Artes, Cultura, Geral, museus, Panteão, Património Monumental, Web Summitt

A Degustação das Artes e da Cultura

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade.

Selfie de freiras

 

O jantar dos Founders Summit, os principais fundadores de empresas que estiveram na Web Summit e outros seus convidados de topo, no Panteão Nacional levantou um vendaval de indignações que tem muito que se lhe diga. Ao ler as listagens das dez melhores ideias, as 67 frases mais marcantes e o mais que se plantou na embasbacada comunicação social atropelada por tanta tecnologia, mais as ilustrativas entrevistas aos empreendedores triunfantes, as premonições 360 de gente como Al Gore, Margrathe Vestager, Bruno de Carvalho ou François Hollande, o que mais espanta é, naquela feira de app’s tão imaginativas, não aparecer uma startup a apresentar uma app para facilitar a interacção entre equipamentos culturais  o mundo empresarial que se lustra com eventos em ambientes históricos e  os famosos ávidos por ascenderem aos patamares da cultura  a que seriam elevados por uma rave na Torre de Belém decorada pela Joana Vasconcelos. Uma app que facilitasse e desse dimensão internacional a jantares e festas no Panteão, nos Jerónimos, no Convento de Cristo, etc., transportados pelos carros voadores da Uber. A starup estava condenada ao sucesso, acabavam-se as discussões. A ementa Barreto Xavier para uso do património cultural valorizava-se, os preços de saldo aí inscritos subiriam em flecha dado o aumento da procura. Na tabela de preços incluir-se-ia um anexo com as custas das selfies pessoais e grupais, recortadas em fundos monumentais. Paddy Grosgave snifaria a variante digitalizada dessa cocaína cultural, um must que poderia utilizar para valorizar o negócio das praças de jorna da Web Summit.

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade. Progressivamente tem-se desmantelado o modelo de investimento público no património cultural, museus e monumentos. É a disneyficação da cultura que segue as estratégias culturais em prática nos EUA em que a cultura foi e é desde sempre um meio usado para lavar atentados ambientais, crimes fiscais, especulações financeiras, fugas para offshores, duplicidades éticas e, claro, a exploração do trabalho com o adicional de se obterem chorudos benefícios fiscais,

Os exemplos na Europa multiplicam-se apesar e mesmo quando há umas décadas se conseguiu contrariar a intenção de alguns países da CEE de quererem submeter as actividades culturais e artísticas aos ditames da Organização Mundial do Comércio fazendo equivaler livros, concertos ou esculturas a batatas, tupperwares, atacadores para sapatos com todas as consequências a montante e a jusante. Em síntese, queriam atirar  a cultura e a criação cultural para a fogueira unidimensional do mercado. O que não entrou pela porta principal entra pela janela. Não há almoços grátis, como propugnou e popularizou o expoente do neoliberalismo Milton Friedman. Com o desinvestimento público na cultura e no património cultural as estratégias de sobrevivência multiplicaram-se e as questões éticas colocadas pela progressiva influência dos patrocinadores nas decisões das direcções dos museus e monumentos são uma realidade que têm sido objecto de acesas discussões.

Hoje vulgarizaram-se as lojas e restaurantes dos museus onde há uma oferta gastronómica variada, a venda de objectos mais ou menos chiques, é preciso alcançar todas as bolsas, adquirir os catálogos dos seus conteúdos sendo-se poupado à chatice de o visitar ou sequer saber o que por lá é exibido. Paralelamente promovem-se visitas desenfreadas em que é permitido às hordas de transeuntes tirarem fotografias colocando em perigo objectos expostos, os casos de danos graves sucedem-se em todo o mundo. Quase se incentiva a praga da selfies em que se abraçam estátuas milenárias, se ocultam pinturas colocando-as em risco. Deixaram de ser objectos de contemplação e usufruto cultural para se equivalerem a manequins numa montra.

Os führers da moda, da fashion life tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. Um exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logotipos das marcas aos monumentos que apadrinham. Em França também está em curso, desde 1984, um vasto programa de privatização de património edificado, iniciado por Jack Lang esse feérico ministro da cultura que proclamava “ser necessária imaginação para os reinventar”. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá, mais modestamente, o programa Revive recorre ao empreendedorismo turístico com promessas de restaurar o património edificado e lhe dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares, Vamos ver como correrá essa coexistência.

O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais, ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.

Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes.  Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages sublinhado o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris com lenços de seda desenhados pelo artista, a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragâncias, joias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais ao baixo clero da crítica e curadoria que os promove e os chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo.

É o estado geral das artes e da cultura contemporâneas em que a dominante é a mercantilização todo o terreno vendida em embrulhos espectaculares e sensacionalistas. No horizonte já nem sequer se vislumbra alguma Margarida à beira desta estrada que Fausto corre em maratona destravada, vendida a alma ao Diabo para ter visibilidade e arrebanhar mais-valias.

(publicado em https://www.abrilabril.pt )

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Artes, Cultura, Fernanda Botelho, Geral, Guia Eventos Setúbal, Literatura, Livros

O Esplendor da Escrita

FBotelho

Fernanda Botelho, uma das escritoras mais originais da língua portuguesa, tem vivido no limbo em que navegam muitos outros vitimados por políticas editoriais não alheias a uma crise universal, não só económica mas também de ideias, mais agravada num país periférico como o nosso com frágil rede de leitura e parco consumo do livro. Causa alguma estranheza a quantidade de títulos que se publicam, com tiragens reduzidas se comparadas com algumas décadas anteriores, bem como a anorexia de muita dessa livralhada que enche as prateleiras das livrarias. Há sempre surpresas, excelentes surpresas, tanto de novos autores como de recuperação de outros que andavam esquecidos. É o caso de Esta Noite Sonhei com Brueghel.

Um romance em que a protagonista, Luiza recorre à autobiografia da autora para fazer o seu retrato pessoal inscrevendo-o numa fotografia que é o do país nesse tempo. Um labirinto angustiante, à beira de um abismo desesperado em que os quadros de Brueghel, com que Luiza sonhou uma noite, funcionam enquanto fios condutores.

“Comecei-o há doze anos em Bruxelas”, diz ao amante antes de ele a deixar em casa, numa rua de Lisboa, anunciando-lhe que talvez mostre ao marido esse manuscrito onde todas as personagens dessa vida que é a dela têm o nome real. “Não são personagens, conheço-as. Mas são personagens, sim senhor! São e não são. Mas, no manuscrito, parecem personagens. Percebes?”

