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Berardo – As Tranquibérnias do Amor à Arte – 4

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Uma gigantesca e luzidia vitrina para expor o amor à arte

Os lances, com vários protagonistas, da colecção Berardo é um exemplar romance de cordel desse universo. O bater da porta de Capelo deu a oportunidade ao comendador de ir recorrendo a novos conselheiros que se acotovelavam nos corredores por onde passeava a sua então recheada carteira de afortunado especulador. Criava-se a ilusão que se estava a trabalhar tendo por horizonte um museu internacional de arte moderna e contemporânea quando na realidade o que se fazia era atulhar o armazém do acervo de um coleccionador que a ia constituindo em função das oportunidades do mercado e não com um horizonte definido por uma planificação, como é exigível a um museu. Isto, onde se diluiu a coerência inicial da colecção, não belisca a sua importância no seu carácter internacional de arte moderna e contemporânea, sem paralelo em Portugal, apesar das primeiras décadas do século XX serem muitíssimo lacunares, o que até é compreensível dados os valores de mercado, mas não lhe confere um apregoado estatuto que só tem um principal interessado, o comendador Berardo. Disso se fez valer quando o mercado se recompôs e voltou a inflacionar, a capacidade de aquisição se reduziu, a valorização começou a ser mais lenta. Precisava de uma montra, uma boa montra para a sua colecção, onde a colecção fosse valorizada publicamente. Berardo começou a apontar alto escudado no interesse da colecção, mas no fundo os seus objectivos eram em tudo semelhantes aos objectivos de marketing dos megaconcertos do Parque da Bela Vista, montra promocional do mercado discográfico. Só que isto das artes faz vibrar as cordas da alma com outra sofisticação.

A negociação para a colocação da colecção Berardo no Centro Cultural de Belém estava favorável e mediaticamente condicionada para o lado do comendador. O Portugal lustrado tremia de pavor com as ameaças do comendador em colocar a colecção no estrangeiro. A ministra da Cultura em funções, Isabel Pires de Lima, desconfiava que essas propostas eram fogo de artificio do comendador para impor a sua vontade. Ainda recentemente reafirmou que “estava totalmente tranquila, que ela ficaria em Portugal”, ao contrário do primeiro-ministro José Sócrates, assessorado por Alexandre Melo que segurava o telefone para a verruma da voz de Berardo contar ao nosso primeiro os seus sonhos de mil e uma noites sem verão nos intervalos das noites de verão ocupadas na colecta de maravedis no sobe e desce bolsista. Na comunicação social retiniam os alarmes referindo as propostas para instalação da colecção no estrangeiro que enchiam a caixa de correio do comendador. Por mais que vasculhassem não encontravam agulha no palheiro. Por mais que fossem referidas as tais propostas concretas nenhuma foi de facto descoberta. Só intenções, mas de intenções, boas e más, está o inferno cheio. Prevaleceu a vontade de Sócrates sobre as dúvidas e as questões que Pires de Lima, a saloia, a estúpida, Berardo dixit, colocava no caminho imperial de ocupação total dos espaços exposicionais do CCB e mais umas quantas exigências que deram ao Museu Colecção Berardo um lugar de excepcionalidade no panorama nacional. Com o andar da carruagem muita gente se chegava à frente para ocupar um lugar na mesa daquele festim. Entre os variegados episódios registe-se o interpretado por Melo a bater tambores em vários jornais, rádios e televisões fazendo soar que, pelo seu passado de colaborador do comendador, seria natural vir a ocupar lugar de relevo na futura Fundação. Não percebia que no pequeno-almoço de Berardo havia muitos melos, pelo que lhe era mais útil ter um melo telefonista de serviço no gabinete do primeiro-ministro que dois melos pousados noutras cadeiras.

Instalada a colecção, Berardo não contente com as condições leoninas alcançadas, faz novas exigências à administração do CCB, ao que parece completamente marginalizada nas negociações, até Mega Ferreira ficar tão encostado à parede que se demitiu de presidente do Conselho de Fundadores da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo (FAMC). Sempre rápido Berardo disparou no seu estilo habitual: se ele não está satisfeito, que arranje outro lugar para trabalhar.

Berardo tinha o mundo a seus pés por via de um protocolo em que tinha ganho tudo e mais alguma coisa. Ocupava todo o espaço do CCB que ficou a suportar os custos logísticos e de manutenção da colecção. Ficou com um museu aberto todos os dias de semana e com entradas gratuitas, situação só agora alterada com o novo protocolo, o que o empurrou para lugar cimeiro entre os museus mais visitados do país e mesmo da Europa. O comendador, cansado de negociar com o Estado, bem pode agitar reiteradamente essa bandeira. Nessas áreas não há controle antidoping! O doping do Museu Colecção Berardo em relação aos museus de cá e da Europa era flagrante, nem eram precisas análises, a camisola amarela estava garantida.

Cansado de negociar com o Estado”, mas sempre a receber favores e largas benesses. Por via do acordo celebrado em abril de 2006, entre 2007-2015 recebeu apoios financeiros de 41,4 milhões de euros do Fundo de Fomento Cultural, verba muitíssimo superior à concedida a qualquer outra entidade e desproporcionada se comparada às distribuídas aos museus nacionais.

Entre esses apoios um deve ser sublinhado. Ficou estipulado que, para enriquecer e valorizar a colecção, todos os anos o Estado contribuía com 500 mil euros para aquisições de obras de arte e igual verba seria entregue pelo comendador. Por ano, um milhão de euros para ir às compras, coisa com que nenhum museu nacional sequer sonha. As compras eram decididas pela FMAC, Berardo presidente vitalício com maioria na administração. Gabriela Canavilhas, na altura ministra, colocou reticências à política de aquisições da FAMC. Decidiu, e bem, perceber como eram feitas. Pelos Relatórios e Contas ficou-se a saber como muitos dos milhões do Estado foram parar aos bolsos de Berardo porque eram aplicados a comprar obras que o comendador ainda tinha lá por casa. Isto acontecia em paralelo com outra finura bem à moda de Berardo que, em vez de entrar com dinheiro líquido, «cumpria» essa sua obrigação contratual em géneros, entregando mais umas obras que estavam lá por casa. Ficou-se sempre por saber por quanto Berardo as tinha adquirido e por quanto as vendeu para a sua própria colecção. Na prática, quanto é que o comendador ao longo desses anos meteu directa e indirectamente ao bolso. O argumento avançado pelos membros da direcção da Fundação foi o do superior interesse artístico das obras. Um argumento patético porque tenham ou não tenham interesse artístico, seja superior ou inferior, o que está em causa é a lisura do processo. A avaliação e a decisão do superior interesse artístico eram feitas por quem estava comprometido com os interesses do comendador. Uma conversa da treta em que só é enganado quem quer ser enganado e não quer perder lugar na corte Berardo. A arte tem costas largas para aguentar essas negociatas de uma flagrante falta de ética ainda e mesmo que tudo seja legal. De obras com superior interesse artístico está este mundo e arredores cheio! Quando a farfalha foi conhecida e Canavilhas se demarcou, Berardo berrou aos quatro ventos, com a grosseria que o amor à arte não desgasta, que ela era mentirosa. Isto acontece quando o comendador, ameaçado de falência pelas brutais dívidas contraídas na banca para especular na bolsa, já tinha dado como garantia a colecção, espadeirava em todas as direcções para distrair a malta. Fala em sacos azuis do CCB, desmente ruidosamente a ministra e a Fundação do Centro Cultural de Belém esgoelando, entre alarves gargalhadas, que à Fundação Berardo não tinha chegado dinheiro nenhum e que “se eles pagaram, onde é que está o dinheiro, levaram para casa? (…) à nossa conta não chegou. Devia ter ido parar à conta do CCB… do saco azul”. Avança a ideia de que duas Fundações no mesmo local não fazem sentido. Quer dizer não lhe basta ter-se apropriado de uma área substancial do CCB. Quer abocanhá-lo por inteiro e tem apaniguados certos no universo das artes, cegos pelo superior interesse artístico que transforma o combustível que move o comendador, a especulação, num néctar dos deuses mesmo quando se vê à vista desarmada que a exposição da colecção no CCB é um poderoso estimulante para a sua valorização. A colecção avaliada em 2006, pela Christie’s em 316 milhões de euros hoje deve valer, no mínimo,400 milhões de euros. Uma valorização de quase 30% em dez anos. Nada mau para uma colecção em que 3/4 do seu valor está concentrado em 10% das suas obras.

