AbrilAbril, Artes, Artes performativas, artes visuais, Capitalismo Neoliberal, Comissão Europeia, Copmunicação Social, Crítica de Arte, Critérios Jornalisticos, Cultura, Cultura Mediática, Curadores, Europa Criativa, Geoestratégias, Geral, Gestão Cultural, Globalização, Imperialismo Cultural, intelectuais, internet, Media, Mercado da Arte, Neo Liberalismo, património, Património Monumental, Património Natural, Pierre Bourdieu, Poder Económico, Política Cultural

Cultura, património cultural e a responsabilidade social dos intelectuais

Shintaro_Kago

«Mastigação ruidosa» (2018), do ilustrador japonês Shintaro Kago (1969) 

Cultura e Património Cultural, material e imaterial, são conceitos relativamente recentes na longa história da humanidade, bem como o reconhecimento da sua importância nuclear na identidade de um povo de uma nação, da sua soberania. Como T.S.Elliot escreveu, O tempo presente e o tempo passado / são, talvez, presente num tempo futuro / e o tempo futuro contido no tempo passado1, é essa relação dialéctica entre o passado, o presente e o futuro de um povo, de uma nação que a Cultura e o Património Cultural consubstanciam.

Durante séculos os patrimónios culturais foram objecto dos mais diversos vandalismos. É na Revolução Francesa que a Assembleia Constituinte cria uma Comissão dos Monumentos com a missão de proteger e conservar as obras de arte, o que estava em contraciclo com a fúria revolucionária que destruía tudo o que simbolizava o poder absolutista no exercício do controlo social e imposição de crenças políticas, sociais e religiosas. É essa mudança de mentalidades em relação ao património cultural e à cultura que inicia um processo de protecção, conservação e valorização do património e uma, ainda que tímida, democratização da cultura.

Tem o seu reverso que é o percepcionar-se que a supremacia política deve apoiar-se na afirmação da supremacia cultural. Uma estratégia que Napoleão Bonaparte colocou em prática.

Nas campanhas napoleónicas o imperador fazia-se acompanhar por uma corte de intelectuais que avaliavam e inventariavam as obras de arte a roubar. A pilhagem de igrejas, catedrais, conventos, museus, colecções privadas por toda a Europa e Norte de África foi sistemática e sem precedentes. Troféus de guerra para mostrar ao mundo o poder de Napoleão e a supremacia política e cultural da França. Derrotado Napoleão, o Segundo Tratado de Paris, de 20 Novembro de 1815, pela primeira vez na história determina a devolução das obras de arte aos seus países de origem.

O segundo grande roubo sistemático de património cultural foi realizado pelos nazis na Segunda Guerra Mundial. O projecto de Hitler é similar ao de Napoleão. Projectava construir um enorme complexo cultural em Linz, dedicado às obras que o führer considerava reflectirem a ideologia do partido nazi.

A campanha de devolução das obras pós-guerra foi muito publicitada e originou a jurisprudência da Convenção de Haia de 1954, que estabeleceu regras internacionais sobre o património cultural e está na origem do trabalho desenvolvido pela UNESCO, as classificações de Património Cultural Material e Imaterial da Humanidade, para salvaguardar universal e intemporalmente os patrimónios imóveis, os patrimónios intangíveis e os patrimónios naturais, representativos da diversidade cultural, natural e da expressão criativa em todo o mundo. Com essas e muitas outras iniciativas de organizações locais, nacionais e internacionais, vertida em abundante legislação, deveria a Cultura e o Património Cultural Material e Imaterial e o Natural estar protegido de qualquer atentado e a cultura, na multiplicidade das suas manifestações ser um dos grandes esteios das identidades nacionais.

Não está, e os atentados agora são outros de outro calibre. Nos centros decisores do capitalismo internacional, com destaque para as instituições financeiras sediadas nos EUA, prepara-se a intensificação de uma nova onda de privatizações de tipo novo e radical: vender o máximo possível de bens imobiliários estatais, incluindo os patrimónios histórico-culturais e naturais.

O editorial de 17 de Janeiro de 2014, da revista Economist, «The 9 trillion dolars sale», não deixa margem para dúvidas. Escrevem que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos, telecomunicações e transportes, e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado». Reconhecem a dificuldade da avaliação de alguns desses activos, como o Louvre, o Pártenon ou Parque Nacional de Yellowstone. Dificuldade obviamente superável se recordarmos os inúmeros artigos na comunicação social corporativa que aconselhavam os gregos a venderem os seus monumentos para saldarem as dívidas.

A cultura do «casino cósmico»

Neste «casino cósmico», como o definiu Georges Steiner, o perigo é real, multiforme. Não se devem menorizar as suas formas directas ou indirectas de privatização do Património Cultural aparentemente mais tímidas como as do programa Revive, nem a formatação dos padrões culturais pelo imperialismo cultural, nem a crescente bordelização da cultura pelo turismo cultural, nem a perda de capacidade crítica em que os padrões estéticos, ainda que muito contestados, são progressivamente substituídos pelas ditames do mercado, ainda que mascarados em lenga-lengas fastidiosas e repetitivas salpicadas de considerações artísticas.

A normalidade da anormalidade do estado de sítio cultural que se vive é tudo se reger pelas leis do mercado, crescendo nos charcos do entretenimento agitados pelo furor bulímico em que normalizam os chamados eventos culturais – o conceito eventos tem uma forte carga ideológica indiciando a banalização destruidora de quaisquer hipóteses de projectos culturais de democratização da cultura explodidos nos lugares comum de criação de novos públicos, leiam-se os regulamentos da Europa Criativa –, coloridos pacotes de mercadorias que são açambarcados para serem consumidos sem deixarem rasto. O seu único objectivo é disfarçarem o vazio comatoso desta sociedade, o seu spleen para, na melhor das hipóteses, o ocultarem protegendo-nos. Laboriosamente as forças dominantes foram moldando o gosto para depois o alimentarem com qualquer coisa que é sempre a mesma coisa. Essa dita cultura, mau grado o intenso ruído em que se envolve para abafar as vozes dissonantes, é parte integrante do aparelho repressivo do totalitarismo democrático que impõe o pensamento único.

Desde os anos 60 que se tem alargado a superfície global onde se vai dissolvendo o território, o exercício de soberania, a língua e a identidade cultural, tornados conceitos móveis e transitivos. O objectivo é a conquista do mundo pelo mercado. Nessa guerra os arsenais são financeiros e o objectivo da guerra é governar o mundo a partir de centros de poder abstractos. Megas pólos do mercado que não estarão sujeitos a controlo algum excepto à lógica do investimento. A nova ordem é fanática e totalitária. A cultura é um dos alvos dessa guerra e o mercado, que não reconhece outra hierarquia cultural que não seja a do que é rentável, ocupa cada vez mais o espaço que antes era ocupado pelo Estado.

O meio intelectual, a partir dos anos 50, já se tinha apercebido dessa situação e se alguns consideram o advento da dominação do mercado sobre a cultura como uma expropriação outros, como Adorno e Horkheimer, percebem claramente que essa dominação intermediada pelas nascentes indústrias culturais e criativas é «um sistema político e económico que tem por finalidade produzir bens de cultura – filmes, livros, música popular, programas de televisão, etc. – como mercadorias e como estratégia de controlo social.»2

A produção de produtos ditos culturais faz-se em linhas tayloristas que impõem um ritmo em que deixa de existir tempo para pensar a criação artística, o que acaba por ser uma forma de censura económica, pauperizando a cultura até a reduzir a uma sucessão de entretenimentos não significantes, em que tudo é idêntico. O património cultural e os museus são o alimento substantivo do turismo cultural em que a relação, que deveria ser estrutural e estratégica, permanece numa nuvem de indefinições, confusão de conceitos e de áreas de actuação. O que interessa, o que conta é o que gera dinheiro, muito dinheiro. A introdução ao Programa-Quadro Europa Criativa 2021-2027 da União Europeia (UE) é elucidativa: «a cultura está no centro do rico património e da história da Europa e tem um importante papel no aumento da atractividade de lugares e no reforço da identidade única de espaços específicos. A cultura e a criatividade podem ser importantes motores e impulsionadores da inovação, bem como uma fonte significativa para o empreendedorismo. A cultura é um importante motor para o aumento das receitas de turismo, numa altura em que o turismo cultural é um dos segmentos do turismo com maior e mais rápido crescimento a nível mundial.» É um texto esclarecedor pela miscigenação de conceitos em que o que acaba sempre por vir à superfície é a gestão, o empreendedorismo, como adubos da inovação. A importância do «rico património e da história da Europa» é o «aumento da atractividade de lugares», leia-se turismo cultural para as multidões prontas a disparar o seu olhar distraído, registado em selfies, enquanto invadem museus e outro património edificado. O que conta é o dinheiro, muito dinheiro que o mercado cultural pode gerar, pelo que as iniciativas culturais desligam-se de qualquer projecto cultural para se subordinarem ao que é mais vendável.

