AbrilAbril, Aldina Duarte, arquitectura, Barbara Hannigan, Carina Infante do Carmo, Cultura, Geral, João Paulo Esteves da Silva, Livraria Aillaud& Lellos, Lojas com História, Maria João Luís, Músicos do Tejo, Museu do Neo-Realismo, Programa Revive, René Jacobs, Teatro da Terra, Vilay Iver, Violante F. Guimarães

Do Pior e do Melhor em Cultura, Janeiro 2018

lelloe e AilladEm Lisboa uma livraria quase centenária, a Aillaud & Lellos, encerrou as suas portas no fim do ano por não suportar o aumento de renda exigido pelo senhorio. A ironia é ao lado do cartaz em que se anuncia o encerramento estar um autocolante com o logotipo “Lojas com História” da recém-formada rede do programa Lojas com História http://www.lojascomhistoria.pt , promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Não são as boas intenções que ultrapassam os efeitos devastadores da famigerada lei das rendas de Assunção Cristas, no não menos famigerado governo PSD-CDS, que provocou uma onda de despejos brutal que ela procura eclipsar manipulando os efeitos dessa lei da sua deliberada responsabilidade, ventilando um argumentário em que vale tudo mesmo negar as próprias evidências, como se viu durante a campanha eleitoral para as autárquicas em que se arvorou em defensora das lojas históricas de Lisboa, enquanto elas iam fechando vitimas da sua irresponsabilidade.

É menos uma livraria onde se podia procurar o que não se encontra nos dominantes espaços livreiros. Do ponto de vista da arquitectura também se vai certamente perder a bela fachada e letragem art-deco, como já se perderam outras lojas dessa zona da baixa, muitas desenhadas pelo arquitecto Conceição Silva em colaboração com artistas plásticos, agora só memória de um património que se tem vindo a alienar. Isto quando se proclama 2018 – Ano Europeu do Património e o Ministério da Cultura está alegremente muito entusiasmado com a privatização de mais de trinta monumentos que irão ser entregues à indústria do turismo. Inquietante, preocupante é o Ministério da Cultura não assumir as suas responsabilidades nesse processo porque a grande questão é se as operações imobiliárias necessariamente associadas a essas recuperações garantem e como garantem as suas memórias originais, se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Não é límpido como o empreendedorismo turístico, com promessas de restaurar o património edificado, lhe vai dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares. A primeira sugestão cultural, aceitando-se com todas as reservas o Revive, é que se gere um movimento cívico e de cidadania que exiga que seja o Ministério da Cultura a elaborar os programas para cada um dos monumentos, resolvendo na medida do possível os problemas enunciados e só depois os colocando a concurso. Há ainda outro problema que o governo devia corajosamente enfrentar que é o da crise com que se debatem os profissionais de arquitectura. Todos esses projectos deveriam obrigatoriamente ser sujeitos a concurso público não limitado, não deixando a escolha das equipas de arquitectura entregue à selecção aleatória dos adjudicatários. No 2018-Ano Europeu do Património estaria Portugal a dar um passo em frente e inovador para defesa do património mesmo no quadro de um desinvestimento generalizado dos Estados na cultura o que só causa as máximas apreensões, olhando para o que tem acontecido por essa Europa fora.

O grande destaque desta semana vai para as crianças. As crianças sem horizontes ou com um longínquo horizonte de esperança. Carina Infante do Carmo e Violante F. Magalhães organizam um interessantíssimo conjunto de colóquios, seminários e mesas-redondas, a decorrer em Lisboa na Faculdade de Letras e no Museu João de Deus e em Vila Franca de Xira no Museu do Neo-Realismo com o tema

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Miúdos, a vida, às mãos cheias. A infância do neo-realismo português. http://www.museudoneorealismo.pt/frontoffice/pages/1367?event_id=9609. O objectivo, expresso no texto de apresentação é o tópico da infância (e da juventude, já agora) uma das dimensões mais significativas da construção e conquista da contra-hegemonia cultural do Neo-Realismo à política salazarista e ao seu fortíssimo investimento simbólico, político-organizativo e repressivo em torno destas faixas etárias. Para os neo-realistas, a criança é um dos ícones da esperança, da emancipação social e da potência transformadora de futuro. O recurso à infância nas figurações artísticas e literárias combina o ensejo de denúncia com uma dimensão pícara e, fundamentalmente, lírica.

