Allegri, Antonio Caldara, Arvo Part, Couperin, Cristóbal de Morales, Cultura, Geral, Gesualdo, Haydn, Heinichen, J.S.Bach, Música Páscoa, Palestrina, Pergolesi, Thomas Tallis, Vivaldi

Música na Páscoa/ sugestões musicais

Crucificado

Cristo Crucificado Salvador Dali

 

Em época pascal muitos são os programas com música que se reporta a esse tempo.

Aqui vão as sugestões que fiz no AbrilAbril

Boa Páscoa com muita e boa música

Música de Páscoa

 

 

 

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"Star-System", Artes, Bob Dylan, Caetano Veloso, Chico Buarque, Contracultura, Cultura, Cultura Mediática, Estética, Georges Brassens, Geral, imperialismo, Imperialismo Cultural, leo ferré, Literatura, Nobel Literatura, Obama, Prémios Nóbel

Esbofetear a Literatura e a Cultura

bobdylan

 

Por estes dias Bob Dylan por interposta Patti Smith recebe o Nobel da Literatura que a Academia decidiu conceder com o argumento de “ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana”, o que a secretária permanente da academia explicou, considerando Dylan ser merecedor do prémio por “ser um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”.

São curiosas justificações que nada justificam. Se Dylan criou novas expressões poéticas na tradição da canção americana o que dizer de um Leonard Cohen, de uma Laurie Anderson, de uma Meredith Monk. Argumento mais ridículo é considera-lo “um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”. Um só verso de T.S.Elliot, para referir outro nobelizado, tem mais espessura e inteligência que toda a obra de Dylan, a que já produziu e a que eventualmente venha a produzir. Seria extraordinário que a coroa de louros do Nobel produzisse tal metamorfose e transfiguração. O que o Nobel vai injectar em Dylan é um doping de marketing.  O prémio da Academia Sueca é um selo que faz vender e muito mais vai fazer vender quem já se movia no mundo comercial como peixe na água, como se pode aferir pelas vendas alcançadas por um dos seus últimos discos em que recorre ao reportório de Sinatra mesmo que seja uma demonstração das suas limitações enquanto cantor.

A atribuição do prémio a Dylan produziu enormes ondas de choque no universo da cultura, normalmente associada a um conceito restritivo e elitista que tem sido abalado, desde a emergência da cultura pop por uma hibridização entre géneros que não cessam de se cruzar de forma incongruente mas que, há que reconhecê-lo, muitas vezes de forma sedutora para criar um imaginário universalizado a destruir fronteiras entre as camadas sedimentares das culturas, Cultura Erudita/Humanística, a Cultura Popular, Cultura de Massas, etc. alienando as políticas de democratização da cultura. Um dos que mais se fez ouvir foi Vargas Llosa, outro Nobel da Literatura, numa denúncia vigorosa de que agora “vale tudo” na banalização de uma cultura em que se apagaram os parâmetros selectivos, interrogando se “no próximo ano vão dar o Nobel da Literatura a um futebolista”. O que não é inesperado de quem escreveu o ensaio A Civilização do Espectáculo, em linha com muitas obras teóricas que têm colocado em causa o estado actual da cultura contaminada pelas mundanidades e pelos populismos.

No olho do furacão desencadeado pela atribuição do Nobel a Dylan têm ficado submersos outros argumentos pertinentes embora quase seja obrigatório referir o sofisma de alguns recordarem que na antiga Grécia a poesia estar sempre ligada á música. Safo ou Homero, os trovadores franceses e ingleses, as Cantigas de Santa Maria da corte de Afonso, o Sábio ou de Dom Diniz, não podem ser usados para caucionar a eleição da Academia Sueca. Ao entrar por esse campo, dentro das fronteiras definidas nesse território, Dylan é um pigmeu, tanto poética como musicalmente, se for comparado com um Georges Brassens, um Leo Ferré, mesmo um José Afonso. Ouvindo qualquer desses cantautores, como agora são chamados, a distância para o norte-americano é abismal. E se Brassens raramente musicou poemas que não os seus Ferré, com bastante talento e sem escorregar para algum cabotinismo que inquina parte da sua obra, escreveu excelente música para poemas de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. Estão mortos, a Academia não atribui prémios a artistas entretanto desaparecidos. Argumentário falhado se formos ouvir um Chico Buarque ou um Caetano Veloso que, como escreveu Helder Macedo, “transformaram a poesia impossível no tempo da ditadura na canção possível durante a ditadura”. Sublinhe-se mais uma vez com um saber musical e poético de que Dylan é incapaz. Estão vivos, continuam a escrever canções numa língua que é das mais faladas no mundo, o que seria uma eventual pecha dos franceses. São de um país, o Brasil, onde o Nobel nunca desembarcou apesar dos grandes escritores que cintilam no seu firmamento e no firmamento universal.

