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Preços e Tarifas da Eletricidade

cuidado

A análise aos preços/tarifas da eletricidade e as razões de política publica que os determinam, constitui exercício complexo mesmo quando apenas registada em tópicos.

No domínio da eletricidade, não obstante a enorme pressão política exercida durante muitos anos  no sentido da liberalização e privatização, não há, de facto, o que se possa chamar por mercado no sentido comum do termo. Como a própria ERSE diz num documento base,  estamos perante atividades desenvolvidas pelas reguladas “num quadro de monopólio natural” perante o qual Regulador define os proveitos permitidos às privadas reguladas “por forma a emular um mercado concorrencial”! Se é o Regulador a dizê-lo…

Em Portugal, e não só, criou-se na opinião pública a “sensação de haver mercado”. É certo que existem hoje disponíveis cerca de 120 tabelas de preços de energia elétrica, propostas por 17 empresas comercializadoras. As diferenças objetivas nos custos para os consumidores genéricos são marginais.

Destas empresas nem todas atuam a nível do território continental, e têm dimensões muitíssimo diferenciadas. As poucas que têm suficiência e arcaboiço técnico-económico fazem parte dos grandes agregados multinacionais que por cá atuam. São, de facto, empórios verticalizados, com especial relevo para a privada EDP, que domina.

Os proveitos permitidos pela entidade reguladora fundamentam-se na remuneração dos ativos imobilizados e ainda não amortizados, a taxas que já andaram nos dois dígitos e, presentemente, estarão à volta dos 6,5%. É daqui que nascem os significativos EBIT e os luminosos lucros e dividendos. Negócio rico e seguro, portanto.

Ainda hoje o “preço” no mercado liberalizado é constituído, numa larga parte, por componentes de natureza tarifária, isto é, reguladas técnico-administrativamente pela entidade reguladora ERSE. Apenas em pouco mais de três por cento poderá haver variação na comercialização. E não pode deixar de ser assim porque estamos no domínio de atividades que se desenvolvem através de redes e em monopólio.

A grande diferença para o anterior paradigma (gestão e posse publica dos ativos), é que, agora, as empresas que atuam ao longo da cadeia de valor, desde a produção até à comercialização, passando pelo transporte e distribuição, são todas privadas, sendo elas que recebem o que é pago pelos consumidores.

São, então, as empresas privadas monopolistas e reguladas que, de facto, recebem a maioria os “custos políticos” cobrados aos consumidores, genericamente designados por CIEG – Custos de Interesse Económico Geral, onde avultam os muito referidos CMEC, CAE e os fabulosos subsídios às produtoras de eletricidade a partir de fontes renováveis. Estes custos, não sendo impostos ou taxas, passam para a opinião pública como tal.

Apresenta-se uma síntese conclusiva obtida após pormenorizado estudo que poderá ser consultado em preços e tarifas in academia.edu:

