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Wagner, Luz e Sombras

Uma ópera de Wagner foi utilizada num discurso fascista de Ricardo Alvim, secretário especial da Cultura do governo brasileiro. É tempo de se ouvir Wagner, reabilitá-lo de um injusto labéu que ainda hoje se lhe cola.

«O crepúsculo dos deuses» (Götterdämmerung) finaliza o ciclo de quatro obras épicas de Richard Wagner, designado por O anel dos Nibelungos. Na foto, uma encenação contemporânea pelo Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, sob a direcção artística de Valery Georgeev
«O crepúsculo dos deuses» (Götterdämmerung) finaliza o ciclo de quatro obras épicas de Richard Wagner, designado por O anel dos Nibelungos. Na foto, uma encenação contemporânea pelo Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, sob a direcção artística de Valery Georgeev Créditos/ Teatro Mariinsky

Lohengrin, ópera de Wagner, foi utilizada como música de fundo de um discurso de Ricardo Alvim, secretário especial da Cultura do governo brasileiro, transmitido em directo nas redes sociais, em que abundavam as citações de Goebbels. Na sequência, Jair Bolsonaro, que durante a transmissão o elogiou por diversas vezes, acabou por o demitir, no dia seguinte, pela «infelicidade» das suas declarações. É a hipocrisia, o cinismo destes novos fascistas de fascismo sim, mas devagar, lá mais para a frente, enquanto vão colocando pedras nessa estrada.

Ricardo Alvim demonstrou a sua conhecida incultura referindo Lohengrin como a última ópera escrita por Wagner. Foi a terceira, na realidade a sua sexta ópera depois de As FadasAmor Proibido e Rienzi, ainda sem as inovações wagnerianas de Navio Fantasma e Tannhäuser, que viriam a marcar a história da música e que antecederam Lohengrin. Nada que cause espanto. Estava a utilizar Wagner, como os nazis o fizeram com contumácia, para sublinhar o conteúdo nazi-fascista do seu comentário.

Continua a ser vulgar associar Wagner aos nazis pelo anti-semitismo que em várias ocasiões manifestou. Há mesmo quem considere a sua música anti-semita e vá até mais longe, relacionando-o com o Holocausto pelo abuso da sua música pelas elites nazis e o seu uso por alguns dos chefes dos campos de concentração. Curiosamente, a última ópera escrita por Wagner, Parsifal, na sua primeira apresentação em Bayreuth foi dirigida por Hermann Levi, um maestro judeu escolhido por ele. Outro judeu, Jacob Rubinstein, foi o seu principal assistente musical. Muitos outros judeus, escritores e filósofos, conviveram com Wagner e por ele eram admirados. Mais significativo é não haver uma única personagem anti-semita nas óperas de Wagner. Desde sempre é notória a ambivalência do genial compositor alemão com o judaísmo e o semitismo.

Concorrem para a vulgata de a música de Wagner ser anti-semita o Festival de Bayreuth, quando começou a ser dirigido por Winifred, mulher do seu filho Siegfried – que morreu em 1930 – e convicta nazi, amiga pessoal de Hitler, julgada e condenada depois da queda do Reich; e um opúsculo escrito por Wagner, O Judaísmo na Música. Na base desse texto está a sua péssima relação com Meyerbeer, compositor judeu alemão de escola italiana, que alterou mesmo o seu nome, de Jacob Liberman para Giacomo. Meyerbeer era um bem-sucedido compositor mas ainda mais bem-sucedido homem de negócios, dominava completamente a cena artística em Paris. Elogiou Wagner quando este estava em Dresden. Quando Wagner vai para Paris procurando êxito e reconhecimento tudo lhe corre mal, acabando preso por dívidas. A representação de Tannhäuser foi um fracasso fustigado pela crítica o que, pela influência de Meyerbeer no panorama musical francês, Wagner lhe atribuirá e nunca perdoará. Outra razão é defesa da ópera alemã contra a influência da ópera italiana de que Meyerbeer era representante. Nenhum desses factos o desculpa de ter feito, no referido opúsculo, afirmações execráveis e inaceitáveis: «o judeu é por si próprio incapaz de se expressar artisticamente» […] «nem pela aparência, nem pela sua linguagem, e muito menos através de seu repertório musical».

Wagner é uma personalidade complexa, egocêntrica, com uma vida turbulenta pouco abonatória, o que o coloca na imensa galeria de artistas em que as considerações negativas sobre as suas personalidades não devem embaciar a qualidade artística – o que, de modo algum, o exime das justíssimas críticas ao seu anti-semitismo, ressalvando sempre a sua não tradução nos seus relacionamentos pessoais –, sublinhando-se a traço grosso que a sua música é estética e politicamente progressista, onde não há uma única personagem que personifique negativamente os judeus. Alguns críticos e estudiosos, mesmo ressalvando Wagner não ter escrito nenhuma ópera anti-semita, esmiúçam todas as suas óperas para especulativamente forçarem a realidade e descobrirem essa atitude antijudaica, em duas personagens: Mime, de O Anel dos Nibelungos, que subliminarmente teria sinais de estereótipos judeus, manifestamente uma afirmação especulativa com intenções forçadas, e o crítico pernóstico Beckmesser de Os Mestres Cantores de Nuremberg, na ópera um personagem menor e que é um alemão cristão – o que é esquecido por esses críticos. Note-se, duas personagens no meio de dezenas das quatorze óperas que escreveu considerando-se as quatro da tetralogia O Anel dos Nibelungos. O prolixo anti-semitismo dos escritos de Wagner nunca contaminou nem as suas relações pessoais nem a sua música.