Estranho? Nem tanto. O prémio Nobel da Literatura, como outros nóbeis, é também um prémio político. Obama está no panteão dos nóbeis da Paz para o confirmar. Na literatura, só assim se percebe porque foram nobelizados Soljenitsyne, Cholokov, Alexievich ou, sobretudo Churchill “pela sua brilhante oratória na defesa dos Direitos Humanos”, ele que era de facto um brilhante orador, a denúncia incendiária que fez do nazismo prova-o, mas teve posições dúbias em relação ao genocídio dos índios, desprezava não pelas melhores razões Gandhi, a componente rácica não era alheia a esse desprezo, foi um dos principais co-autores do brutal e desnecessário bombardeamento de Dresden, registado para a posteridade em Matadouro 5, por Kurt Vonnegut e que agora está a ser detergentada pela química dos restos do Muro de Berlim. Enfim, era a Academia Sueca a contribuir decisivamente para cumprir o desejo de Churchill “a história será gentil para mim, já que pretendo escrevê-la”.

Nesse patamar político há que situar o Prémio Nobel da Literatura 2016, escolhendo um suposto activista da contracultura, subvertida pela sua obra politicamente correcta, a fazer cócegas inconsequentes ao establishment, que engorda com essa marginalidade bem-comportada, a envernizar a liberalidade de uma sociedade sem dignidade e sem dignidade para oferecer.

É nesse patamar político que o prémio da Academia contribui para a manutenção do imperialismo cultural anglo-saxónico, que se ancorou no século XX, quando as nações perdem centralidade e capacidade de comandar o processo cultural. Quando a superfície global vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Quando miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a definir mais nitidamente a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar-ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços-nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana têm hoje um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, estamos a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge impondo-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras e agora entra com grande estrondo nos salões em que se decidem a atribuição do Nobel da Literatura, tomados de assalto pela banalização dos critérios intelectuais, pelas modas da cultura massificada e alienada, pelo vazio da era do vazio.

Inscreve-se o prémio da Academia Sueca a Bob Dylan na exportação de formas culturais que têm o objectivo de despolitizar, trivializar, alienar a humanidade aplainando o humano individual num processo de globalização e internacionalização que tende a destruir todas as formas de solidariedade, comunidade, valores sociais. É uma nova tirania exercida através de uma cultura em que subverte a cultura erudita e popular numa formatação pop e na instituição do star-system em que o que se exige dos receptores é o menor esforço, em que a procura e o do prazer da descoberta são praticamente anulados para que a inteligência morra, depois de um longo estado de coma agónica entre no grau zero.

Eleger Bob Dylan como Prémio Nobel da Literatura enquadra-se nos objectivos maiores do imperialismo político e económico, na sua componente cultural. É a legitimação do triunfo da cultura pop, do populismo das redes sociais, da banalização do pensamento reduzido ao teclar de um tweet, do trabalho sem fadiga de demagogicamente banalizar a criatividade, um vírus canceroso que tem vindo a corromper as artes na grande tarefa de destruição da exigência de esforço que as artes comportam para nos tornarem humanos.

(publicado em AbrilAbril; 12 Dezembro)

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Artes, Cultura, Geral, Manuel Gusmão, poesia

Manuel Gusmão

 

gusmao

Hoje, Manuel Gusmão, nome maior entre os poetas e intelectuais portugueses nossos contemporâneos celebra o aniversário. Celebremos com ele essa data.

 

“Nós, na «tradição dos oprimidos (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez” (Manuel Gusmão, Uma Razão Dialógica. Ensaios sobre literatura, a sua experiência do humano e sua teoria, 2011, p. 371)

 

 

UMA PEDRA NA INFÂNCIA

 

 

Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância

 

Para que de vez se cale essa respiração

contida suspensa no escuro

 

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre

essa infância essa fala ininterrupta essa

 

falagem que falha e promete e inventa

os sonhos e as promessas o riso sem porquê

 

Para que de vez se interrompa a esperança esse

mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

 

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa

que é a infância, as vozes da noite do poço.

 

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada

e para sempre trocou já os desejos e os medos.

