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Uber, o novo inimigo da classe operária

A Uber, a julgar pelo que se vai lendo aqui e acolá, é o novo inimigo da classe operária.

A luta dos taxistas e a forma como a conduziram há-se ser um case study de como conduzir um processo reivindicativo, ter razão — melhor, ter mais do que razão — e perdê-la em ações de violência e boçalidade sem paralelo. O pior é que na classe dos taxistas será maioritária a gente séria e educada que, seguramente, não se revê no que aconteceu ontem. Porém, meia dúzia de bestas deram cabo de tudo, pioraram ainda mais a imagem de uma classe profissional que tem de se relacionar diariamente com o público e hipotecaram todas as possibilidades de, nas próximas décadas, recuperarem qualquer centelha de confiança.

Há que reconhecer que era difícil fazer pior: ter toda a razão e continuar a tê-la, mas criar no público a perceção de que não se tem razão nenhuma.

A luta dos taxistas é justa, mas é injusto não reconhecer que é um setor que parou no tempo, muito por culpa das associações patronais, mas também por gente desqualificada, que não será a maioria, que vive com a ideia de que terá sempre o monopólio do transporte de passageiros em viatura ligeira.

A Uber e restantes plataformas têm de ser reguladas, têm de ter as mesmas obrigações do que os taxistas. Porém, pensar que é possível impedi-las de existir é como pensar que se pode parar um furacão com as mãos.

Mais estranha é a quase conversão da Uber em principal inimigo da classe operária portuguesa e a defesa, praticamente acrítica, que alguns fazem, dos taxistas.

É preciso equilibrar os pratos da balança.

Se a Uber é, de facto, uma ameaça, na forma em que funciona hoje, à existência do setor do táxi, agindo num quadro de completa e inaceitável desregulação, também é verdade que os taxistas sempre recusaram agir num quadro mais rigoroso de comportamento a bordo das suas viaturas e sem que se note que tenham um código de conduta ou que as suas associações se queiram constituir como poderes reguladores da qualidade do serviço prestado.

Exige-se mais equilíbrio no tratamento desta questão, nomeadamente na procura de soluções que favoreçam o futuro do setor, criando regras de conduta e funcionamento mais rigorosas que permitam recuperar a confiança perdida nos taxistas. Ainda que não passe de um fait diver, a verdade é que o episódio do taxista que diz, para as câmaras de televisão, que as leis são para ser violadas, tal como as meninas virgens, fez mais pelo desprestígio da classe do que mil taxistas a acelerar loucamente pela Avenida da República.

Não deveria ser possível defender a justeza da posição dos taxistas e esquecer este tipo de episódios ou o ataque, praticamente no limiar do linchamento do motorista — e isso, sim, mais importante — a uma viatura da Uber.

Por mim, continuarei a andar de táxi sempre que precise.

Mas muito mais desconfiado…

E não, a Uber não é novo inimigo da classe operária.

 

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One thought on “Uber, o novo inimigo da classe operária

  1. Carlos Veloso diz:

    Os taxistas não correspondem em nada à mística da classe operária. Nem as novas plataformas podem ser assimiladas ao capitalismo puro e duro. As novas tecnologias vão acabar por vencer, é inevitável. O ataque à UBER lembra um pouco os “ludites” do século XIX, com operários ainda muito básicos a destruir as máquinas, que consideravam uma ameaça.

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