Artes, Assembleia da República, Berardo, Centro Cultural de Belém, Geral

Portugal Berardizado

A casca grossa de Berardo teve a inegável qualidade de mostrar como o Portugal democrático pós-25 de Novembro se berardizou, gerando uma nova aristocracia que tem um lema oculto gravado a fogo: pobrezinho sim, honesto nunca.

As alarves gargalhadas de Joe Berardo na Assembleia da República incendiaram indignações em todos os cantos e recantos do nosso Portugalito (o Portugal que tem por brasão o Galo de Barcelos de preferência actualizado na versão da Vasconcelos) como se as tivessem ouvido pela primeira vez e essa não fosse a imagem de marca do comendador pontuando uma arrogância e petulância que começaram a ser mais visíveis e sonoras desde que adquiriu estatuto social quando trocou a lavagem do cupão, com que driblava o fisco, por uma súbita paixão pela arte que lhe garantiu uma corte que lhe engraxava o ego e lhe selava uma nova imagem pública a troco de umas espórtulas.

O Joe Berardo que um pelotão de jornalistas, comentadores, políticos, advogados, economistas e o mais que vier à rede encosta à parede para fuzilar pela falta de respeito das graçolas com que respondeu na Comissão de Inquérito na AR é o mesmo Joe Berardo que quase ninguém censurou quando disse que Isabel Pires de Lima era “estúpida e saloia” por fazer um mínimo de exigências para a colecção de arte, aumentada e reciclada, transitar de Sintra, onde Edite Estrela tinha aceite tudo e mais alguma coisa num protocolo sem inventário, valores das obras, títulos de propriedade, etc., para o Centro Cultural de Belém. O mesmo Joe Berardo que proclamou que Gabriela Canavilhas era “uma mentirosa” quando mandou investigar as trocas e baldrocas com que o comendador cumpria a sua parte do protocolo referente à aquisição de obras para valorização da colecção à sombra do superior interesse artístico” (Bernardo Pinto de Almeida dixit) uma fragância que asperge qualquer negociata, sem que ninguém se indignasse. Estórias já aqui contadas.

Estórias já contadas no AbrilAbril e em 2006 no Avante! aqui e aqui

O Joe Berardo a quem atiram pedras prenhes de virtudes é o mesmo Joe Berardo agraciado com o título de Comendador e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique a par de outros “barões assinalados”, bavas, granadeiros, amados, salgados, rendeiros, azevedos, carrapatosos, júdices e tantos outros merdalhados (esta roubei-a ao Fernando Assis Pacheco) que se destacaram “por engrandecer a sociedade portuguesa pelo seu trabalho e influência económica” e que hoje são assaltados pelas insónias provocadas por partilharem tamanhas distinções com aquele apalhaçado personagem que em vez de se mostrar respeitavelmente indignado com as suspeitas, se entrincheirar em irreversíveis falhas de memória, desatou a disparar piadolas para indignação geral, em particular daquela fatia de deputados que quer impingir culpas a outra fatia de deputados, todos muito incomodados pelas suas peregrinações pelas mecas da economia de mercado ficarem maculadas pelas blasfémias que caracterizam o seu funcionamento e que deveriam ser sempre publicamente apresentadas como sumas virtudes.

O Joe Berardo a quem espetam o dedo no umbigo acusando-o de ter armadilhado as garantias que deu à banca, quando a banca tardiamente se inquietou por lhe ter dado milhões de mão beijada, é o mesmo Joe Berardo que se fornecia dos materiais para as fabricar nos mesmos armazéns de onde saíam os contentores com as ferramentas para forjar as grandes manobras financeiras que causaram perdas de milhares de milhões de euros, que os portugueses estão a pagar e vão continuar a pagar durante muitos anos, enquanto essa gente na sua maioria se continua a banquetear esparramada ao sol da impunidade que o sistema permite e só uns tantos, vitimados pelo pecado da sofreguidão, se expuseram aos riscos de terem agora que escapar entre os pingos da justiça. Em coro, todos proclamam as virtudes do Estado de Direito, sabendo melhor que ninguém que entre a justiça e o direito há um abismo difícil de transpor e que o direito é sempre o direito do mais forte à liberdade, por isso têm sempre à mão de semear uma trupe de reputados juristas prontos a peneirar os códigos em seu benefício.