 

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio

as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

 

Para que se cale de vez essa respiração que se ri

na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

 

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre

a infância e ouve a erva a folhagem que cobrem

 

o céu em ruínas,

 

Também então havia uma pedra no canto do quarto

Ali onde a noite começava, era uma pedra e depois

crescia, petrificava-se no seu coração de pedra

dividia-se e eram várias crescendo; ocupando

todo o espaço do sono, do sonho do mundo,

Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos

que de pedra ficavam e o grito era uma pedra

que na garganta subia contra a outra pedra,

O próprio ar golpeado era e dividia a voz

pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

 

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma

outra infância de que possas recordar-te.

 

Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:

nada acontece, Não há

 

nenhuma voz na voz dos condenados.

(Migrações do Fogo, 2004)

 

Leiam a entrevista que recentemente deu para a revista on-line de Letras, Artes e Ideias CALIBAN

https://caliban.pt/entrevista-com-manuel-gusmão-904d401e9ea4#.u97f1nk4u

 

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Artes, Cultura, Educação, Estética, Geral, História de Arte, Literatura, Mario Dionisio

No Centenário de Mário Dionísio

 

 

mario-dionisioO Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, realizou de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e a obra de Mário Dionísio, cujo centenário ocorre este ano. “Como uma pedra no silêncio”, o título do congresso, condensa de forma sugestiva a vida e obra de um dos mais impares intelectuais portugueses do século XX.

Com uma vida dedicada ao ensino, em que foi marcante para muitas gerações de alunos rasgando novas perspectivas, fazendo-os questionar sempre algo para lá das fronteiras dos programas, Mário Dionísio tem obra relevante na literatura, na pintura, no pensar as artes e a estética.

Foi um dos teóricos do neo-realismo, sempre defendendo que as artes devem ter uma ideologia não para a servir, mas para a expressar. Uma posição singular no neo-realismo em que a qualidade artística e estética, ancorada na coerência ideológica, corria o risco de não se libertar de esquematismos ameaçadores e estiolantes por mais revolucionariamente bem-intencionados que fossem.

Nunca abandonou essa coerência de defesa das artes e da cultura, da sua relativa autonomia em relação aos processos históricos, situando-as como um dos alicerces fundamentais no processo de construção da sociedade.

Poeta e escritor notável, leiam-se O Riso Dissonante (1950) e Poesia Incompleta 1936/1965, O Dia Cinzento e Outros Contos (1965) e Não à Morte nem Princípio (1969)pintor quase desconhecido, embora tivesse participado com pseudónimos nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, faz a sua primeira exposição individual com setenta anos de idade revelando-se um pintor, entre a figuração e a abstracção ou para se ser mais rigoroso que vai introduzindo experiências da abstracção na figuração até esta ser um signo distante mas presente, numa afirmação pictórica em que se nega a artificial separação entre forma e conteúdo. Essa sua intensa e plural actividade criativa decorre em simultâneo com não menos intenso trabalho de investigação sobre as artes, história e estética. São duas linhas paralelas que escapam à condenação de se encontrar num ponto qualquer no infinito. São duas linhas paralelas que não se confundem, correm em permanente contacto sobre um plano mais vasto, o da sua visão marxista do mundo em que sempre acreditou e a que nunca renunciou.

Em 1958 profere na Sociedade Nacional de Belas Artes uma conferência, Conflito e Unidade da Arte Contemporânea. Uma intervenção de aguda lucidez sobre os problemas da arte nos nossos tempos, que continua actual, pela inteligência com que se colocam questões e a elas se responde numa perspectiva aberta de futuro, sempre com as hipóteses provisórias e as certezas relativas de um pensador que está no seu tempo, para lá do seu tempo.

Por esse ano já tinha publicado um ensaio sobre Van Gogh e o primeiro volume de A Paleta e o Mundo, obra magna sobre teoria e história da arte contemporânea, sobre o pensamento e a criação estética.

Em onze capítulos, Mário Dionísio questiona e afirma a função social da arte, filtrando-a pelo seu sistema de relações: a arte e o público, a arte e a ciência, a arte e a sociedade, a arte e o artista, a arte e a arte. Ferramentas com que dialecticamente analisa esse sistema de representação do mundo e o mundo que é representado e transformado. Fá-lo sem dogmas, nem “enfeudamentos cronológicos” (*), realizando um ensaio original, de rara profundidade que o colocam como um dos mais importantes teóricos e pensadores da arte contemporânea.

