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A FRANÇA ESTÁ A ARDER

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A Liberdade Guia o Povo, Delacroix

Ontem percorrer os diversos canais de televisão e ouvir os diversos opinadores que sisudamente debitavam “inteligentes” comentários no rescaldo das eleições presidenciais francesas foi exercício penoso e inquietante. Hoje segue-se naturalmente mais uma enxurrada de textos dos mesmos e mais uns outros pares que, desta vez, não tiveram assento nos tablados televisivos e radiofónicos. A ruminação irá continuar triturando a miséria das filosofices de pacotilha, com maior ou menor conhecimento local, o que pouco acrescenta além de uns dourados na moldura. Feito um balanço de tanto falazar, conclui-se que ler previsões astrológicas, os profissionais dessa área são igualmente numerosos e habilitados, até será mais produtivo. Entretanto a extrema-direita avança na Europa e no mundo por sobre os destroços das crises do capitalismo e da globalização, as consequências das políticas ditas de ajustamento, as traições dos socialistas e sociais-democratas submetidos aoa globalistas, as euforias das esquerdas caviar, enquanto a direita vai ajustando as suas rotas para não ficar fora das órbitas do poder. As preocupações que se expressam com os riscos do fascismo que se perfila seriamente no nosso horizonte são inconsistentes enquanto se meter a cabeça na areia e se procure curar um cancro em adiantado estado de desenvolvimento e com inúmeras metástases com comprimidos de melhoral, o tal que não faz bem nem faz mal. Dito isto à laia de prólogo, anexo a reflexão sobre as eleições francesas publicado no AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt  de hoje.

 

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A Jangada da Medusa , Gericault

 

 

NO RESCALDO DAS ELEIÇÕES FRANCESAS

 

Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron. Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinha estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema. Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso. Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas. Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta. Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles. É gente não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls. Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita, em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem. As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa. Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. As esquerdas, em particular os comunistas, são as mais visadas por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel. O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo. Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas. A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si-próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais. Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados. Essa é que é a crise do sistema, a real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa. Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.

 

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Pesadelo Climatizado

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Os Estados Unidos da América elegeram para presidente um dos piores males. O outro pior dos males perdeu. O mundo e os EUA que se cuidem. Alguns idiotas úteis andavam muito alegres e satisfeitos com a hipótese de uma mulher ser eleita pela primeira vez presidente dos EUA. Facto histórico diziam com a mesma inconsciência com que celebraram um afro-americano ter sido eleito pela primeira vez presidente. Um afro-americano a quem foi atribuído o Nobel da Paz e foi quem mais guerras directas ou por procuração espalhou pelo mundo. Um afro-americano que aumentou as desigualdades económicas e sociais e a violência racial nos EUA durante os seus mandatos. São esses os factos históricos para essa gente cega por uma visão medíocre e mundana que se preparava para comemorar se Hillary Clinton fosse eleita, esquecendo ser ela a candidata preferida por Wall Street e pelo grande capital. Ser ela uma das principais responsáveis pelo caos que se vive no Médio-Oriente e pelo ambiente de apocalipse que os seus aliados ocasionais da Al-Qaeda, do Estado Islâmico e outros grupos terroristas ad-hoc espalham. Trump é melhor ou é pior? Não se sabe e não é certamente melhor! Trump é um proto-fascista com errático sentido de Estado, de quem se pode esperar tudo ou nada.

Facto histórico nestas eleições é a traição de Bernie Sanders que, depois de ser uma forte lufada de esperança para milhões de norte-americanos sobretudo jovens, atirou na Convenção Democrática essa esperança para o caixote de lixo da senhora Clinton, mesmo sabendo as vigarices e os truques sujos que ela usou para o derrotar. Traição por não ter tido a coragem de romper com um sistema bipartidário corrupto, manipulado pelo grande capital e pelo complexo industrial-militar. Teve todas as condições para o fazer, recuou cobardemente encurralando os seus apoiantes nas baias clintonianas do Partido Democrático.