É singular que muito se fale do anti-semitismo de Wagner e pouco se refira a sua actividade revolucionária ao lado de Bakunine, que lhe valeu fugas e deportações. Tal como pouco se investiga a influência por ele recebida do pensamento filosófico, político e estético de Rousseau, em particular dos seus Écrits sur la Musique1, que Mário Vieira de Carvalho refere no seu excelente ensaio «O rasto de Rousseau na teoria e dramaturgia wagneriana»2.

A sua obra magna, O Anel dos Nibelungos, é um drama que condensa a história da sociedade desde o aparecimento da propriedade privada. Wotan impõe o poder, garantindo-o numa só pessoa, simbolicamente representado pela sua lança. Quando Siegfried a quebra está a quebrar esse contracto social. Siegfried é, de certo modo, o bom selvagem de Rousseau, aplaudido por Bakunine como herói proletário.

Bernard Shaw escreve uma excelente análise do Anel dos Nibelungos3 para tornar a tetralogia acessível e compreensível a todos. Lê o Anel como uma alegoria marxista assimilando os nibelungos ao proletariado, Alberich aos capitalistas, os gigantes ao campesinato, os deuses à aristocracia, Siegfried ao homem novo que vai destruir o sistema capitalista. A destruição da Walhala é o colapso do capitalismo em resultado das suas contradições.

Em Israel, onde o racismo contra os palestinianos4 é um facto agora inscrito na sua Constituição, a música de Wagner está proibida, embora se possam adquirir registos discográficos. Em 2001 Daniel Barenböim, maestro e pianista argentino que tem a cidadania israelita, fundador com Edward W. Said da West-Eastern Divan Orchestra, uma orquestra de jovens músicos árabes e judeus, desafiou essa proibição incluindo o prelúdio de Tristão e Isolda no programa. A contestação começou imediatamente na sala, a que se seguiram críticas, insultos, ameaças, boicotes, o vulgar numa sociedade totalitária.

Estão publicadas em livro5 as conversas de Barenböim com Edward W. Said sobre as artes e a sua relação com a sociedade, onde o músico tem uma lúcida leitura de Wagner, explicando os motivos que o levaram a incluí-lo no programa do concerto. “A realidade é que Wagner era um anti-semita execrável. Mas os nazistas usaram e abusaram das ideias e dos pensamentos de Wagner como ele nunca poderia ter imaginado (…) o anti-semitismo não foi inventado por Hitler e não foi inventado por Wagner. Existia por gerações e gerações, séculos antes. A diferença do nazismo foi a de ter posto em prática um plano sistemático de extermínio dos judeus. Não aceito que Wagner seja responsável por isso. Também é preciso dizer que nas óperas de Wagner não há um só personagem judeu, não há um só comentário anti-semita (…) é preciso separar o anti-semitismo de Wagner do uso que os nazis fizeram dele”.

É tempo de se ouvir Wagner, reabilitá-lo de um injusto labéu que ainda hoje se lhe cola e o faz ser proibido pelo regime sionista, o que não deixa de ser irónico e cínico sabendo como os sionistas trocavam galhardetes com os nazis6, chegando mesmo a com eles negociarem na altura em que os judeus eram deportados e exterminados nos campos de concentração.

  • 1.Écrits sur la musique, Jean-Jacques Rousseau, Stock Musique (1979).
  • 2.Razão e Sentimento na Comunicação Musical, Mário Vieira de Carvalho, Relógio D’Água (1999).
  • 3.The Perfect Wagnerite: a Commentary on the Ring of Nibelung, Bernard Shaw, Wildsidepress (1898; 2003). Há uma edição disponível online no portal marxists.org.
  • 4.Os Palestinianos, os Novos Judeus, Helena Salem, Livros Horizonte (1978).
  • 5.Parallels and Paradoxes, Explorations in Music and Society, Edward W. Said/Daniel Barenböim, Bloomsbury Publishing (2004)
  • 6.Em 1933, a Federação Sionista da Alemanha (ZVfD, de Zionistische Vereinigung für Deutschland) enviou uma declaração ao Congresso do Partido Nacional-Socialista, realizado em Nuremberga, entre 30 de Agosto e 3 de Setembro de 1933, em que afirmava que «um renascimento da vida nacional como o que está a acontecer na vida alemã […] deve também acontecer na nação judaica. A base de um novo Estado Nazi deve também ocorrer na formação de um Estado Nacional Judaico. Com os princípios de um novo Estado Nazi fundado no princípio da raça, devemos enquadrar a nossa comunidade com natureza similar para que se possa estruturar e desenvolver uma Pátria Judaica». A pátria judaica era Israel, com fronteiras redescobertas na leitura do Génesis. Os nazis retribuíram os elogios. Reinhardt Heydrich, chefe dos Serviços de Segurança das SS, proclamou: «Devemos dividir os judeus em duas categorias: os sionistas e os partidários da assimilação. Os sionistas defendem uma concepção de estado rigorosamente racial, mediante a emigração para a Palestina, prontos para construir o seu próprio Estado […]. Os nossos melhores votos e a nossa melhor boa vontade oficial para que o consigam». Poucos dias antes do congresso nazi, a 25 de Agosto de 1933, fora assinado entre a ZvfD e o governo nazi o «Acordo de transferência» ou «Acordo de Haavara» (da palavra hebraica com o mesmo significado). Previa a emigração de cerca de 60 mil judeus para a Palestina, entre 1933 e 1939, a fim de aí possibilitar o estabelecimento de um estado judaico. Ver entrada «Haavara Agreement», Wikipedia.

