e financiou e golpes de estado das Honduras à Ucrânia. Nomeou para a CIA, chefias militares e para o governo conhecidos falcões como a secretária de Estado Hillary Clinton, a embaixadora na ONU Samantha Power a secretária de Estados para os Assuntos Europeus e Euroasiáticos Victoria “Que se Foda a Europa” Nuland. http://www.bbc.com/news/world-europe-26079957

Tudo isto tem coerência interna: a General Dynamics, grande fabricante de armamento pesado, submarinos, navios de guerra, financiou a carreira política de Barack Obama, desde que concorreu às primárias em 2008, quando demagogicamente fazia promessas parecidas com as de Jesse Jackson uns anos antes, antecipando algumas que vieram a ser feitas por Bernie Sanders, deixando a sua opositora Hillary Clinton boquiaberta de espanto, derrotada pela lábia desse grande vigarista que tinha garantido os apoios financeiros do complexo-militar e industrial que deviam rir a bom rir das suas tiradas Yes You Can’t, conhecendo o seu verdadeiro significado.

Intelligentsia que não mexeu uma palha quando Obama desalojou violentamente os Occupy Wall Street, http://www.weeklystandard.com/obama-on-occupy-wall-street-we-are-on-their-side/article/598251 fazendo um discurso em defesa dos especuladores bolsistas, sustentando-os com milhares de milhões de dólares.

As políticas de Obama e a cumplicidade silenciosa da intelligentsia são um triunfo da pós-verdade, o conceito escolhido pelos Oxford Dictionaries, um canone dos dicionários, para palavra do ano 2016, como o “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais factos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A pós-verdade em que cimenta a gigantesca fraude Obama, como se pode ler e ouvir no seu discurso de despedida. A colossal vigarice que é Obama, bem retratada por José Goulão no AbrilAbril. http://www.abrilabril.pt/o-polimento-da-tragedia-obama

Agora, com a eleição de Trump, não menos perigoso que Obama, saltam para o terreiro enterrando os pés no pântano de uma democracia esclerosada, expressão política muito clara do fracasso e da crise estrutural do modelo neoliberal nos Estados Unidos, em que quem se senta na Sala Oval, chame-se Bush ou Clinton, Obama ou Trump, prossegue políticas na defesa dos interesses imperiais dos EUA, seja sob a bandeira do excepcionalismo teológico dos Estados Unidos da América em que Obama acredita”com toda a fibra do meu ser”, ou do demagógico “Make America Great Again” de Trump.

Quais as razões por só agora as mulheres organizarem a Marcha das Mulheres contra Trump, bem oleada com milhares de dólares por esse filantropo que é Georges Soros, http://www.ceticismopolitico.com/bilionario-soros-esta-ligado-a-mais-de-50-grupos-que-participaram-da-marcha-das-mulheres-em-washington/ e nunca o terem feito contra, pelo menos contra algumas, das políticas da administração Obama? Porquê é que ninguém esfrega na cara de Madeleine Allbright a justificação do assassínio de 500 000 mil crianças, meio milhão de crianças no Iraque, mais do que as que morreram em Hiroshisma, como efeito colateral, o preço certo a pagar disse ela, https://youtu.be/RZLGQ83KoOo quando com grande descaro declara que se vai inscrever como muçulmana, em denúncia dos propósitos xenófobos de Trump?   Porquê só agora milhares de escritores, reunidos no Writers Resist, manifestam a sua indignação porque desejam ”superar o discurso político directo, em favor de um enfoque inspirado no futuro e nós, como escritores, podemos ser uma força unificadora para a protecção da democracia”(…) “instamos organizadores e oradores locais a evitarem utilizar nomes de políticos ou a adoptar linguagem “anti” como foco no evento do Writers Resist. É importante assegurar que organizações sem fins lucrativos, que estão proibidas de fazer campanhas políticas, se sentirão confiantes em participar e patrocinar estes eventos”. Nada disseram quando Obama alterou a lei para possibilitar que os grandes consórcios financiassem sem limites e sem escrutínio as campanhas políticas, distorcendo ainda mais claramente a democracia que assim ficou ainda mais dependente das cornucópias de dólares que impossibilitam de facto candidaturas, como a dos Verdes ou dos Libertários, que reduzem o debate de ideias aos rodeos das primárias e das finais ente Democratas e Republicanos, diferentes na forma, iguais nos objectivos. Ou será por esses milhares de escritores terem ficado confortáveis numa falsa ignorância fabricada pelos discursos indirectos, fingindo que não os conseguem decifrar mesmo quando as realidades se perfilam para não deixar uma brecha de dúvida?

Não se quer, nem é desejável, que se meta no mesmo saco de lixo o ogre Trump e o contrabandista Obama. Cada um no seu saco mas ambos atirados para o mesmo aterro sanitário. Isso é o que deveria ser feito por essa intelligentsia, tanto nos EUA como na Europa.