Esse é o grande facto histórico destas eleições em que os norte-americanos ficaram obrigados a escolher não entre o menor dos males mas entre os dois piores dos males. Qual dos dois era o pior, é o que não iremos saber nos próximos quatro anos por um ter perdido e o outro ganho. Com Clinton ou Trump o mundo fica mais perigoso e imprevisível. Os EUA são cada vez mais um pesadelo climatizado, como lhe chamou Henry Miller, com os norte americanos a puderem ir à Califórnia aliviar-se das dores com a canabis agora legalizada para fins recreativos.

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Eleições nos EUA

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Fotografia de Robert Frank, City Fathers,Hoboken, New Jersey in /The Americans

Democracia.Democracias

Democracia é, etimologicamente, o “poder do povo”. Significa literalmente que o povo pode escolher os seus líderes em condições de igualdade e liberdade. Abraham Lincoln proclamava que a democracia se fundava no exercício do voto, era «o governo do povo, pelo povo e para o povo». Um idealismo que outro fundador do conceito moderno de democracia, Jean-Jacques Rousseau, contestava pondo em causa a democracia ficar reduzida ao cumprimento do formalismo eleitoral. Defendia que a democracia não é compatível com minorias muito ricas e maiorias na pobreza. Criticava o parlamentarismo inglês do séc. XVIII: «os ingleses acham-se livres porque votam de tantos em tantos anos para eleger os seus representantes, mas esquecem-se de que no dia seguinte a terem votado, são tão escravos como no dia anterior à votação». Para Rousseau, um opressor não pode representar o oprimido. Um patrão não representa um empregado. Uma questão central no conceito de democracia.

Lénine foi mais incisivo: democracia para quem? Um governo «dos ricos, pelos ricos e para os ricos» não se chama democracia, mas plutocracia.

Debate que continua actual. Sem sequer colocar a questão que, depois de exercer o direito de voto, os cidadãos ficam afastados do exercício do poder político até novas eleições, que entre promessas eleitorais e governação as diferenças podem ser abissais, verifica-se que os sistemas eleitorais, uns mais que outros, distorcem deliberadamente o “poder do povo”. Mesmo nos países em que os votos, pelo sistema proporcional, são próximos da vontade um deputado de um partido maior é eleito com menos votos que um deputado de um partido menor. Comparando sistemas eleitorais as aberrações são muitas. Na Grécia o partido que tiver mais votos, mesmo um só voto, tem um bónus de 50 deputados que escolhe a seu bel-prazer. Nas últimas eleições no Reino Unido os resultados são surpreendentes comparando os deputados eleitos e os que realmente seriam eleitos se o voto fosse proporcional: Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209; Partido Trabalhista 232 / 203; Partido Liberal 8 / 48; UKIP 1 / 78. O Parlamento do Reino Unido está bem longe de representar a vontade do povo. Continuar a ler

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Comunicação Social, Critérios Editoriais, Critérios Jornalisticos, Debates Eleitorais, Edgar Silva, Eleições presidenciais 2016, Geral, Henrique Neto, Maria de Belém, Marisa Matias, Paulo Morais, Sampaio da Nóvoa, Tino de Rans

O primeiro dia da campanha eleitoral para as Presidenciais

 

medusaA campanha da eleição presidencial que hoje  oficialmente se inicia teve nos tempos de pré-campanha algumas curiosidades que se devem registar por desnudarem, mais uma vez, os truques da comunicação social, entrincheirados nos critérios editoriais e jornalísticos. Esventram uma realidade de todos conhecida, por mais sabida, a do mercenarismo aliado à falta de qualidade profissional. O rol, só focado neste tema, seria extensíssimo, algumas notas são relevantes.

A mais notória, desde as primeiras notícias, é a da discriminização entre os candidatos. Todos têm nomes, mesmo títulos. Ele é o professor Marcelo, a imagem de marca muitas vezes dispensa os apelidos, a dra Maria de Belém, o professor Sampaio da Nóvoa, o professor Paulo Morais, o engenheiro Henrique Neto, a deputada Marisa Matias e por aí fora todos alinhados e identificados, até Tino de Rans, menos um raramente referido pelo nome Edgar Silva, sendo mais conhecido como o candidato do Partido Comunista.

