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AS TROMBETAS DO APOCALIPSE NAS MARCHAS ANTICOMUNISTAS

Fotomontagem de John Hearfield, Agosto1934 . Friedich Ebert, (1871-1925) presidente do Partido Social/Democrata da Alemanha, Chanceler da Republica de Weimar. um dos responsáveis pelo assassinato dos dirigentes comunistas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. A Fundação do Partido Social/Democrata da Alemanha ostenta o seu nome, bem conhecida pelo apoio que dado aos partidos socialistas e sociais/democratas da Internacional Socialista. Paul von Hinderbug,(1897-1934) presidente da Republica da Alemanha que nomeou Hitler chanceler

O anticomunismo exibe-se abundantemente na comunicação social corporativa nas mãos da plutocracia nacional que se estende à comunicação social dita de serviço público com o seu longo rol de serventuários do pensamento dominante. Ainda existem umas cada vez mais raras excepções que passam pelas malhas da censura mascarada de critérios jornalísticos ou ainda com mais descaro na apregoada qualidade e independência jornalística coisa que nessas redacções até já foi removida dos caixotes de lixo.

O anticomunismo exibe-se de formas variegadas, nos últimos tempos tem sido um ver que te avias. A Festa do Avante! anunciada para Setembro deste ano num contexto complexo tem sido o grande bombo dos arraiais noticiosos. Vale tudo desde o ser uma fonte de sistemáticos prejuízos (Expresso) até ser a segunda maior fonte de receitas do PCP (Sic). O mesmo Expresso utiliza foto de montagem da festa para ilustrar uma notícia sobre o Covid-9. De repente uma festa em que, nos noticiários dos anos anteriores, era um resíduo cultural entre garfadas dos restaurantes onde as provectas idades eram o traço geral de gente a sonhar com os amanhãs que cantam ( que quer essa malta que os amanhãs façam? que ladrem, uivem juntando-se aos seus afinados coros?) desagua num mar de milhares de pessoas todas potencialmente portadores do coronavirus, pior de coronavirus vermelhos muitíssimo mais potentes.

Esse anticomunismo alarve de antanho, de hoje e dos dias seguintes refina-se num anticomunismo envernizado mais subtil mas igualmente activo. Conhecido o das adjectivações que se colam aos militantes comunistas e aos ex-comunistas. Mesmo os que abandonaram o Partido ficam classificados em duas categorias que vão variando com o correr do tempo: aqueles em que a antiga militância comunista ainda está dentro do prazo e aqueles em que essa militância já está fora de prazo, em conformidade com as aleivosias dos contextos das artigalhadas.

Na área das subtilezas pouco subtis (passe o pleonasmo) as fúrias dessa gente a agitar as bandeiras anticomunistas é contumaz. Vulgar, vulgaríssimo são as iniciativas legislativas do PCP na Assembleia da República serem preteridas a favor do Bloco de Esquerda. Já se chegou ao cúmulo de para justificar uma iniciativa legislativa do PCP, não se ouvir nenhum deputado comunista mas a coordenadora do BE que não tendo apresentado nenhuma proposta de decreto-lei estaria na disposição de votar favoravelmente. Então quando são iniciativas similares mesmo que as do Partido tenham antecedido as do BE é um ver que te avias, a maioria das vezes nem referem as do P.

Mais sornas são outras manobras. Recentemente quando Rita Rato foi seleccionada por um júri para dirigir o Museu do Aljube a sua militância no PCP era impressa em todas as insidiosas notícias que inundaram os media com um anticomunismo larvar, agora quando morre Fernanda Lapa a militância no PCP é rasurada na palidez esquálida do activismo em defesa do teatro, das mulheres, da dignificação humana. Conforme lhes dá jeito rasgam o cartão aos militantes do Partido para os fazer passar por activistas de causas sem filiação partidária o que está na moda e dentro dos padrões da democracia liberal. Não é um acaso os activismos de vários géneros serem largamente subsidiados pelas Fundações Soros, Rockfeller, Ford, Bill Gates, etc. Apagar a militância comunista da Fernanda Lapa em favor do activismo é também uma forma de ocultar as lutas por uma mudança social radical que não se reduz a mudanças de atitude social, por mais importantes que sejam.

Essa gente dos media não têm uma gota de honestidade, uma ruga de moral e ainda tem o desaforo, o imenso descaramento de se escudarem na pretensa ausência de novidades nas áreas do PCP (esta das novidades tem muito que se lhe diga. Lembre-se como um dia Álvaro Cunhal na televisão com o seu imenso humor desmontou essa farsa montada por uma jornalista que insistia em saber alguma coisa da sua vida pessoal « mas o quer saber? Se coso os botões das minhas camisas?») para justificar o PCP, os seus dirigentes e militantes ocuparem um substancial menor número de horas nos noticiários, mesmo contando com as horas em que se destila anticomunismo.

No horizonte, o fascismo mesmo que seja um fascismo de tipo novo numa deriva do totalitarismo invertido um sistema em que esta comunicação social, a clássica e a nova através da internet e das redes sociais, e pelas indústrias culturais e criativas que são dos seus pilares mais importantes e que se caracterizam por uma progressiva concentração. Um sistema, repita-se e sublinhe-se as vezes que forem necessárias esses seus traços nucleares, que se apura para que os cidadãos sejam totalmente impotentes e a alienação global seja uma alienação consentida. É o que Sheldon Wollin classifica de “totalitarismo invertido” que não tem rosto, é anónimo corporizado por dirigentes políticos que são marcas comerciais dos Estados completamente enfeudados às grandes empresas, em que há uma crescente indiferenciação ideológica e programática entre partidos de sectores das esquerdas tradicionais revisionistas e de direita que reduzem a sua acção e medem a sua representatividade pelos resultados da competição eleitoral em que a democracia representativa deixou de ser lugar de debate ideológico. «O governo não precisa acabar com a dissidência. A uniformidade da opinião pública imposta através da media corporativa faz um trabalho muito eficaz» escreve Wollin esclarecendo que «as elites, especialmente a classe intelectual, foram compradas por meio de uma combinação de contratos governamentais, fundos corporativos e fundações, projetos conjuntos envolvendo pesquisadores universitários e corporativos. Com doações de indivíduos muito ricos, universidades (especialmente as chamadas universidades de pesquisa), os intelectuais, os estudiosos e os pesquisadores foram perfeitamente integrados ao sistema (…) Nenhum livro é queimado, nenhum Einstein permanece na condição de refugiado (…) mas no totalitarismo invertido, o inverso é verdadeiro, a economia domina a política e com essa dominação surgem formas diferentes de crueldade (…) Os Estados Unidos tornaram-se a vitrine de como somos tolerados como cidadãos, apenas enquanto participamos da ilusão de que vivemos numa democracia participativa. No momento em que nos rebelamos e nos recusamos a participar dessa ilusão, o rosto do totalitarismo invertido parecerá o rosto dos sistemas totalitários do passado.» Já Orwell tinha avisado que «para sermos corrompidos pelo totalitarismo não temos de viver num país totalitário»

Essa gente que pulula na comunicação social são os mercenários das oligarquias, os serventuários dos plutocratas a abrir caminho para os novos fascismos por mais que desfraldem ao vento as esfarrapadas bandeiras da liberdade e da independência jornalística ao serviço do totalitarismo invertido. Honra ainda a quem, contra os critérios dominantes, ainda consegue fazer investigação séria, que só vê a luz do dia quando interessa dar credibilidade ao lixo dominante.

Fotomontagem John Heartfield, marco 1934 O slogan do partido nazi Sangue e Aço
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Cultura, património cultural e a responsabilidade social dos intelectuais

Shintaro_Kago

«Mastigação ruidosa» (2018), do ilustrador japonês Shintaro Kago (1969) 

Cultura e Património Cultural, material e imaterial, são conceitos relativamente recentes na longa história da humanidade, bem como o reconhecimento da sua importância nuclear na identidade de um povo de uma nação, da sua soberania. Como T.S.Elliot escreveu, O tempo presente e o tempo passado / são, talvez, presente num tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado1, é essa relação dialéctica entre o passado, o presente e o futuro de um povo, de uma nação que a Cultura e o Património Cultural consubstanciam.

Durante séculos os patrimónios culturais foram objecto dos mais diversos vandalismos. É na Revolução Francesa que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, o que estava em contraciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. É essa mudança de mentalidades em relação ao património cultural e à cultura que inicia um processo de protecção, conservação e valorização do património e uma, ainda que tímida, democratização da cultura.

Tem o seu reverso que é o percepcionar-se que a supremacia política deve apoiar-se na afirmação da supremacia cultural. Uma estratégia que Napoleão Bonaparte colocou em prática.

Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e Norte de África foi sistemática e sem precedentes. Troféus de guerra para mostrar ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia de 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural e está na origem do trabalho desenvolvido pela UNESCO, as classificações de Património Cultural Material e Imaterial da Humanidade, para salvaguardar universal e intemporalmente os patrimónios imóveis, os patrimónios intangíveis e os patrimónios naturais, representativos da diversidade cultural, natural e da expressão criativa em todo o mundo. Com essas e muitas outras iniciativas de organizações locais, nacionais e internacionais, vertida em abundante legislação, deveria a Cultura e o Património Cultural Material e Imaterial e o Natural estar protegido de qualquer atentado e a cultura, na multiplicidade das suas manifestações ser um dos grandes esteios das identidades nacionais.