Esta Noite Sonhei com Brueguel é uma fascinante teia de escrita, de escrita sobre a escrita, em que Luiza/Fernanda se procura a si-própria com a ferocidade de um prazer salutarmente irónico que dispara sem contemplações sobre si, sobre os parceiros de viagem que se encontram e desencontram nos universos que percorrem e sobre nós, os seus leitores. Uma sofisticada e complexa rede  num exercício de autocrítica quase despojado de emoções.

Um romance fascinante em que o evidente prazer da escrita se transmite sem fissuras para o prazer da leitura.  Esta Noite Sonhei com Brueghel, o sétimo romance de Fernanda Botelho, é o primeiro da anunciada reedição da sua obra completa, resgatando-a a imperdoável esquecimento e ao desconhecimento dos novos leitores para quem será uma luminosa revelação. Para todos, uma leitura sem desbaratos.

 

Esta Noite Sonhei com Brueghel

Fernanda Botelho

Abysmo

Prefácio Paula Mourão

Design e Logotipo convidado Maria João Carvalho

Revisão Maria José Sousa

Edição Julho 2017

268 páginas

(publicado no Guia Eventos Setúbal;Novembro/Dezembro 2017)

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Artes, Cultura, Geral, Revolução de outubro

As Artes e a Revolução de Outubro

TRIBUNA LENINE Ilia Chastnik e El Lissitsky

TRIBUNA PARA LENINE, El Lissitzky e Ilia Dhashnik 

 

 

A Revolução de Outubro influencia decisivamente as artes. É um material vivo impregnado de espírito social inovador, um vendaval de esperança para todos os que durante séculos foram oprimidos e explorados. Nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta pela guerra e por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, o poder soviético constrói um regime que transforma radicalmente as relações de produção e de propriedade de que resultará um vigoroso desenvolvimento das forças produtivas. Outros dos gravíssimos problemas que a Revolução de Outubro enfrenta é de uma população esmagadoramente analfabeta, um combate que ocupou a primeira linha da frente cultural do jovem poder soviético que, num curto prazo histórico, o resolve fazendo aceder à educação milhões de pessoas.

A arte, as artes responderam aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes dando uma contribuição decisiva para o poderoso revolucionamento cultural que a Revolução também foi.

As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboraram e coincidiram com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política, mas fazendo dela parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas, os mesmos artistas trabalham em várias áreas e em várias frentes. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida, para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. Aqueles anos de Revolução são o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária, por opção e decisão dos artistas, invade e transforma criativamente as propostas estéticas. Só assim se compreende como os debates, por vezes ferozes, entre as diversas vanguardas não impedem que continuem empenhadamente a colocar a sua criatividade ao serviço da Revolução, a terem um contacto efectivo às massas populares.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, é o combustível que faz mover todas artes. É o principal traço que atravessa toda a arte soviética nesses tempos no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura. Em que a cultura era uma presença viva, inconformada, sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas pelas culturas ocidentais que desaguam numa esterilidade inquietante claramente sintetizada por Blanchot:«secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

Hoje temos distância histórica para melhor estudar e analisar esse processo de politização das artes que está na raiz de um debate actual do pensamento estético e das práticas e sistemas artísticos que está longe de se ter esgotado, como não se esgotou a urgência de compreender e avaliar o carácter profundamente novo da primeira tentativa histórica de construir uma sociedade que tem por horizonte o socialismo e o comunismo.

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Associação Colecção Berardo, Berardo, Centro Cultural de Belém, Colecção de Arte Contemorânea, Cultura, Fundação de Arte Contemporânea Colecção Berardo, Geral, Luís Castro Mendes, Mercado da Arte, Ministério da Cultura, Protocolos Estado Berardo

Berardo – As Tranquibérnias do Amor à Arte – 3

Berardo0

O amor à arte em vários andamentos facetos e grossos sofismas

Capelo sabe-o muitíssimo bem e quando afirma “odeio as relações de dinheiro com a arte (…) A passagem do mundo do dinheiro para o mundo do prazer estético para mim não funciona” está a ter uma tirada digna dos Gatos Fedorentos mais ainda quando mistura alhos com bugalhos “tenho tanto prazer a ver um Pollock, um «dripping» que pode custar cinco a dez milhões de dólares, como a ver um Michaux ou um Mark Tobey que custam umas dezenas de milhares de dólares — isso não tem nada a ver com dinheiro”. Um sofisma que faria Protágoras corar de inveja. Quem está a ter prazer estético ao ver uma paisagem do Hogan não está a pensar no seu valor de mercado. Se a compra, esse prazer estético começa a ter um valor de mercado que não corrói o prazer estético, mas altera-o. Ninguém vai a um museu ver obras pelo seu valor de mercado, nem o valor de mercado está inscrito nos catálogos. Mas todas as obras têm valor de mercado. Capelo podia-se poupar a alinhar mistificações para as compras que fazia para Berardo, já era suficiente metê-las no cartucho do putativo amor à arte do comendador. Fazia as compras colocando nos pratos da balança o valor estético e o valor de mercado antes de decidir se efectuava ou não a sua aquisição. Podia-se poupar e poupar-nos a essa exibição de hipocrisia, bastava lembrar-se de Warhol, esse malabarista mestre do cinismo artístico, “a melhor arte é um bom negócio” e de como o mercado das artes canibaliza o prazer estético.

A colecção cresceu centrada, pelas razões referidas, na arte pop e minimalista. Foi publicamente exposta pela primeira vez em Sintra, em 1997. Para lá das críticas, das dúvidas que poderia suscitar era um vasto e coerente conjunto de obras de arte moderna internacional, coisa que não existia em Portugal. O espaço era escasso para a dimensão que a colecção já nessa altura tinha. As loas à volta de Berardo-coleccionador de arte que é o mesmo Berardo-especulador faziam soar os trompetes dos famosos nos mais variados tons e sons. O interesse do comendador Berardo pela arte foi narrado das mais diversas maneiras, algumas bastante extravagantes. Uma das mais curiosas talvez seja a relatada por Maria João Seixas num programa da Antena 2, em que fazia a defesa da necessidade da colecção Berardo ficar sediada em território nacional. Contou a jornalista cultural e amante cinematográfica que, num jantar em que participou com o comendador na continuidade de uma inauguração de uma exposição temática da colecção, Berardo explicara que tendo decidido preencher uns vazios das paredes lá de casa, incumbiu a mulher de o fazer, o que ela fez recorrendo a reproduções, o que muito o indignou. Não querem lá ver, então um homem de tantos cabedais ia ter nas paredes reproduções? Não senhor, venham de lá os originais. E assim começou a colecção, historieta que muito enlevou os prendados presentes e João Seixas, transportada no delírio cinematográfico de se sentir intérprete de uma cena portuguesa a replicar em versão nefelibata O Gosto dos Outros, alumbrada com a simplicidade e as ingenuidades do comendador, rapidamente corrigidas com o contributo de muito bons, na sua opinião, conselheiros. Berardo, com esse novo baralho entre mãos, batia as cartas com estridor. O rasca Berardo tinha subido os degraus dos altares da arte contemporânea em que os mais mediáticos protagonistas tanto se veneram como surdamente se pontapeiam. Começou a desfilar em vários palcos debitando sentenças farroupilhas, vestido com o smoking de benemérito das artes alugado num adelo da roda da moda.

