Artes, Assembleia da República, Berardo, Centro Cultural de Belém, Geral

Portugal Berardizado

A casca grossa de Berardo teve a inegável qualidade de mostrar como o Portugal democrático pós-25 de Novembro se berardizou, gerando uma nova aristocracia que tem um lema oculto gravado a fogo: pobrezinho sim, honesto nunca.

As alarves gargalhadas de Joe Berardo na Assembleia da República incendiaram indignações em todos os cantos e recantos do nosso Portugalito (o Portugal que tem por brasão o Galo de Barcelos de preferência actualizado na versão da Vasconcelos) como se as tivessem ouvido pela primeira vez e essa não fosse a imagem de marca do comendador pontuando uma arrogância e petulância que começaram a ser mais visíveis e sonoras desde que adquiriu estatuto social quando trocou a lavagem do cupão, com que driblava o fisco, por uma súbita paixão pela arte que lhe garantiu uma corte que lhe engraxava o ego e lhe selava uma nova imagem pública a troco de umas espórtulas.

O Joe Berardo que um pelotão de jornalistas, comentadores, políticos, advogados, economistas e o mais que vier à rede encosta à parede para fuzilar pela falta de respeito das graçolas com que respondeu na Comissão de Inquérito na AR é o mesmo Joe Berardo que quase ninguém censurou quando disse que Isabel Pires de Lima era “estúpida e saloia” por fazer um mínimo de exigências para a colecção de arte, aumentada e reciclada, transitar de Sintra, onde Edite Estrela tinha aceite tudo e mais alguma coisa num protocolo sem inventário, valores das obras, títulos de propriedade, etc., para o Centro Cultural de Belém. O mesmo Joe Berardo que proclamou que Gabriela Canavilhas era “uma mentirosa” quando mandou investigar as trocas e baldrocas com que o comendador cumpria a sua parte do protocolo referente à aquisição de obras para valorização da colecção à sombra do superior interesse artístico” (Bernardo Pinto de Almeida dixit) uma fragância que asperge qualquer negociata, sem que ninguém se indignasse. Estórias já aqui contadas.

Estórias já contadas no AbrilAbril e em 2006 no Avante! aqui e aqui

O Joe Berardo a quem atiram pedras prenhes de virtudes é o mesmo Joe Berardo agraciado com o título de Comendador e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique a par de outros “barões assinalados”, bavas, granadeiros, amados, salgados, rendeiros, azevedos, carrapatosos, júdices e tantos outros merdalhados (esta roubei-a ao Fernando Assis Pacheco) que se destacaram “por engrandecer a sociedade portuguesa pelo seu trabalho e influência económica” e que hoje são assaltados pelas insónias provocadas por partilharem tamanhas distinções com aquele apalhaçado personagem que em vez de se mostrar respeitavelmente indignado com as suspeitas, se entrincheirar em irreversíveis falhas de memória, desatou a disparar piadolas para indignação geral, em particular daquela fatia de deputados que quer impingir culpas a outra fatia de deputados, todos muito incomodados pelas suas peregrinações pelas mecas da economia de mercado ficarem maculadas pelas blasfémias que caracterizam o seu funcionamento e que deveriam ser sempre publicamente apresentadas como sumas virtudes.

O Joe Berardo a quem espetam o dedo no umbigo acusando-o de ter armadilhado as garantias que deu à banca, quando a banca tardiamente se inquietou por lhe ter dado milhões de mão beijada, é o mesmo Joe Berardo que se fornecia dos materiais para as fabricar nos mesmos armazéns de onde saíam os contentores com as ferramentas para forjar as grandes manobras financeiras que causaram perdas de milhares de milhões de euros, que os portugueses estão a pagar e vão continuar a pagar durante muitos anos, enquanto essa gente na sua maioria se continua a banquetear esparramada ao sol da impunidade que o sistema permite e só uns tantos, vitimados pelo pecado da sofreguidão, se expuseram aos riscos de terem agora que escapar entre os pingos da justiça. Em coro, todos proclamam as virtudes do Estado de Direito, sabendo melhor que ninguém que entre a justiça e o direito há um abismo difícil de transpor e que o direito é sempre o direito do mais forte à liberdade, por isso têm sempre à mão de semear uma trupe de reputados juristas prontos a peneirar os códigos em seu benefício.