Um folhetim sem fim à vista

Muito há que analisar sobre estes dez anos de exposição e exposições temporárias mesmo dando de barato uma recente graxa nos sapatos do comendador com a exposição “O Gosto do Coleccionador” que decidiu (ele? quem por ele?) escolher umas quantas obras de arte depois de ter amado loucamente todas como tinha dito a Ana Sousa Dias, no programa Por Outro Lado, quando inquirido sobre as que mais prezava: “Todas. É como os filhos, você prefere algum dos seus filhos?”. Agora armado em Saturno de fancaria, devora uns quantos filhos por achar necessário mostrar que afinal tinha algum gosto. Há que reconhecer que Berardo é um espertalhão com espertalhices sempre ao virar de qualquer esquina.

Há nebulosas que se devem esclarecer em relação à colecção e que deveriam ter sido esclarecidas antes da renovação do protocolo. No anexo ao protocolo listam-se 862 peças o que, segundo algumas fontes, deve ser corrigido porque há séries fotográficas que não são inventariadas como uma unidade, mas foram contabilizadas individualmente. É uma questão de rigor que reduz as 268 aquisições feitas por Joe Berardo a 152 obras, o que talvez tenha a ver com o método de compra já referido.

O interesse da colecção, apesar de todas as lacunas e insuficiências que se lhe possam apontar, é uma inegável mais valia. O que não é aceitável, é mesmo insuportável, é o Estado não defender o interesse público não acautelando o que deve acautelar e ir a reboque de Berardo. No contexto em que foi negociado o actual protocolo era uma ocasião excelente para clarificar não só situações anteriores, mas as actuais derivadas das aventuras financeiras especulativas do comendador. Que Berardo seja um risco sistémico para a banca é uma coisa. Que se transforme, por laxismo do governo, num risco sistémico para a FAMC e para a colecção é outra completamente diferente. Com algumas das normas protocoladas e com a execução da penhora, por mais que se negue, a confusão está instalada, um icebergue à deriva que, mais cedo ou mais tarde, colidirá com um qualquer Titanic. Devia ter sido prevenida. As cenas dos próximos capítulos, conhecendo-se e sabendo-se quem é Joe Berardo, anunciam-se escalafriantes.

 

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AGIT-PROP: O LUGAR GEOMÉTRICO DAS VANGUARDAS POLÍTICAS E ARTÍSTICAS

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A arte não é um espelho para reflectir o mundo,

é um martelo para o forjar

Maiakovski

No final do século xix e no príncipio do século xx, as lutas dos explorados e oprimidos, sobretudo da classe operária, intensificaram-se na Europa. A massa de proletários reorganizou-se depois de a Comuna de Paris, o primeiro e efémero governo operário da história da humanidade, ter sido brutalmente reprimida. O Manifesto Comunista, com a sua palavra de ordem Proletários de Todos os Países, Uni-vos!, tem um impacto que não mais perderá, ao sublinhar a centralidade da questão da propriedade privada e as críticas aos socialistas revisionistas que deslocam as lutas de classe para o território da democracia formal, mantendo a estrutura nuclear das relações de produção e de troca, submetendo-se ao poder burguês que pretendem reformar, e aos socialistas utópicos que, apesar de fazerem uma análise crítica da exploração do proletariado, se distanciam da luta política, o que inviabiliza a luta pela transformação da sociedade. Paralelamente, enfrentando uma agudização das lutas operárias, cada vez mais organizadas, os reaccionários capitães da indústria, escorados pelo capital, procuram esvaziá-las, ainda que timidamente e com enorme paternalismo, pondo em marcha políticas para melhorar as condições de vida dos assalariados. O ponto mais alto dessas políticas é a criação das cidades operárias, das vilas operárias, muito saudadas pelos socialistas revisionistas, apesar de Jules Siegfried, deputado e presidente da Câmara do Havre, autor da lei das habitações locais a preços acessíveis, proclamar: «Queremos fazer em simultâneo as pessoas felizes e bons conservadores; queremos combater ao mesmo tempo a miséria e os erros socialistas, queremos garantir a ordem, a moralidade, a moderação política e social? Façamos as cidades operárias!» Nesta declaração, todo um programa político que, em múltiplas variantes, é extensível a outras áreas de acção continua actual e é prática continuada dos partidos que pretendem contumazmente esvaziar a luta de classes, apagar as fronteiras ideológicas, manter o Estado ao serviço do capital. Hoje, adequando-a às exigências que as alterações históricas impõem, tem a sua expressão no TINA (There Is No Alternative), em linha com o Fim da História, o Fim da Ideologia, o Fim da Política, que a queda do Muro de Berlim permitiu e acentuou. Políticas que têm o objectivo de manter o domínio do capital sobre o trabalho, tornando a exploração mais suportável, a miséria material e moral menos escandalosa.