A colecção continuava a crescer, até que em outubro de 1999, Francisco Capelo abandona a colecção e o comendador avisando o mundo em alta grita que a colecção poderia “vir a ser alvo de eventual dispersão e destruição” porque Berardo tinha a “lógica perversa de sempre mais dinheiro” blalala faz barrela pública onde desfaz todo o seu argumentário anterior. Uma chuva que molha, mas não trespassa a nova plumagem de Berardo que não precisa de vir à janela para os joãos ratões lhe entrarem porta dentro oferecendo-se para substituírem Capelo e o orientarem nos labirintos dos terreiros onde se mercadejam obras de arte. Ele aí vai, ora com uns ora com outros, não perdendo tempo a destratar na praça pública Capelo, “ele que me pague o que deve”, que com tanto carinho lhe tinha maquilhado a imagem de padrinho das artes. O polimento não tinha sido suficiente para afagar a casca grossa do comendador como mais tarde e sempre se verá. Mas tinha sido o suficiente e necessário para Berardo em 2003 ocupar o 56º lugar e em 2007 o 75º lugar entre os mais poderosos das artes na lista que a ArtNews publica regularmente. Nada como ter dinheiro fresco, venha lá de onde vier, e ir às compras, para se ser poderoso e influente no mundo das artes.  Neste estado da arte os critérios económicos, coteje-se com atenção os últimos dez anos dessa variante forbes da ArtNews, dominam os estéticos, mesmo o das  falácias de Danto e de uma crítica de arte que é certeiramente radiografada Mário Perniola  em A Arte e a sua Sombra  “no mundo da crítica da arte jovem está difundida a opinião de que a arte de hoje pode prescindir da teoria: o papel do crítico de arte deveria limitar-se a uma espécie de crónica e de promoção publicitária dos artistas que lhe agradam, sem nunca intervir em questões, já não digo estéticas, mas poéticas ou até relacionadas com a história da arte”. Não é um exclusivo das artes visuais expande-se pelo estado geral da cultura que já nos anos 50 inquietava Blanchot: “secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o”. Desde esses anos tudo se tem agravado e muito, cite-se novamente Perniola, “a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado”. É uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque tudo é meramente casual onde, dirá Kundera,” tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

 

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AbrilAbril, Cultura, Geral

O Voto é também um acto cultural

 

Aqui, no blogue, com algum atraso por circunstâncias da vida que mesmo quando anunciadas nos assaltam com alguma violência, o desaparecimento da minha amiga Odete Santa-Bárbara que há cinquenta e seis anos partilhava a vida com José Santa-Bárbara, a quem dou o abraço que já lhe dei, as sugestões culturais que regularmente escrevo para o AbriAbril porque parte do seu conteúdo não se esgota no período do calendário sobre que incide. 

Depois da silly season em agosto, a rentrée em setembro, duas invenções da intelligentsia política e seus apaniguados numa tonta tentativa de sistematizarem os calendários anuais por ciclos no que são desmentidas pela realidade, pelo curso dos acontecimentos. Aqui e em todo o mundo os relógios da história não param, desdizem com fragor que os fogos da política, das lutas, das guerras, andem em contraciclo com os fogos estivais, como se quase se extinguissem no pico do verão e se reacendessem nos princípios de setembro. Como se o curso da história fosse de férias e as lutas sociais se acalmassem com protetores solares.  Exemplos que contrariam essas visões não minguam. No plano internacional, no continente americano, o contra-ataque da reacção e a resistência às mais diversificadas manobras, não teve pausas, basta olhar para a Venezuela, Argentina ou Brasil. No Médio-Oriente um significativo avanço no terreno das forças sírias e seus aliados com a conquista de Deir ez-Zor colocam o Estado Islâmico à beira da derrota, mas sobretudo significam para a chamada oposição democrática o confrontar-se com a sua irrelevância, como o delegado da ONU, Stephen Mistura numa curiosa declaração citada pela Reuters sublinhou “a oposição será capaz de será capaz de mostrar unida e realista para admitir que não ganhou a guerra?” Quer dizer a eminente derrota do Estado Islâmico e da Al-Qaeda na Síria, mas também no Iraque com a anunciada queda de Raqqa, afinal também é a derrota dos “democratas” tão acarinhados pelos EUA e seus aliados. O rabo do gato da hipocrisia e cinismo político do Ocidente está cada vez mais à vista, mais gordo e mais evidente. No Extremo-Oriente a retórica da guerra entre a Coreia do Norte e os EUA não conheceram travões mau grado a sensatez que aí querem introduzir a China e a Rússia e mesmo o presidente da Coreia do Sul, apelando para uma solução diplomática que baixe a temperatura das tensões.

A silly season e a rentrée são passadas a ferro pela realidade, que se não entra pela porta entra pela janela.

Por cá também o foram pelas lutas dos trabalhadores que não ficaram à espera da rentrée para fazerem uma greve histórica na AutoEuropa, para lutar pelos seus direitos na Altice, na hotelaria e em muitas outras empresas.

Os partidos políticos também à silly season e à rentrée disseram nada, embora tivessem momentos mais activos como a Universidade de Verão do PSD, que este ano ficou ao rubro com a ressurreição e a assunção de múmias fazendo ouvir as suas vozes pregando no deserto das suas ideias, para dar uns safanões em políticas velhas e relhas a ver se ainda mexem, o que é sempre muito acarinhado por uma comunicação social estipendiada, como se pode medir, sem fas nem nefas, pelos tempos de antena e pelos espaços concedidos na imprensa escrita e on-line se comparados com iniciativas do PCP como a Festa do Avante!

