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Gesualdo, Uma Música Sublime

carlo gesualdo

Carlo Gesualdo nasce em meados do séc. XVI no ambiente complexo da Contra-Reforma em Itália, numa família politica e económicamente poderosa que governava o principado de Venosa, que integrava o Reino de Nápoles e das Duas Sicilias, que pertencia ao reino de Espanha. Família ligada por laços de parentesco, do lado paterno e materno, a figuras cimeiras da Igreja, os arcebispos de Milão e de Nápoles, o papa Pio VI. Com a morte do irmão mais velho, Carlo Gesualdo é o herdeiro desse património. Casa com a bela Maria d’Avalos, filha do conde de Pescara, assegurando a continuidade e ampliando o seu poderio temporal. Tudo muda na vida de Carlo Gesualdo quando a sua mulher se torna amante, com algum escândalo público, de Fabrizio Carafa, duque de Andria. Gesualdo apanha-os em flagrante, mata-os com requintes violentos. As histórias à volta do sucesso divergem. Uns registam que os esquartejou dispersando os corpos, outros que expôs a mulher nua de braços e pernas abertas e o homem vestido com a roupa da mulher. Pormenores que compõem a imagem do príncipe assassino e o drama dos dois amantes, com ecos literários variados desde Torquato Tasso, na época, a Aldous Huxley, nos nossos dias.

Criou-se um mito à volta desse personagem, mito que se ampliou em histórias extraordinárias quando após o crime se retira para o seu castelo e se dedica à música que desde a juventude lhe tinha interessado. Fá-lo em ou em quase segredo o que de certo modo se explica porque para os aristocratas da altura os músicos eram o topo da criadagem com alguns direitos especiais.

O segredo é parcialmente violado quando, depois do seu segundo casamento com a sobrinha do conde de Ferrara, frequenta essa corte e participa com algumas obras não identificadas nos concertos que aí se realizavam, vindo posteriormente a publicar dois livros de madrigais. Num tempo em que os artistas eram protegidos pelos mecenas Gesualdo era mecenas de si-próprio, o que não deixa de ser relevante pelo suplemento de liberdade que a si-próprio atribuia. Gesualdo era completamente livre de escolher o que compunha e como compunha. Era o príncipe Gesualdo de Venosa que encomendava as obras ao compositor  Carlo Gesualdo que estava isento de agradar a mecenas ou ao público. Gesualdo podia dar livre curso ao seu gosto, com os temas que escolhesse e num estilo que elegesse. Isto associado ao seu temperamento e à sua vida, explicam muito do visionarismo, da selecção dos textos poéticos que faz, da sua música marcada por uma expressivisdade intensa, uma gama de inesperadas dissonâncias que traduzem para a música a dor, a cólera, o desejo, a violência, uma extrema sensibilidade.

Uma música deliberadamente provocante e simultaneamente de certo modo arcaica no seu tempo, que não recorre a instrumentos musicais nem ao baixo continuo, escrita para um conjunto de vozes em que nunca surge um solista. O que talvez se explique pelo seu percurso de vida em que, fracassado o segundo casamento, se refugia no seu castelo fazendo-se flagelar diariamente por jovens nos intervalos em que escrevia música, o que deu voz aos rumores sobre às suas tendências homossexuais e masoquistas. É um homem solitário, longe do mundo, expiando as suas culpas. São cenários apropriados para se construirem lendas sobre a realidade de uma vida sobressaltada. Gesualdo tornou-se uma figura quase mítica explorada no filme de Werner Herzog Gesualdo: Morte para Cinco Vozes.

O que não é nem pode ser objecto de especulações são os seis livros de madrigais e os três de música sacra que escreveu e publicou. Na sua época tiveram pouco impacto, foram reedescobertos na vaga de renovação que a música antiga sofreu no séc. XX, sendo um dos primeiros compositores a ter grande notoriedade pela utilização pouco ortodoxa que faz da harmonia, simultaneamente cromática e dissonante. Os textos, o amor e o sofrimento físico e espiritual que lhes são associados com relativa normalidade atingem em Gesualdo os extremos da desventura, de um constante tormento que os amplificam com uma dramatização inesperada que a música fragmentada acentua. Os madrigais de Gesualdo são uma confissão impúdica e desesperada. São uma música singular que fascinou Stravisnky que lhe dedicou Monumentum pro Gesualdo.

A música sacra obriga Gesualdo a conter excentricidades e extremismos a que se entregava quando escrevia música profana. O seu último livro de música sacra é dedicado às Lições das Trevas, celebradas nos dias santos da Páscoa, quinta e sexta-feira, sábado, que antecedem a ressurreição. Muitos compositores, refira-se Allegri, Thomas Victoria, Couperin, Charpentier, escreveram Lições das Trevas. Em Gesualdo as Lições das Trevas o contraste entre os salmos e as antifonias estão cunhadas pelo estilo muito pessoal de inquietitude, de punição,dos enigmas do pecado que transporta para umas Tenebrae em que escutamos uma música divina que nos afasta das orações e de qualquer pensamento cotaminado por sentimentos de fidelidade religiosa, embora seja fundamente mística.

Dia 24, na Igreja de São Roque com início às 18h00, os Graindelavoix vão interpretar a integral das Tenebrae, Responsórios da Quaresma e da Semana Santa de Gesualdo. Um concerto com a duração prevista de três hora e meia.

Com o impacto e o reconhecimento que Gesualdo alcançou quando da redescoberta e renovação da música antiga são muitas e boas as interpretações das Tenebrae. Refiram-se as do Hilliard Ensemble, Taverner Consort, Tallis Scholars, Ensemble Vocal Européen, Oxford Cammerata. Nem todas são integrais como os Granddelavoix vão realizar nesse comcerto. Conhecendo-se o trabalho que esse grupo tem realizado, a forma radicalmente inovadora das suas interpretações da música antiga há uma imensa expectativa por ouvir essa sua leitura de Gesualdo, depois de se ter ouvido os seus anteriores concertos em Lisboa, nomeadamente a Missa de Notre-Dame de Machaut.

Ao ouvir este Gesualdo não se pode deixar de imaginar que música escreveria para esta extraordinária Tenebrae de Paul Celan. Infelizmente três séculos as separam.

TENEBRAE


Estamos próximos, Senhor,

próximos e à mão.

Já agarrados, Senhor,

enlaçados um no outro, como

se a carne de cada um de nós

fosse a tua carne, Senhor.

Reza, senhor,

reza por nós,

estamos próximos.

Enviesados seguíamos,

caminhávamos para nos inclinarmos

sobre o vale e a lagoa.

Íamos ao bebedouro, Senhor.

Era sangue, era aquilo que tu

derramaste, Senhor.

Brilhava.

Lançaram a tua imagem aos nossos olhos, Senhor.

Os olhos e a boca estão tão abertos e vazios, Senhor.

Nós bebemos, Senhor.

O sangue e a imagem que estava no sangue, Senhor.

Reza, Senhor.

Estamos próximos.

(tradução Luis Costa)

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