“A acção de todos deverá ser totalmente impessoal– de facto não deverá orientar-se por quaisquer pessoas que sejam, mas por regras que definem os procedimentos a seguir,”(Zigmunt Baumann). Príncipio esquecido por essa gente que anda aos baldões das emoções. Orientam-se erráticamente, nessa deriva a razão torna-se coisa descartável. É o que está agora a acontecer sepultando bem enterrado o que Martha Gelhorn disse num Congresso de Intelectuais em Nova Iorque em 1932 contra o ascenso do nazi-fascismo na Europa e também nos EUA, recordem-se os apoios que lhe davam Lindberg, Allen Dulles, John Rockfeller, Prescott Bush, John Kennedy (pai), as grandes corporações financeiras e industriais, http://www.rationalrevolution.net/war/american_supporters_of_the_europ.htm. Congresso que juntou, de viva voz ou por comunicações enviadas,  os maiores intelectuais da época, de Steinbeck a Thomas Mann, de Einstein a Upton Sinclair: “Um escritor deve ser agora um homem de acção… Um homem que deu um ano de vida a greves siderúrgicas, ou aos desempregados, ou aos problemas do preconceito racial, não perdeu ou desperdiçou tempo. É um homem que sabe a que pertence. Se sobrevive a tal acção, o que diria posteriormente acerca da mesma é a verdade, necessária e real, e perdurará”. (Martha Gelhorn). Até agora onde tem estado, por onde têm andado esses milhares de escritores? No conforto dos seus lares, das suas tertúlias, das bolsas concedidas por fundações que também financiam acções menos louváveis.

Escrevem, filmam, realizam obras de arte onde se apagou a política, a vida das pessoas, as vidas dolorosas dos explorados e oprimidos. Em linha são celebrados por uma crítica que os aplaude, suporta, divulga. Óscar Lopes, com a clarivência e o conhecimento que tinha, anotava que a classe operária, os dramas dos explorados tinha sido rasurado das artes desde meados do séc. XX. Essa a regra, as excepções quase passam despercebidas, são mesmo invectivadas, acusadas de contaminarem a arte pela política. É um fenómeno universal que Terry Eagleton, afirma em Depois da Teoria,” hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas” (…) “pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em condições de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental”. Um dos últimos, não estava sózinho mas estava pouco acompanhado,  foi Harold Pinter, nas suas peças teatrais e no discurso que fez na aceitação do Prémio Nobel, em 2005. http://cultura.elpais.com/cultura/2005/12/07/actualidad/1133910005_850215.html. Hoje não se encontram, ou raríssima se encontram um Alves Redol, Carlos Oliveira, José Cardoso Pires, José Saramago, para nos fixar em território nacional. Não se escrevem As Vinhas da Ira(Steinbeck), Jean Christophe(Roman Rolland) Manhatan Transfer(John dos Passos), Oliver Twist(Charles Dickens), Germinal (Zola), A Profissão da Sra Warren(Bernard Shaw), Mãe Coragem e os seus Dois Filhos (Berthold Brecht), O Triunfo dos Porcos(Georges Orwell), referências rápidas a que se poderiam agregar muitas mais. Raríssimos os filmes sobre temas sociais e políticos como os de Kean Loach, Recursos Humanos(Laurence Cantet), Blue Collar (Paul Schrader), para nos circunscrever aos tempos mais próximos e não enumerar os neo-realistas italianos, franceses, russos.

Ninguém, quase mesmo quase ninguém fala dos pobres, dos sonhos utópicos, da imoralidade do capitalismo, ataca a classe dominante, a corrupção que espalha. Foi todo um trabalho feito nos anos da guerra fria pela CIA, leia-se Who Paid de Paper, The CIA and the Cultural Cold War, de Frances Stonor Saunders. Trabalho bem sucedido dessas tarântulas tecendo as teias onde a cultura e as artes se debatem no caldo de cultura pós-moderna em que “a ideia moderna da racionalidade global da vida social e pessoal acabou por se desintegrar em mini-racionalidades ao serviço de uma global inabarcável e incontrolável irracionalidade”(Lyotard). Para sobreviverem e viverem comodamente, dissociam-se da política, dos dramas sociais, das guerras para encobrirem, o caos, o abismo, o sem fundo de que falava Castoriadis, para onde se é atirado sem remissão. Trabalho que teve tanto êxito, olhe-se para os paradigmas culturais do pós-modernismo, que só tem paralelo com o  controlo dos meios de comunicação social enquanto  em nome da racionalização e da modernização da produção, se regressa ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma guerra em que os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos impondo uma nova ordem fanática e totalitária. Nova ordem são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia, a sua bitola é o seu do valor de mercadoria artística.

