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Eleições nos EUA

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Fotografia de Robert Frank, City Fathers,Hoboken, New Jersey in /The Americans

Democracia.Democracias

Democracia é, etimologicamente, o “poder do povo”. Significa literalmente que o povo pode escolher os seus líderes em condições de igualdade e liberdade. Abraham Lincoln proclamava que a democracia se fundava no exercício do voto, era «o governo do povo, pelo povo e para o povo». Um idealismo que outro fundador do conceito moderno de democracia, Jean-Jacques Rousseau, contestava pondo em causa a democracia ficar reduzida ao cumprimento do formalismo eleitoral. Defendia que a democracia não é compatível com minorias muito ricas e maiorias na pobreza. Criticava o parlamentarismo inglês do séc. XVIII: «os ingleses acham-se livres porque votam de tantos em tantos anos para eleger os seus representantes, mas esquecem-se de que no dia seguinte a terem votado, são tão escravos como no dia anterior à votação». Para Rousseau, um opressor não pode representar o oprimido. Um patrão não representa um empregado. Uma questão central no conceito de democracia.

Lénine foi mais incisivo: democracia para quem? Um governo «dos ricos, pelos ricos e para os ricos» não se chama democracia, mas plutocracia.

Debate que continua actual. Sem sequer colocar a questão que, depois de exercer o direito de voto, os cidadãos ficam afastados do exercício do poder político até novas eleições, que entre promessas eleitorais e governação as diferenças podem ser abissais, verifica-se que os sistemas eleitorais, uns mais que outros, distorcem deliberadamente o “poder do povo”. Mesmo nos países em que os votos, pelo sistema proporcional, são próximos da vontade um deputado de um partido maior é eleito com menos votos que um deputado de um partido menor. Comparando sistemas eleitorais as aberrações são muitas. Na Grécia o partido que tiver mais votos, mesmo um só voto, tem um bónus de 50 deputados que escolhe a seu bel-prazer. Nas últimas eleições no Reino Unido os resultados são surpreendentes comparando os deputados eleitos e os que realmente seriam eleitos se o voto fosse proporcional: Partido Conservador Deputados eleitos 330 / Deputados que elegeria 209; Partido Trabalhista 232 / 203; Partido Liberal 8 / 48; UKIP 1 / 78. O Parlamento do Reino Unido está bem longe de representar a vontade do povo.

Nos Estados Unidos da América (EUA) o sistema é de tal modo complexo que o presidente pode ser eleito tendo perdido a votação nas urnas. O carnaval no entanto é muito. Começa nas primárias e caucus em que os partidos escolhem os candidatos, acaba na eleição por uma assembleia de delegados, o Colégio Eleitoral, que não vota nos delegados mas num dos candidatos. A cada estado é atribuido um número de delegados. Se um candidato ganha nesse estado, os delegados eleitos, sejam ou não do seu partido, votam no Colégio Eleitoral no vencedor. Um candidato pode perder em 39 estados e ser eleito se ganhar o voto dos delegados dos 12 estados com maior número de delegados. Se esse sistema eleitoral perverte a vontade popular, mais pervertido fica quando o número de eleitores é flutuante. Os cadernos eleitorais refazem-se a cada eleição. Os cidadãos registam-se a cada acto eleitoral. Entre os cidadãos que têm direitos constitucionais e os que realmente se inscrevem há uma diferença substancial. Mesmo nos inscritos a taxa de abstenção é normalmente alta. Em 2008, eleições consideradas excepcionalmente participadas, a taxa de abstenção rondou os 40%. Se a esses 40% for a adicionado o número de cidadãos com direito a voto que nem sequer se inscreveu, muito mais de metade dos potenciais eleitores ficam indiferentes ao espectáculo montado, que corre mundo dando uma pavorosa ilusão de democracia. Tudo está montado para o sistema bi-partidário se eternizar atirando os candidatos independentes ou de outros partidos para a mais absoluta irrelevância. Nos antípodas do que Washington Irving, escritor e político das origens dos EUA, no Rip Van Winckle assumia como mito fundador dessa sociedade: a transformação. Na actualidade, já há muitos anos, candidatos democratas e republicanos alternam-se em linha com os interesses da grande finança e do complexo militar-industrial sem que estruturalmente algo mude. A transformação é zero quase absoluto.