Mais esclarecedor fica quando elencam as indústrias culturais e criativas e se olha para a distribuição de verbas por essas áreas. São integrados nos «Sectores culturais e criativos», todos os sectores cujas actividades se baseiam em valores culturais e/ou artísticos ou noutras expressões criativas, quer essas actividades tenham fins comerciais ou não, independentemente do tipo de estrutura que garante a sua execução e seja qual for o modo de financiamento dessa estrutura. Essas actividades incluem a concepção, a criação, a produção, a divulgação e a conservação dos bens e serviços que encarnam uma expressão cultural, artística ou qualquer outra expressão criativa, e funções conexas, como a educação ou a gestão. Os sectores culturais e criativos incluem, nomeadamente, a arquitectura, os arquivos, as bibliotecas e os museus, o artesanato, o audiovisual (em particular o cinema, a televisão, os jogos de vídeo e as actividades multimédia), o património cultural material e imaterial, o design, a publicidade, a moda, os festivais, a música, a edição de publicações, a literatura, as artes performativas, a rádio e as artes plásticas. Ao mesmo nível das Meninas de Velasquez ou da Ronda da Noite de Rembrandt está um anúncio à Coca-cola ou ao BurgerKing. O Saraband do Bergman ou a Regra do Jogo do Renoir fica submergido na quantidade brutal de videojogos que já é um volume de negócio superior ao do cinema ou das séries televisivas. Festivais de Música? Os de música sinfónica são residuais, em quantidade e em espectadores, se comparados com os de música pop, o que também se reflecte na indústria discográfica, basta olhar para os espaços que ocupam nas estantes de venda e também nos espaços de «crítica musical» na imprensa. A literatura nada com respiração assistida no plâncton das edições dos media da imprensa corporativa, das revistas de glamour, etc.

A moda invade tudo e é dominante em todos os outros géneros artísticos, para isso lá estão os gestores culturais, esse baixo clero pós-moderno com especiais aptidões para ocultar e tornar eficaz o vazio da cultura inculta instalada em todos os patamares do entretenimento da iliteracia cultural por esses intermediários culturais, gestores culturais, programadores, curadores, comissários, agentes do pensamento dominante que aceleram pelas auto-estradas do bullying cultural que se impuseram durante os anos 80, como Pierre Bourdieu bem os caracterizou e que é sempre de recordar: «são os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado, porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo académico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade que caracteriza o papel desses intermediários é serem os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam»3. Intermediários culturais sempre entre duas actividades promocionais onde a arte e a cultura são sempre e só mercadoria e o público se alicia com mentiras ou melhor (pior) não verdades.

Esclarecedor é também o enquadramento financeiro para a execução do Programa durante o período 2021-2027, em linha com os anteriores. «O Programa continua a apostar em 3 vertentes: Subprograma MEDIA, Subprograma CULTURA e Vertente Intersectorial, sendo que esta última introduz uma novidade dirigindo-se a “Cultura e Meios de Comunicação”». Através da vertente intersectorial o Programa visará também «promover a cooperação política em matéria de cultura no seio da UE, promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática».
Em termos orçamentais a Comissão propõe a afectação de 1,85 mil milhões de Euros ao Programa global, divididos do seguinte modo: subprograma MEDIA, 1,08 mil milhões de Euros; subprograma CULTURA, 609 milhões de Euros; e 160 milhões de Euros para a vertente intersectorial. Tal proposta traduz-se num aumento de 450 milhões de Euros face ao actual Programa Europa Criativa 2014-2020 e a grande aposta é no incremento da comunicação social estipendiada.

A bitola é a do mercado, os apoios são ao empreendedorismo, As justificações na distribuição das verbas revelam os objectivos da UE e o que nos espera por detrás da cortina «de promover um ambiente de liberdade, diversidade e pluralismo na comunicação social e apoiar o jornalismo de qualidade e a literacia mediática» em que a verba para os media é reforçada pela do denominado subprograma intersectorial, pelo que 67% do orçamento Europa Criativa é dirigido para o controle de informação que se integra no sistema mundial de formação da opinião pública e da interpretação da realidade pela comunicação social corporativa, mercenária, ao serviço do pensamento totalitário dominante. Os sobrantes 33% são para o que selam como cultura, mas com a banda larga aplicada, estamos conversados. Há excepções, mas as excepções são a confirmação da regra e a regra é o triunfo imperial do espectáculo que bordeliza a cultura, o património cultural e os museus com o mercado a extrair benefícios máximos do empobrecimento moral e intelectual da sociedade. É o fim da cultura na sua relação ideológica e política com a sociedade. Cultura amarrada à perda de futuro como dimensão ontológica humana em que se procura que a alienação global seja voluntária.

A responsabilidade dos intelectuais

Todo este processo decorre por o capitalismo neoliberal ter percebido que a cultura, a produção teórica eram armas nucleares que eram necessário despoletar para perpetuar o imperialismo e impor um pensamento único. Puseram em marcha um processo de desagregação social dos intelectuais para os isolar e os atirar para as periferias do poder político. Os intelectuais, que nunca foram um grupo homogéneo mas que, como Régis Debray anotou, se «sentiam, pelos seus saberes e conhecimentos diferenciados, ser uma colectividade de pessoas, socialmente legitimadas para tornarem públicas as suas opiniões»4 detendo um poder, que embora de origens diferentes, influenciava ou ia contra o dos políticos eleitos, foram progressivamente marginalizados do tecido social.

Um processo que incidiu sobretudo nas áreas culturais distanciando o Estado das políticas culturais, retirando-lhes importância política e pública, entregando progressivamente ao mercado e à iniciativa privada os instrumentos da cultura, diligenciando para que o mercado e a iniciativa privada contaminassem as políticas culturais das instituições que tutelam, como se a cultura fosse um território que floresce numa terra de ninguém e para que a arte e a cultura perdessem o sentido de ser a utilidade que transforma a vida.

Para essa nova ordem é fundamental anular a cultura enquanto núcleo de práticas e actividades, enquanto instrumentos de produção material, recepção e circulação que dão sentido à vida e ao mundo com o fim último de que já não seja sequer possível pensar que é possível pensar uma sociedade alternativa onde os valores da civilização, da humanidade, da cultura, da política se plantam para florescer, ainda que com todas as contradições e dificuldades.

Para essa nova ordem é fundamental que os intelectuais, especialistas e profissionais qualificados sejam elementos passivos das suas competências, remetidos às suas áreas especializadas, tendo por interlocutores os seus pares e não a sociedade para perderem influência na construção da consciência colectiva.

Neste estado de sítio há que exigir aos intelectuais que façam novamente ouvir a voz que já tiveram no discurso público, com a consciência de que se ela não é decisiva é fundamental para se sobrepor à turbulência ruidosa do pensamento dominante, que procura tornar inaudível qualquer discurso crítico que o ponha em causa. Devem readquirir o sentimento do seu papel social, mesmo com a incertitude de não terem no imediato sucesso garantido.

Há que resistir, resistir sempre e sem vacilações para que a cultura e a arte se recentrem na vida e encontrem aquilo que podem e querem fazer com os seus materiais e instrumentos sem se entregarem nas mãos do mercado, recusando-se a responder às exigências de gerar lucro, normalizando-as pelas imposições do consumo imediato e padronizado onde se afoga o espírito crítico.

Há que continuar e lutar com a firme convicção de que «no entanto, ela (a Terra) move-se», como disse Galileu enfrentando o tribunal da Inquisição.

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt/ )

  • 1.in Four Quartets: «Time present and time past / Are both perhaps present in time future /
    And time future contained in time past.»
  • 2.Adorno, Theodor/ Horkeimer, Max ; Dialéctica do esclarecimento, Jorge Zahar editor, 1985.
  • 3.Bourdieu, Pierre; A distinção, uma crítica social da faculdade do juízo, Edições 70, 2010.
  • 4.Debray, Régis; Le pouvoir intellectuel em France, Ramsay, 1979
Standard
AbrilAbril, Artes, artes visuais, Capitalismo Neoliberal, Comunicação Social, Coronavirus, Cultura Mediática, economia, facebook, Geral, Gestão Cultural, Globalização, Imperialismo Cultural, internet, Lenine, Liberalismo, resistência, Ultraliberalismo, Vida Social

A Fragmentação da Vida Social

A pandemia impôs um interregno na vida social e deu novo impulso à vida virtual em que a hipercomunicação se torna central, espaço onde tudo se amalgama aceleradamente pela destruição da distanciação.

«Escritório numa pequena cidade (1953), de Edward Hopper (1882-1967). Óleo sobre tela, 71,1x101,6 cm. Museu de Arte Metropolitano, Nova Iorque

«Escritório numa pequena cidade (1953), de Edward Hopper (1882-1967). Óleo sobre tela, 71,1×101,6 cm. Museu de Arte Metropolitano, Nova Iorque CréditosMetropolitan Museum of Art (MET) / George A. Hearn Fund, 1953

Fechados em casa, com as raras saídas a que a sobrevivência obriga, a vida social foi tragada pelo buraco negro da pandemia. A internet, que já era uma presença substancial no mundo globalizado, tornou-se dominante, embora com as limitações impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais. Somos janelas abertas para os outros plantados nas suas janelas analógicas e, há que reconhecer, competimos na atenção que suscitamos, medida pelos comentários e pelos gostos. Nesse espaço digital que tinha e tem o objectivo de encurtar, mesmo abolir qualquer distância, somos empurrados, pelo confinamento a que estamos forçados, a aproximarmo-nos do outro tanto quanto possível, no espaço do ecrã digital em que não há espaço para estranhezas nem estrangeirismos. A maioria dos nossos amigos são virtuais, nesse espaço de hipercomunicação acelerada em que se perde a capacidade de assombro pela crescente proximidade que se estabelece com todos eles que aceitamos movidos por um qualquer critério, o mesmo pelo qual não aceitamos ou rejeitamos outros, num espaço numérico em que tudo acaba por ser idêntico. Essas vidas virtuais tragam a vida social propiciando a sua autofagia, o que está a gerar um novo paradigma.