No ano em que se comemora o centenário de Mário Dionísio espera-se, deseja-se que a Imprensa Nacional/Casa da Moeda cumpra o serviço público, a que deve estar obrigada e reedite A Paleta e o Mundo. O mínimo que se lhe pode exigir porque o que realmente deveria fazer era, além de reeditar esse opus magnum, procurar que fosse publicada noutros idiomas para ocupar o lugar que lhe cabe entre os grandes estudos sobre arte contemporânea.

 

(*)Maria Alzira Seixo, Pensar A Paleta e o Mundo, Notas para um Estudo, edição Casa da Achada-Centro Mário Dionísio

 

publicado no Jornal a Voz do Operário /Novembro

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"Star-System", Artes, capitalismo, Cultura, Geral, História, Pós-Modernismo

Arte e artistas nos labirintos da pós-modernidade

o-atelier-do-pintor

O Atelier do Pintor, Rogério Ribeiro

 

Na actualidade, no mundo das artes verifica-se uma regressão no estatuto social dos artistas. Depois da Revolução Francesa, quando a burguesia alcançou o poder político na sequência do poder económico que vinha consolidando desde o fim da Idade Média, os artistas foram-se libertando, de um sistema em que estavam completamente dependentes das encomendas  da nobreza, da aristocracia, do clero. Processo que já se tinha iniciado no liberalismo da monarquia inglesa. Essa grande transformação inicia-se nas artes visuais com o aparecimento dos museus, mais tarde dos salões e galerias de arte, na música e teatro com os empresários de salas de espectáculos e  espectáculos, alguns eles mesmos músicos como Haendel, na literatura com os editores independentes e a introdução dos suplementos literários nos jornais quando passaram a ser vendidos por número avulso. Suplementos literários que começaram a publicar romances em folhetim, prática em que distinguiram Alexandre Dumas, Eugène Sue, Lamartine.

Os artistas respondiam a encomendas em paralelo com o que realizavam para o mercado, para compradores que lhes eram desconhecidos. Walter Benjamin considera que o artista que melhor percebeu esse novo estatuto social foi Baudelaire que sabia qual era a real situação do novo homem de letras  “que se dirige ao mercado dizendo a si-mesmo que vai ver o que se passa, mas na verdade já anda à procura de comprador.”

A evolução foi muito rápida com alguns episódios dolorosos de artistas que morreram na miséria antes de ter o merecido reconhecimento. Hoje, no pós-modernismo, que Francis Jameson classifica como a lógica cultural do capitalismo terminal, atingiu-se um estádio em que “a sociedade  não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.” (Gianni Vattimo).  Nesse  quadro, os contextos da arte são cada vez mais influenciados pelo mercado, em que surgem massivamente compradores e coleccionadores, novos artistas, novos eventos como feiras de arte, bienais, grandes exposições colectivas. Os períodos de grande euforia económica foram propiciadores de contextos que estruturaram aquilo que hoje se pode denominar um mundo de arte globalizado, com uma economia poderosa, em que a especificidade da criação artística e da reflexão por ela suscitada se dissolve nos momentos de apresentação e de representação social dos eventos desse mesmo mundo. Um mundo em que os intermediários culturais proliferam e têm influência crescente. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, a correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam.” É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, que manipula os valores do mercado. Uma espécie de clérigos pós-modernos que dominam o mercado da arte mantendo os seus aspectos formais mas, na realidade, subvertendo-os eficazmente, tornando os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento  com que se ilude esta realidade.

publicado em http://www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Outubro2016/jornal-out-2016.pdf

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Artes Perféricas, Copmunicação Social, Cultura, Geral, Mercado da Arte, Miró, Serralves

Miró em Serralves

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A saga Miró chegou ao fim. Faltam uns pormenores burocráticos e saber quanto se vai pagar à Cristhies, ficando, como é hábito, impunes os que armaram o imbróglio atropelando o quadro legal vigente. Há um efeito público no desfecho que não é desprezível, gerador de uma animação que de algum modo aplaina um olhar crítico.

Finalmente é dado ver o acervo Miró, as cinco obras que não fazem parte desta exposição não alteram certamente juízos que se façam. Curioso é confrontá-la com as muitas discussões a favor e contra ficar ou não ficar propriedade do Estado, sem que as obras fossem conhecidas ou só fossem conhecidas por um restritíssimo grupo de pessoas, na maioria sem especial conhecimento das artes. Sabia-se, presumia-se que as 85 obras tinham sido compradas a granel pelo BPN. Eram um activo do banco sem qualquer preocupação que orientasse a sua selecção. Mas isso mesmo as colecções mais criteriosas entram naturalmente na especulação financeira, embora de forma mais refinada.