É nessa nova ordem que se inscrevem os Writters Resist, em que mesmo os que se aproximam de uma ideia de esquerda europeia estão contaminados e enquadrados pela ideologia de direita dominante. Alarmam-se com Trump mas nunca se alarmaram com Obama ou os seus antecessores. Têm razão numa coisa: estamos mais perto de uma nova versão do fascismo, como se vê no alastramento da mancha de óleo da direita e extrema direita na Europa e nas Américas. Um clima de guerra real que se avoluma-se no horizonte a par da guerra ideológica. Têm agora um sobressalto. Um alarme tardo, uma cortina que tapa o silêncio em que, sem qualquer vergonha, envolveram as políticas que agravaram desigualdades económicas e sociais, as agressões norte-americanas em todo o mundo por anteriores administrações, democratas e republicanas. É chocante, obsceno ver, ler e ouvir como muitos desses obsecados com Trump, bajularam e bajulam Obama. Como se assemelham aos ratos que seguem, sem uma ruga de dúvida, essa moderna versão do flautista de Hamelin. Têm razão em invectar Trump, em se preocuparem com o abubar dos campos da direita e extrema-direita. Com o estado de guerra latente que se vive, que já se vivia. Deviam sentir-se culpados, miseravelmente culpados por terem fechado ou na melhor das hipóteses semi-cerrado os olhos aos desmandos que prepararam a sua ascensão.

Como escreve William I. Robinson, professor na Universidade da Califórnia,  um dos raros não contaminados pelo pensamento dominante da ideologia de direita: “O presidente Barack Obam pode ter feito mais do que ninguém para assegurar a vitória de Trump(…)Ainda que a eleição de Trump tenha disparado uma rápida expansão de correntes fascistas na sociedade civil dos EUA, uma saída fascista para o sistema político está longe de ser inevitável.(…) Mas esse combate requer clareza de como actuar perante um precipício perigoso. As sementes do fascismo do século XXI foram plantadas, fertilizadas e regadas pela administração Obama e a elite liberal em bancarrota politica”. http://www.telesurtv.net/english/opinion/From-Obama-to-Trump-The-Failure-of-Passive-Revolution-20170113-0011.html

A direita exulta. Mesmo a que inicialmente foi reticente em relação a Trump, agora vai deixando cair as máscaras. progressivamente alinhando com as sementes proto fascistas que ele vai plantando.  Ler ou ouvir a comunicação social mais alinhada à direita sobre Trump, durante as primárias republicanas e a campanha eleitoral e depois da sua vitória é assistir a um pouco árduo e cínico exercício de rotação. Do outro lado, muita esquerda permanece vacilante amarrada ao ter louvado ou ter depositado irracionais esperanças em Obama. Ler o que por aí se escreveu e disse quando foi eleito presidente ou agora quando não há razão para qualquer dúvida, é muito instrutivo sobre algumas esquerdas, as velhas e as novas. As que repetem os vícios do radicalismo pequeno burguês usando estilistas modernaços ou de antanho,  as que metem com contumácia o socialismo nas gavetas abertas ou fechadas pelas terceiras vias e suas variantes. Nas suas derivas não encontram o fio de Ariadne que lhes aponte o caminho de saída do labirinto por onde deambulam confusos. O Minotauro espera-os. O mundo continua a arder.

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Ponto de Rotura

trump

 

Um enorme equívoco percorre os media e as redes sociais sobre Trump e a administração Trump. Aparentemente Trump, a administração Trump concorre para o isolacionismo dos EUA  e está contra a globalização. Não está, muito pelo contrário. As grandes multinacionais norte-americanas que agora se lhe opõem, até quando logo se verá, o que receiam é que Trump, a administração Trump, na fúria da necessidade de angariar fundos para cumprir promessas demagógicas, lhes corte os enviesados caminhos por onde fogem a pagar impostos nos EUA. Não por acaso Wall Street e a Nasdaq registam saltos significativos. Os mercados, a medusa dos nosso tempos, estão a reagir agradados com Trump, a administração Trump, o que é significativo e inquietante.

A grande alteração que Trump encastra na democracia formal como a que existe é agora, como já escrevi, estarem os donos do pote no poder deixando de lado, os que até agora metiam as mãos no pote fazendo trabalho de intermediação.  Trump, a administração Trump quer demonstrar e pôr em evidência que chegou a altura de dispensar intermediários políticos. Berlusconi também o fez à escala da Itália. Os multimilionários empresários foram para o governo para resolver directamente os seus negócios. O pretenso isolacionismo de Trump, não é mais que um acelerar do processo de globalização com outras ferramentas. Toda aquela gente tem lucrado com o processo de globalização capitalista, com a desregulação dos sistemas sociais e económicos a nível mundial que entrou em velocidade uniformemente acelerada depois da queda do Muro de Berlim.