Este Joe Berardo a que agora muitos viram as costas, mudam de passeio para o outro lado da rua é o mesmo Joe Berardo aceite encomiasticamente no universo empresarial enquanto empreendedor ultrapassados os incómodos que tinha provocado quando, aos quatro ventos, se proclamou especulador, o que alarmou os outros especuladores seus concorrentes que vestiam os assertoados fatos do empreendorismo que tornam mais fofas e espessas as alcatifas do poder por onde circula o regime económico/financeiro, o regime jurídico/legislativo, o regime político/jornalístico.


O Joe Berardo objecto do tiro ao alvo da comunicação social é o mesmo Joe Berardo que ainda não há muito tempo resplandecia endeusado pela bajulice da esmagadora maioria dos jornalistas e comentadores, sobretudo das áreas económicas, políticas e das artes. Excepções raríssimas existiram, mas sem excepções as regras não existem. Brilhava dentro da mesma moldura onde se amontoam os figurões que manipulam os cordéis da promiscuidade entre a política e os interesses económicos, que esses escreventes mercenários do regime endeusam até aos limites do quase impossível para lhe dar a credibilidade que nenhum Polígrafo, nenhum FactCheck que não esteja viciado na sua raiz lhe pode dar.

A casca grossa de Berardo, a desfaçatez de Berardo em exibir sem pudor a impunidade que sente possuir e que não é dele, é a que o sistema oferece a ele e a todos os outros berardos sejam de rústico barro ou fina porcelana, tem a virtude de arrancar sem contemplações nem detenças as diferentes túnicas em que se tem embrulhado a democracia em Portugal para o voltar a entregar aos grupos económicos que tinham sido desmontados no período revolucionário do pós 25 de Abril e aos que se formaram sobre esses destroços, relembrando a actualidade do Príncipe de Falconeri “tudo deve mudar para que tudo fique como está”, um lugar-comum que se globalizou.

A casca grossa de Berardo teve a virtude de evidenciar a promiscuidade institucionalizada entre o poder político e o poder económico. Entre empresas, fundações, banca, institutos e o mais que a imaginação do empreendorismo seja capaz de inventar, em que as fronteiras entre o público e o privado são porosas, o trânsito entre quadros é intenso. A casca grossa de Berardo teve a virtude de ver como os mesmos políticos, jornalistas, juristas, economistas, comentadores que mais aplaudiam os lances em que Estado era refém dos interesses económicos e financeiros de alguns, engrossam agora a voz para enforcar em público os geniais gestores, os banqueiros de sucesso, os empresários visionários a que curvavam o cerviz, serviam com denodo. São os mesmos que correm atrás dos que estão no terreno para os elevar ao Capitólio em que tinham colocado os que agora condenam à Rocha de Tarpeia.

A casca grossa de Berardo teve a inegável qualidade de mostrar como o Portugal democrático pós 25 de Novembro se berardizou gerando uma nova aristocracia que tem um lema oculto gravado a fogo: pobrezinho sim, honesto nunca.

(publicado no AbrilAbril 26 junho 2019)

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La Nave Va

barco

o barco que transporta Nosferatu no filme de Murnau

Passos Coelho vocifera empurrado pelo ciclone de dez mil milhões de euros!  Paulo Núncio tropeça em si-próprio até não conseguir negar as evidências! Paulo Portas passeia irrevogável mudez até agarrar de novo os microfones de vendilhão nos templos da comunicação social estipendiada! Assunção Cristas faz queixinhas ao Presidente da República enquanto distribui beijinhos postais aos lisboetas pedindo ideias para encher a sua vazia cabecinha! Luis Montenegro e Nuno Magalhães usam a Assembleia da República para concorrerem aos óscares dos incorruptíveis contra a droga realizando a sua remake em versão filme cómico! Lobo Xavier e António Domingues almoçam e jantam sms nas casas de banho para defesa da sua intimidade que deixam entrever abrindo e fechando a portas dos privados das administrações dos bancos onde as trocam! Maria Luís Albuquerque cala-se para guardar de Conrado o prudente silêncio! A mentira, as mentiras são despejadas, sem selecção de resíduos para reciclagem, no aterro sanitário dos erros de percepção mútua!