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fotografia de Robert Frank,Political Raly,Chicago in The Amaericans

As Duas Américas, Trump e Sanders e a Dama Insuflável

Nos EUA, nos últimos anos com Obama presidente, as desigualdades agravaram-se e agravaram-se ainda mais entre raças,  os salários reais regrediram, a deslocalização de postos de trabalho industriais e de serviços nunca foi tão intensa, a legislação repressiva ampliou-se com crescentes abusos das polícias federais e locais, a filiação sindical foi atacada reduziu quase dois terços, a desregulação do sistema financeiro acentuou-se. Paralelamente procedeu-se ao resgate de bancos e de Wall Street com o valor astronómico de mais de um milhão de milhões de dólares, enquanto se executavam hipotecas contra milhões de proprietários. O crónico défice continua imparável. No plano externo nunca em tão curto espaço de tempo se apoiaram tantas guerras directas e por procuração, invadiram-se países, promoveram-se golpes de estado, fizeram-se operações militares clandestinas.

Um cenário que afecta os EUA, e afecta todo o mundo por via da exportação da crise norte-americana e das suas agressivas políticas externas. País que se quer imperial, está em decadência económica e detém enorme poderio militar.o que o torna muitíssimo perigoso. A outra face do império é o domínio quase absoluto sobre os meios de informação mundiais que perderam autonomia, são correias de transmissão do pensamento único, do não há alternativa aos desígnios do império e seus súbditos. Férrea hegemonia que continua a resistir aos Snowden’s e Wikileaks e ao que, sobretudo na internet, escapa a esse controle. O jornalismo, os jornalistas são na sua esmagadora maioria, pesem as suas diferenças muitas delas bem estudadas e calculadas, um exército mercenário que trabalha dia e noite para difundir a ideologia dominante e justificar as acções que a sustentam. Em todo o mundo transmite-se a ideia de que as eleições presidenciais nos EUA são determinantes para o futuro próximo do universo, apresentando os candidatos como se fossem quase radicalmente diferentes. Claro que essas eleições são de grande, até extrema  importância, mas do modo como são apresentadas o que se pretende é subalternizar ou mesmo apagar as lutas em curso no interior dos outros países que devem estar no primeiro plano em cada um desses países, inscreverem-se na luta mais geral contra o império. Isto repete-se de eleição para eleição. A próxima não foge a esse quadro.

Também não foge a esse quadro os episódios protagonizados por Clinton e Sanders na caminhada de primárias e caucus para a escolha do candidato, como se um candidato não estivesse desde o principio apontado à vitória. É o grande guignol da democracia, a fábrica de enganos de quem verdadeiramente decide, o big money o big business.

No cenário de crise já descrito surgiram movimentos de massas a contestar o estado da economia, com destaque para o  Occupy Wall Street (OWS), as agressivas políticas externas. Sanders cavalgou esse descontentamento com propostas para dividir os bancos, reduzindo o seu imenso poder, saúde universal, muito além do Obamacare, aumento do salário mínimo, de fazer os ricos pagar toda a educação, com enfase na educação universitária. A sua base de apoio, inicialmente muito ligada ao OWS, um núcleo de jovens brancos, trabalhadores e mulheres jovens,  alargou-se aos afro-americanos e latinos, agregando um número considerável de lideres dos direitos cívicos, figuras políticas, artistas. Os alarmes dispararam nos gabinetes do grande capital, no complexo militar-industrial que desde 2007 atapetavam o caminho de  Hillary Clinton. Os media rapidamente se puseram em marcha para criar uma imagem negativa a Sanders.

