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Modernidades do Outro Lado do Espelho

A batalha ideológica que se trava desde que Marx estabeleceu as traves mestras de interpretação do mundo, em que a ideia central é a relação entre o capital e o trabalho, a luta de classes, as relações entre infra-estrutura e superestrutura, tem sido intensa e, na actualidade, é polarizada pelo imperialismo norte-americano que persegue dois grandes objectivos consonantes: um económico e outro cultural.

Uma estratégia que se iniciou no pós-Segunda Guerra Mundial, com a guerra fria cultural1, se intensificou com a queda do Muro de Berlim e está triunfante nas políticas pós-política.

Os anos 60 são os anos de corte em que se inicia a passagem para a política, a economia e a cultura actuais. Em que o papel do estado se começa a alterar substancialmente, passando de um Estado interventivo e garante do bem-estar para o tendencialmente Estado mínimo neoliberal, dominado pelas leis do mercado e do paradigma da iniciativa privada que é desmentido pela situação de crise permanente e senil em que o capitalismo vive, em que o Estado é o pronto-socorro que despeja triliões de dólares para salvar o sistema financeiro e os privados. Com a financeirização da economia as desigualdades aumentaram brutalmente. Desde 1980 os 1% com mais rendimentos capturaram duas vezes mais ganhos do que os 50% mais pobres. Entre 1988 e 2008, os 10% mais ricos da população mundial apropriaram-se de mais de 60% de todo o crescimento do rendimento mundial. Em 2010, 1% dos mais ricos do planeta controlavam 46% de toda a riqueza mundial. Não há democracia possível numa economia em que há tal desigualdade de poder, realidade que se pretende ocultar com a mercantilização da cultura para consolidar a hegemonia pela modelação da consciência popular. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista neoliberal, em que se vende a ideia que a liberdade do mercado seria mais igualitária quando não há nada mais desigual do que o tratamento igual entre desiguais.

Em nome da racionalização e da modernização da produção, está-se a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Essa nova ordem económica impõe-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Mega pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística.

Uma cultura de impacto máximo e de obsolescência imediata, numa acelerada sucessão de modas e humores públicos que procura extrair o máximo lucro do empobrecimento moral, intelectual, em que a diversão promovida pelas indústrias culturais e criativas tudo normaliza e esvazia de sentido. É um dos mecanismos que o capitalismo pós-democrático usa com eficácia para promover a alienação, até a transformar num conformismo em que não se distingue a realidade das aparências. O objectivo final é que as massas populares fiquem cada vez mais incapazes de perceber os verdadeiros jogos políticos para castrarem a sua capacidade de intervenção.

É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana, um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. Uma cultura da ilusão que se apresenta como um pensamento mágico de um sistema que quer reduzir a humanidade a uma mercadoria hipotecária para que os homens deixem de afirmar a sua individualidade e o seu progresso pelo trabalho humano.

É neste quadro que se trava um áspero combate ideológico, sobretudo num contexto em que não está no horizonte nenhuma acção política de projecção universal, em que as políticas de esquerda ainda que importantes, mesmo pontualmente decisivas, têm um limitado raio de acção, sempre com a certeza que se firmam numa base ontológica sólida porque a totalidade social não é uma quimera.

O debate entre as forças de esquerda sempre foi intenso entre revolucionários e reformistas e dentro de cada uma dessas áreas, o que foi sempre aproveitado pelos reaccionários, que nunca desarmam nem desistem, para assegurar a sobrevivência do capitalismo, de corromper a linguagem de esquerda, procurando-se apropriar-se das ideias nucleares da esquerda para manipulá-las, o que têm conseguido com algum êxito, promovendo a confusão ideológica, com a consequente desorientação política de muitos meios progressistas.

A mais antiga confusão é a de que os conceitos de direita e esquerda perderam sentido, são distinções sem significância porque as ideologias se desgastaram. Uma ideia que teve origem dentro de uma determinada esquerda, em que Deleuze e Gauttari pontificavam, em linha com o estruturalismo e a semiologia que estavam na ordem do dia e que tinham introduzido nas ciências humanas um sistema de análise das comunicações linguísticas e visuais de métodos análogos aos das ciências empíricas e experimentais. O que Deleuze e Gautatari fazem, com grande repercussão em muitas áreas da esquerda, é colocar em causa o conceito de ideologia como Marx o definira em Para a Crítica da Economia Política, onde estabelece e traça as relações entre a produção material e a produção imaterial: «Com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superestrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem», depois de já ter afirmado em A Ideologia Alemã que «a produção das ideias, representações, da consciência, está a princípio directamente entrelaçada com a actividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como o efluxo directo do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, das artes, da ideologia, etc., de um determinado povo».

