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As Artes num Impasse

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O último fim de semana em Serralves, O Museu Performance, foi a demonstração cabal de como uma superlativamente intitulada arte é o apogeu da farsa em que está mergulhada muita arte contemporânea, travestindo-se de modernaça mas que é substantivamente conservadora e reaccionária.

Houve de tudo. Vídeos medíocres, música de quem não sabe sequer o que é uma nota, representações que qualquer actor de um sofrível teatro amador faz melhor, uma suposta cantora lírica que nem para cantar a tomar banho serve, um gajo que decide tomar enfrentar uma mangueira de bombeiros, porque sim estava calor mas aquilo era um desperdício de água, uma trupe anarco-queer que diz ir enfrentar o futuro mas fica pela rasteira representação kitsch e mais umas quejandas actuações-efeito que condensam, como os slogans, a vontade que temos de não pensar, a propensão para nos quedarmos no terreno pantanoso da idiotia esplendorosa de alguma arte actual. Nos antípodas do que Manuel Gusmão, com a clareza habitual, expôs num texto em que defendia que as artes nos fazem humanos.

Também nos devemos interrogar porque é que aquela gente não aprende a filmar, a representar, a cantar, a compor, enfim a aprender aquelas coisas básicas que se deve exigir a quem diz querer transgredir os cânones. O mínimo dos mínimos para tão rarefeitas ideias, sem um grão de inovação e descoberta. Tudo requentado e ruminante.

O que se assistiu, o que foi dado ver é de uma banalidade confrangedora. Bolas de sabão que nem chegam a ter dimensão ou cor por logo rebentarem. Rebentam em silêncio contando com a cumplicidade dos assistentes atónitos, paralisados por aquele abundante desvalimento mental que acaba por alastrar e contaminar.

Claro que há uma conversa de treta que envolve todas aquelas performances e que nem sequer são embrulhadas em papel de estanho a imitar papel de prata. Nada de novo. A normalidade do estado da arte em que quanto mais indigentes são as obras mais «inteligentes» são os textos que as apresentam ou justificam. Os estupendos curadores, do alto da sua empáfia, proclamam que naqueles dois dias, os espaços iam perder a sua aparência usual para serem «ocupados por trabalhos que apelam a outros sentidos, revelando arquitecturas invisíveis e abalando o normal fluxo do tempo da visita do museu» para que o museu deixe de ser espaço de mera contemplação para ser «um lugar onde coisas acontecem, espaço em estado de fluxo permanente, um museu em permanente performance».

Nem percebem que com aquele tipo de actividades degradam o conceito de arte e prolongam o conceito de museu como um espaço onde se penduram quadros, encerram esculturas, recepcionam instalações e performances. Onde os espectadores entram para se encontrarem com os paradoxos das experiências artísticas. Um «cubo branco», leia-se O’Doherty, onde o espectador se isola, para ver os objectos classificados como arte num meio em que o tempo histórico não se rege por instrumentos de medida. Espaços comparáveis às igrejas medievais, espaços sagrados intocáveis, onde o comportamento dos visitantes é igual ao dos fiéis: de adoração, sacralidade e intemporalidade. Onde se codificam preconceitos e reforça a imagem de uma classe média e média-alta. Onde a estética é transformada em elitismo através do pretensiosismo social, financeiro e intelectual. Local onde o artista é um individuo comercial, disfarçado. O que se assistiu foi à traficância do trabalho criativo a que a arte se deve obrigar. Tudo foi tão óbvio, tão simplória e mediocremente criativo que só pelo receio de ser tomado por ignorante é que aquilo não foi varrido a sonoras e saudáveis gargalhadas. Alinhando com a predominância do títulos em inglês, coleccionaram-se Bullshit.

