Artes, assédio sexual, Exploração Sexual, Feminismo, Geral, Sedução, sociedade, Violência Doméstica

Assédio e Sedução

The-Lovers

Apaixonados, Pierre-Auguste Renoir, 1948

As denúncias de assédio sexual vulgarizaram-se de tal forma que correm o risco de tudo o que de tanto repetido acaba por criar o seu próprio silêncio. Denúncias quase totalmente protagonizadas por alguéns que pertence a um mundo muito distante de outro em que milhões de mulheres têm infinitamente menos recursos e menos acesso a tudo, aos direitos básicos, aos direitos ao trabalho, à saúde, à educação, à justiça, aos direitos sociais, económicos e políticos em que, mulheres e homens são quotidianamente assediados por uma sociedade que não tem nenhuma dignidade para lhes oferecer.

Espanta-se o mundo com tanto assédio sexual de homens poderosos sobre mulheres igualmente poderosas, secundarizando que o assédio sexual está directamente ligado ao poder económico. É uma forma de exercício do poder económico sobre as mulheres que o têm sofrido nos lugares de trabalho, na rua, em casa. Também embora em muitíssimo menor grau homens têm, terão sido assediados, o que mais sublinha uma arcaica e persistente desigualdade entre homens e mulheres o que justifica a continuação da luta das mulheres pela igualdade de direitos, de todos os direitos em que elas são menos iguais que eles, mesmo nas sociedades em que se têm aproximado.

Ninguém tem o direito de exercer sobre o outro a sua vontade se essa não for a vontade do outro. O assédio sexual deve ser denunciado com o mesmo vigor que o são a violação, a violência doméstica, a exploração sexual. As fronteiras são porosas, têm a mesma raiz. As variantes são mais formais que substantivas.

A excessiva mediatização, sobretudo o modo como essa mediatização é realizada, acaba, pelo menos corre o grande risco, de transformar uma justa denúncia numa parada de estrelas de um feminismo que enlouquece o ponteiro da bússola que tem orientado todas as justas lutas feministas, apontando-a para um subjacente medo por todos, quase todos os homens, onde muitas vezes se queima na mesma caldeira o que é assédio, um exercício unipolar, e o que é sedução, um exercício multipolar. A confusão que se gerou foi, é tão funda que, em contraponto às inúmeras denúncias de assédio sexual que lustram a comunicação social, mulheres, sintomaticamente igualmente poderosas socialmente, vieram a terreiro manifestar o seu prazer em serem desassossegadas pelos homens que têm, no seu dizer displicente “a liberdade de importunar”, uma afirmação patética da sua futilidade, exatamente por não perceberem o que distingue radicalmente o assédio da sedução.

As avenidas comunicacionais onde têm desaguado inúmeros textos e imagens sobre o assunto concorrem, na sua grande maioria, para embotar a sensibilidade social e por tornar a vulgaridade e a estupidez em coisas normais. Um entretenimento vazio com o objectivo de não se alcançar uma consciência crítica da realidade. As vozes lúcidas quase ficam sepultadas nas catadupas das banalidades que sobre este tema como sobre todos os outros temas, nomeadamente políticos e económicos, se transformaram na normalidade de uma sociedade e de um tempo anormal, que é o nosso tempo, “em que tudo é permitido por estar cinicamente perdoado” (Kundera).

Felizmente, para mulheres e homens, continua vivo um feminismo que está de boa saúde, continua forte, depois de muitos anos de lutas persiste em lutar para mudar mentalidades e reivindicar a igualdade em todos os azimutes. No tema em questão contra o assédio sexual e pela sedução sem sexo.

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