Cultura, Estado Islâmico, EUA, imperialismo, Iraque, Notre-Dame, património, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Síria

Proteger o Património Cultural

Notre-Dame consumida pelas chamas

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa. Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

A cidade de Palmira destruída pelos jihadistas
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arquitectura, Artes, artes visuais, Bauhaus, Cultura, Design, Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Walter Gropius

100 ANOS da BAUHAUS

Há cem anos, no dia 1 de Abril, a Bauhaus abriu as suas portas em Weimar, na Turíngia. De 1919 a 1933 a Bauhaus desenvolveu uma actividade teve uma enorme influência na história da arquitectura e das artes em particular no design. Alterou radicalmente metodos de ensino e currículos escolares nessas áreas que continuam a ser aplicados.

Este texto, publicado no AbrilAbril — dividido em dois por motivos editoriais — é uma opinião crítica sobre a história da Bauhaus.

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-i

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-ii

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Artes, artes visuais, Cultura, Guilherme Parente, Júlio Pereira, João Hogan, Sérgio Pombo, Setúbal, Teresa Magalhães, Virgílio Domingues

5+1 , uma Constelação de Artistas

da esquerda para a direita: Virgílio Domingues, Teresa Magalhães,Júlio Pereira, João Hogan, Guilherme Parente, Sérgio Pombo

Em Setúbal, na Galeria Municipal do 11, um colectivo de seis artistas, que iniciou a sua actividade em conjunto nos anos 1976 e esteve activo até o princípio dos anos 80, revive esse passado decorrido quase meio século. Eram os 5+1. Quatro ainda estão vivos, três bastante activos.

Descodifique-se 5+1. Nos géneros artísticos são cinco pintores e um escultor. No género, são cinco homens e uma mulher. Na política estão na esquerda, cinco pluralmente mais à esquerda, um assume deslocação mais moderada para o centro. Nas opções estético-artísticas o que os une é aparentemente nada. Há mesmo situações limite. Sérgio Pombo nunca pintou uma paisagem. A figuração humana, sobretudo a feminina, é o núcleo do seu trabalho, atravessa todas as experimentações da sua obra plástica mesmo quando está ausente ou quando adquire volume numa forma escultórica suporte da pintura libertada dos limites da tela. João Hogan coloca-se no extremo oposto. A figuração de pessoas ou objectos vai desaparecendo na sua pintura até se apagar completamente na arquitectura dos silêncios obsessivos das suas paisagens, que procuram infatigavelmente um estado primordial em que a vida é uma pulsação subterrânea de ventos invisíveis que as vão moldando. Se ambos parecem encontrar-se por recusar contar histórias, sequer enunciar uma narrativa, por ambos explorarem uma pulsão sensual que fere o olhar de quem olha as suas obras, voltam a ter atitudes diametralmente opostas porque enquanto Hogan tem uma ostensiva indiferença, uma quase hostilidade às correntes estéticas internacionais e seus ecos regionais, Sérgio Pombo faz incursões variadas com tal sucesso que o colocam, em várias situações e vários contextos, na linha da frente das artes nacionais e mesmo internacionais.

Entre estes dois pontos, que se podem considerar extremos, situam-se os outros artistas, Guilherme Parente, Júlio Pereira, Teresa Magalhães, Virgílio Domingues, assim por ordem alfabética.

Guilherme Parente é um narrador impossível de deter. Cada um dos seus quadros, desenhos ou gravuras é, desde o primeiro que mostrou até ao próximo que ainda não pintou, uma história para se decifrar, uma história que aconteceu ou está para acontecer, por onde a mão do pintor viaja carregada de lirismo, sem nunca encontrar um ponto final mesmo quando o artista dá a obra por acabada. Em todos os quadros de Guilherme Parente há a deslumbrante incompletude de um caminho que se faz caminhando sem nunca se desviar por uma vereda.