  1. Os preços da energia elétrica para os consumidores domésticos agravaram-se de forma abrupta a partir de 2005/2006;
  2. A banda onde ocorreu maior agravamento foi a DA, a de consumos mais baixos, isto é, de consumidores mais expostos e com escassa capacidade negocial;
  3. Relativamente à generalidade dos países europeus o aumento dos preços da eletricidade para os consumidores domésticos foi mais intenso em Portugal; de 2010 para 2017, na banda DC, por exemplo, o preço que era o oitavo mais elevado passou ao terceiro lugar;
  4. E em termos de paridade de poder de compra (PPS/KWh) ocupa-se o terceiro lugar europeu na banda DB, e o primeiro lugar na DC;
  5. A componente dos preços que mais tem pressionado em alta os consumidores é o da categoria “com taxas, impostos e cargas político-administrativas”, já que ao nível da “energia e redes” os valores, embora com variações, têm-se mantido relativamente estacionários;
  6. Em Portugal, tal como na Alemanha, Espanha, Irlanda, República Checa e Suécia, a banda de consumos onde os preços são nitidamente mais altos é a DA, ou seja, a de consumidores mais expostos economicamente; em países como o Reino Unido, França, Áustria, Dinamarca e Polónia há harmonização dos preços entre bandas e, no caso da Grécia e Holanda os preços são mais elevados em bandas de maior consumo;
  7. Nos consumidores não domésticos, onde estão incluídos os industriais e outros com atividade económica, os preços também escalaram a partir de 2005, acontecendo, em particular, nas bandas IA e IB onde estão a grande parte dos consumidores;
  8. Em termos de paridade de poder de compra (PPS/kWh) o preço na banda IA em Portugal é a mais alta da Europa, muito acima do que se passa na Finlândia, Suécia, Reino unido, Luxemburgo, Noruega, Áustria, etc.;
  9. Os preços da eletricidade para os grandes consumidores não domésticos têm sido muito menos pressionantes, tendo mesmo descido em 2014;
  10. Desde 2005 a produção de energia elétrica com base na eólica tem vindo a crescer substancialmente em termos absolutos e relativos, a hidráulica tem-se mantido embora com volatilidade e a produção térmica tem descido; a expressão da energia com base na geotermia e no fotovoltaico tem sido quase irrelevante;
  11. A produção endógena renovável tem continuado, contudo, a significar pouco mais do que um terço da produção total doméstica de 1990 para cá;
  12. Também na energia final consumida o peso da eletricidade renovável e de outras utilizações de renováveis se tem mantido abaixo do 30%;
  13. A participação das energias renováveis, que tem crescido na produção de eletricidade, tem-se mantido a baixo dos 30 % no que respeita ao consumo final bruto de energia;
  14. As exportações de eletricidade e de energias renováveis (outras que não através de eletricidade) têm vindo a aumentar desde 2008 o que significa que os consumidores portugueses têm subsidiado exportações feitas, por vezes, a baixos valores por MWh;
  15. As transações no MIBEL têm vindo a flutuar desde 2008 e, muito particularmente nos últimos dois anos, evidencia-se uma tendência de subida de preços que é anacrónica e incoerente com o portfolio produtivo e com o excesso de oferta existente, o que aponta para a necessidade de um rigoroso escrutínio regulatório a este “mercado”;
  16. As emissões de CO2/habitante têm-se mantido um pouco abaixo das 7 ton/hab, isto é, não tem havido uma redução sensível desde 1995, tendo mesmo aumentado de 2014 para 2015 aquando da retoma da atividade económica), o que deixa em dúvida o discurso sobre o “sucesso na descarbonização” que, supostamente, estaria a crescer com a introdução das renováveis;
  17. As intensidades energéticas do produto, tanto a relativa à energia primária, como em relação à energia final e à eletricidade, têm-se mantido pouco alteradas, o que significa uma de duas ou as duas coisas em simultâneo: baixa produção para o consumo energético e/ou insuficiente modernização dos sistemas e equipamentos;
  18. A dependência energética apenas diminuiu cerca de 10 % de 2005 a 2017, tendo, aliás, crescido de novo em 2015 e 2016, sinal de que nenhuma alteração estrutural terá sido introduzida no setor energético português, e isto não obstante o discurso entusiasmado em torno das renováveis;
  19. A introdução das energias renováveis é muito baixa no setor dos transportes o que significa o atraso na penetração do modo ferro-carril eletrificado.

Estes tópicos traduzem a realidade objetiva.

Talvez o leitor fique chocado e em dúvida, porque, face à propaganda dos últimos anos acerca de uma suposta “revolução energética”, o que aqui se deixa registado não bate certo.

Por isso sugere-se aos interessados que analisem os factos que subjazem na espuma das aparências.

