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ROBLES, DO OUTRO LADO DO ESPELHO

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho.

Robles

O caso Robles tem empapado noticiários, redes sociais, internet. A esmagadora maioria dos comentários navega na espuma dos factos variando entre os das esquerdas que, fazendo contorcionismos quase impossíveis, tentaram e tentam desresponsabilizar o dirigente do BE, aos de outros que, com o oportunismo que caracteriza a direita, agitam as bandeiras de princípios morais que nunca tiveram, para o condenar e por arrasto condenar o BE, não por causa do BE mas visando mais longe para tentarem acertar na «geringonça» que eles bem sabem ter tido o seu tiro de arranque por iniciativa do PCP (o que tem sido ocultado em benefício do BE), como foi esclarecido, certamente não por acaso, preto no branco, por António Costa, num dos últimos debates na AR, depois de afirmar ter a «geringonça» na cabeça e no coração – o que será comprovado nos tempos próximos.

Uma insanável contradição ética

Robles não cometeu nenhuma ilegalidade, nem cometeu nenhum crime económico. Envolveu-se num negócio imobiliário especulativo que se inicia quando participa num leilão em que o Estado aliena património público ao desbarato. Para quem diz defender políticas públicas de habitação esse foi o primeiro passo para se negar, adquirindo para si um património que devia pugnar para que se mantivesse público. Os passos sequentes estão em conformidade.

Na recuperação do imóvel os apartamentos variam entre os 30 e os 25 metros quadrados, segundo a descrição do anúncio que o colocava no mercado. Robles poderá não ter noção do que é uma habitação de 30, 25 metros quadrados. Poderá não ter, mas certamente saberá quantos metros quadrados tem a sala da casa onde vive e não é de crer que tenha menos de 20 metros quadrados, o que já lhe dá um razoável padrão comparativo.

Há ainda outro aspecto no projecto de recuperação do imóvel que, aparentemente, viola o PDM, artigo 42-3 d, em que «se admite o aproveitamento da cobertura em sótão e a alteração da configuração geral das coberturas, desde que contida nos planos a 45 graus passando pelas linhas superiores de todas as fachadas do edifício, não seja ultrapassada a altura máxima da edificação, seja assegurado o adequado enquadramento urbanístico». Pelas fotos divulgadas, o aproveitamento da cobertura não cumpre essa norma, com largo benefício para a sua área útil. Robles disso não se deve ter apercebido. Deve desconhecer o PDM ou leu-o na diagonal, 45 graus é um ângulo estranho que deve ter dificuldade em calcular. Sendo vereador na CML e defendendo publicamente, com grande alarde, políticas urbanísticas não especulativas deveria, no entanto, cuidar-se para não incorrer em riscos suplementares aos riscos de se ter enredado no processo em que se envolveu.

 

Robles e a campanha da direita

 

Os oportunistas de direita não perderam tempo a colocar a prancha na crista da onda e o BE, pouco habituado a maus tratos comunicacionais, andou aos zigues-zagues. Também houve quem aproveitasse a balbúrdia para atirar umas pedras ao PCP, nada inesperado nem inusual. Não sendo essa a questão central, a direita por interposto Robles apontava o dedo às esquerdas partindo do princípio de que quem é de esquerda tem que fazer votos franciscanos. Um equívoco idiota. Quem é de esquerda, no contexto desta sociedade, pode ser rico, Engels era, o que não limita a capacidade de intervenção social e política, de lutar ao lado dos trabalhadores desde que não se ofenda quaisquer princípios éticos nem deixe de defender essas frentes de luta mesmo que os seus bens patrimoniais sejam atingidos. A direita, com o seu oportunismo contumaz, confunde moralismo, ética e ilegalidade. Tem outro problema, a corrupção, os crimes políticos e económicos, os que estão escrutinados e alvo de processos judiciais mais os que andam a pairar ou estão submersos em nuvens de suspeição, são praticamente um exclusivo do PS, do PPD e do CDS. Têm a seu favor a artilharia jurídica, sabendo-se que entre a justiça e o direito o abismo não é pequeno e que o direito é o direito do mais forte à liberdade. Robles era um alvo à sua medida mesmo sabendo-se que não tinha cometido nenhuma ilegalidade. Tinha incorrido numa fortíssima e insanável contradição ética.

A campanha que decorreu e continua a decorrer é da baixa politiquice, prenhe de truques xico-espertos e populistas que procuram ocultar a dura realidade das inquietações que assaltam os grandes interesses económicos e os políticos que os representam.

A questão central da direita é a necessidade, até urgência, em romper com a convergência que parlamentarmente tem sustentado a solução governamental que, desde as últimas eleições, foi encontrada. Pressionados pelo grande poder económico e politicamente desorientados, fazem esses fogachos enquanto não encontram líderes capazes de a romper. Rui Rio não os satisfaz por parecer estar mais interessado em ressuscitar um bloco central, o sonho desejado por Marcelo, que desde o seu primeiro dia de presidência o tinha colocado por debaixo da mesa em que discutia os problemas do dia-a-dia governativo com António Costa. Assunção Cristas é aquela coisa que abana a cabeça de um lado para o outro sem uma ideia consequente. Aparecem agora um ressuscitado Pedro Santana Lopes que tem ideias que sem o concurso dos concertos de violino de Chopin não consegue afinar. Pedro Duarte a saltar pimpão para o palco, faltando saber se tem estaleca para enfrentar Rio e é capaz de corporizar os desejos não ocultos do grande capital.

A direita, atarantada por estar longe de exercer o poder e de no horizonte próximo essa possibilidade se configurar difícil, fragmenta-se, o que não significa que não continue a ser perigosa. Os comentadores que lhe são afectos e que dominam o panorama dos meios de comunicação social, da estipendiada propriedade dos plutocratas ao chamado serviço público – com destaque para a televisão onde se encontram bem representados –, aproveitam o caso Robles para colar pedaços e atacar sem detença a «geringonça» de caras ou de cernelha, como o têm feito desde o primeiro momento em que se percebeu que poderia haver uma solução governativa PS com apoio parlamentar do PCP, BE e PEV. Esse o alvo e o grande objectivo.

Alvos: entre o preferencial e o interposto

Num primeiro momento, de forma continuada, o PCP foi o alvo preferencial, em linha com que sucede desde o pós Revolução de Abril. O PCP abrir a porta para esta solução governativa destruía a velha e relha tese do PCP «na sua lógica imutável do “quanto pior, melhor”». Uma cassete da direita adoptada por muitos que se dizem de esquerda mas alinham sistematicamente com a direita. O PCP, na sua longa história, não teve nem tem vistas curtas pelo que nunca poderia pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda.

