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RACISMO / ANTI-RACISMO

Protestos em Minneapolis

As inúmeras manifestações racistas e anti-racistas instalaram-se sobretudo nos EUA e na Europa, adquirindo formas diversas algumas com grande visibilidade e bastante controvertidas como as que derrubam ou vandalizam estátuas que até aí eram ícones históricos o que deve ser debatido no seu enquadramento histórico e patrimonial,não como acto de violência, o que seria alinhar com o bom comportamento preconizado pelos moderados de todas as cores que liberalmente concordam sempre com os objectivos mas nunca com os meios quando extrapolam do quadro estreito do que as leis permitem e que são sempre a expressão do direito do mais forte à liberdade.

O racismo sempre se manifestou de muitas maneiras das mais evidentes, com uma ostensiva discriminação social, económica e política de que a forma extrema é o apartheid, às que se podem detectar em múltiplos preconceitos, alguns explícitos a maioria implícitos, que surgem mesmo em muitos que se julgam vacinados contra esse vírus. Ao contrário do que a multiplicação de manifestações despoletadas pelo assassínio de George Floyd em Minneapolis podem fazer crer o racismo não é a branco e negro. Existe e subsiste em todas as sociedades de norte a sul, de este a oeste, nos mais diversos formatos e com maior evidência em toda a América do Centro e Sul dos povos aborígenes, na Europa em relação aos ciganos, árabes, negros e asiáticos, entre diversas etnias em África como as que sucederam entre tutsis e hutus, no Médio-Oriente com os industânicos no Médio-Oriente e na península industânica com o sistema de castas, dos judeus sionistas em relação aos palestinianos. O registo é extenso e a evolução do pensamento racista, embora se estruture na ocupação do continente americano, inicia-se de facto com a colonização da Irlanda pelos ingleses com duas componentes: uma rácica e outra religiosa. É esse o primeiro laboratório do sistema racial onde se desenvolvem as bases teóricas e práticas do sistema racial praticado nas plantações esclavagistas dos Estados Unidos e das Caraíbas, nas explorações mineiras do continente americano.

É no século XVII que a raça e o racismo se impõem na base de um fundamento biológico e fenotípico que não tem nenhuma base científica. Uma falácia pseudo-científica que só tem por fundamento justificar a exploração económica, hierarquizando as sociedades, com efeitos materiais e simbólicos sobre as populações, que são o corpo do colonialismo.

O racismo alcança o seu ponto máximo com o regime nazi que determinava a superioridade da raça ariana sobre todas as outras raças consideradas inferiores sem consideração pela cor como sucedia com os eslavos e os judeus, com as conhecidas brutais consequências no Holocausto.

