Artes, autarquias, Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal em Setúbal

Em Setúbal, na avenida Álvaro Cunhal a autarquia fez uma obra de requalificação para melhorar substancialmente as condições de circulação pedonal e de velocípedes e homenagear essa figura rara da história de Portugal pela sua dimensão de político e intelectual.

fotografia Pedro Soares

Concretizou-se a homenagem recorrendo aos desenhos executados na prisão por Álvaro Cunhal colocados em painéis verticais na placa divisória central. O primeiro impacto ao olhar para cada uma das reproduções é verificar a resistência à alteração de escala.Nas grandes ampliações a que naturalmente foram sujeitos os originais, folhas de papel de dimensões aproximadas de 25 por 40 centímetros para reproduções com mais de dois metros, não se perde nenhum dos valores plásticos dos desenhos seleccionados o que evidencia a sua qualidade, o rigor do traço e das subtilezas das modelagens dos cinzentos todos feitos com lápis de grafite ou carvão com a mesma dureza. As alterações de escala, sobretudo as com um índice desse teor, podem ter efeitos desastrosos por perca dos pormenores ou por tornarem os pormenores grosseiros. Aqui o resultado é como se os desenhos tivessem sido feitos para se fixarem naquela dimensão final o que demonstra a desenvoltura e a segurança do traço do autor.

A selecção dos desenhos foi feita a partir das duas séries conhecidas, uma feita na Penitenciária e outra no Forte de Peniche. É necessário sublinhar que esses desenhos são feitos em condições inenarráveis que condicionam a sua feitura, transformam a folha de papel branco numa janela da liberdade de que Álvaro Cunhal estava violentamente subtraído para aí, no tempo suspenso que estava a viver, inscrever a imaginação de memórias vividas e inventadas a partir da realidade. Há grandes diferenças entre as duas séries de desenhos condicionadas pela luz que iluminava o papel. Na primeira série, feita sob luz artificial invariável, não existem grandes contrastes na vasta gama de cinzentos o que surge na segunda, feita no ciclo normal da luz do dia, em que se verifica uma gradação do negro ao branco. Em todos nunca se sente a presença de traço rápido. Constroem-se com lentidão serena e intensa.

Os desenhos de Álvaro Cunhal são narrativas em que o protagonista é colectivo, é o povo. O povo a trabalhar, a lutar, a sofrer, o povo a enfrentar as suas misérias mas também a viver alegrias, festas, danças. Sempre o povo mesmo quando as personagens são individualizadas em raras figuras isoladas que são colocadas em diálogo connosco pelo autor que lhes insufla a ternura firme que é a sua. As movimentações dos protagonistas em espaços abertos, só em dois desenhos há referências ao território, num deles uma torre uma provável referência ao Forte de Peniche, remetem-nos para o Trecentto italiano e para Giotto. A fortíssima dinâmica que imprime aos movimentos dos personagens a Pietr Brueghel, o Velho, recuperados para um contexto neo-realista onde são evidentes as influências de Portinari, dos muralistas mexicanos, sobretudo Orozco e Siqueiros, em que frequentemente o ponto de vista do pintor por vezes é elevado e colocado no meio da acção. As anatomias dos protagonistas e dos instrumentos de trabalho são alteradas, exageradas para sublinhar emocionalmente a história que está a ser registada e contada e que é tão forte que todos os desenhos dispensam títulos antecipando o que Álvaro Cunhal escreverá em A Arte, o Artista e a Sociedade: “o significado social não precisa de ser explicitado para ser suficientemente expressivo”. No caso é tão expressivo que dispensa rótulos.

Estes desenhos remetem-nos para outra questão: que artista teria sido Álvaro Cunhal se “o absorvente empenhamento noutra direcção de actividade” como refere no prefácio ao ensaio referido não tivesse adiado até tornar inviável o “aprofundamento ulterior do estudo que acompanhasse a evolução das ideias e das obras de arte no quadro das realidades sociais no mundo em mudança (…) Por razões óbvias o que não foi possível já não o será. Entretanto se o projecto ficou adormecido, nunca o ficou a reflexão.” Também nunca terá deixado de desenhar e pintar mas também aqui sem ter tempo nem espaço para aprofundar e evoluir esteticamente o que se anunciava nos desenhos editados. Em paralelo com as suas reflexões sobre a arte e a sociedade devemos interrogar qual poderia teria sido a sua contribuição para a evolução das artes em Portugal mesmo sem o impacto do seu pensamento político e ideológico que corre mundo e o coloca na primeira linha dos pensadores e revolucionários marxistas-leninistas de sempre. “O que não foi possível já não o será” mas deixa-nos o imenso prazer de ver e rever os seus desenhos, agora revelados em grandes formatos, a evidenciarem a qualidade de um artista que nunca se afirmou enquanto artista por nunca, por opção política militante, desenhar e pintar numa sequência normal de trabalho com uma perspectiva de evolução. O que fica e é inapagável é a sua impar dimensão de político e intelectual que continua e continuará a ser uma fonte inesgotável de ensinamentos e de estudo.