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

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"Star-System", Artes, Artes Perféricas, Artes performativas, Avelina Lésper, Capitalismo Neoliberal, Crítica de Arte, Cultura, Cultura Mediática, Curadores, Dadaísmo, Estética, Geral, Gestão Cultural, Ideologia de Direita, Kitsch, Marcel Duchamp, Mercado da Arte, Pós-Modernismo, Performance, Política Cultural, Wahrol

As Bananas e as suas cascas

Instalação «Comediante», de Maurizio Castellan, na exposição de arte contemporânea Art Basel, em Miami Beach, EUA, 5-8 de Dezembro de 2019. Antes de a banana colada à parede ter sido comida numa «performance artística» por David Datuna já tinha sido vendida a um coleccionador francês por 120 mil dólares.Créditos/ Lesalonbeige

Um artista, Maurizio Castellan, cola numa parede uma banana com fita adesiva prateada, em três versões, duas provas de artista e uma final, depois de um ano a “trabalhar nessa ideia”. Um trabalho muitíssimo árduo como se presume, em que acabou por escolher três bananas entre as centenas que andam pelos mercados. Aos compradores, entre eles um museu, a “ obra” foi vendida por 120 mil dólares. O curador da galeria explica que é necessário ir substituindo a banana todas as semanas, “como uma flor”.

A “obra” ganhou visibilidade com uma imagem que corre mundo sem assombrar ninguém nesta sociedade entediada com o seu próprio tédio que, quanto muito, a olha com um sorriso amarelento. Um performer completou o quadro comendo a banana explicando que “comeu a obra e o seu conceito” (…) não sou uma pessoa normal sou um artista, um performer, não estou comendo uma banana, estou comendo arte”. Tamanha empáfia é típica dessa gente que, por todo o mundo, plantam tretas que se espalham cancerosamente procurando ser levados a sério no que, diga-se pelo estado de inacção desta sociedade oca, conseguem algum êxito ou, pelo menos, não ser contestados por maiores dislates que digam. É ler as bulas que acompanham esses eventos ditos artísticos para se sair derrotado pela cerrada obscuridade de uma amálgama de conceitos superlativamente adjectivados, tão mais sofisticadamente inteligentes quanto mais mediocremente indigentes são as obras, qualquer que seja o género em que se inscrevem.

Anda o mundo, todo o mundo infestado de performer’s, que fazem parte do grande circo da estupidez sustentado pelo baixo clero destes tempos pós-modernos — curadores, comissários, produtores, gestores culturais, especialistas, muitos deles doutorados nessas malas-artes — que, com estas ou outras bananas, fazem parte da epifania colectiva destes tempos de danação em que quase deixa de haver lugar para a criação artística excepto a não ser como forma de ganhar dinheiro, um caminho que Warhol, sem ironias nem sentimentalismos, percorreu com inquietante êxito.

Aliás, foi Warhol quem começou por consagrar a banana na capa de um disco dos Velvet Underground, a que se seguiu a casca de banana no chão de Jeanne Silverthorne (EUA – 2007)

e o furgão com uma tonelada de bananas de Paul Nazareth (Art Basel-2011)

nstalação «Mercado de Bananas/Mercado de Arte», de Paulo Nazareth, na secção «Posições da Arte», destinada a artistas emergentes, na feira Art Basel, em Miami Beach, EUA, em 2011. Feria de Arte Basel, Miami 2011 Paulo Nazareth es un artista que estuvo presente en la feria de arte de Basel en el año 2011, dentro de la seccion “Art Positions” destinada a galerias y artistas emergentes, y donde Paulo presento la obra “Banana Market/Art Market (mercado de bananas/mercado de arte) consistente en una vieja furgoneta Volkswagen llena de bananas. 

A metafísica das bananas inscreve-se no estado de sítio em que o que sobrou para as artes, para todas as disciplinas artísticas nestes tempos pós-modernos, foi regressar ao dadaísmo, não como protesto desesperado contra um mundo insuportável, sem dignidade e sem dignidade para oferecer mas para uso publicitário, porque o destino histórico dos formalismos termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma. É a porta grande por onde entra o conceptualismo, moda corrente porque é fácil, porque até pessoas sem conhecimentos o conseguem fazer, em que a única exigência é ter ideias a que não se exige sequer que sejam boas ou brilhantes, que desaguam na grande falsidade das artes performativas, a face mais evidente da grande fraude em que mergulhou a arte contemporânea. Existem, como é de regra, excepções que cumprem o desígnio expresso por Burckhardt “talvez hoje existam grandes homens para coisas que não existem”.(1) Homens que provam a sua genialidade em obras fragmentadas, de afirmação individual o que também é uma contradição central no quadro social globalizado, desperdiçando muito do seu talento numa arte comercial que lhes é imposta e, reconheça-se, a que dificilmente se poderiam subtrair.