Do outro lado do generalizado descontentamento surge Donald Trump. As suas tiradas obnóxias, xenófobas, o dedo a remexer nas feridas da desindustrialização, o derramar alguma pimenta sobre o grande capital sem atacar os bilionários como Sanders  fez, dão-lhe o apoio da outra América, a América profunda, dos filmes de David Lynch. Os media  aparam-lhe o jogo. Les Moonves, director-geral da CBS, descarada e cinicamente confessou: pode não ser bom para os Estados Unidos, mas está a entrar dinheiro e isso é bom para a CBS. É terrível dizer isto mas para a frente, Donald”. O coliseu está montado, tem dois protagonistas: o grotesco Trump e a dama insuflável Clinton. Sanders foi cilindrado, com ele a contestação que protagonizou por não ter a coragem de a canalizar para um movimento político independente que quebrasse ou pusesse claramente em causa o sistema. Nada de novo. Recorde-se o que se passou com Jesse Jackson em 1984. Mobilizou milhares de americanos com propostas igualmente radicais: maior justiça social, aumento do salário mínimo, plano de saúde unificado, transferência maciça de fundos públicos do Pentágono para programas sociais. Quatro anos depois repetiu a dose. No fim, tal como agora Sanders, o eleitorado progressista foi encurralado no Partido Democrático. O sistema permaneceu, permanece  intacto. O espertalhão Obama também abraçou essas causas só que teve a habilidade vigarista de garantir o apoio de Wall Street e do grande capital que percebeu os truques retóricos e nunca aposta no cavalo errado. Aliás, seguindo-se as pegadas dos apoios dos multimilionários, das grandes corporações pode-se apontar com segurança quase absoluta em quem será o vencedor das eleições presidenciais nos EUA, com uma infabilidade que até Deus deve invejar.

O circo está montado. Os mais iludidos ainda julgam que entre Clinton e Trump, Clinton é o menor dos males. Enganam-se. São ambos o pior dos males sem se saber quem será, só se saberá depois de eleito,  quem é de facto pior. (*)

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fotografia de Robert Frank,Parade,Hoboken New Jersey in The Americans

A Bordelização da Política

A bordelização da política começa nos media, continua nos tweets, nos comentários nas redes sociais, nos videos. Já ninguém, quase ninguém, tem paciência para ler textos mais longos, mais críticos e informados. Veja-se o que é sublinhado no último debate Hillary-Donald, logo esta do Hillary-Donald é sintomática!

Dá-se relevo às conversas de balneário, cama, cozinha. Da troca de mimos emtre um Trump machista, de alarves e torpes declarações, tipo gorila a bater com as mãos no peito para intimidar a coscuvilheira e intriguista Clinton, lembrem-se os truques que ela e os seus amigos usaram para lixar Bernie Sanders na Convenção Democrática. Um lavar de roupa suja das públicas virtudes, vícios privados. Nada de novo na terra prometida do sonho americano. Leiam-se as dez(!!!) páginas da Revista do Expresso por um super analista e especialista em eleições presidenciais nos EUA para se ficar a saber que o que mais conta é se um candidato é apanhado pelas cameras televisivas a tossir, a transpirar, a dar um passo em falso, a fazer um esgar num dos debates entre os dois candidatos terminais, os outros não existem, o capital corta-lhes o pio depois de lhes ter cortados todas as hipóteses de fazerem campanha. Os programas políticos são secundários. A senhora Clinton ter dito que está disposta a bombardear Bagdade e estar completamente alinhada com os falcões do Pentágono que dinamitaram o acordo Kerry-Lavrov para a Síria, atacando o exército sírio em Deir Ezzor sem autorização presidencial, o comandante supremo Obama, não é relevante. Se ela está a esfregar as mãos de alegria por os terroristas da Al-Qaeda, reciclados à pressa para se travestirem de oposição moderada, uma ficção em que Hillary Clinton é a escrevente ou uma das escreventes principais como o foi na Jugoslávia, na Líbia, na Ucrânia e por aí fora, terem atacado um comboio humanitário para Alepo e assim poderem acusar a aviação russa que consegue a proeza de disparar ao nível da terra, só possível em voos rasantes nunca dantes vistos, é indiferente. Nada disso interessa nem aos jornalistas que noticiaram nem aos comentadores que comentaram o debate. O importante é se Trump apalpou ou foi mais longe com mulheres que ficaram no seu raio de acção, à pala de ser um homem de êxito, ou se Bill Clinton, também abusando da sua posição dominante, introduzia charutos no sexo das amantes e Hillary fingia não o saber ou as intimidava.