«Fechados em casa, com as raras saídas a que a sobrevivência obriga, a vida social foi tragada pelo buraco negro da pandemia. A internet, que já era uma presença substancial no mundo globalizado, tornou-se dominante, embora com as limitações impostas pela capacidade económica e pelas condições de acesso locais»

A pandemia que impôs um interregno na vida social deu novo impulso à vida virtual em que uma hipercomunicação se tornou central, um espaço onde tudo se amalgama aceleradamente pela destruição da distanciação, onde se julga encontrar um sentimento de liberdade sem fronteiras, onde tudo parece possível só que sujeito à repressão do algoritmo que tem a moral e a ética do pensamento dominante, usada com alguma parcimónia para ser aceite sem grande contestação ou com contestações pontuais, o que anula a resistência colectiva. Sem resistência colectiva a revolução torna-se impossível ou é, no mínimo, improvável. Uma teia de aranha em que uma liberdade ilusória dá conforto suficiente por via de uma comunicação sem restrições horárias. Uma teia de aranha que pretende capturar a capacidade de resistência e promover uma alienação global tão incrustada na vida real que o horizonte da anormalidade seja normalidade e a alienação seja aceite voluntariamente. O que é o grande objectivo da dominação neoliberal. É um processo polifacetado de subjugação ao pensamento dominante e que tem tido êxitos, contaminando mesmo algumas esquerdas.

Turistas em busca de selfies, cultores das redes sociais, estão a arruinar a experiência de ver a obra de arte em museu, como com a «Mona Lisa», no Louvre. Foto de arquivo Créditos

Nesse novo território imposto por este tempo de excepção, a cultura, a dos criadores e a dos fruidores, ocupa um largo espaço para preencher a solidão a que boa parte da humanidade foi obrigada. Por generosa solidariedade dos criadores culturais, das instituições culturais, há uma oferta extensa, em crescendo diário, que podemos seleccionar pelos nossos padrões de qualidade, por vezes amolecidos pelo acumular de horas sem horários. O excesso é sempre inimigo da qualidade. o que é mais visível nas artes do palco. Teatro, óperas, ballet, só são possíveis reproduzir com rigor se o registo cinematográfico for um trabalho sobre e em conjunto com o trabalho dos encenadores. Muito das artes de palco que agora são exibidas não têm esse padrão de exigência. Paralelamente as visitas digitais aos museus que são e devem ser óptimas introduções aos seus conteúdos, percorrem-nos muitas vezes com a insustentável ligeireza do olhar distraído. Percorrer um museu em suporte digital não substitui a sua visita, deve incentivá-la e questionar seriamente o que já está a degradar a sua função, com multidões a atropelarem-se para tirarem selfies com as monas lisas. O que se está a promover, mesmo que motivado pelas melhores intenções – veja-se o TV Fest – é o despejar de conteúdos nas redes sociais e na televisão sem ou quase sem critério, cobertos pelo manto da solidariedade. Elencando toda a oferta ora disponível, se com a internet, pela oferta cultural de que se dispunha, já se era mais turista que nunca, hoje, ainda que por um período temporalmente limitado, somos turistas a tempo inteiro.

«O encerramento temporário das salas de espectáculo, museus, bibliotecas, etc., um estado de excepção inédito provocado pela pandemia da COVID-19, originou também respostas solidárias e inéditas dos criadores e das instituições culturais, dando acesso fácil aos conteúdos culturais nos ecrãs dos computadores»

O encerramento temporário das salas de espectáculo, museus, bibliotecas, etc., um estado de excepção inédito provocado pela pandemia da COVID-19, originou também respostas solidárias e inéditas dos criadores e das instituições culturais, dando acesso fácil aos conteúdos culturais nos ecrãs dos computadores, o que, com todas as questões já enunciadas, comporta uma outra questão menos ou quase não referida, a da fragmentação da vida social que assim é originada. Ver um espectáculo, ir a um museu, visitar uma biblioteca solitariamente num ecrã de computador degrada a vida social que, de qualquer modo, está viva quando se vai a uma sala de espectáculo, a um museu, a uma biblioteca. Garantidamente os grandes centros de reflexão e de marketing dominantes, que mandam a solidariedade para as urtigas, vão estudar o fenómeno para as trabalharem em grandes linhas de condicionamento ideológico. A cultura, as áreas culturais são desde os meados dos anos 60, um terreno de trabalho teórico do neoliberalismo.

Deve-se lembrar que, desde que surgiram os primeiros estudos sobre as especificidades do trabalho cultural, que por sua vez deram origem a estudos aprofundados sobre a economia da cultura, a produção cultural foi e é campo de experimentação para conceitos económicos fundamentais por estar num terreno em que a formação do valor é específica, mais volátil, mais dependente de factores não materiais. Galbraith não o tinha percebido: «arte não tem nada que ver com a severidade das preocupações do economista» e que «estes “dois mundos” nunca se encontram e não se lamentam por isso». Tudo mudou a partir dos anos 70/80, quando os Estados começaram progressivamente a demitir-se de traçar políticas culturais passando a subsidiá-las pontualmente, entregando a cultura ao mercado cultural que ocupou esse espaço deixado vazio ou quase vazio. A arte e a cultura passaram a estar sujeitas ao modelo do pensamento económico comandado pelas leis da oferta e da procura, que não reconhecem outra hierarquia cultural que não seja a do que é vendável, rentável, o que, de uma ou outra maneira, acaba por estar subjacente aos apoios concedidos pelos Estados às actividades artísticas e culturais. Para os economistas que se dedicaram a analisar a cultura, a natureza do sistema de incentivos à produção cultural, à criação artística é subordinado às restrições orçamentárias o que é particularmente visível em Portugal, em que os orçamentos para a cultura são o resto, o que sobra dos Orçamentos de Estado. Consideram que o desfrute de um bem cultural sem um sentido para o seu consumo é vazio, só gera custos para o agente. Na prática, a única explicação que encontram para o consumo de bens culturais é o uso do objecto cultural como activo financeiro especulativo.

«O lado oculto dessa facilidade é a fragmentação da vida social. Vamos ficando mais distanciados dos outros, um distanciamento que é iludido pela proximidade que as redes sociais fabricam e que também concorre para a fragmentação da vida social. A multiplicação de conteúdos culturais despejados na internet e nas redes sociais vai ter consequências ainda não mensuráveis. Vai provocar alterações nos hábitos de consumo cultural»

Entre outros, atente-se neste texto do economista David Throsby, num artigo publicado no Journal of Economics em 1994: (…) ser dominante (na economia da cultura) a propensão para gerar fluxos variáveis de receitas ou de empregos, a necessidade de avaliação das decisões culturais e, no plano teórico, o fomentar a economia política dirigida a novos campos (economia de actividades não comerciais, economia das organizações, da informação e da incerteza implicando a revisão dos pressupostos de racionalidade (…). A economia da cultura é o terreno privilegiado para a verificação empírica de elementos novos.1 Esses elementos novos foram também aplicados ao mundo do trabalho. As actividades artísticas são um laboratório da flexibilização e precarização do trabalho, por se tratar de trabalho qualificado onde o trabalho independente, a intermitência do emprego sem custos de angariação nem de despedimento, a generalização da fragmentação do salário e a irregularidade do estatuto da actividade, abriram caminhos para se estudar e experimentar como abrir brechas nos direitos dos trabalhadores. Todas essas movimentações foram em crescendo no universo globalizado do neoliberalismo até ao extremo da uberização da economia.

Sem título (1994), de Teresa Dias Coelho (1954). Óleo sobre tela, 100×100 cm Créditos

Agora, estamos a assistir a uma violenta fragmentação da vida social imposta pela pandemia. Já estava a ser experimentada e posta em prática pelas plataformas de cinema na internet e nas da televisão por cabo. Em pouco tempo as netflix’s multiplicaram-se. Não só adquiriram os direitos de exibição de filmes como iniciaram produções cinematográficas próprias, algumas de alta qualidade, que crescentemente esvaziam as salas de cinema. A oferta é extensa, tudo à mão de um toque no comando televisivo sem o «incómodo» de se deslocar para ir a um cinema, com a vantagem de ser mais barato. O lado oculto dessa facilidade é a fragmentação da vida social. Vamos ficando mais distanciados dos outros, um distanciamento que é iludido pela proximidade que as redes sociais fabricam e que também concorre para a fragmentação da vida social. A multiplicação de conteúdos culturais despejados na internet e nas redes sociais vai ter consequências ainda não mensuráveis. Vai provocar alterações nos hábitos de consumo cultural. A medusa do capitalismo neoliberal deles fará uso para acentuar a precarização dos trabalhadores das áreas culturais, para impor restrições nos apoios e incentivos à cultura e às instituições culturais, no limite para as destruir como já estava a fazer nomeadamente com as salas de cinema e as livrarias. Tudo concorre para corroer a vida social.

