Ana Teresa Pereira, Cultura, Geral, Literatura, Livros

Um Livro de Vez em Quando

                                    

 

 

Karen

 

TERRAS INCÓGNITAS

 

Nos livros de Ana Teresa Pereira há uma geografia humana e física que tem uma cartografia que vai mudando de lugar e de personagens que, sem se repetirem, são reconhecíveis em todos os seus romances. Desde o primeiro Matar a Imagem, em 1989, Prémio Caminho Policial até ao último Karen, Prémio Oceanos Literatura 2017, são mais de vinte em que a autora, viajando entre o policial e o fantástico, coloca os personagens em ambientes fechados onde vivem iluminados por uma luz exterior e interior que dá origem a atmosferas claustrofóbicas sempre à beira de um abismo, em que o leitor é convocado a participar, porque são obras abertas “como se o leitor tivesse comprado o livro num mercado de rua, sem reparar que faltavam as últimas páginas” diz a autora.

Em Karen essas características são mais presentes. O livro começa descrevendo a cena do encontro final do filme Noites Brancas de Visconti, com base no único romance romântico de Dostoiévski, em que todas as decisões e indecisões do virtual triângulo amoroso se confrontam, antecipando e introduzindo as de uma jovem que acorda num quarto estranho, com fragmentos familiares que a orientam num labirinto de pedaços de memórias que a fazem reconhecer os que a rodeiam e a tratam como alguém que conhecem. São memórias de pequenas coisas que fazem Karen, nome pelo qual a chamam mas nunca se saberá se é o verdadeiro nome, fazer parte desse universo mesmo que não reconheça de todo as pessoas com quem partilha esse quotidiano ou se lembre do que é a sua vida.

Não se saberá qual a sua verdadeira identidade: “ eu sabia isso a seu respeito. Sabia muitas coisas a seu respeito de que ninguém me tinha falado. Não  era possível ter o mesmo rosto e o mesmo corpo e não partilhar um pouco a alma”. Ana Teresa Pereira  em Karen, mais que nos seus anteriores romances, desvela factos para camuflar outros, promove reencontros que se resolvem em encontros e desencontros. É como visitar uma casa de família que se julga conhecer desde sempre, onde se vai repetidamente, mas não tem realidade física porque se constrói num vai e vem de memórias fragmentadas que se apagam e acendem. pelo que nunca igual nem  monótona. Fá-lo com um estilo incontornável que tornam a sua obra uma das mais sólidas e coerentes na literatura portuguesa.

                                            (publicado no Guia de Eventos Setúbal Janeiro/fevereiro 2018)

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