Júlio Pereira, caldeireiro de profissão, o Júlio Pintor de Arte do Montecarlo e da Brasileira, chega tarde, aos quarenta anos, à pintura onde faz explodir uma energia contida durante décadas, sendo o seu primeiro tema recorrente as mulheres, pintadas de todas as formas a tinta-da-china, óleo ou pastel, que subitamente desaparecem para dar lugar à mais rigorosa e icónica abstracção.

Teresa Magalhães tem um universo muito próprio e particular por onde obstinadamente deambula sem nunca se perder nas múltiplos caminhos que percorre. A sua pintura é sempre passado, presente e futuro e todos os saberes que vai colhendo em cada uma das suas experimentações, do neo-figurativismo ao abstraccionismo, acrescentam valor no quadro que irá pintar. Na pintura de Teresa Magalhães se nada se perde também nada se repete, é um acto de permanente criação e renovação. É o percurso fascinante de um trabalho sem quebras, em que a pintora se reencontra constantemente para se reinventar sem um traço de fadiga.

Virgílio Domingues estende uma fina e sofisticada rede de escuta sobre o mundo para decifrar o argumentário dos protagonistas da comédia humana dos etecéteras passados presentes e futuros. Contrariando o que eles querem, Virgílio não lhes perdoa. não leva esses actores a sério, mas torna dramaticamente sérias as situações que protagonizam. Inicialmente as suas esculturas registavam os momentos, as circunstâncias, os seus intervenientes. Progressivamente torna as situações menos reconhecíveis, os protagonistas mais personalizáveis em anatomias que se decompõem sem que nenhum traço as humanize, para que os personagens quanto menos forem identificáveis mais transpirem a abjecção do seu poder social. Paralelamente o escultor ironiza sarcasticamente a estatuária comemorativa que invade o espaço público com figurações academizantes, sejam figurativas ou abstractas. Um trabalho em contínuo, que se foi depurando formalmente sem nunca se desviar do seu norte.

São estes seis artistas, tão diversos entre si, que decidem organizar-se em grupo para realizar várias exposições. O que os une, além da amizade, é a pulsão da arte, o serem artistas que dispensam adjectivos, o percepcionarem que o seu trabalho individual adquiria densidade e singularidade em cada um desses encontros. Paradoxalmente enquanto entre eles, nessas exposições colectivas, é cada vez menos possível definir uma tendência mais geral que os relacione, tornava-se cada vez mais impressivo que o trabalho de cada um ampliava, e muito, o que se podia fazer com as artes visuais. Esse é o grande impacto dos 5+1 no panorama das artes nacionais.

As exposições dos 5+1 foram um percorrer de caminhos que se iam descobrir progressivamente mais distintos, em que todos eles se afirmavam para se confirmarem na história contemporânea de arte portuguesa, o que os colocam entre os mais significativos das suas gerações.

Os 5+1 revisitados estarão na Galeria do 11, em Setúbal, até ao dia 30 de março

(publicado em AbrilAbril, 3 de março 2018)

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Artes, Bella Ciao, Cultura, Humanidade, música, resistência

Assassinaram a BELLA CIAO, A BELLA CIAO está viva !!!

Partigiani

Sabemos, todos devíamos saber, que a ideologia burguesa ataca e cerca sem desbarato de tempo toda a resistência à abominação desta sociedade sem dignidade. Combate todo e qualquer sinal de resistência, de qualquer forma de resistência ao pensamento dominante, com o objectivo último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Vulgar é a rescrita da história para rasurar a heroica luta dos povos pela emancipação, pelo fim da exploração do homem pelo homem. Banal o bombardeamento diário feito pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais, concentrados pelos gigantescos grupos económicos em grandes empresas mediáticas que constroem realidades para ocultar a realidade. Comum a bastardização da cultura pelas indústrias culturais e criativas, moinhos onde nas suas rodas dentadas se reduz a pó a cultura para fazer luzir o entretenimento que não exige reflexão nem sintoniza sentimentos e tudo se afundar num perverso gosto homogeneizado e acéfalo.Um totalitarismo que até pode dispensarditadores e caudilhos, pulsa fortemente nos sistemas democráticos com o objectivo de reduzir e anular o espectro do debate e das ideias.