Este Joe Berardo a que agora muitos viram as costas, mudam de passeio para o outro lado da rua é o mesmo Joe Berardo aceite encomiasticamente no universo empresarial enquanto empreendedor ultrapassados os incómodos que tinha provocado quando, aos quatro ventos, se proclamou especulador, o que alarmou os outros especuladores seus concorrentes que vestiam os assertoados fatos do empreendorismo que tornam mais fofas e espessas as alcatifas do poder por onde circula o regime económico/financeiro, o regime jurídico/legislativo, o regime político/jornalístico.


O Joe Berardo objecto do tiro ao alvo da comunicação social é o mesmo Joe Berardo que ainda não há muito tempo resplandecia endeusado pela bajulice da esmagadora maioria dos jornalistas e comentadores, sobretudo das áreas económicas, políticas e das artes. Excepções raríssimas existiram, mas sem excepções as regras não existem. Brilhava dentro da mesma moldura onde se amontoam os figurões que manipulam os cordéis da promiscuidade entre a política e os interesses económicos, que esses escreventes mercenários do regime endeusam até aos limites do quase impossível para lhe dar a credibilidade que nenhum Polígrafo, nenhum FactCheck que não esteja viciado na sua raiz lhe pode dar.

A casca grossa de Berardo, a desfaçatez de Berardo em exibir sem pudor a impunidade que sente possuir e que não é dele, é a que o sistema oferece a ele e a todos os outros berardos sejam de rústico barro ou fina porcelana, tem a virtude de arrancar sem contemplações nem detenças as diferentes túnicas em que se tem embrulhado a democracia em Portugal para o voltar a entregar aos grupos económicos que tinham sido desmontados no período revolucionário do pós 25 de Abril e aos que se formaram sobre esses destroços, relembrando a actualidade do Príncipe de Falconeri “tudo deve mudar para que tudo fique como está”, um lugar-comum que se globalizou.

A casca grossa de Berardo teve a virtude de evidenciar a promiscuidade institucionalizada entre o poder político e o poder económico. Entre empresas, fundações, banca, institutos e o mais que a imaginação do empreendorismo seja capaz de inventar, em que as fronteiras entre o público e o privado são porosas, o trânsito entre quadros é intenso. A casca grossa de Berardo teve a virtude de ver como os mesmos políticos, jornalistas, juristas, economistas, comentadores que mais aplaudiam os lances em que Estado era refém dos interesses económicos e financeiros de alguns, engrossam agora a voz para enforcar em público os geniais gestores, os banqueiros de sucesso, os empresários visionários a que curvavam o cerviz, serviam com denodo. São os mesmos que correm atrás dos que estão no terreno para os elevar ao Capitólio em que tinham colocado os que agora condenam à Rocha de Tarpeia.

A casca grossa de Berardo teve a inegável qualidade de mostrar como o Portugal democrático pós 25 de Novembro se berardizou gerando uma nova aristocracia que tem um lema oculto gravado a fogo: pobrezinho sim, honesto nunca.

(publicado no AbrilAbril 26 junho 2019)

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Berardo – As Tranquibérnias do Amor à Arte – 3

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O amor à arte em vários andamentos facetos e grossos sofismas

Capelo sabe-o muitíssimo bem e quando afirma “odeio as relações de dinheiro com a arte (…) A passagem do mundo do dinheiro para o mundo do prazer estético para mim não funciona” está a ter uma tirada digna dos Gatos Fedorentos mais ainda quando mistura alhos com bugalhos “tenho tanto prazer a ver um Pollock, um «dripping» que pode custar cinco a dez milhões de dólares, como a ver um Michaux ou um Mark Tobey que custam umas dezenas de milhares de dólares — isso não tem nada a ver com dinheiro”. Um sofisma que faria Protágoras corar de inveja. Quem está a ter prazer estético ao ver uma paisagem do Hogan não está a pensar no seu valor de mercado. Se a compra, esse prazer estético começa a ter um valor de mercado que não corrói o prazer estético, mas altera-o. Ninguém vai a um museu ver obras pelo seu valor de mercado, nem o valor de mercado está inscrito nos catálogos. Mas todas as obras têm valor de mercado. Capelo podia-se poupar a alinhar mistificações para as compras que fazia para Berardo, já era suficiente metê-las no cartucho do putativo amor à arte do comendador. Fazia as compras colocando nos pratos da balança o valor estético e o valor de mercado antes de decidir se efectuava ou não a sua aquisição. Podia-se poupar e poupar-nos a essa exibição de hipocrisia, bastava lembrar-se de Warhol, esse malabarista mestre do cinismo artístico, “a melhor arte é um bom negócio” e de como o mercado das artes canibaliza o prazer estético.