Feitas estas notas, algumas sugestões culturais.

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Comece-se pela Festa do Avante! onde, desde a primeira edição, política e cultura persistem em se cruzar de forma consistente e sempre inovadora. Destaque-se o número 25 do Caderno Vermelho. Dois temas principais:  Autárquicas 2017; 100 Anos da Revolução de Outubro. Sendo uma revista do Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa do PCP, nas autárquicas o realce vai naturalmente para Lisboa. Excelentes textos de João Ferreira, cabeça de lista da CDU, Lisboa- O Direito à Cidade, Ana Jara, A Lisboa Pós-Salgado 2007-2017 e Filipe Diniz, Arquitectura, Cidade, Neoliberalismo.  Sobre a Revolução de Outubro textos também excelentes de vários autores não só sobre a enorme explosão criativa e de liberdade criativa desse tempo exaltante nas artes, cinema, teatro, música, poesia, literatura, mas também nas ciências, tecnologia, matemática, como é sublinhado no editorial de Manuel Gusmão: “A revolução cultural que a Revoluão de Outubro também é, marca a capacidade de actuar de forma criadora uma cosntrução antropológica a partir de realizações artísticas, cientifícas e culturais. O seu carácter inaugural permite compreender o valor que é atrbuído ao longo destes cem anos e o valor quase utópico que no quadro da teoria comunista é reservado ao sonho social de que todo o cidadão deve ser uma artista.”

O Caderno Vermelho 25, em Lisboa está à venda na banca de livros do Centro Vitória do PCP, na Avenida da Liberdade, uma porta aberta aos lisboetas que não devem perder a oportunidade de o adquirirem para umas horas de leitura que não são um desbarato de tempo.

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Nos livros o grande destaque vai para As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, finalmente publicado em Portugal pela Antígona, Editores Refractários.  É a denúncia esclarecida e implacável sobre cinco séculos de exploração e pilhagem do continente americano desde os primeiros conquistadores europeus às multinacionais norte-americanas.  Contra a exploração do homem pelo homem e da redução do  mundo a um mercado, Eduardo Galeano, com uma escrita luminosa e empolgante,  faz uma acusação de como os mandantes da exploração capitalista, seus serventuários e cúmplices, da  fase primitiva à actual,  dominam os países do sul impondo-lhes um mundo onde os fazem entrar pelas pequenas e estreitas portas dos fundos mas em que devem acreditar acreditando nas  virtudes da liberdade de comércio e na livre circulação dos bens, embora seja uma mentira que faria o nariz do pinóquio ultrapassar todas as galáxias, em que têm que  honrar dívidas que lhes são impostas por mais desonrosas que sejam, em que são obrigados para sobreviver a atrair investimentos por mais indignos que sejam, que são coagidos a subsidiar,. Um mundo controlado pela livre concorrência dos mercados que nada tem de livre, bem pelo contrário tem rédea bem curta mais que comandada por quem tudo desregula a seu favor com manipulações de mão de ferro fazendo crescer vertiginosamente desigualdades e dependências.  Mercado mundial onde, mesmo quando ainda não tinha essa característica mas já caminhava sem detença para a globalização, tudo se compra tudo se vende, mesmo países.  As Veias Abertas da América Latina  difunde informações pouco conhecidas ou mesmo desconhecidas. São muitos os temas, todos confluem para expor sem contemplações a obstinada rotina da desgraça em que estão mergulhados esses países. Um livro essencial para se compreender a história passada mas também as tramas das lutas em curso no continente americano, centro e sul, dramas que também se vivem noutras paragens, mesmo em países ditos desenvolvidos.

Muitos e bons livros de autores nacionais e estrangeiros, anunciam-se.  Sublinhe-se as reedições e alguns inéditos que irão dar corpo às obras completas de Agustina Bessa-Luís (Relógio d’Água) Fernanda Botelho (Abysmo) David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Eugénio de Andrade e Mário Cesariny Vasconcelos (Assírio e Alvim) Luís de Camões (E-Primatur) e dos estrangeiros,  Roberto Bolaño (Quetzal).

Rei Lear

Um grande destaque para Rei Lear de Shakespeare, no Centro Cultural de Belém,  nos dias 8 e 9 pelo Ensemble-Sociedade de Actores com encenação de Rogério de Carvalho.  É uma história que foi repetidas vezes contada em crónicas e romances a que o grande dramaturgo inglês deu forma definitiva e genial irrompendo pelos bastidores da história de que o mundo só acaba por captar os efeitos exteriores. Uma história sobre a questão do  poder em que o saber e a arte de governar de que o Rei Lear tinha dado provas  se destroem quando, no fim da sua vida e preparando a sua sucessão, se deixa arrastar pela vaidade pessoal e se entrega às paixões e à egomania provocando uma tragédia de incomensuráveis proporções que o devoram e devoram o seu reino. O teatro de Shakespeare mais do que para ser lido é para ser visto e ouvido, tem aqui uma excelente oportunidade de o ver e ouvir. No entanto também o poderá ler numa excelente tradução feita e anotada por Álvaro Cunhal, editada pela Caminho.

Orfeu, é um dos mitos grego nucleares que se repercurte até aos nossos dias e das mais diferentes formas, até no filme de Pedro Almodóvar, Fala com Ela.  O CCB organizou um ciclo O Mito de Orfeu na Literatura e no Pensamento, concebido e organizado por Miguel Santos Vieira, em que se sublinha a persistência e a diversidade com que esse mito percorre a cultura ocidental,  tendo sido extensamente usado por poetas, filósofos e músicos. Um ciclo em que assiste a uma vasta e bem cuidado panorâmica sobre a música inspirada pelo Mito de Orfeu, através dos séculos em que são desmontadas algumas das suas mais surpreendentes tramas. As sessões são ilustradas com excertos áudio-vídeo das obras musicais e músico-teatrais mais representativas. O ciclo iniciou-se na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen no dia 4 tem sessões nos dias 11 e 25 setembro e 2 de outubro. Em  18 setembro,  decorre na Sala Luís de Freitas Branco, sempre ás 18 horas.