As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes. Quando as crises rebentam as pessoas interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata, espontânea e humana é o receio pelo seu futuro. As pessoas que vivem pior e enfrentam situações que precarizam a sua vida estão humanamente mais fragilizadas, mais vulneráveis. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade podem e devem ser postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. O colar o «quanto pior melhor» ao PCP é uma ideia feita da direita e de malta dita de esquerda formatada e em deriva ideológica. Esse bordão tinha ficado em estilhas, pelo se entrincheiraram nos desvios do PCP «à fidelidade de princípios». O que muito os incomodava, porque seria a única virtude que reconheciam a esse partido, ainda que essa virtude representasse para eles um claro sinal de envelhecimento. Para quem não tem, nunca teve, nem nunca terá princípios de qualquer género, para quem os princípios são instrumentais, ter princípios e a eles não falhar é qualquer coisa incompreensível, inaceitável. Esbarrava essa argumentação no empenho negocial do PCP em dar continuidade à «geringonça» sem recuar em nenhuma luta e nas críticas às vacilações das políticas sociais e económicas do governo, sem deixar de condenar a sua subordinação aos ditames da UE e à política belicista da NATO.

Com o BE, a questão era outra. Desde o anúncio da sua formação o BE beneficiou de desvelados carinhos mediáticos. Largos espaços de antena, dos jornais às televisões lhe foram concedidos, muitas das suas mais conhecidas individualidades foram e continuam a ser recrutadas para comentadores, mesmo os que saíram do BE para o Livre não perderam essas sinecuras, o que torna, curiosa mas não inesperadamente, o Livre num partido de quase nula expressão a ter desmesurada presença nos media. O BE alimentava a esperança de uma movida política, de ser o anticiclone dos Açores a impulsionar o ar fresco que varreria um PCP que não abdicava da sua identidade ideológica, reconfigurando o lado esquerdo do espectro político em Portugal, normalizando-o. O BE foi incapaz de cumprir esse desiderato. Desde a sua fundação andou sempre a balançar entre a recuperação aggiornata dos ideais dos primeiros sociais-democratas, para quem a democracia era o território da luta de classes pacífica, e um difuso eurocomunismo pop em que se começa pelos fins e se acabam os princípios. O seu modelo anda aos solavancos entre os Verdes alemães, o Syriza grego, o Podemos espanhol. As cenas de namoros com esses partidos têm vários episódios, alguns tornaram-se pouco recomendáveis. De qualquer modo continuava e continua a beneficiar da complacência mediática em larga escala e num amplo espectro.

O caso Robles abriu uma fissura e a oportunidade para os comentadores da direita mais reaccionária iniciarem uma campanha de descredibilização do BE, que as tergiversações de Catarina Martins & companhia facilitaram. É gato escondido com o rabo todo de fora. Há que sublinhar a traço muito grosso que o alvo dessa campanha era a «geringonça» por interposto BE, em que visionavam uma inevitável ruptura nos seus equilíbrios internos e as dificuldades que o BE teria na lógica da aspiração das suas elites intelectuais em participar num futuro governo, no que concorrem com os seus ex-militantes agora enfileirados num Livre eleitoralmente irrelevante mas muito activo nos tabuleiros desse mercado.

 

O saudosismo descarado da direita

 

O que está verdadeiramente em causa é o saudosismo nada ocultado pela governação Passos-Portas, o seu autoritarismo, a sua subordinação aos interesses do capital, o seu desprezo pelo mundo do trabalho, o ódio à peste grisalha, o ataque desenfreado aos direitos sociais e laborais, o acentuar os desequilíbrios entre a remuneração ao capital e ao trabalho, o atribuir qualquer sucesso económico, por menor que fosse, ao mundo empresarial e nunca aos trabalhadores, o dividir os portugueses entre empreendedores, sempre altamente beneficiados, e os «piegas» que se queixavam das cada vez mais duras condições de vida e de trabalho e da deterioração das relações laborais. O ódio aos sindicatos que conseguiram travar com êxito muitas lutas para que o pior não fosse ainda pior. O elogio do empobrecimento da generalidade dos portugueses enquanto a minoria dos mais ricos continuava a enricar a galope. Em simultâneo também estavam confortáveis com um PS e um BE que muito os criticavam e diziam que o país estava péssimo, mas não saíam das variantes de jogos de salão.

O PSD, com golpes populistas, ganha as eleições mas perde a maioria parlamentar e os alarmes disparam quando, à saída de uma reunião entre o PCP e o PS, Jerónimo de Sousa diz que «o PS só não será governo se não quiser». Não era só o tradicional e bafiento arco governativo que estava em causa, era sobretudo o PS abrir um interregno na sua matriz soarista-reaccionária e haver a possibilidade de um entendimento à esquerda.

Desde que esse entendimento se concretizou os ataques tem sido uma constante. O caso Robles deu-lhes um novo impulso sobretudo agora que a legislatura se aproxima do fim e se vai discutir o seu último orçamento. O único objectivo desta campanha é minar os possíveis e nada fáceis entendimentos à esquerda para, num primeiro passo, reduzir e, a médio prazo, anular o peso político do PCP, do BE e do PEV nas acções do Estado, desbravando as veredas por onde a direita mais reaccionária possa avançar. Atacar a «geringonça», até, se possível, torná-la inviável, é também dar força dentro do PS aos saudosos do soarismo-reaccionário que odeiam militantemente a esquerda e aos que estão contrafeitos na barca da «geringonça».

O capital está inquieto com a possibilidade de haver uma reedição dos entendimentos à esquerda. Por isso avança todos os seus peões nesta altura, que não é um momento qualquer. As tensões comerciais internacionais multiplicam-se e têm desenvolvimentos imprevistos. Advinha-se uma nova crise económica mais devastadora do que de 2008, a qual politicamente favoreceu a expansão dos populismos e dos autoritarismos. A frágil economia portuguesa é e será muito sensível às variações internacionais e, enquanto não recuperarmos muita da soberania que alienámos, ainda mais expostos estamos. Com o governo PS subordinado à UE e à Nato o caminho de recuperação de independência nacional está adiado e as medidas socialistas não saíram de gaveta fechada a sete chaves, ainda que se tenha metido uma chave na fechadura. Neste contexto as questões que se colocam à esquerda não são nada fáceis, confrontada como está entre a renovação ou não de um acordo semelhante ao que está em vigor, conhecendo as habituais flutuações do PS, as suas sujeições à UE e NATO, o polme dos seus militantes sempre prontos a se deixarem fritar em conjunto com a direita, a qual, mesmo a que aparenta ser mais civilizada, não perde os genes seláquios.