Uma ópera bufa que nos toma por basbaques, recuperando um grande final em que contumazes indignidades recuperam prazo de validade rebobinadas pela assunção política das falsidades, retirados os andaimes que as ocultavam. Miserável lavagem pública da imoralidade passada e repassada em todas as máquinas da comunicação social para voltar a dar crédito à miséria de alguma política e de muitos políticos.

No caso das dezenas de milhares de milhões de euros que voaram para offshores que um prestimoso secretário de estado viu mas não permitiu tornar público, o roteiro da viagem do que está em causa não é a ocultação, muito menos o azar de vir a ser objecto de tributação legal, mas o seu significado. O que é substantivo é essa acção ser parte por inteiro do norte político de um governo, as políticas de austeridade que reestruturavam a economia fazendo cortes e ajustamentos que visavam os trabalhadores, as pequenas e médias empresas, passava a ferro a classe média, todos os que eles diziam estar a viver acima das suas possibilidades, enquanto dava rédea solta aos desmandos da banca e do grande capital. Politicas em que ofertavam mais riqueza para os mais ricos a continuarem a acumular enquanto o garrote se apertava aos mais desmunidos que o viam apertar com um fisco de mão mais extensa e mais implacável, com leis laborais que faziam retroceder dezenas de anos de conquistas feitas palmo a palmo, com a degradação sistemática dos direitos sociais, económicos.

O laxismo que deixa ficar nas gavetas do secretário de estado as listas das dezenas de milhares de milhões de euros que legalmente iam estacionar em offshores não é inocente, como não o eram as listas VIP ou a indiferença em relação à fuga ilegal de dezenas de milhares de milhões de euros que só parcialmente são contabilizáveis pelos processos judiciais em curso, é a resultante directa da política do governo PSD-CDS que favorecia a acumulação da riqueza dos mais ricos e o aumento, na melhor das hipóteses, a manutenção da pobreza da esmagadora dos portugueses. A sanha com que atacam o actual governo PS, com apoio parlamentar PCP/BE/PEV, as medidas, mesmo que tímidas, de repor rendimentos a trabalhadores, pensionistas e reformados, de dar melhores condições de crédito às pequenas e médias empresas é a pedra de toque dessas políticas em que se dá liberdade quase absoluta aos que já a têm e aperta a tarraxa a todos os outros que não devem ser piegas por serem metidos na ordem de viverem conforme as suas magras possibilidades.

É repugnante ver esse teatro de sombras em que um forcado corneado pela impossibilidade de continuar nas omissões das verdades, se refugia nas tábuas das meias-mentiras, vai para o meio da arena exibindo a orelha da responsabilidade política para ser aplaudido pela turbamulta dos seus aficionados que agitam freneticamente o manto diáfano da sua mais que esburacada dignidade. São todos iguais por mais tonitruantes declarações que façam. Querem safar-se como se tudo isso tivesse sido um acidente do aparelho fiscal e o governo Passos-Portas não fosse politicamente responsável. A bardinagem, o populismo, a demagogia no seu melhor.

Um peão de brega é obrigado a saltar do barco para aliviar o lastro e o barco continuar a navegar no pântano. Enquanto houver parvos ou parvos fingidores continua acima da linha de água. La nave va, o rumo não se alterou, não se altera nem dá guinadas às quinta-feiras.

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Algo de Novo

RR Bandeira Vermelaa

Com a entrada em funções do XXI Governo Constitucional do PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV, a direita ficou desorientada porque vivia no conforto de julgar que pelo capitalismo actual se pensar definitivo, não fazia sentido a distinção entre direita e esquerda, pelo principio de a esquerda ter sido inapelavelmente encerrada num ghetto. Ou que a reivindicação de se ser de esquerda era uma bandeira empunhada por radicais que viviam fora da realidade, sendo a realidade confundida com as bases teóricas e práticas intransformáveis do capitalismo.