Trump, a administração Trump é o campo experimental para limitar ou mesmo dispensar as veleidades de regimes democráticos, mesmo os que tinham mais fachada que substância, ou então torná-los de facto numa fachada que serve de cortina ao exercício do poder pelas plutocracias, processo em curso na União Europeia.

Tudo isso está agora a ser levado ao extremo. Trump e administração Trump não está contra o mundo. Utiliza, grosseiramente como ogre que é, o estado a que chegou o mundo, o que o torna muitíssimo mais perigoso e coloca o mundo à beira do abismo para onde estava e está a caminhar.

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pró e anti Trump / Um Ensaio sobre a Cegueira

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Desde as primárias que Trump criou anticorpos com as suas intervenções obnóxias, xenófobas e sexistas. Rejeição perfeitamente justificada por alguém que é uma variante de um político protofascista e é de algum modo imprevisto. Rejeição que foi amplificada por uma comunicação social e redes sociais que apoiavam descaradamente Hillary Clinton e que, desde o primeiro minuto, a favoreceram em relação a Bernie Sanders que começou logo a ser apresentado como psicologicamente instável e um perigoso utópico de esquerda.

Não deixa de ser curioso como se pode ser anti Trump sendo pró Clinton. Ou mesmo que se pretenda branquear as políticas da ex-Secretária de Estado apontando-a, em comparação com Trump, como um mal menor. Trump e Clinton são os dois piores dos males num país em clara decadência política social e económica que é esse o legado de Obama, um fala barato que defraudou todas as expectativas nele depositadas por quem se deixava encantar com a sua lábia, apesar e contra todas as evidências.

Quando se ouve um Robert de Niro muito excitado nas suas invectivas a Trump, fica muita gente em êxtase sem sequer se interrogar porque é o mesmo de Niro nunca surgiu a invectivar Obama quando ordenou a violenta remoção dos manifestantes do Wall Street Ocuppy, ou deu apoio à Al-Qaeda, etc. etc. a lista é longuíssima, ou as acções de Hillary Clinton no Médio-Oriente e na América Latina. Há que haver coerência. Do mesmo modo ficam todos muito indignados ao ouvirem Trump ameaçar de expulsão três milhões de emigrantes latino-americanos e esquecem que Obama expulsou dois milhões e meio. Ou que vai construir um muro na fronteira entre os EUA e o México que não mais é que completar o muro que Obama já tinha posto de pé.

Também não deixa de ser curioso que apareçam nas redes sociais vários intervenientes que elaboram listas com fotografias de pulhas e que entre os seleccionados não apareçam, Obama, Clinton, Kerry tão ou mais merecedores dessa distinção, sobretudo agora quando Kerry publicamente reconheceu, de forma oblíqua na edição do New York Times, clarificada quando o registo gravado da totalidade da entrevista foi publicado no The Last Refuge, que a administração Obama andou a equipar e financiar o Estado Islâmico. Essa gente é surda, cega e muda para um lado e ouve, vê, e lê para o outro lado. Bipolares políticos que, nos melhores casos, tanto podem estar do lado certo como do lado errado.

Quer isto dizer que Trump não é um perigo para o estado do mundo? É, claro que é. A diferença é que é um perigo mais imprevisível do que seria Hillary Clinton se tivesse ganho as eleições. Até talvez bombardeie menos países que Obama que em 2016, despejou três bombas por hora em vários pontos do mundo, os números são do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos da América, uma agência governamental.-

Do outro lado temos alguma gente que acaba por apoiar Trump só por ele manifestar o seu apreço por Putin e afirmar que quer melhorar as relações com a Rússia. Não percebem que essa viragem geoestratégica, se vier a acontecer o que é incerto, se inscreve claramente numa manobra de provocar um corte, mesmo que parcial entre a Rússia e a China, para isolar esse país que ele considera a grande ameaça económica aos EUA. Bem lá no fundo desses cenários o que realmente está em marcha é o que já estava em marcha desde algum tempo, a batalha, que pode degenerar em guerra,  entre dois blocos económicos: de um lado o até agora dominante e sem opositor, dirigido pelos EUA integrando a EU e o Japão tendo como braço armado a NATO e do outro o emergente liderado pelos BRICS que, apesar de todas as diferenças entre os seus integrantes, tem conseguido manter unidade. Até onde e de que formas se revestirá essa guerra é que é muito difícil prever, bem como o seu desfecho.