O programa é ambicioso e vasto, inicia-se nos dias 12 e 13 de Janeiro prolonga-se até Agosto.http://www.museudoneorealismo.pt/uploads/writer_file/document/17150/PP.pdf Além das análises ao neo-realismo enquanto movimento literário, artístico e político, a figuração da criança nas obras de Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Oliveira, Vergílio Ferreira e Fernando Namora será objecto de comunicações nesses primeiros dias. O cinema, o teatro e leituras encenadas darão continuidade a esse excelente programa, nos dias 2 de Fevereiro, 2 e 17 de Março, em paralelo uma exposição no Museu do Neo-Realismo é o suporte físico para esta excelente iniciativa que constitui também um Curso de Formação de Professores creditado pelo Conselho Pedagógico-Científico da Formação Contínua de Professores/ Curso livre creditado em ECTS pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A criança, as crianças estão também no centro da peça de teatro 150 Milhões de Escravos com montagem e encenação de Maria João Luís. O número é o do total das crianças escravas em todo o mundo no recenseamento da Amnistia Internacional. O texto foi construído com base nos neo-realistas portugueses Romeu Correia, Carlos Oliveira e Soeiro Pereira Gomes e de Em Homenagem aos Nossos Empregados, de Mickael de Oliveira, A Gaivota, de Anton Tchekov, fragmentos de Arthur Rimbaud. Uma peça de teatro dura, violenta sobre uma realidade que vem dos princípios da história, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, uma história violentíssima da humanidade que persiste nos nossos dias, em que os pobres são cada vez e estão mais pobres em relação aos ricos que são cada vez menos e concentram cada vez mais riqueza nas suas mãos. 150 Milhões de Escravos

é uma peça que nos confronta com as cumplicidades, directas de quem pactua com este estado do mundo e indirectas de quem, até por omissão, se alheia da brutalidade da exploração capitalista que, para se perpetuar, usa todas as formas das mais aparentemente democráticas às mais brutais ditaduras, das liberdades burguesas mais amplas aos territórios concentracionários do nazismo-fascista. A artista e encenadora Maria João Luís interroga: Quem são hoje os filhos dos homens que nunca foram meninos? E interroga com aspereza para nos sobressaltar a consciência de todos que de uma forma ou de outra pactuamos com esta situação. A interpretação está a cargo de Beatriz Godinho, Catarina Rôlo Salgueiro, Emanuel Arada, Ivo Alexandre, João Saboga, José Leite, Hélder Agapito, Lígia Soares e Teresa Sobral.

A cenografia é de Ângela Rocha, o vídeo de Inês Oliveira, o movimento de Paula Careto e o desenho de som e de luz de José Peixoto e Pedro Domingos.

É uma co-produção do Teatro da Trindade INATEL e pelo Teatro da Terra, em parceria com a Câmara Municipal de Ponte de Sor e o Museu do Neo-realismo, a peça vai estar em cena a partir de quinta-feira, dia 11 de Janeiro, e prolonga-se até 28 de janeiro, com espectáculos de quarta-feira a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 16h30.

Espera-se, deseja-se que 150 Milhões de Escravos, encontre outros palcos no país.

A finalizar referir registos discográficos que são um bálsamo para preencher dias e noites chuvosas. Dois de música sinfónica, o Requiem de Mozart que depois de inúmeras e excelentes interpretações ainda consegue surpreender agora com a direcção de René Jacobs com a Freiburger Barockorchester, o RIAS Kammerchor e as vozes solistas de Sophie Karthauser, Marle-Claude Chappuls, Maximilian Schmidt e Joahannes Welsser; e Crazy Girl Crazy de Barbara Hannigan, maestrina e cantora da Ludwig Orchestra que interpretam a suite de Gershwin, arranjo de Billy Elliot, que dá o título ao disco, a suite Lulu de Alan Berg e uma portentosa interpretação da Sequenza III de Luciano Berio. No jazz um excelente João Paulo Esteves da Silva, piano, acompanhado por Mário Franco, contrabaixo e Samuel Rorher, bateria em luminosas improvisações em Brightbird e um magnifico Vijay Iyer, demonstrando a sua enorme versatibilidade como instrumentista e arranjador a tocar em sexteto em Far From Over.