É a multiplicação sem precedentes das artes performativas, sobretudo na música, nas artes visuais mas também na literatura, em que os sujeitos da acção, os artistas performativos exploram a hibridização entre géneros artísticos, abolindo hierarquias entre os materiais e as formas da pintura, escultura, música, teatro, cinema desvalorizadas pelos novos suportes, instalações, happenings, vídeos, concertos performativos, performances, etc., plantando obstinadamente um kitsch impossível de avaliação estética. O que Hermann Broch vitupera sem contemplações “ quem quer que seja que produza kitsch não pode ser avaliado por critérios estéticos, é um depravado do ponto de vista ético”.(2)

Também nos devemos interrogar porque é que esse plâncton de artistas performativos que alimenta essas artes sem arte, não aprende a filmar, a representar, a cantar, a compor, enfim a aprender aquelas coisas básicas que são o mínimo dos mínimos exigível para tão rarefeitas ideias, sem um grão de inovação e descoberta. Tudo requentado e ruminante na esteira de Marcel Duchamp, desossado do seu propósito de destruir a aura da arte, apropriado por um mundo sobrepovoado de artistas que como assinala Avelina Lésper “deixam de ser imprescindíveis porque qualquer obra substitui-se por outra qualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade (…) a carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus”. Luciano Trigo entre muitos outros, foca a mesma questão por outro ângulo: (3) «Por que ninguém fala hoje em Picasso e tanta gente ainda se inspira em Duchamp? A resposta é simples: a arte de Picasso exige talento, técnica, reflexão sobre a vida e a História, enquanto Duchamp, por genial que tenha sido em seu momento, traz uma mensagem muito mais fácil de ser assimilada e copiada: qualquer um pode ser artista.»

A dura realidade é que desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda o estado actual das artes não tem comprometido nem a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana, como Mário Perniola extensamente teorizou no magnifico ensaio A Arte e a sua Sombra.(4) Essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado das artes, actualmente um nicho do mercado de artigos de luxo, e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. O debate estético e cultural está praticamente reduzido a zero, submetido à ditadura dos intermediários culturais, sejam curadores, directores de museus, marchands, programadores, gestores culturais, comissários, críticos de arte, editores, produtores. Aliás, o trânsito entre eles é intenso e não sai dos carris.

Analisar esta situação exclusivamente pelos parâmetros estéticos dá uma ideia deformada do que é e para que servem essas artes vertiginosamente inscritas num bullying cultural que é outra das imagens de marca do nosso tempo. Quando se analisam os mapas de eventos culturais inscritos num espaço territorial, seja um país ou um continente, o que se verifica é que há uma proliferação de bananas coladas nas programações culturais, sejam promovidas por entidades ou instituições públicas ou privadas, alinhadas com a esquerda ou com a direita. O bananal é igualmente assaltado por uns ou por outros numa distribuição equitativa que até poderia provocar estranheza a quem não tiver a consciência clara que as obras de cultura, os produtos culturais não surgem do nada, de uma qualquer inspiração metafísica, não são um absoluto independente da produção e da reprodução social da vida. Há que perceber claramente que as ideias dominantes são as das classes dominantes porque é dominante a sua posição na esfera económica que se apropria dos principais aparelhos e instituições, meios e instrumentos de produção, difusão e recepção culturais, pelo que todas as bananas de todas essas artes são o produto e a imagem, realizados no quadro da autonomia relativa que as artes sempre tiveram, do capitalismo neoliberal da democracia pós-democrática. Uma arte contemporânea em que a forma é substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada em marca garante do valor da mercadoria artística. Uma esquerda sem essa percepção rende-se. Deixa-se corroer pela onda cultural, muitas vezes atemorizada de ficar à margem das modas quando deveria resistir à normalidade da anormalidade dessa cultura inculta, promotora da iliteracia cultural dominante que Byung-Chul Han expõe com brutalidade: ”hoje, a própria a percepção assume a forma de Binge Watching, (assistir a algo compulsivamente, descontroladamente) de visionamento bulímico. Oferecem-se continuamente aos consumidores o que se adapta por completo ao seu gosto— quer dizer, do que eles gostam. São alimentados de consumo como gado com qualquer coisa que acaba sempre por se tornar qualquer coisa. O Binge Watching pode ser entendido como o modo actual de percepção generalizado “(5).

Há que perceber claramente que para essa ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais – rádio, televisão, jornais — e dos novos proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas e esse é o pântano em que evoluem e levedam as artes performativas.