Não está, e os atentados agora são outros de outro calibre. Nos centros decisores do capitalismo internacional, com destaque para as instituições financeiras sediadas nos EUA, prepara-se a intensificação de uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender o máximo possível de bens imobiliários estatais, incluindo os patrimónios histórico-culturais e naturais.

O editorial de 17 de Janeiro de 2014, da revista Economist, «The 9 trillion dolars sale», não deixa margem para dúvidas. Escrevem que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos, telecomunicações e transportes, e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado». Reconhecem a dificuldade da avaliação de alguns desses activos, como o Louvre, o Pártenon ou Parque Nacional de Yellowstone. Dificuldade obviamente superável se recordarmos os inúmeros artigos na comunicação social corporativa que aconselhavam os gregos a venderem os seus monumentos para saldarem as dívidas.

A cultura do «casino cósmico»

Neste «casino cósmico», como o definiu Georges Steiner, o perigo é real, multiforme. Não se devem menorizar as suas formas directas ou indirectas de privatização do Património Cultural aparentemente mais tímidas como as do programa Revive, nem a formatação dos padrões culturais pelo imperialismo cultural, nem a crescente bordelização da cultura pelo turismo cultural, nem a perda de capacidade crítica em que os padrões estéticos, ainda que muito contestados, são progressivamente substituídos pelas ditames do mercado, ainda que mascarados em lenga-lengas fastidiosas e repetitivas salpicadas de considerações artísticas.

A normalidade da anormalidade do estado de sítio cultural que se vive é tudo se reger pelas leis do mercado, crescendo nos charcos do entretenimento agitados pelo furor bulímico em que normalizam os chamados eventos culturais – o conceito eventos tem uma forte carga ideológica indiciando a banalização destruidora de quaisquer hipóteses de projectos culturais de democratização da cultura explodidos nos lugares comum de criação de novos públicos, leiam-se os regulamentos da Europa Criativa –, coloridos pacotes de mercadorias que são açambarcados para serem consumidos sem deixarem rasto. O seu único objectivo é disfarçarem o vazio comatoso desta sociedade, o seu spleen para, na melhor das hipóteses, o ocultarem protegendo-nos. Laboriosamente as forças dominantes foram moldando o gosto para depois o alimentarem com qualquer coisa que é sempre a mesma coisa. Essa dita cultura, mau grado o intenso ruído em que se envolve para abafar as vozes dissonantes, é parte integrante do aparelho repressivo do totalitarismo democrático que impõe o pensamento único.

Desde os anos 60 que se tem alargado a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto à lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. A cultura é um dos alvos dessa guerra e o mercado, que não reconhece outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável, ocupa cada vez mais o espaço que antes era ocupado pelo Estado.

O meio intelectual, a partir dos anos 50, já se tinha apercebido dessa situação e se alguns consideram o advento da dominação do mercado sobre a cultura como uma expropriação outros, como Adorno e Horkheimer, percebem claramente que essa dominação intermediada pelas nascentes indústrias culturais e criativas é «um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias e como estratégia de controlo social.»2

A produção de produtos ditos culturais faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico. O património cultural e os museus são o alimento substantivo do turismo cultural em que a relação, que deveria ser estrutural e estratégica, permanece numa nuvem de indefinições, confusão de conceitos e de áreas de actuação. O que interessa, o que conta é o que gera dinheiro, muito dinheiro. A introdução ao Programa-Quadro Europa Criativa 2021-2027 da União Europeia (UE) é elucidativa: «a cultura está no centro do rico património e da história da Europa e tem um importante papel no aumento da atractividade de lugares e no reforço da identidade única de espaços específicos. A cultura e a criatividade podem ser importantes motores e impulsionadores da inovação, bem como uma fonte significativa para o empreendedorismo. A cultura é um importante motor para o aumento das receitas de turismo, numa altura em que o turismo cultural é um dos segmentos do turismo com maior e mais rápido crescimento a nível mundial.» É um texto esclarecedor pela miscigenação de conceitos em que o que acaba sempre por vir à superfície é a gestão, o empreendedorismo, como adubos da inovação. A importância do «rico património e da história da Europa» é o «aumento da atractividade de lugares», leia-se turismo cultural para as multidões prontas a disparar o seu olhar distraído, registado em selfies, enquanto invadem museus e outro património edificado. O que conta é o dinheiro, muito dinheiro que o mercado cultural pode gerar, pelo que as iniciativas culturais desligam-se de qualquer projecto cultural para se subordinarem ao que é mais vendável.

Mais esclarecedor fica quando elencam as indústrias culturais e criativas e se olha para a distribuição de verbas por essas áreas. São integrados nos «Sectores culturais e criativos», todos os sectores cujas actividades se baseiam em valores culturais e/ou artísticos ou noutras expressões criativas, quer essas actividades tenham fins comerciais ou não, independentemente do tipo de estrutura que garante a sua execução e seja qual for o modo de financiamento dessa estrutura. Essas actividades incluem a concepção, a criação, a produção, a divulgação e a conservação dos bens e serviços que encarnam uma expressão cultural, artística ou qualquer outra expressão criativa, e funções conexas, como a educação ou a gestão. Os sectores culturais e criativos incluem, nomeadamente, a arquitectura, os arquivos, as bibliotecas e os museus, o artesanato, o audiovisual (em particular o cinema, a televisão, os jogos de vídeo e as actividades multimédia), o património cultural material e imaterial, o design, a publicidade, a moda, os festivais, a música, a edição de publicações, a literatura, as artes performativas, a rádio e as artes plásticas. Ao mesmo nível das Meninas de Velasquez ou da Ronda da Noite de Rembrandt está um anúncio à Coca-cola ou ao BurgerKing. O Saraband do Bergman ou a Regra do Jogo do Renoir fica submergido na quantidade brutal de videojogos que já é um volume de negócio superior ao do cinema ou das séries televisivas. Festivais de Música? Os de música sinfónica são residuais, em quantidade e em espectadores, se comparados com os de música pop, o que também se reflecte na indústria discográfica, basta olhar para os espaços que ocupam nas estantes de venda e também nos espaços de «crítica musical» na imprensa. A literatura nada com respiração assistida no plâncton das edições dos media da imprensa corporativa, das revistas de glamour, etc.

A moda invade tudo e é dominante em todos os outros géneros artísticos, para isso lá estão os gestores culturais, esse baixo clero pós-moderno com especiais aptidões para ocultar e tornar eficaz o vazio da cultura inculta instalada em todos os patamares do entretenimento da iliteracia cultural por esses intermediários culturais, gestores culturais, programadores, curadores, comissários, agentes do pensamento dominante que aceleram pelas auto-estradas do bullying cultural que se impuseram durante os anos 80, como Pierre Bourdieu bem os caracterizou e que é sempre de recordar: «são os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado, porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo académico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade que caracteriza o papel desses intermediários é serem os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam»3. Intermediários culturais sempre entre duas actividades promocionais onde a arte e a cultura são sempre e só mercadoria e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades.

Esclarecedor é também o enquadramento financeiro para a execução do Programa durante o período 2021-2027, em linha com os anteriores. «O Programa continua a apostar em 3 vertentes: Subprograma MEDIA, Subprograma CULTURA e Vertente Intersectorial, sendo que esta última introduz uma novidade dirigindo-se a “Cultura e Meios de Comunicação”». Através da vertente intersectorial o Programa visará também «promover a cooperação política em matéria de cultura no seio da UE, promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática».
Em termos orçamentais a Comissão propõe a afectação de 1,85 mil milhões de Euros ao Programa global, divididos do seguinte modo: subprograma MEDIA, 1,08 mil milhões de Euros; subprograma CULTURA, 609 milhões de Euros; e 160 milhões de Euros para a vertente intersectorial. Tal proposta traduz-se num aumento de 450 milhões de Euros face ao actual Programa Europa Criativa 2014-2020 e a grande aposta é no incremento da comunicação social estipendiada.

A bitola é a do mercado, os apoios são ao empreendedorismo, As justificações na distribuição das verbas revelam os objectivos da UE e o que nos espera por detrás da cortina «de promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática» em que a verba para os media é reforçada pela do denominado subprograma intersectorial, pelo que 67% do orçamento Europa Criativa é dirigido para o controle de informação que se integra no sistema mundial de formação da opinião pública e da interpretação da realidade pela comunicação social corporativa, mercenária, ao serviço do pensamento totalitário dominante. Os sobrantes 33% são para o que selam como cultura, mas com a banda larga aplicada, estamos conversados. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordeliza a cultura, o património cultural e os museus com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana em que se procura que a alienação global seja voluntária.

A responsabilidade dos intelectuais

Todo este processo decorre por o capitalismo neoliberal ter percebido que a cultura, a produção teórica eram armas nucleares que eram necessário despoletar para perpetuar o imperialismo e impor um pensamento único. Puseram em marcha um processo de desagregação social dos intelectuais para os isolar e os atirar para as periferias do poder político. Os intelectuais, que nunca foram um grupo homogéneo mas que, como Régis Debray anotou, se «sentiam, pelos seus saberes e conhecimentos diferenciados, ser uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões»4 detendo um poder, que embora de origens diferentes, influenciava ou ia contra o dos políticos eleitos, foram progressivamente marginalizados do tecido social.

