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A FRANÇA ESTÁ A ARDER

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A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

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A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

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10 Novembro, Coligação de Direita, Direita e Esquerda, Passos Coelho, PSD

Que se lixem as eleições!

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Niguém poderá, com honestidade, dizer que Passos Coelho não disse ao que vinha quando afirmou “que se lixem as eleições”.

O homem bem avisou, as eleições pouco lhe interessam, as maiorias na Assembleia da República não têm qualquer relevância, o importante é que seja ele a governar, mesmo que seja num governo minoritário e sem apoio parlamentar, mesmo que seja num governo de gestão com a benção presidencial.

Como o resultado das últimas eleições não o satisfez, como não conseguiu garantir uma maioria estável no Parlamento, como não conseguiu manter o seu Governo em funções,  pede revisão constitucional para antecipar eleições .

Afinal, nesta história, quem são os golpistas?

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Arroja, Comunicação Social, Direita e Esquerda, Ideologia de Direita, Machismo

A direita, o Machismo e o Arroja

Adão e Eva Lucas Cranach

Adão e Eva de Lucas Cranach

Com tanto ruído à volta, também fui ouvir Pedro Arroja. É miserável mas fiquei sem perceber porque é que o Bloco de Esquerda exige desculpas ao canal televisivo, por não se demarcar das declarações de Pedro Arroja. De que valem as desculpas que fossem dadas pelo Porto Canal? Têm o mesmo valor das desculpas que eventualmente os supostos isentos jornalistas que enxameiam os meios de comunicação social poderiam dar pela campanha de desinformação que todos os dias e a toda hora fazem, de forma directa ou indirecta, para alimentarem a campanha de direita. As graduações são evidentemente diferentes, mas o espaço concedido a Pedro Arroja é o mesmo que é concedido, por exemplo a Paulo Portas para repetir a cassete em que, com o descaramento conhecido, desmente o que disse há quatro anos sobre governos minoritários e maiorias parlamentares. Não há jornalista que o confronte com isso ou qualquer outra das suas afirmações irrevogáveis que alimentam a montanha russa de retórica de pacotilha, variável conforme as circunstâncias e os interesses momentâneos, que povoam a sua vida política. A complacência comparada com a agressividade que usam com outros passa sem reparo! Ontem, nos diversos canais de televisão os exemplos multiplicaram-se. Vão ser o pão nosso da mixórdia comunicacional de todos ps dias.

Há por aí quem escreva e diga que Pedro Arroja é conhecido pelas suas afirmações politicamente incorrectas. Curiosa forma de camuflar tudo o que é politicamente incorrecto na política de direita travestido de pensamento político que merece consideração. Poucos são os Heidegger ou os Raymond Aron. Muitos os Glucksmann e os Bernard-Henri Lévy. Poucos os Churchill e muitos os Reagan, os Blair, os Bush. Há um enxame de medíocres vespas asiáticas ao assalto em defesa de uma nova barbárie política económica e social totalitária que quer comandar o mundo escapando-se ao escrutínio democrático, através dos seus braços armados, com o FMI e o Banco Mundial na linha da frente e Bildeberg na retaguarda. A comunicação social anda por aí para os servir.

O Arroja não é mais nem menos do que uma dessas vespas zumbidoras a que a comunicação estipendiada dá voz quando acha conveniente.

O que ele agora disse só merece ser falado porque é um insulto a todos nós homens. Tem a virtude de colocar no terreno uma questão, essa sim fracturante. A ideologia burguesa de direita, que nunca se assume como ideologia por se pensar eterna e estar para lá do fim da história, considera que há territórios politica e ideologicamente neutros como os da cultura, dos direitos humanos ou, no caso, o do machismo. Territórios onde, aparentemente, direita e esquerda se podem encontrar sem conflito.

A realidade é outra. O Schubert ou o Wagner que eu ouço, o Erza Pound ou o René Char que eu leio, o Tartokvsky ou o Orson Welles que eu vejo não são os mesmos do que a generalidade dessa gente de direita, ouviu, leu e viu. Não são, nem nunca serão. Excepções haverá, nenhuma regra não tem a sua excepção. Há mesmo gente que politicamente se afirma de direita que ouvirá, lerá e verá essas obras com uma visão diversa que aprofunda a sua audição, leitura e visão.  Mas na generalidade nunca ouviremos, leremos e veremos o mesmo. Georges Steiner descobriu isso quando Lukács lhe disse que nos campos de concentração nazis Mozart nunca seria tocado. Admirou-se com afirmação tão peremptória. Confrontou-a com Benjamin Britten que, depois de uns quinze dias a rever Mozart, lhe telefona a dar razão a Lukács.

Ao ouvir Pedro Arroja, nós homens, devemos afirmar a nossa condição de homens, indignando-nos, mas afirmando que o machismo é um traço do pensamento da direita. Inscreve-se no pensamento de direita. Está em linha com o pensamento político, social e económico da direita. A luta pela igualdade de género, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres sempre foi uma luta da esquerda. Há homens que são ou militam nas esquerdas e têm atitudes machistas? Claro que há! Outra vez a questão da regra e da excepção. Mas nunca um homem de esquerda pode considerar que a mulher aparece de uma costela de Adão. Nunca um homem de esquerda pode esquecer que foi Eva que deu a maçã a trincar a Adão e lhe limpou o olhar animal, o tornou Homem para a história da Humanidade se iniciar com o trabalho histórico e social de trabalhar os sentidos, não só os sentidos físicos, como o ouvido ou o ver, mas os sentidos práticos como os da vontade, do amor, como Marx teorizou tão excelentemente

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