Há ainda que perceber que estas actividades culturais e artísticas fazem parte do objectivo mais ambicioso do neoliberalismo de produzir um homem novo, não o que o comunismo procurou realizar, mas um outro construído pela aniquilação do sujeito moderno crítico e marxista, substituindo-o por um sujeito autista, consumidor indiferente à dimensão essencialmente política da existência, um indivíduo que se refere exclusivamente ao aspecto solipsista dos objectos que se realizam como mercadoria subjectiva da cultura de massas, uma cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana no que é um dos traços fundamentais da sociedade burguesa contemporânea em que se procura que a alienação global seja voluntária. A esquerda cosmopolita ao não perceber essa realidade e a ela não resistir, por ignorância ou oportunismo, condena-se a escorregar nas cascas de banana que os outros comeram. Está colonizada, por vezes sem disso ter consciência, pelo pensamento de direita.

(1) Burckhardt, Jacob, Considerations sur L’Histoire, Allia, 2001

(2) Broch, Hermann, Quelques Remarques à Propos du Kitsch, Allia 2001

(3) Trigo, Luciano, A Grande Feira do Vale-Tudo na arte Contemporânea, Civilização Brasileira, 2009

(4) Perniola, Mário, A Arte e a sua Sombra, Assírio & Alvim, 2006

(5) Byung-Chul, Han, A Expulsão do Outro, Relógio d’Água, 2018

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capitalismo, Carnaval, Cultura, Dante Mantovani, fascismo, Funarte, Fundação Palmares, Geral, Olavo Carvalho, Rafael Alves, Roberto Alvim, Sérgio Camargo

O grande Circo de Bobos Brasileiros

No Brasil, o delírio fascista ultrapassa tudo o que se poderia imaginar. Anunciada estava uma guerra contra o marxismo cultural. Passaram à prática com as nomeações de Roberto Alvim, cineasta empenhado numa cruzada fundamentalista conservadora que intervenha nos caminhos da arte nacional, para Secretário Especial para a Cultura.

Aos comandos da cultura imediatamente nomeou Sérgio Camargo para presidente da Fundação Cultural Palmares, instituída pela Lei Federal nº 7.668, de 22 de Agosto de 1988 em que no artigo 1º, da Lei que a instituiu se proclamava “promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira”. Sérgio Camargo, um negro que deveria dar que pensar aos militantes das políticas identitárias, sempre fez afirmações em todo contrárias aos princípios da Fundação: “a escravidão foi benéfica para os seus descendentes” (…) “Brasil tem racismo nutella” (…) Racismo real existe nos EUA. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda (…) “O Dia da Consciência Negra é uma vergonha e precisa ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem e desapareça do calendário”. Claro que um indivíduo desta estirpe aplaudiu o assassinato de Marielle Franco.

Com carta branca de Jair Bolsonaro que afirma que a cultura tem de estar “de acordo com a maioria da população”, Roberto Alvim continuou imparável com outras duas nomeações, Rafael Alves da Silva, que se apresenta Rafael Nogueira, para a Biblioteca Nacional e Dante Mantovani para presidente da Funarte, responsável pelo desenvolvimento de políticas públicas de fomento às artes visuais, à música, ao teatro, à dança e ao circo.

Rafael Nogueira é um convicto monárquico, “ a proclamação da República foi um golpe militar injustificável. O Brasil nunca mais se encontrou” que aderiu ao bolsonarismo “onde quer que o presidente esteja, estarei o seu governo sempre”. Alinha com o seu par da Fundação Palmares “se o reconhecimento científico de quem é branco ou preto é impossível, o reconhecimento estatístico só pode ser feito por razões de aparência de cor ou auto-identificação.” São raras as suas referências à literatura nas suas intervenções públicas e no tweeter onde é muito activo. As poucas que fez são suficientes para se traçar um perfil : ” A justificação dos crimes alheios pela pobreza, constante em nossa literatura e cinema, é uma mentira insultuosa aos pobres honrados” (…) Livros didáticos estão cheios de músicas de Caetano Veloso, Gabriel O Pensador, Legião Urbana. Depois não sabem por que está todo mundo analfabeto” diz o idiota inútil, só útil para dizimar a cultura.

Mais palavroso por isso mais rísivel é Dario Mantovani, um defensor das teorias da terra plana. Assinale-se que a figura é maestro e doutor com uma tese sobre Estudos de Linguística, apresentada na Universidade Estadual de Londrina. Qual terá sido o conteúdo da tese e quem terão sido os insignes arguentes que validaram citações do auto-intitulado filósofo Olavo de Carvalho e, provavelmente, de como a linguística se expande na terra plana.

Ouvi-lo sobre música e teorias da conspiração seria divertidíssimo, não fosse o perigo dramático do que serão as próximas políticas culturais da Funarte. Afirmar que Theodor Adorno é o mentor do dodecafonismo e dos Beatles para destruir a sociedade capitalista, que Elvis Presley era um agente soviético, que morreu por overdose !!! como eram agentes soviéticos os membros da CIA que distribuíram LSD em Woodstock tudo porque o rock fomenta o sexo, promove o aborto e abre a porta ao satanismo com a finalidade de destruir as famílias tendo por alvo a extinção do capitalismo, é um delírio que provoca mais risadas que qualquer cena dos Monty Python. Risadas que não podem fazer esquecer que é este bobo que está à frente da Funarte. Classificá-las como exóticas, como alguns fazem, é avalizar a estupidez no seu cume.