Ancorados nessa convicção, radicalizaram a exploração de todos os recursos fossem humanos, sociais, ambientais, culturais ou económicos com a fé totalitária de que os mecanismos do sistema capitalista ultrapassariam todas as crises em que se afunda. Não conseguiam, nem conseguem, nem conseguirão perceber que nenhuma realidade por mais hegemónica e aparentemente consistente que seja, como é o capitalismo na actualidade, pode ser considerada definitiva. Muito menos quando para o capitalismo terminal em que barbaramente tudo, a começar pelo ser humano, foi esvaziado de qualquer valor a não ser o seu valor de mercadoria. As chamadas reformas estruturais têm esse sentido e objectivo, o de desumanizar a sociedade tornando-a num gigantesco mecanismo de produção e reprodução de mercadorias, aumentando exponencialmente as desigualdades em nome do lucro. É essa a lógica intrínseca do sistema capitalista como se não estivesse dependente, na sua substância e de modo crucial de uma coisa chamada lei da queda tendencial da taxa de lucro, como Marx bem explicou, mas que essa turbamulta de publicistas económico-financeiros do capitalismo parece desconhecer, mesmo quando a sucessão de crises, com ciclos cada vez mais curtos e profundos, o demonstra à saciedade.

A fé, como bem se sabe é cega e estúpida, torna essa gente autista. O espectáculo do debate na Assembleia da República na apresentação do programa do XXI Governo Constitucional, foi a demonstração que a direita nunca perceberá que para a esquerda a realidade histórica do capitalismo tem um caracter contingente, mesmo dentro de um quadro em que o capitalismo continua a ser o sistema dominante. O que a torna incapaz de entender o funcionamento da democracia, da democracia burguesa sublinhe-se, cujos valores hipocritamente usam na lapela dos seus casacos de marca. Por isso não perceberam, nem nunca perceberão o alcance e o significado dos acordos que viabilizaram este governo. Não entendem, nem nunca conseguirão entender o que significa ser de esquerda no século XXI. Muito menos como a praxis teórico-política da esquerda arranca de princípios sólidos na legibilidade da realidade, para actuar sobre a transformação dessa realidade mesmo em bases mínimas, para por fim à aniquilação das pessoas e da sua individualidade. Por fim aos sistemáticos assaltos à nossa inteligência  à nossa vidae aos nossos bolsos.

Os acordos que viabilizaram parlamentarmente o XXI Governo Constitucional colocaram um travão a fundo ao rol dos desvarios mais insanos, das mentiras mais descaradas da direita em nome da sustentabilidade de um sistema de exploração brutal em benefício do grande capital. Foram quatro anos de assalto a todos os que tinham menos armas para se defender, os que estavam mais desmunidos, porque esta direita é rancorosa, não tem escrúpulos e é cobarde.

Também é estúpida, profundamente estúpida e por isso vivia na ilusão que o apartheid parlamentar era durável. Não tinha fim. A realidade ultrapassou-os. Atirou-os para onde sempre estiveram, no caixote de lixo da história. Daí não enxergam o valor simbólico dos acordos que a esquerda alcançou com o PS, para por um ponto final, melhor um ponto e vírgula ou mesmo uma vírgula,  no autoritarismo ideológico de que não havia alternativa. Havia, há e haverá sempre alternativas, isso distingue fundamente a esquerda da direita. Como essa alternativa ou essas alternativas vão funcionar é o centro de gravidade dos próximos tempos com uma certeza: a hegemonia de um sistema que dominou os últimos quarenta nos da vida política portuguesa acabou. Esse ficou definitivamente enterrado.

(na imagem pintura de Rogério Ribeiro/Elegia I/1989)

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Acordo Ortográfico, Assembleia da República, Geral, Petição Pública, Referendo

Contra o Acordo Ortográfico

teclado

Já algum tempo que na minha assinatura nos e-mails, a mensagem que transdrevo é parte indissociável! não é texto original, copiei-o do meu amigo José Luís Porfírio. penso quie todos os que estão em desacordo com este Acordo Ortográfico, também poderiam adicionar o texto à assinatura., contra os espetadores destes espetadores da língua portuguesa.

Em defesa da língua portuguesa, o o remetente desta mensagem não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconstitucional, linguisticamente inconsistente, estruturalmente incongruente (para além de, comprovadamente, ser causa de crescente iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

Há novamente um movimento cívico contra este malfadado Acordo Ortográfico. que exige um referendo à sua adopção, depois de na Assembleia da República o PCP, ter visto rejeitada uma proposta no mesmo senrido. Quem se insurge e revolta contra este Acordo Ortográfico tem o dever de subscrever esta petição! Não adiem, não se atrasem. Assinem já!

No Facebook um grupo de cidadãos abriu uma página contra o Acordo ortográfico! Visitem-na!

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