Geral

Marcas e Coragens

O Caos, Georges Grosz

Ana Sá Lopes escreve um texto no Público “A Coragem de Arménio Carlos e a marca de Paulo Raimundo”
que é uma análise “queridinha” do Partido Comunista Português para de forma sorna e habilidosa abrir uma fresta da porta metendo os dois pés para não a deixar abrir, mas com os pés bem ocultos.

Se por um lado reconhece a Paulo Raimundo capacidades sublinhando « a qualidade é a abertura que mostrou para tentar que cheguem ao partido novos militantes e conseguir que regressem parte daqueles que abandonaram o PCP, que em várias vagas foram denominados “críticos”» esquece, se calhar não sabe mas se sabe, ainda que de forma vaga e indirecta, incorre deliberadamente no vício de por a tónica em meias-verdades. Nunca o PCP deixou à porta camaradas que se afastaram e acabaram por regressar ou até só se aproximar de forma mais ou menos significativa. O que se fica sem se saber é qual é a constelação em que brilham os “críticos” de Ana Sá Lopes, porque os críticos de Paulo Raimundo são, em primeiro lugar e de certeza, todos os militantes do PCP que a vários níveis dos colectivos partidários expressam as suas opiniões de acordo ou em desacordo com as posições públicas do PCP. Os críticos do Paulo Raimundo são os muitos camaradas militantes ou que deixaram de ser militantes mas que continuam de algum modo a rever-se nas posições do PCP, não em todas mas essa é a normalidade militante e simpatizante. Não é certamente aquele pelotão de reserva nas caves em que a comunicação social os vai ressuscitar para debitar um argumentário falacioso que, se posto alguma vez em prática, tenderia a fazer o PCP perder todos os princípios nas trilhas abertas por esse mundo fora com os resultados que se conhecem por exemplo em França, Itália e Espanha, para generalizado gaúdio, por vezes camuflado por algumas lágrimas de crocodilo.

A Ucrânia não podia falhar nessa crónica, aliás estava enunciada no título em que era referida a coragem de Arménio Carlos, pelo que escreve: «Arménio Carlos regressou à sua condição de militante de base activo e é hoje claramente a única voz crítica audível entre os militantes comunistas que exerceram funções de relevo. E para isso é preciso coragem. Ao identificar a questão da Ucrânia como uma matéria que afasta o PCP das pessoas comuns, Arménio está a perceber “o chão da fábrica”, como se diz na gíria dos sindicalistas operários.» Na referida entrevista o que Arménio Carlos diz é na generalidade correcto : «Continuo expressar, porque aquilo que eu sinto, aquilo que me dói, aquilo que me custa, é que na sociedade portuguesa, com esta situação, o Partido Comunista continua a ser queimado em lume brando (…) Porque os adversários do PCP já perceberam que, tendo o PCP uma visão correcta sobre aquilo que, em termos globais, se está a passar na Ucrânia e no mundo e aquilo que pode vir a acontecer nos próximos tempos, já perceberam que há ali uma pequena nuance. Então exploram até ao limite. Houve invasão ou não houve? Há quantos meses nós andamos a ouvir essa pergunta? E vamos continuar nos próximos tempos a falar novamente: houve ou não houve invasão? E as coisas continuam. Toda a discussão é descentrada, porque deixa de se discutir aquilo que é a questão de fundo, que é a ingerência dos Estados Unidos já há muitos anos a esta parte e tudo aquilo que está subjacente à sua intervenção, para se discutir e concentrar as atenções em que o PCP continua a não responder à questão da invasão.» Só que, com a experiência que acumulou, tem a obrigação de antecipar que nessas afirmações as anasálopes só descobrem uma que seria desmontada se tivesse dito que o PCP há muitos anos está a ser queimado em lume brando pelos media e que a Ucrânia, como muitos outros sucessos, são mero pretexto para aumentar a chama. Mesmo aceitando que só agora o lume é brando, não tivesse aproveitado a oportunidade para denunciar a comunicação social que, com base nessa ausência, deturpa aleivosamente as posições do PCP. Não o fez, embora subscrevendo as posições do PCP, nós sabemos, eles também sabem que ele sabe que se o tivesse feito teria perdido protagonismo, a sua suposta coragem lá ia borda fora, as manchetes jornalísticas eram outras, o acento tónico também seria outro, a entrevista perderia fulgor.