O combate a este estado de sítio é duro, exigente. Há que reconhecer que a direita tem tido êxitos nessa batalha e que muita esquerda está colonizada pelo pensamento de direita.

Hino de resistência

Versão original da Bella Ciao

Uma das formas mais sofisticadas e eficazes dessa ditadura do pensamento é prostituir, com as ferramentas do mercado, a cultura. Exemplo recente é a castração da Bella Ciao, essa bela e comovente canção dos partigiani que lutaram com denodamento contra o fascismo. Apropriaram-se dela para a usarem como banda sonora da série televisiva Casa de Papel. Descontextualizaram o seu potencial revolucionário para a tornarem um fetiche da cultura de massas desligada da cultura popular e de resistência. Colocaram-na nos top ten em muitos países hispânicos e de língua portuguesa.

Canta-se e dança-se ao som da Bella Ciao indiferentes aos seus belos e comoventes versos: Bella Ciao (adeus Bela) / Esta manhã, acordei / encontrei um invasor // Oh, guerrilheiro, leva-me contigo / Bella CiaoBella Ciao,Porque sinto que vou morrer // Se morrer como membro da Resistência / Enterra-me como membro da Resistência // Enterra-me no alto das montanhas / À sombra de uma bela flor/ Bella CiaoBella Ciao / As pessoas que passarem / Dirão: que bela flor!// Essa será a flor da Resistência/ Daquele que morreu pela liberdade (tradução livre).

Ela move-se!

Com A InternacionalBella Ciao era o canto dos partigiani, socialistas, anarquistas, sobretudo comunistas. Eram os hinos da resistência italiana. Hoje Bella Ciao é um hit de A Casa de Papel, cantada em vários momentos-chave da trama pelos personagens que vão assaltar a Casa da Moeda de Madrid, como se tivesse sido escrita para essa série. Destrói-se a história, a grande e bela história da Bella Ciao,esvaziando o seu conteúdo subversivo, o seu significado antifascista para a tornar um produto de consumo equivalente às centenas de canções de amor filistino de um qualquer Tony Carreira.

Assassinaram a Bella Ciao com a mesma frieza com que têm assassinado os milhões de mulheres e homens que lutaram e lutam para transformar a vida, devolver à humanidade a humanidade. Para esses resistentes de ontem e hoje Bella Ciao está viva. Contra os ventos da história desfavoráveis devemos continuar a lutar com a convicção de Galileu frente ao tribunal da Inquisição: No entanto, ela [a Terra] move-se 

Em 1971, Milva canta uma versão da Bella Ciao homenageando a Resistência numa demonstração pública das suas simpatias políticas

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"Star-System", Artes, capitalismo, Cultura, Geral, Neo Liberalismo

CULTURA E ILUSÃO

Um texto publicado no AbrilAbril e que me parece de interesse para alarme e abrir um debate sobre o estado actual da cultura e das artes

https://www.abrilabril.pt/cultura/cultura-e-ilusao

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1% pra a Cultura, Cultura, Geral

Cultura Num Impasse

Royal Shakespearte Theatre/Royal Shakespeare Company

A cultura é a soma dinâmica e activa das sabedorias da vida e dos conhecimentos do fazer, da prática colectiva de grupos e de indivíduos. O equívoco maior é encerrar a cultura no círculo restritivo da criação artística, o que conduz a pensar-se a cultura como uma ilha limitada às artes e às letras, um território neutro onde os bons espíritos se podem encontrar longe do ruído trivial do trabalho e das outras actividades quotidianas, sejam as das ciências ou das tecnologias sejam as da política ou da vida doméstica.