Na Fundação Gulbenkian, até 2 de outubro, Escultura em Filme, com curadoria de Penelope Curtis.  É uma exposição surpreendente pelo fascínio que a escultura clássica, completamente afastada do ensino das artes, continua a exercer sobre os artistas contemporâneos sobretudo na fotografia e no cinema. Os artistas,que não são fotógrafos nem realizadores de cinema  usam tanto a fotografia como o video nos seus trabalhos de artes visuais e performativas para fazer leituras minuciosas e sedutoras da escultura clássica que integram esta exposição. São sete jovens artistas, Anja Kirschner (1977) e David Panos (1971), Fiona Tan (1966), Mark Lewis (1958), Rosa Barba (1972), Lonnie van Brummelen (1969) e Siebren de Haan (1966) que visitam museus da Europa para nos dar  um novo olhar sobre esculturas do passado solidamente ancoradas na  intemporalidade que vence a sua imobilidade.

A colecção das obras de Miró, em posse do Estado por nacionalização do BPN que as tinha adquirido, podem ser vistas na sua integra no Palácio da Ajuda o que não aconteceu no Porto por limitações de espaço. O que está bem presente nesta exposição de Miró, com obras de várias técnicas e temporalmente muito distantes, de 1924 a 1983, em que as conexões que se procurem são muito dispersas, é uma evidente irregularidade e errância entre elas, e não serão as sete obras não expostas em Serralves que irão alterar essa circunstância. De algum modo, até paradoxalmente, este conjunto de obras torna mais evidente o modo como desde sempre o pintor se apropriou dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, tendo sempre por horizonte uma deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que  acaba por conferir relevância e interesse a esse acervo que tem todos os defeitos de uma aquisição feita por atacado. Um investimento como qualquer outro sem nenhum critério estético ou histórico que a determinasse. Deve ser lembrado que este património estava para ser vendido em leilão pelo governo PSD/CDS, em atitude simétrica aos dos seus parceiros políticos que a compraram. Tudo gente para quem a cultura só existe como negócio e por vezes como verniz para tapar os buracos do seu oco pretenciosismo intelectual. As excepções são uma raridade extremamente rara.

No Porto, hoje dia 8 de Setembro às 22h00, um concerto aberto ao público na avenida dos Aliados, Mão Morta& Remix Ensemble. Uma revisitação dos temas mais icónicos da mais icónica banda de rock alternativo.  Uma viagem pelo universos muito sugestivos da lírica de Adolfo Luxúria Canibal. Um concerto que certamente será um sucesso, com arranjos musicais de Telmo Marques e direcção musical de Pedro Neves.

Uma semana que vai acabar no abrir oficial das portas às campanhas eleitorais das autárquicas que já andam nas ruas por todo o país. Uma boa altura para recordar que o voto não é só um acto político. É também um acto cultural onde mais se afirma a cidadania.

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Agitação e Propaganda, Artes, Cultura, Dziga Vertov, El lissitsky, Estética, Geral, Janelas Rosta, Kloutsis, Lenine, Literatura, Lunatcharsky, Maiakovski, Malevitch, Maurice Blanchot, Política Cultural, Revolução de outubro, Revoluções Proletárias

AGIT-PROP: O LUGAR GEOMÉTRICO DAS VANGUARDAS POLÍTICAS E ARTÍSTICAS

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A arte não é um espelho para reflectir o mundo,

é um martelo para o forjar

Maiakovski

No final do século xix e no príncipio do século xx, as lutas dos explorados e oprimidos, sobretudo da classe operária, intensificaram-se na Europa. A massa de proletários reorganizou-se depois de a Comuna de Paris, o primeiro e efémero governo operário da história da humanidade, ter sido brutalmente reprimida. O Manifesto Comunista, com a sua palavra de ordem Proletários de Todos os Países, Uni-vos!, tem um impacto que não mais perderá, ao sublinhar a centralidade da questão da propriedade privada e as críticas aos socialistas revisionistas que deslocam as lutas de classe para o território da democracia formal, mantendo a estrutura nuclear das relações de produção e de troca, submetendo-se ao poder burguês que pretendem reformar, e aos socialistas utópicos que, apesar de fazerem uma análise crítica da exploração do proletariado, se distanciam da luta política, o que inviabiliza a luta pela transformação da sociedade. Paralelamente, enfrentando uma agudização das lutas operárias, cada vez mais organizadas, os reaccionários capitães da indústria, escorados pelo capital, procuram esvaziá-las, ainda que timidamente e com enorme paternalismo, pondo em marcha políticas para melhorar as condições de vida dos assalariados. O ponto mais alto dessas políticas é a criação das cidades operárias, das vilas operárias, muito saudadas pelos socialistas revisionistas, apesar de Jules Siegfried, deputado e presidente da Câmara do Havre, autor da lei das habitações locais a preços acessíveis, proclamar: «Queremos fazer em simultâneo as pessoas felizes e bons conservadores; queremos combater ao mesmo tempo a miséria e os erros socialistas, queremos garantir a ordem, a moralidade, a moderação política e social? Façamos as cidades operárias!» Nesta declaração, todo um programa político que, em múltiplas variantes, é extensível a outras áreas de acção continua actual e é prática continuada dos partidos que pretendem contumazmente esvaziar a luta de classes, apagar as fronteiras ideológicas, manter o Estado ao serviço do capital. Hoje, adequando-a às exigências que as alterações históricas impõem, tem a sua expressão no TINA (There Is No Alternative), em linha com o Fim da História, o Fim da Ideologia, o Fim da Política, que a queda do Muro de Berlim permitiu e acentuou. Políticas que têm o objectivo de manter o domínio do capital sobre o trabalho, tornando a exploração mais suportável, a miséria material e moral menos escandalosa.

Na altura, essa era a realidade que se impunha na maioria dos países da Europa, mas que não tinha viabilidade numa Rússia com um extenso mundo rural e uma jovem classe operária. Uma população brutalmente explorada e sem possibilidades de aceder ao mínimo essencial. Aí a evolução não era possível, só a revolução tornaria possível a melhoria das condições de vida. A Revolução de 1905 deu um primeiro passo, logo traído pelos socialistas revisionistas. A luta continuou, tornou-se imparável. As massas populares, conduzidas pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lénine, triunfaram em 1917, na Revolução de Outubro. Uma formidável explosão popular que abalou o mundo. Os explorados e oprimidos durante séculos tomaram pela primeira vez o poder; não se limitando a assenhorear-se da máquina do Estado, destruíram-na, cumprindo a tese de Lénine, em O Estado e a Revolução, desenvolvendo as teses de Marx e Engels, denunciando os revisionistas: «a transição da sociedade capitalista, que se desenvolve em direcção ao comunismo, para a sociedade comunista, é impossível sem um “período de transição política”, e o Estado deste período só pode ser a ditadura revolucionária do proletariado».