É extraordinário que os argumentos dessas legiões de gente anti-Trump sejam o espelho dos argumentos das legiões pró-Clinton. Todos iguais no essencial, todos diferentes nos pormenores. Um bom exemplo é o das histórias, todas não fundamentadas algumas sem se importarem de ser bem risíveis, da interferência de Putin nas eleições norte-americanas. A divulgação dos mails com as tramas mais canalhas da trupe Clinton para lixar Sanders, desde que ele apareceu e começou a enfrentar a senhora nas primárias até à Convenção Democrática em que ela foi escolhida. Nenhuma ruga de indignação surge. A existência dos mails, a suposta origem da sua divulgação, excita-os. Ficam mudos e quedos quanto ao seu conteúdo que ninguém se atreveu a desmentir. Porquê? Provavelmente porque os mails pouco acrescentam à personalidade intriguista e charlatona de Hillary Clinton que para eles deve ser aceitável, o que é inquietante pela degradação ética que revela.

Logo a seguir um grosso informe sobre como Trump estava nas garras dos russos. Informe obtido por John McCain, personagem da direita mais execrável com um longo historial de alianças com terroristas, que o entregou ao director do FBI e agora, perante o descrédito dessas informações mesmo pelos media mais ferozmente anti-Trump, veste-se de virgem ofendida dizendo que fez o seu dever sem saber se as informações eram credíveis. A sorte dele é que o ridículo não matar. Outro ausente de peso nas galerias fotográficas dos pulhas se houvesse discernimento e coerência.

Acenam com as bandeiras de que Trump é um perigo para a democracia. Será! Mas quem empunha essas bandeiras e está na barricada de Clinton é um perigo igual. Com contornos diferentes, mais de forma que substância, mas rigorosamente igual.

Neste contexto ninguém ou quase ninguém está sequer preocupado em procurar uma explicação racional para a vitória de Trump que é, a traço grosso riscado de forma sintética, a expressão política muito clara do fracasso e da crise estrutural do modelo neoliberal nos Estados Unidos. Todas essas campanhas a favor e contra Trump, chapinhando no pântano em que se transformou a democracia norte-americana, um legado que Obama catalisou, assunto para ser tratado autonomamente, é um bom tema para reescrever o Ensaio sobre a Cegueira. Cegueira de todos os que nela embarcam fazendo juízos políticos, sociais e económicos superficiais, bem enquadrados nas teias da dominante ideologia de direita, mesmo que se digam muito de esquerda. Nem sequer reparam que a grande diferença entre Trump, a administração Trump e os presidentes e administrações dos EUA que o antecederam, é que se antes foi para lá gente que maioritariamente metia a mão no pote, agora estão sentados na Casa Branca os donos do pote.

O mundo é cada vez mais um lugar perigoso mas quando a superficialidade e a cegueira política, tanto pró como contra Trump, se generaliza só o torna ainda mais perigoso.

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Maquiaveis de Opereta

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Maquiavel na política e Dante na literatura são personalidades nucleares da transição da Idade Média para o Renascimento. Os últimos de um mundo que desaparecia para se iniciar um outro novo.

Considerado o percursor da ciência política escreveu vários livros de que o mais célebre é O Principe, muito difundido na sua época. Shakespeare utiliza-o em várias situações das suas tragédias, integra mesmo alguns dos seus conceitos em falas dos seus personagens. Esse caldo de cultura deu origem a um termo perjorativo, o maquiavelismo, vulgarmente associado a uma frase que não escreveu: os fins justificam os meios.

Maquiavel, pelo contrário, considerava que um bom príncipe deveria ser bondoso, caridoso, religioso e ter moral, embora argumentasse que não era necessário possui-las de facto, que o governante devia sobretudo manter as aparências, porque o governo precisa do apoio da opinião pública, o que originou os maiores equívocos. Jean-Jacques Rousseau, um seu leitor atento e um dos fundadores do moderno conceito de democracia, argumenta que Maquiavel tentava alertar o povo sobre os perigos da tirania, fingindo dar lições aos reis, deu-as, e grandes, aos povos.

Uma obra tão importante e controversa teria que originar as maiores ambiguidades e produzir maquiaveis de opera bufa,  que desde sempre poluem, em todo o mundo, a política.

Vem esta longa introdução a propósito de um acontecimento político recente, as eleições presidenciais nos EUA, e dois personagens, Barack Obama e Hillary Clinton, dois bons exemplares de maquiaveis de pacotilha de um império em decadência. Lembre-se que o primeiro, laureado em 2009 com o Prémio Nóbel da Paz, foi dos presidentes dos EUA que mais golpes de estado e mais guerras, directas ou por procuração, promoveu. Que a segunda foi uma das grandes mentoras, entre outras intervenções, das primaveras árabes, semeando a destruição e o caos no norte de África e Mádio-Oriente.