No estado actual das artes a obra de arte é filtrada através das galerias, coleccionadores, instituições públicas, codifica os preconceitos e reforça a imagem de uma classe média e média-alta. A estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, financeiro e intelectual. O artista é um indivíduo comercial, disfarçado. A história e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema bancário. Por isso nada de escândalo Miró. Aliás o que é comprovado e sublinhado nas entrevistas e declarações do curador Robert Messeri, chamado para organizar a exposição (seria mesmo necessário vir um «especialista» tão especializado para orientar a colocação dos quadros?), ao recorrer a Siza Vieira para desenhar o dispositivo expositivo, à teatralidade da inauguração, ao ruído comunicacional foram o bolo em que o presidente da Câmara do Porto pousou a cereja declarando-a «notável e indivisível».

Não é notável, nem é indivisível. Nenhum artista, por mais genial que seja faz só obras notáveis e muito menos uma colecção é indivisível. É olhar para os leilões dos últimos anos ou para o celebrado Sequeira, separado da série de que faz parte, adquirido e bem pelo MNAA, por um relevante esforço de afirmação cidadã.

Proveitos

Miró é um importante pintor da radicalidade moderna, da modernidade que Octávio Paz definiu de forma precisa «a modernidade é uma espécie de autodestruição criadora: a arte moderna não é somente filha da idade crítica, é crítica de si-própria». Entrou pelo surrealismo, que se poderá classificar como clássico, com estrondo abrindo novos caminhos que por sua vez abriram novos caminhos a artistas posteriores. O que está bem presente nesta exposição de Miró com obras de várias técnicas, temporalmente muito distantes, em que as conexões que se procurem estão dispersas. Há uma evidente irregularidade e errância entre elas o que torna mais evidente o modo como o pintor com as suas formas  se apropria dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, como deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que é particularmente interessante e acaba por conferir outra relevância a esse acervo.

De referir a alegria de Serralves em recepcionar esta exposição que pouco ou nada tem a ver com as linhas orientadoras do museu, mas que vai oferendar proveitos não negligenciáveis pela publicidade em que o acervo Miró está embrulhado. O que não é uma novidade em Serralves que conta entre as suas exposições mais visitadas e com maior visibilidade pública as de Paula Rego e Bacon que também pouco têm a ver com o seu paradigma expositivo.

Desinteressante foram as notícias televisivas que se centravam mais nas mundanidades e no valor monetário da colecção, no que valeria se fosse vendida em bloco ou peça a peça. Bolas! O Jeff Koons atinge valores astronómicos e a sua obra é, na esmagadora generalidade, uma m****. A repescagem noticiosa dos lances da tentativa de venda pelo governo PSD-CDS foram um bródio. Realce para um Barreto Xavier entrincheirado em explicações fatelas e para as intervenções da Maria Luís Albuquerque a vender chita a metro na retrosaria da austeridade. Uma comerciante de arroz do Brecht: não sei o que é o arroz, nunca vi o arroz, do arroz só sei o preço.

(publicado no jornal Avante! de 20/10/3016)

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Artes, Álvaro Lapa, Bocage, Casa das Artes de Tavira, Cultura, Daniel Pires, David Evans, Geral, Joaquim Bravo, José Delgado Martins, Manuel João Vieira, Valter Vinagre, Vincent Baldassano

Bocage Malcriado

Bocage Cartas de Alzira a Olinda

Cartas de Olinda a Alzira (2016), Gouache e tinta da china sobre papel, 56x88Enter a caption

 

A Casa das Artes de Tavira, neste ano de 2016, com uma exposição Reencontro: Baldassano, Lapa, Bravo, que esteve para acontecer nos anos 70 e que não sucedeu pela vertigem do pós-25 de Abril em que, logicamente, as prioridades eram outras. Três pintores encontram-se no Algarve, em Lagos. Ano 1972, dois artistas portugueses, Álvaro Lapa e Joaquim Bravo, estavam por lá estacionados, o terceiro, o norte-americano Vincent Baldassano, foi lá parar em ano sabático. Firmaram sólida amizade e projectaram realizar exposição conjunta na Galeria Judith da Cruz. Os ventos da Revolução adiaram o projecto. O tempo corre contra esse propósito. Baldassano regressa aos EUA abandonando uma série de telas na galeria. Álvaro Lapa e Joaquim Bravo morrem. A galeria Judith da Cruz extingue-se. O que se tinha tornado improvável, mesmo impossível, acontece mais de quarenta anos depois na Casa das Artes de Tavira por iniciativa e empenho de José Delgado Martins e David Evans. Recuperam-se as telas esquecidas de Baldassano. Contacta-se o pintor e as famílias de Lapa e Bravo.