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O estado do Estado

Nas últimas semanas milhentos escreventuários têm debitado de forma compulsiva acerca das falhas do Estado.
Inspirados na desgraça do ardido e na suposta incúria militar, malham forte e feio naquele que consideram o mostrengo.
Muito bem!
Ou seja, muito mal, porque estamos perante o mais desbragado oportunismo populista.
De facto, estes comentadores e analistas avençados, jagunços políticos, jornalistas alienados, diletantes arco-íris e vendedores de arenga moralista, quando se trata de botarem discurso sobre o Orçamento, só têm um ponto de vista: cortar nas supostas gorduras e ao serviço do sacrossanto controlo do deficit.
Isto é, para eles, os professores, enfermeiros, polícias, sistemas de videovigilância, médicos, guardas florestais e mais um infindável rol de funções e serviços vitais para os cidadãos e território, são tecido adiposo que deve ser sempre e cada vez mais desbastado.
Agora, fariseus da Lapa e do Caldas, aí estão, apontando o dedo ao estafermo enfezado em que transformaram o Estado, sugando-o, depauperando-o e aproveitando-se dele!
O Estado não deve ser governado, mas, sim, gerido pela governança.
O Estado não deve ser forte, mas sim resiliente.
O Estado social é coisa feia, o empreendedorismo é que está a dar.
O Estado não deve atrapalhar a “economia circular”, nem prejudicar a “economia compartilhada”, seja lá isso o que for.
A visão de Estado da cambada modernaça, bem-falante e inovadora, é a velhíssima perspetiva predatória e exploradora que há seculos exaure o planeta.
À tarde, manifestam-se preocupados com o aquecimento global.
À noite, frescos e aliviados com mais um negócio renovável, brindam com gim tónico apimentado e vociferam: abaixo a contratação coletiva, viva os CMEC’s!
E, quando põem a pata na poça, inventando suicídios para alimentar a sua tese ideológica, logo algum diácono de turno os tranquiliza e absolve: todos erramos, irmãos, deixemos arder que há por aí muitos pais de família que são bombeiros!

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Que sistema de transportes?


A solução para as necessidades de mobilidade diária da generalidade das pessoas nas sua deslocações entre a residência e o local de trabalho, estudo, fruição ou compras, passa pelo recurso aos veículos individuais/familiares elétricos?

A mobilidade é um direito de cidadania que só pode ser assegurado, de facto, através de sistemas de transportes públicos e coletivos com qualidade, regularidade, segurança e a preços acessíveis. E, principalmente, se os veículos coletivos integrados nesses sistemas de transporte de passageiros forem elétricos ou alimentados a gás natural, e circulem em sítio próprio. Assim, defender-se-à, de facto, o ambiente, a saúde, a eficiência energética e a produtividade social e económica.

Nesse sentido é indispensável, como se pode comprovar em diversos países, haver um sistema tarifário amigável, designadamente nas áreas metropolitanas, ou seja, apoiado parcialmente no orçamento público.

Não tenho nada contra os veículos individuais elétricos em si próprios (os primeiros táxis nas cidades dos EUA, ainda no século XIX, foram elétricos), nem, tão-pouco, contra as bicicletas. Acho as deslocações pedonais muito saudáveis. Apenas não será com base nesse modos de deslocação que se poderá resolver os problemas colocados quanto às deslocações diárias das massas populacionais.

Sobretudo, o que se critica são os vendedores de ilusões que, apoiados em novas crenças, procuram o lucro empresarial oportunista. 

E, mais criticável ainda, são aqueles responsáveis públicos que, confundindo a nuvem com Juno, promovem políticas insustentáveis e alienantes.

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O evangelho segundo S. Carbono

Foi mesmo um grande sucesso a Cimeira de Paris?

Por que motivo desde 1992 (Rio de Janeiro), aquando da importante Conferencia das Nações Unidas “United Nations Conference on Environment and Development (UNCED)”, também conhecida como Cimeira do Rio, não se deram passos significativos quanto as principais propostas contidas nos documentos então aprovados e que, note-se, não se prendiam apenas com as designadas “alterações climáticas”?

De facto, o processo chamado Convenção sobre o Clima – UNCCC , foi um dos resultados saídos dessa cimeira, e na Declaração do Rio incluíram-se outros importantes aspetos relacionados não apenas com o “clima”, mas com o desenvolvimento e ambiente em geral: Agenda 21, Proteção das florestas, Convenção para a Diversidade Biológica, Convenção para o combate à desertificação.

Contudo, desde que alguns políticos como Al Gore e outros descobriram que a “razão das suas vidas” era a questão das alterações climáticas – no princípio designadas como “aquecimento global” – tudo e quase todos se passaram a focar apenas no “desgraçado CO2” que, note-se, até nem é um poluente!

Porquê?

De onde surgiu e por que subiu à tona este impulso “humanitário global” virado para a salvação mundial?

Gente que não dá combate à fome que grassa em muitas regiões, ao subdesenvolvimento, às guerras (aliás, continuam a propaga-las), ao narcotráfico, ao fabrico e comércio ilegal de armas, aos paraísos fiscais, às neoescravaturas, à corrupção, etc., passou a ser campeã do resgate do mundo das garras carbônicas.

