"Star-System", Artes, Costumes, Cultura, David Bowie, Geral, Gianni vattimo, Indústrias Cultyrais e Criativas, Kundera, PASOLINI

Um mundo sobrepovoado de génios

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Este ano, as mortes de David Bowie e Prince inundaram os media e as redes sociais de textos laudatórios do trabalho desses dois cantores fazendo suspender o tempo para dar espaço ao cortejo de homenagens. Rapidamente ascenderam ao Olimpo dos génios, ao Panteão dos imortais. Poderia, deveria assombrar a facilidade com que se catapultam artistas mesmo daquele gabarito, mais Bowie que Prince o que para o caso pouco interessa, para um excessivo, um adjectivo suave, endeusamento. Começam a escassear os bons artistas, agora só deuses, génios, não por acaso todos ou quase todos da galáxia anglo-saxónica. É a economia do sistema das estrelas que invadiu todas as áreas da cultura, das chamadas indústrias culturais e criativas. Cinema, pintura, teatro, música, literatura, artes performativas, mas também outras como o desporto, a cozinha, a moda, etc., foram tomadas de assalto pelas super-estrelas. Uma marca das sociedades no nosso tempo.  Um fenómeno que merece alguma reflexão.

A questão nuclear é que no mundo globalizado, os mercados das indústrias culturais e criativas fabricam produtos a ritmos acelerados com a manufactura de pseudo-acontecimentos alinhados pelos mecanismos publicitários em que a afirmação enfática da marca é bastante para nomear uma realidade incomparável. Onde a procura de originalidade se transforma na confissão parcial de não-originalidade, mascarada pela erupção constante de novidades que, invariavelmente, acabam por se revelar requentadas.

A urgência de amortizar os custos, materiais e imateriais, da criação de estrelas e super-estrelas não dá espaço nem tempo para uma verdadeira inovação. Nem isso interessa quando o foco está no sucesso do sobe e desce dos top-ten e seus reflexos na cotação dos mercados. Sucessos anunciados no bater dos tambores de uma comunicação social estipendiada que se repercute nas redes sociais cercando e anulando mesmo as vozes críticas mais lúcidas. Aliás, essas desmistificações, por mais sérias e credenciadas que sejam, são sistematicamente remetidas para nichos onde se espera fiquem sepultadas. Raramente ultrapassam os muros que defendem a rede de interesses económicos que domina o mercado e impõe, com arrogância ou manhosamente, os seus ditames tecendo um cintilante e artificial mundo das estrelas e super-estrelas que sobrepovoam o universo de génios construídos com as estruturas aramadas de grandes campanhas promocionais. Vale tudo desde a invenção de qualidades em produtos sem qualidades ou de qualidade duvidosa à exploração dos aspectos da vida intima, de preferência sórdidos. É a cultura burguesa no seu máximo esplendor. A sublime inutilidade em que, nos melhores dos casos mas não por acaso, mesmo quando há algum interesse estético ou algum interesse artístico se cumpre o destino histórico dos formalismos que termina sempre na utilização publicitária do trabalho sobre a forma.

O extenso noticiário apologético provocado pelas mortes de David Bowie e Prince é bem esclarecedor do estado actual da arte. A par de um até pacóvio embasbacamento com a sua obra, sublinhava-se o seu tom por vezes  provocatório em relação a uma sociedade, procurando assombrar uma burguesia entediada com o seu próprio tédio, uma burguesia insusceptível de se escandalizar num mundo inenarrável por demasiado ligeiro, demasiado absurdo, onde nada se repete porque é meramente casual onde, dirá Kundera, “tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido”.

Tudo isso faz parte do imaginário do pensamento dominante de um mundo de conformismo cúmplice com as piores baixezas. Um mundo em que o sentir pós-moderno parece ter ficado paralisado pela discrepância entre um conhecimento lúcido e penetrante e uma imoralidade deliberada, sem freio e sem pudor.