fotografia Pedro Soares
Standard
25 Abril, 25 Novembro, António Costa, Álvaro Cunhal, BE, CDS, Govermo de Esquerda, Jerónimo de Sousa, Mário Soares, PCP, PEV, PS, PSD, Social Democracia, Terceira Via

A actualidade do Olhe que Não!

João Abel Manta Soares Cunhal

O universo internáutico foi invadido pela memória de um debate de 11 de Novembro de 1975 entre Álvaro Cunhal e Mário Soares., que ficou na história do 25 de Abril com o registo da célebre frase “Olhe que não! Olhe que não!” 

Viviam-se tempos complexos. A contra revolução iniciada na hora seguinte ao 25 de Abril, caminhava triunfante. Camaleonicamente tinha muitas formas e aliados. Estendiam-se da extrema extrema esquerda à extrema extrema direita. Sucessos amplamente noticiadfos outros silenciados, erupções muito revolucionárias e outras muito reaccionários concorrendo para o mesmo objectivo. Oportunismos de vários jaez tanto à direita como à esquerda. Personagens com estatura e dignidade convivendo com escumalha inominável. Financiamentos inconfessáveis que continuam desconhecidos ou bem guardados em cofres de algumas instituições que afanosamente reescrevem a história. Boatos a dar com um pau. Um caldeirão de azeite fervente pronto a derramar-se na porta da história. Muito por contar, que, se calhar, nunca será contado. A contra revolução era um albergue espanhol manipulado por mãos mais invisísiveis ou mais vísiveis como a do amigo Carlucci, em que coexistiam as palavras de ordem mais revolucionárias com destaque para as dos educadores do povo, com as do do bem aventurado cónego Melo. As alianças contra revolucionárias não conheciam fronteiras, nem tinham qualquer ética. Nada de novo neste jardim à beira mar plantado.

O país vivia um clima de cortar à faca. No ar pairava um cheiro a pólvora pronto a explodir, prenunciando uma hipótese de guerra civil que se acontecesse , fosse ganha por quem fosse, acabaria inevitavelmente por uma vitória da direita mais revanchista, com os seus aliados democráticos que não desdenhariam na partilha dos despojos de receber as benesses que a volta do capital em força lhes proporcionariam, caso se tivesse chegado a esse extremo.

O debate foi longo, bastante interessante. Ficou marcado pela frase de Álvaro Cunhal “Olhe que não! Olhe que não! Ironizando com o seu humor inteligente as acusações que Mário Soares fazia de que o PCP queria impor uma ditadura contra as virtudes da democracia burguesa. A crítica de Álvaro Cunhal à democracia burguesa era sobre os efeitos que, nos termos em que Mário Soares a defendia, iria ter na frágil e historicamente recente situação social económica e política portuguesa. Simplificando, como a “democracia burguesa” iria corroer as conquistas de Abril. Os anos imediatamente seguintes e os que seguiram até hoje, bem o têm demonstrado. Quem honestamente na altura se opunha a Cunhal, hoje o reconhece. Curiosamente, mais que previsivelmente, foram sendo silenciados.

Soares sabia bem do que falava: Conhecia os interesses económicos que se acoitavam debaixo do seu manto de campeão de todas as liberdades e do socialismo em liberdade a bandeira que empunhava com o pundonor de super homem da rua da Betesga..

O que nesse debate ficou bem claro, que já  se advinhava, era uma situação explosiva a curto prazo que estava preparada e iria eclodir para fazer pender os pratos da balança política para a direita. Quanto penderiam é que, na altura, era uma incógnita.