Agora, perdidas as eleições presidenciais num clima inquietante de os norte-americanos terem de escolher entre dois males maiores, a parelha Clinton-Obama atribuem a derrota à divulgação de mails que dizem, sem ter nenhuma prova, ser obra de piratas informáticos russos. O mais extraordinário nesta história é nenhum deles se importar com o conteúdo dos mails que configuram as maquinações mais miseráveis e imorais do estado-maior da equipa da sra Clinton para tramar Sanders e lhe garantir a nomeação pela Convenção Democrática, e a vitória eleitoral. Para esse par o importante não é ter ficado a nu a sua ausência de quaisquer príncipios éticos mas todo o mundo ter ficado a conhecer as suas canalhices dignas de uma frase de Maquiavel: os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha. No caso mesmo os que perdem.

(Editorial no jornal a Voz do Operário/Janeiro http://www.vozoperario.pt/)

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A cacofonia anti-Trump. Uma carta ao meu amigo Zé Teófilo

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Meu caro Zé

Andas muito activo na cacofonia anti -Trump, com galerias de fotos que enfim…umas acertam outras não. São os teus ódios de estimação com uma base errática de análise política. Trump é um protofascista, xenófobo, racista e sexista? É claro que é! Mas atiras ao lado quando te fixas nesses alvos e não olhas para os que são mais importantes. Já lá vamos de forma simplificada, embora te aconselhe a leres o texto do Pacheco Pereira, um homem que mesmo que não se concorde sabe pensar! Primeiro umas notas que considero importantes sobre o que tens escrito. Desde o principio da campanha eleitoral nos EUA, um circo longo que começa nas primárias, não vi um único texto teu, provavelmente porque estava distraído, sobre os golpes baixos da Clinton e da camarilha do jornalismo mercenário que a apoiava a mando de Wall Street e da alta finança, contra Bernie Sanders denegrindo-o desde o primeiro momento em que surgiu como alternativa. Nem um só texto sobre o papel da Hillary Clinton primeiro  como apoiante da invasão do Iraque, da agressão à Jugoslávia (um parenteses Milosevic o Carniceiro dos Balcãs foi absolvido por unanimidade pelo TPI dez anos depois de morrer nos cárceres desse mesmo TPI) e depois como secretária de Estado que comandou o ataque à Líbia, com os resultados que estão à vista e a frase grandiloquente embrulhada num rasgado sorriso “Viemos, Vimos e Matamos” celebrando a morte de Khadafi. Nem sobre o ataque à Síria, tentando repetir o “êxito” líbio, armando, treinando e financiando a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, no que foi travado pela intervenção da Rússia. Nem sobre  o seu apoio ao golpe de estado para-fascista na Ucrânia, com a actívissima sua colaboradora Vitória “Que se Foda a Europa” Nuland. Ucrânia onde combatem ao lado das milícias fascistas batalhões do Estado Islâmico. Nem um só texto sobre de denúncia às golpadas da sra Clinton que nos debates com Sanders sabia previamente as perguntas que lhe iam ser feitas e as que iriam ser feitas a Sanders ou as manobras miseráveis a seu favor da cambada que comandava a Convenção Democrática que a escolheu como candidata à corrida presidencial que foram tão escandalosas que os obrigaram a demitir-se deixando a máquina a funcionar, para mal do pobre Sanders que se contentou com essa demissão.

Também não vi uma só palavra de crítica e condenação a Madeleine Albright, uma grande apoiante “feminista” de Clinton que disse que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras!” , referia-se ás que apoiavam Sanders contra Clinton e que no programa 60 Minutes do canal CBS respondeu à jornalista que a questionou sobre a Guerra no Iraque: “Ouvimos que meio milhão de crianças morreu. Quer dizer, isso é maior do que o número de crianças que morreu em Hiroshima. E, enfim, será que o custo de uma guerra como essa compensa?.” respondendo prontamente: “Acho que é uma escolha muito difícil, mas o custo – nós consideramos que vale a pena arcar com ele.” Nós quem? Todos aqueles, a comunicação social estipendiada e a rapaziada que anda pela internet que se a frase tivessse sido dita, nem era preciso tanto só uns 10% daquela ignominia, por Putin ou pelo presidente do Irão em relação à guerra em curso contra o estado Islâmico na Síria e no Iraque teria caído o carmo e a trindade contra aqueles monstros frios e bárbaros.  Nem é preciso referir a diferença de tratamento mediático que se faz sobre as batalhas em curso em Mossul e Alepo, em que os civis de uma são usados como escudos humanos pelo EI e da outra como vítimas do exército sírio e dos russos! A falta de vergonha e decência é total e absoluta e os que não denunciam essa dualidade seus cúmplices. Mas claro, as clintons e as allbrights e já agora os obamas é que são os simbolos da democracia e do mundo livre.