Extraordinário que os moderadores, ao nível dos candidatos, não trouxessem para o debate uma notícia que nessa mesma semana o Washington Post publicou:

 “Quarta-feira passada [05/Out], numa reunião de Comité de Deputados na Casa Branca, responsáveis do Departamento de Estado, da CIA e da Joint Chiefs of Staff (organismo de aconselhamento militar do presidente dos EUA,são os chefes do Exército, Marinha, Força Aérea e Fuzileiros Navais) discutiram ataques militares limitados contra o regime de Assad … Um caminho proposto para contornar a antiga objecção da Casa Branca a atacar o regime de Assad sem uma resolução do Conselho de Segurança da ONU seria executar ataques encobertos e sem reconhecimento público”

Não seria relevante saber o que pensam os candidatos a presidente dos EUA sobre esse assunto, das ilegalidades que se tramam que pode colocar o mundo na beira do abismo ou mesmo atirar o mundo para o abismo de uma 3ª Guerra Mundial? As questões de política interna e externa são laterais. Da política o que se sublinha é Trump, no seu estilo lutador de luta livre sem regras, ter ameaçado Hillary de prisão por ter usado o seu mail pessoal para assuntos de estado. Ao teor dos mails ambos dizem nada.

É a bordelização da política enquanto o mundo está a arder e é ameaçado com fogo apocalíptico. Quando a crise económica alastra, é devastadora. Inquietante é essa mentalidade transbordar do debate e inquinar tudo á sua volta. Quando se vê o video de Robert de Niro há que lhe dar razão mas também se deve perguntar porque é que, em tão inflamada intervenção, não refere os milhares de mulheres que foram vitimadas pelas políticas de Hillary Clinton. Porque é que está tão preocupado com apalpões e outras sevícias às mulheres e não se preocupa com as que vão amanhã morrer , somando-se às milhares que já morreram, às mãos dos que a candidata, enquanto secretária de estado, suportou financeira e logisticamente e declara que o vai continuar a fazer. Que denuncie um grunho como Trump fica-lhe muito bem. Mas também ficaria muito bem fazer um video denunciando a suave hipocrisia, as mentiras farçolas de Clinton.

Andam todos no bordel da política! Uns como donos do bordel. Outros como consumidores!

Enquanto o espectáculo continua, tem mais uma sessão anunciada, estão todos surdos aos tambores de guerra em que o prognóstico de uma 3ª Guerra Mundial parece estar ao virar da esquina, como se depreende das últimas declarações de Kerry, depois da amotinação dos generais norte-americanos que tramaram mesmo as pálidas pretensões do presidente Obama em abrir um caminho paralelo à intervenção militar na Síria. É a visão imperial de que as legiões romanas, os fuzileiros navais é que abrem caminho para a diplomacia. Estão convencidos que ganharão uma guerra nuclear em qualquer altura e em qualquer lugar, como declarou o general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, ameaçando a Rússia, a China, todos os que se opuserem ao império, como se actualmente qualquer guerra não fosse um apocalipse universal em que os vencedores também seriam os vencidos.

Com este pano de fundo o panem et circenses continua a ser servido aos norte-americanos e ao mundo nas casas de banho em que os dois candidatos se confrontam num obsceno combate de wrestling. Wall Street financia. Bildeberg aplaude. As Goldman Sachs facturam. The show must go on.

(*) texto publicado no Jornal Voz do Operário/Outubro 2016 a que se acrescentou um capítulo depois do último debate Clinton-Trump

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One thought on “Eleições nos EUA

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