Na altura, essa era a realidade que se impunha na maioria dos países da Europa, mas que não tinha viabilidade numa Rússia com um extenso mundo rural e uma jovem classe operária. Uma população brutalmente explorada e sem possibilidades de aceder ao mínimo essencial. Aí a evolução não era possível, só a revolução tornaria possível a melhoria das condições de vida. A Revolução de 1905 deu um primeiro passo, logo traído pelos socialistas revisionistas. A luta continuou, tornou-se imparável. As massas populares, conduzidas pelo Partido Bolchevique, dirigido por Lénine, triunfaram em 1917, na Revolução de Outubro. Uma formidável explosão popular que abalou o mundo. Os explorados e oprimidos durante séculos tomaram pela primeira vez o poder; não se limitando a assenhorear-se da máquina do Estado, destruíram-na, cumprindo a tese de Lénine, em O Estado e a Revolução, desenvolvendo as teses de Marx e Engels, denunciando os revisionistas: «a transição da sociedade capitalista, que se desenvolve em direcção ao comunismo, para a sociedade comunista, é impossível sem um “período de transição política”, e o Estado deste período só pode ser a ditadura revolucionária do proletariado».

A Revolução de Outubro, pondo em prática a ditadura revolucionária do proletariado, provocou um enorme entusiasmo nas vanguardas artísticas que, desde finais do século xix, agitavam o universo das artes e se debatiam entre as suas propostas radicais de depuração da forma, libertando-a de superficiais ornamentações, e uma sociedade que os olhava distanciadamente, sem nenhuma dignidade para lhes oferecer num contexto em que a situação social se agravava, o poder de compra dos trabalhadores se erodia, a proletarização da classe média se acelerava. As artes estavam confinadas aos seus espaços de fronteiras bem delimitadas, os artistas eram marginais tolerados que a lustravam. As vanguardas artísticas no Ocidente que colocavam em questão a alienação social, ética e visual das relações dos homens e dos objectos na sociedade burguesa, a contranatura da sua hierarquização, que no topo tinha, continua a ter, os objectos de luxo e os realizados pelos artistas enquanto objectos inúteis só acessíveis a uma minoria, estavam cercadas e confinadas a circuitos bem definidos. Registe-se que o que hoje é uma vulgaridade, o investimento em objectos de arte, como pinturas e esculturas, e de luxo aconteceu massivamente pela primeira vez em França, em 1924, curiosamente o ano em que foi publicado o Manifesto Surrealista, quando uma maioria parlamentar tinha chegado ao poder depois de propor o controlo dos movimentos de capitais, o que provocou um movimento de pânico e uma subida da inflação que levou os ricos a investirem nesses bens a par das já normais fugas de capitais e compra de divisas estrangeiras. A grande crise económica capitalista, com o afundamento de Wall Street, sucederia cinco anos depois. Até aí, comprar obras de arte, que são sempre um investimento, por maior que seja a paixão estética, não tinha essa característica, antecipando a actualidade, em que os objectos de arte são um nicho do mercado de objectos de luxo. Um investimento que se faz pela lógica do lucro, muitas vezes embrulhados em considerações estéticas em que ninguém acredita.

Na Rússia Soviética, nos anos da Revolução, em condições políticas e económicas duríssimas, uma guerra civil com a participação activa dos países ocidentais e a penúria imposta por um herdado aparelho produtivo esclerosado que era urgente transformar, a arte respondeu aos novos tempos históricos com um dinamismo social sem precedentes. Um movimento que se expandiu em todas as direcções e por todas as disciplinas artísticas.

A arte de propaganda revolucionária, a agit-prop, não foi um género particular, é o principal traço de toda a arte soviética nesses tempos de Revolução. As vanguardas artísticas, com todo o seu potencial criativo inovador, colaboram e coincidem com a vanguarda política, mantendo a sua autonomia relativa, sem se deixarem colonizar pela política mas fazendo dela uma parte activa da sua criação. É uma síntese nunca antes vista nem nunca antes experimentada. A Revolução influencia decisivamente as artes porque é um material vivo impregnado de um espírito social inovador. Em simultâneo, as fronteiras tipológicas entre as artes foram abolidas e os mesmos artistas trabalham em várias áreas. A arte liga-se estreitamente à vida social nos seus múltiplos e complexos aspectos. Contribui activa e conscientemente para a construção de um novo modo de vida e para a educação e instrução artística e ideológica das massas populares, opondo-se à cultura de massas burguesa e às suas propostas de consumo, fachada de uma falsa democratização da arte. São o caldo de cultura em que se tempera a democratização da cultura e das artes que catalisam uma extraordinária efervescência artística. É um fenómeno radicalmente novo e complexo, em que a ética social revolucionária é parte inteira das propostas estéticas. Só assim se compreende como os ferozes debates entre as diversas vanguardas estéticas que trabalham em prol da Revolução têm um contacto efectivo e eficaz com aqueles a quem se dirigem e que enfrentam multímodos problemas quotidianos num espaço geográfico territorialmente enorme. Só assim se percebe como o Quadrado Negro de Malevitch, que provoca enorme controvérsia nos meios artísticos, se populariza como mancha gráfica usada extensivamente por todo o território soviético para suporte de mensagens de propaganda, além de ser usado por outros artistas, como em Negro sobre Negro, de Rodtchenko. Quadrado Negro que se divulgou tanto que figurou na frente do carro funerário que transportou o caixão do pintor no que foi uma grande manifestação popular em 1935, em Leninegrado. Só assim se entende que no 1.o de Maio de 1926, em Leninegrado, os manifestantes transportem a maqueta do Monumento à III internacional, de Tatlin, com o mesmo fervor revolucionário com que em Kharkov se transportava, também num 1.o de Maio, um gigantone figurando o capitalismo construído por artistas e populares, ou o êxito dos comboios e dos barcos agit-prop, que partiam dos grandes centros urbanos, com pinturas, cartazes, manifestos, cinema, teatro, etc., para atravessar toda a Rússia com paragens nos lugares mais improváveis, levando a festa e a cultura da Revolução a todo o país, sem descurar as tradições artísticas locais dos percursos previamente organizados. Que tenha acontecido o primeiro espectáculo de som e luz em todo o mundo, O Assalto ao Palácio de Inverno, encenação de Evréinov, cenários de Annenkov, que foi também um grandioso teatro de massas, com milhares de espectadores e participantes. Um novo tipo de teatro iniciado pelo encenador Vinogradov-Mamont, director das Oficinas Teatrais do Exército Vermelho, outra novidade revolucionária, que esteve na origem de espectáculos memoráveis: A Caminho para a Comuna Mundial, Mardjanov, Almant, Chaldnecht, Luta e Vitória, Meyerhold, Vesnine, Popova, O Bloqueio da Rússia, Fomine, Radlov, Khodassievitch, que pretendiam suplantar o teatro tradicional e estão na origem de o teatro soviético, já noutro formato, se transformar num teatro supranacional.