No fado os grandes destaques vão para Aldina Duarte, Quando se Ama Loucamente, que se aventura nos textos de Maria Gabriela LLansol para abrir caminho pelas paixões que abruptamente irrompem e morrem. Ainda no fado mas a traçar uma trajectória das raízes aos nossos dias, From Baroque to Fado de Os Músicos do Tejo, com as vozes de Ana Quintans e Ricardo Ribeiro, Miguel Amaral, viola, Marco Oliveira guitarra portuguesa, Jarrod Cagain, percussão. Um disco gravado em directo, um esplêndido trabalho de produção e edição de Pierre Lavoix, do concerto efectuado na Fundação Gulbenkian que teve um grande êxito que agora se tem repercutido nacional e internacionalmente por via do registo discográfico .

( publicado em AbrilAbril 12 de janeiro)

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1% pra a Cultura, Cultura, Geral

Cultura e Alienação

1% Cultura

Nas últimas décadas, o desinvestimento na cultura enquanto serviço público atira-a para a fogueira unidimensional do mercado. A cultura, que deveria assegurar o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural e ser elemento central na formação da consciência da soberania e da identidade nacional, dialogando, de igual para igual, com a cultura de todos os povos do mundo, tornou-se numa vulgar mercadoria. Dentro da lógica mercantilista que o capitalismo neoliberal procura impor a todas as esferas da actividade social e humana, procura-se subordinar as políticas culturais do Estado às normas do mercado que não conhece outra lógica que não seja a do que é vendável, o seu único critério de excelência que reduz o juízo crítico a uma espécie de crónica de promoção publicitária das artes e dos artistas sem colocar questões de ordem estética, poética ou até relacionadas com as histórias de arte.

Procura-se legitimar essa situação com a apresentação estatística do crescimento do sector económico das chamadas indústrias culturais e criativas que teriam impacto cada vez maior no contexto das actividades económicas. Para alcançar esses resultados vale (quase) tudo. Na Europa, depois de falhada a tentativa de tentar subordinar as actividades artísticas e culturais aos critérios e ditames da Organização Mundial do Comércio, começou-se a medir a importância da dimensão económica do sector cultural com as Contas Satélite da Cultura, uma prática em uso, com pequenas diferenciações metodológicas, em países como Espanha, Finlândia, Polónia, República Checa ou Portugal.

A questão central é o que se considera passível de integrar com o rótulo de actividade cultural. Na Conta Satélite da Cultura em Portugal, como nos outros países, o sector com maior impacto é o dos Livros e Publicações, não só pela dimensão como pelo número de empregos que gera. O que os números grossos ocultam é que a produção de livros é bem menor que a das publicações e que nas publicações, em Portugal as duas de carácter cultural, o semanário JL e a revista Ler, além de serem uma quase excrescência no conjunto das publicações, têm tiragens desprezíveis, 10 000 e 7 000 respectivamente, se comparadas com A Maria, 167 000, ou os três jornais diários desportivos, A Bola, 120 000, Record 70 000, O Jogo, 30 000. Por essa amostra se vê a grande mistificação que são as Contas Satélites da Cultura, num país em que é bem conhecida a iliteracia e o sector editorial e livreiro se debate com gravíssimos problemas de sobrevivência. Os outros sectores de actividade seguem o mesmo caminho e critérios. No Audiovisual e Multimédia equivalem-se os videojogos e os filmes publicitários aos filmes documentais e de ficção. Sintomaticamente as áreas de actividade com menor expressão são o Património, as Bibliotecas, Arquivos e Artes de Espectáculo, mesmo que nas Artes de Espectáculo coexistam Gil Vicente e Tony Carreira. Não pode causar algum espanto que a Publicidade apareça como uma actividade cultural nesse saco onde os valores imateriais da cultura, a sua capacidade de inovação e criação, de transmissão, difusão e debate de ideias, o seu peso simbólico e estruturante na memória colectiva de um povo são sacrificados nos altares da mercantilização para triunfo do mercador do arroz de Brecht que não sabe o que é o arroz, nunca viu o arroz, do arroz só conhece o preço.