O tom dos supostos moderadores e entrevistadores variou da indiferença, da sobranceria, do apoio amigo, à provocação rasca. Reveja-se por exemplo Judite de Sousa com Maria de Belém que aliás disputa o apoio da jornalista com o professor Marcelo, ou Clara de Sousa que, qual árbitro de um combate de boxe, interpôs-se entre os professores Marcelo e Sampaio da Nóvoa, para permitir ao professor Marcelo sair das cordas. No meio das horas de debates e entrevistas não faltou uma baixa provocação. Uma rasteira, pensava o espertalhaço jornalista, a Edgar Silva, querendo saber coisa decisiva num debate daquele teor, se iria visitar a Coreia do Norte. Ninguém se lembraria de perguntar ao candidato Marcelo que país africano escolheria para concorrer com o seu amigo Cavaco a trepar aos coqueiros, ou se Sampaio da Nóvoa, desvelado com o apoio de Mário Soares, iria viajar para cavalgar uma tartaruga ou quando e onde Maria de Belém iria procurar o padre Melícias para obter refrigério espiritual, durante e depois da campanha eleitoral. No mapa mundo só lá estava a Coreia do Norte para ver se o candidato do PC tropeçava num qualquer membro da dinastia Kim. Assim são os altos critérios jornalísticos e editoriais.

Para além dessas curiosidades, os debates tem revelado um professor Marcelo no seu melhor. Diz e desdiz-se com o à vontade de mais de quarenta anos na política activa directa e indirecta, perseguindo os mesmos objectivos, como militante activo, até com responsabilidades máximas,comentador, analista, e essa categoria inventada que faz as delícias da política parola, fazedor de factos políticos. Um faz tudo que tudo faz de vichyssoies políticas. Mesmo quando Sampaio da Nóvoa lhe abriu as defesas e aplicou uns ganchos e alguns uppercuts, não foi ao tapete e andou a fugir pelo ringue simulando uns golpes desapoiados como se fosse um candidato independente. Como bem disse Edgar Silva, o tal candidato do PCP, Marcelo é um mestre do engodo e do disfarce.  Oficioso candidato da direita tanto chora lágrimas de crocodilo pelas consequências das políticas de direita dos últimos anos que sempre amparou, mesmo quando criticava a forma e não o fundo, com jogadas de sumo oportunismo, chegando ao cúmulo de fingir não apoiar o que de facto apoiava. O professor Marcelo continua em todos os palcos, os que lhe oferecem e os que procura, o seu número de palhaço rico, mestre na dissimulação. A sua mais recente prestidigitação é o aparecer como um quase independente político e um interclassista a distribuir afectos. Ainda o havemos de ver mascarado de Francisco a pregar lérias aos votantes,  como se os seus amigos dilectos não fossem a alta finança e a alta burguesia, o seu berço. A comunicação social e as sondagens arrimam o estro e a lábia do personagem com desvelo.

Extraordinário, aliás nada extraordinário, é não houve ninguém que faça contas à campanha do prof. Marcelo. Sem pudor e desfaçatez quase fica roxo de indignação com os gastos das campanhas eleitorais dos outros candidatos. Não irá gastar raspas em cartazes, tempos de antena ou qualquer outro outro tipo de propaganda que não seja o esfolar solas a peregrinar pelo país, a distribuir abraços e beijinhos, a beber e pagar uns cafezinhos. Isto depois de mais de trinta anos a meter ao bolso os honorários principescos com que construiu a sua imagem nas televisões públicas e privadas. São milhares de horas nos chamados horários nobres televisivos É, de longe e em todos os tempos, a campanha eleitoral mais cara de algum partido ou candidato presidencial, com a particularidade de lhe rechear a carteira e demonstrar que, afinal, a banha da cobra é um produto valioso. Durante todo esse tempo, o único português, das dezenas de milhões que vivem em Portugal e na diáspora, que não sabia que o professor Marcelo fazia o seu caminho para Belém, carregado de ouro, incenso e mirra, era o próprio professor Marcelo, enrodilhado nas suas partes gagas, até ficar cansado de esperar que Cristo descesse à terra e  decidisse que era tempo de arrombar as portas do palácio de Belém.