No cinema, talvez pela sua juventude, o salto qualitativo na linguagem cinematográfica induzido pelos realizadores soviéticos transmudou-a completamente. Inicialmente, os cineastas soviéticos registavam o que era mais interessante e importante. Um cinema documental orientado pela palavra de ordem Todo o Poder aos Sovietes também cantado por Maiakovski […] A todos! / A todos! / A todos os que na frente, / estão cansados da guerra, / aos escravos / de todos os tipos, / na servidão / dos ricos / Todo o poder aos sovietes / A terra aos camponeses! / O mundo ao povo! / Pão aos que têm fome! (poema Vladimir Ilitch Lénine). As imagens traduziam a verdade dos acontecimentos, as imagens poéticas da Revolução. A montagem, a montagem narrativa, seguia os cânones de Holywood, de realizadores notáveis como Griffith, King Vidor, Chaplin. Esses primeiros anos a acompanhar a Revolução acabam por provocar uma revolução na arte cinematográfica que explode entre 1925-1930 com A Greve, Couraçado Potemkin, Outubro, de Eisenstein, A Mãe, O Fim de São Petersburgo, A Tempestade na Ásia, de Pudovkin, O Arsenal, A Terra, de Dovjenko, A Rússia de Nicolau II e de Tolstoi, de Ester Choub e o Cinema-Verdade de Dziga Vertov, O Homem da Câmara de Filmar, Três Canções para Lénine, O Entusiasmo. A montagem está na raiz do que fez mudar universalmente a linguagem cinematográfica. Duas cenas são exemplares dessa alteração: a do tiroteio na escadaria de Odessa no Couraçado Potemkin, os confrontos entre manifestantes grevistas e as forças repressivas czaristas em A Mãe. É esse novo género de montagem introduzido pelo cinema soviético, com destaque para Eisenstein, que tem sido analisado extensamente por muitos teóricos do cinema que o consideram o inventor da linguagem cinematográfica actual no que ela tem mais de específico. A montagem eisensteiniana é a ilustração da aplicação da dialéctica marxista: cada imagem só tem verdadeiro sentido em relação às imagens que a precedem e às que são subsequentes. Lembre-se a cena, no Couraçado Potemkin, do médico lançado ao mar a que sucede o grande plano do seu monóculo, que no momento da queda fica pendurado a balançar, metáfora da redução da sua autoridade anterior a uma marioneta. Vertov é outro exemplo da importância da montagem no que se poderia chamar jornalismo pela imagem. Destrói as lógicas narrativas sequenciais para fazer descobrir o sentido oculto das imagens captada. Escolhe e corta os planos para os opor uns aos outros, para confrontar os seus conteúdos, para em semelhanças e dissemelhanças complementares nos seus contrastes fazer «a decifração comunista do mundo» (Vertov), com uma novidade formal excepcional. Com o advento do sonoro, Tchapaev, dos irmãos Vassiliev, um grande êxito popular, é um excelente exemplo de como aprender com todos os seus antecessores e de como se assimilaram as possibilidades estéticas abertas pelo sonoro.

Todas as disciplinas artísticas são atravessadas pelo vento da Revolução. Respiram-no, e essa respiração é vital para a pulsão criadora de que ficam possuídas. A abolição das relações de propriedade abre as estradas para novas formas de arte que apontam para o futuro, recusando frontalmente tanto a estetização da política como a mundanização das artes, demonstrando de forma inequívoca como a arte de massas pode ser verdadeira arte, isto dito de forma linear, usando e aceitando uma terminologia vulgar. A grande escassez de materiais condicionou a produção de cartazes, monumentos, filmes. O papel era utilizado sobretudo em jornais, livros, cadernos. Isso não impediu que o cartaz com mensagens e palavras de ordem revolucionárias fosse bastante utilizado e tivesse uma expressão estética que, na maioria dos casos, usava técnicas figurativas, muito influenciadas pelas imagens cinematográficas. A fotomontagem vulgarizou-se com grande inventiva com El Lissitsky, os irmãos Stenberg, Kloutsis, Proussakov, e paralelamente com as ideias do construtivismo, que Naoumov usou com notável maestria. A escassez de papel está na base de uma nova forma de cartaz, as janelas ROSTA. Um trabalho gigantesco feito por «um grupo de pintores que, à mão, traduziam a luta revolucionária em manchas coloridas e palavras de ordem sonoras para a levarem a milhões de pessoas», como o sintetizou Maiakovski, um dos mais activos intervenientes nessa actividade, que se expandiu pelas principais cidades russas, sobretudo em Moscovo, São Petersburgo, Smolensk, Kiev, Vitebsk. Com uma linguagem pictural muito estilizada e de grande expressividade, as ROSTA eram uma variante dos jornais de parede e tiveram grande influência na feitura de cartazes.

A arte monumental deste período merece um estudo particular. Anote-se rapidamente a coexistência entre monumentos temporários e monumentos para perdurarem no tempo. A essa distinção não é alheia a já referida escassez de materiais, que condicionava as selecções. Logo em 1918, Lunatcharsky, Comissário no governo soviético para a Educação, propôs e fez aprovar um decreto sobre os Monumentos da República (12 de Abril de 1918) em que se determina o destino a dar aos monumentos czaristas e a organização de concursos públicos para projectos de monumentos que assinalem «as jornadas gloriosas da Revolução socialista na Rússia». Na sequência, em 2 de Agosto foi publicada e aprovada uma lista com «As Personalidades à memória das quais é previsto realizar monumentos em Moscovo e noutras cidades». São dezenas de revolucionários, filósofos, escritores, pintores, músicos, cientistas, etc., a quem se deveria erigir um monumento. A lista foi elaborada considerando o seu carácter progressista e papel histórico nas lutas sociais e na luta pela consciência social das massas. Era também um meio de colocar a Revolução Bolchevique na cultura universal como herdeira do progresso social da história da humanidade. Tinha um forte carácter internacionalista, era uma base para as diversas cidades elaborarem as suas encomendas. A par das outras obras de agit-prop, tinham frases de Marx, Tolstoi, Goethe, Ovídio, Danton. Embora a dominante fosse o monumento-retrato, fizeram-se propostas com soluções de moderna estatuária que ficaram para a posteridade. Muitos desses monumentos, por razões económicas, não passaram de projectos. Alguns foram construídos com materiais precários; de referir os que foram construídos com gelo, mesmo conhecendo a sua sazonalidade. Não se limitaram a glorificar pessoas, mas as lutas heróicas dos operários e camponeses, do Exército Vermelho. Nele se empenharam tanto escultores como arquitectos, pintores, artistas gráficos.

Todas essas realizações da arte soviética nesses anos heróicos da construção do socialismo resultam de um trabalho teórico e de um empenhamento sem precedentes na organização cultural e educativa. No III Congresso dos Sovietes, Lénine afirmou: «Antes, o génio do espírito humano trabalhava unicamente para que os bens da cultura e da técnica fossem aproveitados por uma minoria, enquanto os outros, a esmagadora maioria, era privada do essencial: da educação e do desenvolvimento. A partir de hoje toda e qualquer maravilha da técnica, cada conquista da arte, será uma herança de todos os povos e jamais algum espírito humano e o seu génio estarão ao lado da opressão, da exploração.» Foi esse o trabalho do Comissariado do Povo da Educação da URSS, que numa dezena de anos alfabetizou uma população de milhões maioritamente analfabetos e impulsionou uma nova cultura, em que se empenharam milhares de artistas e intelectuais que, por vezes com grandes e ásperos confrontos de ideias, lançaram as bases de uma vasta acção artística e cultural em apoio à Grande Revolução de Outubro que se dirigiu a toda uma população, às mais largas massas populares, no que foi um salto qualitativo na história mundial das artes e da cultura.