O racismo com acento tónico nos negros tem maior expressão nos EUA por todo um passado histórico em que os colonos adquirida a independência e depois de praticamente exterminarem os aborígenes, impuseram um regime esclavagista com mão de obra negra, como aconteceu em todo o continente das Américas e está na raiz do desenvolvimento capitalista. Um sistema de exploração que rapidamente se mundializou e transformaria os trabalhadores, fosse qual fosse a sua cor, em simples mercadorias destinadas à acumulação de lucro. Sistema a que Marx dedica um capítulo de O Capital (1) em que descreve a geração do capitalismo moderno a partir do regime colonial e da escravatura nas plantações «ao mesmo tempo que a indústria algodoeira introduzia a escravidão infantil na Inglaterra, transformava nos Estados Unidos o tratamento mais ou menos patriarcal dos negros num sistema de exploração mercantil. Em resumo, o pedestal necessário da escravidão dissimulada dos trabalhadores na Europa era a escravidão aberta no Novo Mundo». Em numerosos artigos refere o colonialismo britânico nas colónias, do continente americano às Índias, para sublinhar a doblez da burguesia europeia:
«A profunda hipocrisia e barbárie inerentes à civilização burguesa expõem-se diante de nossos olhos ao passarem da sua terra natal, onde assumem formas respeitáveis, às colónias onde se apresentam sem disfarce». É esse carácter fundamental do racismo, uma das formas de exploração do homem no modo de produção capitalista. O racismo persistirá enquanto o capitalismo durar, o que era bem percebido pelos Black Panthers – leia-se o livro de Angela Davies recentemente publicado em Portugal (2) – assim não é entendido pelo movimento do Black Lives Matter (BLM) e seus derivações fora dos EUA travestidas por um radicalismo racializado em que se desbastam os ramos mais podres da árvore deixando intocadas as raízes. Uma prática contumaz dos radicais de esquerda, dos de antanho até às suas versões actualizadas e, certamente, nas vindouras, como já Walter Benjamin tinha agudamente anotado por fazerem «a transformação da luta política, de imperativo de decisão num objecto contemplativo (…) como manifestação da decomposição burguesa, são antes o equivalente do mimetismo feudal que o império admirou nos tenentes de reserva. Os cronistas radicais de esquerda representam o mimetismo proletário das camadas burguesas decadentes. A sua função é, do ponto de vista político é formar cliques e não partidos, de um ponto de vista artístico lançar modas e não escolas, do ponto de vista económico criar agentes e não produtores» (3). Hoje poder-se-ia com justeza acrescentar que de um ponto de vista sociológico a sua função é criar activistas e não militantes e a radiografia fica actualizada sem perder qualquer pertinência (4). É uma deriva sócio-política muitíssimo activa nos nossos dias, com forte presença na comunicação social dominada pelas oligarquias financeiras e económicas transformando-se num produto daquilo que Peter Dauvergne e Genevieve Lebaron definem como a «corporativização do activismo» (5) que, no caso particular dos EUA, assimilam os activismos a actividades que se confundem com as empresariais e dos produtos comerciais. Não sendo fenómeno novo, adquiriu mais visibilidade por se ter multiplicado e diversificado nos decénios mais próximos com o surgimento de inúmeras organizações sociais, algumas estruturando-se como partidos mas a esmagadora maioria descrevendo-se como “não-governamentais”, “centros independentes de pesquisa”, etc., que activamente questionam a teoria e a prática marxista, sendo muitas delas subsidiadas pelas principais instituições financeiras e agências governamentais promotoras do neoliberalismo, Substituem a luta de classes, sublinhe-se e repita-se para a realidade não ficar ocultada pelas retóricas, pelas guerras entre os cruzados da santíssima trindade da direita Deus, Pátria e Família e os soldados da santíssima trindade dos radicais da esquerda pós-moderna Sexo, Género, Raça, travadas num território em que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo.

É esse também o território das manifestações BLM reinterpretadas mundo fora, por cá Vidas Negras Importam, centradas na questão rácica, onde se atira para plano recuado ou nem sequer referem o que realmente as formas de racismo representam na actual exploração capitalista neoliberal, da brutal e crescente uberização da força de trabalho onde racismo que não tem cor. Não é um acaso o que se tem assistido nos estádios de futebol ingleses com os jogadores ostentando nas camisolas a palavra-chave Black Lives Matter, o minuto de silêncio ritualizado com joelho sobre a relva, e a Nike ser uma grande patrocinadora de várias equipas da Premier League e da selecção inglesa mas também uma das destacadas financiadoras do BLM.

O Black Lives Matter foi fundado por três mulheres negras da classe média e média-alta. Estão muitíssimo distanciadas do que Martin Luther King, em 1968, enunciou como o cerne da questão rácica «a revolução negra é muito mais que a luta pelos direitos dos negros. Ela força a América a encarar suas falhas inter-relacionadas – racismo, pobreza, militarismo e materialismo. Ela expõe males profundamente enraizados na totalidade da estrutura de nossa sociedade. Ela revela falhas sistémicas, mais que superficiais, e sugere que uma reconstrução radical da própria sociedade é a verdadeira questão a ser enfrentada». Black Lives Matter nada têm a ver com o Black Power, o Power to the People dos Black Panthers (BPP), que misturavam Marx, Lenine, Mao, Malcolm X e Frantz Fannon (6) sintetizado por Eldridge Cleaver, o ministro da Informação dos BPP «acreditamos na necessidade de um movimento revolucionário unificado (…) informado pelos princípios revolucionários do socialismo científico». Para os BPP a luta social está para lá das raças como afirmado por Fred Hampton assassinado pela polícia de Chicago e pelo FBI, «temos que encarar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem a isso que se chama de classe baixa, e quando falo das massas, falo das massas brancas, falo das massas negras, das massas pardas e das massas amarelas também. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que é melhor combater o fogo com o fogo, mas nós dizemos que a melhor maneira de apagar o fogo é com água. Nós dizemos que não se luta contra o racismo com racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade. Dizemos que não se luta contra o capitalismo com a ausência de capitalismo negro, luta-se contra o capitalismo com o socialismo.
Portanto, não se trata apenas de raça. Não se trata apenas de classe. Trata-se, isso sim, de Poder para o Povo que luta por justiça social, política e económica em um sistema intrinsecamente desigual».

