Artes, artes visuais, Feminismo, Fundação Calouste Gulbenkian, Geral

Mulheres Artistas

Pintura Habitada, Helena Almeida

A condição feminina, a subalternização das mulheres numa sociedade em que os homens eram, ainda são, dominantes fez-se sentir em todas as áreas da sociedade e, obviamente, nas artes. Maria Keil um dia, quando foi interrogada sobre a escassez de mulheres pintoras disse com enorme malícia, pontuada certamente pelo seu irónico e suave sorriso, que não na pintura as mulheres estavam imensamente representadas, nuas. Muitas, embora notáveis ficaram na sombra dos amantes, como Camille Claudel na de Rodin, ou dos maridos como Sara Afonso, melhor pintora que Almada Negreiros, esse artista multidiversificado com uma energia criativa invulgar em muitos géneros. Só recentemente foram recuperadas para o lugar que lhes é devido. Uma situação que, depois de muitas lutas, que ainda não acabaram, tem vindo a ser rectificada com graves lacunas basta, por exemplo, olhar para a dominância das mulheres no ensino universitário e a sua não tradução em lugares de direcção. Lembre-se que em Portugal só em 1969 foi reconhecido o direito ao voto sem restrições às mulheres que continuavam com a maioria dos seus legítimos direitos restringidos.

É assinalando os cinquenta nos da outorgação do direito de voto à mulheres que a Fundação Calouste Gulbenkian organizou a exposição Mulheres Artistas na Colecção Gulbenkian. Uma exposição, nos três pisos do Centro de Arte Moderna, montada cronologicamente, de 1918 a 2018, por tipologia, com uma sala dedicada a Maria Antónia Siza, em que se mostram pela primeira vez em Lisboa os desenhos e bordados dessa artista prematuramente desaparecida, cuja obra foi recentemente doada pelo seu marido o arquitecto Siza Vieira. Uma exposição abrangente que além da pintura e escultura mostra trabalhos de ilustrações para livros e revistas pertencentes à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, realizadas sobretudo nas décadas de 1920 e 1930 por artistas mulheres, expostas numa grande vitrina do piso inferior, em que se destacam a sua grande diversidade temática e uma série de livros de artista, desde o foto-livro ao livro de exposição matérico e serigrafado.

A Revolução de 25 de Abril é um marco bem visível no percurso das mulheres artistas com realce para as obras que combatiam o fascismo como o mordaz e satírico Salazar a Vomitar o País (1970) de Paula Rego ou o Menino de Sua Mãe (1973) de Clara Menéres, uma evidente denúncia da guerra colonial.

A exposição divide-se em quatro períodos históricos, iniciando-se com a Primeira República, seguida pelo Estado Novo, o Pós-1974 finalizando com o Pós-2000, cada um reunindo artistas relevantes das épocas. De Ofélia Marques, Sónia Delaunnay, Milly Possoz às mais recentes Ângela Ferreira e Sara Bichão, Grada Kilomba ou Ana Cardoso, dos experimentalismos dos anos 60 e 70, anos em que muitos artistas , a maioria bolseiros da FCG, emigraram para Paris e Londres com relevância para Paula Rego, Menez, Lourdes Castro, Maria José Oliveira, Ana Vieira, Túlia Saldanha, Helena Almeida, Salette Tavares ou Ana Hatherly.

Mulheres Artistas na Colecção Gulbenkian mostra uma grande diversidade de obras, da pintura, escultura e gravura à poesia visual, do minimalismo ao conceptualismo, da hibridização dos géneros muito em voga na arte contemporânea, sublinhando a extrema vitalidade com que as mulheres contribuíram e contribuem para a afirmação da arte em Portugal. Uma exposição a ver e rever até Dezembro.

O Menino de sua Mãe, Clara Menéres

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