A cultura era uma presença viva, inconformada e sempre inovadora, nos antípodas das estradas percorridas actualmente pelas culturas ocidentais, no plural para sublinhar diferenças que realmente são cada vez mais secundárias, e que inquietam a intelligentsia, como Blanchot tão claramente sintetiza: «secretamente dramático é saber se a cultura pode alcançar um valor último ou se não pode fazer mais do que desdobrar-se gloriosamente no vazio contra o qual nos protege, dissimulando-o».

A cultura e as artes, nos anos grandiosos da Revolução de Outubro, enunciaram e percorreram todos os caminhos que as forjam como poderosas ferramentas de transformação da vida. Nos nossos dias, as artes e a cultura vivem uma situação dramática resumida por Terry Eagleaton: «hoje em dia tanto a teoria cultural quanto a literária são bastardas […] pela primeira vez em dois séculos não há qualquer poeta, dramaturgo ou romancista britânico em condições de questionar os fundamentos do modo de vida ocidental». Não é só a literatura britânica, são todas as artes, é toda a cultura de uma cultura inculta. As excepções são raras num tempo em que, num aparente paradoxo, se investe consideravelmente na construção de museus, teatros, salas de concertos, em múltiplas instituições, na subvenção de espectáculos, sem que isso tenha expressão nas artes, que em nenhuma parte do mundo se aproximam, muito menos emergem, das realidades sociais. As artes e cultura, num tempo em que tudo se submete e sacrifica nos altares do economicismo, estão atiradas para uma incoerência caótica e insensata, apesar dos génios que em obras fragmentadas demonstram a sua genialidade, o que sublinha a tese de Burckhardt: «existem hoje grandes homens para coisas que não existem».

A arte e a cultura não estão condenadas à alienação. As artes na Revolução de Outubro, com a sua vertiginosa criatividade e combatividade, comprovam-no. É um processo irrepetível, mas o que foi possível poderá novamente sê-lo com formas completamente outras.

CV ContraCapa

BIBLIOGRAFIA

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Blanchot, Maurice, O Livro por Vir, Relógio d’Água, 1984.

Burckhardt, Jacob, Considérations sur l’Histoire Universelle, Allia, 2001.

Eagleton, Terry, After Theory, Penguin Books, 2004.

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Lénine, V. I., Obras Escolhidas, Edições Avante!, 1992.

Maïakovski, Vers et proses, choisis, traduits, commentés par Elsa Triolet, Les Editeurs Français Réunis, 1963.

Martin, Marcel, A Linguagem Cinematográfica, Prelo Editora, 1971.

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Tairov, Aleksandr, Le Théâtre Liberé, La Cité-L’Âge d’Homme, 1974.

Vários, Os Futuristas Russos (coordenação de Léon Robel, tradução de Emília geo Georgette), Editora Arcádia, 1971.

(PUBLICADO NO CADERNO VERMELHO Nº 25 / Setembro 2027)

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Artes, Bartolomeu Cid dos Santos, Geral

Em memória e louvor de Bartolomeu

ESFERAS&LABIRINTOS 8

                                                                                                                                         à Fernanda

Hoje Bartolomeu faria 86 anos. No próximo sábado, o último sábado do mês de Agosto, lá estaríamos na sua casa em Sintra a comemorá-los num almoço que ele e a Fernanda organizavam reunindo mais de cinquenta amigos e que, por vezes, coincida com o seu aniversário. Um alegre e estimulante convívio que se iniciava pelas onze horas da manhã, se prolongava tarde dentro, alguns, os mais resistentes, só abandonavam o terreiro já a desoras sem que a intensidade do convívio se desgastasse. Uma festa que se realizou durante dezenas de anos em que, pela lei da vida, foram ficando ausentes alguns dos sempre presentes, Sá Nogueira, José Cardoso Pires, José Daniel Santa-Rita, Luís Sousa Rebelo, Manuel Brito, Fernando Lopes, António Tabucchi. Terei esquecido alguém?

Era um encontro que fazia parte das nossas vidas e que, com o desaparecimento do Bartolomeu, deixou um vazio que não sabemos preencher.

Autoretrato1

Em memória o Winterreise, essa viagem desolada que o Barto tão excelentemente “ilustrou” com a sua genialidade e humanismo.

Winterreise G2

Winterreise G5

WinterreiseG 3

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Artes, Cultura, Fausto Neves, Geral, Literatura, Mão Morta, música, Músicos do Tejo, Política, teatro

Sugestões Culturais Julho

Leonardo da Vinci

 

 

Sugestões Culturais para o mês  de Julho publicadas no AbrilAbril e texto do comunicado do MPPM cujo link falhou

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Almada Negreiros, Artes, Cultura, Geral

ALMADA NEGREIROS- ser sempre moderno

 

almada

Almada Negreiros é caso muito particular nas artes portugueses e no contexto do modernismo que tinha o centro irradiante em Paris, contaminava o mundo, adquiria expressão nos países periféricos com singularidades distintivas. Um caldo de cultura febril que Almada, autodidacta, artista multidiversificado, percorre cunhando toda a sua obra com o selo de uma modernidade contraditória, híbrida, complexa.

Almada, com uma energia criativa invulgar presente em toda a sua obra de poeta, ficcionista, conferencista, ensaísta, desenhador, pintor, artista gráfico, muralista, ceramista, vitralista, cenógrafo, coreógrafo, bailarino, geómetra, está sempre em estado de performance narcisista. Assim se classifica na assinatura do poema A Scena do Ódio: José de Almada-Negreiros (poeta sensacionista e narciso do Egypto.

António Ferro que com Duarte Pacheco procurou, com êxito efémero, soldar uma modernidade europeia de raiz fascista ao bafiento salazarismo percebeu como poucos o ecletismo de Almada: «José de Almada Negreiros faz tudo o que quer, é o grande saltimbanco da arte moderna portuguesa (…). A arte é para Almada Negreiros uma vitrina de brinquedos. Dá corda a este, dá corda àquele – mas não se decide por nenhum… Almada não se decide por nenhuma arte, toda a arte, contudo, se decidiu por ele.»

Essa atitude o distingue de Fernando Pessoa e Amadeo de Souza-Cardoso, dois pilares do primeiro modernismo em Portugal. Pessoa e seus heterónimos é um solitário, um introvertido. Souza-Cardozo vai para Paris para conquistar Paris com o seu enorme talento, só não conquista porque morre prematuramente. As suas genialidades confinam-se ao que genericamente se designa por artes maiores. Almada está nos antípodas. Deliberadamente não quer saber de fronteiras entre artes maiores ou menores. A arte para ele é só uma, o seu espaço o espaço público. Um provocador que usa e fabrica extravagâncias como armas de arremesso para afirmar a arte em movimento perpétuo a atirar pedradas para os charcos do convencionalismo.