A Revolução de Outubro, pondo em prática a ditadura revolucionária do proletariado, provocou um enorme entusiasmo nas vanguardas artísticas que, desde finais do século xix, agitavam o universo das artes e se debatiam entre as suas propostas radicais de depuração da forma, libertando-a de superficiais ornamentações, e uma sociedade que os olhava distanciadamente, sem nenhuma dignidade para lhes oferecer num contexto em que a situação social se agravava, o poder de compra dos trabalhadores se erodia, a proletarização da classe média se acelerava. As artes estavam confinadas aos seus espaços de fronteiras bem delimitadas, os artistas eram marginais tolerados que a lustravam. As vanguardas artísticas no Ocidente que colocavam em questão a alienação social, ética e visual das relações dos homens e dos objectos na sociedade burguesa, a contranatura da sua hierarquização, que no topo tinha, continua a ter, os objectos de luxo e os realizados pelos artistas enquanto objectos inúteis só acessíveis a uma minoria, estavam cercadas e confinadas a circuitos bem definidos. Registe-se que o que hoje é uma vulgaridade, o investimento em objectos de arte, como pinturas e esculturas, e de luxo aconteceu massivamente pela primeira vez em França, em 1924, curiosamente o ano em que foi publicado o Manifesto Surrealista, quando uma maioria parlamentar tinha chegado ao poder depois de propor o controlo dos movimentos de capitais, o que provocou um movimento de pânico e uma subida da inflação que levou os ricos a investirem nesses bens a par das já normais fugas de capitais e compra de divisas estrangeiras. A grande crise económica capitalista, com o afundamento de Wall Street, sucederia cinco anos depois. Até aí, comprar obras de arte, que são sempre um investimento, por maior que seja a paixão estética, não tinha essa característica, antecipando a actualidade, em que os objectos de arte são um nicho do mercado de objectos de luxo. Um investimento que se faz pela lógica do lucro, muitas vezes embrulhados em considerações estéticas em que ninguém acredita.

Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo social sem precedentes. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária é parte inteira das propostas estéticas. Só assim se compreende como os ferozes debates entre as diversas vanguardas estéticas que trabalham em prol da Revolução têm um contacto efectivo e eficaz com aqueles a quem se dirigem e que enfrentam multímodos problemas quotidianos num espaço geográfico territorialmente enorme. Só assim se percebe como o Quadrado Negro de Malevitch, que provoca enorme controvérsia nos meios artísticos, se populariza como mancha gráfica usada extensivamente por todo o território soviético para suporte de mensagens de propaganda, além de ser usado por outros artistas, como em Negro sobre Negro, de Rodtchenko. Quadrado Negro que se divulgou tanto que figurou na frente do carro funerário que transportou o caixão do pintor no que foi uma grande manifestação popular em 1935, em Leninegrado. Só assim se entende que no 1.o de Maio de 1926, em Leninegrado, os manifestantes transportem a maqueta do Monumento à III internacional, de Tatlin, com o mesmo fervor revolucionário com que em Kharkov se transportava, também num 1.o de Maio, um gigantone figurando o capitalismo construído por artistas e populares, ou o êxito dos comboios e dos barcos agit-prop, que partiam dos grandes centros urbanos, com pinturas, cartazes, manifestos, cinema, teatro, etc., para atravessar toda a Rússia com paragens nos lugares mais improváveis, levando a festa e a cultura da Revolução a todo o país, sem descurar as tradições artísticas locais dos percursos previamente organizados. Que tenha acontecido o primeiro espectáculo de som e luz em todo o mundo, O Assalto ao Palácio de Inverno, encenação de Evréinov, cenários de Annenkov, que foi também um grandioso teatro de massas, com milhares de espectadores e participantes. Um novo tipo de teatro iniciado pelo encenador Vinogradov-Mamont, director das Oficinas Teatrais do Exército Vermelho, outra novidade revolucionária, que esteve na origem de espectáculos memoráveis: A Caminho para a Comuna Mundial, Mardjanov, Almant, Chaldnecht, Luta e Vitória, Meyerhold, Vesnine, Popova, O Bloqueio da Rússia, Fomine, Radlov, Khodassievitch, que pretendiam suplantar o teatro tradicional e estão na origem de o teatro soviético, já noutro formato, se transformar num teatro supranacional.

No cinema, talvez pela sua juventude, o salto qualitativo na linguagem cinematográfica induzido pelos realizadores soviéticos transmudou-a completamente. Inicialmente, os cineastas soviéticos registavam o que era mais interessante e importante. Um cinema documental orientado pela palavra de ordem Todo o Poder aos Sovietes também cantado por Maiakovski […] A todos! / A todos! / A todos os que na frente, / estão cansados da guerra, / aos escravos / de todos os tipos, / na servidão / dos ricos / Todo o poder aos sovietes / A terra aos camponeses! / O mundo ao povo! / Pão aos que têm fome! (poema Vladimir Ilitch Lénine). As imagens traduziam a verdade dos acontecimentos, as imagens poéticas da Revolução. A montagem, a montagem narrativa, seguia os cânones de Holywood, de realizadores notáveis como Griffith, King Vidor, Chaplin. Esses primeiros anos a acompanhar a Revolução acabam por provocar uma revolução na arte cinematográfica que explode entre 1925-1930 com A Greve, Couraçado Potemkin, Outubro, de Eisenstein, A Mãe, O Fim de São Petersburgo, A Tempestade na Ásia, de Pudovkin, O Arsenal, A Terra, de Dovjenko, A Rússia de Nicolau II e de Tolstoi, de Ester Choub e o Cinema-Verdade de Dziga Vertov, O Homem da Câmara de Filmar, Três Canções para Lénine, O Entusiasmo. A montagem está na raiz do que fez mudar universalmente a linguagem cinematográfica. Duas cenas são exemplares dessa alteração: a do tiroteio na escadaria de Odessa no Couraçado Potemkin, os confrontos entre manifestantes grevistas e as forças repressivas czaristas em A Mãe. É esse novo género de montagem introduzido pelo cinema soviético, com destaque para Eisenstein, que tem sido analisado extensamente por muitos teóricos do cinema que o consideram o inventor da linguagem cinematográfica actual no que ela tem mais de específico. A montagem eisensteiniana é a ilustração da aplicação da dialéctica marxista: cada imagem só tem verdadeiro sentido em relação às imagens que a precedem e às que são subsequentes. Lembre-se a cena, no Couraçado Potemkin, do médico lançado ao mar a que sucede o grande plano do seu monóculo, que no momento da queda fica pendurado a balançar, metáfora da redução da sua autoridade anterior a uma marioneta. Vertov é outro exemplo da importância da montagem no que se poderia chamar jornalismo pela imagem. Destrói as lógicas narrativas sequenciais para fazer descobrir o sentido oculto das imagens captada. Escolhe e corta os planos para os opor uns aos outros, para confrontar os seus conteúdos, para em semelhanças e dissemelhanças complementares nos seus contrastes fazer «a decifração comunista do mundo» (Vertov), com uma novidade formal excepcional. Com o advento do sonoro, Tchapaev, dos irmãos Vassiliev, um grande êxito popular, é um excelente exemplo de como aprender com todos os seus antecessores e de como se assimilaram as possibilidades estéticas abertas pelo sonoro.