As alternativas são fáceis de desenhar no actual contexto nacional e internacional e a bem visível voracidade da direita não deixa margem para dúvidas. O saudosismo pelas celebradas medidas estruturais que mais não são que o ataque desenfreado a todos os direitos que ao longo destes 44 anos foram conquistados e defendidos, não é iludível. O governo Passos-Portas foi uma variante dura dos anos cavaquistas e soaristas. O que se pode prever nos actuais desentendimentos da direita, que são mais concorrência interpares do que divergências de fundo, é que uma próxima oportunidade de um governo dessa gente será ainda pior. A leitura do seus arautos é esclarecedora. É com essa realidade que a esquerda tem de se confrontar, que tem de enfrentar, com coragem e audácia, para continuar as batalhas pela reconquista dos direitos políticos, sociais e económicos que, por mais magroas que sejam, são conquistas que têm revertido, ainda que muitas vezes insatisfatoriamente, o caos insalubre que a direita tinha implantado.

(publicado em AbrilAbril,  http://abrilabril.pt 10 de Agosto 2018)

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Panem et Circenses

CIRCO E PÃO

Os chamados Panama Papers agitam a comunicação social ocidental que é parte integrante e muito activa do império, desde que o império em nome da racionalização e da modernização da produção, começou a regressar ao barbarismo dos primórdios da revolução industrial com uma nova ordem económica que se impõe com violência crescente. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto a lógica do investimento. Uma nova ordem fanática e totalitária em que são de importância equivalente o controlo da produção de bens materiais e o dos bens imateriais. Em que é tão importante a produção de bens de consumo e de instrumentos financeiros como a produção de comunicação que prepara e justifica as acções políticas e militares imperialistas através dos meios tradicionais, rádio, televisão, jornais e dos novos, proporcionados pelas redes informáticas, como é igualmente importante a construção de um imaginário global com os meios da cultura mediática de massas. É este o contexto em que se bate tambor com os Panama Papers. Um pequeno tambor à sombra de uma pequena árvore da imensa floresta de corrupção inerente ao sistema.

Em Portugal, basta olhar para o Expresso, esse porta-estandarte da comunicação social independente e do rigor jornalístico. O resto afina, com variações de estilo pelo mesmo diapasão, um eco medíocre do tom maior internacional.

O novel director do Expresso perde a cabeça e intitula um texto de opinião sobre os Panama Papers como O Maior Crime de Sempre. Perdeu completamente a noção da realidade, tal o empenho em sublinhar os objectivos políticos mal ocultos por supostas revelações sensacionais. O ridículo não tem fronteiras, não mata, mas vende. O que ele faz é uma mera operação de marketing para aumentar as vendas no próximo futuro do semanário.

Afinal parece que ninguém sabia nem sabe para que servem os paraísos fiscais. Como são parte intrínseca do sistema capitalista. Ou será que essa gente pensa que, por exemplo no caso português, a offshore da Madeira foi criada para incentivar o cumprimento rigoroso das obrigações fiscais dos países de origem das empresas e das individualidades aí sediadas? Ou que para que Belmiros e Soares dos Santos olhem pra aquele exemplo de incentivo ao rigor fiscal e deixam de fugir a pagar impostos em Portugal, deslocalizando a sede das suas empresas para o mais confortável e amigo, deles evidentemente, sistema fiscal da Holanda?

Nomes e mais nomes desfilam pelos media, dos que lá estão e dos que lá não estando deveriam lá estar, sem que essa troupe de jornalistas se interrogue sobre a natureza do sistema que inventou esse mecanismo de fuga aos impostos. O mesmo sistema que garrota os trabalhadores que, além de serem explorados, não têm meios nem possibilidade de fugir aos impostos por mais brutais que sejam, por mais que sirvam para sustentar os mecanismos de exploração e sustentar o sistema financeiro como por cá tem acontecido com os bancos que faliram ou estavam à beira da falência e foram salvos com o nosso dinheiro, o dinheiro dos contribuintes, sem que cause escândalo nos jornalistas que agora se desdobram em manchetes sensacionalistas.

O Maior Crime de Sempre? Mas não são os países da União Europeia os lideres das offshores? Não é presidente da União Europeia o senhor Juncker que, quando era primeiro ministro do Luxemburgo, inventou um mecanismo legal obviamente para as grandes multinacionais fugirem a pagar impostos nos seus países de origem? E a Irlanda? E a Holanda? E…e quantos bancos, na sequência da crise dos subprime, foram salvos lavando dinheiro do tráfico de droga? Era de tal ordem a lavagem que não era possível cerrar os olhos a tudo. pelo que alguns foram obrigados a pagar multas e a comprometerem-se por um prazo de x anos a não voltar a abrir a lavandaria. Como os grandes bancos têm muitas filiais podem levar as máquinas de lavar para outro local. Um pagode que só provoca uns arranhões de sobressaltos inquisitivos nessa comunidade jornalística agora tão entretida com os Panama Papers. Que não investiga o que se passa no Deustche Bank que tem uma exposição aos derivados e outros produtos financeiros que é 16,4 vezes maior do que todo o PIB da Eurozona. Ou investigue porque é que nos EUA um quinto da capitalização dos bancos Morgan Stanley, Citigroup e Bank of America se evaporou. Ou o mais que por aí anda a sobrevoar ameaçadoramente o mundo.

Offshores, Hedge Funds, Derivados, Futuros, e todas as invenções que favorecem a desenfreada especulação financeira que está a empurrar o mundo para o abismo, que são a corrente sanguínea do sistema capitalista só despertam um relativo interesse jornalístico e investigações superficiais nessa gente que chafurda nos Panama Papers, sem nunca colocar em causa o sistema, quando este, numa linguagem pós-modernaça e ilusionista, fica intoxicado e precisa de remédios. Remédios para quê? Para trepar a montanha dos produtos derivados, do capital fictício, dos activos da banca paralela que, segundo o Finantial Stability Board, representa 120% do PIB mundial e cujo controlo é ainda muito menor do que a generalidade da banca. Para continuar a desenfreada exploração que conduz a que a riqueza de 1% da população mundial seja maior que a dos 99% restantes. Que 60 bilionários tenham tanto capital como a metade mais pobre da população mundial e a tendência é para esses números se agravarem nos próximos anos se o sistema continuar na sua desenfreada correria.