O 25 de Novembro foi uma aventura militar bem montada. Se fosse uma séria tentativa de golpe de estado de esquerda, a esquerda não estaria desorganizada e sem voz de comando. Tudo estava  disperso por vários focos sem ligação entre si .Ao contrário, as forças contra revolucionárias estavam bem coordenadas e preparadas. Era uma evidência anunciada, bem vísivel em todos os sucessos que se multiplicavam sobretudo desde o comício da Alameda, mas vinham de longe, de muito longe. Se por hipótese, era uma real possibilidade, as forças de esquerda apesar da sua descoordenação,  levassem de vencida as forças contra revolucionárias, o caos ficaria instalado. Não basta conquistar o poder. Há que ter saber e ter força para o manter. O “olhe que não! olhe que não!” de Álvaro Cunhal traduzia, com a lucidez e inteligência política que o caracterizavam, essa incapacidade,

No debate, Mário Soares sabia do que estava a falar quando dramatizava histriónicamente um país dividido ao meio, à beira do abismo de uma guerra civil. Bem sabia o que se estava a tramar. Sabia do que falava, como antes, soube de todos os ataques à Revolução de Abril, nomeadamente o 11 de Março. Um parenteses, subsiste uma enorme curiosidade em se conhecer quem seria a voz que leria a proclamação de Spínola se o 11 de Março tivesse êxito. Se essa voz não se tivesse, pelas circunstâncias, calado, talvez mais uma ponta do véu se levantaria sobre a teia de cumplicidades que sustentavam o monóculo do general e quem com ele compartilhou as tramas da conspiração.

A história desses tempos está fragmentada e todos os dias é, de uma ou outra forma, detergentada, para apontar o dedo ao Partido Comunista Português como um inimigo da democracia. História que remonta aos tempos salazarentos e que ressurge, em vários tons e sons, ao longo do tempo. Agora, com a perspectiva de um governo PS com apoio parlamentar dp PCP reaparece em força.Há já quem não se exima em pedir de forma sonora ou sorna a sua interdição. Há por aí gente com os dentes de fora ou com sorrisos alvares que o fazem descaradamente nos palcos que lhes são oferecidos. É a democracia burguesa em funcionamento, com liberdade de controlar a seu bel-prazer os merios de comunicação social usando os seus porta vozes mais ou menos dotados e uma enorme legião de idiotas úteis.

Glosa-se o Olhe que não! com vários fins. Até Seixas da Costa não resiste á tentação, afinal porque haveria que resistir, do recurso à citação,  (“burguesa”, claro, como Cunhal não gostava mas que, como Churchill disse, é “a pior forma de de governo, com exceção de todas as outras”). A mesma democracia (“burguesa”, não é?) que hoje permite que o PCP possa ser chamado a ser parte da solução (I cross my fingers).

Será que António Costa já perguntou abertamente a Jerónimo de Sousa se o PCP vai, um destes dias, romper o acordo? E será que este lhe respondeu: “Olhe que não, olhe que não!”?

Graçolas  à parte, passando por cima do ser chamado,  não sendo cosmopolita como Seixas da Costa, também cruzo os dedos para que o PS e António Costa não rompam o acordo. Porque hoje como ontem o PCP sempre quis ser parte das soluções que melhorem efectivamente as condições de vida dos portugueses, o que durante estes anos de vigência da “democracia burguesa” têm sido brutalmente atacadas pelos ditames do capital a que o PS, metido o socialismo na gaveta, se tem submetido. Não venham conversas fiadas em que a conversa da treta da votação do PEC IV é a última e recorrente. Um pouco de seriedade intelectual, mesmo decência e alguma vergonha exigem-se.

Um problema grave, gravíssimo dos partidos do arco social democrata, tem na sua base a total perca de príncipios ideológicos que eram caros aos fundadores da social democracia. Para eles o funcionamento da democracia burguesa e os sistemas eleitorais, mesmo os que mais subvertem os votos expressos nas urnas com manigâncias pouco democráticas, era o campo de batalha da luta de classes por via pacífica. Os partidos socialistas, trabalhistas sociais-democratas, os autênticos não os travestidos como PSD português, vivem há dezenas anos essa crise. Tornaram-se máquinas de conquista de votos a qualquer preço. São máquinas ao serviço de interesses económicos que lhes dão apoio variável e conjuntural. A thachterização dos partidos do campo socialista é uma realidade que atingiu o seu climax com Tony Blair, no que foi seguido por muitos outros.São agentes das políticas neoliberais desse capitalismo terminal que invade todas as esferas do quotidiano. Alimentam-se do poder e por estar no poder.Ideologicamente são autofágicos até nada restar da ideologia. Olhe-se como os militantes e apoiantes mais destacados desses partidos se atropelam na distribuição de cargos governativos e na ocupação de lugares cimeiros no mundo do capital. Dos bancos às grandes empresas ou mesmo em coisas mais aparentemente inocentes  e politicamente falsamente neutras como as humanitárias e culturais. O trânsito é intenso, a ideologia foi para as urtigas. Essa gente, com emblemas partidários vsariegados, está mancomandada e vive alegremente à mesa do orçamento seja público ou privado e do muito que é privado suportado pelo público. Peça mestra nesse estado de coisas é essa enorme conquista da democracia burguesa que foi o sequestrar quase por inteiro do imaginário confiscando a cultura e a comunicação social. Estão lá todos, revezando-se no controlo do pensamento único para que nem sequer seja possível pensar que se pode pensar uma sociedade outra. Nesse ambiente de fraude comunicacional generelarizada dizer a verdade é um acto de resistência.