Um processo que incidiu sobretudo nas áreas culturais distanciando o Estado das políticas culturais, retirando-lhes importância política e pública, entregando progressivamente ao mercado e à iniciativa privada os instrumentos da cultura, diligenciando para que o mercado e a iniciativa privada contaminassem as políticas culturais das instituições que tutelam, como se a cultura fosse um território que floresce numa terra de ninguém e para que a arte e a cultura perdessem o sentido de ser a utilidade que transforma a vida.

Para essa nova ordem é fundamental anular a cultura enquanto núcleo de práticas e actividades, enquanto instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade alternativa onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Para essa nova ordem é fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por interlocutores os seus pares e não a sociedade para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Neste estado de sítio há que exigir aos intelectuais que façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, com a consciência de que se ela não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante, que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que o ponha em causa. Devem readquirir o sentimento do seu papel social, mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

Há que resistir, resistir sempre e sem vacilações para que a cultura e a arte se recentrem na vida e encontrem aquilo que podem e querem fazer com os seus materiais e instrumentos sem se entregarem nas mãos do mercado, recusando-se a responder às exigências de gerar lucro, normalizando-as pelas imposições do consumo imediato e padronizado onde se afoga o espírito crítico.

Há que continuar e lutar com a firme convicção de que «no entanto, ela (a Terra) move-se», como disse Galileu enfrentando o tribunal da Inquisição.

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt/ )

  • 1.in Four Quartets: «Time present and time past / Are both perhaps present in time future /
    And time future contained in time past.»
  • 2.Adorno, Theodor/ Horkeimer, Max ; Dialéctica do esclarecimento, Jorge Zahar editor, 1985.
  • 3.Bourdieu, Pierre; A distinção, uma crítica social da faculdade do juízo, Edições 70, 2010.
  • 4.Debray, Régis; Le pouvoir intellectuel em France, Ramsay, 1979
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J'Accuse

Nos tempos pós-modernos Zola teria sido passado a ferro. Teria muitos intelectuais ao seu lado mas sem a força e muito menos a unidade com que se fizeram ouvir no caso Dreyfus.

Fotograma do filme «J'Accuse» (2019), realizado por Roman Polanski a partir de um romance inspirado no caso do oficial francês Albert Dreyfus, de origem judaica, acusado de traição à Pátria por círculos militares anti-semitas.
Fotograma do filme «J’Accuse» (2019), realizado por Roman Polanski a partir de um romance inspirado no caso do oficial francês Albert Dreyfus, de origem judaica, acusado de traição à Pátria por círculos militares anti-semitas. Créditos

J’Accuse, o filme de Roman Polanski, recupera o título da carta que Emile Zola publicou no jornal L’Aurore a 13 de Janeiro de 1898, dirigindo-se ao presidente da República Francesa, Félix Faure, acusando membros do aparelho militar e do governo de cumplicidade na forjada condenação por traição de um inocente, o oficial de artilharia Alfred Dreyfus, um dos poucos judeus que faziam parte do exército, acusado de alta traição. Pelo crime, julgado à porta fechada, o capitão é sentenciado à prisão perpétua no presídio da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Será mais tarde amnistiado e deixa a prisão, apesar de continuar a ser considerado culpado. Só em 1906 Dreyfus é reabilitado e reintegrado no exército.

Foi um caso que agitou toda a França depois da carta de Zola, que será condenado a um ano de prisão, a 3 000 francos de multa e ao exílio em Inglaterra, de onde só será autorizado a regressar depois da reabertura do processo.

O que interessa aqui é assinalar a movimentação intelectual e cultural originada pelo caso Dreyfus. É o centro de um livro de Roger Martin du Gard, O Drama de João Barois, livro bastante esquecido que deve ser relido por equacionar questões entre a religião e a ciência, da inteligência contra a força bruta, as contradições da justiça humana, as relações entre o social e o individual, questões que andam muito arredadas de muita da literatura contemporânea, sendo sempre de relembrar Terry Eagleton: «hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literatura são bastardas (…) pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em questão de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental». Britânico e de qualquer parte do mundo. As excepções confirmam a regra.

Em França, a carta de Zola denunciando a iniquidade do julgamento de Dreyfus gerou um grande movimento de artistas, advogados, universitários, arquitectos, médicos, músicos, escritores, nomes publicamente conhecidos que assinaram protestos no Aurore Littéraire, juntam-se num manifesto publicitado por Julien Benda. Georges Clemenceau, chefe de redacção do jornal, vê nessa convergência entre tantos especialistas de primeiro plano em áreas tão diversas, «um sinal, no facto de todos esses intelectuais chegados dos horizontes mais diversos, se unirem em torno de uma ideia», a defesa de valores mais importantes ainda que ameaçados pelas acções da autoridade do Estado. O conceito forjado por Clemenceau, intelectuais, parte da constatação de esse grupo tão diversificado de portadores de saberes especializados superarem as suas especializações e qualificações profissionais por se sentirem obrigados a intervir no espaço público para falar em nome da sociedade no seu conjunto.

Regis Debray irá defini-los como «uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões pessoais sobre os assuntos públicos, com dispensa dos procedimentos cívicos regulares que se impõem aos cidadãos comuns»1. Nesse conceito de intelectuais convergiam duas tendências. A primeira era a superação em que a especialização dos saberes os tinha acantonado corporativamente encerrando-os praticamente na exploração dos seus conhecimentos específicos, distanciando-os das questões sociais mais vulgares. A segunda era reentrarem na cena pública, numa altura em que a política começava a ser uma actividade a tempo inteiro, superando os seus interesses profissionais e pessoais, para influenciar as decisões políticas analisando-as sobretudo do ponto de vista ético, criticando-as, procurando corrigi-las. Os intelectuais recuperavam as potencialidades e a capacidade de intervenção que tinham sido proclamadas na filosofia iluminista, e que outrora, efectiva ou supostamente, tinham gozado.

Transponha-se a carta de Zola e o manifesto que a carta promoveu para a actualidade. A maioria da comunicação social mainstream, ignorá-los-ia. Talvez um ou outro deles publicasse excertos, desvirtuando-os. O manifesto seria remetido para as redes sociais. Os seus autores, intelectuais e outros não considerados nesse grupo, conseguiriam impacto junto da opinião pública circulante nessa área, mas embateriam no silêncio dos media. Na melhor das hipóteses Zola iria a uma televisão onde lhe dariam uns 15 segundos, entalado entre uma notícia de uma catástrofe qualquer e outra desportiva ou de um sucesso de um famoso. No violento ruído do mundo, o estado de sítio em que vivemos, a sua diluição seria procurada entre fake news, teorias conspirativas, populismos de várias estirpes, o mundo viral em que estamos mergulhados, que contamina a atmosfera.

Manifestantes fora do tribunal de magistrados de Westminster. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, enfrenta uma audiência sobre um pedido de extradição dos EUA por alegadamente conspirar para “hackear” um computador do Pentágono. Londres, Inglaterra, 2 de Maio. CréditosFrank Augstein /

Se Zola fosse vivo não temos dúvidas que escreveria um J’Accuse denunciando a perseguição a Julian Assange ou a Peter Handke. Denunciaria a farsa do julgamento a que está a ser submetido o primeiro, num tribunal presidido por uma lacaia do imperialismo. Já teria denunciado a perseguição que sofreu desde que delatou publicamente as práticas criminosas dos Estados Unidos para imporem ao resto do mundo a sua super-dominação no espaço geopolítico global. Fê-lo sem nunca procurar recompensas nem protecções judiciais. Fê-lo como um acto de cidadania e defesa da liberdade de informar. Leia-se o interessantíssimo livro de Juan Branco Assange: L’Antisouverain2, em que o soberano é o aparelho de estado. Foi imediatamente perseguido pelos EUA, a primeira linha de ataque foi assumida por Hillary Clinton e Obama, logo apoiados pelos neo-cons e pela subserviente comunicação social anglo-saxónica que contumazmente, não o podendo desmentir, o vilipendiaram e hoje praticamente não noticiam as miseráveis condições de detenção a que foi sujeito nem a farsa do seu julgamento. Os intelectuais não agiram como um grupo, ainda que heterogéneo, como aconteceu com o caso Dreyfus. As petições para a sua libertação ocorrem na internet e não têm eco nos media, como seria de prever por serem na sua esmagadora maioria vozes vendidas ao dono.

Na foto, Peter Handke assiste ao funeral do ex-presidente sérvio Slobodan Milošević, em Março de 2006. Handke foi uma das vozes críticas da guerra de agressão levada a cabo em 1999 pelos EUA e pela NATO contra a Sérvia. O escritor, dramaturgo, ensaísta e realizador austríaco foi recentemente galardoado com o Prémio Nobel de 2019. CréditosPetar Pavlovic / AP

Peter Handke, assim que denunciou a guerra dos Balcãs para desagregar a Jugoslávia – leiam os livros dos generais Carlos Branco3 e Raul Cunha que durante integraram o grupo de observadores internacionais da ONU nos Balcãs – e depois quando fez o elogio fúnebre de Milosevic, que tinha sido extraditado à revelia das leis e decisões do Supremo Tribunal do seu país, entregue ao Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia, instituído por influência dos EUA – que a ele não se sujeita – e que acabou por absolvê-lo por considerar não existirem provas que permitissem qualquer acusação, sofreu a mesma sorte sem que houvessem petições públicas nem notícias que, pelo menos, o deixassem justificar as suas posições. Agora, quando lhe foi atribuído o prémio Nobel da Literatura, houve quem tivesse o descaro de o depreciar, menorizando mesmo a sua importância enquanto escritor, curiosamente os mesmos que aparentemente são defensores da autonomia das artes, a sua não contaminação pela política e pela vida social. Mas foram tirar do baú todas as aleivosias e todas as mentiras, que propalaram durante anos, para agitarem a opinião pública contra a decisão do Comité para a Literatura do Nobel. Vários intelectuais alinharam nessa farsa trágica. Seria espantosa a hipocrisia, o cinismo e a subserviência de muitos intelectuais ao pensamento único se não se estivesse atento aos colunistas que por esse mundo fora são escolhidos a dedo ao serviço do satus quo para justificar a qualquer custo os actos americanos que os querem impor enquanto função regulatória para o resto do mundo, para a normalizar tornando-a natural. Como sempre as excepções, as raras excepções confirmam a regra.