Comparem-se essas afirmações com as palavras de ordem do BLM de uma frouxidão quase a roçar o miserabilismo de um frouxo humanismo, Elaine Brown, a extraordinária ex-presidente dos Partido Black Panthers (Black Phanters Party-BPP) não tem dúvidas « Eu sei o que era o BPP. Sei das vidas que perdemos, da luta que travamos, dos esforços que envidamos, dos ataques que sofremos da polícia e do governo – sei de tudo isso. Mas não sei o que é o Black Lives Matter». Destrava a língua para afirmar que o BLM tem «uma mentalidade de sanzala» devendo ter bem presente na memória as palavras de Malcom X «Tínhamos a melhor organização que homens negros já tiveram – e os niggers (os negros) arruinaram tudo!»

Podem os activistas do Black Lives Matter em todo o mundo afirmar que agora é diferente, mas andaram e andam sempre a apagar as erupções revolucionárias com os extintores das derivas identitárias e de género que continuam a alimentar a sua actividade em que a única mudança permitida é aquela que já era sugerida pelo príncipe de Falconeri (7) «tudo deve mudar para que tudo fique como está», mesmo que com essas lutas se alcancem mudanças de atitudes sociais. A radicalidade do BLM é fragorosamente desmentida quando se segue o rasto do dinheiro, o que nos EUA é parcialmente conseguido apesar dos múltiplos tentáculos das entidades que movimentam tráfegos de milhões de dólares entre os núcleos de activismo, ONG’s e similares – por cá a opacidade é total – acabando por se perceber que quem no fim sai intocado das fúrias activistas são os expoentes do complexo militar-industrial e o sistema bipartidário oligárquico e totalitário que governa os Estados Unidos da América.

Não é um acaso que as Fundações Ford, Rockfeller, Heinz, Kellog, Hewllet, as de Soros, assim como grandes empresas como a já referida Nike, sejam as grandes doadoras, em milhares de milhões de dólares, do Black Lives Matter, suas derivações como o Movement for Black Lives, das suas fundadores e gestoras profissionais, Alicia Garza, Opal Tometi, Patrice Cullors. Essas entidades, quem as movimenta e as dirige não tem nem nunca terá o impulso de Boulanger, o protagonista do filme (8) de Aki Kaurismaki que procura contratar um assassino que o mate, até retiram benefícios fiscais por pagarem os fogos de artifício das BLM ou das Me Too que subsidiam. Podem até proclamar que «o capitalismo é um sistema fracassado que prospera na exploração, desigualdade e opressão (…) O capitalismo é um sistema moribundo com o qual é preciso acabar.» Se há algo que seja o mais forte traço de união entre os activistas onde quer que eles se encontrem é a algazarra das mais drásticas palavras de ordem ser o biombo das suas falências ideológicas. Nada como gritar aos ouvidos do moribundo para o moribundo prestes a morrer ressuscitar e alegremente os financiar com mãos largas. Afinal a sua mais icónica imagem, a liturgia da genuflexão, de preferência com a cabeça inclinada ao peso das echarpes hermès, é a de respeitosa postura perante os seus generosos plutocratas doadores, os 0,0001% que acumulam riqueza especulando com a fome e a miséria que espalham pelo mundo misturando-as com revoluções coloridas e mais toda a panóplia que mantém vivo o capitalismo neoliberal em que é importante ter nas mãos os comandos que levantam controladamente e sempre que necessário o escape da panela de pressão até evaporar as turbulências nos altos fornos desta democracia despida de valores e dignidade, sem qualquer filtragem de uma cultura humanística, praticamente entendida como um sistema financeiro, o que esclarece os muitos milhares de milhões doados aos activismos para que os combates se façam com as regras do wrestling. Os danos que possam suceder são acidentais.

