Artes, Álvaro Lapa, Bocage, Casa das Artes de Tavira, Cultura, Daniel Pires, David Evans, Geral, Joaquim Bravo, José Delgado Martins, Manuel João Vieira, Valter Vinagre, Vincent Baldassano

Bocage Malcriado

Bocage Cartas de Alzira a Olinda

Cartas de Olinda a Alzira (2016), Gouache e tinta da china sobre papel, 56x88Enter a caption

 

A Casa das Artes de Tavira, neste ano de 2016, com uma exposição Reencontro: Baldassano, Lapa, Bravo, que esteve para acontecer nos anos 70 e que não sucedeu pela vertigem do pós-25 de Abril em que, logicamente, as prioridades eram outras. Três pintores encontram-se no Algarve, em Lagos. Ano 1972, dois artistas portugueses, Álvaro Lapa e Joaquim Bravo, estavam por lá estacionados, o terceiro, o norte-americano Vincent Baldassano, foi lá parar em ano sabático. Firmaram sólida amizade e projectaram realizar exposição conjunta na Galeria Judith da Cruz. Os ventos da Revolução adiaram o projecto. O tempo corre contra esse propósito. Baldassano regressa aos EUA abandonando uma série de telas na galeria. Álvaro Lapa e Joaquim Bravo morrem. A galeria Judith da Cruz extingue-se. O que se tinha tornado improvável, mesmo impossível, acontece mais de quarenta anos depois na Casa das Artes de Tavira por iniciativa e empenho de José Delgado Martins e David Evans. Recuperam-se as telas esquecidas de Baldassano. Contacta-se o pintor e as famílias de Lapa e Bravo.

Fica decidido que Baldassano vem a Tavira, à Casa das Artes, e que se irá organizar a exposição condenada a nunca acontecer. Não é a mesma. É outra, mas tem o mesmo fulgor criativo, celebra a amizade entre os três artistas. É um acontecimento no nosso mundo artístico não tão celebrado nem apoiado como deveria ser. Malhas com que se tece o nosso anémico mundo artístico.

Depois desta exposição, outras duas vão ser inauguradas, no próximo sábado dia 6. Uma de fotografias de Valter Vinagre, Sob o signo da Lua, é uma viagem entre o real e a ficção, sublinhada pelo uso da luz natural e o da luz artificial, utilizando a câmara fotográfica como o instrumento de registo narrativo da estória que o fotográfo conta. Fotografias belíssimas, a quase normalidade de Valter Vinagre.

A outra, Bocage Malcriado, desenhos de Manuel João Vieira, executados com maestria pelo artista que, na inauguração, serão ilustrados por fados com poemas eróticos e burlescos de Bocage cantados por Manuel João Vieira no que será acompanhado pelo actor Victor Ribeiro que irá recitar uma selecção desse grupo de poemas nas versões fixadas literariamente por Daniel Pires. Uma noite que se advinha ser um escandaloso sucesso.

Transcrevo o texto que escrevi para o catálogo.

 

BOCAGE MALCRIADO

 

Manuel João Vieira marca encontro com Bocage. Com certo Bocage porque Bocage não é um todo. Incapaz de assistir num só terreno espalha o seu talento por muitos campos mais dado aos amores devoto incensador de mil deidades que à filosofia, que só surgiria bastante mais tarde na sua poesia. Deidades que se sucedem quase vertiginosamente, algumas retratadas em versos desbragados que, em venerável e bem temperada oitava rima, gabam ou verberam o apetite ou mesmo a fúria sexual de algumas Vénus. Aquelas que derrotam homens ou os fazem pedir tréguas.

São as Poesias Malcriadas de Bocage, satírico, ciumento mesmo maldizente, vaza em poemas de excelente confecção que se popularizaram nos cafés de Lisboa, construindo uma aura que o tornam num mito perdurável. O poeta bem avisa que é um fingidor E, se entre versos mil de sentimento, /Encontrares alguns, cuja aparência/Indique festival contentamento//crede, ó mortais, que foram com violência, /Escritos pela mão do fingimento, /Cantados pela voz da dependência. Muito antes de Pessoa, Bocage o fingidor não finge ser quem não é, não se multiplica em heterónimos. Escreve sempre versos bocageanos que assombram pelo fulgor mesmo quando caricatura, satiriza é malcriado. Mas se Bocage não se desdobra, outros o desdobram criando uma lenda à medida do poeta, mestre no improviso. No tumultuoso desaguar do seu estro de alta estirpe acrescentam canhestras rimas que lhe atribuem com proveito e sem vergonha a que acrescentam anedotas, ditos, sucessos, etc. Um carnaval pícaro que tem vindo a ser limpo por vezes com algum excesso puritano.

Sobre esse tumulto Manuel João Vieira desenha. Lê Bocage com os Irmãos Catita, os Ena Pá 2000, os Corações de Atum em música de fundo, em linha com um Bocage que existiu e outro que se calhar nunca existiu, mas podia ter existido. Por lá vão ficando fixadas no papel as Nises porque Todas no mundo dão a sua greta/Não fiques pois, ó Nise, duvidosa/ Que isto de virgo e honra é tudo peta. Não são petas os desenhos, uma elegia ao Bocage que nega as sanções metafísicas que a licenciosidade deveria sofrer se não estivesse liberta da pavorosa ilusão da eternidade, para o amor não ficar preso a ilusórias amarras, não sofrer castigos, viver com intensidade que as horas de prazer voam ligeiras.

Bocage o Tumulo do Poeta

O Túmulo do Poeta (2016), Gouache e tinta da china sobre papel, 51×62

Anúncios
Standard

One thought on “Bocage Malcriado

Comente aqui. Os comentários são moderados por opção dos editores do blogue.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s