«Zola à saída do tribunal» (1898), óleo sobre tela, 81 x 109,5 cm, do pintor belga Henry de Groux (1866-1930), Médan, Casa de Émile Zola. O quadro, também conhecido por «Zola ultrajado», evoca a turba nacionalista e anti-semita que o escritor teve de enfrentar em Fevereiro de 1898, à saída do tribunal onde fora processado por aqueles que acusara no seu célebre manifesto. A integridade física de Zola, nesse dia, apenas foi mantida graças à sua defesa por outros «dreyfusards», entre os quais o próprio pintor. CréditosBNF / Casa de Émile Zola

Esta nova ordem, fanática e totalitária, considera fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados que não conseguiram agenciar para seus arautos, sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por exclusivos interlocutores os seus pares e não a sociedade, para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Nos tempos pós-modernos Zola teria sido passado a ferro. Teria muitos intelectuais ao seu lado mas sem a força e muito menos a unidade com que se fizeram ouvir no caso Dreyfus. Desde os anos 60, com advento do mercado sobre a cultura e os vários episódios da Guerra Fria Cultural – leiam-se os documentos da CIA, que embora libertados sob tutela e a contagotas, são suficientemente reveladores – houve todo um trabalho de desagregação dos intelectuais e de desmantelamento da esquerda intelectual até se atingir o ponto crítico actual.

Há um gigantesco trabalho a fazer para que os intelectuais façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, ainda que com a consciência de que se essa não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que a ponha em causa. Para readquirirem o sentimento do seu papel social mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

  • 1.Debray, Régis, Le Pouvoir Intellectuel em France, Editions Ramsay, 1979
  • 2.Branco, Juan, Assange L’Anti-Souverain, les Editions du Cerf, 2020. O leitor que tenha dificuldade em encontrar o livro nas nossas livrarias – e terá – poderá encomendar a versão e-book do mesmo, publicada pela Rakuten Kobo.
  • 3.Ver A Guerra nos Balcãs: jihadismo, geopolítica e desinformação. Vivências de um oficial do Exército Português ao serviço da ONU, Edições Colibri 2016; e A guerra na antiga Jugoslávia vivida na primeira pessoa: testemunhos de militares Portugueses ao serviço das Nações Unidas / The Yugoslav Wars in the First Person: Testimonies of Portuguese soldiers serving with the United Nations, Edições Colibri, 2018, português/ inglês, com Luís Eduardo Saraiva e Henrique Santos.
  • Cunha, Raul, Kosovo, A Incoerência de uma Independência Inédita,Edições Colibri 2019

(publicado em AbrilAbril https://www.abrilabril.pt/ )

TÓPICO

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Insónias!

 

Salvador dali

Os últimos tempos tem sido de grandes preocupações para Catarina Martins. Só noite de insónias com o Tsipras e uma caixa de sapatos cheia de fotografias das meninas BE em efusivos beijos e abraços, escondido num armário lá de casa. Tem sido um desatino. No plano internacional, a Venezuela e aquela eleição para a Assembleia Constituinte “que não é democrática” porque na Venezuela não estão garantidas condições de liberdade e de pluralidade e há também uma enorme ingerência externa que condiciona muitas decisões que são tomadas e, portanto, sobre todos os pontos de vista diria que não estamos a olhar para uma situação democrática”, mas que raio de quem é a “enorme ingerência externa”? Os venezuelanos não deviam votar por causa da “enorme ingerência externa”? Uma boa ideia que não teve eco na Venezuela, foram votar e elegeram uma assembleia Constituinte! Uns estúpidos que se fizeram bem em não ouvir Trump, deviam ter ouvido o BE e a sua coordenadora. O que ela não diz é que a Venezuela está num imenso impasse porque Chavez e Maduro nacionalizaram o petróleo, o que permitiu redistribuir riqueza e dar enormes benefícios a milhões de venezuelanos que melhoraram substancialmente as suas condições de vida, enquanto o petróleo estava em alta, mas deixaram que 200 famílias de oligarcas continuassem a controlar 80% da riqueza da Venezuela com o imenso poder de controlar importações e exportações. Muito menos dizem que essas políticas, como foi amplamente noticiado sobretudo em Espanha, derivaram dos bons conselhos dos seus assessores do Podemos de Pablo Iglésias que substituiu nos braços das meninas do BE, Tsipras.

Angola também muito a preocupa, não porque as eleições fossem fraudulentas, viciadas mas porque “era bom que estas eleições fossem uma mudança, sabemos que não serão ainda, mas também sabemos que há uma nova geração muito empenhada numa mudança política em Angola que vai fazendo o seu caminho”. Aquela malta com tantos activistas a perorarem, dinheiro do Soros, o fraternal apoio das meninas e dos meninos do BE e os seus bons exemplos e não desemburram. Ficam atolados no empenho, nada de se fazerem ao caminho que as passadeiras da comunicação social lusitana lhes estendem para vencerem as distâncias marítimas. Uma frustação e muitas t-shirts nos sacos recicláveis dos supermercados das modernidades da esquerda pasta de sardinha e vinho rosé.

E agora a AutoEuropa, que tanto preocupa Catarina Martins que faz uma greve com uma adesão massiva que parou a produção o que espantou Chora esse sindicalista histórico do BE

Porque é que o homem se reformou depois de tão notável trabalho na Comissão de Trabalhadores?

Um sindicalista exemplar como muito claramente explicou o doutorando António Damasceno Monteiro, que foi director de Recursos Humanos da AutoEuropa num ensaio publicado na Análise Social em que explicou sem fas nem nefas a relação do Chora com a administração e os quadros dirigentes da empresa. Um sindicalista, o orgulho do BE, bem mais qualificado e com outro jogo de cintura  que o Carlos Silva da UGT apesar do carinho que nutria e nutre pelo Ricardo Salgado não tem, como se pode ler neste item do ensaio do Damasceno Monteiro onde explica como a AutoEuropa é um modelo de produção pós-fordista, desde que existam choras! Os sublinhados são meus.

9.4. A RELAÇÃO COM A COMISSÃO DE TRABALHADORES

A opção por uma relação privilegiada com a comissão de trabalhadores pressupôs que a escolha dos membros que integrariam esta futura estrutura representativa não fosse deixada ao acaso! Quando se começou a pressentir o desejo de constituição desta estrutura, provavelmente estimulada pelos membros ligados aos sindicatos da CGTP — muitos deles eram desconhecidos formalmente por não quererem revelar a sua identidade —, a empresa rapidamente «entrou em jogo». Contactou sigilosamente o director de cada uma das áreas para que este indicasse nomes de trabalhadores de «confiança» que pudessem integrar a futura estrutura. A escolha de um «líder» para esta comissão que inspirasse a capacidade de defesa dos interesses dos restantes colegas e que, simultaneamente, revelasse à empresa as informações necessárias foi ainda o aspecto mais difícil de ultrapassar. Tudo isto acabou por ser obtido através de um convite dirigido a um membro que mostrava enorme capacidade de persuasão dos colegas e que era permeável a uma forte influência. Foi com este dirigente da comissão de trabalhadores que a empresa estabeleceu uma entente cordial e que permitiu, na véspera dos grandes embates, conhecer antecipadamente, através de uma reunião sigilosa entre ele e o director de Recursos Humanos, quais os pontos que seriam objecto de análise na reunião do dia seguinte e a provável maneira de os ultrapassar. Nas eleições para a constituição desta comissão acabaram por aparecer duas listas: uma integrada e liderada por delegados sindicais afecta à CGTP (lista A) e outra constituída, preparada e devidamente suportada pela empresa em sessões de esclarecimento realizadas para o efeito (lista B). Esta segunda lista, inicialmente defendida pelo grupo de trabalhadores independentes de que já se falou — mas que não integravam a lista —, teve uma dupla missão: viabilizar não só uma estratégia de consenso, como anular a força veiculada pelos sindicatos. O risco que a empresa correu foi grande, mas a encenação, o planeamento e a capacidade persuasora e manipuladora de encenação, de alguns gestores permitiram um enorme êxito.

As eleições tiveram lugar em Abril de 1994 e os resultados foram os seguintes:

Trabalhadores inscritos 1 252 Votantes 843 (67,33%) Abstenções 409 (32,67%) Votos brancos44 (5,22%) Votos nulos9 (1,o7%) Lista A 261 (30,96) Lista B 529 (62,75%)

Com estes resultados, a lista afecta à CGTP elegeu três elementos e a lista B oito elementos, o que significava que a empresa se manteria soberana nas relações laborais a estabelecer. Em Abril do ano seguinte voltaram a realizar-se eleições para a comissão de trabalhadores face à transitoriedade do mandato da primeira comissão eleita. Os elementos afectos aos sindicatos da CGTP que no ano transacto haviam pensado ganhar facilmente as eleições optaram por fazer uma lista única com uma parte significativa dos anteriores trabalhadores eleitos pela lista B.