Por que motivo estas causas não merecem tambem, da parte de tantos “paladinos do progresso climático”, igual atenção pública e combate político?

Que interesses empurram para o protagonismo em torno dos mecanismos antropogénicos no clima?

Devido ao maior impacte mediático e dramático que tem o tema? Porque estão em jogo os interesses económicos estabelecidos nos países centrais do capitalismo mundial? Porque à pala do combate climático se alimentam grandes negócios de ‘novo tipo’?

Os países ou regiões mundiais grandes emissores de CO2 – China, EUA, União Europeia, Índia, Rússia, Japão – bem como os países com capitações de emissão mais altas – EUA, Canadá, Austrália, Arábia Saudita, Emiratos Árabes – que conjuntamente são de longe os responsáveis pela maior parte das emissões antropogénicas, são, também, grandes potências político-económicas no quadro contemporâneo. Só que alguns, são-no há um século, e outro emergiram apenas há duas décadas, com destaque para a China, Índia, a Rússia e, até, o Brasil! Será que há interesses europeus e americanos em criar dificuldades ao crescimento destes novos “players” como agora se diz?

A cimeira de Paris não insistiu, aliás, desistiu mesmo de um verdadeiro plano de compromisso mundial quanto aos volumes de emissões antropogénicas toleráveis. Que, aqui entre nós, nunca seria verdadeiramente  viável!

Nesta Cimeira, e na cerimónia encenada há poucos dias, abandonou-se, de facto, o compromisso com metas e ritmos detalhados por país, aprovadas em Quioto em 1997, que não foram em geral cumpridas (recordar o flop dos mercados da designada bolsa do carbono), para agora fixar no horizonte longínquo de 2100 um limiar de elevação de temperatura não superior a mais ou menos 2ºC.

É isto um triunfo?

Ate 2100 vão cerca de oito décadas. Uma vida humana e várias gerações. De concreto irão ser despejados sobre os consumidores e sobre os países emergentes taxas e impostos “ambientais”.

E até lá, cada dirigente político das “democracias instaladas” poderá citar as alterações climáticas como álibi para conduzir suas políticas industriais, energéticas, fiscais, financeiras e ambientais. Mas, atenção, sempre tendo como meta o lucro, o neoliberalismo e o sacrossanto princípio da concorrência, sem esquecer a especulação imobiliária e financeira associada, porque, essas coisa não têm “nada a ver” com o clima! O problema aparecerá sempre como sendo o CO2 e o CH4!

É a cruzada climática baseada no “evangelho do carbono”. O demónio, aqui, é o dioxido que nos ameaça, não com as labaredas infernais, mas com o mar que, estando a subir, nos irá engolir.

Em 2100 os cientistas deverão estar finalmente habilitados (?) para descortinar as causas da eventual subida da temperatura observada (na superfície do mar ou da terra, na baixa ou alta atmosfera) atribuível a esta ou aquela crise vulcânica, ou a uma “crise” solar, ou ao CO2, CH4, e outros gases e partículas de origem antropogénica, da responsabilidade deste e aquele país, indústria ou corporação. 

Mas, os nossos netos, que irão pensar de tudo isto?

Uma coisa é certa: numa revista cor-de-rosa, depositado na mesa de um cabeleireiro onde fui, garante-se que “agora é que o combate climático vai de vento em popa”.

Portanto, estamos garantidos.

Nota: este texto deverá ser lido também como homenagem ao trabalho e pensamento do Rui Namorado Rosa

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A moral num sistema capitalista amoral

 

ilha dinheiro

Os órgãos de comunicação social estão hiperexcitados com o caso Papéis do Panamá.

Um grande manancial de documentos até agora confidenciais, levam algumas redações a paradoxais autoelogios acerca daquilo que dizem ser uma “extraordinária investigação jornalística”.

Recorde-se: tudo terá começado numa “fuga” de informação a partir de uma fonte anónima que levou a preciosa carga ao jornal alemão “Suddeutsche Zeitung”, que, numa tradução literal, significa Correio da Manhã.

E tudo isto acerca do uso legal ou ilegal das offshore por parte de pessoas já ricas e poderosas, que têm ou tiveram responsabilidades políticas, empresariais e bancárias, e que o vêm fazendo na senda de maior riqueza e poder. Nada de novo, portanto.