Servem essas pantominas para justificar o desinvestimento público na Cultura por se argumentar que, entregue a si próprio e com esses malabarismos, o seu peso económico esteja em crescimento na lógica de impactos máximos a qualquer preço e sem qualquer critério, com obsolescências imediatas ditadas pelas exigências da moda e do jogo do mercado. É assim a Cultura arrastada nesse sorvedouro em que a fruição cultural é alienada e alienante, reduzindo os padrões de exigência, tanto de produtores como de consumidores, corroídos pelos efeitos nefastos de uma generalizada oferta de entretenimento de produtos mercantis que não exigem reflexão nem sintonizam sentimentos e se afundam num perverso gosto homogeneizado e acéfalo que atira para a fornalha da iliteracia global um grupo crescente de pessoas que, por via da exclusão cultural, ficam cada vez mais afastadas da possibilidade de possuírem ferramentas para exercer os seus direitos de cidadania.

É uma lógica que esquece que a Cultura não é um empilhamento cego de conhecimentos, nem um exercício elitista de distinções, nem a lapidação de um suposto gosto. Que a Cultura é um exercício de criação, de liberdade, de resistência, de transformação da vida preservando memórias passadas e construindo memórias futuras. Que a Cultura tem um papel central a desempenhar na sociedade, assegurando o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural pelo que não pode ser abandonada à bitola dos mercados nem viver das sobras, dos restos dos Orçamentos do Estado. A reinvindicação de 1% para a Cultura é uma exigência para a sua afirmação e autonomia, contra a alienação da Cultura.

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Ana Teresa Pereira, Cultura, Geral, Literatura, Livros

Um Livro de Vez em Quando

                                    

 

 

Karen

 

TERRAS INCÓGNITAS

 

Nos livros de Ana Teresa Pereira há uma geografia humana e física que tem uma cartografia que vai mudando de lugar e de personagens que, sem se repetirem, são reconhecíveis em todos os seus romances. Desde o primeiro Matar a Imagem, em 1989, Prémio Caminho Policial até ao último Karen, Prémio Oceanos Literatura 2017, são mais de vinte em que a autora, viajando entre o policial e o fantástico, coloca os personagens em ambientes fechados onde vivem iluminados por uma luz exterior e interior que dá origem a atmosferas claustrofóbicas sempre à beira de um abismo, em que o leitor é convocado a participar, porque são obras abertas “como se o leitor tivesse comprado o livro num mercado de rua, sem reparar que faltavam as últimas páginas” diz a autora.

Em Karen essas características são mais presentes. O livro começa descrevendo a cena do encontro final do filme Noites Brancas de Visconti, com base no único romance romântico de Dostoiévski, em que todas as decisões e indecisões do virtual triângulo amoroso se confrontam, antecipando e introduzindo as de uma jovem que acorda num quarto estranho, com fragmentos familiares que a orientam num labirinto de pedaços de memórias que a fazem reconhecer os que a rodeiam e a tratam como alguém que conhecem. São memórias de pequenas coisas que fazem Karen, nome pelo qual a chamam mas nunca se saberá se é o verdadeiro nome, fazer parte desse universo mesmo que não reconheça de todo as pessoas com quem partilha esse quotidiano ou se lembre do que é a sua vida.

Não se saberá qual a sua verdadeira identidade: “ eu sabia isso a seu respeito. Sabia muitas coisas a seu respeito de que ninguém me tinha falado. Não  era possível ter o mesmo rosto e o mesmo corpo e não partilhar um pouco a alma”. Ana Teresa Pereira  em Karen, mais que nos seus anteriores romances, desvela factos para camuflar outros, promove reencontros que se resolvem em encontros e desencontros. É como visitar uma casa de família que se julga conhecer desde sempre, onde se vai repetidamente, mas não tem realidade física porque se constrói num vai e vem de memórias fragmentadas que se apagam e acendem. pelo que nunca igual nem  monótona. Fá-lo com um estilo incontornável que tornam a sua obra uma das mais sólidas e coerentes na literatura portuguesa.

                                            (publicado no Guia de Eventos Setúbal Janeiro/fevereiro 2018)

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Artes, Cultura, Geral, museus, Panteão, Património Monumental, Web Summitt

A Degustação das Artes e da Cultura

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade.