Tem a vertigem de causar impacto, de conquistar audiências, saltando das tertúlias que frequenta e anima, dos salões de exposição onde mostra as suas obras, das editoras que o publicam para os jornais, para os espaços públicos que são as suas ruas, as ruas onde está a gente que desafia num espectáculo sempre em cena de que é figura central. Tudo para ele é um palco onde exibe talento multifacetado.

Anuncia-se precocemente nos meios artísticos lisboetas com desenhos humorísticos. Participa na I e II Exposição dos Humoristas Portugueses e, em 1913, com 90 desenhos tem a sua primeira exposição individual. Essa exposição coloca-o em contacto com Fernando Pessoa que escreve uma crítica na revista Águia. Colabora como ilustrador em vários jornais, publica a sua primeira obra poética, um primeiro projecto de bailado, influenciado pelos Ballets Russes de Diaghilev, pelo ecletismo de Stravinsky. São anos em que se integra nos primeiros modernistas portugueses, com textos e desenhos desde o primeiro número da revista Orpheu. Partilha ideias e projectos com Santa-Rita pintor e Souza-Cardoso que proclama em estilo altissonante, “a primeira descoberta de Portugal no séc. XX”. Anos em que se afirma como um escritor original. Desanca os academismos no Manifesto Anti-Dantas: Basta Pum, Basta! Uma geração. Que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, Morra! Pim!”. Radicalismo estético em contraponto com a opção política assumida como director artístico do semanário monárquico Papagaio Real, o que não o embaraça. É e não é artista do Estado Novo. Os seus murais para obras do arquitecto Pardal Monteiro, emblemáticas da política do espírito e do gosto de António Ferro, fazem ranger os dentes aos puristas fascistas ao verem na porta de entrada de Lisboa saltimbancos a pedir esmola, emigrantes a fugir à miséria, varinas com traços negroides, descoroçoados santos nos vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

É um genial intuitivo que na obra literária antecipa muitos ismos. Leia-se Nome de Guerra que Herberto Helder considera «um dos apenas três ou quatro romances portugueses deste século que se podem ler sem desbaratos de tempo», o conto O Kágado, o texto Saltimbancos que nenhuma pontuação interrompe. a novela A Engomadeira, surrealista antes do Manifesto Surrealista de Breton.

Almada possuidor de vigorosa energia criativa, sempre em estado de performance narcisista, desenha em qualquer suporte com grande virtuosismo e criatividade, um risco expcecional que orienta murais e pinturas que, com menor fulgor, realizou. Almada que é tudo em simultâneo, para quem” moderno não é um movimento a que se pertence – é o que se faz, é o que se é” deixa um extenso legado, não tem discípulos, tem seguidores que com ele aprenderam a rasgar as convenções.

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Artes, cinema, Cultura, Geral, Literatura, música, museus, teatro

Sugestões para os Tempos mais Próximos

Sugestões culturais sem milagres, visões e aparições. Aqui os milagres, visões e aparições são realidades bem palpáveis, visitáveis, legíveis, audíveis.

baptista bastos

Comece-se pelo livros, motivo e opção óbvios, a morte de Baptista-Bastos. Sem ele e a arte e prazer de o ouvir contar estórias ao vivo ficam os livros. Vários dos seus melhores romances, entre outros No Interior da Tua Ausência, A Colina de Cristal, Cão Velho entre Flores, Cavalo a Tinta da China, encontram-se disponíveis (estarão todos?) nas livrarias. O que se espera é que se faça uma reedição da Biblioteca Baptista-Bastos que a Asa pela mão de um editor atento e esclarecido, o Manuel Alberto Valente, realizou no alvorecer do séc. XXI, que agora deveria abranger os últimos romances e crónicas. Fica a sugestão.

No cinema o destaque vai para os últimos dias do IndieLisboa, com propostas cinematográficas bem interessantes a decorrer nos cinemas São Jorge, Ideal e Cineteatro Capitólio, na Cinemateca Portuguesa e na Culturgest. Consulte o programa  http://indielisboa.com/programacao-2017/ , até dia 14 quando encerra ainda tem muito por onde escolher. O outro destaque é para o ciclo Kenji Mizoguchi no cinema Nimas, Lisboa e no Teatro do Campo Alegre, Porto e terá continuidade em Coimbra, Braga, Setúbal e Figueira da Foz. São os melhores filmes desse realizador que em Contos de Lua Vaga, fez um retrato sem concessões da animalidade e barbárie do homem em situações limite de guerra no contexto da  guerra civil no século XVI, na origem do Japão actual. Uma obra- prima que ganhou o Leão de Prata em Veneza o que deu impulso significativo ao culto da cinematografia japonesa e de Mizoguchi. A crueldade humana volta a ser tema, agora em tempo de paz, nos Amantes Crucificados.

 

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Os Amantes Crucificados, Kenji Mizoguchi

Todo o amor sofre castigo até ser condenado à pena de morte por crucificação. Um filme em que o amor é exaltado optando os amantes pela morte para não renegarem a paixão em que se consomem. A crueldade já não física mas social e moral continua a ser  seu tema em As Mulheres de Quem se Fala, num belíssimo cenário arquitectónico de uma casa de gueixas. O ciclo completa-se com outros filmes  como Festa em Gion, A Senhora Oyu, A Imperatriz Yang Kwei Fei, O Intendente Sansho, Rua da Vergonha (1956) e O Conto dos Crisântemos Tardios. Um ciclo a não perder para ver ou rever Mizoguchi. Consultem os programas onde já está a decorrer em Lisboa http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-espaco-nimas/, e no Porto http://medeiafilmes.com/eventos/ver/evento/ciclo-kenji-mizoguchi-teatro-campo-alegre/ . Nas outras cidades referidas, cinéfilos estejam atentos.

No teatro o grande destaque é para Teatro O Bando com uma leitura bem original do O Inferno da Divina Comédia de Dante, com encenação de João Brites, até 4 de junho no Teatro Nacional Dona Maria II. A 19 de maio no Teatro Municipal de Almada- Joaquim Benite, uma oportunidade para quem não conseguiu ver, as salas estiveram sempre esgotadas, Jardim Zoológico de Vidro de Tennessee Williams, dos Artistas Unidos com encenação de Jorge Silva Melo.

almada negreiros

Nas exposições continua até 5 de Junho, José Almada Negreiros, uma Maneira de ser Moderno. Outra exposição que merece toda a atenção é Victor Palla e Bento d’Almeida Arquitecturas de Outro Tempo, até 4 de junho no Centro Cultural de Belém, sobre a  obra do atelier desses dois arquitectos que se celebrizaram pela introdução em Portugal do modelo americano do snack-bar, o Galeto é exemplar no seu desenho que resiste ao tempo. Foram responsáveis pela modernização de inúmeros estabelecimentos comerciais, fábricas, escolas primárias, habitação permanente (moradias unifamiliares e edifícios de habitação multifamiliar) e temporária (hotéis e aldeamentos turísticos). Victor Palla pelo seu notável trabalho em muitas outras áreas, design de equipamento e gráfico, pintura, fotografia em que se destaca um livro feito em colaboração com Costa Martins,

vitor palla

Lisboa, Cidade Alegre e Triste, com poemas de Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira e um texto de Rodrigues Miguéis, uma obra-prima de fotografia e de arranjo gráfico, merece uma exposição retrospectiva de toda a sua extensa obra.