O alfa e o ómega dos debates televisivos foi alcançado quando os candidatos Professor Marcelo Rebelo de Sousa e a dra Maria de Belém, no último debate, concordaram pressurosamente, que não se deveriam fazer julgamentos de carácter aos candidatos. Pudera! Com o currículo de qualquer um deles, um julgamento de carácter seria bastante corrosivo. O bicho comeria toda a maçã.

Com esse histórico, as sondagens, as sondagens valem o que valem e valem também para manipular, tal como a cobertura da comunicação social, o professor Marcelo, com um lastro de dezenas de anos de presença nas pantalhas televisivas, vai à frente e bem à frente de todos os outros candidatos. O grave e grande risco que Portugal corre é depois da múmia paralítica Cavaco trocar o Palácio de Belém pelo Poço de Boliqueime ver emergir das águas do Guincho essa medusa surfista que, ao sabor das ondas, vá fazer companhia aos nenúfares dos lagos de Palácio de Belém. Será constrangedor para Portugal, uma das primeiras nações do mundo ter como Presidente da República um invertebrado jongleur a jogar diariamente com bolas coloridas dos improvisos, das intrigas, dos enganos, das advertências e desavertências, das traições, como se a política fosse um jogo banal e não coisa muita séria na vida das pessoas. Esclareça-se, lute-se para que essa glorieta guiness não aconteça, nem na segunda volta eleitoral e muito menos no dia 24 de Janeiro.

 

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Algo de Novo

RR Bandeira Vermelaa

Com a entrada em funções do XXI Governo Constitucional do PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV, a direita ficou desorientada porque vivia no conforto de julgar que pelo capitalismo actual se pensar definitivo, não fazia sentido a distinção entre direita e esquerda, pelo principio de a esquerda ter sido inapelavelmente encerrada num ghetto. Ou que a reivindicação de se ser de esquerda era uma bandeira empunhada por radicais que viviam fora da realidade, sendo a realidade confundida com as bases teóricas e práticas intransformáveis do capitalismo.

Ancorados nessa convicção, radicalizaram a exploração de todos os recursos fossem humanos, sociais, ambientais, culturais ou económicos com a fé totalitária de que os mecanismos do sistema capitalista ultrapassariam todas as crises em que se afunda. Não conseguiam, nem conseguem, nem conseguirão perceber que nenhuma realidade por mais hegemónica e aparentemente consistente que seja, como é o capitalismo na actualidade, pode ser considerada definitiva. Muito menos quando para o capitalismo terminal em que barbaramente tudo, a começar pelo ser humano, foi esvaziado de qualquer valor a não ser o seu valor de mercadoria. As chamadas reformas estruturais têm esse sentido e objectivo, o de desumanizar a sociedade tornando-a num gigantesco mecanismo de produção e reprodução de mercadorias, aumentando exponencialmente as desigualdades em nome do lucro. É essa a lógica intrínseca do sistema capitalista como se não estivesse dependente, na sua substância e de modo crucial de uma coisa chamada lei da queda tendencial da taxa de lucro, como Marx bem explicou, mas que essa turbamulta de publicistas económico-financeiros do capitalismo parece desconhecer, mesmo quando a sucessão de crises, com ciclos cada vez mais curtos e profundos, o demonstra à saciedade.

A fé, como bem se sabe é cega e estúpida, torna essa gente autista. O espectáculo do debate na Assembleia da República na apresentação do programa do XXI Governo Constitucional, foi a demonstração que a direita nunca perceberá que para a esquerda a realidade histórica do capitalismo tem um caracter contingente, mesmo dentro de um quadro em que o capitalismo continua a ser o sistema dominante. O que a torna incapaz de entender o funcionamento da democracia, da democracia burguesa sublinhe-se, cujos valores hipocritamente usam na lapela dos seus casacos de marca. Por isso não perceberam, nem nunca perceberão o alcance e o significado dos acordos que viabilizaram este governo. Não entendem, nem nunca conseguirão entender o que significa ser de esquerda no século XXI. Muito menos como a praxis teórico-política da esquerda arranca de princípios sólidos na legibilidade da realidade, para actuar sobre a transformação dessa realidade mesmo em bases mínimas, para por fim à aniquilação das pessoas e da sua individualidade. Por fim aos sistemáticos assaltos à nossa inteligência  à nossa vidae aos nossos bolsos.