A colecção cresceu centrada, pelas razões referidas, na arte pop e minimalista. Foi publicamente exposta pela primeira vez em Sintra, em 1997. Para lá das críticas, das dúvidas que poderia suscitar era um vasto e coerente conjunto de obras de arte moderna internacional, coisa que não existia em Portugal. O espaço era escasso para a dimensão que a colecção já nessa altura tinha. As loas à volta de Berardo-coleccionador de arte que é o mesmo Berardo-especulador faziam soar os trompetes dos famosos nos mais variados tons e sons. O interesse do comendador Berardo pela arte foi narrado das mais diversas maneiras, algumas bastante extravagantes. Uma das mais curiosas talvez seja a relatada por Maria João Seixas num programa da Antena 2, em que fazia a defesa da necessidade da colecção Berardo ficar sediada em território nacional. Contou a jornalista cultural e amante cinematográfica que, num jantar em que participou com o comendador na continuidade de uma inauguração de uma exposição temática da colecção, Berardo explicara que tendo decidido preencher uns vazios das paredes lá de casa, incumbiu a mulher de o fazer, o que ela fez recorrendo a reproduções, o que muito o indignou. Não querem lá ver, então um homem de tantos cabedais ia ter nas paredes reproduções? Não senhor, venham de lá os originais. E assim começou a colecção, historieta que muito enlevou os prendados presentes e João Seixas, transportada no delírio cinematográfico de se sentir intérprete de uma cena portuguesa a replicar em versão nefelibata O Gosto dos Outros, alumbrada com a simplicidade e as ingenuidades do comendador, rapidamente corrigidas com o contributo de muito bons, na sua opinião, conselheiros. Berardo, com esse novo baralho entre mãos, batia as cartas com estridor. O rasca Berardo tinha subido os degraus dos altares da arte contemporânea em que os mais mediáticos protagonistas tanto se veneram como surdamente se pontapeiam. Começou a desfilar em vários palcos debitando sentenças farroupilhas, vestido com o smoking de benemérito das artes alugado num adelo da roda da moda.

A colecção continuava a crescer, até que em outubro de 1999, Francisco Capelo abandona a colecção e o comendador avisando o mundo em alta grita que a colecção poderia “vir a ser alvo de eventual dispersão e destruição” porque Berardo tinha a “lógica perversa de sempre mais dinheiro” blalala faz barrela pública onde desfaz todo o seu argumentário anterior. Uma chuva que molha, mas não trespassa a nova plumagem de Berardo que não precisa de vir à janela para os joãos ratões lhe entrarem porta dentro oferecendo-se para substituírem Capelo e o orientarem nos labirintos dos terreiros onde se mercadejam obras de arte. Ele aí vai, ora com uns ora com outros, não perdendo tempo a destratar na praça pública Capelo, “ele que me pague o que deve”, que com tanto carinho lhe tinha maquilhado a imagem de padrinho das artes. O polimento não tinha sido suficiente para afagar a casca grossa do comendador como mais tarde e sempre se verá. Mas tinha sido o suficiente e necessário para Berardo em 2003 ocupar o 56º lugar e em 2007 o 75º lugar entre os mais poderosos das artes na lista que a ArtNews publica regularmente. Nada como ter dinheiro fresco, venha lá de onde vier, e ir às compras, para se ser poderoso e influente no mundo das artes.  Neste estado da arte os critérios económicos, coteje-se com atenção os últimos dez anos dessa variante forbes da ArtNews, dominam os estéticos, mesmo o das  falácias de Danto e de uma crítica de arte que é certeiramente radiografada Mário Perniola  em A Arte e a sua Sombra  “no mundo da crítica da arte jovem está difundida a opinião de que a arte de hoje pode prescindir da teoria: o papel do crítico de arte deveria limitar-se a uma espécie de crónica e de promoção publicitária dos artistas que lhe agradam, sem nunca intervir em questões, já não digo estéticas, mas poéticas ou até relacionadas com a história da arte”. Não é um exclusivo das artes visuais expande-se pelo estado geral da cultura que já nos anos 50 inquietava Blanchot: “secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o”. Desde esses anos tudo se tem agravado e muito, cite-se novamente Perniola, “a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado”. É uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque tudo é meramente casual onde, dirá Kundera,” tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