A proporção dos candidatos manteve-se a mesma, apesar de os trabalhadores se terem distanciado significativamente do acto eleitoral, optando a maioria por não votar, como se depreende dos números seguintes:

Trabalhadores inscritos 2367 Votantes 1105(46,65%)Abstenções1262(53,32%) Votos brancos 89 83,76%)Votos nulos 25 (1,05%)Lista única 991 (41,86%)

Os passos iniciais que acabaram por criar um modelo de orientação e de relacionamento permitiriam a paz social idealizada pela empresa.

Só preocupações para a Catarina Martins e para o BE! Noites de insónia que nem os ansiolíticos que a comunicação estipendiada lhes dá em doses cavalares, valha-lhes isso que muito os sustentam, acalmam suficientemente embora continuem a impulsionar o vento fresco que revolteia nas cabeças dessa gente gira.

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O Sono da Razão gera Monstros

goya 1

gravura de Goya

Que Donald Trump tenha ordenado bombardear uma base aérea síria com argumentos na base de informações “credíveis” que disse dispor, sem sequer solicitar autorização ao Congresso, como no mínimo e sem correr grandes riscos, deveria ter feito, não pode causar admiração a ninguém. Obama fez o mesmo quando mandou bombardear a Líbia. Ambos dispensaram-se desse trabalho e do mais elaborado trabalho de arranjarem um Colin Powell com provas das fábricas de destruição maciça que nunca existiram. Agora, na Síria, Trump atirou para as urtigas o desmantelamento do arsenal de armas químicas que os sírios possuiam e que foi destruído sob supervisão da ONU. Um proto-fascista do seu calibre, que se auto proclama campeão dos países civilizados, o que não deixa de ser uma boa piada, não se detém nesses pormenores. Como não se detém Hillary Clinton ou John McCain, ambos opositores declarados de Trump, que rapidamente lhe renderam homenagem e aplauso. Claro que também teve conforto no ocidente de Hollande, Merkel, Erdogan e outros tantos, na esteira de Blair, Aznar e Durão Barroso. Ninguém se preocupa ou preocupou em saber o que de facto aconteceu com as armas químicas em Khan Cheikhoun, sabendo-se muitíssimo bem que os terroristas as têm usado e têm arsenais de armas químicas como os que foram encontrados em Aleppo. A hipocrisia e o cinismo dessa gente é bem conhecido, está bem montado e bem suportado por uma comunicação social mercenária a nível internacional, é ler as notícias sobre os ataques a Mossul, compará-los com os que fizeram em relação a Aleppo.

O que é mais interessante e significativo, percorrendo os activos sujeitos das redes sociais em Portugal é o silêncio de todos os que se têm esfarrapado e continuam a esfarrapar em alta grita contra Trump, os seus próceres europeus, Le Pen, Farage, Geert Wilders, Frauke Petry e mais uns tantos e que agora não se indignam, chegando mesmo à desfaçatez de  apoiar a iniciativa de Trump, com mais ou menos vergonha e retóricas risíveis. Muita dessa gente diz-se de esquerda. Parece estar sempre na primeira linha da denúncia do ascenso das direitas no mundo, um perigo real, enquanto não há bandeira de uma qualquer luta fracturante que não agitem. Não há um acontecimento em qualquer parte do mundo que não os comova e suscite adjectivações loquazes e violentas. Desfilam  comentários e fotografias para legendarem execrações de políticos que abominam, metendo no mesmo saco o que não deve ser metido no mesmo saco e não metendo nesse saco quem deveriam meter.

A sua miopia política é inquietante. Mais inquietante ao pensar no que farão se um dia surgir nesta terra de falsos brandos costumes uma variante do dinossaúrio excelentíssimo. Devem estar confiantes numa manhã de nevoeiro ou num qualquer milagre de Fátima. Nem percebem que os zigue-zagues políticos em que se embrulham estão a contribuir para esse peditório que já está a ser feito. É ler muitos dos comentários que por aí se plantam nas notícias dos media. É percorrer, mesmo na diagonal, muito do que viaja nas redes sociais. Objectivamente vão dando o seu óbolo com os comentários que decoram as suas intervenções. A direita sabe, bem sabe, que a maioria dessa gente será metida na ordem com uns safanões a tempo.

Inquietante é perceber o que isso representa do triunfo actual da ideologia de direita, um cancro que não é um exclusivo da direita. Muita esquerda está contaminada, alguma em estado terminal. Esse é que é um perigo concreto e bem real. O sono da razão gera monstros que, pelo menos alguns, o percebam a tempo.

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ESTRADA PARA ALEPO

 

tunel

 

Enquanto o exército sírio vai retomando lenta mas seguramente Alepo das garras dos jihadistas do Estado Islâmico, da Frente Fatah Al Cham, que numa rápida cirurgia plástica para se tornar aceitável pelo Ocidente deixou de chamar Frente Al-Nostra, braço da Al-Qaeda na Síria, e uns combatentes de um Exército Livre da Síria que ninguém sabe ao certo quem e quantos são, se é que de facto existem, a estrada para Alepo atafulha-se de gente em pânico por ver os seus desígnios de destruição da Síria esboroarem-se.

A propaganda dos EUA-UE e seus aliados árabes, também conhecida por imprensa livre e informação de referência, afadiga-se a denunciar os bombardeamentos da aviação russa e síria em que mesmo nos dias em que n]ao tem por alvo essa cidade destrói vários hospitais em Alepo-Este, onde os jihadistas estão entrincheirados, fazendo numerosas vítimas civis, muitas delas crianças, contados por um Observatório dos Direitos Humanos para a Síria que tem sede em Londres, cuja principal fonte são uns Capacetes Brancos que quando saem do You Tube e tiram o capacete devem andar a disparar sobre os bairros de Alepo fora do controle do Daesh. Uma curiosidade é não se fazerem contas aos hospitais destruídos pelos media ocidentais. Fica a sensação que só nesses bairros havia um sistema se saúde notável com um número de equipamentos hospitalares raro em qualquer parte do mundo. Por isso não espanta que não se vejam imagens recentes, de ontem, de um hospital de campanha montado em Alepo-Oeste para receber quem foge de Alepo-Este.

Nada que os trave. Como não os travam as diferenças semânticas entre o que se passa em Mossul e em Alepo. Até parece que ou há dois Estados Islâmicos ou que o Estado Islâmico está confinado ao Iraque. Os terroristas em Mossul são rebeldes em Alepo. Os civis que os terroristas usam como escudos humanos em Mossul, são civis acossados pelo exército sírio e seus aliados em Alepo. Os civis vitimados em Mossul pelo exército iraquiano e pela frente liderada pelos EUA, que apoia a ofensiva, são vitimas acidentais e colaterais, enquanto os civis que morrem em Alepo são impiedosamente massacrados pelo exército sírio, seus aliados e pela aviação russa. Em Alepo, dizem eles, a ofensiva está a provocar um desastre humanitário sem precedentes só comparável ao Holocausto, que quando olham para Mossul verificam que a ofensiva se faz quase pacificamente com todo o respeito pelos direitos humanos e pelas convenções internacionais. A lista destas comparações entre as notícias dos media ocidentais e declarações dos representantes diplomáticos dos países da NATO em várias instâncias é quase infindável. Só não é maior porque subitamente um manto de silêncio está a envolver, vá lá saber-se porquê, o que acontece em Mossul.

Ainda mais estranho é a ajuda humanitária necessária para dar conforto aos civis que conseguiram escapar aos terroristas em Alepo, que disparam sem olhar a quem, sobre quem tenta fugir-lhes pelos corredores humanitários abertos, não ser distribuída aos refugiados que conseguiram fugir, insistindo-se num cessar fogo para fazer chegar essa ajuda aos territórios ainda em posse do Estado Islâmico. Ninguém, nos media ocidentais estranha esse sucesso nem a duplicidade da diplomacia ocidental que se intensificou agora para salvar os restos dos terroristas que continuam a bombardear as zonas que já estavam na posse do exército sírio e as que foram recentemente libertadas. A hipocrisia e o cinismo não conhecem fronteiras, Até se afadigam em calar ou desacreditar os relatos dos missionários cristãos que estão no terreno, como se assistiu por cá com o testemunho da freira missionária Guadalupe que só agora estão a surgir dada a situação no terreno ser cada vez mais desfavorável aos jihadistas.

Mas a estrada para Alepo não se fica pela Síria. É uma longa rota que está em todo o mundo, tem sinaleiros a cada curva, abre os semáforos a qualquer sucesso. A última mais sonante foi a morte de Fidel de Castro. Da direita, da grossa à envernizada, à esquerda pinóquio do grilo, ouviram-se e leram-se as coisas mais extraordinárias. Desde a mentira mais que provada ser mentira de Fidel ser um multimilionário até à mais vulgar observação que os milhares de cubanos que o homenageavam estavam a homenagear um ditador, um tirano, facto inédito em qualquer parte do mundo. Só faltou dizer que quem ficasse em casa ou saísse das filas era imediatamente fuzilado ou que atrás de cada três cubanos havia um comissário político a vigiá-los. Em Portugal o ponto alto foi alcançado pelo delírio etílico de um conhecido e celebrado comentador que descobriu que Fidel tinha destruído uma nação que era a mais próspera da América Latina e do Sul, coisa que só a Mafia seria capaz de dizer, nem sequer os mais empedernidos direitinhas.

