"geringonça", Bartolomeu Cid dos Santos, BE, CDS, CDU, Comunicação Social, demagogia, Geral, Independência da Comunicação Social, Jessye Norman, Jornalismo, Legislativas 2019, Maioria de Esquerda, Media, PAN, PCP, PEV, populismo, PS, PSD

Celebrar Jessye Norman em Dia de Eleições

Hoje, dia de votar e vou votar bem embora com algum alarme pelos resultados que ao fim do dia se saberão. Alarme com as votações que alguns partidos poderão alcançar obtendo-as com os populismos mais rascas, com a mão sempre no gatilho das fraudes políticas e intelectuais disparadas a torto e a direito, a exploração sem freio do que está a dar vendendo vigésimos premiados em directo e on-line com incursões pelas ruas ou ruminando vitualhas suspeitas de contaminações pós-modernas. Para não haver margem para dúvidas, se é que ainda as havia, refiro-me sobretudo ao PAN, embora esteja bem acompanhado. Alarme pelo que isto evidencia de como a estupidez adubada pelo marketing facilmente explora a ignorância e a desinformação que a comunicação social com contumácia propala, confortada pelo adormecimento generalizado que os programas televisivos ditos de divertimento expandem, abrindo caminho aos pan’s. Alarme por esta ser uma realidade bem evidente que, no estado actual do panorama informativo e das redes sociais, obriga a um árduo combate. Além das armas serem desiguais, a estupidez é sempre mais facilmente triunfante porque como Musil escreveu no Homem sem Qualidades: ”se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou pelo menos seria mais fácil, combate-la”.

Antes de ir votar estive a ouvir Jessye Norman, essa extraordinária soprano que morreu na quarta-feira, dia 30. Tinha um timbre riquíssimo e uma excepcional amplitude de voz que a faziam conseguir os registos de meio-soprano e contralto, o que é raro. Estive a ouvir não uma das excelentes interpretações que a notabilizaram no universo da música sinfónica, bem expressos na sua imensa discografia.

Mencionem-se Ariadne, Ariadne de Naxos / Richard Strauss; Cassandra, As Troianas / Berlioz; Sieglinde, As Valquírias / Wagner; Dido, Dido e Eneias / Purcell; Alceste / Alceste / Gluck; Armida, Armida / Haydn; Judith, Castelo do Barba Azul / Bartok. Uma enumeração rápida para sublinhar a sua versatibilidade. Refira-se que Jessye Norman apesar do seu notável percurso na ópera é nos lieds que tem o seu terreno de eleição. Entre as muitas e magníficas interpretações das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss e dos Ruckert Lieder de Mahler as de Jessye Norman não podem são estar ausentes de alguma estante.

Não foi nenhuma dessas gravações que fui ouvir. Fui ouvi-la num cd duplo intitulado Roots:My Life, My Song em que ela diz que fez uma selecção das “páginas que fazem parte do meu universo pessoal e que permitem aos meus pares músicos e a mim-própria explorar e desenvolver a nossa própria língua musical, rendendo homenagem às figuras tutelares que criaram esta música que celebramos e amamos. Um caminho que nos conduz dos tambores de África até ao Novo Mundo.” São vinte e duas canções, introduzidas por uma evocação dos tambores de África, que nos deslumbram e que ouvimos como nunca as tínhamos ouvido.

Enquanto a ouvia lembrei-me de uma saborosa história que o meu sempre bem lembrado amigo Bartolomeu Cid dos Santos me contou com o humor que o caracterizava, não sei quem lha teria relatado. Jessye Norman vivia num dos bairros mais chiques de Londres de casas dos séculos XVIII e XIX recuperadas em luxuosos apartamentos a que se acede por ruas discretas, habitadas por gente de grandes posses económicas. Era esse bairro de vez em quando assaltado por uma gritaria que os incomodava e sobressaltava. Alguém seu vizinho, pela voz do sexo feminino, dava durante largos períodos de tempo, normalmente pela manhã, uns guinchos inacreditáveis que até poderiam pressupor cenas de violência doméstica ou exercícios sado-masoquistas.

Num bairro com aquele estatuto, os silêncios que marcam os compassos das distâncias sociais eram de quando em quando estraçalhados por um dilúvio de berros que deixava os seus habitantes emudecidos, paralisados de estupefacção. Até que um dia o mistério se resolveu: a senhora que gritava desinquietando todo o bairro era Jessye Norman que quando estacionava na sua casa londrina ensaiava a sua fabulosa voz.

Ouvido Roots, agora vou votar, apelando ao voto para que os populistas sejam menorizados, evitar, entre outros males, que o PS tenha a tentação de tirar a chave da fechadura da gaveta onde o seu o pai fundador meteu o socialismo.

Standard
Artes, Bartolomeu Cid dos Santos, Geral

Em memória e louvor de Bartolomeu

ESFERAS&LABIRINTOS 8

                                                                                                                                         à Fernanda

Hoje Bartolomeu faria 86 anos. No próximo sábado, o último sábado do mês de Agosto, lá estaríamos na sua casa em Sintra a comemorá-los num almoço que ele e a Fernanda organizavam reunindo mais de cinquenta amigos e que, por vezes, coincida com o seu aniversário. Um alegre e estimulante convívio que se iniciava pelas onze horas da manhã, se prolongava tarde dentro, alguns, os mais resistentes, só abandonavam o terreiro já a desoras sem que a intensidade do convívio se desgastasse. Uma festa que se realizou durante dezenas de anos em que, pela lei da vida, foram ficando ausentes alguns dos sempre presentes, Sá Nogueira, José Cardoso Pires, José Daniel Santa-Rita, Luís Sousa Rebelo, Manuel Brito, Fernando Lopes, António Tabucchi. Terei esquecido alguém?