«A medusa do capitalismo neoliberal deles fará uso para acentuar a precarização dos trabalhadores das áreas culturais, para impor restrições nos apoios e incentivos à cultura e às instituições culturais, no limite para as destruir como já estava a fazer nomeadamente com as salas de cinema e as livrarias. Tudo concorre para corroer a vida social»

A primeira vitima provável da pandemia será o capitalismo neoliberal no seu estado actual. Mas o vírus não faz milagres. O que tanto o capitalismo neoliberal como o modo de produção globalizado tentarão e vão fazer é procrastinar a sua morte, ressuscitar o seu cadáver noutro corpo com nova alma, um pós-capitalismo que ainda não se sabe o que será, como será. A sua ressurreição só não acontecerá pela luta de classes. A luta, aos mais diversos níveis, será dura e terá novas formas associadas às que estão no terreno, com tudo o que se aprendeu ao longo da história. Há que ter sempre bem vivo a ensinamento de Lenine: «o capitalismo não cairá se não existirem forças sociais e políticas que o façam cair». Para isso há que estar atento para se lutar nesta nova frente que é a fragmentação da vida social em curso e que se instalou em força, ainda que temporalmente limitada, por força da pandemia.

Bibliografia:

Martinez, Valentin Alejandro; García, Fernando Salgado. Economia de la Cultura y la Comunicación en la Era Digital, Media XXI (2012, reed.)

Throsby, David. The Economics of Cultural Policy, Cambridge University Press (2010, reed.)

Throsby, David; Ginsburg, Victor A. Handbook of Economics of Art and Culture, Elsevier Science Tecnology (2013, reed.)

(publicado em AbrilAbril  https://www.abrilabril.pt )

Standard
AbrilAbril, Aldina Duarte, arquitectura, Barbara Hannigan, Carina Infante do Carmo, Cultura, Geral, João Paulo Esteves da Silva, Livraria Aillaud& Lellos, Lojas com História, Maria João Luís, Músicos do Tejo, Museu do Neo-Realismo, Programa Revive, René Jacobs, Teatro da Terra, Vilay Iver, Violante F. Guimarães

Do Pior e do Melhor em Cultura, Janeiro 2018

lelloe e AilladEm Lisboa uma livraria quase centenária, a Aillaud & Lellos, encerrou as suas portas no fim do ano por não suportar o aumento de renda exigido pelo senhorio. A ironia é ao lado do cartaz em que se anuncia o encerramento estar um autocolante com o logotipo “Lojas com História” da recém-formada rede do programa Lojas com História http://www.lojascomhistoria.pt , promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Não são as boas intenções que ultrapassam os efeitos devastadores da famigerada lei das rendas de Assunção Cristas, no não menos famigerado governo PSD-CDS, que provocou uma onda de despejos brutal que ela procura eclipsar manipulando os efeitos dessa lei da sua deliberada responsabilidade, ventilando um argumentário em que vale tudo mesmo negar as próprias evidências, como se viu durante a campanha eleitoral para as autárquicas em que se arvorou em defensora das lojas históricas de Lisboa, enquanto elas iam fechando vitimas da sua irresponsabilidade.

É menos uma livraria onde se podia procurar o que não se encontra nos dominantes espaços livreiros. Do ponto de vista da arquitectura também se vai certamente perder a bela fachada e letragem art-deco, como já se perderam outras lojas dessa zona da baixa, muitas desenhadas pelo arquitecto Conceição Silva em colaboração com artistas plásticos, agora só memória de um património que se tem vindo a alienar. Isto quando se proclama 2018 – Ano Europeu do Património e o Ministério da Cultura está alegremente muito entusiasmado com a privatização de mais de trinta monumentos que irão ser entregues à indústria do turismo. Inquietante, preocupante é o Ministério da Cultura não assumir as suas responsabilidades nesse processo porque a grande questão é se as operações imobiliárias necessariamente associadas a essas recuperações garantem e como garantem as suas memórias originais, se essas memórias serão e como serão sacrificadas à sua reabilitação. Não é límpido como o empreendedorismo turístico, com promessas de restaurar o património edificado, lhe vai dar acesso público, desde que, evidentemente, não incomode os utentes que pagam para dormir e vaguear por onde dormiu e vagueou a extinta nobreza pelo que se deve preservar o sossego desses esplêndidos momentos de ócio, pagos e bem pagos aos empreendedores que em poucos anos amortizam os investimentos feitos à conta do valor histórico desses lugares. A primeira sugestão cultural, aceitando-se com todas as reservas o Revive, é que se gere um movimento cívico e de cidadania que exiga que seja o Ministério da Cultura a elaborar os programas para cada um dos monumentos, resolvendo na medida do possível os problemas enunciados e só depois os colocando a concurso. Há ainda outro problema que o governo devia corajosamente enfrentar que é o da crise com que se debatem os profissionais de arquitectura. Todos esses projectos deveriam obrigatoriamente ser sujeitos a concurso público não limitado, não deixando a escolha das equipas de arquitectura entregue à selecção aleatória dos adjudicatários. No 2018-Ano Europeu do Património estaria Portugal a dar um passo em frente e inovador para defesa do património mesmo no quadro de um desinvestimento generalizado dos Estados na cultura o que só causa as máximas apreensões, olhando para o que tem acontecido por essa Europa fora.

O grande destaque desta semana vai para as crianças. As crianças sem horizontes ou com um longínquo horizonte de esperança. Carina Infante do Carmo e Violante F. Magalhães organizam um interessantíssimo conjunto de colóquios, seminários e mesas-redondas, a decorrer em Lisboa na Faculdade de Letras e no Museu João de Deus e em Vila Franca de Xira no Museu do Neo-Realismo com o tema

CARTAZ_Exposi__oMi_dos_1_600_839

Miúdos, a vida, às mãos cheias. A infância do neo-realismo português. http://www.museudoneorealismo.pt/frontoffice/pages/1367?event_id=9609. O objectivo, expresso no texto de apresentação é o tópico da infância (e da juventude, já agora) uma das dimensões mais significativas da construção e conquista da contra-hegemonia cultural do Neo-Realismo à política salazarista e ao seu fortíssimo investimento simbólico, político-organizativo e repressivo em torno destas faixas etárias. Para os neo-realistas, a criança é um dos ícones da esperança, da emancipação social e da potência transformadora de futuro. O recurso à infância nas figurações artísticas e literárias combina o ensejo de denúncia com uma dimensão pícara e, fundamentalmente, lírica.

O programa é ambicioso e vasto, inicia-se nos dias 12 e 13 de Janeiro prolonga-se até Agosto.http://www.museudoneorealismo.pt/uploads/writer_file/document/17150/PP.pdf Além das análises ao neo-realismo enquanto movimento literário, artístico e político, a figuração da criança nas obras de Manuel da Fonseca, José Gomes Ferreira, Ilse Losa, Soeiro Pereira Gomes, Carlos Oliveira, Vergílio Ferreira e Fernando Namora será objecto de comunicações nesses primeiros dias. O cinema, o teatro e leituras encenadas darão continuidade a esse excelente programa, nos dias 2 de Fevereiro, 2 e 17 de Março, em paralelo uma exposição no Museu do Neo-Realismo é o suporte físico para esta excelente iniciativa que constitui também um Curso de Formação de Professores creditado pelo Conselho Pedagógico-Científico da Formação Contínua de Professores/ Curso livre creditado em ECTS pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A criança, as crianças estão também no centro da peça de teatro 150 Milhões de Escravos com montagem e encenação de Maria João Luís. O número é o do total das crianças escravas em todo o mundo no recenseamento da Amnistia Internacional. O texto foi construído com base nos neo-realistas portugueses Romeu Correia, Carlos Oliveira e Soeiro Pereira Gomes e de Em Homenagem aos Nossos Empregados, de Mickael de Oliveira, A Gaivota, de Anton Tchekov, fragmentos de Arthur Rimbaud. Uma peça de teatro dura, violenta sobre uma realidade que vem dos princípios da história, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, uma história violentíssima da humanidade que persiste nos nossos dias, em que os pobres são cada vez e estão mais pobres em relação aos ricos que são cada vez menos e concentram cada vez mais riqueza nas suas mãos. 150 Milhões de Escravos

é uma peça que nos confronta com as cumplicidades, directas de quem pactua com este estado do mundo e indirectas de quem, até por omissão, se alheia da brutalidade da exploração capitalista que, para se perpetuar, usa todas as formas das mais aparentemente democráticas às mais brutais ditaduras, das liberdades burguesas mais amplas aos territórios concentracionários do nazismo-fascista. A artista e encenadora Maria João Luís interroga: Quem são hoje os filhos dos homens que nunca foram meninos? E interroga com aspereza para nos sobressaltar a consciência de todos que de uma forma ou de outra pactuamos com esta situação. A interpretação está a cargo de Beatriz Godinho, Catarina Rôlo Salgueiro, Emanuel Arada, Ivo Alexandre, João Saboga, José Leite, Hélder Agapito, Lígia Soares e Teresa Sobral.

A cenografia é de Ângela Rocha, o vídeo de Inês Oliveira, o movimento de Paula Careto e o desenho de som e de luz de José Peixoto e Pedro Domingos.

É uma co-produção do Teatro da Trindade INATEL e pelo Teatro da Terra, em parceria com a Câmara Municipal de Ponte de Sor e o Museu do Neo-realismo, a peça vai estar em cena a partir de quinta-feira, dia 11 de Janeiro, e prolonga-se até 28 de janeiro, com espectáculos de quarta-feira a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 16h30.

Espera-se, deseja-se que 150 Milhões de Escravos, encontre outros palcos no país.