Todas as disciplinas artísticas são atravessadas pelo vento da Revolução. Respiram-no, e essa respiração é vital para a pulsão criadora de que ficam possuídas. A abolição das relações de propriedade abre as estradas para novas formas de arte que apontam para o futuro, recusando frontalmente tanto a estetização da política como a mundanização das artes, demonstrando de forma inequívoca como a arte de massas pode ser verdadeira arte, isto dito de forma linear, usando e aceitando uma terminologia vulgar. A grande escassez de materiais condicionou a produção de cartazes, monumentos, filmes. O papel era utilizado sobretudo em jornais, livros, cadernos. Isso não impediu que o cartaz com mensagens e palavras de ordem revolucionárias fosse bastante utilizado e tivesse uma expressão estética que, na maioria dos casos, usava técnicas figurativas, muito influenciadas pelas imagens cinematográficas. A fotomontagem vulgarizou-se com grande inventiva com El Lissitsky, os irmãos Stenberg, Kloutsis, Proussakov, e paralelamente com as ideias do construtivismo, que Naoumov usou com notável maestria. A escassez de papel está na base de uma nova forma de cartaz, as janelas ROSTA. Um trabalho gigantesco feito por «um grupo de pintores que, à mão, traduziam a luta revolucionária em manchas coloridas e palavras de ordem sonoras para a levarem a milhões de pessoas», como o sintetizou Maiakovski, um dos mais activos intervenientes nessa actividade, que se expandiu pelas principais cidades russas, sobretudo em Moscovo, São Petersburgo, Smolensk, Kiev, Vitebsk. Com uma linguagem pictural muito estilizada e de grande expressividade, as ROSTA eram uma variante dos jornais de parede e tiveram grande influência na feitura de cartazes.

A arte monumental deste período merece um estudo particular. Anote-se rapidamente a coexistência entre monumentos temporários e monumentos para perdurarem no tempo. A essa distinção não é alheia a já referida escassez de materiais, que condicionava as selecções. Logo em 1918, Lunatcharsky, Comissário no governo soviético para a Educação, propôs e fez aprovar um decreto sobre os Monumentos da República (12 de Abril de 1918) em que se determina o destino a dar aos monumentos czaristas e a organização de concursos públicos para projectos de monumentos que assinalem «as jornadas gloriosas da Revolução socialista na Rússia». Na sequência, em 2 de Agosto foi publicada e aprovada uma lista com «As Personalidades à memória das quais é previsto realizar monumentos em Moscovo e noutras cidades». São dezenas de revolucionários, filósofos, escritores, pintores, músicos, cientistas, etc., a quem se deveria erigir um monumento. A lista foi elaborada considerando o seu carácter progressista e papel histórico nas lutas sociais e na luta pela consciência social das massas. Era também um meio de colocar a Revolução Bolchevique na cultura universal como herdeira do progresso social da história da humanidade. Tinha um forte carácter internacionalista, era uma base para as diversas cidades elaborarem as suas encomendas. A par das outras obras de agit-prop, tinham frases de Marx, Tolstoi, Goethe, Ovídio, Danton. Embora a dominante fosse o monumento-retrato, fizeram-se propostas com soluções de moderna estatuária que ficaram para a posteridade. Muitos desses monumentos, por razões económicas, não passaram de projectos. Alguns foram construídos com materiais precários; de referir os que foram construídos com gelo, mesmo conhecendo a sua sazonalidade. Não se limitaram a glorificar pessoas, mas as lutas heróicas dos operários e camponeses, do Exército Vermelho. Nele se empenharam tanto escultores como arquitectos, pintores, artistas gráficos.

Todas essas realizações da arte soviética nesses anos heróicos da construção do socialismo resultam de um trabalho teórico e de um empenhamento sem precedentes na organização cultural e educativa. No III Congresso dos Sovietes, Lénine afirmou: «Antes, o génio do espírito humano trabalhava unicamente para que os bens da cultura e da técnica fossem aproveitados por uma minoria, enquanto os outros, a esmagadora maioria, era privada do essencial: da educação e do desenvolvimento. A partir de hoje toda e qualquer maravilha da técnica, cada conquista da arte, será uma herança de todos os povos e jamais algum espírito humano e o seu génio estarão ao lado da opressão, da exploração.» Foi esse o trabalho do Comissariado do Povo da Educação da URSS, que numa dezena de anos alfabetizou uma população de milhões maioritamente analfabetos e impulsionou uma nova cultura, em que se empenharam milhares de artistas e intelectuais que, por vezes com grandes e ásperos confrontos de ideias, lançaram as bases de uma vasta acção artística e cultural em apoio à Grande Revolução de Outubro que se dirigiu a toda uma população, às mais largas massas populares, no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura.

A cultura era uma presença viva, inconformada e sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas actualmente pelas culturas ocidentais, no plural para sublinhar diferenças que realmente são cada vez mais secundárias, e que inquietam a intelligentsia, como Blanchot tão claramente sintetiza: «secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

A cultura e as artes, nos anos grandiosos da Revolução de Outubro, enunciaram e percorreram todos os caminhos que as forjam como poderosas ferramentas de transformação da vida. Nos nossos dias, as artes e a cultura vivem uma situação dramática resumida por Terry Eagleaton: «hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas […] pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em condições de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental». Não é só a literatura britânica, são todas as artes, é toda a cultura de uma cultura inculta. As excepções são raras num tempo em que, num aparente paradoxo, se investe consideravelmente na construção de museus, teatros, salas de concertos, em múltiplas instituições, na subvenção de espectáculos, sem que isso tenha expressão nas artes, que em nenhuma parte do mundo se aproximam, muito menos emergem, das realidades sociais. As artes e cultura, num tempo em que tudo se submete e sacrifica nos altares do economicismo, estão atiradas para uma incoerência caótica e insensata, apesar dos génios que em obras fragmentadas demonstram a sua genialidade, o que sublinha a tese de Burckhardt: «existem hoje grandes homens para coisas que não existem».