Se não pode causar admiração a nomeação de pessoas alinhadas ideologicamente para cargos no governo, porque é evidente a importância estratégica do controle ideológico da produção cultural, todo o mundo fica de boca aberta perante este rol de personagens que nem sequer ultrapassam o mínimo dos mínimos intelectualmente exigível. São discípulos de Olavo Carvalho, um palhaço que se auto-intitula filósofo e gasta o tempo com teorias latrinárias que despeja nas fedorentas caixas cranianas dos bolsonaretes.

A grande dúvida que fica neste circo brasileiro, em que desfilam estes bobos plantando um carnaval de dislates, é se tantos pascácios imbecis concentrados no sector da cultura não será táctica para tornar mais aceitáveis as basbaquices bolsadas pelo Presidente da República, família e próximos, uma corte de idiotas úteis que serve de cortina para que as fascitóides políticas económicas e sociais prossigam o seu caminho evangelicamente abençoadas.

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Cultura, Estado Islâmico, EUA, imperialismo, Iraque, Notre-Dame, património, Património Classificado UNESCO, Património Monumental, Síria

Proteger o Património Cultural

Notre-Dame consumida pelas chamas

O recente incêndio da Notre-Dame provocou emocionadas ondas de choque por todo o Mundo estupefacto por tal ter acontecido numa Europa onde supostamente o património se encontra mais protegido que noutros lugares do universo. As chamas consumiram a Notre-Dame depois de, em 2018, ter terminado o Ano Europeu do Património Cultural que teve por objectivo sensibilizar para os valores europeus e reforçar o sentimento de identidade comum europeia.

Objectivo explicitamente político de afirmação da cultura eurocêntica que agora abre a sua identidade a outras identidades e diferenças depois de séculos em que a tentou impor unilateralmente, dedicando-se paralelamente ao tráfico de bens culturais não só de outros continentes mas dentro da própria Europa. Recorde-se os frisos do Pártenon traficados por Lord Elgin, as obras pilhadas por Napoleão e pelos nazis. Apesar de, após a derrota do regime napoleónico, se ter firmado um tratado para devolver o espólio roubado aos países originalmente detentores, um primeiro passo na sua defesa, o Casamento de Caná, de Paolo Veronese, continua em exposição no Museu do Louvre, os frisos do Pártenon no British Museum, muitas das obras roubadas pelos nazis estão em paradeiro incerto.

O alarme gerado pelo incêndio da Notre-Dame, para lá do mediatismo que teve com o público abrir dos cordões das bolsas das famílias mais ricas do mundo e de empresas de artigos de luxo, num total de mais de 600 milhões euros para a reconstrução do icónico monumento, o que não deixa de ser chocante quando coincide com a sua indiferença com o desastre temporalmente coincidente que aconteceu em Moçambique – para essa gente refinada um pináculo vale muito mais que a perda de centenas de vidas e as incalculáveis devastações que afectaram centenas de milhares de pessoas –, alerta para os perigos a que tem estado sujeito o património cultural material e imaterial em todo o Mundo e para a escandalosa desigualdade do derramamento de notícias sobre as destruições sucedidas nos últimos anos.

Com as guerras do império norte-americano e seus sequazes no Médio-Oriente, Iraque e Síria, e no Afeganistão a destruição de monumentos, a pilhagem, o tráfico ilegal de artefactos históricos têm efeitos muitíssimo mais devastadores que o incêndio da Notre-Dame. A sua memória vai-se diluindo, os autores desses crimes lesa património cultural vão ficando impunes. Convém sublinhar que quem de facto os perpetrou, os talibãs no Afeganistão, os jihadistas na Síria, são extensões, armas de arremesso dos EUA e seus aliados que os armaram e financiaram.

Não se pode esquecer que os talibãs que destruíram com alarde os Budas gigantes de Damyan são uma invenção norte-americana, que os apelidava de combatentes da liberdade contra o governo não confessional do Afeganistão e seus aliados soviéticos. Na Síria, os jihadistas de diversos grupos alinhados com o Estado Islâmico atacaram a cidade de Palmira, provocando destruição gravíssima num dos primeiros locais a ser considerado Património da Humanidade pela UNESCO. A guerra instalada na Síria pelas potências ocidentais por interpostas forças mercenárias danificaram, destruíram e pilharam centenas de outros locais históricos. No Iraque a situação evoluiu para uma situação semelhante embora no seu início a pilhagem dos museus e monumentos tenha sido realizada pelas tropas invasoras.

Cuidar do património cultural é uma responsabilidade de todos. Protegê-lo da sua destruição – uma das formas de o alienar é pela privatização, recorde-se o que acontece actualmente na Grécia – é um dever universal. A emoção pelo incêndio da Notre-Dame deve ser um sinal de alerta para as destruições que todos os dias sucedem. Apesar de diferentes pontos de vista, esses actos devem ser condenados. Os seus autores, os de facto e os morais, devem ser punidos.