Fica decidido que Baldassano vem a Tavira, à Casa das Artes, e que se irá organizar a exposição condenada a nunca acontecer. Não é a mesma. É outra, mas tem o mesmo fulgor criativo, celebra a amizade entre os três artistas. É um acontecimento no nosso mundo artístico não tão celebrado nem apoiado como deveria ser. Malhas com que se tece o nosso anémico mundo artístico.

Depois desta exposição, outras duas vão ser inauguradas, no próximo sábado dia 6. Uma de fotografias de Valter Vinagre, Sob o signo da Lua, é uma viagem entre o real e a ficção, sublinhada pelo uso da luz natural e o da luz artificial, utilizando a câmara fotográfica como o instrumento de registo narrativo da estória que o fotográfo conta. Fotografias belíssimas, a quase normalidade de Valter Vinagre.

A outra, Bocage Malcriado, desenhos de Manuel João Vieira, executados com maestria pelo artista que, na inauguração, serão ilustrados por fados com poemas eróticos e burlescos de Bocage cantados por Manuel João Vieira no que será acompanhado pelo actor Victor Ribeiro que irá recitar uma selecção desse grupo de poemas nas versões fixadas literariamente por Daniel Pires. Uma noite que se advinha ser um escandaloso sucesso.

Transcrevo o texto que escrevi para o catálogo.

 

BOCAGE MALCRIADO

 

Manuel João Vieira marca encontro com Bocage. Com certo Bocage porque Bocage não é um todo. Incapaz de assistir num só terreno espalha o seu talento por muitos campos mais dado aos amores devoto incensador de mil deidades que à filosofia, que só surgiria bastante mais tarde na sua poesia. Deidades que se sucedem quase vertiginosamente, algumas retratadas em versos desbragados que, em venerável e bem temperada oitava rima, gabam ou verberam o apetite ou mesmo a fúria sexual de algumas Vénus. Aquelas que derrotam homens ou os fazem pedir tréguas.

São as Poesias Malcriadas de Bocage, satírico, ciumento mesmo maldizente, vaza em poemas de excelente confecção que se popularizaram nos cafés de Lisboa, construindo uma aura que o tornam num mito perdurável. O poeta bem avisa que é um fingidor E, se entre versos mil de sentimento, /Encontrares alguns, cuja aparência/Indique festival contentamento//crede, ó mortais, que foram com violência, /Escritos pela mão do fingimento, /Cantados pela voz da dependência. Muito antes de Pessoa, Bocage o fingidor não finge ser quem não é, não se multiplica em heterónimos. Escreve sempre versos bocageanos que assombram pelo fulgor mesmo quando caricatura, satiriza é malcriado. Mas se Bocage não se desdobra, outros o desdobram criando uma lenda à medida do poeta, mestre no improviso. No tumultuoso desaguar do seu estro de alta estirpe acrescentam canhestras rimas que lhe atribuem com proveito e sem vergonha a que acrescentam anedotas, ditos, sucessos, etc. Um carnaval pícaro que tem vindo a ser limpo por vezes com algum excesso puritano.

Sobre esse tumulto Manuel João Vieira desenha. Lê Bocage com os Irmãos Catita, os Ena Pá 2000, os Corações de Atum em música de fundo, em linha com um Bocage que existiu e outro que se calhar nunca existiu, mas podia ter existido. Por lá vão ficando fixadas no papel as Nises porque Todas no mundo dão a sua greta/Não fiques pois, ó Nise, duvidosa/ Que isto de virgo e honra é tudo peta. Não são petas os desenhos, uma elegia ao Bocage que nega as sanções metafísicas que a licenciosidade deveria sofrer se não estivesse liberta da pavorosa ilusão da eternidade, para o amor não ficar preso a ilusórias amarras, não sofrer castigos, viver com intensidade que as horas de prazer voam ligeiras.

Bocage o Tumulo do Poeta

O Túmulo do Poeta (2016), Gouache e tinta da china sobre papel, 51×62

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