O Maior Crime de Sempre? O maior crime de sempre não será o do caminho feito sobre milhões de vítimas de um sistema que continua a fazer diariamente vitimas em nome dos valores de uma civilização que se consolidou com inúmeros e brutais massacres e genocídios, em nome dos direitos humanos que variam consoante os interesses geoestratégicos, de um estado de direito em que a lei é o direito do mais forte à liberdade. Da democracia em que na suposta pátria da democracia são os super-ricos, os grandes interesses das grandes empresas que decidem quem ganha as eleições, doando somas ilimitadas para influenciar abertamente os seus candidatos. O rol é infindável. Não merece atenção nem ser investigado por essa comunicação social.

O que está a dar, a vender, são os Panama Papers uma espécie de revista cor de rosa onde desfilam nomes dos famosos apanhados nesse reality show. Uma montanha que pare um rato que entra pelos buracos seleccionados do queijo e deixa o queijo quase intacto.

Com pompa, circunstância o director do Expresso depois de proclamar O Maior Crime de Sempre anuncia que o Expresso fez parte dos barões assinalados dessa investigação e vai começar a publicar todos os dados coligidos. Não diz, mas deveria dizer quais os interesses que estão por trás dessa investigação de certo apadrinhada pelo plutocrata seu patrão que tem lugar reservado entre os manda-chuva de Bildeberg. Investigação a sério seria saber  os cruzamentos entre o grupo de Bildeberg e o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, sigla em inglês) e a razão de agora se despejarem 11,5 milhões de documentos na rede de comunicação social estipendiada, propriedade dos grandes e dos pequenos, também existem pequenos, olhe-se para o nosso país, o que não os exclui do grupo.  e grandes plutocratas deste mundo. As ligações do ICIJ com quem o financia são obscuras. Mas só os papalvos acreditam que os 190 jornalistas, em mais de 65 países, que buscam desenterrar delitos internacionais, corrupção e abusos de poder, vivem sem fortes e secretos financiamentos que lhes orientam os tiros e apontam os alvos.

Veja-se como por cá se não desenterram abusos de poder, um adjectivo simpático. Querem um exemplo recente? Alguém, algum jornalista quando a Assunção Cristas iniciou o seu caminho imparável para substituir Paulo Portas no CDS foi analisar o que tinha feito como ministra da Agricultura. E o que fez? Deixou um “buraco” de 340 milhões de euros, assumindo que deixou uma herança que incluía o pagamento futuro de 200 milhões, mas que Passos Coelho e Maria Luís sabiam; que esgotou num ano, 2015, os milhões de verbas da UE para cinco anos e até as excedeu em 296 milhões de euros; que da dotação global de 576 milhões para ajudas “agroalimentares”, a gastar entre 2015 e 2019,. “comprometeu” 872 milhões, logo em 2015; que deixou 20 milhões de euros de seguros por pagar; 24 milhões de obras no Alqueva, etc., etc distribuindo milhões em 2015, ano de eleições recorde-se (fonte Foicebook). Em suma que a Cristas é, no mínimo uma irresponsável que ficou ao abrigo da nossa comunicação social tão lesta a levantar ou não levantar lebres ao sabor do vento dos interesses dominantes. Os seus mestres estão no ICIJ.

O Expresso, refere-se e escolhe-se o Expresso pelo lugar destacado que tem no telelixo português da desinformação, vai continuar a entreter-nos com esses derivativos informativos em linha com o que tem feito. Basta folhear as últimas edições para rir desbragadamente com informações sensacionais como aquela, exemplo quase ao acaso tão variado é o leque de escolhas, do Ricciardi dizer em relação aos lesados do BES que “tenho pensado dentro das minhas capacidades encontrar uma solução, mas nunca integral. O projecto que tenho na cabeça, com outras pessoas, passará por pagar essas diferenças, apesar de não sentir qualquer obrigação para o fazer”. O António Costa, em vez de ter promovido um acordo entre os lesados do BES, o Banco de Portugal e a CMVM, deveria era ter telefonado para a cabeça do Ricciardi, agora pronto e disponível para “sem sentir obrigação de o fazer”, fazer um número tipo Evita Peron na varanda da casa rosada em favor dos lesados por uma administração de que fez parte e foi beneficiário durante dezenas de anos.

Nas próximas semanas esperamos que, apoiando a transcrição e as análises aos Panama Papers, no saco do jornal Expresso venha a oferta de uma carcaça, para o Panem et Circenses passar às vias de facto.

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SEM VERGONHA!

ROUBARMais um banco para o galheiro e ninguém vai preso! Os supervisores não têm culpas! Os administradores vão com os bolsos cheios para casa! O governo PSD-CDS esteve cego, surdo e mudo! Os comentadores ditos especializados (*) só se preocupam com o aumento de um euro por dia no salário mínimo, porque destabiliza a economia! O que estabiliza a economia são as dezenas de milhões enterrados na banca para salvaguardar o sacrossanto sistema financeiro e evitar os riscos sistémicos! Uma única certeza mais dinheiro de todos nós vai para essa camarilha privada que vive à conta dos dinheiros públicos! Porque é isso que tem sucedido, com formatos diversos, mas todas com o mesmo escabroso final na banca, do BPN até ao BANIF. Pelo caminho ainda está por resolver o BES!

A única novidade foi António Costa dizer que a resolução(?) do berbicacho BANIF, vai custar muito caro aos contribuintes, uns 3 000 milhões de euros! A dupla Passos-Portas mais Maria Luís Albuquerque ainda devem ter a lata de continuar a afirmar que o processo BES, não nos vai aos bolsos! Com o mesmo descaramento com que Carlos Costa afirmava que o BANIF ia dar muito lucro ao Estado. Claro que vai, como se está a ver e como veremos quando a novela Novo Banco findar. Só não se sabe ainda quanto vai custar. Enquanto o fado continua a ser cantado, há quem siga a ganhar à conta dessas falcatruas. O inefável governador do Banco de Portugal está firme no seu lugar, a distribuir tachos, a contratar por 30 000 euros mês o vendedor da banha da cobra Sérgio Monteiro para vender o Novo Banco, o que na gíria dessa gentalha chamam de BES-bom, um trabalho da treta que acabará sempre por dar grosso prejuízo ao Estado.

Quanto ganharam os administradores do BANIF até o levarem ao estado actual? Tiveram prémios pela sua actuação? Luís Amado, aquele personagem bem engomado que dá bocas parvoides sobre a situação nacional e internacional, no que é muito aplaudido por uma claque, leia-se o elogio que Seixas da Costa lhe faz no blogue, quanto ganhou como administrador do BANIF? Ainda não há muito tempo, numa entrevista ao Jornal de Negócios e Antena1, já depois do Estado, nós os contribuintes, ter recapitalizado o banco e emprestado mais algum, assegurava que proteger o BANIF é proteger o dinheiro dos contribuintes!!! O seu parceiro de administração Jorge Tomé ainda recentemente afirmava sem uma ruga de dúvida que o BANIF tinha uma situação de liquidez confortável, criticando notícias não fundadas sobre a situação do banco. Como se está agora a ver! Os farsolas, como todos os seus parceiros, vendem vigésimos premiados com o à vontade que têm todos os embusteiros bem encadernados e treinados. Depois é a conversa fiada e criativa dos activos tóxicos, dos remédios, das bolhas, das imparidades, do não sei quê, patati-patata, nunca têm culpa de nada, nunca são responsabilizados. O Zé paga para continuar a ver o desfile de intrujas bem pagos com o dinheiro que lhe esmifram!