Selfie de freiras

 

O jantar dos Founders Summit, os principais fundadores de empresas que estiveram na Web Summit e outros seus convidados de topo, no Panteão Nacional levantou um vendaval de indignações que tem muito que se lhe diga. Ao ler as listagens das dez melhores ideias, as 67 frases mais marcantes e o mais que se plantou na embasbacada comunicação social atropelada por tanta tecnologia, mais as ilustrativas entrevistas aos empreendedores triunfantes, as premonições 360 de gente como Al Gore, Margrathe Vestager, Bruno de Carvalho ou François Hollande, o que mais espanta é, naquela feira de app’s tão imaginativas, não aparecer uma startup a apresentar uma app para facilitar a interacção entre equipamentos culturais  o mundo empresarial que se lustra com eventos em ambientes históricos e  os famosos ávidos por ascenderem aos patamares da cultura  a que seriam elevados por uma rave na Torre de Belém decorada pela Joana Vasconcelos. Uma app que facilitasse e desse dimensão internacional a jantares e festas no Panteão, nos Jerónimos, no Convento de Cristo, etc., transportados pelos carros voadores da Uber. A starup estava condenada ao sucesso, acabavam-se as discussões. A ementa Barreto Xavier para uso do património cultural valorizava-se, os preços de saldo aí inscritos subiriam em flecha dado o aumento da procura. Na tabela de preços incluir-se-ia um anexo com as custas das selfies pessoais e grupais, recortadas em fundos monumentais. Paddy Grosgave snifaria a variante digitalizada dessa cocaína cultural, um must que poderia utilizar para valorizar o negócio das praças de jorna da Web Summit.

O falazar que o jantar no Panteão originou tapa a questão central de a cultura ter deixado de ser um bem para se converter num produto, numa mercadoria a que se exige rentabilidade. Progressivamente tem-se desmantelado o modelo de investimento público no património cultural, museus e monumentos. É a disneyficação da cultura que segue as estratégias culturais em prática nos EUA em que a cultura foi e é desde sempre um meio usado para lavar atentados ambientais, crimes fiscais, especulações financeiras, fugas para offshores, duplicidades éticas e, claro, a exploração do trabalho com o adicional de se obterem chorudos benefícios fiscais,

Os exemplos na Europa multiplicam-se apesar e mesmo quando há umas décadas se conseguiu contrariar a intenção de alguns países da CEE de quererem submeter as actividades culturais e artísticas aos ditames da Organização Mundial do Comércio fazendo equivaler livros, concertos ou esculturas a batatas, tupperwares, atacadores para sapatos com todas as consequências a montante e a jusante. Em síntese, queriam atirar  a cultura e a criação cultural para a fogueira unidimensional do mercado. O que não entrou pela porta principal entra pela janela. Não há almoços grátis, como propugnou e popularizou o expoente do neoliberalismo Milton Friedman. Com o desinvestimento público na cultura e no património cultural as estratégias de sobrevivência multiplicaram-se e as questões éticas colocadas pela progressiva influência dos patrocinadores nas decisões das direcções dos museus e monumentos são uma realidade que têm sido objecto de acesas discussões.

Hoje vulgarizaram-se as lojas e restaurantes dos museus onde há uma oferta gastronómica variada, a venda de objectos mais ou menos chiques, é preciso alcançar todas as bolsas, adquirir os catálogos dos seus conteúdos sendo-se poupado à chatice de o visitar ou sequer saber o que por lá é exibido. Paralelamente promovem-se visitas desenfreadas em que é permitido às hordas de transeuntes tirarem fotografias colocando em perigo objectos expostos, os casos de danos graves sucedem-se em todo o mundo. Quase se incentiva a praga da selfies em que se abraçam estátuas milenárias, se ocultam pinturas colocando-as em risco. Deixaram de ser objectos de contemplação e usufruto cultural para se equivalerem a manequins numa montra.

Os führers da moda, da fashion life tomam de assalto o património cultural associando-os às suas marcas. Um exemplo paradigmático é Itália, com um legado de grande dimensão em risco a exigir intervenções urgentes e os governos, o de Berlusconi na linha da frente, a cortarem drasticamente os orçamentos da cultura. Solução? Vendem-se direitos de patrocínio na restauração de monumentos como a Fonte Trevi à Fendi, o Coliseu de Roma à Tod’s, Pompeia à Prada, a Torre de Pisa à Gucci, associando os logotipos das marcas aos monumentos que apadrinham. Em França também está em curso, desde 1984, um vasto programa de privatização de património edificado, iniciado por Jack Lang esse feérico ministro da cultura que proclamava “ser necessária imaginação para os reinventar”. Na Europa esses processos cavalgam o tempo. Por cá, mais modestamente, o programa Revive recorre ao empreendedorismo turístico com promessas de restaurar o património edificado e lhe dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares, Vamos ver como correrá essa coexistência.