Os acordos que viabilizaram parlamentarmente o XXI Governo Constitucional colocaram um travão a fundo ao rol dos desvarios mais insanos, das mentiras mais descaradas da direita em nome da sustentabilidade de um sistema de exploração brutal em benefício do grande capital. Foram quatro anos de assalto a todos os que tinham menos armas para se defender, os que estavam mais desmunidos, porque esta direita é rancorosa, não tem escrúpulos e é cobarde.

Também é estúpida, profundamente estúpida e por isso vivia na ilusão que o apartheid parlamentar era durável. Não tinha fim. A realidade ultrapassou-os. Atirou-os para onde sempre estiveram, no caixote de lixo da história. Daí não enxergam o valor simbólico dos acordos que a esquerda alcançou com o PS, para por um ponto final, melhor um ponto e vírgula ou mesmo uma vírgula,  no autoritarismo ideológico de que não havia alternativa. Havia, há e haverá sempre alternativas, isso distingue fundamente a esquerda da direita. Como essa alternativa ou essas alternativas vão funcionar é o centro de gravidade dos próximos tempos com uma certeza: a hegemonia de um sistema que dominou os últimos quarenta nos da vida política portuguesa acabou. Esse ficou definitivamente enterrado.

(na imagem pintura de Rogério Ribeiro/Elegia I/1989)

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Ariel Kolnai, capitalismo, Cinismo, Comunicação Social, Critérios Editoriais, Debates Eleitorais, Diógenes, eleições Legislativas, Mafalda, Negação de Pedro, Neo Liberalismo, Pós-Modernismo, Peter Sloterdijk, Quino, Umberto Eco

EMBUSTES

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Por causa das próximas eleições e da organização dos debates na comunicação social, na ordem do dia os critérios editoriais. Paralelamente há lances ridículos como o argumentário do CDS preocupadíssimo com o eclipse do seu querido líder que, sendo número dois de uma coligação, fica afastado das pantalhas. Uma injustiça para quem, apesar das rugas que se acumulam nos tiques e tornam mais evidentes e penosos os vícios, todos os dias se olha ao espelho e pergunta: espelho meu, espelho meu, há político mais esperto que eu? Há político que salte melhor ao eixo sobre a verdade que eu?

Pormenores que empurram para zonas de sombra os debates sobre os formatos dos debates na comunicação social entre partidos políticos, debates  dominados pelos critérios editoriais, o grande embuste dos media ditos independentes e de referência. Qualquer quadro superior de uma empresa é da total confiança dos accionistas principais, dos donos das empresas. Pela mão não se sabe de que deus menor, os directores e editores dos meios de comunicação social consideram-se possuidores de um poder que os torna imunes aos interesses económicos dos seus patrões. Estão a mentir, Mentem, com a convicção dos grandes mentirosos capazes de negar tudo, mesmo as próprias evidências. A Negação de Pedro é uma história infantil comparada com as negações da realidade feita por essa gente. Por tudo e por nada brandem a bandeira dos critérios editoriais que são critérios única e exclusivamente orientados pela caça ao mercado e pela subserviência mais contumaz às directivas do capital.

Se dúvidas existissem basta fazer uma estatística cega das notícias, tempos e dimensão que cada um dos órgãos de comunicação social concede aos partidos, aos líderes partidários. Analisados os conteúdos a miséria ética dos campeões dos critérios editoriais é guilhotinada sem dó nem piedade. Assim se percebe o incómodo causado pelo último livro de Umberto Eco Número Zero, sobre o mau jornalismo “Escolhi o pior caso. Quis dar uma imagem grotesca do mundo, ainda que o mecanismo da máquina para sujar, de lançar insinuações, já fosse usado durante a Inquisição“. O pano de fundo desse mau jornalismo, no livro levado aos limites mais grotescos, é o do jornalismo mercenário generalizado que corre mundo, não dando a imagem real desse mundo. Constroem uma imagem que o procura perpetuar justificando as suas acções, das mais bárbaras às mais persuasivas. Procuram demonstrar que o motor que o faz funcionar pode ter defeitos, falhas mas é o único motor possível. As críticas, as denúncias, por vezes inflamadas, dos escândalos políticos, económicos, sociais são instrumentais. Fazem parte de um jogo em que se compra credibilidade para continuar a generalizada intoxicação. Tal como ainda são necessários e indispensáveis jornalistas e comentadores de estatura e seriedade intelectual. Compulsar o seu desaparecimento progressivo dos órgãos de comunicação social nas últimas décadas elucida como a degradação alastra.

