Artes, Cultura, Educação, Estética, Geral, História de Arte, Literatura, Mario Dionisio

No Centenário de Mário Dionísio

 

 

mario-dionisioO Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada-Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, realizou de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e a obra de Mário Dionísio, cujo centenário ocorre este ano. “Como uma pedra no silêncio”, o título do congresso, condensa de forma sugestiva a vida e obra de um dos mais impares intelectuais portugueses do século XX.

Com uma vida dedicada ao ensino, em que foi marcante para muitas gerações de alunos rasgando novas perspectivas, fazendo-os questionar sempre algo para lá das fronteiras dos programas, Mário Dionísio tem obra relevante na literatura, na pintura, no pensar as artes e a estética.

Foi um dos teóricos do neo-realismo, sempre defendendo que as artes devem ter uma ideologia não para a servir, mas para a expressar. Uma posição singular no neo-realismo em que a qualidade artística e estética, ancorada na coerência ideológica, corria o risco de não se libertar de esquematismos ameaçadores e estiolantes por mais revolucionariamente bem-intencionados que fossem.

Nunca abandonou essa coerência de defesa das artes e da cultura, da sua relativa autonomia em relação aos processos históricos, situando-as como um dos alicerces fundamentais no processo de construção da sociedade.

Poeta e escritor notável, leiam-se O Riso Dissonante (1950) e Poesia Incompleta 1936/1965, O Dia Cinzento e Outros Contos (1965) e Não à Morte nem Princípio (1969)pintor quase desconhecido, embora tivesse participado com pseudónimos nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, faz a sua primeira exposição individual com setenta anos de idade revelando-se um pintor, entre a figuração e a abstracção ou para se ser mais rigoroso que vai introduzindo experiências da abstracção na figuração até esta ser um signo distante mas presente, numa afirmação pictórica em que se nega a artificial separação entre forma e conteúdo. Essa sua intensa e plural actividade criativa decorre em simultâneo com não menos intenso trabalho de investigação sobre as artes, história e estética. São duas linhas paralelas que escapam à condenação de se encontrar num ponto qualquer no infinito. São duas linhas paralelas que não se confundem, correm em permanente contacto sobre um plano mais vasto, o da sua visão marxista do mundo em que sempre acreditou e a que nunca renunciou.

Em 1958 profere na Sociedade Nacional de Belas Artes uma conferência, Conflito e Unidade da Arte Contemporânea. Uma intervenção de aguda lucidez sobre os problemas da arte nos nossos tempos, que continua actual, pela inteligência com que se colocam questões e a elas se responde numa perspectiva aberta de futuro, sempre com as hipóteses provisórias e as certezas relativas de um pensador que está no seu tempo, para lá do seu tempo.

Por esse ano já tinha publicado um ensaio sobre Van Gogh e o primeiro volume de A Paleta e o Mundo, obra magna sobre teoria e história da arte contemporânea, sobre o pensamento e a criação estética.

Em onze capítulos, Mário Dionísio questiona e afirma a função social da arte, filtrando-a pelo seu sistema de relações: a arte e o público, a arte e a ciência, a arte e a sociedade, a arte e o artista, a arte e a arte. Ferramentas com que dialecticamente analisa esse sistema de representação do mundo e o mundo que é representado e transformado. Fá-lo sem dogmas, nem “enfeudamentos cronológicos” (*), realizando um ensaio original, de rara profundidade que o colocam como um dos mais importantes teóricos e pensadores da arte contemporânea.

No ano em que se comemora o centenário de Mário Dionísio espera-se, deseja-se que a Imprensa Nacional/Casa da Moeda cumpra o serviço público, a que deve estar obrigada e reedite A Paleta e o Mundo. O mínimo que se lhe pode exigir porque o que realmente deveria fazer era, além de reeditar esse opus magnum, procurar que fosse publicada noutros idiomas para ocupar o lugar que lhe cabe entre os grandes estudos sobre arte contemporânea.

 

(*)Maria Alzira Seixo, Pensar A Paleta e o Mundo, Notas para um Estudo, edição Casa da Achada-Centro Mário Dionísio

 

publicado no Jornal a Voz do Operário /Novembro

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One thought on “No Centenário de Mário Dionísio

  1. Pedro Mota diz:

    Urgente a reedição de A Paleta e o Mundo, uma das obras maiores da Teoria da Arte, não só em Portugal mas no mundo. Excelente contista e poeta, a sua contribuição para uma teoria marxista das artes, e não para um uso propagandístico das mesmas (tal só cabe à vontade do artista, quando quer involuntariamente dar cabo da propaganda das ideias que defende), mau pintor (o seu abstraccionismo é estático, caricatural, sem profundidade de sentidos), é superior, pelo seu antidogmatismo, e mais marxista (e científica, objectiva), do que a de muitos outros pensadores da arte que, sendo eles próprios caricaturas, se acreditam marxistas. É que mostrar, e exprimir sem teorizar, as contradições objectivas da realidade, e o seus efeitos subjectivos retroactivos, eventualmente junto com o processo de formação das ideias e das acções a partir delas, respeitando a complexidade do mundo, é, além do resto, mais verdadeiro, do que evidentemente fazer o disparate de (para usar um conjunto de expressões que se podem dirigir a um certo grupo de indivíduos cuja nobre militância, sobretudo política, pelo progresso é prejudicada pelo seu entendimento pouco dialéctico) esquematizar, simplificar, idealizar pessoas e práticas, esconder as próprias contradições das lutas sociais e os escolhos ou labirintos do futuro. A bem dizer, esta pobreza é mais teórica do que criativa, é mais uma forma de propaganda do que uma demonstração artística, apesar de terem existido artistas, medíocres, que seguiram os seus princípios e ditames. Entre os escritores, nem Alves Redol nem Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, José Saramago, etc. (o caso dos artistas plásticos é também uma questão de talento e de mediocridade, não de falta de jeito mas de pensamento numa certa forma de juízo de gosto), podem ser tidos por escrevinhadores de ideias feitas, que meteram a realidade no leito de Procustes e a distorceram para a transfigurar numa representação trágica da dialéctica de forças materiais idealizadas em movimentos homogéneos e personificadas em heróis e vilões. Isso fica, ironicamente, para a literatura anticomunista e para a banda-desenhada americana, sobretudo a da Marvel.

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