No meio disto há a célebre e celebrada saída limpa! Saída chafurda em que o défice só não é excessivo e cumpriu os objectivos (qual o rigor científico dos objectivos? Alguém é capaz de explicar?) porque contabilisticamente os bondosos tecno-burocratas de Bruxelas decidiram que o dinheirame para a banca não entra nas contas. Se não fosse assim o défice do ano de 2014 seria de mais de 7% e não 3,2% por causa do BES e de este ano, por causa do BANIF seria quase 5% e não os prometidos 3% pela dupla Passos/Portas e a pendericalho Albuquerque, sempre a dizer as mais obscenas mentiras com a cumplicidade de truques contabilísticos!

Lembram-se de Passos a aconselhar os portugueses a não serem piegas? De Portas a falar de se viver acima das possibilidades? De em coro cantarem alto e bom som que não há dinheiro para a saúde, para a educação, para a investigação, para a cultura, para…? E o brutal aumento de impostos? E os cortes nos salários, nas pensões, nas reformas? Não há dinheiro? Há, há sempre dinheiro e muito para a banca!!! Agora com o BANIF já são mais de 20 mil milhões de euros enterrados nos cofres bancários. Pouco, muito pouco terá retorno. Na melhor das hipóteses nem 10%!!! Um bom negócio dizia essa gentalha! Gente mentalmente prostituída que espalha e contamina tudo à sua volta com uma pustulenta degradação.

Esse bando de aldrabões, esse bando de trafulhas bem pagos continua à solta a mentir sem vergonha e a transitar alegremente de cargos públicos para altos cargos no sector privado que lhes paga e bem os favores feitos ou por fazer. Quando as coisas correm para o torto, lá estamos nós para pagar os resultados da sua incompetência bem remunerada até ao dia da desgraça! Depois alapam-se noutro valhacouto dos amorins, belmiros, jerónimos ou beltranos da mesma igualha!

O crime compensa? Ninguém acaba com esse circo de palhaços sem talento? Ninguém é responsabilizado? Ninguém vai preso? Mente-se, engana-se, vigariza-se e nada acontece? Claro que é gente cheia de ética, muito séria profissional e intelectualmente. Gente preocupadíssima com a sanidade moral da nação, grandes amantes da legalidade, desde que as leis sejam o direito dos mais fortes à liberdade, por isso é que quem, com fome, rouba uma lata de salsichas é preso, quem rouba milhões ao país continua alegremente a rebolar-se nos melhores restaurantes e bares, a pavonear-se pelos salões, a ser ouvido na comunicação social subserviente,(*) a ter contas bancárias bem fornidas, a ser convidado para desempenhar altos cargos tanto no sector público como no privado! Gente que, enquanto trapaceia, proclama com ar profundamente sério o seu profundo amor à transparência, ao Estado de direito sempre a repetir aos quatro ventos, como homens cheios de princípios, uns paladinos da honra da virtude e da lei uns cruzados contra a corrupção,  algo que um seu antecessor menos sortudo disse: Hoje em dia, as pessoas não respeitam nada. Dantes punham-se num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. Onde não se obedece a outra lei, a corrupção é a única lei. A virtude, a honra e a lei esfumaram-se das nossas vidas” (Al Capone, entrevista ao jornalista Cornelius Vanderbilt, Liberty, 17 de Outubro de 1931, poucos dias antes de ser preso por fuga ao Fisco). Sensibiliza-se essa preocupação veraz de cidadão tão exemplar, por isso me comovo quando, na mesma linha, Cavaco, Passos, Portas & Companhia apelam aos superiores interesses nacionais para fabricarem mais uma malfeitoria.

Até quando vamos viver/conviver com esses ratos de esgoto político-económico-financeiro? Não há processo de desratizar o país?

Há que acabar de vez com a pornografia rasca em que Portugal se atola.

 

(*) no bordel em que se transformou a comunicação social, o despedimento de Mourinho foi amplamente noticiado, durante vários dias e continua a fazer manchetes nos jornais, enquanto o despedimento colectivo de 500 trabalhadores da Soares da Costa foi referido, quando o foi, de raspão.

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A actualidade do Olhe que Não!

João Abel Manta Soares Cunhal

O universo internáutico foi invadido pela memória de um debate de 11 de Novembro de 1975 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares., que ficou na história do 25 de Abril com o registo da célebre frase “Olhe que não! Olhe que não!” 

Viviam-se tempos complexos. A contra revolução iniciada na hora seguinte ao 25 de Abril, caminhava triunfante. Camaleonicamente tinha muitas formas e aliados. Estendiam-se da extrema extrema esquerda à extrema extrema direita. Sucessos amplamente noticiadfos outros silenciados, erupções muito revolucionárias e outras muito reaccionários concorrendo para o mesmo objectivo. Oportunismos de vários jaez tanto à direita como à esquerda. Personagens com estatura e dignidade convivendo com escumalha inominável. Financiamentos inconfessáveis que continuam desconhecidos ou bem guardados em cofres de algumas instituições que afanosamente reescrevem a história. Boatos a dar com um pau. Um caldeirão de azeite fervente pronto a derramar-se na porta da história. Muito por contar, que, se calhar, nunca será contado. A contra revolução era um albergue espanhol manipulado por mãos mais invisísiveis ou mais vísiveis como a do amigo Carlucci, em que coexistiam as palavras de ordem mais revolucionárias com destaque para as dos educadores do povo, com as do do bem aventurado cónego Melo. As alianças contra revolucionárias não conheciam fronteiras, nem tinham qualquer ética. Nada de novo neste jardim à beira mar plantado.

O país vivia um clima de cortar à faca. No ar pairava um cheiro a pólvora pronto a explodir, prenunciando uma hipótese de guerra civil que se acontecesse , fosse ganha por quem fosse, acabaria inevitavelmente por uma vitória da direita mais revanchista, com os seus aliados democráticos que não desdenhariam na partilha dos despojos de receber as benesses que a volta do capital em força lhes proporcionariam, caso se tivesse chegado a esse extremo.