O grande problema da imaginação para reinventar os monumentos é se as operações imobiliárias, que necessariamente lhes estão associadas, garantem e como garantem as suas memórias originais, ou se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Nos processos em curso por essa Europa fora, nada está garantido e muito do que já foi feito só provoca as máximas apreensões.

Tudo isto se enquadra no estado actual da cultura e das artes.  Está em linha com as exibições de arte contemporânea em que as marcas de artigos da moda e luxo se associam às vernissages sublinhado o seu carácter mundano com desfiles de moda ou assinalando-as como fez a Hermès na inauguração de Buren em Paris com lenços de seda desenhados pelo artista, a Louis Vuitton com sacos monografados de Murakami na abertura de uma sua exposição em Los Angeles. Exemplos não faltam nessa lógica ostentatória em que se associa a moda à arte contemporânea, em que o mundo dos famosos desfila destilando fragâncias, joias e os últimos modelos de vestuário. São menos as notícias sobre as exposições e os sucessos culturais que as que registam as presenças do star-system, da política aos grandes empresários, das vedetas televisivas às do desporto, do cinema, da música e da arquitectura, dos artistas visuais ao baixo clero da crítica e curadoria que os promove e os chefs que prepararam as degustações daquele evento ou esperam ser convidados para o próximo.

É o estado geral das artes e da cultura contemporâneas em que a dominante é a mercantilização todo o terreno vendida em embrulhos espectaculares e sensacionalistas. No horizonte já nem sequer se vislumbra alguma Margarida à beira desta estrada que Fausto corre em maratona destravada, vendida a alma ao Diabo para ter visibilidade e arrebanhar mais-valias.

(publicado em https://www.abrilabril.pt )

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Artes, Cultura, Fernanda Botelho, Geral, Guia Eventos Setúbal, Literatura, Livros

O Esplendor da Escrita

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Fernanda Botelho, uma das escritoras mais originais da língua portuguesa, tem vivido no limbo em que navegam muitos outros vitimados por políticas editoriais não alheias a uma crise universal, não só económica mas também de ideias, mais agravada num país periférico como o nosso com frágil rede de leitura e parco consumo do livro. Causa alguma estranheza a quantidade de títulos que se publicam, com tiragens reduzidas se comparadas com algumas décadas anteriores, bem como a anorexia de muita dessa livralhada que enche as prateleiras das livrarias. Há sempre surpresas, excelentes surpresas, tanto de novos autores como de recuperação de outros que andavam esquecidos. É o caso de Esta Noite Sonhei com Brueghel.

Um romance em que a protagonista, Luiza recorre à autobiografia da autora para fazer o seu retrato pessoal inscrevendo-o numa fotografia que é o do país nesse tempo. Um labirinto angustiante, à beira de um abismo desesperado em que os quadros de Brueghel, com que Luiza sonhou uma noite, funcionam enquanto fios condutores.

“Comecei-o há doze anos em Bruxelas”, diz ao amante antes de ele a deixar em casa, numa rua de Lisboa, anunciando-lhe que talvez mostre ao marido esse manuscrito onde todas as personagens dessa vida que é a dela têm o nome real. “Não são personagens, conheço-as. Mas são personagens, sim senhor! São e não são. Mas, no manuscrito, parecem personagens. Percebes?”

Esta Noite Sonhei com Brueguel é uma fascinante teia de escrita, de escrita sobre a escrita, em que Luiza/Fernanda se procura a si-própria com a ferocidade de um prazer salutarmente irónico que dispara sem contemplações sobre si, sobre os parceiros de viagem que se encontram e desencontram nos universos que percorrem e sobre nós, os seus leitores. Uma sofisticada e complexa rede  num exercício de autocrítica quase despojado de emoções.

Um romance fascinante em que o evidente prazer da escrita se transmite sem fissuras para o prazer da leitura.  Esta Noite Sonhei com Brueghel, o sétimo romance de Fernanda Botelho, é o primeiro da anunciada reedição da sua obra completa, resgatando-a a imperdoável esquecimento e ao desconhecimento dos novos leitores para quem será uma luminosa revelação. Para todos, uma leitura sem desbaratos.