Mas agora é tudo aos milhões: os papéis, os personagens e os montantes financeiros que movimentam e, de passagem, os lucros acrescidos pelas empresas detentoras dos órgãos de comunicação que ganham com o aumento das audiências.

Começaram por malhar forte e feio no Putin, no Xi Jinping e, como não poderia deixar de ser à luz dos interesses geopolíticos dominantes, no Bashar, esse terrível chefe do “regime” sírio.

Para compor o ramalhete apareceu um Xeque dos EAU, o Sigmundur da Islândia, o fascista da Ucrânia, o senhor da Arábia, e, de passagem o Cameron , o Macri, o Messi e o maltês.

Desde logo é legítimo perguntar por que motivo não há nenhum gringo apanhado com a boca no offshore? Não seria necessário ser o Obama ou o Trump, bastaria um qualquer texano ligado aos petróleos. Mas, nem um para amostra, e logo na pátria do empreendedorismo financeiro?!

Também faz sentido colocar uma outra questão aparentemente lateral: lá porque um cunhado, um primo, um sobrinho, um amigo, próximo ou afastado, se envolve em negócios escuros, terá isso que significar que o político correlacionado está imediata e inquestionavelmente ligado à trafulhice?

Não haverá como pôr tranquilamente as mãos no lume pelos rapazes acima mencionados. Mas são muitas e manifestas as diferenças nos rastos que foram exibidos para os tentar incriminar. Alguns puseram o próprio dedo na geleia e levaram-na à boca, outros, como Putin ou o líder chinês, não há provas de que o tivessem feito.

Uma coisa é certa: desde há muitos anos sabe-se da utilidade fulcral das offshore no mundo da fuga aos impostos (por vezes designada otimização fiscal) e da lavagem de dinheiro proveniente da corrupção, da droga e do tráfico de armas.

Estas práticas criminosas, porque provocam danos gravíssimos aos povos de todas as latitudes, justificariam por si só a eliminação deste instrumento criado à luz da “liberdade” da circulação de capitais financeiros. Mas, como é conhecido, há indivíduos, jornais e partidos políticos “democráticos” que se indignam sempre que alguém propõe o fim destes esquemas. E utilizam, na defesa da tal “liberdade empreendedora”, as mais esfarrapadas desculpas: que não adianta acabar com a coisa na Madeira, porque continuaria a haver opções nas ilhas Caimão; porque as offshore’s podem trazer emprego nos sítios onde estão implantadas; que as ditas também servem propósitos legais e transparentes, etc.,

Embora sejam evidentes as distorções políticas oportunistas semeadas à passagem do caso– tenta-se fazer passar a ideia de que nesta coisa das vigarices financeiras não há esquerda nem direita – ele pode vir a alertar o público para a dimensão brutal da podridão que grassa no mundo dos negócios e da finança à escala global. Que não haja ,contudo, ilusões, a percepção possibilitada às massas consumidoras deste tipo de “informação/diversão” está distorcida à partida pela forma folhetinesca como é fornecida: no fundo não se pretende informar formando opinião esclarecida e interventora, mas, pelo contrário, alienar, distrair do essencial, propagandear os méritos de um sistema que permite estas “liberdades de informação”, e, de caminho, fazer dinheiro para proveito dos empórios da comunicação. No fim, como é hábito neste tipo de terapias hipnóticas, tudo continuará na mesma.

Mas, pergunta-se, este espetáculo degradante e perigoso é apenas fruto da atuação pontual de alguns empresários, advogados, banqueiros e políticos gananciosos e sem escrúpulos que não respeitam as “regras” do mercado e do capitalismo?

Dizem os colunistas especializados na propaganda neoliberal que a “globalização económica  verificada nas últimas décadas é um dos fenómenos mais estimulantes da história da humanidade que retirou milhões de seres humanos da miséria”. O problema, acrescentam, é a existência de “alguns gananciosos tresmalhados” que, independentemente do sistema económico e fruto das imperfeições humanas, desataram a praticar abundantemente os pecados da avareza e da luxúria. A culpa não seria do sistema, mas de imoralidade de alguns dos indivíduos nele mandantes. Aliás, acrescentam, basta ver o caso chinês: trata-se de um regime comunista onde têm emergido vários casos de corrupção e enriquecimento escandaloso.