Esse é que é o real problema desses partidos que questões momentaneas, parcelares, locais ou universais acabam por trazer para primeiro plano, e que . por mais importantes que sejam,  tem andado a maquilhar para não ser seriamente discutida.. O que é muito do agrado dos opinadores aborigenesa que assim deixam de enfrentar os problemos fundamentais para se entreterem nas croniquetas parlapiando entre assises e costas, se estão mais de acordo com um ou com o outro, com as soluções governativas, dizendo que estão a discutir política para cobardemente não debaterem a questão de fundo, e que está realemente em causa  Fazem isso com contumácia sobre qualquer assunto, aqui ou no estrangeiro. O biombo é ler criticamente o mundo imediato limpo de direita ou esquerda, em nome do realismo e de uma suposta inteligência política que é a estupidez ideológica.

O que está a acontecer em Portugal, mais que haver ou não haver um governo com apoio maioritário de esquerda, é um reflexo do debate que atravessa os partidos da área social democrata e, essa é outra questão, o realinhamento à  direita dos partidos que se diziam do centro. Esperemos pelos próximos capítulos. O que está em causa é os partidos do campo social-democrata realinharem-se pelos seus príncipios originais, com tudo o que tempo histórico ensina, ou continuarem a ser apêndices e gerentes do capitalismo neo liberal, caminho bem conhecido. Já era conhecido mas foi consolidado por uma terceira via que triturou a social democracia.

Ao contrário do que escreve Seixas da Costa, no estado actual que se vive em Portugal, o que se espera é que António Costa diga “Olhe que não! Olhe que não!” a todos os que querem e desejam, aos gritos ou em surdina, que o PS vire à direita, prosseguindo políticas com quarenta anos de idade. Que na primeira curva das enormes dificuldades que irá enfrentar não rompa os compromissos com o PCP, o BE e o PEV, dizendo “Olhe que não! olhe que não!” a todos os que esperam existir um pretexto para o fazer.

Uma enorme e funda diferença com o que têm sido as práticas do Partido Socialista desde a falida primavera marcelista

Standard
Álvaro Cunhal, Política, PS

Alegre no reino da coerência

 

«Ao passado, mais concretamente às presidenciais de 1986, Alegre foi ainda buscar uma “lição para reflexão”: “Queria citar o exemplo de Álvaro Cunhal, com quem tivemos grandes divergências ideológicas. Mas ele nunca se esqueceu que há uma fronteira entre esquerda e direita. Teve a lucidez e a coragem política de convocar um congresso extraordinário para lançar a palavra de ordem: contra a candidatura da direita, vota Soares”».

Não foi este Alegre que nas Presidenciais de 2006, certamente em nome da unidade do seu PS, concorreu como candidato indpendente contra Soares, apoiado pelo PS?

Standard
Álvaro Cunhal, Geral, PCP, Política

Culto da Personalidade?????

ImageNos primeiros meses de 1974 o Partido tinha levado um rude golpe da PIDE que se repercutiu até às vésperas do 25 de Abril. No ano anterior, no fim da primavera princípio do verão, houve turbulências complicadas de natureza e origem interna. Foi no contexto deste último acontecimento que conheci um funcionário, de que não me lembro do pseudónimo, que depois do 25 de Abril reconheci ser o Carlos Brito. Conheci, portanto, Carlos Brito com ele e sob a sua orientação cumpri tarefas partidárias, desde o segundo trimestre de 1973 até ao 25 de Abril.