 

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Berardo – As Tranquibérnias do Amor à Arte-2

 

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2- As telenovelas do amor às artes e do investimento em arte

O amor à arte do Berardo começa quando as máquinas em que lavava o cupão ameaçaram gripar. O lavador era Pedro Caldeira, corretor oficial da Bolsa que fez negócios de milhões nos anos 1985 até 1987, quando se andava a “comprar gato por lebre”, como disse Cavaco primeiro ministro antecipando o crash bolsista. Francisco Capelo, sócio de Caldeira, vendo crescer o incêndio em que Caldeira iria ser devorado, avisou Berardo que as máquinas onde ele lavava regularmente o cupão, fugindo a pagar ao fisco  milhares de contos, iam queimar os disjuntores. Berardo retirou os fundos que tinha entregue a Caldeira acelerando a sua queda. Francisco Capelo tornou-se colaborador próximo de Berardo, convence-o a investir em arte. Desperta-lhe um amor súbito e avassalador pelas artes. Deve ter sido uma fantástica revelação descobrir que Dubuffet não era uma cadeia de restaurantes, Duchamp uma linha de cosméticos, Yves Klein, uma marca de jeans, mas artistas que produziam umas coisas chamadas obras de arte que tinham a particularidade de não se desvalorizarem. Uma coisa é certa, Berardo é um óptimo farejador. Rapidamente percebe, do lado dos bens materiais. o interesse em explorar esse nicho de mercado que andava com os preços em baixa. Do lado dos bens imateriais o estatuto social a que se alcandoraria e, entre os meios intelectuais, a corte que rapidamente recrutaria a baixo custo. Essa reviravolta começa a ser notada no mundo dos leilões a partir de 1993. Torna-se tão frenética que no final de 94 a Art News falava de um «Portugal’s mystery man» que agitava, sob anonimato, os leilões desses anos de crise. Depois de Francisco Capelo se dar a conhecer The Art Newspaper noticia que sempre que ele é visto nas salas dos leilões já se prevê o entusiasmo com que licitará obras para a colecção Berardo.

Capelo homem ligado à banca de investimentos depois da experiência adquirida na corretagem, “a minha vida é fazer negócios”, com o lastro da “arte de fazer dinheiro, minha e do comendador, não é má” atirou-se ao mercado numa altura em que os preços se tinham afundado, depois da grande especulação dos anos 80. As galerias estavam crivadas de dívidas à banca, sendo obrigadas a vender os seus activos e não tinham capacidade para renovar stocks, fossem melhores ou piores. As obras de arte dos anos pós-guerra estavam a preço de saldo por serem raríssimos os compradores. São os anos felizes em que se tornou numa estrela do mercado das artes e, justiça seja feita, construir uma colecção coerente, independentemente das avaliações estéticas. Ele sabe, bem sabe, que comprar uma obra de arte por maior que seja a paixão, enredo em que não se deixa enredar, é sempre um investimento apesar de dizer que “isso é uma estupidez (…) as pessoas que dizem que compram arte para ganhar dinheiro vão perder de certeza, porque não é essa a atitude para comprar arte”. Diz isto, sem uma ruga de dúvida, quando o historiador Hendrik Willem van Loon afirma, preto no branco, que  “a arte é melhor barómetro do que está a acontecer no nosso mundo. É melhor que o mercado de acções ou os debates no congresso”. Nesses anos por cá a Banifundos, a sociedade gestora de fundos do Banif, foi autorizada pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, o supervisor do mercado financeiro, a abrir as portas a quem quisesse investir em arte através de um fundo de investimento o Art Invest. O seu principal património, 63%, era  o The Fine Art Fund, o primeiro fundo do The Fine Art Fund Group,  um fundo gerido em Londres, embora esteja constituído sob a forma de uma sociedade em Delaware, no EUA. O prospecto da oferta pública de subscrição do Art Invest alertava que o The Fine Art Fund, é “um fundo que não está sujeito a nenhuma entidade reguladora nem supervisora acarretando por esse motivo um risco acrescido”. Risco acrescido ou benefício acrescido para os subscritores a quem era concedida a graça, a quem investisse 150 mil euros nesse cabaz de bens artísticos, de levar temporariamente algumas obras de arte para casa. Um amor à arte com prazo de validade.