 

Esta Noite Sonhei com Brueghel

Fernanda Botelho

Abysmo

Prefácio Paula Mourão

Design e Logotipo convidado Maria João Carvalho

Revisão Maria José Sousa

Edição Julho 2017

268 páginas

(publicado no Guia Eventos Setúbal;Novembro/Dezembro 2017)

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Artes, Cultura, Geral, Revolução de outubro

As Artes e a Revolução de Outubro

TRIBUNA LENINE Ilia Chastnik e El Lissitsky

TRIBUNA PARA LENINE, El Lissitzky e Ilia Dhashnik 

 

 

A Revolução de Outubro influencia decisivamente as artes. É um material vivo impregnado de espírito social inovador, um vendaval de esperança para todos os que durante séculos foram oprimidos e explorados. Nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta pela guerra e por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, o poder soviético constrói um regime que transforma radicalmente as relações de produção e de propriedade de que resultará um vigoroso desenvolvimento das forças produtivas. Outros dos gravíssimos problemas que a Revolução de Outubro enfrenta é de uma população esmagadoramente analfabeta, um combate que ocupou a primeira linha da frente cultural do jovem poder soviético que, num curto prazo histórico, o resolve fazendo aceder à educação milhões de pessoas.

A arte, as artes responderam aos novos tempos históricos com um dinamismo sem precedentes dando uma contribuição decisiva para o poderoso revolucionamento cultural que a Revolução também foi.

As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboraram e coincidiram com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política, mas fazendo dela parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas, os mesmos artistas trabalham em várias áreas e em várias frentes. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida, para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. Aqueles anos de Revolução são o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária, por opção e decisão dos artistas, invade e transforma criativamente as propostas estéticas. Só assim se compreende como os debates, por vezes ferozes, entre as diversas vanguardas não impedem que continuem empenhadamente a colocar a sua criatividade ao serviço da Revolução, a terem um contacto efectivo às massas populares.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, é o combustível que faz mover todas artes. É o principal traço que atravessa toda a arte soviética nesses tempos no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura. Em que a cultura era uma presença viva, inconformada, sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas pelas culturas ocidentais que desaguam numa esterilidade inquietante claramente sintetizada por Blanchot:«secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

Hoje temos distância histórica para melhor estudar e analisar esse processo de politização das artes que está na raiz de um debate actual do pensamento estético e das práticas e sistemas artísticos que está longe de se ter esgotado, como não se esgotou a urgência de compreender e avaliar o carácter profundamente novo da primeira tentativa histórica de construir uma sociedade que tem por horizonte o socialismo e o comunismo.

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Associação Colecção Berardo, Berardo, Centro Cultural de Belém, Colecção de Arte Contemorânea, Cultura, Fundação de Arte Contemporânea Colecção Berardo, Geral, Luís Castro Mendes, Mercado da Arte, Ministério da Cultura, Protocolos Estado Berardo

Berardo – As Tranquibérnias do Amor à Arte – 3

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O amor à arte em vários andamentos facetos e grossos sofismas

Capelo sabe-o muitíssimo bem e quando afirma “odeio as relações de dinheiro com a arte (…) A passagem do mundo do dinheiro para o mundo do prazer estético para mim não funciona” está a ter uma tirada digna dos Gatos Fedorentos mais ainda quando mistura alhos com bugalhos “tenho tanto prazer a ver um Pollock, um «dripping» que pode custar cinco a dez milhões de dólares, como a ver um Michaux ou um Mark Tobey que custam umas dezenas de milhares de dólares — isso não tem nada a ver com dinheiro”. Um sofisma que faria Protágoras corar de inveja. Quem está a ter prazer estético ao ver uma paisagem do Hogan não está a pensar no seu valor de mercado. Se a compra, esse prazer estético começa a ter um valor de mercado que não corrói o prazer estético, mas altera-o. Ninguém vai a um museu ver obras pelo seu valor de mercado, nem o valor de mercado está inscrito nos catálogos. Mas todas as obras têm valor de mercado. Capelo podia-se poupar a alinhar mistificações para as compras que fazia para Berardo, já era suficiente metê-las no cartucho do putativo amor à arte do comendador. Fazia as compras colocando nos pratos da balança o valor estético e o valor de mercado antes de decidir se efectuava ou não a sua aquisição. Podia-se poupar e poupar-nos a essa exibição de hipocrisia, bastava lembrar-se de Warhol, esse malabarista mestre do cinismo artístico, “a melhor arte é um bom negócio” e de como o mercado das artes canibaliza o prazer estético.