Tudo em linha com a situação actual em que as imagens, artísticas ou documentais, estão dotadas de fortíssimo impacto emocional, interagem com as da moda, do cinema, da televisão, da internet, do grafismo, da publicidade do design, dando lugar a um imaginário social caracterizado pela provocação. A resultante é uma procura de novidade e do efeito, perseguida por si-próprias, o que implica uma rápida usura e obsolescência que obriga a que tudo seja continuamente substituído por algo dotado com maior força de impacto ou capaz de despertar a atenção. Nesse embaraço a arte tende a dissolver-se na moda, a qual embota e apaga a força do real, dissolve a radicalidade, normaliza e homogeneíza todas as coisas num espectáculo generalizado. Uma fábrica de provocações frustres procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido.

O outro lado da questão é a posição dominante que os intermediários culturais têm no mundo das artes actual. Bourdieu fez uma análise lúcida desse novo grupo social, «correia de transmissão do gosto típico das classes superiores, do bom gosto, enquanto membros de um novo tipo de pequena burguesia (…) São os encarregados de uma subtil actividade de manipulação nas empresas industriais e na gestão da produção cultural (…) a sua distinção é uma forma de capital incorporado – porte, aspecto, dicção e pronúncia, boas maneiras e bons hábitos – que, por si, garante a detenção de um gosto infalível o que sanciona a investidura social de um decisor do gosto, de modo bem mais significativo do que o faz o capital escolar, de tipo aca-démico (…) a ambiguidade essencial e a dupla lealdade caracteriza o papel desses intermediários colocados numa posição instável na estrutura social como o baixo clero de outras épocas (…) são os mercadores de necessidades que também se vendem continuamente a si próprios, como modelo e garantes do valor dos seus produtos, são óptimos actores, apenas porque sabem dar boa imagem de si acreditando ou não no valor daquilo que apresentam e representam». É essa gente que legitima e certifica os produtos artísticos, manipula os valores do mercado, passa diplomas e hierarquiza os artistas. Uma espécie de baixo clero pós-moderno que torna a arte e os artistas dependentes dos seus critérios. Fora desse circuito a criação artística é residual. Um quadro que exige um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento com que se ilude essa realidade.

Porque a dura realidade é que desnudar, desvendar os mecanismos económicos e institucionais em que se funda o estado actual das artes não tem comprometido nem a sua credibilidade cultural nem a sua credibilidade comercial e mundana, como Mario Perniola extensamente teorizou no magnifico ensaio A Arte e a sua Sombra. Essas desmistificações por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames. O debate estético e cultural está praticamente reduzido a zero, submetido à ditadura dos intermediários culturais, sejam curadores, directores de museus ou marchands. Aliás o trânsito é intenso e não sai dos carris.

O que se torna alarmante é que o vazio criativo dessas práticas ditas artísticas onde vale tudo, tem um aliado objectivo nos que contestam alacre e imbecilmente toda a arte contemporânea, há um vídeo particularmente asqueroso a correr na internet, concorrendo ambos, por caminhos aparentemente opostos, para o descrédito das artes. Um impasse que é urgente e necessário ultrapassar rapidamente.

(publicado em Abril Abril 24/09/2016)

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7 thoughts on “As Artes num Impasse

  1. dilia fraguito samarth diz:

    Muito obrigada por nos ter permitido ler um texto que nos ajudou a compreender e reflectir sobre certos aspectos relativos à arte.
    Por outro lado, levou-nos a pensar sobre a importância/urgência da inclusão das disciplinas artísticas nas instituições educativas. É sabido que o exercício da arte leva o individuo a “aprender a pensar” e esta questão do nosso ponto de vista,constitui uma necessidade intrínseca da nossa condição humana, pelo que o ser humano desenvolve diversos sentidos que são formadores da sua própria existência.A arte poderá ajudar a despertar em nós, a capacidade humana de indignação.