É uma ideia reducionista de cultura em que se esquece e não interessa entender que uma ilha se define sempre em relação a um continente e que as artes e as letras, embora se desenvolvam com uma relativa autonomia, são sempre condicionadas pelas condições sócio-económicas envolventes. Dante só é o poeta genial da Divina Comédia por se estar na transição da Idade Média para a Renascença e ter o seu centro político e económico em Florença, a sua cidade, e Siena. Só é possível surgir um Baudelaire no pós Revolução Francesa, quando a burguesia que já detinha o poder económico assumiu o poder político. Só a Revolução de Outubro possibilitou a explosão de todo o poder criativo das vanguardas artísticas, que colaboram e coincidem com a vanguarda política numa síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada.

Só assim se consegue perceber os contributos das artes e das letras em cada momento histórico para a cultura como modelo antropológico do trabalho humano que se concretiza nos mais diversos e plurais tipo de actividade. Cultura enquanto núcleo de práticas e actividades que são instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo.

Pensar práticas e políticas culturais


Marx, na Contribuição para a Crítica da Economia Política, define «produção material na sua forma histórica específica (…) uma forma determinada da produção material deriva, em primeiro lugar, de uma organização determinada da sociedade e, depois, de uma relação determinada entre o homem e a natureza. O sistema político e as concepções intelectuais são determinadas por esses dois factores, por conseguinte, também o género de produção intelectual». Marx avisa que se não se analisar assim a produção intelectual, fica-se pelo campo das vulgaridades e «é impossível perceber as características da produção intelectual que lhe corresponde e as suas reacções específicas».

Só assim percebemos como a destruição da cultura está a ser empreendida pelo neoliberalismo que, simulando da-lhe maior liberdade por não ter nenhuma política cultural, uma falácia em que a ideologia burguesa é contumaz, entrega-a ao mercado que promove uma cultura de impacto máximo e obsolescência imediata, acelerada pelas modas e os humores públicos, em que tudo é espectáculo promovido pelas indústrias culturais e criativas.

Um bullying cultural em que tudo é cultura e, consequentemente, nada é cultura. Em que a cultura dissimula o vazio desta sociedade. É esse o papel destrutivo do capitalismo neoliberal pós-democrático em que a mercadorização e a alienação afundam a cultura enquanto parcela activa e essencial do exercício democrático de participação dos cidadãos, contribuindo para a consolidação dos instrumentos que ensinam e fazem perceber e intervir no mundo.

Contra esses ventos da história há que içar as velas, saber içar as velas para se pensar práticas e políticas culturais efectivas recuperando a cultura para o seu trabalho fundamental: transformar a vida. Uma luta que é sobretudo política, de uma política patriótica e de esquerda.

Ópera Os Dias Levantados António Pinho Vargas / Manuel Gusmão
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AbrilAbril, Aldina Duarte, arquitectura, Barbara Hannigan, Carina Infante do Carmo, Cultura, Geral, João Paulo Esteves da Silva, Livraria Aillaud& Lellos, Lojas com História, Maria João Luís, Músicos do Tejo, Museu do Neo-Realismo, Programa Revive, René Jacobs, Teatro da Terra, Vilay Iver, Violante F. Guimarães

Do Pior e do Melhor em Cultura, Janeiro 2018

lelloe e AilladEm Lisboa uma livraria quase centenária, a Aillaud & Lellos, encerrou as suas portas no fim do ano por não suportar o aumento de renda exigido pelo senhorio. A ironia é ao lado do cartaz em que se anuncia o encerramento estar um autocolante com o logotipo “Lojas com História” da recém-formada rede do programa Lojas com História http://www.lojascomhistoria.pt , promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Não são as boas intenções que ultrapassam os efeitos devastadores da famigerada lei das rendas de Assunção Cristas, no não menos famigerado governo PSD-CDS, que provocou uma onda de despejos brutal que ela procura eclipsar manipulando os efeitos dessa lei da sua deliberada responsabilidade, ventilando um argumentário em que vale tudo mesmo negar as próprias evidências, como se viu durante a campanha eleitoral para as autárquicas em que se arvorou em defensora das lojas históricas de Lisboa, enquanto elas iam fechando vitimas da sua irresponsabilidade.