Agora quando o fascismo, que está sempre nas entranhas do capitalismo, volta a rondar em força  o mundo, para sabermos o que todos sabemos que Portugal não é um país de brandos costumes e porque não se deve nunca  apagar a memória dos anos negros da ditadura do Estado Novo e dos seus safanões a tempo, são de ver as exposições Estranhos Dias Recentes de um Tempo Menos Feliz, no Atelier-Museu Júlio Pomar, tendo por ponto de partida o Almoço do Trolha de Júlio Pomar e os tempos de crise e austeridade, apresenta obras de artistas contemporâneos, André Romão, Carlos Bunga, Igor Jesus, Joana Bastos, João Leonardo, João Pedro Vale & Nuno Alexandre Ferreira, Pedro Barateiro e Rodrigo Oliveira. Lembrando tempos mais remotos que continuam a ter ecos na actualidade, casos de escravatura continuam a existir em Portugal sobretudo no trabalho agrícola, vejam-se as exposições Racismo e Cidadania, no Padrão dos Descobrimentos e Testemunhos da Escravatura na Academia Militar no âmbito de Lisboa, Capital Ibero-Americana da Cultura.

No Museu Nacional de Arte Antiga duas exposições a ver: A Cidade Global- Lisboa no Renascimento e Giovanni Antonio Canal IL CANALETTO

“O Canal Grande a partir do Campo San Vio”,

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um pintor que usava um sistema nas origens muito remotas das máquinas fotográficas para reproduzir as imagens que depois transpunha para a pintura com grande rigor o que permitiu que o centro de Varsóvia completamente arrasado pelos nazis fosse reconstituido a partir das pinturas de Canaletto.

A não esquecer o próximo dia 18 é Dia Internacional dos Museus, comemorado em todos os museus do país. Uma oportunidade a não perder.

Para os alfacinhas, antecipando as Festas da Cidade, inaugurou no dia 9  no Museu da Cidade-Santo António, uma interessante exposição sobre Santo António em Banda Desenhada. José Garcês, Raphael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Filipe de Abranches, João Paulo Cotrim e Pedro Burgos, Marcos Farrajota, Nuno Saraiva, Vítor Silva entre outros estão extensivamente representados.

A fechar exposições de artes deixando muitas dentro da gaveta, a de Helena Lapas  Matéria do Tempo na galeria Ratton e Sérgio Pombo Agora,  no Teatro da Politécnica.

Na música, na Casa da Música no Porto compositores portugueses contemporâneos, com obras recentes outras em estreia, encomendadas por essa instituição, podem ser ouvidos em três concertos com o título genérico O Estado da Nação. A Orquestra Sinfónica, o Remix Ensemble e a Orquestra Jazz de Matosinhos, visitam um reportório onde se encontram novas versões de obras de João Pedro Oliveira e Pedro Amaral,  Luís Tinoco, Cândido Lima, Jorge Peixinho e Daniel Moreira entre outros.

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Um alerta com alguma expectativa para Peter Grimes de Benjamin Britten no Teatro Nacional São Carlos nos dias 30 de maio, 1,3, 5 e 7 de Junho. É uma das grandes óperas do séc. XX que está em todos os reportórios operáticos depois do seu sucesso inicial, que é também o primeiro grande sucesso de Britten junto do público e da crítica. O cenário é uma aldeia piscatória fictícia em que o pescador Grimes enfrenta a acusação da morte do seu aprendiz debatendo-se em grande angústia e solidão contra o veredicto da sua comunidade. Acentuando a exclusão social do personagem central, Britten deixa ao público decidir qual a verdadeira natureza de Peter Grimes.

A fechar, na Antena 2 aos sábados às 22h00 com repetição às 2ª feiras às 13h, o programa de rádio Ao Correr do Som, de Marcos Magalhães e Marta Araújo, os promotores e directores de Os Músicos do Tejo. Um programa para descobrir a música em perspectivas cruzadas, algumas bastante inesperadas, que abrem novos horizontes para audições musicais estimulantes. Esta semana o 7º episódio, os anteriores podem ser encontrados na RTP-Play.

( sugestões feitas em AbrilAbril  http://www.abrilabril.pt/ 12 de Maio)

 

 

 

 

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"Star-System", Artes, Bob Dylan, Caetano Veloso, Chico Buarque, Contracultura, Cultura, Cultura Mediática, Estética, Georges Brassens, Geral, imperialismo, Imperialismo Cultural, leo ferré, Literatura, Nobel Literatura, Obama, Prémios Nóbel

Esbofetear a Literatura e a Cultura

bobdylan

 

Por estes dias Bob Dylan por interposta Patti Smith recebe o Nobel da Literatura que a Academia decidiu conceder com o argumento de “ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana”, o que a secretária permanente da academia explicou, considerando Dylan ser merecedor do prémio por “ser um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”.

São curiosas justificações que nada justificam. Se Dylan criou novas expressões poéticas na tradição da canção americana o que dizer de um Leonard Cohen, de uma Laurie Anderson, de uma Meredith Monk. Argumento mais ridículo é considera-lo “um grande poeta na grande tradição da poética inglesa”. Um só verso de T.S.Elliot, para referir outro nobelizado, tem mais espessura e inteligência que toda a obra de Dylan, a que já produziu e a que eventualmente venha a produzir. Seria extraordinário que a coroa de louros do Nobel produzisse tal metamorfose e transfiguração. O que o Nobel vai injectar em Dylan é um doping de marketing.  O prémio da Academia Sueca é um selo que faz vender e muito mais vai fazer vender quem já se movia no mundo comercial como peixe na água, como se pode aferir pelas vendas alcançadas por um dos seus últimos discos em que recorre ao reportório de Sinatra mesmo que seja uma demonstração das suas limitações enquanto cantor.