Embora não seja possível tratar os casos de corrupção ocorridos em ambiente sistémico socialista da maneira simplista como o fazem, por oportunismo, os formadores de opinião arregimentados no sistema capitalista, não se pode esconder que o fenómeno, embora existente, tem merecido severidade e crescentes corretivos das autoridades chinesas. E, já agora, não é verdade que na China, por motivos de sobrevivência, primeiro, e crescimento, depois, coexistem “dois sistemas”? Então, porque não admitir, sem querer esgotar a questão, que estes problemas se devem à parte capitalista dos “dois sistemas”?

O problema central aportado pelo capitalismo não está na sua maior ou menor moralidade. O núcleo essencial dos desequilíbrios, da desumanidade e dos perigos que o capitalismo contem está amplamente estudado e teorizado, radicando na natureza da sua matriz económica e política: é um sistema que se baseia na exploração do trabalho e dos recursos, que aponta para um conjunto de valores que visa sacralizar o lucro e o individualismo.

Contudo, mesmo quanto à violentação dos valores éticos, é hoje possível perceber que a realidade retratada nas ultimas crises financeiras, nas derrocadas bancárias e nos circuitos da corrupção e fuga ao fisco, não corresponde à exceção, mas, sim, à regra: faz parte do âmago matricial capitalista o principio de que “ cada um é livre para explorar os outros e a terra comum”. Ora, nas últimas duas décadas e meia, esta “liberdade” tornou-se mais descarada e incontrolável, na medida em que aumentaram as liberalidades de circulação de capitais e de exploração laboral, montadas nas poderosas tecnologias comunicacionais, nas técnicas de rede organizacional corporativa, na governança, no empreendedorismo krill e, por fim, na fragilização do projeto socialista, no endeusamento do consumo e do individualismo.

Enfim, à medida que o capitalismo tomou o freio nos dentes, assume, com evidencia crescente, ser um sistema amoral.

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Os transportes públicos foram usados como instrumento da especulação financeira

 

Durante muitos anos diversos governos de direita (com vários partidos) empurraram as empresas públicas de transportes para formas de gestão erradas e danosas.Uma das vias passou por lhes cortarem financiamento publico sustentável empurrando-as, através de administrações dóceis ou oportunistas, para as mãos dos “mercados financeiros”.

Estes agentes financeiros, designadamente bancos de investimento e fundos sem rosto, inventaram, com grande e frenética imaginação, sucessivos “esquemas” para multiplicar exponencialmente mais-valias especulativas que puseram o mercado financeiro mundial no caos.

Os swaps que, quando surgiram, há muitos anos, até tinham alguma lógica financeira, converteram-se em mais uma das armas dessa especulação que faz alguns ganharem fortunas sem produzirem nada.

Através desta metodologia, ao mesmo tempo que reduziam artificialmente a despesa em sucessivos orçamentos de estado, os governos de direita foram criando as condições propícias para o seu objetivo principal – a privatização das empresas deste setor estratégico.

Disseram eles: As empresas públicas funcionam mal e dão prejuízo! Não se pode por os contribuintes a pagar a má gestão pública! Há que privatizar para que os cidadãos tenham melhores serviços e mais baratos!

Esconderam sempre, ardilosamente, a verdade objetiva: os contribuintes e os utentes acabam por pagar muito mais através deste esquema.

A mobilidade sustentável é um direito de cidadania incontornável que, além disso, está na base de uma economia saudável e de um melhor ambiente.

Em nenhuma parte, designadamente nas metrópoles europeias e americanas, os transportes públicos coletivos podem dar lucro, a não ser à custa de tarifas altíssimas que afastam ainda mais as pessoas. Em todo o lado há financiamento público na ordem de 40 a 60%.

As forças neoliberais que, em sintonia com os donos da Europa, se apossaram de Portugal, nos últimos anos, puseram a fórmula capitalista extrema em funcionamento de forma, além de tudo o mais, desavergonhada.

Vejamos:

empurraram as empresas públicas de transporte de passageiros para formas de gestão erráticas e danosas, forçando-as a recorrer aos imaginativos financiadores externos que, sempre atentos, se disponibilizaram a “dar ajuda”;

como era de esperar a rotura estrondosa ocorreu; os contribuintes, que também são utentes, são agora obrigados a cobrir os enormes buracos que vão surgindo como cogumelos; e, os de sempre, arrecadam mais-valias astronômicas e indecorosas.