A colecção cresceu centrada, pelas razões referidas, na arte pop e minimalista. Foi publicamente exposta pela primeira vez em Sintra, em 1997. Para lá das críticas, das dúvidas que poderia suscitar era um vasto e coerente conjunto de obras de arte moderna internacional, coisa que não existia em Portugal. O espaço era escasso para a dimensão que a colecção já nessa altura tinha. As loas à volta de Berardo-coleccionador de arte que é o mesmo Berardo-especulador faziam soar os trompetes dos famosos nos mais variados tons e sons. O interesse do comendador Berardo pela arte foi narrado das mais diversas maneiras, algumas bastante extravagantes. Uma das mais curiosas talvez seja a relatada por Maria João Seixas num programa da Antena 2, em que fazia a defesa da necessidade da colecção Berardo ficar sediada em território nacional. Contou a jornalista cultural e amante cinematográfica que, num jantar em que participou com o comendador na continuidade de uma inauguração de uma exposição temática da colecção, Berardo explicara que tendo decidido preencher uns vazios das paredes lá de casa, incumbiu a mulher de o fazer, o que ela fez recorrendo a reproduções, o que muito o indignou. Não querem lá ver, então um homem de tantos cabedais ia ter nas paredes reproduções? Não senhor, venham de lá os originais. E assim começou a colecção, historieta que muito enlevou os prendados presentes e João Seixas, transportada no delírio cinematográfico de se sentir intérprete de uma cena portuguesa a replicar em versão nefelibata O Gosto dos Outros, alumbrada com a simplicidade e as ingenuidades do comendador, rapidamente corrigidas com o contributo de muito bons, na sua opinião, conselheiros. Berardo, com esse novo baralho entre mãos, batia as cartas com estridor. O rasca Berardo tinha subido os degraus dos altares da arte contemporânea em que os mais mediáticos protagonistas tanto se veneram como surdamente se pontapeiam. Começou a desfilar em vários palcos debitando sentenças farroupilhas, vestido com o smoking de benemérito das artes alugado num adelo da roda da moda.

A colecção continuava a crescer, até que em outubro de 1999, Francisco Capelo abandona a colecção e o comendador avisando o mundo em alta grita que a colecção poderia “vir a ser alvo de eventual dispersão e destruição” porque Berardo tinha a “lógica perversa de sempre mais dinheiro” blalala faz barrela pública onde desfaz todo o seu argumentário anterior. Uma chuva que molha, mas não trespassa a nova plumagem de Berardo que não precisa de vir à janela para os joãos ratões lhe entrarem porta dentro oferecendo-se para substituírem Capelo e o orientarem nos labirintos dos terreiros onde se mercadejam obras de arte. Ele aí vai, ora com uns ora com outros, não perdendo tempo a destratar na praça pública Capelo, “ele que me pague o que deve”, que com tanto carinho lhe tinha maquilhado a imagem de padrinho das artes. O polimento não tinha sido suficiente para afagar a casca grossa do comendador como mais tarde e sempre se verá. Mas tinha sido o suficiente e necessário para Berardo em 2003 ocupar o 56º lugar e em 2007 o 75º lugar entre os mais poderosos das artes na lista que a ArtNews publica regularmente. Nada como ter dinheiro fresco, venha lá de onde vier, e ir às compras, para se ser poderoso e influente no mundo das artes.  Neste estado da arte os critérios económicos, coteje-se com atenção os últimos dez anos dessa variante forbes da ArtNews, dominam os estéticos, mesmo o das  falácias de Danto e de uma crítica de arte que é certeiramente radiografada Mário Perniola  em A Arte e a sua Sombra  “no mundo da crítica da arte jovem está difundida a opinião de que a arte de hoje pode prescindir da teoria: o papel do crítico de arte deveria limitar-se a uma espécie de crónica e de promoção publicitária dos artistas que lhe agradam, sem nunca intervir em questões, já não digo estéticas, mas poéticas ou até relacionadas com a história da arte”. Não é um exclusivo das artes visuais expande-se pelo estado geral da cultura que já nos anos 50 inquietava Blanchot: “secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o”. Desde esses anos tudo se tem agravado e muito, cite-se novamente Perniola, “a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado”. É uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque tudo é meramente casual onde, dirá Kundera,” tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

 

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