O debate foi longo, bastante interessante. Ficou marcado pela frase de Álvaro Cunhal “Olhe que não! Olhe que não! Ironizando com o seu humor inteligente as acusações que Mário Soares fazia de que o PCP queria impor uma ditadura contra as virtudes da democracia burguesa. A crítica de Álvaro Cunhal à democracia burguesa era sobre os efeitos que, nos termos em que Mário Soares a defendia, iria ter na frágil e historicamente recente situação social económica e política portuguesa. Simplificando, como a “democracia burguesa” iria corroer as conquistas de Abril. Os anos imediatamente seguintes e os que seguiram até hoje, bem o têm demonstrado. Quem honestamente na altura se opunha a Cunhal, hoje o reconhece. Curiosamente, mais que previsivelmente, foram sendo silenciados.

Soares sabia bem do que falava: Conhecia os interesses económicos que se acoitavam debaixo do seu manto de campeão de todas as liberdades e do socialismo em liberdade a bandeira que empunhava com o pundonor de super homem da rua da Betesga..

O que nesse debate ficou bem claro, que já  se advinhava, era uma situação explosiva a curto prazo que estava preparada e iria eclodir para fazer pender os pratos da balança política para a direita. Quanto penderiam é que, na altura, era uma incógnita.

O 25 de Novembro foi uma aventura militar bem montada. Se fosse uma séria tentativa de golpe de estado de esquerda, a esquerda não estaria desorganizada e sem voz de comando. Tudo estava  disperso por vários focos sem ligação entre si .Ao contrário, as forças contra revolucionárias estavam bem coordenadas e preparadas. Era uma evidência anunciada, bem vísivel em todos os sucessos que se multiplicavam sobretudo desde o comício da Alameda, mas vinham de longe, de muito longe. Se por hipótese, era uma real possibilidade, as forças de esquerda apesar da sua descoordenação,  levassem de vencida as forças contra revolucionárias, o caos ficaria instalado. Não basta conquistar o poder. Há que ter saber e ter força para o manter. O “olhe que não! olhe que não!” de Álvaro Cunhal traduzia, com a lucidez e inteligência política que o caracterizavam, essa incapacidade,

No debate, Mário Soares sabia do que estava a falar quando dramatizava histriónicamente um país dividido ao meio, à beira do abismo de uma guerra civil. Bem sabia o que se estava a tramar. Sabia do que falava, como antes, soube de todos os ataques à Revolução de Abril, nomeadamente o 11 de Março. Um parenteses, subsiste uma enorme curiosidade em se conhecer quem seria a voz que leria a proclamação de Spínola se o 11 de Março tivesse êxito. Se essa voz não se tivesse, pelas circunstâncias, calado, talvez mais uma ponta do véu se levantaria sobre a teia de cumplicidades que sustentavam o monóculo do general e quem com ele compartilhou as tramas da conspiração.

A história desses tempos está fragmentada e todos os dias é, de uma ou outra forma, detergentada, para apontar o dedo ao Partido Comunista Português como um inimigo da democracia. História que remonta aos tempos salazarentos e que ressurge, em vários tons e sons, ao longo do tempo. Agora, com a perspectiva de um governo PS com apoio parlamentar dp PCP reaparece em força.Há já quem não se exima em pedir de forma sonora ou sorna a sua interdição. Há por aí gente com os dentes de fora ou com sorrisos alvares que o fazem descaradamente nos palcos que lhes são oferecidos. É a democracia burguesa em funcionamento, com liberdade de controlar a seu bel-prazer os merios de comunicação social usando os seus porta vozes mais ou menos dotados e uma enorme legião de idiotas úteis.

Glosa-se o Olhe que não! com vários fins. Até Seixas da Costa não resiste á tentação, afinal porque haveria que resistir, do recurso à citação,  (“burguesa”, claro, como Cunhal não gostava mas que, como Churchill disse, é “a pior forma de de governo, com exceção de todas as outras”). A mesma democracia (“burguesa”, não é?) que hoje permite que o PCP possa ser chamado a ser parte da solução (I cross my fingers).

Será que António Costa já perguntou abertamente a Jerónimo de Sousa se o PCP vai, um destes dias, romper o acordo? E será que este lhe respondeu: “Olhe que não, olhe que não!”?

Graçolas  à parte, passando por cima do ser chamado,  não sendo cosmopolita como Seixas da Costa, também cruzo os dedos para que o PS e António Costa não rompam o acordo. Porque hoje como ontem o PCP sempre quis ser parte das soluções que melhorem efectivamente as condições de vida dos portugueses, o que durante estes anos de vigência da “democracia burguesa” têm sido brutalmente atacadas pelos ditames do capital a que o PS, metido o socialismo na gaveta, se tem submetido. Não venham conversas fiadas em que a conversa da treta da votação do PEC IV é a última e recorrente. Um pouco de seriedade intelectual, mesmo decência e alguma vergonha exigem-se.

Um problema grave, gravíssimo dos partidos do arco social democrata, tem na sua base a total perca de príncipios ideológicos que eram caros aos fundadores da social democracia. Para eles o funcionamento da democracia burguesa e os sistemas eleitorais, mesmo os que mais subvertem os votos expressos nas urnas com manigâncias pouco democráticas, era o campo de batalha da luta de classes por via pacífica. Os partidos socialistas, trabalhistas sociais-democratas, os autênticos não os travestidos como PSD português, vivem há dezenas anos essa crise. Tornaram-se máquinas de conquista de votos a qualquer preço. São máquinas ao serviço de interesses económicos que lhes dão apoio variável e conjuntural. A thachterização dos partidos do campo socialista é uma realidade que atingiu o seu climax com Tony Blair, no que foi seguido por muitos outros.São agentes das políticas neoliberais desse capitalismo terminal que invade todas as esferas do quotidiano. Alimentam-se do poder e por estar no poder.Ideologicamente são autofágicos até nada restar da ideologia. Olhe-se como os militantes e apoiantes mais destacados desses partidos se atropelam na distribuição de cargos governativos e na ocupação de lugares cimeiros no mundo do capital. Dos bancos às grandes empresas ou mesmo em coisas mais aparentemente inocentes  e politicamente falsamente neutras como as humanitárias e culturais. O trânsito é intenso, a ideologia foi para as urtigas. Essa gente, com emblemas partidários vsariegados, está mancomandada e vive alegremente à mesa do orçamento seja público ou privado e do muito que é privado suportado pelo público. Peça mestra nesse estado de coisas é essa enorme conquista da democracia burguesa que foi o sequestrar quase por inteiro do imaginário confiscando a cultura e a comunicação social. Estão lá todos, revezando-se no controlo do pensamento único para que nem sequer seja possível pensar que se pode pensar uma sociedade outra. Nesse ambiente de fraude comunicacional generelarizada dizer a verdade é um acto de resistência.