Capelo faz aquelas afirmações com uma convicção inoxidável, quando um banco de negócios, entra no universo banca por essa altura, o Banco Privado Português (BPP) de Rendeiro, Berardo acionista, começa em 2004, a entrar nas artes com um novo produto financeiro, um fundo internacional de investimentos em arte, com dez por cento do capital assegurado pelo próprio banco, projecto que visava de início constituir uma colecção que poderia vir a ser vendida em bloco, ao fim de dez anos. O fundo evoluiu para uma fundação, a  Ellipse Foundation, com sede na Holanda. João Rendeiro, o celebrado banqueiro que oito dias antes do BPP falir lançou, com pompa e circunstância, um livro Testemunho de um Banqueiro com o  subtítulo A história de quem venceu nos mercados e um autocolante a pregoar Invista com segurança – 10 conselhos, diz que isso “nunca foi ponderado embora o projeto tivesse uma componente de investimento em relação aos participantes na fundação”. Será preciso fazer um desenho? Se calhar para o Capelo é.

As compras eram feitas por uma comissão especializada de curadores, bem incrustados no sistema que às incompatibilidades dizem nada. Um tem um longo percurso de natação nas artes e viria a ser assessor para a cultura de Sócrates-primeiro ministro, outro era director do Museu do Chiado o terceiro era curador do banco Morgan. Isto gerou alguma controvérsia , com bastante complacência da imprensa cultural lusitana, brandura que não teve a revista espanhola Exit Express num editorial intitulado Elíticamente Tuyo. Mais tarde voltou, aliás, a fazer referência ao assunto. Essa equipa, assessorada por outros nomes sonantes, selecionava e comprava obras de arte com maior potencial de valorização no mercado para garantir aos investidores uma rápida  rentabilização. São dois fundos de investimentos em arte, sob a forma de fundação ou não. São comparáveis aos hedge fund, com a diferença de a possibilidade de replicação do investimento ser mais segura, os activos não desvalorizarem.

Pela lógica de Capelo, os fundos seriam estúpidos. Nem os manipuladores do fundo são estúpidos (outras histórias para contar) nem o é Capelo que pregava para o aquário do mundo das artes onde nadam muitos peixes que acreditavam e acreditam ou fingiam e fingem acreditar nessas lérias. Ele e todos nós sabemos que a obra de arte é filtrada pelos museus galerias, coleccionadores, instituições públicas, feiras de arte. Que sobre as obras de arte escreve-se em meios de comunicação social, generalistas ou especializados, muitos deles suportados pelos seus circuitos comerciais. Uma massa flutuante de informação que acaba fixada na(s) História(s) de Arte que desse modo as certificam. Na arte a história e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema financeiro em que Capelo é especialista. Também sabe, como todos nós sabemos, que as galerias de arte, os museus e as colecções de arte polarizam artistas e público. Codificam preconceitos e reforçam a imagem de uma classe média e média-alta. Que aí a estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, financeiro e intelectual. Que esses, em última análise, são locais onde se vendem estacionam ou coleccionam objectos de arte, onde o artista é um individuo comercial disfarçado por um espaço institucionalizado que o protege da análise e crítica do público. É uma estultícia mistificar esse universo onde, nos nossos dias, convivem Piero de la Francesca, Rembrandt, Picasso, Matisse com Hirst, Koons, Tracey Emin, Warhol ou por cá, para nos limitarmos aos contemporâneos e a quatro nomes, Júlio Pomar e Paula Rego com Joana Vasconcelos e Barahona Possollo. A arte é actualmente um nicho do mercado dos objectos de luxo. Isto é possível porque a crítica de arte está reduzida a uma espécie de crónica e de promoção publicitária dos artistas sem colocar questões de ordem estética, poética ou até relacionadas com a história de arte. São um instrumento do mercado. Desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se fundam não tem comprometido a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana. Aliás essas desmistificações, por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para locais onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. É o triunfo do economicismo puro e simples que para Ariel Kolnai, Le Degout. não é repugnante, quando procede segundo uma lógica abstracta da qual a vida está excluída. Passa “a ser repugnante quando se entrincheira por detrás dos valores, da ideologia, ou seja, por detrás duma afectividade enganadora e hipócrita”. No aqui interessa, a instituição da arte contemporânea torna-se repugnante quando oculta o seu carácter de mercado de bens de luxo por detrás da exaltação retórica de um idealismo estético em que ninguém acredita.