Grécia, Ucrânia, Médio Oriente, Europa, os desastres humanitários, as crises económica mundial, as artes e as letras, o desporto, a chamada Lifestyle, tudo o mais que flutua nesse caldo de cultura, são temas passados pelo crivo dos critérios editoriais que os trata e maltrata, banaliza como coisas naturais, passíveis de correcções de pormenor nunca de fundo. Que as tratam e maltratam na construção de um imaginário que quer impor uma visão  unilateral, uma visão pós-moderna do mundo, em que a ideia moderna de uma racionalidade global da vida social e pessoal se desintegrou numa miríade de mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade, como diz um dos seus próceres, só não concluindo como devia que essas mini-racionalidades ao serviço de uma inabarcável e incontrolável irracionalidade são a base de uma ideologia que tem uma fé avassaladora e totalitária no neoliberalismo económico.

O objectivo final é que o mundo seja um campo de concentração, rodeado de barreiras de arame farpado materiais e imateriais, onde se encerre a dimensão humana enquanto motor de transformação e emancipação. Os fornos crematórios sempre activos para reduzirem a cinzas mesmo pensar a possibilidade de se pensar qualquer transformação significativa da forna de organização da sociedade. Parte substancial dos rolos de arame farpado, do combustível dos fornos crematórios é fornecida pela comunicação social com uso intensivo dos seus meios tradicionais e modernos, decorados com os pendões dos critérios editoriais.

O mundo atola-se nesse pântano que Peter Sloterdijk classifica de cínico por sustentadas em acções descaradas e desonestas o que as distingue do cinismo antigo de Diógenes e seus seguidores, nos quais a crítica das convenções era inseparável de uma prática coerente de recusa de compromissos: (o cinismo) na antiguidade era uma conduta de liberdade e de autonomia individual; na pós-modernidade é um conformismo cúmplice das piores baixezas. O sentir pós-moderno parece ter ficado paralisado pela discrepância entre um conhecimento lúcido e penetrante e uma imoralidade deliberada, sem freio e sem pudor.

Denunciar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda e afunda esse mundo pós-moderno do capitalismo neoliberal não tem comprometido a sua credibilidade. Aliás, essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam são sistematicamente remetidas para buracos onde se espera fiquem sepultadas. Esquecem-se da história mitológica do criado do Rei Midas que contou um segredo terrível sobre o seu senhor a um buraco que fez na terra e que tapou cuidadosamente. Nesse lugar cresceu um zambujal por onde a brisa passava e os bambus transmitiam o segredo aos quatro ventos. As denúncias dificilmente ultrapassam os muros, mas acabam sempre por os saltar questionando a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com indisfarçável arrogância, fedorenta ou perfumada, os seus ditames. É o triunfo do economicismo puro e simples que para Ariel Kolnai, não é repugnante, quando procede segundo uma lógica abstracta da qual a vida está excluída. Passa a ser repugnante quando se entrincheira por detrás dos valores, da ideologia, ou seja, por detrás duma afectividade enganadora e hipócrita.

A comunicação social, entrincheirada nos critérios editoriais, é uma das grandes e principais rodas dentadas desse gigantesco mecanismo que tritura o mundo em benefício do grande capital. Proclama em alta grita uma independência em que ninguém acredita, que eles próprios sabem ser um cínico e repugnante conceito. Fazem-no com a impunidade de a vigarice intelectual não ser crime previsto em nenhum Código Civil. A lei é, sempre foi, o direito do mais forte à liberdade. Não será para todo o sempre porque só a verdade é revolucionaria. Há que lutar por ela com todas as armas ao seu alcance.  O mundo apodrece, não se espere que caia.

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