Era um encontro que fazia parte das nossas vidas e que, com o desaparecimento do Bartolomeu, deixou um vazio que não sabemos preencher.

Autoretrato1

Em memória o Winterreise, essa viagem desolada que o Barto tão excelentemente “ilustrou” com a sua genialidade e humanismo.

Winterreise G2

Winterreise G5

WinterreiseG 3

WinterreiseG 4

Standard
Aragon, Artes, Barbara, Bartolomeu Cid dos Santos, Catherine Sauvage, Cultura, Françoise Hardy, Georges Brassens, Geral, Marc Ogeret, música

Não há amor feliz

Hoje é dia de solstício que inicia o Inverno. Um tempo de paisagens frias e vazias, tempo desolação que muito tem sido celebrado em poesia e na música. O mais óbvio é a memória do Winterreise/Viagem de Inverno de Schubert, viagem mais solitária de todas as viagens que percorre vinte e quatro canções onde os sonhos fenecem, as notícias ampliam a amargura e sepultam qualquer esperança. As interpretações desse ciclo de canções sobre poemas de Wilhelm Muller, são inúmeras e excelentes como as de Peter Schreier/ Sviastoslav Richter, Dieter Fisher-Dieskau/ Jorg Demus, Mathias Goerne/ Alfred Brendel, Hans Hotter/ Gerald Moore. Bartolomeu Cid dos Santos, artista maior, homem de enorme cultura, grande amante da música, não podia ficar indiferente ao Winterreise e fez 24 extraordinárias gravuras, uma por cada canção. Um dia alguém cantará a Viagem de Inverno tendo por fundo essas obras de arte, uma celebração das artes.

Mas para assinalar este primeiro dia de Inverno, para o assinalar aceitando que a desolação é a sua marca maior fomos ao encontro de Aragon e de um seu poema que, de certo modo, é invernal, Il n’y a pas d’Amours Heureux. Georges Brassens, esse trovador nosso contemporâneo escreveu e cantou-o como só ele o sabia fazer e quando os textos das canções tinham um sentido e um valor que o tempo tem corroído.

Depois muitos outros cantaram essa bela canção. Traduzir é muito complexo, ainda mais traduzir poemas. Com alguma audácia e não sendo poeta, longe disso, atrevi-me a escrever uma tradução muito livre do poema de Aragon, com a única pretensão de não trair o poeta, sem pretender “escrever” um poema o que só grandes poeras o poderiam fazer.

Aqui ficam registos de vários cantores a interpretar o poema de Aragon com música de Brassens

 

 Nada é definitivo na vida de um homem

Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração

Quando acredita abrir os braços num abraço

A sombra é a de uma cruz

Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida

A vida é um estranho e doloroso divórcio

 

Não há amor feliz

 

A  vida é um soldado sem armas

Fardado para outros destinos

De pouco serve acordar cedo

Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas

E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

 

Não há amor feliz

 

Meu belo amor meu querido amor minha tristeza

Estás dentro de mim como um pássaro ferido

Quem nos vê passar nada sabe

Comigo repetem essas palavras que gravo

 E morrem de súbito no teu olhar profundo

 

Não há amor feliz

 

É tarde demais para aprender a viver

Os nossos corações unidos choram noite dentro

Quantos desgostos ultrapassámos para conquistar um arrebatamento

Quantos infortúnios experimentámos para escrever esta pequena canção

Quantos lamentos trocámos para arrancar estes sons de uma guitarra

 

Não há amor feliz

 

Não há amor sem dor

Não há amor que não morra

Não há amor que não seque

Não há amor maior que o teu amor pela pátria

Não há amor que não viva entre lágrimas

      Não há amor feliz

     Mas é esse o nosso amor o amor de nós dois

 

Standard
Artes, Bartolomeu Cid dos Santos, Fernanda Paixão dos Santos, Fernando Lopes, Gravura, João Vieira, José Cardoso Pires, José Santa-Rita, Luís Sousa Rebelo, Manuel Brito, Sá Nogueira, Vicente Silva

Bartolomeu

 bartolomeu 2

Para a Fernanda com um grande beijo

Com a idade aprendemos que poucas coisas são verdadeiramente essenciais à vida.

Um dessas coisas essenciais é a amizade, a exigente amizade das cumplicidades da vida e intelectuais. Alguns desses amigos fazem-nos falta. Sentimos duramente a sua ausência, até ao dia em que também nos ausentaremos. Tinha a convicção de que esses amigos seriam eternos, não na memória mas nos encontros que com eles teríamos. A vida tem-me demonstrado o contrário, como Paul Celan escreveu num dos seus belos poemas

A morte é uma flor que só abre uma vez.

Mas quando abre, nada se abre com ela.

Abre sempre que quer, e fora da estação

Um desses meus amigos é o Bartolomeu, o Barto, que hoje comemoraria o seu aniversário. Faz-me falta. A sua ausência persegue-me. Continuará sempre a fazer-me falta.

No sábado anterior, o último sábado do mês de Agosto, nem sempre coincidente com o dia do seu aniversário, lá estaríamos em Sintra, num grande almoço onde, pela mão dele e da Fernanda, se reunia um vasto grupo de amigos e pessoas próximas, que se reencontravam em alegre confraternização. Alguns, o Sá Nogueira, o Luís Sousa Rebelo, o José Cardoso Pires, o José Santa-Rita, o João Vieira, o coronel Vicente Silva, o Manuel Brito, o Fernando Lopes, terei esquecido alguém? também já se tinham ausentado. Eram por todos nós, que não os deslembrávamos, recordados.

Em memória do Bartolomeu, que hoje faria 84 anos, um excerpto do filme do Jorge Silva Melo.

Standard