A finalizar referir registos discográficos que são um bálsamo para preencher dias e noites chuvosas. Dois de música sinfónica, o Requiem de Mozart que depois de inúmeras e excelentes interpretações ainda consegue surpreender agora com a direcção de René Jacobs com a Freiburger Barockorchester, o RIAS Kammerchor e as vozes solistas de Sophie Karthauser, Marle-Claude Chappuls, Maximilian Schmidt e Joahannes Welsser; e Crazy Girl Crazy de Barbara Hannigan, maestrina e cantora da Ludwig Orchestra que interpretam a suite de Gershwin, arranjo de Billy Elliot, que dá o título ao disco, a suite Lulu de Alan Berg e uma portentosa interpretação da Sequenza III de Luciano Berio. No jazz um excelente João Paulo Esteves da Silva, piano, acompanhado por Mário Franco, contrabaixo e Samuel Rorher, bateria em luminosas improvisações em Brightbird e um magnifico Vijay Iyer, demonstrando a sua enorme versatibilidade como instrumentista e arranjador a tocar em sexteto em Far From Over.

No fado os grandes destaques vão para Aldina Duarte, Quando se Ama Loucamente, que se aventura nos textos de Maria Gabriela LLansol para abrir caminho pelas paixões que abruptamente irrompem e morrem. Ainda no fado mas a traçar uma trajectória das raízes aos nossos dias, From Baroque to Fado de Os Músicos do Tejo, com as vozes de Ana Quintans e Ricardo Ribeiro, Miguel Amaral, viola, Marco Oliveira guitarra portuguesa, Jarrod Cagain, percussão. Um disco gravado em directo, um esplêndido trabalho de produção e edição de Pierre Lavoix, do concerto efectuado na Fundação Gulbenkian que teve um grande êxito que agora se tem repercutido nacional e internacionalmente por via do registo discográfico .

( publicado em AbrilAbril 12 de janeiro)

Standard
AbrilAbril, Almada Negreiros, Ana Hatherty, Artes, artes visuais, Balthus, Camille Claudel, Caravaggio, Céline, Crivelli, Erza Pound, Fillipo Lippi, Geral, Henry Miller, Jorge Pinheiro, José Escada, Lewis Carroll, Michelangelo, Otto Klemperer, Paul Claudel, Pedro Chorão, Polanski, Rimbaud, Sérgio Pombo, Verlaine, Villon, Wagner, Woody Allen

2017-Artes Visuais : Um balanço em passo(quase) de corrida

ao povo alentejano

Ao Povo Alentejano. Jorge Pinheiro, 1980

Se, no plano fechado do foco estrito das artes visuais, o ano 2017 começa bem com as semanas finais das exposições inauguradas em 2016, de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, acaba em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora, projectada por Pedro Cabrita Reis, com desenho expositivo de Eduardo Souto Moura, a primeira grande exposição de um dos mais importantes pintores portugueses, depois da retrospectiva que a Fundação Gulbenkian lhe dedicou há quinze anos.

Muita outra coisa aconteceu neste ano de 2017 que, pelas melhores e as piores razões, se deve assinalar num balanço que é sempre algo imperfeito, mesmo nas contabilidades mais criativas e não pode ficar entrincheirado nos cômputos das exposições das artes visuais.

1. BALANÇO, PIM!

OS CONCURSOS DE APOIO ÀS ARTES

Por onde começar? Pela miséria do Orçamento de Estado para a Cultura que continua a ser um resto, uma sobra no OE, apesar de um ligeiro aumento que não dá para mudar o furo do cinto. Num balanço de 2017 tem que se olhar preocupadamente para os processos de candidaturas de apoio às artes que são fundamentais para viabilizar projectos que, nos últimos anos, têm sido administrativamente adiados. Apoios estatais à criação artística que são a possibilidade de centenas ou mesmo milhares de criadores e outros trabalhadores da cultura não verem a sua actividade frustrada e da da área cultural não ser inteiramente colonizada, sem alternativa, pelos produtos mercantis, rotineiros das chamadas indústrias criativas e culturais. Olhar preocupadamente porque os ecos das notícias sobre o curso dos candidaturas são inquietantes. Labirintos de formulários complexos, com informação detalhada entre explanação de projectos, orçamentos, anexos a suportar a documentação exigida. Respostas a perguntas algo desconexas que impõem aos concorrentes que, sublinhe-se trabalham em estruturas frágeis, um esforço desmesurado que chega às centenas de páginas e se pode perder num pormenor, na falha de uma assinatura, numa rasura.

Um exercício para os concorrentes que faz lembrar a feroz ironia de João Abel Manta quando retratou as aventuras de um cidadão português a aventurar-se numa digressão por um crítica ensaística.

João Abel Manta

Perguntas que não se percebem sobre se os projectos “valorizam a fruição artística enquanto instrumento de correção de assimetrias territoriais e de desenvolvimento humano, social, económico e financeiro”, “coesão social e territorial”, “qualificação dos cidadãos”, “valorização do território”, etc. Em vez de inquirir, os júris deveriam verificar se os projectos correspondem a esses objectivos, porque a cultura os deve ter sempre presentes e as práticas artísticas para ela devem concorrer. O ministério é da Cultura não é das Artes, apesar das artes serem parte substancial e impartível da cultura. As artes não podem ser percepcionadas como uma actividade que só tem por objectivo elas próprias, como se existissem e fossem realizadas numa ilha sem qualquer relação com um continente que é, aliás, o que confere significado à ilha. Uma equação complexa e algo paradoxal em que se deve ler atentamente Manuel Gusmão; “a poética é um produzir, um estudo da poiesis, e, a poesis já introduz artes e, portanto, podemos falar da poesis de qualquer arte sem trazer nada de exterior à arte, enquanto que, quando falamos da estética, tentamos confrontar o mundo da arte com o mundo em que vivemos, o mundo onde a arte é. Esse confronto pode não nos trazer muita coisa de bom porque substitui a descrição daquilo que as artes fazem por valores de comparação entre a figura artística e a figura do mundo e isso é aquilo que significa, por um lado, aparentemente, a necessidade de ver que a arte tem sempre a ver com o mundo mas não implica, não garante, que o que o que a arte ganha do mundo seja dito pela arte tal qual, e, portanto, é preferível escutar a arte no que ela diz enquanto arte e aí confiarmos que ela tem uma palavra sobre o mundo”. Uma tese orientadora dos concursos de apoio às artes delimitando os campos sem os excluírem.

Espera-se que se aprenda com os concursos agora feitos, que foram encerrados no fim do ano, para no futuro se simplificarem e sobretudo cumprirem prazos que viabilizem os projectos em tempo útil, o que parece extremamente difícil com os procedimentos actuais e com o modo como se constituem os júris. Foram dados passos positivos sem resolver os de fundo que deveriam nortear os concursos de apoio às artes. É cada vez mais evidente a urgência de uma profunda reestruturação do Ministério da Cultura para se delimitar claramente duas esferas de acção, uma com o foco no Património Cultural e nas instituições directamente dependentes, outra nas Artes Contemporâneas. Dois pilares que, nunca estanques, ficariam com maior autonomia e mesmo especialização para gerir os imensos problemas em que essas duas áreas se debatem actualmente. Duas estruturas verticais que se enraizariam numa rede horizontal que cobriria todo o território, região a região. Isso implicaria a reforma total das actuais Direcções Regionais de Cultura, hoje uma quase irrelevância. Um modelo de estrutura que favoreceria a descentralização positiva contra o excessivo centralismo que tem sido acentuado com as reformas que se tem feito, sobretudo desde 1980, com o aumento exponencial do aparelho de Estado na Cultura, reforçando um centralismo administrativo que nem umas vagas desconcentrações ilude. Um reestruturação que deveria ter reflexos positivos na simplificação e na descentralização dos concursos de apoio às artes , para que a Cultura, como se afirma no Manifesto 1% para a Cultura, se deixe de colocar no plano de um adereço da sociedade ou de um privilégio das elites. Cultura parte inteira da saída democrática da crise que, timidamente se procura resolver, com a intervenção determinante dos trabalhadores e do povo. Cultura que deve assumir um papel central, enquanto serviço público, que assegura o direito de todos ao acesso, à criação e à fruição cultural. Cultura, pedra nuclear na formação da consciência da soberania e da identidade nacional, dialogando, de igual para igual, com toda a cultura de todos os povos do mundo. Cultura a explorar o seu imenso potencial de criação, liberdade, transformação e resistência que deve ter um apoio decisivo por parte do Estado para não deixar destruir o que existe e não destruir o que fica impedido de existir. Os últimos Orçamentos de Estado para a Cultura, melhoraram a situação em relação aos anos de austeridade sem deixarem de ser preocupantes. Um tema que merece e exige uma mais ampla reflexão.

2. BALANÇO PAM!

A MARATONA DAS EXPOSIÇÕES

Balanço das exposições realizadas? Colunas Deve e Haver? No fim uma cotação +++ ou — com a seriedade das moodys, fitchs & poors que dão AAA+++ a empresas que no dia seguinte vão à falência mas rendem milhões aos especuladores seus accionistas? Como avaliar o débito e o crédito de valores imateriais? Qual o peso do irremediável kitsch do Terço em Fátima e do Galo à beira Tejo da Vasconcelos, joaninha volumosa que vai, por isso ou por causa disso, voar em 2018 para aterrar os seus totens na arquitectura de guardanapos do Guggenheim de Bilbau, numa demonstração que a “Merde d’Artiste” já não fica encerrada em latas de conserva.