Esse é que é o real problema desses partidos que questões momentaneas, parcelares, locais ou universais acabam por trazer para primeiro plano, e que . por mais importantes que sejam,  tem andado a maquilhar para não ser seriamente discutida.. O que é muito do agrado dos opinadores aborigenesa que assim deixam de enfrentar os problemos fundamentais para se entreterem nas croniquetas parlapiando entre assises e costas, se estão mais de acordo com um ou com o outro, com as soluções governativas, dizendo que estão a discutir política para cobardemente não debaterem a questão de fundo, e que está realemente em causa  Fazem isso com contumácia sobre qualquer assunto, aqui ou no estrangeiro. O biombo é ler criticamente o mundo imediato limpo de direita ou esquerda, em nome do realismo e de uma suposta inteligência política que é a estupidez ideológica.

O que está a acontecer em Portugal, mais que haver ou não haver um governo com apoio maioritário de esquerda, é um reflexo do debate que atravessa os partidos da área social democrata e, essa é outra questão, o realinhamento à  direita dos partidos que se diziam do centro. Esperemos pelos próximos capítulos. O que está em causa é os partidos do campo social-democrata realinharem-se pelos seus príncipios originais, com tudo o que tempo histórico ensina, ou continuarem a ser apêndices e gerentes do capitalismo neo liberal, caminho bem conhecido. Já era conhecido mas foi consolidado por uma terceira via que triturou a social democracia.

Ao contrário do que escreve Seixas da Costa, no estado actual que se vive em Portugal, o que se espera é que António Costa diga “Olhe que não! Olhe que não!” a todos os que querem e desejam, aos gritos ou em surdina, que o PS vire à direita, prosseguindo políticas com quarenta anos de idade. Que na primeira curva das enormes dificuldades que irá enfrentar não rompa os compromissos com o PCP, o BE e o PEV, dizendo “Olhe que não! olhe que não!” a todos os que esperam existir um pretexto para o fazer.

Uma enorme e funda diferença com o que têm sido as práticas do Partido Socialista desde a falida primavera marcelista

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Acudam! Acudam que o arco governativo está em risco!

arame farpado

Durante anos, dezenas de anos, culpava-se o PCP pela má imprensa, leia-se comunicação social, que tinha. Antiquado, anquilosado não percebia a vibração mediática pós-moderna que lustrava os media. O ghetto para onde o atiravam, era culpa do PCP que não percebia o que eram as novas exigências dos critérios jornalísticos, do pluralismo informativo. Pode ter havido inabilidades por parte do PCP. Houve, há e haverá, mas nada justifica o silêncio, a menorização ou a deturpação de posições e iniciativas do PCP que desde sempre foram sistemática, deliberada e contumazmente ostracizadas e trituradas pelos celebrados critérios jornalísticos.

Aparece o Bloco Esquerda, modernaço, políticos e políticas desempoeiradas, juventude em marcha na movida política, mesmo se muitos já não fossem assim tão cronologicamente jovens. Um clima arejado, um mainstream primaveril estabeleceu-se entre a comunicação social e o Bloco Esquerda, que mesmo antes de formalmente existir já estava embrulhado em boas manchetes. O Bloco, sem precisar de bater à porta, entrava nos salões, salas e saletas dos media para alegres e celebrados convívios.

Com essas danças e contradanças o pluralismo informativo pavoneava as suas penas arco-íris, enquanto paulatinamente ia afastando gente de esquerda dos seus quadros, fossem jornalistas ou comentadores. Iam ficando alguns para atenuar o mau cheiro progressivamente mais intenso.

O palco estava montado para dar credibilidade aos actores que sentenciavam sobre Portugal, os arredores, o mundo. Tudo corria bem na festança informativa até rebentar a bomba dos resultados das últimas eleições legislativas onde se desenhou a hipótese de haver um governo de esquerda suportado por uma maioria dos deputados eleitos, frente a uma coligação de direita minoritária. Os alarmes dispararam. Isto era tudo muito bonito e andava nos carris dos melhores dos mundos se o eixo político estivesse sempre na direita, rodando mais para a direita ou mais para a esquerda. Agora deslocar-se para a esquerda é que é insuportável. Da comunicação social mais rasca à mais sofisticada os tambores rufaram. Estala o verniz. O pluralismo informativo é atirado para as urtigas. A manipulação faz-se com despudor. Nenhum vício lógico os trava.

O PCP continua, com ligeiras variantes, no destratamento do costume. Lá concederam durante a campanha eleitoral que o Jerónimo era simpático, já sem se lembrarem do que disseram dele quando foi eleito secretário geral do PCP, na primeira linha alguns brilhantes jornalistas afectos à esquerda. Virados os resultados eleitorais, com o PCP a declarar a sua disposição em viabilizar um governo de esquerda, voltam a vestir ao Jerónimo a pele estalinista, de chefe de um bando de esfomeados comedores de crianças.

O Bloco de Esquerda é outra grande chatice. Andaram com a rapaziada ao colo, primeiro porque pensaram que ia tramar o PCP. Erraram estrondosamente. Depois porque pensaram que o BE roubaria os votos suficientes ao PS, para o PS ser derrotado e a direita ficar, mesmo que pela tangente, em maioria. Era o quadro das últimas eleições legislativas.A cobertura da campanha eleitoral foi toda ela vergonhosa. Brutos ou sonsos, os bonecreiros da comunicação social fizeram os possíveis e os impossíveis para a direita ganhar. Quando o BE, na esteira do PCP, também se declara disposto a viabilizar um governo PS, a casa vai abaixo.  A Catarina, a grande revelação da campanha eleitoral, que disse isso claramente no debate que teve com António Costa, perfila-se como uma perigosa assaltante da natureza do sistema e do repouso que havia à sombra do arco governativo.. Não querem lá ver a catraia, já se dá ares de Jerónimo! Perdem a cabeça. Só falta dizer que Bonnie e Clyde, mesmo sem terem ainda falado um com o outro, andam a assaltar bancos e a semear o pânico. na bolsa e nos mercados, enquanto abrem caminho a António Costa, um perigoso esquerdista, como alguns, não poucos, camaradas de partido esclarecem nos media que dão largo tempo de antena a essas cassandras sejam lellos ou assis.