Como tu são muitos os que centram a campanha anti-Trump no seu machismo, sexismo, xenofobia, misogenia, um erro só explicável por estrabismo político. Clinton era o paradigma da globalização Wall Street. Hillary Clinton era a candidata do complexo militar-industrial, do capital financeiro internacional. Cientes que ela iria colocar em prática os diktats de Wall Street apoiaram-na com entusiasmo. Derramaram meios financeiros brutais, puseram em marcha a comunicação social ao serviço da plutocracia. Gente que são o 1% dos que beneficiam dos contratos de armamento, dos acordos comerciais em curso. Contra isto os norte-americanos votaram em Sanders e Trump, lixando-se contra todos as sombras negras que envolvem Trump. Sanders foi trucidado, Trump venceu prometendo voltar a tornar a América grande. A abissal e incontornável diferença entre eles é que Trump tem a mesma raiz de Clinton. A árvore é a mesma, a poda é que é diferente. Os americanos votaram em Trump que não é Hitler. A história não se repete. E deve-se lembrar que o muro que prometeu construir a separar o México dos EUA começou a ser construído por Bill Clinton, se pensarmos num muro total podes verificar que mais de um terço já existe. Trump é perigoso? Claro que é mas não é nem mais nem menos perigoso do que Hillary Clinton. A sua vitória tem que ser vista como consequência do brutal declínio moral e intelectual do sistema político norte-americano que também contamina os sistema políticos europeus. Isto é que são os aspectos fundamentais e não o foco nas lutas ditas fracturantes que são importantes mas são adjacentes e parcelares da grande luta que tem que ser empreendida contra o sistema. Nos EUA, Sanders  à sua maneira e os outros candidatos de que ninguém fala, Jill Stein e Gary Johnson fizeram-no. O primeiro foi passado a ferro com os golpes mais sujos pelo sistema e na prática demitiu-se na Convenção dos Democratas, dos outros ninguém quase ninguém ouviu falar, o sistema silencia-os ab initio.

Há uma enorme dúvida: o que irá acontecer na casa Branca? Tudo o mundo se interroga e está em suspenso.

Por cá, a eleição de Trump pondo de lado as diatribes cacofónicas sobre a sua misogenia, racismo e xenofobia, tem efeitos curiosos. A direita que se demarcava, por causa desses traços de Trump, recicla-se a alta velocidade porque sempre defenderam, de forma clara ou surda, a destruição da legislação social, dos direitos sociais, a proibição do aborto, a igualdade de género, os direitos da comunidade LGBT e porque, lá bem no fundo, gostam dos tiques  autoritários de Trump. Lá chegará a altura de o defender abertamente, basta ler o Observador, esse farol da direita portuguesa, e atentar na evolução das notícias e comentários sobre as eleições nos EUA desde o principio.  Nas esquerdas pálidas e rasteiras fez com que muitos direitolas travestidos de esquerdinhas tirassem a cabeça de fora. É ler Rui Tavares, esse idiota útil, a defender com unhas e dentes a Nato e as suas políticas agressivas, no meio de delírios bálticos, o acordo de livre comércio  TTIP, a visão da Merkel e a consequente hegemonia alemã na EU. Um bródio.

Termino citando o lúcido artigo que Pacheco Pereira que subscrevo por inteiro:  A vontade de mudar, o elemento mais decisivo nestas eleições, foi parar às piores das mãos, mas foram as únicas que lhes apareceram. Quando Bernie Sanders, outro “antiquado”, cuja candidatura “falava” para estas mesmas pessoas, foi afastado – conhece-se hoje o papel de um conjunto de manobras dos amigos de Hillary Clinton no Partido Democrático –, ficou apenas Trump. E, como já disse, não tenho a mínima simpatia por Trump, a mínima. Mas tenho uma imensa simpatia pela vontade de mudar, que tanta falta faz nos dias de hoje nas democracias esgotadas na América e na Europa.»

Meu caro Zé Teófilo, um pouco mais de distanciamento e discernimento político nas análises o que fará baixar radicalmente o volume dos sound-bytes.

Se calhar irei publicar esta “carta” na praça do Bocage.

Amigos como sempre.

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Pesadelo Climatizado

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Os Estados Unidos da América elegeram para presidente um dos piores males. O outro pior dos males perdeu. O mundo e os EUA que se cuidem. Alguns idiotas úteis andavam muito alegres e satisfeitos com a hipótese de uma mulher ser eleita pela primeira vez presidente dos EUA. Facto histórico diziam com a mesma inconsciência com que celebraram um afro-americano ter sido eleito pela primeira vez presidente. Um afro-americano a quem foi atribuído o Nobel da Paz e foi quem mais guerras directas ou por procuração espalhou pelo mundo. Um afro-americano que aumentou as desigualdades económicas e sociais e a violência racial nos EUA durante os seus mandatos. São esses os factos históricos para essa gente cega por uma visão medíocre e mundana que se preparava para comemorar se Hillary Clinton fosse eleita, esquecendo ser ela a candidata preferida por Wall Street e pelo grande capital. Ser ela uma das principais responsáveis pelo caos que se vive no Médio-Oriente e pelo ambiente de apocalipse que os seus aliados ocasionais da Al-Qaeda, do Estado Islâmico e outros grupos terroristas ad-hoc espalham. Trump é melhor ou é pior? Não se sabe e não é certamente melhor! Trump é um proto-fascista com errático sentido de Estado, de quem se pode esperar tudo ou nada.