É menos uma livraria onde se podia procurar o que não se encontra nos dominantes espaços livreiros. Do ponto de vista da arquitectura também se vai certamente perder a bela fachada e letragem art-deco, como já se perderam outras lojas dessa zona da baixa, muitas desenhadas pelo arquitecto Conceição Silva em colaboração com artistas plásticos, agora só memória de um património que se tem vindo a alienar. Isto quando se proclama 2018 – Ano Europeu do Património e o Ministério da Cultura está alegremente muito entusiasmado com a privatização de mais de trinta monumentos que irão ser entregues à indústria do turismo. Inquietante, preocupante é o Ministério da Cultura não assumir as suas responsabilidades nesse processo porque a grande questão é se as operações imobiliárias necessariamente associadas a essas recuperações garantem e como garantem as suas memórias originais, se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Não é límpido como o empreendedorismo turístico, com promessas de restaurar o património edificado, lhe vai dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares. A primeira sugestão cultural, aceitando-se com todas as reservas o Revive, é que se gere um movimento cívico e de cidadania que exiga que seja o Ministério da Cultura a elaborar os programas para cada um dos monumentos, resolvendo na medida do possível os problemas enunciados e só depois os colocando a concurso. Há ainda outro problema que o governo devia corajosamente enfrentar que é o da crise com que se debatem os profissionais de arquitectura. Todos esses projectos deveriam obrigatoriamente ser sujeitos a concurso público não limitado, não deixando a escolha das equipas de arquitectura entregue à selecção aleatória dos adjudicatários. No 2018-Ano Europeu do Património estaria Portugal a dar um passo em frente e inovador para defesa do património mesmo no quadro de um desinvestimento generalizado dos Estados na cultura o que só causa as máximas apreensões, olhando para o que tem acontecido por essa Europa fora.

O grande destaque desta semana vai para as crianças. As crianças sem horizontes ou com um longínquo horizonte de esperança. Carina Infante do Carmo e Violante F. Magalhães organizam um interessantíssimo conjunto de colóquios, seminários e mesas-redondas, a decorrer em Lisboa na Faculdade de Letras e no Museu João de Deus e em Vila Franca de Xira no Museu do Neo-Realismo com o tema

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Miúdos, a vida, às mãos cheias. A infância do neo-realismo português. http://www.museudoneorealismo.pt/frontoffice/pages/1367?event_id=9609. O objectivo, expresso no texto de apresentação é o tópico da infância (e da juventude, já agora) uma das dimensões mais significativas da construção e conquista da contra-hegemonia cultural do Neo-Realismo à política salazarista e ao seu fortíssimo investimento simbólico, político-organizativo e repressivo em torno destas faixas etárias. Para os neo-realistas, a criança é um dos ícones da esperança, da emancipação social e da potência transformadora de futuro. O recurso à infância nas figurações artísticas e literárias combina o ensejo de denúncia com uma dimensão pícara e, fundamentalmente, lírica.

O programa é ambicioso e vasto, inicia-se nos dias 12 e 13 de Janeiro prolonga-se até Agosto.http://www.museudoneorealismo.pt/uploads/writer_file/document/17150/PP.pdf Além das análises ao neo-realismo enquanto movimento literário, artístico e político, a figuração da criança nas obras de Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Oliveira, Vergílio Ferreira e Fernando Namora será objecto de comunicações nesses primeiros dias. O cinema, o teatro e leituras encenadas darão continuidade a esse excelente programa, nos dias 2 de Fevereiro, 2 e 17 de Março, em paralelo uma exposição no Museu do Neo-Realismo é o suporte físico para esta excelente iniciativa que constitui também um Curso de Formação de Professores creditado pelo Conselho Pedagógico-Científico da Formação Contínua de Professores/ Curso livre creditado em ECTS pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A criança, as crianças estão também no centro da peça de teatro 150 Milhões de Escravos com montagem e encenação de Maria João Luís. O número é o do total das crianças escravas em todo o mundo no recenseamento da Amnistia Internacional. O texto foi construído com base nos neo-realistas portugueses Romeu Correia, Carlos Oliveira e Soeiro Pereira Gomes e de Em Homenagem aos Nossos Empregados, de Mickael de Oliveira, A Gaivota, de Anton Tchekov, fragmentos de Arthur Rimbaud. Uma peça de teatro dura, violenta sobre uma realidade que vem dos princípios da história, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, uma história violentíssima da humanidade que persiste nos nossos dias, em que os pobres são cada vez e estão mais pobres em relação aos ricos que são cada vez menos e concentram cada vez mais riqueza nas suas mãos. 150 Milhões de Escravos