A cidade de Palmira destruída pelos jihadistas
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arquitectura, Artes, artes visuais, Bauhaus, Cultura, Design, Hannes Meyer, Mies van der Rohe, Walter Gropius

100 ANOS da BAUHAUS

Há cem anos, no dia 1 de Abril, a Bauhaus abriu as suas portas em Weimar, na Turíngia. De 1919 a 1933 a Bauhaus desenvolveu uma actividade teve uma enorme influência na história da arquitectura e das artes em particular no design. Alterou radicalmente metodos de ensino e currículos escolares nessas áreas que continuam a ser aplicados.

Este texto, publicado no AbrilAbril — dividido em dois por motivos editoriais — é uma opinião crítica sobre a história da Bauhaus.

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-i

https://www.abrilabril.pt/cultura/cem-anos-de-bauhaus-ii

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5+1 , uma Constelação de Artistas

da esquerda para a direita: Virgílio Domingues, Teresa Magalhães,Júlio Pereira, João Hogan, Guilherme Parente, Sérgio Pombo

Em Setúbal, na Galeria Municipal do 11, um colectivo de seis artistas, que iniciou a sua actividade em conjunto nos anos 1976 e esteve activo até o princípio dos anos 80, revive esse passado decorrido quase meio século. Eram os 5+1. Quatro ainda estão vivos, três bastante activos.

Descodifique-se 5+1. Nos géneros artísticos são cinco pintores e um escultor. No género, são cinco homens e uma mulher. Na política estão na esquerda, cinco pluralmente mais à esquerda, um assume deslocação mais moderada para o centro. Nas opções estético-artísticas o que os une é aparentemente nada. Há mesmo situações limite. Sérgio Pombo nunca pintou uma paisagem. A figuração humana, sobretudo a feminina, é o núcleo do seu trabalho, atravessa todas as experimentações da sua obra plástica mesmo quando está ausente ou quando adquire volume numa forma escultórica suporte da pintura libertada dos limites da tela. João Hogan coloca-se no extremo oposto. A figuração de pessoas ou objectos vai desaparecendo na sua pintura até se apagar completamente na arquitectura dos silêncios obsessivos das suas paisagens, que procuram infatigavelmente um estado primordial em que a vida é uma pulsação subterrânea de ventos invisíveis que as vão moldando. Se ambos parecem encontrar-se por recusar contar histórias, sequer enunciar uma narrativa, por ambos explorarem uma pulsão sensual que fere o olhar de quem olha as suas obras, voltam a ter atitudes diametralmente opostas porque enquanto Hogan tem uma ostensiva indiferença, uma quase hostilidade às correntes estéticas internacionais e seus ecos regionais, Sérgio Pombo faz incursões variadas com tal sucesso que o colocam, em várias situações e vários contextos, na linha da frente das artes nacionais e mesmo internacionais.

Entre estes dois pontos, que se podem considerar extremos, situam-se os outros artistas, Guilherme Parente, Júlio Pereira, Teresa Magalhães, Virgílio Domingues, assim por ordem alfabética.

Guilherme Parente é um narrador impossível de deter. Cada um dos seus quadros, desenhos ou gravuras é, desde o primeiro que mostrou até ao próximo que ainda não pintou, uma história para se decifrar, uma história que aconteceu ou está para acontecer, por onde a mão do pintor viaja carregada de lirismo, sem nunca encontrar um ponto final mesmo quando o artista dá a obra por acabada. Em todos os quadros de Guilherme Parente há a deslumbrante incompletude de um caminho que se faz caminhando sem nunca se desviar por uma vereda.

Júlio Pereira, caldeireiro de profissão, o Júlio Pintor de Arte do Montecarlo e da Brasileira, chega tarde, aos quarenta anos, à pintura onde faz explodir uma energia contida durante décadas, sendo o seu primeiro tema recorrente as mulheres, pintadas de todas as formas a tinta-da-china, óleo ou pastel, que subitamente desaparecem para dar lugar à mais rigorosa e icónica abstracção.

Teresa Magalhães tem um universo muito próprio e particular por onde obstinadamente deambula sem nunca se perder nas múltiplos caminhos que percorre. A sua pintura é sempre passado, presente e futuro e todos os saberes que vai colhendo em cada uma das suas experimentações, do neo-figurativismo ao abstraccionismo, acrescentam valor no quadro que irá pintar. Na pintura de Teresa Magalhães se nada se perde também nada se repete, é um acto de permanente criação e renovação. É o percurso fascinante de um trabalho sem quebras, em que a pintora se reencontra constantemente para se reinventar sem um traço de fadiga.

Virgílio Domingues estende uma fina e sofisticada rede de escuta sobre o mundo para decifrar o argumentário dos protagonistas da comédia humana dos etecéteras passados presentes e futuros. Contrariando o que eles querem, Virgílio não lhes perdoa. não leva esses actores a sério, mas torna dramaticamente sérias as situações que protagonizam. Inicialmente as suas esculturas registavam os momentos, as circunstâncias, os seus intervenientes. Progressivamente torna as situações menos reconhecíveis, os protagonistas mais personalizáveis em anatomias que se decompõem sem que nenhum traço as humanize, para que os personagens quanto menos forem identificáveis mais transpirem a abjecção do seu poder social. Paralelamente o escultor ironiza sarcasticamente a estatuária comemorativa que invade o espaço público com figurações academizantes, sejam figurativas ou abstractas. Um trabalho em contínuo, que se foi depurando formalmente sem nunca se desviar do seu norte.