No fim da estória, aqueles que permitiram e estimularam o processo, acabam, quando terminam as suas funções governativas, a ganhar chorudas remunerações em casa dos especuladores!

O que é isto se não grosseira corrupção?

Onde anda a ética que, apesar de tudo, havia numa certa direita que, defendendo a liberalização e a privatização, tinha vergonha na cara?

Temos estado, nos últimos anos, ao dispor de um bando neoliberal com muita lábia e sem escrúpulos!

Há que os manter afastados do poder, por via democrática, mas com grande firmeza.

E isso não se faz só com bicicletas e carrinhos elétricos.

Sem ofensa para as bicicletas, claro!

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Abraço do urso e os cantos de sereia

 

Por que razão, diversos anticomunistas universitários (na atualidade fica mal ser primário) , desde o Barreto ao Pulido Valente, passando pelos Baldaias da desinformação, estão tão preocupados com a manutenção da pureza e fidelidade do PCP aos seus ideários marxista e comunista, esconjurando-o na hipótese de cooperar, com maior ou menor participação direta, numa solução política que passe pela viabilização de um governo de iniciativa do PS?

Por que motivo vêm agitar o papão do “abraço do urso”, dizendo que um partido comunista “verdadeiro” nunca deverá aceder ao poder pela via democrática e parlamentar, porque isso significaria o seu fim?

De facto, Carrilho, Marchais, Berlinguer e muitos outros, em diversas latitudes e com diversos estilos, falharam, erraram, traíram e fizeram falir perspectivas de mudança para os respectivos povos.

Mas, pergunta-se, o tempo, as condições históricas e as circunstâncias sócio-políticas não mudam?

Será que, em 1974, o PCP não deveria ter assumido, como assumiu, responsabilidades governativas? Teria sido melhor ficar fora, “puro”, na rua, defendendo as massas, como então propunham os “revolucionários” do MRPP e da UDP (alguns deles, hoje, sólidos alicerces do edifício do capital)?

E houve algum problema político e ideológico com o “adiamento” do tema NATO, estando como estávamos em plena guerra fria, acabadinhos de ver mais uma das criminosas intervenções do imperialismo no Chile?

É certo que se vivíam, então, tempos revolucionários.

Mas, o atual dramatismo socio-económico, os brutais ataques à soberania  portuguesa e o regresso a um tempo de grande tensão internacional com o espectro guerra a espreitar em várias esquinas, não contêm os ingredientes que impõem a adoção de opções excepcionais?

Uma vez, em 1993, Mario Soares, disse-me, durante uma presidência aberta, que achava dever repetir-se no governo da nação, aquilo que então ocorria no município da capital. Depois, bem-disposto (estávamos depois do almoço, sem tempo para sesta) acrescentou: até porque seria a melhor maneira de condicionar e diminuir o PCP!

Naquele tempo, e nas condições então vividas, teria sido errado corresponder a tais cantos de sereias oportunistas. E, esse quadro, manteve-se até agora.

Mas, hoje, incompreensível seria considerar apenas a hipótese “ficar fora”, estagiando nas caves de uma espécie de socialismo vintage.

Os riscos são grandes e não se sabe como as coisas vão ficar, mas, dar o corpo ao manifesto, é já prova de grande coragem, lucidez e determinação em servir o país. Ao contrário de outros, não se vislumbra, na disponibilidade manifestada pelo PCP, nenhum resquício de vontade vã de protoganismo estéril.

O tratado orçamental, bem como este € bipolar e imposto, hão-de acabar, fique isso escrito num papel ou não fique. Eles se encarregarão da auto-destruição.

A razão profunda para o nervosismo e pavor da direita, patentes nas manifestações de ódio dos escrivães de turno, está em saberem que o esboçado entendimento pode perspetivar uma diminuição significativa da taxa de exploração, e representar a possibilidade de um pouco de desafogo para quem trabalha, um pouco de esperança para os desempregados, um pouco mais de sossego para os pensionistas e reformados! Mas um pouco para eles será sempre demais.

É por isso que os representantes das mais-valias, dos lucros especulativos e da privatização universal apelam às virtudes ideológicas do PCP, dizendo: sejam coerentes, fiquem fora da área do poder legislativo e, sobretudo, do executivo!

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