Merde d'artiste

Merde d’Artiste, Piero Manzoni, 1961

Qual o contributo para um possível défice? E em que colunas colocar as inúmeras exposições de artistas interessantes ou desinteressantes em não menos interessantes e desinteressantes espaços exposicionais? As estradas do mundo das artes estão entupidas com artistas interessantes para todos os gostos, desgostos e paladares. Por cá, muitos a fazerem pela vida, apoiados em retóricas tanto mais obscuras e inteligentes quanto mais indigentes são as obras para se decifrar o indecifrável em curvilíneos textos que referem a natureza performática e efémera que as obras possuem e obrigam a um mergulho documental muitas vezes hostil ao espectador ou as interrogações poéticas do sentido que se estabelecem com os objectos em experiências marcadas pelo espanto, o humor e a perplexidade deste momento de destruição que ameaça o mundo em que falar de cura e reparação é uma urgência porque noutra lauda se desafia questiona e enfrenta o esquecimento para descobrir e activar os sentimentos latentes, percepcionar a materialidade das coisas, interrogar-se sobre o processo de realização das obras e o corpo, omnipresenças nos quilómetros que se percorrem a olhar para as paredes e para o chão e para o tecto dos cubos brancos onde a obra de arte é filtrada por coleccionadores, instituições públicas e particulares, feiras de arte. Escreve-se, muito se escreve sobre a obra em meios de comunicação social, generalistas ou especializados, muitos deles suportados pelos seus circuitos comerciais. Uma massa flutuante de informação que acaba fixada na História(s) de Arte que desse modo a certificam. Nesses trânsitos procura-se ocultar que na arte a História e a crítica valem dinheiro. Está-se bem perto dos métodos de funcionamento do sistema financeiro que é o que realmente interessa porque pela primeira vez na história, na longa perspectiva da história, nesse nosso tempo pós-moderno, chegámos ao que antes era impossível conceber: a de uma arte sem significação social. É a danação do nosso tempo em que vivemos como o sujeito da canção Ces Gens-Là: “on ne s’en vas pas e il faut que je rentre chez moi”. E reentramos no mundo das artes a percorrer quilómetros de paredes, chão e tectos dos cubos brancos onde se plantam obras classificadas como arte nas múltiplas variantes do populismo estético e da ausência de profundidade que é o traço fundamental do pós-modernismo (Francis Jameson), na fusão obscena entre estética e realidade (Marcuse) em que se pode encontrar o padrão, de novo se recorre a Jameson, nos Sapatos com Pó de Diamante de Warhol a fulgir a sua inanidade, a sua vulgaridade que ribomba com intensidade nas redes de comunicação social e nas falácias estéticas que conseguem ocultar a significação, a beleza, o juízo político das Botas Camponesas de Van Gogh. É o drama da criação contemporânea, seja lá o que isso for, em que tudo se transforma em mercadoria.

Mas esse passeio pelas exposições no ano de 2017 começou bem com o fecho de três exposições inauguradas no ano anterior. As duas de Pedro Chorão, organizadas por José Luís Porfírio, pintura Corpo a Corpo, no Torreão Nascente da Cordoaria, desenho A Torto e a Direito, na Fundação Carmona e Costa e a de José Escada, Não Evoluo, Viajo na Fundação Gulbenkian, organizada por Rita Fabiana, para acabar em grande esplendor em Serralves com Jorge Pinheiro: D’Après Fibonacci e as coisas lá fora.

El-rei 1974

IEl-Rei V (Olhando um Quadro de Jorge Pinheiro – o da MetaLinguagem), Jorge Pinheiro, 1974

Jorge Pinheiro é um dos mais relevantes artistas da história de arte portuguesa. Nessa exposição de oitenta obras de pintura, escultura e desenho, abstratizantes ou figurativas, é determinante o estudo que o artista dedicou às sequências matemáticas de Fibonacci, estabelecidas no século XIII, que esclarecem a regra de ouro nas artes e nunca perdeu actualidade. Tem aplicações na análise de mercados financeiros, na ciência da computação, na teoria dos jogos, em muitas outras ciências. O fascínio que exerce e está bem presente em toda a extensa obra de Jorge Pinheiro é o do rigor do pensamento matemático, de como a matemática ensina a pensar e de como esse pensamento se transpõe para um sólido pensamento estético e uma não menos sólida e fascinante prática artística.

Esta exposição de Jorge Pinheiro é uma oportunidade de ver a grande arte, em plano igual à da selecção de obras do Museu do Vaticano que pôde ser vista no Museu Nacional de Arte Antiga com obras notáveis dos primitivos italianos Taddeo di Bartolo, Sano di Pietro, Fra Angelico, e de grandes mestres do Renascimento e do Barroco, Rafael, Pinturichio, Salviati, Pietro da Cortona, Barocci, em que a Virgem Maria é o centro da temática.

São exposições que marcam o ano de 2017, onde também é de assinalar a de José Almada Negreiros- Uma Maneira de Ser Moderno, comissariada por Ana Vasconcelos e Mariana Pinto dos Santos, com um trabalho a sublinhar sobre esse caso muito particular nas artes portuguesas e no contexto do modernismo, que tinha na altura o centro irradiante em Paris, de um Almada, autodidacta, artista multidiversificado, que cunha toda a sua obra com o selo de uma modernidade contraditória, híbrida, complexa.

Almada, com uma energia criativa invulgar presente em toda a sua obra de poeta, ficcionista, conferencista, ensaísta, desenhador, pintor, artista gráfico, muralista, ceramista, vitralista, cenógrafo, coreógrafo, bailarino, geómetra, onde o centro é ele em estado de performance narcisista.

No percorrer das outras exposições, com as questões já assinaladas, são  ana hathertyde referir a de Ana Hatherty e o Barroco, no Museu Gulbenkian, as de Sérgio Pombo, no Teatro da Politécnica e no Centro Cultural de Cascais e as várias de Valter Vinagre, em muitos lugares do país que o colocam num lugar central e de relevo na fotografia.

A finalizar este capítulo uma nota para o fecho da saga Miró quando faltam uns pormenores burocráticos e saber quanto se vai pagar à Cristhies, ficando, como é hábito, impunes os que armaram o imbróglio atropelando o quadro legal vigente. Há um efeito público no desfecho que não é desprezível, gerador de uma animação que de algum modo aplaina um olhar crítico. Curioso é confrontar esta apresentação pública com as muitas discussões a favor e contra ficar ou não ficar propriedade do Estado, sem que as obras fossem conhecidas ou só fossem conhecidas por um restritíssimo grupo de pessoas, na maioria sem especial conhecimento das artes. As 85 obras tinham sido compradas a granel pelo BPN. Eram um activo do banco sem qualquer preocupação que orientasse a sua selecção,o que está bem presente nesta exposição de Miró com obras de várias técnicas, temporalmente muito distantes, em que as conexões que se procurem estão dispersas. Há uma evidente irregularidade e errância entre elas, o que torna mais evidente o modo como o pintor com as suas formas abstractas se apropria dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, como deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que é particularmente interessante e acaba por conferir outra relevância a esse acervo que não é particularmente notável no seu todo pelo que em causa estará a sua indivisibilidade, como publicitariamente se proclamou.

3. BALANÇO PUM!!!

O KLU KLUX KLAN POLITICAMENTE CORRECTO

Thérteèse Dreaming, Balthus

Thérèse Dreaming, Balthus, 1938

No mês de Dezembro, nova-iorquinos fizeram uma petição em que se exigia ao Metropolitan Museum of Art que retirasse das suas paredes o quadro de Balthus, Thérèse Dreaming.