São estes seis artistas, tão diversos entre si, que decidem organizar-se em grupo para realizar várias exposições. O que os une, além da amizade, é a pulsão da arte, o serem artistas que dispensam adjectivos, o percepcionarem que o seu trabalho individual adquiria densidade e singularidade em cada um desses encontros. Paradoxalmente enquanto entre eles, nessas exposições colectivas, é cada vez menos possível definir uma tendência mais geral que os relacione, tornava-se cada vez mais impressivo que o trabalho de cada um ampliava, e muito, o que se podia fazer com as artes visuais. Esse é o grande impacto dos 5+1 no panorama das artes nacionais.

As exposições dos 5+1 foram um percorrer de caminhos que se iam descobrir progressivamente mais distintos, em que todos eles se afirmavam para se confirmarem na história contemporânea de arte portuguesa, o que os colocam entre os mais significativos das suas gerações.

Os 5+1 revisitados estarão na Galeria do 11, em Setúbal, até ao dia 30 de março

(publicado em AbrilAbril, 3 de março 2018)

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Artes, Bella Ciao, Cultura, Humanidade, música, resistência

Assassinaram a BELLA CIAO, A BELLA CIAO está viva !!!

Partigiani

Sabemos, todos devíamos saber, que a ideologia burguesa ataca e cerca sem desbarato de tempo toda a resistência à abominação desta sociedade sem dignidade. Combate todo e qualquer sinal de resistência, de qualquer forma de resistência ao pensamento dominante, com o objectivo último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Vulgar é a rescrita da história para rasurar a heroica luta dos povos pela emancipação, pelo fim da exploração do homem pelo homem. Banal o bombardeamento diário feito pelos meios de comunicação social e pelas redes sociais, concentrados pelos gigantescos grupos económicos em grandes empresas mediáticas que constroem realidades para ocultar a realidade. Comum a bastardização da cultura pelas indústrias culturais e criativas, moinhos onde nas suas rodas dentadas se reduz a pó a cultura para fazer luzir o entretenimento que não exige reflexão nem sintoniza sentimentos e tudo se afundar num perverso gosto homogeneizado e acéfalo.Um totalitarismo que até pode dispensarditadores e caudilhos, pulsa fortemente nos sistemas democráticos com o objectivo de reduzir e anular o espectro do debate e das ideias.

O combate a este estado de sítio é duro, exigente. Há que reconhecer que a direita tem tido êxitos nessa batalha e que muita esquerda está colonizada pelo pensamento de direita.

Hino de resistência

Versão original da Bella Ciao

Uma das formas mais sofisticadas e eficazes dessa ditadura do pensamento é prostituir, com as ferramentas do mercado, a cultura. Exemplo recente é a castração da Bella Ciao, essa bela e comovente canção dos partigiani que lutaram com denodamento contra o fascismo. Apropriaram-se dela para a usarem como banda sonora da série televisiva Casa de Papel. Descontextualizaram o seu potencial revolucionário para a tornarem um fetiche da cultura de massas desligada da cultura popular e de resistência. Colocaram-na nos top ten em muitos países hispânicos e de língua portuguesa.

Canta-se e dança-se ao som da Bella Ciao indiferentes aos seus belos e comoventes versos: Bella Ciao (adeus Bela) / Esta manhã, acordei / encontrei um invasor // Oh, guerrilheiro, leva-me contigo / Bella CiaoBella Ciao,Porque sinto que vou morrer // Se morrer como membro da Resistência / Enterra-me como membro da Resistência // Enterra-me no alto das montanhas / À sombra de uma bela flor/ Bella CiaoBella Ciao / As pessoas que passarem / Dirão: que bela flor!// Essa será a flor da Resistência/ Daquele que morreu pela liberdade (tradução livre).

Ela move-se!

Com A InternacionalBella Ciao era o canto dos partigiani, socialistas, anarquistas, sobretudo comunistas. Eram os hinos da resistência italiana. Hoje Bella Ciao é um hit de A Casa de Papel, cantada em vários momentos-chave da trama pelos personagens que vão assaltar a Casa da Moeda de Madrid, como se tivesse sido escrita para essa série. Destrói-se a história, a grande e bela história da Bella Ciao,esvaziando o seu conteúdo subversivo, o seu significado antifascista para a tornar um produto de consumo equivalente às centenas de canções de amor filistino de um qualquer Tony Carreira.

Assassinaram a Bella Ciao com a mesma frieza com que têm assassinado os milhões de mulheres e homens que lutaram e lutam para transformar a vida, devolver à humanidade a humanidade. Para esses resistentes de ontem e hoje Bella Ciao está viva. Contra os ventos da história desfavoráveis devemos continuar a lutar com a convicção de Galileu frente ao tribunal da Inquisição: No entanto, ela [a Terra] move-se 

Em 1971, Milva canta uma versão da Bella Ciao homenageando a Resistência numa demonstração pública das suas simpatias políticas

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