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À BEIRA DO ABISMO

Palácio de Cnossos

Nos tempos que se vivem do capitalismo pós-democrático, a financeirização de todas as formas de vida, em que a vida é o capital e o capital é a vida, é estado de sítio que se vive. No The Economist, editorial de 11 de Janeiro de 2014 intitulado «The $9 trillion sale», https://www.economist.com/leaders/2014/01/11/the-9-trillion-sale,escrevia-se que Thatcher e Reagan usaram as privatizações como ferramenta para combater os sindicatos e transformar em receitas diversos serviços públicos e que os seus sucessores no século XXI, «necessitam fazer o mesmo com os edifícios, terrenos e recursos naturais, porque é um enorme valor que está à espera de ser desbloqueado» inquietando-se por «os governos parecerem estranhamente relutantes em explorar essas oportunidades de arrecadação de receitas». Era a evidência de que nos centros decisores do capitalismo internacional, FMI, Banco Mundial, BCE etc., já há algum tempo estava a levedar a ideia de uma onda de privatizações de tipo novo e radical: vender patrimónios histórico-culturais e naturais, onde a única dificuldade será avaliar o Pártenon, o Museu do Louvre, o Parque Nacional de Yellowstone, etc. O que aconteceu recentemente com o património cultural na Grécia e o que se anuncia para o Brasil são a demonstração que a voracidade do capital é insaciável. É cada vez mais evidente que hoje, com o estado de crise permanente do capitalismo em vertigem de montanha russa, tudo está à venda e, parafraseando Lenine, a última coisa a ser vendida será a corda em que será enforcado. Inquietante é quase já não ser surpreendente que o Ministério das Finanças grego tenha entregue ao Taiped, o fundo de privatizações grego fundado, por imposição da UE, BCE e FMI, uma extensa lista de monumentos nacionais para venda.

No inventário, com mais de trezentas entradas, estão incluídos o palácio de Cnossos do mítico labirinto do Minotauro, em Creta, o túmulo do rei Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre o Grande, no norte da Grécia, a Torre Branca de Salónica, antiga prisão e lugar de grande valor simbólico nos Balcãs, o lugar pré-histórico de Santorini, os lugares arqueológicos de Salamina e Eleusis, muitos dos museus de Arqueologia, os Museus Bizantinos de Salónica e de Véria, os fortes das cidades de Esparta, Corinto e da ilha de Corfu, classificado património mundial pela Unesco, florestas integradas na rede Natura, a que se somam uma longa lista de outro património edificado como os lugares históricos nas montanhas que cercam a Acrópole. Esta fúria privatizadora não é uma particularidade grega por quase todo o mundo este assalto com a mão armada de dólares é verificável. Os pretextos e as formas são variáveis o fim é o mesmo. Em Itália, o governo Berlusconi tentou impor uma lei em que se privatizava todo o património imobiliário público, fosse um edifício pouco caraterizado ou fosse o Palácio do Quirinal, a residência do Presidente da República. Era a solução para a dívida pública. Foi travado por uma vasta mobilização que conseguiu reverter parcialmente as intenções iniciais, cancelando essa lei mas não evitando que se fizessem privatizações totais ou parciais de muitos monumentos históricos com efeitos devastadores. Na área dos recursos naturais as agressões têm séculos mas a ameaça mais grave e imediata é no Brasil de Bolsonaro que “prometeu acabar com a agência brasileira encarregue do controlo da desflorestação e da demarcação das zonas indígenas” um passo para começar a destruição da maior floresta tropical do mundo e, sem recorrer a câmaras de gás, acabar com os índios amazónicos. Um desastre humano e ambiental com consequências incalculáveis.

Em curso a entrega rápida dos recursos sejam culturais ou naturais ao capital privado com o álibi falso de o rentabilizar por maiores que sejam as selvajarias que se pratiquem. Nada comove nem demove essa gente para quem a humanidade, a cultura e a civilização são descartáveis, são inutilidades desde que não se tornem negócio, produzam lucro. É urgente travá-los. Uma luta política para se mudar de políticas que nos conduzem para um abismo.

Amazónia
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3 thoughts on “À BEIRA DO ABISMO

  1. Quando a taxa de lucro (global, sistémico…) desceu até zero, o Capital deixa de ter incentivos para investir em «coisas» reprodutivas e, assim sendo, dá «meia-volta» e vira-se para tudo quanto, entretanto, tenha «caído» na esfera pública. Desde as redes de transportes a Saúde e a Educação, até ao património histórico-cultural. Ou os Estados tomam as rédeas das decisões de investimento e redistribuição da riqueza ou «estamos todos tramados»…

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  2. Nazaré Baptista diz:

    Eu quero agradecer-lhe por trazer até mim os seus artigos. Não posso deixar de os partilhar no Facebook (rede social em que me movo), pois os considero de suma importância… São temas a que sou particularmente sensível. Bem haja!

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