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Berardo- As Tranquibérnias do Amor à Arte – 1

O texto é longo porque a história é longa! Está a ser publicado em AbrilAbril. Aqui no blogue vai ser publicada em quatro episódios

Berardo

 

1.- Obscuros recantos de um protocolo formoso mas não seguro

O protocolo entre Berardo, por via Associação Fundação Berardo dona da colecção que ocupa os espaços expositivos do CCB desde 2007, estava a ser renegociado com o Estado/Ministério da Cultura, quando perguntaram ao ministro Luís Castro Mendes qual a posição do Estado por a colecção ter sido dada como garantia aos bancos credores do comendador, uma notícia já antiga.

O ministro respondeu que desconhecia essa situação. Protocolo assinado, os bancos accionam a garantia, executando a penhora. Mais uma vez inquirido Luís Castro Mendes assegurou que «o governo à data dessa renovação do protocolo, tal como não tem à data de hoje, conhecimento da existência de qualquer penhora».

Do outro lado da mesa, Berardo negava o que era do conhecimento geral, publicado em quase toda a comunicação social. Escudava-se no truque de ter dado como garantia das suas gigantescas dívidas à banca títulos da Associação Colecção Berardo, e não a colecção Berardo.

Só que essa entidade é referida na adenda ao protocolo celebrado com o Estado em Abril de 2006 como «dona e legítima possuidora» do acervo de obras de pintura, desenho, escultura, instalação e fotografia, que foi inventariado e depois avaliado pela Christie’s em 316 milhões de euros, conforme documentos anexos ao protocolo.

Castro Mendes reforçou a anterior afirmação revelando que o comendador e a sua equipa lhe «garantiram que não havia nenhuma penhora, total ou parcial, sobre a colecção». Entre a palavra de Berardo e o que era do conhecimento de todo o mundo e ninguém, só não se pode estranhar o desconhecimento de um ministro, que além da Cultura tutela a Comunicação Social onde o assunto era tema recorrente, por esse ministro ser um homem das literaturas, pelo que se poderá presumir que estaria a protagonizar uma variante de um conto de Edgar Allan Poe em que ninguém via uma carta roubada por estar demasiado visível.

Berardo, com grande alarido como é seu timbre, proclama: «Nem pensar, a colecção está muito bem onde está (…) a garantia são os títulos, mas isso não quer dizer que a colecção desapareça daqui».

Num ponto tem Berardo razão, nada indicia que a colecção desapareça dali. A execução da penhora, em princípio, obriga os bancos que a mandaram executar a cumprir os compromissos assumidos pela Associação Colecção Berardo.

Uma das coisas que poderá suceder é a substituição de Berardo e seus pares nessa associação, por representantes dos bancos na Associação Colecção Berardo com reflexos, à luz do protocolo, na constituição da administração da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo, que gere a colecção em exibição no CCB o que, olhando para as negociações Berardo-banca dos últimos dez anos, não dá certezas nenhumas, sobretudo por o Estado, antes de rever o protocolo, não ter acautelado essa situação mais do que previsível que até poderia ter tornado mais consistente a expressa intenção comprar em definitivo a colecção.