No dia 26 de Abril recebi dele uma lição que não mais esqueço. Tinha ido à noite, como muitos camaradas, companheiros de estrada e demais democratas à Cooperativa Esteiros. Vi o Carlos Brito, que não sabia que se chamava Carlos Brito mas sabia ser um funcionário do Partido com responsabilidades particulares. Com o 25 de Abril e o levantamento popular em marcha, fiquei particularmente satisfeito e entusiasmado por encontrar ali o camarada. Tinha mesmo um alto significado. Aproximei-me alegremente de Carlos Brito para lhe dar um abraço. Quando já estávamos frente a frente, Carlos Brito diz, de maneira audível, para eu não ter nenhuma dúvida, para o camarada que estava ao seu lado: Apresentas-me este amigo? Ficou tudo dito e explicitado. Continuávamos, embora em vivência diferente e num ambiente eufórico, a manter a reserva que vinha da clandestinidade, dos tempos do fascismo. Tudo ainda era precário, devíamos estar preparados para o que desse e viesse. Aprendi a lição que Carlos Brito me deu, de modo delicado mas firme.

Cruzámo-nos algumas vezes. Trabalhei novamente com ele e vários outros camaradas, quando foi candidato do PCP a Presidente da República. Nessa oportunidade, algo me incomodou e comentei em privado com o Artur Ramos, que também fazia parte dessa equipa. A sua enorme vaidade era indisfarçável. Não tinha correspondência com o seu pensamento que, embora consistente, parecia mais ancorado em muletas do que propriamente ter alguma profundidade.

Depois, indignei-me quando, em rotura com o Partido, Carlos Brito dá uma entrevista em que, hipócrita e cinicamente, revela que tinha enviado uma carta ao PCP, esperando disciplinadamente pela resposta. O que o Carlos Brito queria dizer e escondia, era que já tinha entregue a sua carta ao Partido e à comunicação social para que se tornasse pública. Fosse explorada pelo anticomunismo dominante. Coisa que ele conhecia na perfeição. Era mais que evidente que Carlos Brito não estava interessado em nenhum debate ideológico, provavelmente com alguma consciência das suas limitações, benefício da dúvida que não lhe devia conceder mas concedo, mas em provocar a corrosão possível no Partido. A minha indignação ao ler a entrevista era a evidência de que a carta do Carlos Brito surgiria dentro de dias na imprensa com o Carlos Brito a mostrar-se muito admirado por essa aparição. Mais espantado que os três pastorinhos de Fátima.

Tudo correu segundo esse guião, escrito pelo Brito e o(s) seus(s) interlocutor(es) na comunicação social.

A partir daí Carlos Brito tornou-se, por opção própria, numa reserva que a comunicação social vai acordar cada vez que quer atacar o Partido ou as iniciativas do Partido. Com um descaramento, só possível em quem perdeu toda a vergonha ou está irreversivelmente esclerosado, a propósito das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal, confessando com o maior à vontade que não tinha visitado a exposição que esteve no Pátio da Galé nem folheado sequer uma página da Fotobiografia, criticou acidamente o conteúdo desses dois eventos dizendo que eram uma demonstração do estalinismo do Partido. Agora, na oportunidade, do Congresso “Álvaro Cunhal, o projecto comunista, Portugal e o mundo de hoje”, lá tirou Carlos Brito a cabeça para fora da toca para falar no “culto da personalidade” que, segundo ele, atravessa perigosamente o partido

Carlos Brito, tenha vergonha! Feche a carcela! Culto da personalidade, sem ter alguma personalidade, tem você na medida da transpiração da sua vaidade, cujo impacto nenhum desodorizante é capaz de reduzir. Quem inventar tal produto será certamente candidato ao Prémio Nobel da Química. Essa será a sua possibilidade de ficar registado para a posteridade.

Standard
Álvaro Cunhal, PCP, Política

Uma descoberta chocante!

IMG470Ao folhear a fotobiografia de Álvaro Cunhal, recentemente editada pelas Edições Avante, descubro uma foto em que aparece um tal de Mário Soares.

À luz das teses de Carlos Brito (o tal que não leu o livro) e Joaquim Vieira, tal só se poderá justificar por um relaxamento das práticas estalinistas, pela incapacidade de cortar a fotografia e reescrever a história à moda dos regimes de inspiração socialista.

O estalinismo do PCP já não é o que era…

E o que justificará este amolecimento do PCP?

Um desvio de direita, sabotagem de um grupo de dissidentes, um erro de edição com photoshop, medo do que iriam pensar os Britos e Vieiras deste país?

Precisa-se, urgentemente, de um pêcêpólogo (daqueles encartados) que esclareça!

Standard