Os filósofos franceses consideram que o que se designa como ideologia  são «enunciados de organizações de poder» entendidos como parte decisiva da própria estrutura produtiva do capitalismo, não uma superestrutura, ainda que numa relação com a produção económica, a infra-estrutura. São «agenciamentos de enunciação», que desde sempre foram predominantes na história ou seja, a ideologia é substituída pela análise das subtilezas da linguagem, pelas relações entre a semiótica do significante e do não-significante. De um modo chão, há que questionar e lembrar a essas correntes e suas derivadas que não foram as relações entre o significante e o seu significado ou vice-versa, por mais importantes que sejam, que foram decisivas para a tomada da Bastilha ou do Palácio de Inverno, para instaurar a Comuna de Paris ou para fazer a Revolução do 25 de Abril. Foram acções revolucionárias sobre o mundo material sobre o qual se agiu para o alterar.

Coerentemente com os suas conclusões, Deleuze faz a defesa do Maio de 68 considerando que o que «é normalmente chamado de política se fecha de tal forma como um poder que uma força de transformação política só pode vir de fora deste território fechado da política». Em síntese o devir revolucionário só poderia começar pelos «despolitizados», pelos «desideologizados». Utilizando a sua terminologia, o desejo político explodiria de maneira pré-significante, anterior à consciência política, portanto pré-ideológico. Está em linha com a Internacional Situacionista (IS), a raiz ideológica do Maio 68, que se nega enquanto ideologia à semelhança dos ideólogos da burguesia: «a IS não quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS não é portanto nem um movimento político, nem uma sociologia de mistificação política» para logo a seguir se designarem como contribuintes cativos para um novo movimento proletário de emancipação «centrado na espontaneidade das massas» com o fim «de superar os fracassos da política especializada» (…) «com novas formas de acção contra a política e a arte», dizendo querer alterar radicalmente «o terreno tradicional da superação da filosofia, da realização da arte e da abolição da política». São herdeiros de Proudhon, «todas as revoluções se cumpriram pela espontaneidade do povo». Uma crença na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experiências da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine, elogiando «esse admirável espírito de organização espontânea que o povo possui em tão alto grau», considera não ser por si só suficiente para fazer eficazmente uma revolução. Uma confiança desmentida pelas várias experiências históricas a que Lenine recorre para, em Que Fazer?, combater as ilusões originadas por essa convicção, sem deixar de considerar a importância das acções espontâneas.

São estes os fundamentos de uma desideologização de uma nova esquerda que são adulterados pelos pensadores de direita e pelos média mainstream para esvaziarem o conteúdo original do materialismo dialéctico, o seu poder revolucionário, adulando esses reformadores das esquerdas radicais, que etiquetam de «modernos», opondo-os aos «conservadores», a esquerda consequente que tem a certeza e a convicção de que nenhuma realidade, por mais consistente e hegemónica que se apresente, como é o capitalismo actual, deve ser considerada definitiva, nem dá por eterno o princípio da dominação capitalista.

Os objectivos do imperialismo cultural são óbvios, vulnerabilizar o pensamento de esquerda promovendo uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores de esquerda e de direita, que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico. Os partidos de direita e dessa esquerda cosmopolita tornaram-se prolongamentos do aparelho de estado, representando interesses económicos que lhes dão apoio variável. Em que a actividade política se reduz praticamente à conquista do voto, o que representa um retrocesso político-ideológico que se esgota nos momentos eleitorais e deixa o campo aberto para o surgimento dessas novas-velhas forças políticas enquadradas no capitalismo pós-democrático.