A atribuição do prémio a Dylan produziu enormes ondas de choque no universo da cultura, normalmente associada a um conceito restritivo e elitista que tem sido abalado, desde a emergência da cultura pop por uma hibridização entre géneros que não cessam de se cruzar de forma incongruente mas que, há que reconhecê-lo, muitas vezes de forma sedutora para criar um imaginário universalizado a destruir fronteiras entre as camadas sedimentares das culturas, Cultura Erudita/Humanística, a Cultura Popular, Cultura de Massas, etc. alienando as políticas de democratização da cultura. Um dos que mais se fez ouvir foi Vargas Llosa, outro Nobel da Literatura, numa denúncia vigorosa de que agora “vale tudo” na banalização de uma cultura em que se apagaram os parâmetros selectivos, interrogando se “no próximo ano vão dar o Nobel da Literatura a um futebolista”. O que não é inesperado de quem escreveu o ensaio A Civilização do Espectáculo, em linha com muitas obras teóricas que têm colocado em causa o estado actual da cultura contaminada pelas mundanidades e pelos populismos.

No olho do furacão desencadeado pela atribuição do Nobel a Dylan têm ficado submersos outros argumentos pertinentes embora quase seja obrigatório referir o sofisma de alguns recordarem que na antiga Grécia a poesia estar sempre ligada á música. Safo ou Homero, os trovadores franceses e ingleses, as Cantigas de Santa Maria da corte de Afonso, o Sábio ou de Dom Diniz, não podem ser usados para caucionar a eleição da Academia Sueca. Ao entrar por esse campo, dentro das fronteiras definidas nesse território, Dylan é um pigmeu, tanto poética como musicalmente, se for comparado com um Georges Brassens, um Leo Ferré, mesmo um José Afonso. Ouvindo qualquer desses cantautores, como agora são chamados, a distância para o norte-americano é abismal. E se Brassens raramente musicou poemas que não os seus Ferré, com bastante talento e sem escorregar para algum cabotinismo que inquina parte da sua obra, escreveu excelente música para poemas de Rimbaud, Verlaine e Baudelaire. Estão mortos, a Academia não atribui prémios a artistas entretanto desaparecidos. Argumentário falhado se formos ouvir um Chico Buarque ou um Caetano Veloso que, como escreveu Helder Macedo, “transformaram a poesia impossível no tempo da ditadura na canção possível durante a ditadura”. Sublinhe-se mais uma vez com um saber musical e poético de que Dylan é incapaz. Estão vivos, continuam a escrever canções numa língua que é das mais faladas no mundo, o que seria uma eventual pecha dos franceses. São de um país, o Brasil, onde o Nobel nunca desembarcou apesar dos grandes escritores que cintilam no seu firmamento e no firmamento universal.

Estranho? Nem tanto. O prémio Nobel da Literatura, como outros nóbeis, é também um prémio político. Obama está no panteão dos nóbeis da Paz para o confirmar. Na literatura, só assim se percebe porque foram nobelizados Soljenitsyne, Cholokov, Alexievich ou, sobretudo Churchill “pela sua brilhante oratória na defesa dos Direitos Humanos”, ele que era de facto um brilhante orador, a denúncia incendiária que fez do nazismo prova-o, mas teve posições dúbias em relação ao genocídio dos índios, desprezava não pelas melhores razões Gandhi, a componente rácica não era alheia a esse desprezo, foi um dos principais co-autores do brutal e desnecessário bombardeamento de Dresden, registado para a posteridade em Matadouro 5, por Kurt Vonnegut e que agora está a ser detergentada pela química dos restos do Muro de Berlim. Enfim, era a Academia Sueca a contribuir decisivamente para cumprir o desejo de Churchill “a história será gentil para mim, já que pretendo escrevê-la”.

Nesse patamar político há que situar o Prémio Nobel da Literatura 2016, escolhendo um suposto activista da contracultura, subvertida pela sua obra politicamente correcta, a fazer cócegas inconsequentes ao establishment, que engorda com essa marginalidade bem-comportada, a envernizar a liberalidade de uma sociedade sem dignidade e sem dignidade para oferecer.

É nesse patamar político que o prémio da Academia contribui para a manutenção do imperialismo cultural anglo-saxónico, que se ancorou no século XX, quando as nações perdem centralidade e capacidade de comandar o processo cultural. Quando a superfície global vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. Quando miséria e riqueza extremas tocam-se com geografias alteradas. Situações que ainda há cinquenta anos eram do 3º mundo existem no 1º Mundo, e em áreas qualificadas do 3º Mundo surgem imagens e poderes do 1º Mundo. É o fenómeno da globalização que decorre do desenvolvimento capitalista. Uma época nova que se começa a definir mais nitidamente a partir dos anos 70 com o fim da equivalência do dólar-ouro, a primeira grande crise do petróleo, a definição da paz nuclear. Quando se começa a reconhecer que é difícil ou mesmo impossível garantir o desenvolvimento capitalista com os instrumentos de regulação soberanos internos, dentro dos espaços-nação. Instrumentos de regulação económica como o Banco Mundial ou o FMI, que eram projecções da potência norte-americana têm hoje um carácter supranacional de regulação do desenvolvimento mundial. É a situação histórica da passagem do modernismo para o pós-modernismo. Enquanto, numa extensão sem precedentes, cada vez mais habitantes do planeta perdem a esperança e são atirados para a exclusão, a riqueza global vai-se concentrando num número cada vez menor de mãos. Em nome da racionalização e da modernização da produção, estamos a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial. Uma nova ordem económica emerge impondo-se com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. Para esta nova ordem capitalista são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. É tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas, as revistas de glamour, a música internacional nos sentimentos e americana na forma, os programas radiofónicos e televisivos prontos a usar e a esquecer, o teatro espectacular e ligeiro, o cinema mundano medido pelo número de espectadores, a arte contemporânea em que a forma pode ser substituída por uma ideia e a personalidade do artista transformada numa marca garante do valor da mercadoria artística que atravessa fronteiras e agora entra com grande estrondo nos salões em que se decidem a atribuição do Nobel da Literatura, tomados de assalto pela banalização dos critérios intelectuais, pelas modas da cultura massificada e alienada, pelo vazio da era do vazio.

Inscreve-se o prémio da Academia Sueca a Bob Dylan na exportação de formas culturais que têm o objectivo de despolitizar, trivializar, alienar a humanidade aplainando o humano individual num processo de globalização e internacionalização que tende a destruir todas as formas de solidariedade, comunidade, valores sociais. É uma nova tirania exercida através de uma cultura em que subverte a cultura erudita e popular numa formatação pop e na instituição do star-system em que o que se exige dos receptores é o menor esforço, em que a procura e o do prazer da descoberta são praticamente anulados para que a inteligência morra, depois de um longo estado de coma agónica entre no grau zero.

Eleger Bob Dylan como Prémio Nobel da Literatura enquadra-se nos objectivos maiores do imperialismo político e económico, na sua componente cultural. É a legitimação do triunfo da cultura pop, do populismo das redes sociais, da banalização do pensamento reduzido ao teclar de um tweet, do trabalho sem fadiga de demagogicamente banalizar a criatividade, um vírus canceroso que tem vindo a corromper as artes na grande tarefa de destruição da exigência de esforço que as artes comportam para nos tornarem humanos.

(publicado em AbrilAbril; 12 Dezembro)

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