Gianni Vattimo sublinha a importância de um processo de desmistificação, de desmascaramento do desmascaramento “das exigências de uma sociedade que não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e as ciências humanas. Que tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em funcionários do sistema produtivo (…) fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja da sua dependência directa dos imperativos económicos.”

Uma situação grave e complexa que configura a actual vitória ideológica da direita que é necessário combater em todos os terrenos. Um deles entrar por esse panteão de génios de pacotilha e, com a vergasta do Jesus no Evangelho Segundo S. Mateus de Pasolini, correr com os vendilhões do templo.

 

in Jornal A Voz do Operário,

n.º 3034, pág. 15, Junho 2016, Lisboa.

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4 thoughts on “Um mundo sobrepovoado de génios

  1. José Luis Porfírio diz:

    E na escrita? Alguns ainda cá andam e são portugueses, e vendem que se fartam e já dão palpites políticos como o inefável J R dos Santos…e nem se pode dizer Pai perdoai-lhes porque eles sabem muito bem o que fazem.
    J L P

    • Manuel Augusto Araujo diz:

      Meu caro José Luís Porfírio. Tem toda a razão. Já aqui escrevi sobre essa avantesma com pretensões literárias e outrasa que não cabem na noz de massa cinzenta encerrada em espessa caixa óssea.Viu o Expresso da semana passada? dão-lhe uma página para copmtinuar a plantar os dislates. Não é incente e por não ser inocente escrevi não aqui mas no FB. Já agora fica também registado no blogue.
      LIXO NÃO RECICLÁVEL
      O Expresso oferece uma página a um tal José Rodrigues dos Santos personagem patética no universo literário de pacotilha. O resultado é dar mais publicidade à mediocridade, ao lixo literário. Se o Expresso fosse um jornal que reclamasse no seu estatuto editorial ser de cariz humorístico, percebia-se tão generosa dádiva. Não sendo, pretendendo ser de referência, seja lá o que isso for, esse óbolo tem um objectivo, contribuir para o peditório do pensamento de direita que tende a fazer conciliar o inconciliável, comunismo e fascismo, na caixa esmolar dos totalitarismos. É um caminho perseguido há longos anos por historiadores e pensadores estrénuos defensores da ditadura da burguesia. Exemplares do pensamento único, totalitários esquecidos ou desconhecedores de Georges Orwell “para sermos corrompidos pelo totalitarismo, não temos de viver num país totalitário”. Nada de novo na frente ocidental neste nosso Portugalito, o Portugal dessa gente que substituí mentalmente na bandeira nacional o brasão pelo Galo de Barcelos. À boleia de umas tantas parvoidades ditas com a empáfia da ignorância do citado escrevente nas tarefas de auto-promoção, saltaram para a arena vários opinantes que, de caras ou de cernelha, lhe sustentam os arrazoados na tentativa contumaz de controlar o passado porque “quem controla o passado dirige o futuro. Quem dirige o futuro conquista o passado”. (Georges Orwell).
      Isso explica o que por aí se tem lido em defesa das “teses” desse depauperado escriturário das letras e o ofertório de uma página de publicidade não paga no Expresso, em que escorcha a história sem que nenhum vício lógico o trave. Discuti-las? Seria dar algum aval à alarvidade mental. Parafraseando Gertrudes Stein: um idiota, é um idiota, é um idiota

  2. F. Crabtree diz:

    Bowie e Prince…Idem idem aspas aspas. O fato de D.B. e uma beleza de design. Nao sei se seria muito pratico em palco mas… A expulsar os vendilhoes do templo podes alternar o filme de Pasolini com musica de Bach: Envagelhos nao faltam Segundo S. Mateus, S. Joao etc, etc. Boa Musica sempre…

    Bom fim de semana alargado

    Saudades

    F. Crabtree

  3. Jose sanches ramos diz:

    Que repousem em paz. Mas de facto esta encenação de criação de aura nos dois casos citados, Bowie e Prince surpreenderam-me. Nunca me excitaram, então o Prince era um verdadeiro enjoo. Mas o espectáculo, business must go on.

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