Facto histórico nestas eleições é a traição de Bernie Sanders que, depois de ser uma forte lufada de esperança para milhões de norte-americanos sobretudo jovens, atirou na Convenção Democrática essa esperança para o caixote de lixo da senhora Clinton, mesmo sabendo as vigarices e os truques sujos que ela usou para o derrotar. Traição por não ter tido a coragem de romper com um sistema bipartidário corrupto, manipulado pelo grande capital e pelo complexo industrial-militar. Teve todas as condições para o fazer, recuou cobardemente encurralando os seus apoiantes nas baias clintonianas do Partido Democrático.

Esse é o grande facto histórico destas eleições em que os norte-americanos ficaram obrigados a escolher não entre o menor dos males mas entre os dois piores dos males. Qual dos dois era o pior, é o que não iremos saber nos próximos quatro anos por um ter perdido e o outro ganho. Com Clinton ou Trump o mundo fica mais perigoso e imprevisível. Os EUA são cada vez mais um pesadelo climatizado, como lhe chamou Henry Miller, com os norte americanos a puderem ir à Califórnia aliviar-se das dores com a canabis agora legalizada para fins recreativos.

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Eleições nos EUA

chefes-da-cidade-mova-jersia

Fotografia de Robert Frank, City Fathers,Hoboken, New Jersey in /The Americans

Democracia.Democracias

Democracia é, etimologicamente, o “poder do povo”. Significa literalmente que o povo pode escolher os seus líderes em condições de igualdade e liberdade. Abraham Lincoln proclamava que a democracia se fundava no exercício do voto, era «o governo do povo, pelo povo e para o povo». Um idealismo que outro fundador do conceito moderno de democracia, Jean-Jacques Rousseau, contestava pondo em causa a democracia ficar reduzida ao cumprimento do formalismo eleitoral. Defendia que a democracia não é compatível com minorias muito ricas e maiorias na pobreza. Criticava o parlamentarismo inglês do séc. XVIII: «os ingleses acham-se livres porque votam de tantos em tantos anos para eleger os seus representantes, mas esquecem-se de que no dia seguinte a terem votado, são tão escravos como no dia anterior à votação». Para Rousseau, um opressor não pode representar o oprimido. Um patrão não representa um empregado. Uma questão central no conceito de democracia.

Lénine foi mais incisivo: democracia para quem? Um governo «dos ricos, pelos ricos e para os ricos» não se chama democracia, mas plutocracia.

Debate que continua actual. Sem sequer colocar a questão que, depois de exercer o direito de voto, os cidadãos ficam afastados do exercício do poder político até novas eleições, que entre promessas eleitorais e governação as diferenças podem ser abissais, verifica-se que os sistemas eleitorais, uns mais que outros, distorcem deliberadamente o “poder do povo”. Mesmo nos países em que os votos, pelo sistema proporcional, são próximos da vontade um deputado de um partido maior é eleito com menos votos que um deputado de um partido menor. Comparando sistemas eleitorais as aberrações são muitas. Na Grécia o partido que tiver mais votos, mesmo um só voto, tem um bónus de 50 deputados que escolhe a seu bel-prazer. Nas últimas eleições no Reino Unido os resultados são surpreendentes comparando os deputados eleitos e os que realmente seriam eleitos se o voto fosse proporcional: Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209; Partido Trabalhista 232 / 203; Partido Liberal 8 / 48; UKIP 1 / 78. O Parlamento do Reino Unido está bem longe de representar a vontade do povo. Continuar a ler

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A Solução

cachorro-rabo

O que anda para aí de inquietação ! A cada passo se tropeça em opiniões sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, as eleições em Espanha, as crises e os estados de alma da União Europeia, os Estados Unidos da América entre  duas américas, a de Sanders e a de Trump e uma dama insuflável no horizonte, mais o que por aí anda a turbilhonar o mundo e patati  patata na comunicação social, nos blogues, nas redes sociais encharcadas pelos paleios de idiotas úteis alguns  inteligentes que correm atrás do rabo como tontos cães.

No entanto é fácil resolver tudo o que atormenta essa gente e os mercados de modo eficaz, radical e rápido. A solução está ao virar da esquina, já Brecht a tinha escrito com clareza genial

 

(…)

O povo perdeu a confiança do governo

E  só à custa de esforços redobrados

Poderá recuperá-la. Mas não seria

Mais simples para o governo

Dissolver o povo

E  eleger outro?

 

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