Por cá, como em todo o mundo, a estrada para Alepo está sempre em construção. A toda a hora, a cada segundo. Basta ligar a televisão nos intervalos dos jogos de futebol e dos inúmeros programas a falar de futebol.

Muitas pedras tem a estrada para Alepo e muitas mais estão de reserva prontas a continuar a construir esta auto-estrada com múltiplas bifurcações em que se nega tudo, mesmo as próprias evidências, para manipular universalmente a opinião pública e manter um estado de alienação generalizado.

A estrada para Alepo, que essa gente percorre como formigas que não saem do carreiro, nunca encontrará a estrada para Damasco por lhe desconhecer o significado. É um túnel sem luz, sem que se vislumbre uma qualquer bruxuleante luz ao fundo.

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Eleições nos EUA

chefes-da-cidade-mova-jersia

Fotografia de Robert Frank, City Fathers,Hoboken, New Jersey in /The Americans

Democracia.Democracias

Democracia é, etimologicamente, o “poder do povo”. Significa literalmente que o povo pode escolher os seus líderes em condições de igualdade e liberdade. Abraham Lincoln proclamava que a democracia se fundava no exercício do voto, era «o governo do povo, pelo povo e para o povo». Um idealismo que outro fundador do conceito moderno de democracia, Jean-Jacques Rousseau, contestava pondo em causa a democracia ficar reduzida ao cumprimento do formalismo eleitoral. Defendia que a democracia não é compatível com minorias muito ricas e maiorias na pobreza. Criticava o parlamentarismo inglês do séc. XVIII: «os ingleses acham-se livres porque votam de tantos em tantos anos para eleger os seus representantes, mas esquecem-se de que no dia seguinte a terem votado, são tão escravos como no dia anterior à votação». Para Rousseau, um opressor não pode representar o oprimido. Um patrão não representa um empregado. Uma questão central no conceito de democracia.

Lénine foi mais incisivo: democracia para quem? Um governo «dos ricos, pelos ricos e para os ricos» não se chama democracia, mas plutocracia.

Debate que continua actual. Sem sequer colocar a questão que, depois de exercer o direito de voto, os cidadãos ficam afastados do exercício do poder político até novas eleições, que entre promessas eleitorais e governação as diferenças podem ser abissais, verifica-se que os sistemas eleitorais, uns mais que outros, distorcem deliberadamente o “poder do povo”. Mesmo nos países em que os votos, pelo sistema proporcional, são próximos da vontade um deputado de um partido maior é eleito com menos votos que um deputado de um partido menor. Comparando sistemas eleitorais as aberrações são muitas. Na Grécia o partido que tiver mais votos, mesmo um só voto, tem um bónus de 50 deputados que escolhe a seu bel-prazer. Nas últimas eleições no Reino Unido os resultados são surpreendentes comparando os deputados eleitos e os que realmente seriam eleitos se o voto fosse proporcional: Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209; Partido Trabalhista 232 / 203; Partido Liberal 8 / 48; UKIP 1 / 78. O Parlamento do Reino Unido está bem longe de representar a vontade do povo. Continuar a ler

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O Mundo às Avessas

magritte

A Grande Guerra (1964) / Magritte

Vivemos num mundo às avessas! Mundo manipulado por poderosa máquina que controla a comunicação social, que usa os meios tradicionais e os mais recentes proporcionados pela internet. Ser toupeiras para furar aqui e ali esse espesso manto acontece com afinco quase militante para cumprir o desígnio orwelliano de “num tempo de engano universal, dizer a verdade é um acto revolucionário.”

Não se olha a meios para alcançar os fins que usa e abusa da mentira que acaba, quando acaba, por ser desmascarada depois de ter atingido os seus objectivos. Das verdades e meias verdades para com a verdade me enganares, às omissões cuidadosamente controladas. Um bombardeamento noticioso e opinativo que enche as prateleiras da memória para essas prateleiras também serem de esquecimento. Recentemente essa gigantesca máquina de (des)informação esqueceu-se, na sua esmagadora maioria, de dar realce à sentença do Tribunal Internacional Criminal sediado em Haia, uma invenção dos EUA que cautelarmente colocaram fora da sua alçada os cidadãos norte-americanos e as tropas e mandantes da NATO, que ilibou por unanimidade Milosevic dos crimes de que fora acusado. Milosevic, o carniceiro dos Balcãs como era classificado por essa monstruosa máquina (des)informativa, morreu há dez anos na prisão sem que justiça lhe tenha sido feita.  O silêncio quase absoluto seguiu-se ao rufar dos tambores de guerra. Utiliza-se com enorme desenvoltura o sistema de ocultação e desocultação para que as mentiras propaladas se sobreponham às verdades que não podem ser desmentidas. As falsificações, mesmo as mais óbvias, são autenticadas pelo sistema mundial dos media para que a verdade não se distinga da mentira. A extrema gravidade deste mundo às avessas é que se continuam a fabricar  novas falsificações jogando com a falta de memória ou com memória distante e enovoada das falsificações anteriores.

Volta Goebbels estás perdoado! A verdade está definitivamente assassinada. É o triunfo do império onde tanto faz Clinton ou Trump chegarem ao poder. Nenhum será o mal ou o menor dos males. Ambos são o pior dos males. O mundo está cada vez mais perigoso.

( editorial do Jornal a Voz do Operário/Setembro 2016)

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O primeiro dia da campanha eleitoral para as Presidenciais

 

medusaA campanha da eleição presidencial que hoje  oficialmente se inicia teve nos tempos de pré-campanha algumas curiosidades que se devem registar por desnudarem, mais uma vez, os truques da comunicação social, entrincheirados nos critérios editoriais e jornalísticos. Esventram uma realidade de todos conhecida, por mais sabida, a do mercenarismo aliado à falta de qualidade profissional. O rol, só focado neste tema, seria extensíssimo, algumas notas são relevantes.

A mais notória, desde as primeiras notícias, é a da discriminização entre os candidatos. Todos têm nomes, mesmo títulos. Ele é o professor Marcelo, a imagem de marca muitas vezes dispensa os apelidos, a dra Maria de Belém, o professor Sampaio da Nóvoa, o professor Paulo Morais, o engenheiro Henrique Neto, a deputada Marisa Matias e por aí fora todos alinhados e identificados, até Tino de Rans, menos um raramente referido pelo nome Edgar Silva, sendo mais conhecido como o candidato do Partido Comunista.

O tom dos supostos moderadores e entrevistadores variou da indiferença, da sobranceria, do apoio amigo, à provocação rasca. Reveja-se por exemplo Judite de Sousa com Maria de Belém que aliás disputa o apoio da jornalista com o professor Marcelo, ou Clara de Sousa que, qual árbitro de um combate de boxe, interpôs-se entre os professores Marcelo e Sampaio da Nóvoa, para permitir ao professor Marcelo sair das cordas. No meio das horas de debates e entrevistas não faltou uma baixa provocação. Uma rasteira, pensava o espertalhaço jornalista, a Edgar Silva, querendo saber coisa decisiva num debate daquele teor, se iria visitar a Coreia do Norte. Ninguém se lembraria de perguntar ao candidato Marcelo que país africano escolheria para concorrer com o seu amigo Cavaco a trepar aos coqueiros, ou se Sampaio da Nóvoa, desvelado com o apoio de Mário Soares, iria viajar para cavalgar uma tartaruga ou quando e onde Maria de Belém iria procurar o padre Melícias para obter refrigério espiritual, durante e depois da campanha eleitoral. No mapa mundo só lá estava a Coreia do Norte para ver se o candidato do PC tropeçava num qualquer membro da dinastia Kim. Assim são os altos critérios jornalísticos e editoriais.

Para além dessas curiosidades, os debates tem revelado um professor Marcelo no seu melhor. Diz e desdiz-se com o à vontade de mais de quarenta anos na política activa directa e indirecta, perseguindo os mesmos objectivos, como militante activo, até com responsabilidades máximas,comentador, analista, e essa categoria inventada que faz as delícias da política parola, fazedor de factos políticos. Um faz tudo que tudo faz de vichyssoies políticas. Mesmo quando Sampaio da Nóvoa lhe abriu as defesas e aplicou uns ganchos e alguns uppercuts, não foi ao tapete e andou a fugir pelo ringue simulando uns golpes desapoiados como se fosse um candidato independente. Como bem disse Edgar Silva, o tal candidato do PCP, Marcelo é um mestre do engodo e do disfarce.  Oficioso candidato da direita tanto chora lágrimas de crocodilo pelas consequências das políticas de direita dos últimos anos que sempre amparou, mesmo quando criticava a forma e não o fundo, com jogadas de sumo oportunismo, chegando ao cúmulo de fingir não apoiar o que de facto apoiava. O professor Marcelo continua em todos os palcos, os que lhe oferecem e os que procura, o seu número de palhaço rico, mestre na dissimulação. A sua mais recente prestidigitação é o aparecer como um quase independente político e um interclassista a distribuir afectos. Ainda o havemos de ver mascarado de Francisco a pregar lérias aos votantes,  como se os seus amigos dilectos não fossem a alta finança e a alta burguesia, o seu berço. A comunicação social e as sondagens arrimam o estro e a lábia do personagem com desvelo.