  2. Concordo praticamente com tudo o que M. A. Araújo expõe e sublinho a clareza com que o faz. As divergências que possa ter são de pormenor e passam, em grande parte, pelo conteúdo do último parágrafo do comentário de Pedro Mota, que sublinha a necessidade de joeirar a areão em que se perdem algumas raras pérolas. A minha divergência mais significativa deste comentário reside na quantificação da farsa artística: para mim, não é “muita”, mas a “grande maioria” da arte contemporânea que constitui uma farsa, metida à força na desvirtuada – e atafulhada – classificação de “arte conceptual” (eventualmente, no que teria de mais promissor, falecida com o seu próprio criador, Duchamp) e sustentada pelo vazio intelectual da tal pequena burguesia que passou a viver (literalmente…) de proclamar a pertença a um reduzidíssimo número dos iluminados que “entende” e esforçadamente “explica” o que a plebe é incapaz de compreender: a validade artística da maioria dos últimos Prémios Turner é terrificante, as “justificações” dos júris absolutamente alucinadas. Essa pequena burguesia do “intelecto desatinado” (não se trata de hermetismo, que é outra coisa, com sustentação histórico-cultural) é alimentada, precisamente, pela incultura, temerosa de se expor na discordância, das classes consumidoras da farsa, incluindo a fatia da classe dominante que ainda se preocupa com adicionar estes ornamentos à também referida imagem do seu “status”. A última Bienal de Veneza que visitei foi a de 1999 e, de facto, estava a abarrotar de ideiazinhas oportunistas, entre as quais vídeos da mais absoluta inanidade (aqui, excluía apenas, a muitas milhas de altura do resto, a Pipilotti Rist, em que tudo é significativo, pensado e interventor – opinião pessoal, claro). Já voltei várias vezes à cidade-peixe, que eu e a minha mulher adoramos, apesar das enxurradas de turistas de excursão. Não porque integremos as tais classes mais abastadas, mas porque as poupanças iam chegando (antes da “crise”) e temos amigos naquela zona. Algumas vezes coincidimos com a Bienal, mas nunca mais a percorremos extensamente, ficando-nos por cautelosas visitas a locais e autores criteriosamente escolhidos: com a idade, estamos a ficar com tempo escasso para perder com patetices emproadas. E a Bienal vai espelhando o estado das artes descrito por M. A. Araújo. Talvez não seja a primeira vez na História, mas é a primeira vez que a tolice impante cavalga meios de divulgação tão poderosos. E falta a tal coragem intelectual, social e, até, cívica para desmascarar as vacas em fatias fininhas dos “hirsts” que por aí pululam (às tantas, apesar de tudo, autênticos “génios”, comparados com o que suspeito, por triste experiência própria, que o autor do artigo apanhou me Serralves). Enfim, parece que há alguns sinais, ainda que dispersos, de a situação estar a mudar…

  3. Pedro Mota, eu sou artista/poeta e não me considero nem um bocadinho superior, embora não compreenda lá muito bem em relação a quem os artistas se poderiam, ou deveriam, sentir superiores…

    Tentarei voltar amanhã a esta publicação. Hoje confesso que estou com exactamente dezoito horas de trabalho ininterrupto a toldar-me as ideias…

  4. Pedro Mota diz:

    Concordo que muita da arte é uma farsa, que muitos dos artistas actuais não sabem da sua arte (é triste, diga-se de passagem, que no teatro se comece a amplificar a voz, fazendo que não se possa saber da qualidade do actor), arte que para muitos é incompreensível, não por codificar qualquer valor demasiado complexo mas por consistir numa desconstrução de qualquer sentido, representando com isso, todavia, e isso é sintomático e importante, em termos de sociologia da arte, a desilusão para com qualquer projecto humano e expressando o niilismo instalado, desaparecidas, para as massas alienadas, assim como para os artistas (ó artistas, então não sois superiores?!) todas as grandes “narrativas”. Para menos gente, eu incluído, nada na quase totalidade da arte actual me estimula. Há uma obsolescência do futuro, a expectativa de que o que vai ser apresentado a seguir é ainda mais vazio e que só aparentemente é profundo. No entanto, como em todas as épocas, é preciso joeirar e guardar algumas pérolas escondidas em certas realizações enigmáticas e difíceis.

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