Negociar com Berardo não é o mesmo que negociar com os bancos, sobretudo quando entre os executantes da penhora há um banco público, a CGD, com 40% tem uma das posições mais importantes, a par do BCP e outro, o Novo Banco com 20%, em que o Estado, depois da venda à Lone Star, ficou com 25% do capital, e há uma colecção de arte por resolver.

Seria escandaloso que esses bancos em que o Estado tem posições significativas, e que têm sido mãos rotas para o Berardo, fossem mãos fuinhas com o Estado, não se chegasse a um acordo exequível. Haverá outra questão para resolver: qual o lugar do comendador na administração da Fundação, porque no protocolo original, deve ter transitado para o actual, se consigna que José Manuel Berardo é, a título vitalício, presidente da Fundação que gere os destinos da colecção estacionada no CCB com mais cinco administradores, dois nomeados por ele, dois pelo Estado e um de comum acordo.

Um nó para desatar que só por desatinada tonteira foi atado no protocolo primeiro e, pelo que estava mais que anunciado, não foi prevenida por ainda mais desatinada desatenção na negociação do segundo protocolo.

Os empréstimos contraídos por Berardo, os que estão no centro deste imbróglio, são o dobro dos 500 milhões sob colateral garantia da colecção de arte.

A CGD e o BCP concederam 400 milhões de euros, o Novo Banco, na altura BES, 200 milhões. Mil milhões de euros que foram «investidos», na compra de acções do BCP, a 3,9 euros por acção, e que hoje valem 0,2394 cêntimos (cotação média às 11h do dia 16 de Agosto).

Os mil milhões de euros evaporaram-se, deixaram um resíduo de pouco mais de 61 milhões euros, o seu valor actual. Uma excelente demonstração do que Marx chamava capital sombra. Só existe enquanto gera um lucro fictício.

Isto de chamar investimento a uma operação que nada produz, é meramente especulativa, é uma piada de mau gosto muito do agrado de muitos analistas económicos, que também apelidam Berardo de empresário contra a opinião do próprio, que aos quatro ventos mediáticos berra, ou já berrou quando o vento era favorável, que é um especulador.

No meio deste folhetim quem se deve estar a rir, naquele seu jeito crasso, é o comendador Joe Berardo, um belo espécime do capitalismo em que é possível fazer dinheiro sem produzir nada.

Muito do crédito que lhe tem sido concedido para negociatas já deve ter sido atirado pelos credores para o caixote das imparidades. É escandaloso que o comendador, depois de conseguir prolongar o prazo dos empréstimos, congelar os pagamentos dos juros por mais quatro ou cinco anos, diga que, «para não fugir às suas responsabilidades», tinha reforçado as garantias, os 75% da colecção Berardo, que não cobrem sequer metade do empréstimo contraído conseguindo, sabe-se lá porquê, que a Quinta da Bacalhoa ficasse de fora.

Alguém estava à espera que ele se preocupasse em não trair o seu altissonantemente proclamado amor à arte? Numa curva mais apertada derrapa, o amor à arte estampa-se no primeiro pedregulho perdido na autoestrada da Bolsa. A execução da penhora são os cornos do destino que trespassaram um inútil que nunca produziu nada, à excepcão de umas garrafas de vinho que já tinham nome feito.

Tudo isto é obsceno para qualquer português trabalhador que compre um T0, recorra à banca e seja despejado por ficar desempregado e impedido de cumprir as obrigações do contrato de crédito.

Um bródio para Berardo, que continua ao leme da Nau Catrineta a navegar pelos mares do seu putativo amor à arte e tem muito que contar, enquanto vai largando frases imbecis como as que ainda recentemente debitou, culpando os especuladores (ele arrancou essa medalha que ostentava e tinha cravado na lapela do casaco?) pela crise, preconizando que é preciso inventar uma nova democracia ou um novo género de ditadura, com inevitáveis elogios a Salazar e nostalgias da velha ditadura, apregoando que a situação que se vive em Portugal não é digna de «um povo que dominou o mar há duzentos anos».

Grande e erudito comendador, sempre no seu português entaramelado e gramaticalmente futebolístico, do chuto em frente vá parar a bola onde for parar, esquecido dos tempos em que se orgulhava de ser um especulador e, não é esquecimento é ignorância, que há duzentos anos o mar era cruzado por uma corte que zarpava em fuga para o Brasil

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