Artes, Cultura, Geral, Manuel Gusmão, poesia

Manuel Gusmão

 

gusmao

Hoje, Manuel Gusmão, nome maior entre os poetas e intelectuais portugueses nossos contemporâneos celebra o aniversário. Celebremos com ele essa data.

 

“Nós, na «tradição dos oprimidos (Walter Benjamin), aprendemos a não ceder aos desastres, aprendemos a trabalhar para estoirar o tempo contínuo das derrotas e a perscrutar os momentos em que algo de diferente foi possível, mesmo que por umas semanas ou meses ou décadas. O trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma), outra vez” (Manuel Gusmão, Uma Razão Dialógica. Ensaios sobre literatura, a sua experiência do humano e sua teoria, 2011, p. 371)

 

 

UMA PEDRA NA INFÂNCIA

 

 

Põe uma pedra

uma pedra sobre a infância

 

Para que de vez se cale essa respiração

contida suspensa no escuro

 

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre

essa infância essa fala ininterrupta essa

 

falagem que falha e promete e inventa

os sonhos e as promessas o riso sem porquê

 

Para que de vez se interrompa a esperança esse

mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

 

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa

que é a infância, as vozes da noite do poço.

 

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada

e para sempre trocou já os desejos e os medos.

 

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio

as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

 

Para que se cale de vez essa respiração que se ri

na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

 

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre

a infância e ouve a erva a folhagem que cobrem

 

o céu em ruínas,

 

Também então havia uma pedra no canto do quarto

Ali onde a noite começava, era uma pedra e depois

crescia, petrificava-se no seu coração de pedra

dividia-se e eram várias crescendo; ocupando

todo o espaço do sono, do sonho do mundo,

Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos

que de pedra ficavam e o grito era uma pedra

que na garganta subia contra a outra pedra,

O próprio ar golpeado era e dividia a voz

pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

 

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma

outra infância de que possas recordar-te.

 

Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:

nada acontece, Não há

 

nenhuma voz na voz dos condenados.

(Migrações do Fogo, 2004)

 

Leiam a entrevista que recentemente deu para a revista on-line de Letras, Artes e Ideias CALIBAN

https://caliban.pt/entrevista-com-manuel-gusmão-904d401e9ea4#.u97f1nk4u

 

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2 thoughts on “Manuel Gusmão

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