Dos pasquins ao jornalismo dito de referência o vulcão entrou em actividade, derramando a lava das evidências: o pluralismo informativo, o rigor jornalístico é uma ficção! Os meios de comunicação social não têm qualquer independência em relação ao poder do capital. São uma tropa fandanga de mercenários que, com maior ou menor habilidade e talento, estão ao serviço dos poderes económicos e dos poderes políticos sujeitos a esses poderes económicos.

Bastou no horizonte esboçar.se a vaga sombra de um governo de esquerda para as marionetas começarem a festa! O cair de as máscaras ser uma desbunda tonitruante! O jornalismo nunca foi um paraíso imaculado, povoado por virtuosas virgens, esquadrões de amazonas (de todos os sexos entenda-se) de espada desembainhada  à procura da verdade. A grande evidência neste lavar de cestos eleitorais é que não há qualquer liberdade imformativa. São um polifónico coro  da voz dono. Pensam, escrevem, falam todos o mesmo com variações meramente formais.das mais primárias às mais elaboradas.. Todo o universo da comunicação social está contaminado e alinhado à direita. Já dispensam as encenações, as gesticulações de esquerda que alguns faziam para simular diversidade editorial e de opinião. Restam uns jornalistas que dentro desses campos de concentração onde se incinera diariamente o que resta da isenção e do rigor informativo resistem e vão, legitimamente, sobrevivendo. Plantam umas flores no meio do pântano. São cada vez mais raras.

O que é extraordinário, mesmo inquietante, é ver, ouvir e ler pessoas de esquerda que se sentem enganadas, quase traídas por essa comunicação social. Indignam-se. Será bom que além de se indignar percebam o que já deviam ter percebido há muito tempo para lerem todas as notícias com redobrada atenção, o que lhes evita futuras surpresas e a formulação de juízos erróneos sobre outros assuntos candentes. O crivo que filtra as notícias sobre o momento político que se vive em Portugal é o mesmo que é aplicado ao restante noticiário económico, internacional, cultural. O sobressalto e o estupor provocado pela dimensão e vigor dessa barragem noticiosa deve ser um alerta para a gigantesca fraude universal montada através da comunicação social para moldar as nossas opiniões, apoderar-se da nossa consciência política, da nossa capacidade crítica, da possibilidade de termos um pensamento independente do que é imposto pelo governo invisível do poder económico. É assim, que muitas vezes estamos a julgar pensar pelas nossas cabeças e estamos a pensar o que eles querem que pensemos, por estarmos intoxicados pela manipulação mediática, pelas mentiras que mesmo as verdades induzem. Uma teia altamente sofisticada e complexa onde nos querem prender. Tenhamos consciência que a escravidão mental está a ser implementada a alta velocidade.

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Alternância, António Costa, Arco da Governação, CDS, Comunicação Social, Eleições Legislativas 2015, Oliveira da Figueira, Passos Coelho, paulo Portas, Política, PS, PSD, Voto Útil

As Eleições/Os Oliveiras da Figueira

oliveira da figueira 3

Com eleições à porta multiplicam-se os Oliveiras da Figueira nos partidos do chamado arco da governação.

O ataque é dirigido àquilo a que chamam o eleitorado do centro e aos indecisos. O fitoplanton desses partidos que perderam ideologia e tem por único objectivo a caça ao voto para pôr em prática políticas ao serviço dos poderes económicos que lhes dão apoio variável. As diferenças são de pormenor. Lêem a mesma pauta com andamentos e tempos diferentes. Pauta que sem pudor desdobram sobre Portugal vendendo, como treinados Oliveiras da Figueira, o manto diáfano do realismo e da moderação que é aceitar, sem uma ruga de dúvida, o que a Europa Connosco impõe pela mão de ferro, tapada quando necessário por luvas de veludo, da Sra Merkel, a figurona agora de serviço a abrir as portas ao grande capital. É o território pantanoso da grande mistificação que tem sido construída com contumácia, há que reconhecer com eficácia, pelos poderes instituídos suportados por uma comunicação social estipendiada que nos assalta á mão armada em cada notícia, em cada comentário, em cada editorial. Uma teia de aranha poderosa que não deixa nenhum fio ao acaso para construir um imaginário situacionista em conformidade com um modelo de democracia em que as pessoas, o colectivo e a individualidade das pessoas, se afunda sem horizonte nem dignidade. Para esses figurantes da política actual, a democracia deixou mesmo de ser o palco da luta de classes pacífica, como preconizavam os sociais democratas revendo as teorias marxistas, renunciando à revolução. É o campo de tiro da caça ao voto. Eles os Oliveiras da Figueira vendem-no a qualquer preço, oferecendo brindes, cada cor seu paladar, para que tudo continue na mesma.

Oliveira da Figeuira1

A máquina está oleada, em pleno funcionamento para que a anormalidade da normalidade da situação que se vive não seja posta em causa. Assistimos a um primeiro grande momento desse teatro de sombras com o Debate Histórico, no dizer de um dos bonecreiros de serviço, das próximas eleições legislativas Para quem tem os olhos abertos não eram dois, eram cinco os figurões: os actuais chefes de fila dos partidos do chamado arco da governação e os três jornalistas de grupos mediáticos ditos de referência. Marionetas do sistema político-propagandístico do sistema que quer fazer com que as pessoas acreditem que não há escolha fora do quadro institucionalizado. Que o voto útil é o voto inútil porque nada altera de substantivo numa política de submissão aos ditâmes de Bruxelas, aos secretários políticos e grumetes tecnocratas do capitalismo tardio, às suas políticas de austeridades e desigualdades. Diferenças existem, claro que existem na forma, na velocidade, no pormenor, na simulação com que essas políticas vão ser praticadas. Em tudo o que é insuficiente para que se mude de vida.

Os próximos números já estão ensaiados, já foram mostrados os trailers. De um lado acenar as bandeiras de uma volta ao passado próximo que é o nosso presente num cenário diferente. Do outro cantar o fado do desgraçadinho, entalado entre a direita e a esquerda, só faz o quer fazer por estar orgulhosamente só. Vai ser um (des)concerto de ruído político-propagandístico, uma caravana de Oliveiras da Figueira, agentes das mesmas políticas ainda que tenham fardas diferentes, a procurarem ocupar todos os espaços possíveis para vender quinquilharias que enfeitam mas não alteram a vida das pessoas.

oliveira da figueira2

Esquecem-se, não lhes interessa ver nem saber que apesar e contra tudo, mesmo as próprias evidências, contra esta nova inquisição mutinacional, globalizadada que quer impedir, anular mesmo a possibilidade de se pensar que é possível pensar na transformação da vida, o mundo E pur si muove!

Há que votar de olhos bem abertos para não continuar a viver mais do mesmo, qualquer seja esse mesmo!

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