Extraordinário, aliás nada extraordinário, é não houve ninguém que faça contas à campanha do prof. Marcelo. Sem pudor e desfaçatez quase fica roxo de indignação com os gastos das campanhas eleitorais dos outros candidatos. Não irá gastar raspas em cartazes, tempos de antena ou qualquer outro outro tipo de propaganda que não seja o esfolar solas a peregrinar pelo país, a distribuir abraços e beijinhos, a beber e pagar uns cafezinhos. Isto depois de mais de trinta anos a meter ao bolso os honorários principescos com que construiu a sua imagem nas televisões públicas e privadas. São milhares de horas nos chamados horários nobres televisivos É, de longe e em todos os tempos, a campanha eleitoral mais cara de algum partido ou candidato presidencial, com a particularidade de lhe rechear a carteira e demonstrar que, afinal, a banha da cobra é um produto valioso. Durante todo esse tempo, o único português, das dezenas de milhões que vivem em Portugal e na diáspora, que não sabia que o professor Marcelo fazia o seu caminho para Belém, carregado de ouro, incenso e mirra, era o próprio professor Marcelo, enrodilhado nas suas partes gagas, até ficar cansado de esperar que Cristo descesse à terra e  decidisse que era tempo de arrombar as portas do palácio de Belém.

O alfa e o ómega dos debates televisivos foi alcançado quando os candidatos Professor Marcelo Rebelo de Sousa e a dra Maria de Belém, no último debate, concordaram pressurosamente, que não se deveriam fazer julgamentos de carácter aos candidatos. Pudera! Com o currículo de qualquer um deles, um julgamento de carácter seria bastante corrosivo. O bicho comeria toda a maçã.

Com esse histórico, as sondagens, as sondagens valem o que valem e valem também para manipular, tal como a cobertura da comunicação social, o professor Marcelo, com um lastro de dezenas de anos de presença nas pantalhas televisivas, vai à frente e bem à frente de todos os outros candidatos. O grave e grande risco que Portugal corre é depois da múmia paralítica Cavaco trocar o Palácio de Belém pelo Poço de Boliqueime ver emergir das águas do Guincho essa medusa surfista que, ao sabor das ondas, vá fazer companhia aos nenúfares dos lagos de Palácio de Belém. Será constrangedor para Portugal, uma das primeiras nações do mundo ter como Presidente da República um invertebrado jongleur a jogar diariamente com bolas coloridas dos improvisos, das intrigas, dos enganos, das advertências e desavertências, das traições, como se a política fosse um jogo banal e não coisa muita séria na vida das pessoas. Esclareça-se, lute-se para que essa glorieta guiness não aconteça, nem na segunda volta eleitoral e muito menos no dia 24 de Janeiro.

 

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Comunicação Social, Critérios Jornalisticos, Geral, PCP

Somos um grande colectivo, mas…

Jornalistas, comentadores, opinadores, analistas, bloggers, todos têm direito à sua identidade, ao seu nome, muitas vezes acompanhado da sua profissão ou formação académica. Como sabemos, muitos são simpatizantes, militantes ou até destacados dirigentes de partidos políticos sem que isso seja expressamente referido. Não é sentida essa necessidade, falam em seu nome, exprimem o seu pensamento e convicção, não falam em nome do todo.

No entanto, isto já não acontece se forem simpatizantes, militantes ou dirigentes do PCP, porque, nesse caso, não são eles que falam, não é a sua opinião, mas de todo o Partido, é o pensamento e a acção do “PC” que estão em causa.

Como se sabe os comunistas não têm vontade, nem pensamento próprio, concessionaram-nos ao Partido, só voltando a readquiri-los plenamente quando e se passarem a essa categoria superior e vitalícia de «ex-comunistas».

Por muito que custe a compreender a alguns, um artigo de opinião no Avante! não é a opinião de todo o Partido, o texto de um comunista num blogue não foi aprovado em reunião do Comité Central.

Não negamos, somos, de facto, um grande colectivo, mas esse colectivo é feito de pessoas, de indivíduos que contribuem com a sua experiência de vida, com o seu saber e sentir para a construção do Partido, indivíduos que não se sobrepõem ao colectivo, mas que também não se deixam sobrepor por ele.

Já agora, repare-se como a comunicação social nos apresenta os candidatos presidenciais: o Marcelo, o Nóvoa, a Marisa e o candidato apoiado pelo PCP.

E eu que pensava que a «despersonalização» era uma ferramenta de perigosos regimes totalitários…

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António Costa, BANCO CENTRAL EUROPEU, BANCOS, BANIF, capitalismo, Carlos Costa, CDS, Coligação de Direita, Comunicação Social, Critérios Editoriais, Critérios Jornalisticos, Geral, GOVERNO PSD-CDS, Jorge Tomé, Luís Amado, Maria Luís Albuquerque, Passos Coelho, paulo Portas, PSD, Soares da Costa

SEM VERGONHA!

ROUBARMais um banco para o galheiro e ninguém vai preso! Os supervisores não têm culpas! Os administradores vão com os bolsos cheios para casa! O governo PSD-CDS esteve cego, surdo e mudo! Os comentadores ditos especializados (*) só se preocupam com o aumento de um euro por dia no salário mínimo, porque destabiliza a economia! O que estabiliza a economia são as dezenas de milhões enterrados na banca para salvaguardar o sacrossanto sistema financeiro e evitar os riscos sistémicos! Uma única certeza mais dinheiro de todos nós vai para essa camarilha privada que vive à conta dos dinheiros públicos! Porque é isso que tem sucedido, com formatos diversos, mas todas com o mesmo escabroso final na banca, do BPN até ao BANIF. Pelo caminho ainda está por resolver o BES!

A única novidade foi António Costa dizer que a resolução(?) do berbicacho BANIF, vai custar muito caro aos contribuintes, uns 3 000 milhões de euros! A dupla Passos-Portas mais Maria Luís Albuquerque ainda devem ter a lata de continuar a afirmar que o processo BES, não nos vai aos bolsos! Com o mesmo descaramento com que Carlos Costa afirmava que o BANIF ia dar muito lucro ao Estado. Claro que vai, como se está a ver e como veremos quando a novela Novo Banco findar. Só não se sabe ainda quanto vai custar. Enquanto o fado continua a ser cantado, há quem siga a ganhar à conta dessas falcatruas. O inefável governador do Banco de Portugal está firme no seu lugar, a distribuir tachos, a contratar por 30 000 euros mês o vendedor da banha da cobra Sérgio Monteiro para vender o Novo Banco, o que na gíria dessa gentalha chamam de BES-bom, um trabalho da treta que acabará sempre por dar grosso prejuízo ao Estado.

Quanto ganharam os administradores do BANIF até o levarem ao estado actual? Tiveram prémios pela sua actuação? Luís Amado, aquele personagem bem engomado que dá bocas parvoides sobre a situação nacional e internacional, no que é muito aplaudido por uma claque, leia-se o elogio que Seixas da Costa lhe faz no blogue, quanto ganhou como administrador do BANIF? Ainda não há muito tempo, numa entrevista ao Jornal de Negócios e Antena1, já depois do Estado, nós os contribuintes, ter recapitalizado o banco e emprestado mais algum, assegurava que proteger o BANIF é proteger o dinheiro dos contribuintes!!! O seu parceiro de administração Jorge Tomé ainda recentemente afirmava sem uma ruga de dúvida que o BANIF tinha uma situação de liquidez confortável, criticando notícias não fundadas sobre a situação do banco. Como se está agora a ver! Os farsolas, como todos os seus parceiros, vendem vigésimos premiados com o à vontade que têm todos os embusteiros bem encadernados e treinados. Depois é a conversa fiada e criativa dos activos tóxicos, dos remédios, das bolhas, das imparidades, do não sei quê, patati-patata, nunca têm culpa de nada, nunca são responsabilizados. O Zé paga para continuar a ver o desfile de intrujas bem pagos com o dinheiro que lhe esmifram!

No meio disto há a célebre e celebrada saída limpa! Saída chafurda em que o défice só não é excessivo e cumpriu os objectivos (qual o rigor científico dos objectivos? Alguém é capaz de explicar?) porque contabilisticamente os bondosos tecno-burocratas de Bruxelas decidiram que o dinheirame para a banca não entra nas contas. Se não fosse assim o défice do ano de 2014 seria de mais de 7% e não 3,2% por causa do BES e de este ano, por causa do BANIF seria quase 5% e não os prometidos 3% pela dupla Passos/Portas e a pendericalho Albuquerque, sempre a dizer as mais obscenas mentiras com a cumplicidade de truques contabilísticos!

Lembram-se de Passos a aconselhar os portugueses a não serem piegas? De Portas a falar de se viver acima das possibilidades? De em coro cantarem alto e bom som que não há dinheiro para a saúde, para a educação, para a investigação, para a cultura, para…? E o brutal aumento de impostos? E os cortes nos salários, nas pensões, nas reformas? Não há dinheiro? Há, há sempre dinheiro e muito para a banca!!! Agora com o BANIF já são mais de 20 mil milhões de euros enterrados nos cofres bancários. Pouco, muito pouco terá retorno. Na melhor das hipóteses nem 10%!!! Um bom negócio dizia essa gentalha! Gente mentalmente prostituída que espalha e contamina tudo à sua volta com uma pustulenta degradação.