Maio 68 é o marco da não-revolução que marca o fim de uma época, inicia uma outra em que a ideia de revolução se fragmenta em lutas por mudanças sociais que deixam intocadas as fundações do sistema. São as políticas identitárias tão em voga, que objectivamente são políticas de direita. Aos rebeldes sem filtro que reclamavam maiores liberdades o neoliberalismo deu-lhes essas liberdades dando-lhes a liberdade do mercado, com o objectivo de desmantelar as instituições colectivas da classe trabalhadora, em particular os sindicatos e os partidos políticos, considerados anacrónicos nessa nova ordem em que maiores liberdades individuais se afundam em maiores injustiças sociais. O fim do neoliberalismo é que as reivindicações, mesmo quando alterem as atitudes sociais, não sejam mudança social, nem se empenhem em transformações sociais radicais. Até um certo limite, até correndo alguns riscos, é-lhe conveniente a emergência das lutas ditas fracturantes, em que se conquistam direitos sem o direito de colocar em causa a ordem estabelecida. Tem uma consequência: a colonização do pensamento de sectores da esquerda pela direita com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer ainda que com todas as contradições e dificuldades.

As esquerdas radicais, em Portugal e no mundo, as esquerdas «modernas» que se opõem à esquerda praxada de «conservadora», ainda que por vezes tenham uns rompantes ou se digam pós-marxistas, não se revêm no que é nuclear no pensamento marxista: a relação de exploração entre o capital e o trabalho, as lutas  de classes que se vão ajustando às condições objectivas e subjectivas das sociedades onde se travam.

Conjecturam que a teoria marxista está ultrapassada por não corresponder às características da sociedade contemporânea, a chamada aldeia global pós-industrial. Consideram essas condições ultrapassadas, antiquadas, substituíveis pelas causas fracturantes e identitárias, com uma forte componente intelectual, mediática, de moda, praticamente sem relação com a tradicional base social da esquerda no mundo operário e nos sindicatos. Para eles ,as classes sociais não contam porque se estão dissolvendo, perdendo sentido, pelo que a tónica marxista nas classes sociais é reducionista, o que prevalece é a santíssima trindade da raça, sexo e género, como se em cada raça, sexo e género não existissem divisões sociais. Uma deriva pós-marxista em que as políticas identitárias acabam por ocultar que as fontes dos conflitos são sempre sociais antes de serem identitárias.

Ultrapassado o espelho da «modernidade» assumida por essas esquerdas, por mais que lapidem essa realidade, mesmo que obtenham alguns êxitos, o que se encontra de facto é a renúncia a uma sociedade que se oponha à desordem do mundo actual, com a desonestidade intelectual de fingir que o marxismo não representa mais uma realidade política actuante numa perspectiva socialista ainda que remota, um campo de batalha de onde os «conservadores» não desertam, carregando um património de lutas, «na “tradição dos oprimidos” (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez» (Manuel Gusmão).

(Publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/)

Bibliografia relacionada

Cunhal, Álvaro; O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Edições Avante!, 1974

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1, Assírio & Alvim, 2004

Deleuze, Gilles; Guattari, Felix; Mil Planaltos. Capitalismo e Esquizofrenia 2, Assírio & Alvim, 2008

Gusmão, Manuel, Uma Razão Dialógica, Edições Avante!, 2011

Lenine, Que Fazer?, Edições Avante!, 1984

Marx, Karl; Engels, Friedrich; Obras Escolhidas (em três tomos), Edições Avante!, 1982-1985 (2.ª edição, 2008-2016)

Marx, Karl; Proudhon, Pierre-Joseph; Misère de la Philosophie/Philosophie de la Misère, Union Génerale d’Editions, colecção Le Monde en 10/18, 1964
 

TÓPICO

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Políticas de Supermercado

Discurso Eleitoral, João Abel Manta, desenho a tinta da china, Agosto 1969, publicado no Diário de Lisboa/Mesa Redonda 19 de Setembro