Motivo de tal pretensão: as muitas acusações de assédio sexual que desabaram sobre várias personalidades norte-americanas na sequência da Marcha das Mulheres em Washington que apontavam, com razão, para Trump e as suas fanfarronadas em que envolvia o sexo feminino. É de passar por cima, mesmo dando-lhes razão mas sem esquecer que muitas dessas organizações de mulheres eram financiadas por um personagem não menos torpe, Georges Soros. O assédio e a violência sexual, a desigualdade, a discriminação, a misoginia em relação às mulheres deve ser veementemente condenada. Tem uma história longa que começa se quisermos encontrar uma data quando Adão e Eva foram expulsos do paraíso, continuou imparável até aos nossos dias, apesar dos muitas conquistas alcançadas pelas lutas das mulheres e dos homens, uma luta que se inscreve na luta mais geral contra uma sociedade dividida em classes e na exploração do homem pelo homem e que não se resolve nessas lutas ditas fracturantes que são, sublinhe-se, importantes e devem ser empreendidas sem desfalecimentos. Dando-lhes razão, há que lhes retirar razão quando denunciam o que consideram ser o voyeurismo romanticizado pelas artes, sobretudo intermediado por crianças ou adolescentes, que é o que denunciam no quadro de Balthus a que, se fizesse vencimento, se seguiria o rasuramento de todas as ninfetas, para lá da sua idade, descritas, pintadas, fotografadas, filmadas, queimando na fúria dessas fogueiras inquisitoriais romances, poemas, pinturas, filmes, músicas que fariam um vazio devastador na história das artes. Quando, em França, esses novos guardiões da moral pública fazem uma manifestação à porta da Cinemateca com palavras de ordem e cartazes em que gritam “Se violar é uma arte, dêem a Polanski, todos os Césares”, estão a legitimar, se calhar sem disso se aperceberem, a destruição dos Budas no Afeganistão pelos dijahistas. Polanski deve ser condenado por ter violado uma adolescente de treze anos? Deve ser condenado sem remissão, mas essa condenação não pode nem deve atirar para o index os seus filmes. Por esse caminho vamos rasgar os poemas de Dante a Beatriz? Ou Alice no País das Maravilhas porque Lewis Carroll do que gostava mesmo era de desenhar e fotografar lolitas nuas e seminuas? Ou os filmes de Woody Allen com referências explícitas às suas histórias reais com Soon Yi uma adolescente, sua enteada via Mia Farrow? Vamos submeter a juízos morais e criminais as obras de poetas, pintores, romancistas, cineastas, músicos, ostracizando a sua arte porque infringem códigos morais, como Oscar Wilde condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por cometer actos imorais com diversos rapazes? Ou Crivelli, pintor de magníficas virgens julgado e condenado por ter sequestrado e repetidamente abusado de uma mulher indefesa? Caravaggio, inúmeras vezes condenado como homem perigoso e violento. Villon por ser ladrão, boémio e bebâdo, Rimbaud e Verlaine pelos seus escândalos amorosos, Céline anti-semita e misógino, colaborador destacado do governo de Vichy, relator de listas de resistentes franceses, judeus e não judeus, que enviava para os campos de concentração nazi. Schubert por escrever magníficos lieds que trocava por engates de momento. Os filmes do realizador francês Brisseau condenado a prisão por assédio sexual? Deixamos de ouvir Mahler, dirigido por Otto Klemperer que é de uma clareza arquitectural não mais alcançada porque tinha comportamentos sexuais incontrolados que alternava com mergulhos ultra puritanos? Os exemplos multiplicam-se e esvaziariam as artes tornando-as num deserto a engrossar um index interminável, dependente de códigos, morais, históricos e sociais com a agravante de serem variáveis com as épocas. Essa gente não percebe nem nunca perceberá porque devassos como Fillippo Lippi ou Carlo Gesualdo são capazes de pintar figuras bíblicas com a maior aura piedosa e virginal ou escrever Tenebrae ou Sabbato Sancto com um sentimento religioso e metafísico que muitos bons e politicamente correctos cristãos nunca alcançaram.

São um impulso que tem erupções recorrentes ao longo da história. Recorde-se o Concílio de Trento em que se chegou a propor acabar com a música sacra, só o bom senso de Palestrina evitou semelhante brutalismo, ou recobrir os frescos de Michelangelo na Capela Sistina de um azul celeste contínuo que faria as delícias de Yves Klein, por causa da extrema sensualidade dos episódios retratados

De lembrar que no auge da Guerra Fria Cultural, em que a CIA empenhou biliões de dólares, no primeiro congresso de curadores norte-americanos, esse baixo clero contemporâneo que comprava arte para as grandes corporações financeiras e do complexo industrial-militar, proclamou urbi et orbi que só iriam adquirir obras de arte que não tivessem qualquer relação com política, religião, sexo. Faziam-no em nome da liberdade artística, da arte pela arte, atirando para o caixote de lixo séculos de inquietações estéticas e artísticas. Faziam-no sabendo do poder de compra que estava à sua disposição e que comandaria a liberdade artística entregue farisaica e falsamente aos ditames do mercado sustentado por retóricas estéticas em que ninguém acredita. O seu desejo final era impor um campo de concentração terrestre onde se cercariam e se possível se atirariam para as câmaras de gás as lutas de classes para triunfo do fim da história enfeitada com uma arte elegantemente congelada limpa de sexo, política e religião, para alegria do olhar cego e estúpido dos viajantes por essas falácias, amplamente difundidas por uma comunicação social mercenária. Olhar cego e estúpido que não consegue ver as artes incómodas de todos os tempos produzidas por génios como Picasso, Erza Pound, Henry Miller, Wagner e tantos outros a que colariam os emblemas das “monstruosidades” das suas vidas numa fúria abominável de purificação, para os ocultar soterrando-os debaixo das virtudes dos piedosos e insuportáveis versos de Claudel que sequestrou até ao fim da vida a irmã, a escultora Camille Claudel, ela sim uma inspirada artista, num hospital psiquiátrico por condenar a sua livre vida sexual.

O que estamos a assistir é uma sequência, por assim dizer natural, desse paradigma da lógica cultural do pós-modernismo na lógica do capitalismo final que faz das artes mercadorias submetidas aos valores do mercado, situando-as num nicho do mercado dos bens de luxo em que a arte, as artes se integram com a frenética urgência de produzir novas linhas de produtos inconsequentes, subtraídos de qualquer inovação ou experimentação estética que não sejam pasto para a moda e as estruturas do star-system. Um mercado concordante com a imagem política da época que estamos a viver e nos querem impor bem retratada no filme de João César Monteiro, A Comédia de Deus, na cena em que é extraído do ventre do protagonista, entrapado numa cama de hospital, um enorme falo que vai ser pousado diante de uma fotografia de Georges W. Bush, o führer do império que se considera excepcional e quer policiar o mundo. Imagem política premonitória que o realizador completa em Le Bassin de John Wayne com a frase arquétipica: “hoje os novos fascistas, apresentam-se como democratas” que é o que são essas virtuosas congregações, novas polícias de costumes que se propõem acrisolar o mundo, castrando-o para triunfo do fim da história, do fim da política, do fim da ideologia.

Estamos a viver um tempo de niilismo democrático e a arte, as artes devem ser uma trincheira contra o ghetto em que as querem encurralar tornando-a uma inutilidade num território neutro de um salão de festas divertido, inócuo, moralista ainda que controladamente extravagante, noticiado abundantemente na comunicação social dita de referência e nas revistas da moda dos vários canais em que se consomem os dias.

A arte, as artes são a luta constante que nos faz interrogar a vida, a sociedade. A arte, as artes são parte activa da luta política diária em participam sem se deixarem colonizar pela política e sem submeterem ao simplismo de censuras que atiram as obras de arte para o deserto por via da vida pessoal dos artistas que não é nem tem que ser um modelo de virtudes. Contra a actual ofensiva moralista reclama-se a clarividência de não se estabelecer uma relação directa e imediata entre a vida como foi vivida pelos artistas e as suas obras, no que pode mesmo ser uma contradição insanável.

(publicado em https://www.abrilabril.pt/ )

Standard
AbrilAbril, Cultura, Geral

O Voto é também um acto cultural

 

Aqui, no blogue, com algum atraso por circunstâncias da vida que mesmo quando anunciadas nos assaltam com alguma violência, o desaparecimento da minha amiga Odete Santa-Bárbara que há cinquenta e seis anos partilhava a vida com José Santa-Bárbara, a quem dou o abraço que já lhe dei, as sugestões culturais que regularmente escrevo para o AbriAbril porque parte do seu conteúdo não se esgota no período do calendário sobre que incide. 

Depois da silly season em agosto, a rentrée em setembro, duas invenções da intelligentsia política e seus apaniguados numa tonta tentativa de sistematizarem os calendários anuais por ciclos no que são desmentidas pela realidade, pelo curso dos acontecimentos. Aqui e em todo o mundo os relógios da história não param, desdizem com fragor que os fogos da política, das lutas, das guerras, andem em contraciclo com os fogos estivais, como se quase se extinguissem no pico do verão e se reacendessem nos princípios de setembro. Como se o curso da história fosse de férias e as lutas sociais se acalmassem com protetores solares.  Exemplos que contrariam essas visões não minguam. No plano internacional, no continente americano, o contra-ataque da reacção e a resistência às mais diversificadas manobras, não teve pausas, basta olhar para a Venezuela, Argentina ou Brasil. No Médio-Oriente um significativo avanço no terreno das forças sírias e seus aliados com a conquista de Deir ez-Zor colocam o Estado Islâmico à beira da derrota, mas sobretudo significam para a chamada oposição democrática o confrontar-se com a sua irrelevância, como o delegado da ONU, Stephen Mistura numa curiosa declaração citada pela Reuters sublinhou “a oposição será capaz de será capaz de mostrar unida e realista para admitir que não ganhou a guerra?” Quer dizer a eminente derrota do Estado Islâmico e da Al-Qaeda na Síria, mas também no Iraque com a anunciada queda de Raqqa, afinal também é a derrota dos “democratas” tão acarinhados pelos EUA e seus aliados. O rabo do gato da hipocrisia e cinismo político do Ocidente está cada vez mais à vista, mais gordo e mais evidente. No Extremo-Oriente a retórica da guerra entre a Coreia do Norte e os EUA não conheceram travões mau grado a sensatez que aí querem introduzir a China e a Rússia e mesmo o presidente da Coreia do Sul, apelando para uma solução diplomática que baixe a temperatura das tensões.

A silly season e a rentrée são passadas a ferro pela realidade, que se não entra pela porta entra pela janela.

Por cá também o foram pelas lutas dos trabalhadores que não ficaram à espera da rentrée para fazerem uma greve histórica na AutoEuropa, para lutar pelos seus direitos na Altice, na hotelaria e em muitas outras empresas.