O activismo anti-racial desencadeado pelo assassinato de Georges Lloyd, tem tanto de genuíno como de manipulado, sofre do vício intrínseco de muitas dessas lutas e denúncias anti-racistas não terem daltonismo racial, que era a imagem de marca dos Black Panthers. Nesse activismo que tão freneticamente agitou o mundo se é bem visível a mais justa indignação contra a brutalidade policial e dos seus evidentes traços rácicos, uma realidade nos EUA e em muitos outros países que proclamam não ser racistas perante a complacência e tolerância das entidades que as tutelam, ainda é mais visível a ausência de articulação política, de qualquer orientação estratégica o que enfraquece a sua oposição ao crescimento das direitas fascistas, xenófobas. Confrontam-se metidos em trincheiras separadas por uma terra de ninguém onde se nega a luta de classes em favor das lutas identitárias e fracturantes, não percebendo ou não querendo perceber que antes de o serem são sempre lutas sociais. A verdadeira luta contra o sistema predador capitalista fica-se pelos enunciados que podem ser muito ferozes, mesmo definitivos mas não saltam dessas molduras.

Os apoios daquelas Fundações e empresas ao Black Lives Matter e congéneres por todo o mundo não é um acaso. Eles bem sabem que o racismo e anti-racismo quando bem enquadrados correspondem um às ideologias imperialistas, coloniais e pós-coloniais e outro à globalização financeira, têm a utilidade política de travestir as autênticas lutas sociais de classe, ocupando-lhe o terreno.

(1) O Capital, Karl Marx, Editorial Avante!, 1975

(2)A Liberdade é uma Luta Constante, Angela Davies, Antígona Editores Refractários, 2020

(3) O Autor como Produtor, Walter Benjamin in A Modernidade, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, Assírio&Alvim, 2006

(4) A Doença Infantil do Comunismo-o Radicalismo de Esquerda, Lenine, Editorial Avante!, 1975

O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, Álvaro Cunhal, Editorial Avante!, 1974

(5) Protest Inc, The Corporatization of Activism, Peter Dauvergne e Genevieve Lebaron, Polity Press, 2014

(6) Os Condenados da Terra, Frantz Fannon, editora Ulisseia, 1969

(7) O Leopardo, Giuseppe Lampedusa, Publicações Dom Quixote, 2014

(8) Contratei um Assassino, Aki Kaurismäki, 1990

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4 thoughts on “RACISMO / ANTI-RACISMO

  1. Pedro Sales diz:

    Límpido como água.
    Enfim, não só neste movimento BLM mas na sociedade em geral e a reboque dos governos ao serviço dos seus caciques esta constatação: “formar cliques e não partidos, de um ponto de vista artístico lançar modas e não escolas, do ponto de vista económico criar agentes e não produtores”

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  2. António Melo diz:

    Subscrevendo o texto do princípio ao fim, permita-se-me uma achega, que vou buscar a um livro ainda não há muito editado pela D. Quixote, da autoria de Mário Pinto da Andrade, texto escrito no quadro da luta anticolonial:

    “…Não façam nativismo. Façam socialismo. Não deem aos pretos a noção de que a África pertence aos africanos. Deem-lhes a noção de que a África pertence à Humanidade. Não os aconselhem a combater os brancos por causa da diferença de raça. Ensinem-lhes a combater os exploradores, brancos, amarelos, pardos, e da sua própria raça… não tornem os pretos livres num país graças à lei da pátria, deixando-os escravos amarrados à lei do salário.”
    In “O Emancipador,” semanário socialista e operário em Lourenço Marques, (1919-1937); citado por Mário Pinto de Andrade, em “Origens do Nacionalismo Africano” Publicações Dom Quixote, p. 113

    António Melo

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