Não é de agora nem é novidade a política estar cada vez mais subordinada a estratégias de marketing. As próximas eleições no Reino Unido são um sinal claro dessa deriva. Mais que a campanha eleitoral, os debates televisivos o que verdadeiramente conta é a “fábrica de memes” dos conservadores a funcionar 24 horas por dia no universo digital dirigida por David Cummings, um australiano especialista nessas estratégias, autor das mais bem conhecidas ideias da campanha no referendo pela saída da União Europeia com o slogan Take Back Control” (Agarre novamente o controlo) numa referência clara ao uso do controlo remoto dos aparelhos domésticos e das playstationes e do telefilme The Uncivil War, que muito influenciaram o voto. É um acenar sem pausas à empatia e não à racionalidade das pessoas. A campanha online dos conservadores iniciou-se ainda antes de estar decidida a ida às urnas. As referências à cultura popular multiplicam-se. É o jogo do Monopólio, A Guerra dos Tronos, o recurso constante a anúncios que não estão ligados diretamente a partidos políticos mas à publicidade de, por exemplo, KFC e MacDonnalds, enviesadamente utilizados para aproveitar a memorização já produzida. Por cá isso também foi decalcado e utilizado, não por acaso, pela Iniciativa Liberal para, numa linguagem acessível, dar uma imagem falsa da realidade. Percorra-se a galeria de imagens dos seus cartazes para se percepcionar esse relacionamento mimético com o outro lado do Canal da Mancha, o que deixa muitas questões no ar.

Tudo isto é feito com uso intensivo das redes sociais, Facebook, Instagram, Twitter e do WhatsApp, onde se investem milhões em publicidade com anúncios políticos online em que os os utilizadores são instados a fornecer o seu e-mail e localização, uma evidente tentativa de alargar a base de dados de eleitores do partido e recolher dados dos eleitores através das redes sociais. Nada disto é novo. Nos EUA são uma vulgaridade bem utilizada por Obama ou Trump, com resultados reais que correspondem aos investimentos brutais em spots publicitários pagos com as contribuições de grandes grupos económicos, que lhes dão apoio variável em função das expectativas criadas à expansão dos seus negócios. Há ainda que ter memória das revoluções da Primavera Árabe e da campanha de Bolsonaro à boleia da difusão colossal e da velocidade estrastoférica desses meios tecnológicos, onde a propaganda se associa às fake-news e ao que é fake para defraudarem a realidade com um poderio imenso, influenciando não só os utilizadores intensivos das redes sociais seja o utilizador comum sejam jornalistas, analistas e académicos, muitos deles predispostos a absorverem essas mensagens, para se verificar como a informação assim produzida é influente.

Tudo isto acontece porque nos sistemas representativos a publicidade, directa e indirecta, associada à descarada manipulação da comunicação social sempre ao serviço do poder dominante, tem enorme peso na decisão de voto. O exemplo mais exemplar, passe o pleonasmo, é o de Itália onde Berlusconi recolheu as maiores votações nas regiões onde o seu poder televisivo era esmagador mas também no triunfo de Macron sustentado na pseudo novidade de um partido mais que velho e relho nas suas raízes.

Isto acontece porque a apologia da democracia tende progressivamente a confundir-se com a dos partidos tanto mais quanto menos a realidade corresponde ao ideal democrático, o que provoca uma contínua degradação da política e do pessoal político, na degradação do Estado nas suas componentes políticas, profissionais e técnicas, no descrédito da política e dos políticos, no desencantamento com a política que os media e as redes sociais produzem com contumácia propondo uma visão cínica do mundo político nas notícias e comentários, o que abre as portas dos populismos, cada cor seu paladar, alimenta a vox populli contra os políticos, o aparelho de Estado, o trabalho da acção parlamentar fertilizando processos de demagogia, alimentando uma opinião pública que não sabe mas acha que.

É o caldo de cultura de um sistema democrático representativo em que há uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre os partidos de esquerda, do centro e de direita que se integram completamente nesse sistema. Que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade quase exclusivamente pelos resultados da competição eleitoral, em que a democracia deixou mesmo de ser o lugar da luta de classes pacífica como era proclamada pelos pioneiros revisionistas sociais-democratas. Isto também abre caminho aos populistas, de direita e de uma auto proclamada esquerda, que negam as evidências de que a luta de classes existe , não parou e que há de facto políticas de direita e de esquerda.