Esse bando de aldrabões, esse bando de trafulhas bem pagos continua à solta a mentir sem vergonha e a transitar alegremente de cargos públicos para altos cargos no sector privado que lhes paga e bem os favores feitos ou por fazer. Quando as coisas correm para o torto, lá estamos nós para pagar os resultados da sua incompetência bem remunerada até ao dia da desgraça! Depois alapam-se noutro valhacouto dos amorins, belmiros, jerónimos ou beltranos da mesma igualha!

O crime compensa? Ninguém acaba com esse circo de palhaços sem talento? Ninguém é responsabilizado? Ninguém vai preso? Mente-se, engana-se, vigariza-se e nada acontece? Claro que é gente cheia de ética, muito séria profissional e intelectualmente. Gente preocupadíssima com a sanidade moral da nação, grandes amantes da legalidade, desde que as leis sejam o direito dos mais fortes à liberdade, por isso é que quem, com fome, rouba uma lata de salsichas é preso, quem rouba milhões ao país continua alegremente a rebolar-se nos melhores restaurantes e bares, a pavonear-se pelos salões, a ser ouvido na comunicação social subserviente,(*) a ter contas bancárias bem fornidas, a ser convidado para desempenhar altos cargos tanto no sector público como no privado! Gente que, enquanto trapaceia, proclama com ar profundamente sério o seu profundo amor à transparência, ao Estado de direito sempre a repetir aos quatro ventos, como homens cheios de princípios, uns paladinos da honra da virtude e da lei uns cruzados contra a corrupção,  algo que um seu antecessor menos sortudo disse: Hoje em dia, as pessoas não respeitam nada. Dantes punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas” (Al Capone, entrevista ao jornalista Cornelius Vanderbilt, Liberty, 17 de Outubro de 1931, poucos dias antes de ser preso por fuga ao Fisco). Sensibiliza-se essa preocupação veraz de cidadão tão exemplar, por isso me comovo quando, na mesma linha, Cavaco, Passos, Portas & Companhia apelam aos superiores interesses nacionais para fabricarem mais uma malfeitoria.

Até quando vamos viver/conviver com esses ratos de esgoto político-económico-financeiro? Não há processo de desratizar o país?

Há que acabar de vez com a pornografia rasca em que Portugal se atola.

 

(*) no bordel em que se transformou a comunicação social, o despedimento de Mourinho foi amplamente noticiado, durante vários dias e continua a fazer manchetes nos jornais, enquanto o despedimento colectivo de 500 trabalhadores da Soares da Costa foi referido, quando o foi, de raspão.

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António Costa, BE, Catarina Martins, Coligação de Direita, Copmunicação Social, Critérios Jornalisticos, Eleições Legislativas 2015, Independência da Comunicação Social, Jerónimo de Sousa, PCP, Poder Económico, PS, Rigor Jornalístico

Acudam! Acudam que o arco governativo está em risco!

arame farpado

Durante anos, dezenas de anos, culpava-se o PCP pela má imprensa, leia-se comunicação social, que tinha. Antiquado, anquilosado não percebia a vibração mediática pós-moderna que lustrava os media. O ghetto para onde o atiravam, era culpa do PCP que não percebia o que eram as novas exigências dos critérios jornalísticos, do pluralismo informativo. Pode ter havido inabilidades por parte do PCP. Houve, há e haverá, mas nada justifica o silêncio, a menorização ou a deturpação de posições e iniciativas do PCP que desde sempre foram sistemática, deliberada e contumazmente ostracizadas e trituradas pelos celebrados critérios jornalísticos.

Aparece o Bloco Esquerda, modernaço, políticos e políticas desempoeiradas, juventude em marcha na movida política, mesmo se muitos já não fossem assim tão cronologicamente jovens. Um clima arejado, um mainstream primaveril estabeleceu-se entre a comunicação social e o Bloco Esquerda, que mesmo antes de formalmente existir já estava embrulhado em boas manchetes. O Bloco, sem precisar de bater à porta, entrava nos salões, salas e saletas dos media para alegres e celebrados convívios.

Com essas danças e contradanças o pluralismo informativo pavoneava as suas penas arco-íris, enquanto paulatinamente ia afastando gente de esquerda dos seus quadros, fossem jornalistas ou comentadores. Iam ficando alguns para atenuar o mau cheiro progressivamente mais intenso.

O palco estava montado para dar credibilidade aos actores que sentenciavam sobre Portugal, os arredores, o mundo. Tudo corria bem na festança informativa até rebentar a bomba dos resultados das últimas eleições legislativas onde se desenhou a hipótese de haver um governo de esquerda suportado por uma maioria dos deputados eleitos, frente a uma coligação de direita minoritária. Os alarmes dispararam. Isto era tudo muito bonito e andava nos carris dos melhores dos mundos se o eixo político estivesse sempre na direita, rodando mais para a direita ou mais para a esquerda. Agora deslocar-se para a esquerda é que é insuportável. Da comunicação social mais rasca à mais sofisticada os tambores rufaram. Estala o verniz. O pluralismo informativo é atirado para as urtigas. A manipulação faz-se com despudor. Nenhum vício lógico os trava.

O PCP continua, com ligeiras variantes, no destratamento do costume. Lá concederam durante a campanha eleitoral que o Jerónimo era simpático, já sem se lembrarem do que disseram dele quando foi eleito secretário geral do PCP, na primeira linha alguns brilhantes jornalistas afectos à esquerda. Virados os resultados eleitorais, com o PCP a declarar a sua disposição em viabilizar um governo de esquerda, voltam a vestir ao Jerónimo a pele estalinista, de chefe de um bando de esfomeados comedores de crianças.

O Bloco de Esquerda é outra grande chatice. Andaram com a rapaziada ao colo, primeiro porque pensaram que ia tramar o PCP. Erraram estrondosamente. Depois porque pensaram que o BE roubaria os votos suficientes ao PS, para o PS ser derrotado e a direita ficar, mesmo que pela tangente, em maioria. Era o quadro das últimas eleições legislativas.A cobertura da campanha eleitoral foi toda ela vergonhosa. Brutos ou sonsos, os bonecreiros da comunicação social fizeram os possíveis e os impossíveis para a direita ganhar. Quando o BE, na esteira do PCP, também se declara disposto a viabilizar um governo PS, a casa vai abaixo.  A Catarina, a grande revelação da campanha eleitoral, que disse isso claramente no debate que teve com António Costa, perfila-se como uma perigosa assaltante da natureza do sistema e do repouso que havia à sombra do arco governativo.. Não querem lá ver a catraia, já se dá ares de Jerónimo! Perdem a cabeça. Só falta dizer que Bonnie e Clyde, mesmo sem terem ainda falado um com o outro, andam a assaltar bancos e a semear o pânico. na bolsa e nos mercados, enquanto abrem caminho a António Costa, um perigoso esquerdista, como alguns, não poucos, camaradas de partido esclarecem nos media que dão largo tempo de antena a essas cassandras sejam lellos ou assis.

Dos pasquins ao jornalismo dito de referência o vulcão entrou em actividade, derramando a lava das evidências: o pluralismo informativo, o rigor jornalístico é uma ficção! Os meios de comunicação social não têm qualquer independência em relação ao poder do capital. São uma tropa fandanga de mercenários que, com maior ou menor habilidade e talento, estão ao serviço dos poderes económicos e dos poderes políticos sujeitos a esses poderes económicos.

Bastou no horizonte esboçar.se a vaga sombra de um governo de esquerda para as marionetas começarem a festa! O cair de as máscaras ser uma desbunda tonitruante! O jornalismo nunca foi um paraíso imaculado, povoado por virtuosas virgens, esquadrões de amazonas (de todos os sexos entenda-se) de espada desembainhada  à procura da verdade. A grande evidência neste lavar de cestos eleitorais é que não há qualquer liberdade imformativa. São um polifónico coro  da voz dono. Pensam, escrevem, falam todos o mesmo com variações meramente formais.das mais primárias às mais elaboradas.. Todo o universo da comunicação social está contaminado e alinhado à direita. Já dispensam as encenações, as gesticulações de esquerda que alguns faziam para simular diversidade editorial e de opinião. Restam uns jornalistas que dentro desses campos de concentração onde se incinera diariamente o que resta da isenção e do rigor informativo resistem e vão, legitimamente, sobrevivendo. Plantam umas flores no meio do pântano. São cada vez mais raras.

O que é extraordinário, mesmo inquietante, é ver, ouvir e ler pessoas de esquerda que se sentem enganadas, quase traídas por essa comunicação social. Indignam-se. Será bom que além de se indignar percebam o que já deviam ter percebido há muito tempo para lerem todas as notícias com redobrada atenção, o que lhes evita futuras surpresas e a formulação de juízos erróneos sobre outros assuntos candentes. O crivo que filtra as notícias sobre o momento político que se vive em Portugal é o mesmo que é aplicado ao restante noticiário económico, internacional, cultural. O sobressalto e o estupor provocado pela dimensão e vigor dessa barragem noticiosa deve ser um alerta para a gigantesca fraude universal montada através da comunicação social para moldar as nossas opiniões, apoderar-se da nossa consciência política, da nossa capacidade crítica, da possibilidade de termos um pensamento independente do que é imposto pelo governo invisível do poder económico. É assim, que muitas vezes estamos a julgar pensar pelas nossas cabeças e estamos a pensar o que eles querem que pensemos, por estarmos intoxicados pela manipulação mediática, pelas mentiras que mesmo as verdades induzem. Uma teia altamente sofisticada e complexa onde nos querem prender. Tenhamos consciência que a escravidão mental está a ser implementada a alta velocidade.

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