A Ucrânia não poderia falhar!!! Diz o Paulo Raimundo que a posição do PCP é complexa. É complexa, mas o que a torna ainda mais complexa é a artilharia que sobre ela é apontada pela comunicação social mesmo que o faça de forma desigual. Há que distinguir os estipendiados aos ditames da ordem unipolar imposta pelos EUA dos que acabam por para ela contribuir por miopias de vários calibres. Na ausência de melhor argumento a Ana Sá Lopes e mais alguns acabam por colocar a tónica no reconhecer se a Ucrânia foi ou não foi invadida pela Rússia e se a Rússia é o país agressor. Para eles essa é a pedra de toque que apaga quaisquer outros argumentos. O último parágrafo da redatora principal da Política do Público é típico : «Apesar das pequenas mudanças discursivas, é muito provável que o PCP não corrija a sua posição sobre a Ucrânia, como aconselha Arménio Carlos. Conseguir que Paulo Raimundo pronunciasse a palavra “invasão” em vez de “intervenção militar” pode ser o mais fácil. Mas que ninguém espere grande autocrítica». Que grande autocrítica é desejada por essa gente? Que o PCP deixe de lutar pela paz ? Que o PCP alinhe com a narrativa ocidental? Que o PCP se perfile, ainda que de modo enviesado, ao lado do imperialismo dos EUA? O que poderia ser bem mais fácil e decente é que é mais difícil, seria esperar que o corpo redatorial do Público, pelo menos alguns, fizessem uma crítica ao seu director e aos seus editorais que além de medíocres veiculam, sempre que tem essa oportunidade, o mais primário ódio anticomunista. Ou que pelo menos façam uma vaga autocrítica à decadência editorial do jornal que continua a viver das mãos largas dos Azevedos que o mantém apesar de ser um “perdócio” para usar adjectivação do patriarca Belmiro. Todos sabemos que é preciso fazer pela vida, pela vidinha, como a minuciosa formiguinha bossa-nova do Alexandre O’Neill «de patinhas no chão/ formiguinha ao trabalho/ e ao tostão», mas enfim…algo mais se devia exigir a alguns jornalistas que por lá ainda subsistem.

O fundamental da posição do PCP sobre a guerra em curso na Ucrânia não se altera com adjectivações. Por isso os seus detratores tanto se agarram a palavras como invasão e agressão. Poderia tê-lo feito? Poderia e, em nossa opinião, até deveria. A semântica é importante, um filão fácil de explorar e porque o que se iria verificar e era expectável, é o apontar o dedo, sublinhar a traço grosso o seu não uso, aproveitado oportunisticamente para ser um processo de ocultação de quem está alinhado, quando não mesmo vendido, ao imperialismo dos EUA, à ordem unipolar que impõem e querem continuar a impor a todo o mundo, a começar pelos países amigos e a acabar nos que contrariam os seus desígnios. Ao não inscrever nos seus comunicados e intervenções as palavras “invasão” e “agressão” abre campo a essas especulações, a esses sofismas que nunca referem que esta guerra começa em 2014, depois de um golpe de estado em que as populações do Donbas de Lugansk foram invadidas e vitimas de uma brutal agressão pelo poder central ucraniano, cada vez mais nazificado. Muito menos referem as constantes provocações feitas usando Ucrânia como marioneta bem amestrada.

A generalizada mistificação das narrativas ocidentais tem raízes mais fundas. Ocultam que o que está de facto em causa é a implosão da globalização do capital que foi acumulando crises – económicas, sociais, financeiras, sanitárias, ecológicas – que se foram sucedendo até ao estado actual de permanente crise que empurrou o mundo para uma série de guerras de que a Ucrânia é mais um episódio, o seu episódio mais recente e mais grave, em que o verdadeiro confronto é entre múltiplos centros em que se defrontam uma ordem unipolar internacional em decadência, protagonizada e comandada pelos EUA/NATO apoiada pela chamada comunidade internacional, UE, Japão, Austrália, Canadá e uma nova ordem multipolar, em que os principais actores são a China, Rússia e países que fazem parte e estão a aderir aos BRICS. É esta reorganização dos poderes que se assiste já há mais de uma dezena de anos e que se foi agravando e tem actualmente o seu cume na guerra que se trava em território ucraniano.

No plano comunicacional está posta em marcha uma gigantesca máquina de lavagem aos cérebros que com maiores ou menores histerismos, com o uso de algumas poucas verdades mas sobretudo por um exército de meias-verdades e descomunais mentiras, destila uma generalizada histeria alimentada, por jornalistas mercenários e intelectuais vendidos ao sistema que tudo fazem para asfixiar o pensamento crítico e trazer para o seu campo muitos indecisos. Qualquer tentativa de explicar e compreender o estado de sítio actual é imediatamente desqualificada, ou mesmo denunciada, como pró-russa ou cripto-russa, acusada de procurar circunstâncias atenuantes para a agressão russa.

A mentira por detrás do texto de Ana Sá Lopes, de outros textos de teor similar, é que finge que seria suficiente reconhecer a responsabilidade da Rússia e de Putin pela eclosão da guerra e condenar a agressão para que fossem aceites os argumentos das forças sociais e políticas que lutam pela paz, que condenam a invasão e a agressão mesmo que não a nomeiem. Tremendo cinismo e hipocrisia. Não é suficiente exigir um cessar-fogo e negociações de paz. Não é suficiente denunciar o regime absolutista do capitalismo russo. Não basta apoiar todos aqueles que na própria Rússia se opõem à guerra, correndo o risco da sua liberdade e das suas vidas. Não, nada é suficiente, porque o que está por detrás dos cortinados da sua argumentação e de argumentações do mesmo jaez, é que tudo se concentra na guerra em território ucraniano para que se faça um pesado silêncio sobre as estratégias e manobras do imperialismo americano e seus sequazes, tanto na Europa como no Indo-Pacífico. Esse é que é o nó-górdio desta guerra, das que as antecederam desde a queda do Muro de Berlim e de todas as que estão em curso e são silenciadas mais as que estão a ser constantemente enunciadas.

Infelizmente, uma parte da esquerda que afirma ser radical participa à sua maneira neste “estado de guerra” que está a apoderar-se das mentes das pessoas.

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