Surgem novos partidos useiros e vezeiros nas profissões de fé contra os partidos tradicionais enquanto se organizam tal qual os partidos tradicionais. Não são instrumentos ao serviço dos eleitores, em particular de quem os elegeu, são uma finalidade em si-próprios que disfarçam com declarações altissonantes como as de Joacine Katar Moreira que, chegada à AR, sente-se tão ungida, tão excepcional que messianicamente explica à plebe ignara que “Hoje estamos a inaugurar uma nova era e é, especialmente, uma era em que estes ambientes que há uns anos olhávamos enquanto ambientes completamente orientados para a mesma elite política, económica, financeira e por aí a fora, é hoje em dia, um ambiente que se abre e que é, simultaneamente, a evolução do ambiente institucional português e um sinal de maturidade política”. Para a deputada do Livre há uma AR antes- Joacine e uma AR pós-Joacine, só lhe falta propor um novo calendário em substituição do gregoriano para assinalar esse facto magno que só existe na sua cabeça. Tem o desplante de proclamar isso porque bem sabe que o ridículo não mata e declarações desse jaez são um golpe publicitário sublinhado pelas saias do seu assessor. Mesmo para todos os que se estão marimbando para a sua gaguez e para as vestes provocatórias do seu assessor, para todos os que repudiam a infame campanha de que foi e é alvo, é evidente que o que Joacine Katar Moreira persegue, e iniciou em grande estilo, é uma campanha de marketing que iluda as propostas programáticas do Livre em deriva acentuada para a direita por uma radicalização das políticas identitárias polvilhadas de afirmações patéticas como a de “não se pode falar de salário mínimo nacional sem se falar de amor” (…) “política sem amor é comércio”, um linguarejar em linha com os gouchas que preenchem os espaços televisivos dos entretenimentos do povo dá cá o pé, toma lá o pé.

Não está isolada. Tinha sido precedida pelo PAN e está bem acompanhada pela Intervenção Liberal e pelo Chega que tem a vantagem sobre os outros de congregar os saudosos do fascismo, os patrioteiros nacionalistas, os caceteiros que andavam tresmalhados. Têm um traço comum: as políticas identitárias dos mais diversos matizes que os separam à superfície e os unem nas profundezas. Jogam todos e competem todos nos golpes de marketing e nos adubados territórios das redes sociais às ruas, apoiados nos media que rapidamente lhes ofereceu e oferece um tempo de antena que pouco ou nada reflete a sua representatividade, com o Chega a chegar-se à frente por via dos comentários desportivos.

Se o marketing e a publicidade já ocupavam espaço crescente em substituição das propostas ideológicas, diluindo-as até as tornar quase residuais em partidos tradicionais agora tornaram-se dominantes nesses partidos, mesmo o Chega, que são de facto organizações eleitorais e eleitoralistas sem definição, com a mobilização ideológica reduzida ao alinhamento de slogans apontados à conquista do voto, à politização desses slogans em melhor ou pior urdidas campanhas publicitárias, o que é um grave retrocesso político-ideológico até porque as lutas sociais e políticas não se esgotam nos momentos eleitorais, o seu único alvo.

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A FRANÇA ESTÁ A ARDER

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A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

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A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

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10 Novembro, Coligação de Direita, Direita e Esquerda, Passos Coelho, PSD

Que se lixem as eleições!

passos

Niguém poderá, com honestidade, dizer que Passos Coelho não disse ao que vinha quando afirmou “que se lixem as eleições”.

O homem bem avisou, as eleições pouco lhe interessam, as maiorias na Assembleia da República não têm qualquer relevância, o importante é que seja ele a governar, mesmo que seja num governo minoritário e sem apoio parlamentar, mesmo que seja num governo de gestão com a benção presidencial.

Como o resultado das últimas eleições não o satisfez, como não conseguiu garantir uma maioria estável no Parlamento, como não conseguiu manter o seu Governo em funções,  pede revisão constitucional para antecipar eleições .

Afinal, nesta história, quem são os golpistas?