é uma peça que nos confronta com as cumplicidades, directas de quem pactua com este estado do mundo e indirectas de quem, até por omissão, se alheia da brutalidade da exploração capitalista que, para se perpetuar, usa todas as formas das mais aparentemente democráticas às mais brutais ditaduras, das liberdades burguesas mais amplas aos territórios concentracionários do nazismo-fascista. A artista e encenadora Maria João Luís interroga: Quem são hoje os filhos dos homens que nunca foram meninos? E interroga com aspereza para nos sobressaltar a consciência de todos que de uma forma ou de outra pactuamos com esta situação. A interpretação está a cargo de Beatriz Godinho, Catarina Rôlo Salgueiro, Emanuel Arada, Ivo Alexandre, João Saboga, José Leite, Hélder Agapito, Lígia Soares e Teresa Sobral.

A cenografia é de Ângela Rocha, o vídeo de Inês Oliveira, o movimento de Paula Careto e o desenho de som e de luz de José Peixoto e Pedro Domingos.

É uma co-produção do Teatro da Trindade INATEL e pelo Teatro da Terra, em parceria com a Câmara Municipal de Ponte de Sor e o Museu do Neo-realismo, a peça vai estar em cena a partir de quinta-feira, dia 11 de Janeiro, e prolonga-se até 28 de janeiro, com espectáculos de quarta-feira a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 16h30.

Espera-se, deseja-se que 150 Milhões de Escravos, encontre outros palcos no país.

A finalizar referir registos discográficos que são um bálsamo para preencher dias e noites chuvosas. Dois de música sinfónica, o Requiem de Mozart que depois de inúmeras e excelentes interpretações ainda consegue surpreender agora com a direcção de René Jacobs com a Freiburger Barockorchester, o RIAS Kammerchor e as vozes solistas de Sophie Karthauser, Marle-Claude Chappuls, Maximilian Schmidt e Joahannes Welsser; e Crazy Girl Crazy de Barbara Hannigan, maestrina e cantora da Ludwig Orchestra que interpretam a suite de Gershwin, arranjo de Billy Elliot, que dá o título ao disco, a suite Lulu de Alan Berg e uma portentosa interpretação da Sequenza III de Luciano Berio. No jazz um excelente João Paulo Esteves da Silva, piano, acompanhado por Mário Franco, contrabaixo e Samuel Rorher, bateria em luminosas improvisações em Brightbird e um magnifico Vijay Iyer, demonstrando a sua enorme versatibilidade como instrumentista e arranjador a tocar em sexteto em Far From Over.

No fado os grandes destaques vão para Aldina Duarte, Quando se Ama Loucamente, que se aventura nos textos de Maria Gabriela LLansol para abrir caminho pelas paixões que abruptamente irrompem e morrem. Ainda no fado mas a traçar uma trajectória das raízes aos nossos dias, From Baroque to Fado de Os Músicos do Tejo, com as vozes de Ana Quintans e Ricardo Ribeiro, Miguel Amaral, viola, Marco Oliveira guitarra portuguesa, Jarrod Cagain, percussão. Um disco gravado em directo, um esplêndido trabalho de produção e edição de Pierre Lavoix, do concerto efectuado na Fundação Gulbenkian que teve um grande êxito que agora se tem repercutido nacional e internacionalmente por via do registo discográfico .

( publicado em AbrilAbril 12 de janeiro)

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