Os partidos políticos também à silly season e à rentrée disseram nada, embora tivessem momentos mais activos como a Universidade de Verão do PSD, que este ano ficou ao rubro com a ressurreição e a assunção de múmias fazendo ouvir as suas vozes pregando no deserto das suas ideias, para dar uns safanões em políticas velhas e relhas a ver se ainda mexem, o que é sempre muito acarinhado por uma comunicação social estipendiada, como se pode medir, sem fas nem nefas, pelos tempos de antena e pelos espaços concedidos na imprensa escrita e on-line se comparados com iniciativas do PCP como a Festa do Avante!

Feitas estas notas, algumas sugestões culturais.

Scan_20170904_131836CV CAPA

Comece-se pela Festa do Avante! onde, desde a primeira edição, política e cultura persistem em se cruzar de forma consistente e sempre inovadora. Destaque-se o número 25 do Caderno Vermelho. Dois temas principais:  Autárquicas 2017; 100 Anos da Revolução de Outubro. Sendo uma revista do Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa do PCP, nas autárquicas o realce vai naturalmente para Lisboa. Excelentes textos de João Ferreira, cabeça de lista da CDU, Lisboa- O Direito à Cidade, Ana Jara, A Lisboa Pós-Salgado 2007-2017 e Filipe Diniz, Arquitectura, Cidade, Neoliberalismo.  Sobre a Revolução de Outubro textos também excelentes de vários autores não só sobre a enorme explosão criativa e de liberdade criativa desse tempo exaltante nas artes, cinema, teatro, música, poesia, literatura, mas também nas ciências, tecnologia, matemática, como é sublinhado no editorial de Manuel Gusmão: “A revolução cultural que a Revoluão de Outubro também é, marca a capacidade de actuar de forma criadora uma cosntrução antropológica a partir de realizações artísticas, cientifícas e culturais. O seu carácter inaugural permite compreender o valor que é atrbuído ao longo destes cem anos e o valor quase utópico que no quadro da teoria comunista é reservado ao sonho social de que todo o cidadão deve ser uma artista.”

O Caderno Vermelho 25, em Lisboa está à venda na banca de livros do Centro Vitória do PCP, na Avenida da Liberdade, uma porta aberta aos lisboetas que não devem perder a oportunidade de o adquirirem para umas horas de leitura que não são um desbarato de tempo.

images

Nos livros o grande destaque vai para As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, finalmente publicado em Portugal pela Antígona, Editores Refractários.  É a denúncia esclarecida e implacável sobre cinco séculos de exploração e pilhagem do continente americano desde os primeiros conquistadores europeus às multinacionais norte-americanas.  Contra a exploração do homem pelo homem e da redução do  mundo a um mercado, Eduardo Galeano, com uma escrita luminosa e empolgante,  faz uma acusação de como os mandantes da exploração capitalista, seus serventuários e cúmplices, da  fase primitiva à actual,  dominam os países do sul impondo-lhes um mundo onde os fazem entrar pelas pequenas e estreitas portas dos fundos mas em que devem acreditar acreditando nas  virtudes da liberdade de comércio e na livre circulação dos bens, embora seja uma mentira que faria o nariz do pinóquio ultrapassar todas as galáxias, em que têm que  honrar dívidas que lhes são impostas por mais desonrosas que sejam, em que são obrigados para sobreviver a atrair investimentos por mais indignos que sejam, que são coagidos a subsidiar,. Um mundo controlado pela livre concorrência dos mercados que nada tem de livre, bem pelo contrário tem rédea bem curta mais que comandada por quem tudo desregula a seu favor com manipulações de mão de ferro fazendo crescer vertiginosamente desigualdades e dependências.  Mercado mundial onde, mesmo quando ainda não tinha essa característica mas já caminhava sem detença para a globalização, tudo se compra tudo se vende, mesmo países.  As Veias Abertas da América Latina  difunde informações pouco conhecidas ou mesmo desconhecidas. São muitos os temas, todos confluem para expor sem contemplações a obstinada rotina da desgraça em que estão mergulhados esses países. Um livro essencial para se compreender a história passada mas também as tramas das lutas em curso no continente americano, centro e sul, dramas que também se vivem noutras paragens, mesmo em países ditos desenvolvidos.

Muitos e bons livros de autores nacionais e estrangeiros, anunciam-se.  Sublinhe-se as reedições e alguns inéditos que irão dar corpo às obras completas de Agustina Bessa-Luís (Relógio d’Água) Fernanda Botelho (Abysmo) David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Eugénio de Andrade e Mário Cesariny Vasconcelos (Assírio e Alvim) Luís de Camões (E-Primatur) e dos estrangeiros,  Roberto Bolaño (Quetzal).

Rei Lear

Um grande destaque para Rei Lear de Shakespeare, no Centro Cultural de Belém,  nos dias 8 e 9 pelo Ensemble-Sociedade de Actores com encenação de Rogério de Carvalho.  É uma história que foi repetidas vezes contada em crónicas e romances a que o grande dramaturgo inglês deu forma definitiva e genial irrompendo pelos bastidores da história de que o mundo só acaba por captar os efeitos exteriores. Uma história sobre a questão do  poder em que o saber e a arte de governar de que o Rei Lear tinha dado provas  se destroem quando, no fim da sua vida e preparando a sua sucessão, se deixa arrastar pela vaidade pessoal e se entrega às paixões e à egomania provocando uma tragédia de incomensuráveis proporções que o devoram e devoram o seu reino. O teatro de Shakespeare mais do que para ser lido é para ser visto e ouvido, tem aqui uma excelente oportunidade de o ver e ouvir. No entanto também o poderá ler numa excelente tradução feita e anotada por Álvaro Cunhal, editada pela Caminho.

Orfeu, é um dos mitos grego nucleares que se repercurte até aos nossos dias e das mais diferentes formas, até no filme de Pedro Almodóvar, Fala com Ela.  O CCB organizou um ciclo O Mito de Orfeu na Literatura e no Pensamento, concebido e organizado por Miguel Santos Vieira, em que se sublinha a persistência e a diversidade com que esse mito percorre a cultura ocidental,  tendo sido extensamente usado por poetas, filósofos e músicos. Um ciclo em que assiste a uma vasta e bem cuidado panorâmica sobre a música inspirada pelo Mito de Orfeu, através dos séculos em que são desmontadas algumas das suas mais surpreendentes tramas. As sessões são ilustradas com excertos áudio-vídeo das obras musicais e músico-teatrais mais representativas. O ciclo iniciou-se na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen no dia 4 tem sessões nos dias 11 e 25 setembro e 2 de outubro. Em  18 setembro,  decorre na Sala Luís de Freitas Branco, sempre ás 18 horas.

Na Fundação Gulbenkian, até 2 de outubro, Escultura em Filme, com curadoria de Penelope Curtis.  É uma exposição surpreendente pelo fascínio que a escultura clássica, completamente afastada do ensino das artes, continua a exercer sobre os artistas contemporâneos sobretudo na fotografia e no cinema. Os artistas,que não são fotógrafos nem realizadores de cinema  usam tanto a fotografia como o video nos seus trabalhos de artes visuais e performativas para fazer leituras minuciosas e sedutoras da escultura clássica que integram esta exposição. São sete jovens artistas, Anja Kirschner (1977) e David Panos (1971), Fiona Tan (1966), Mark Lewis (1958), Rosa Barba (1972), Lonnie van Brummelen (1969) e Siebren de Haan (1966) que visitam museus da Europa para nos dar  um novo olhar sobre esculturas do passado solidamente ancoradas na  intemporalidade que vence a sua imobilidade.

A colecção das obras de Miró, em posse do Estado por nacionalização do BPN que as tinha adquirido, podem ser vistas na sua integra no Palácio da Ajuda o que não aconteceu no Porto por limitações de espaço. O que está bem presente nesta exposição de Miró, com obras de várias técnicas e temporalmente muito distantes, de 1924 a 1983, em que as conexões que se procurem são muito dispersas, é uma evidente irregularidade e errância entre elas, e não serão as sete obras não expostas em Serralves que irão alterar essa circunstância. De algum modo, até paradoxalmente, este conjunto de obras torna mais evidente o modo como desde sempre o pintor se apropriou dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, tendo sempre por horizonte uma deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que  acaba por conferir relevância e interesse a esse acervo que tem todos os defeitos de uma aquisição feita por atacado. Um investimento como qualquer outro sem nenhum critério estético ou histórico que a determinasse. Deve ser lembrado que este património estava para ser vendido em leilão pelo governo PSD/CDS, em atitude simétrica aos dos seus parceiros políticos que a compraram. Tudo gente para quem a cultura só existe como negócio e por vezes como verniz para tapar os buracos do seu oco pretenciosismo intelectual. As excepções são uma raridade extremamente rara.

No Porto, hoje dia 8 de Setembro às 22h00, um concerto aberto ao público na avenida dos Aliados, Mão Morta& Remix Ensemble. Uma revisitação dos temas mais icónicos da mais icónica banda de rock alternativo.  Uma viagem pelo universos muito sugestivos da lírica de Adolfo Luxúria Canibal. Um concerto que certamente será um sucesso, com arranjos musicais de Telmo Marques e direcção musical de Pedro Neves.

Uma semana que vai acabar no abrir oficial das portas às campanhas eleitorais das autárquicas que já andam nas ruas por todo o país. Uma boa altura para recordar que o voto não é só um acto político. É também um acto cultural onde mais se afirma a cidadania.

Standard