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Arroja, Comunicação Social, Direita e Esquerda, Ideologia de Direita, Machismo

A direita, o Machismo e o Arroja

Adão e Eva Lucas Cranach

Adão e Eva de Lucas Cranach

Com tanto ruído à volta, também fui ouvir Pedro Arroja. É miserável mas fiquei sem perceber porque é que o Bloco de Esquerda exige desculpas ao canal televisivo, por não se demarcar das declarações de Pedro Arroja. De que valem as desculpas que fossem dadas pelo Porto Canal? Têm o mesmo valor das desculpas que eventualmente os supostos isentos jornalistas que enxameiam os meios de comunicação social poderiam dar pela campanha de desinformação que todos os dias e a toda hora fazem, de forma directa ou indirecta, para alimentarem a campanha de direita. As graduações são evidentemente diferentes, mas o espaço concedido a Pedro Arroja é o mesmo que é concedido, por exemplo a Paulo Portas para repetir a cassete em que, com o descaramento conhecido, desmente o que disse há quatro anos sobre governos minoritários e maiorias parlamentares. Não há jornalista que o confronte com isso ou qualquer outra das suas afirmações irrevogáveis que alimentam a montanha russa de retórica de pacotilha, variável conforme as circunstâncias e os interesses momentâneos, que povoam a sua vida política. A complacência comparada com a agressividade que usam com outros passa sem reparo! Ontem, nos diversos canais de televisão os exemplos multiplicaram-se. Vão ser o pão nosso da mixórdia comunicacional de todos ps dias.

Há por aí quem escreva e diga que Pedro Arroja é conhecido pelas suas afirmações politicamente incorrectas. Curiosa forma de camuflar tudo o que é politicamente incorrecto na política de direita travestido de pensamento político que merece consideração. Poucos são os Heidegger ou os Raymond Aron. Muitos os Glucksmann e os Bernard-Henri Lévy. Poucos os Churchill e muitos os Reagan, os Blair, os Bush. Há um enxame de medíocres vespas asiáticas ao assalto em defesa de uma nova barbárie política económica e social totalitária que quer comandar o mundo escapando-se ao escrutínio democrático, através dos seus braços armados, com o FMI e o Banco Mundial na linha da frente e Bildeberg na retaguarda. A comunicação social anda por aí para os servir.

O Arroja não é mais nem menos do que uma dessas vespas zumbidoras a que a comunicação estipendiada dá voz quando acha conveniente.

O que ele agora disse só merece ser falado porque é um insulto a todos nós homens. Tem a virtude de colocar no terreno uma questão, essa sim fracturante. A ideologia burguesa de direita, que nunca se assume como ideologia por se pensar eterna e estar para lá do fim da história, considera que há territórios politica e ideologicamente neutros como os da cultura, dos direitos humanos ou, no caso, o do machismo. Territórios onde, aparentemente, direita e esquerda se podem encontrar sem conflito.

A realidade é outra. O Schubert ou o Wagner que eu ouço, o Erza Pound ou o René Char que eu leio, o Tartokvsky ou o Orson Welles que eu vejo não são os mesmos do que a generalidade dessa gente de direita, ouviu, leu e viu. Não são, nem nunca serão. Excepções haverá, nenhuma regra não tem a sua excepção. Há mesmo gente que politicamente se afirma de direita que ouvirá, lerá e verá essas obras com uma visão diversa que aprofunda a sua audição, leitura e visão.  Mas na generalidade nunca ouviremos, leremos e veremos o mesmo. Georges Steiner descobriu isso quando Lukács lhe disse que nos campos de concentração nazis Mozart nunca seria tocado. Admirou-se com afirmação tão peremptória. Confrontou-a com Benjamin Britten que, depois de uns quinze dias a rever Mozart, lhe telefona a dar razão a Lukács.

Ao ouvir Pedro Arroja, nós homens, devemos afirmar a nossa condição de homens, indignando-nos, mas afirmando que o machismo é um traço do pensamento da direita. Inscreve-se no pensamento de direita. Está em linha com o pensamento político, social e económico da direita. A luta pela igualdade de género, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres sempre foi uma luta da esquerda. Há homens que são ou militam nas esquerdas e têm atitudes machistas? Claro que há! Outra vez a questão da regra e da excepção. Mas nunca um homem de esquerda pode considerar que a mulher aparece de uma costela de Adão. Nunca um homem de esquerda pode esquecer que foi Eva que deu a maçã a trincar a Adão e lhe limpou o olhar animal, o tornou Homem para a história da Humanidade se iniciar com o trabalho histórico e social de trabalhar os sentidos, não só os sentidos físicos, como o ouvido ou o ver, mas os sentidos práticos como os da vontade, do amor, como Marx teorizou tão excelentemente

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