A arte e a cultura não estão condenadas à alienação. As artes na Revolução de Outubro, com a sua vertiginosa criatividade e combatividade, comprovam-no. É um processo irrepetível, mas o que foi possível poderá novamente sê-lo com formas completamente outras.

CV ContraCapa

BIBLIOGRAFIA

Arvatov, Boris, Arte, Produção e Revolução Proletária, Moraes Editores, 1977.

Blanchot, Maurice, O Livro por Vir, Relógio d’Água, 1984.

Burckhardt, Jacob, Considérations sur l’Histoire Universelle, Allia, 2001.

Eagleton, Terry, After Theory, Penguin Books, 2004.

Guerman, Mikhail, La Flamme d’Octobre, Editions Cercle d’Art, 1997.

Les Lettres Françaises n.o 1207, La Révolution Culturelle d’Octobre 1917, Novembro 1967.

Lénine, V. I., Obras Escolhidas, Edições Avante!, 1992.

Maïakovski, Vers et proses, choisis, traduits, commentés par Elsa Triolet, Les Editeurs Français Réunis, 1963.

Martin, Marcel, A Linguagem Cinematográfica, Prelo Editora, 1971.

Marx, Karl e Engels, Friedrich, Manifesto do Partido Comunista, Edições Avante!, 1995.

Palmier, Jean Michel, Lenine, a Arte e a Revolução, Moraes Editores, 1976.

Sadoul, Georges, História do Cinema Mundial, Livros Horizonte, 1983.

Stites, Richard, Revolutionary Dreams, Utopian Visions and Experimental Life in Russian Revolution, Oxford University Press, 1989.

Tairov, Aleksandr, Le Théâtre Liberé, La Cité-L’Âge d’Homme, 1974.

Vários, Os Futuristas Russos (coordenação de Léon Robel, tradução de Emília geo Georgette), Editora Arcádia, 1971.

(PUBLICADO NO CADERNO VERMELHO Nº 25 / Setembro 2027)

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Cultura, Geral, Patrim, património, Património Monumental, turismo

Um Caminho de Pedras

 

ARFoi notícia recente na comunicação social o entusiasmo governamental, pela voz de Luís Araújo, presidente do Turismo Portugal, com a resposta ao programa Revive por parte do universo empresarial ligado ao turismo, anunciando que são «300 manifestações de interesse, nacionais e internacionais» para candidaturas à concessão desses edifícios históricos. «Serão concessões de 30 a 50 anos que vão permitir devolver à fruição pública imóveis que estavam a ser um peso para o Estado, pois não estavam ocupados e estavam a degradar-se. Estamos muito contentes com este interesse, pois acreditamos que será uma mais-valia para as localidades e para o País.»

É um caminho de pedras. Das pedras materiais que os empreendedores se propõem recuperar às pedras imateriais de como essa recuperação será realizada e de como esses imóveis serão restituídos ao usufruto público e não em exclusivo ou quase exclusivo aos seus utentes em trânsito. Será de lembrar que o Ministério da Cultura propôs inicialmente livrar-se desse «peso para o Estado» sem grande preocupação com os valores de memória histórica que transportam. O caso mais flagrante era o do Forte de Peniche, que só por forte e indignada manifestação pública saiu da lista original.

Era por demais evidente que a memória de um passado recente de muito má memória para Portugal seria ou completamente rasurada ou tão residual que deixaria de ter significado com o seu aproveitamento turístico. Prevaleceu o bom senso que terá que ter continuidade num projecto museológico bem estruturado e apelativo para não se tornar em local de romagem que perca progressivamente a sua importância real e simbólica. A sua integração nos roteiros pedagógicos da História de Portugal deve ser um dos seus elementos centrais.

A recuperação do património edificado é sempre complexa. A privatização da gestão do património cultural através da sua concessão é sempre perigosa e pode redundar num prejuízo incalculável, tendo como único benefício a redução dos seus impactos nos Orçamentos de Estado. A gestão privada tem um único objectivo, o lucro e a recuperação no prazo mais curto dos investimentos realizados.

A filantropia não entra nesses cálculos. O interesse nos valores icónicos, históricos e culturais é meramente instrumental. O Estado tem um papel fundamental no equilíbrio entre a exploração desse património por privados e o seu usufruto público, mesmo assumindo-se que os projectos de arquitectura respeitem o traçado original. Os exemplos de desastradas gestões e intervenções privadas no património edificado são muitas e o que aconteceu em Itália, mas não só, nos governos Berlusconi deve ser um fortíssimo sinal de alerta.

 

Proteger o serviço público

 

Há um serviço público que tem que ser protegido e defendido. É essa a função do Estado que o deve impor caso a caso. É isso que deve ser do conhecimento público para haver debate com contribuições, culturais e técnicas, válidas que se plasme nos cadernos de encargos das concessões. As fronteiras entre serviço público e actividades comerciais são frágeis e porosas, sobretudo quando se está a transferir a recuperação e a gestão de um bem patrimonial que é de todos para a sua apropriação privada.

Um dos meios de salvaguardar o património edificado é dar-lhe novas funções sem que a sua identidade seja posta em causa. O Centro Português de Fotografia está instalado na «Cadeia da Relação», um edifício que começou a ser construído em 1767; o Museu Nacional de Arte Antiga está instalado num palácio mandado construir, em finais do século XVII, pelo 1.º conde de Alvor; o Palácio de São Bento, onde está instalada a Assembleia da República, começou por ser um convento. Todos eles ao longo dos tempos albergaram as mais diversas instituições e nem todos os edifícios com valor patrimonial terão que obrigatoriamente seguir esse caminho, embora também o caminho não deva ser de via única para exploração turística.

Um caminho de pedras em que a recuperação das pedras não deve alienar o usufruto público. Um dos primeiros passos a dar para se cumprir o serviço público que o Estado deve assumir é obrigar que os projectos de arquitectura sejam objecto de concurso aberto a todos os arquitectos e que no caderno de encargos sejam integrados percursos que dêem a conhecer o seu passado histórico.

(publicado no Avante! 10 agosto 2017)

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